segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O exemplo de Mao e o Mao exemplo


Regressaram hoje às bancas os jornais em língua portuguesa de Macau, e das leituras de hoje destaco o suplemento "h" do Hoje Macau, antes publicado às sextas mas inseridos nas edições diárias durante toda a semana no actual formato. O prato forte foi o 120º aniversário do nascimento de Mao Zedong, fundador da RP China, comemorado no dia 26 de Dezembro. Mao Zedong: revolucionário, tirano e santo, de Carlos Morais José, Significado histórico da figura de Mao Zedong, de Pedro Baptista, e O homem por detrás do retrato de Mao, de Maria João Belchior, são os artigos com que o jornal assinala a efeméride, e que recomendo a leitura. No primeiro o director do Hoje faz uma análise do papel de Mao na "formatação", chamemos-lhe assim, da China actual, ao mesmo tempo que desenha o perfil de um homem que foi capaz do melhor e do pior. Tal como CMJ, sou um curioso da figura de Mao, e dos factos históricos que marcaram os três grandes períodos distintos do maoísmo: revolução ascenção e estado de graça; fracasso dos planos quinquenais, ruína e saneamento; retoma e consolidação do poder, Revolução Cultural, e morte. A diferença é que de tudo o que me foi dado a ver, ler e saber sobre Mao não me permite colocá-lo no mesmo pedestal que CMJ.

Primeiro gostava de referir uma imprecisão do Carlos logo no início do artigo, quando refere que Mao viveu "apenas" 73 anos, quando na verdade viveu 83. Quem sabe se tivesse vivido menos 10 anos teria sido tudo muito diferente, e a Revolução Cultural tivesse terminado mais cedo, evitando-se assim alguns dos equívocos a que esse triste episódio da história recente da China produziu. Posto isto fala-se da dupla personalidade de Mao. De um lado o homem inteligente e culto, o escritor, o poeta, o pensador e o estratega militar feito revolucionário, que durante a maior parte da vida lutou pela autonomia e afirmação do seu país e do seu povo. Do outro lado o ditador, o tirano, o Mao autoritário que sacrificou o mesmo povo que havia ajudado a levantar da opressão e da humilhação. Isto é mais uma vez a questão do copo meio cheio ou do copo meio vazio (tenho usado muito esta expressão ultimamente): Mao foi um tirano MAS foi também um brilhante estratega e revolucionário com méritos conhecidos, ou foi o responsável pela unificação e restauração da dignidade do país do meio MAS o também o idealista de inúmeras atrocidades que levaram à morte milhões de chineses?

O maior mérito de Mao foi ao mesmo tempo o seu maior erro. Mao queria o bem da China, queria o fim do mal e dos vícios que iam adiando o país com que todos os chineses sonhavam, combateu os japoneses, os nacionalistas, os imperialistas, levou todos os inimigos à sua frente persuadindo a massa camponesa a apoiá-lo, unificiou finalmente a China e os chineses, restaurou o orgulho e chegou ao poder. O problema foi a partir do momento em que se encontra na posição de líder, advinda da autoria dos feitos atrás referidos. Mao podia ser um brilhante pensador, estratega e todo o resto, mas não era um político. Concretizados os seus objectivos, seria a altura de procurar as pessoas certas para levar a cabo as reformas estruturais que o país precisava. Quem sabe incentivar o regresso de alguns "cérebros" da já então diaspora chinesa espalhada pelo mundo. Mas em vez disso Mao fez questão de segurar esse poder a todo o custo. Imaginem só que Salgueiro Maia liderava o movimento dos Capitães de Abril e resolvia apegar-se ao poder - e Salgueiro Maia era um anjinho, comparado com Mao. Mesmo "Che" Guevara, parceiro de Fidel Castro na revolução socialista cubana recusou o doce veneno do poder, e nem se demorou muito no cargo de "attaché" diplomático com que o recompensaram pelo seu esforço. Mao ousou ser diferente.

As razões que levaram Mao a fixar-se no poder só ele próprio deveria conhecer. Tanto CMJ como outras opiniões que tenho escutado dão-lhe o benefício da dúvida. Depois de séculos de instabilidade e conflitos que fizeram da China uma manta de retalhos, teria alguém feito melhor? Será que outro ou outros no lugar de Mao e a sua regência férrea a totalitária conseguiriam manter o difícil equilíbrio entre as imensas e díspares sensibilidades do mais populoso e um dos maiores países do mundo? Teriam Chang Ka-Chek e os nacionalistas feito melhor? Seria possível o iníciode uma nova ordem sem o apoio da URSS e de Estaline, que viria a ser considerado essencial? Seria possível unificar o país sob outra ideologia que não a socialista, ou sem os princípios do marxismo-leninismo que determinavam um aparelho de estado com o controlo total de todos os aspectos da política e da sociedade? Possivelmente não. Já ouvi dizer que alguns dos excessos cometidos por Mao tinham como finalidade realizar uma "limpeza" interna essencial, e sem a qual seria impossível a consolidação da unidade do país. Pode ser que seja assim, mas isso não iliba Mao de nada do que se viria a passer entre 1950 e 1976, altura do seu desaparecimento.

Mao começou por encetar dois planos quinquenais que viriam a resultar num rotundo fracasso. O segundo deles, que viria a ser conhecido por "Grande Salto em Frente", que visava a rápida industrialização do país em deterimento da produção agrícola levou a uma fome que resultou em dezenas de milhões de mortes. E o que fez Mao? Admitiu o erro? Não, passou à ofensiva e levou a cabo uma série de purgas e de perseguições aos seus críticos. Quando se viu desapoiado no interior do PC chinês, afastado do poder por Liu Shaoqi e Deng Xiaoping e remetido a uma posição simbólica, engendrou um plano para reassumir o controlo do partido e do país, e deu início a uma subversão total dos valores que seria a Revolução Cultural. Aproveitando-se do seu estatuto e da sua imagem, desenvolveu um culto da personalidade, contando para isso com o profundo atraso social de que o país ainda sofria, onde o analfabetismo e a pobreza eram ainda endémicas. O que tinham os pobres a ganhar com a estabilidade? O que tinham a perder com a anarquia e o caos? Sim, Mao era um brilhante estratega para o melhor e para o pior, e foi na Revolução Cultural que soltou o seu lado de Mr. Hyde.

A Revolução Cultural foi possivelmente o episódio mais surrealista da história mundial contemporânea. Quanto mais se sabe dos factos que marcaram esses dez loucos anos em que a China esteve completamente em "hold", fechada para o mundo como uma tartaruga dentro de uma carapaça, mais custa a crer que tudo aconteceu no planeta Terra, e há menos de 50 anos, em pleno século XX. E sim, eram homens modernos, e não neandertáis, que a levaram a cabo. Existe uma tendência, aliás referida pelo próprio CMJ, de atribuir as culpas dos excessos da Revolução Cultural à mulher de Mao, Jiang Qing, e ao seu Bando dos Quatro. Não nego que esta foi uma canalha criminosa da pior espécie, mas sempre com a benção do próprio Mao. Prova disso é que só viriam a pagar pelos seus crimes após a morte do grande timoneiro. Este era um dos tentáculos desse polvo que foi o Mao dos últimos anos; outros foram os guardas vermelhos, e o próprio livro de bolso que estes ostentavam (será que alguma vez o leram realmente, ou entenderam o que lá estava escrito?), que é da autoria de...sim, do próprio Mao. A Revolução Cultural é uma criação de Mao, e dizer o contrário é branquear os factos.

Tanto os guardas vermelhos como o próprio Mao teriam a consciência de que a Revolução Cultural tinha ido longe demais, mas terminar com ela era desvalidar o seu propósito. Foi uma medida radical entregar o controlo total aos camponeses e ao proletariado, mas mais radical seria retirar-lhes esse poder. O mal estava feito, e nem a operação de charme que foi a aproximação à América de Nixon surtiu algum efeito. Curioso como os chineses estavam tão absortos nos seus excessos que nem tiveram consciência de que o seu mentor se estava a sentar à mesa com o inimigo, que ele lhes havia ensinado a odiar acima de todo o resto. Os efeitos destes dez anos de loucura total ainda hoje se fazem sentir na China. A Revolução Cultural acabou quando Mao acabou, e a partir daí passou a ser legítimo virar a página e procurar outro rumo para o país. Atrevo-me mesmo a assumir que fosse Mao ainda vivo, e a China estaria ainda na Revolução Cultural. Em que moldes é que não sei, mas o último contributo de Mao e aquele com que ficou associado foi este, para seu mal nas contas da história. Ironicamente foi Deng Xiaoping, que havia sido afastado por Mao, a levar a China no caminho da abertura económica. Como seria hoje se não tivesse sido impedido de o fazer mais de uma década antes?

O actual estatuto de Mao na vida da China dos dias de hoje é o de referência, de exemplo. Como o Carlos referiu muito bem (isto revela conhecimentos sobre a mentalidade chinesa) é um "santo", ou seja, um personagem que ficou célebre não por milagres ou pela sua caridade ou bonomia, mas por feitos heróicos. Se olharmos para muitos dos santos dos altares chineses, alguns eram generais cruéis, facínoras, mal-encarados com cara de poucos amigos e armados de lanças. Um herói não é necessariamente um homem bom; o nosso D. Afonso Henriques era uma verdadeira trituradora, uma máquina de guerra, cujo único ponto na agenda todos os dias era "matar", e temo-lo em muito boa conta, como "pai da nação". O retrato de Mao está na parede da casa de muitas famílias chinesas da mesma forma que o crucifixo está na parede da casa dos católicos. E perdoem-me que estabeleça este paralelo, mas a tendência para se olhar para o lado bom destes dois casos sobrepõe-se à necessidade de fazer uma análise crítica dos erros. Tanto Deus como Mao surgem como a imagem do bem, e nunca referidos pelo seu lado menos positivo.

A actual geração de líderes da RP China, assim como as anteriores que se seguiram a Mao, nunca deixaram cair o grande timoneiro, nem procederam à desmaosização do país, da mesma forma que a URSS procedeu à destalinização - e olhem para o que aconteceu com a URSS. É um grande progresso poder dizer que Mao "não era um Deus", ou que "não estava 100% correcto", pois o culto da personalidade que enraízou nos chineses nunca o fariam ser esquecido tão facilmente. As vítimas da Revolução Cultural, muitas ainda vivas e com uma lembrança vívida daquele período de terror, quedam caladas e mudas, enquanto que a ignorância dos restantes sobre os factos, muitos deles relatados em detalhado promenor por desertores que conseguiram fugir do país e em alguns casos tiveram contacto com Mao (como seu medico pessoal, por exemplo) levam-nos a olhar para ele como "um exemplo". E é isso que interessa à actual nomenclatura do partido único: Mao é um exemplo, olhem para o exemplo, e não façam muitas perguntas. Afinal a unidade desse país que é a China, que ainda tem os seus pontos onde existem areias movediças, assenta na figura de Mao. E quem se atreve a mexer na trave-mestra sem medo que a casa vá abaixo?

1 comentário:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Leocardamigo

Já lá vão uns anos, perguntei ao "camarada" Huang Hua, em Beijing, qual tinha sido a faceta mais importante de Mao Zedong. O antigo todo poderoso ministro dos Negócios Estangeiros da RPC, era então um dos vice-presidentes da Assembleia Popular Nacional.

Hua respondeu-me muito rapidamente: a sua teimosia. Franzi o cenho. Ele perguntou-me em inglês o motivo da minha admiração. Disse-lho. E com uma gargalhada e de dedo em riste para o intérprete: o que eu disse foi determinação!...

E, ponto final no tema. Parágrafo; passámos a outro: a movimentação estudantil. Estávamos no início de 1989. Daí a uns meses verificar-se-ia o massacre da Praça Tiananmen. Também Huang Hua sorriu: "nós sabemos como lidar com os estudantes. Mao ensinou-nos..."

Abç

... e uma palavrinha sobre as Bodas de Oiro cá do rapaz?... Vem (quase) tudo na Travessa.

... e um pedido: envia-me o teu imeile, sff.