
Fui hoje para Hong Kong tratar dos vistos para as férias e aproveitei para fazer umas compras. Uma das coisas que continua a fascinar em Hong Kong é a variedade de restaurantes, o que torna a questão de "onde almoçar" uma decisão bastante difícil. São restaurantes turcos, russos, espanhóis, gregos, escandinavos, africanos, um pouco de tudo. Em Macau a questão muda para "como não almoçar no mesmo sítio todos os dias".
A única forma de sobreveviver no mundo da restauração em Macau é abrindo uma loja de sopa de fitas, ou
min. Sim, já existem centenas, praticamente uma a cada esquina, mas é a única forma de garantir algum sucesso. Isto porque a população, na sua esmagadora maioria chinesa, prefere sempre um
min, a qualquer hora do dia. Escolher entre um kebab e um min? Um
min. Comida portuguesa? Cara. Vai um
min. E que tal irmos hoje ao tailandês? Não, vamos antes comer um
min. São expressões que se ouvem um pouco por toda a parte, com toda a certeza.
Não tenho nada contra o
min, mas sinceramente deixa muito pouco à imaginação. A maioria das lojas que vendem e servem
min operam em condições de higiene bastante duvidosas, e o melhor é mesmo não falar dos conteúdos de gordura saturada, ou da forma como a mesma panela cozinha centenas de
min diariamente sem nunca ser lavada. Podia falar também daquele papel tipo vegetal ou das caixas de esferovite onde são acomodados os
min que se levam para casa ou para o escritório. Mas não. Não tenho nada contra o
min.
O problema deve estar relacionado com o próprio gosto. Depois de nascer, crescer, viver e morrer a comer
min, é difícil convencer a malta a gostar de outra coisa. Já do outro lado, em HK, existem muitos mais expatriados e os próprios honconguenses estão mais abertos a novas experiências. Um restaurante paquistanês em Tsim Sha Tsui consegue sobreviver apenas com clientes paquistaneses, e se for mesmo bom, ainda pode ter um lucro astronómico. O restaurante russo onde escolhi almoçar estava cheio de expatriados, turistas, chineses, tinha música ao vivo e muita animação. E isto à hora de almoço a uma segunda-feira. Uma alegria, que dá gosto ver.
Um dos problemas em Macau é a quantidade de chico-espertos que abre restaurantes disto e daquilo sem qualquer formação no ramo da hotelaria ou sem qualquer experiência. Parece fácil e lucrativo abrir um restaurante, ver a malta a entrar, comer e gostar, e contar as patacas ao fim do dia. Mas um restaurante dá mesmo muito trabalho. Todos conhecemos casos de estabelecimentos que não sobreviveram mais que um mês porque decidiram primar pela originalidade sem no entanto fazer a mínima ideia de como gerir um restaurante, ou em alguns casos sem saber cozinhar. Não se iluda. Se os seus três ou quatro familiares ou alguns dos seus amigos gostam da comida que você faz, isso não faz de si um cozinheiro habilitado.
Depois há o problema da localização. Para abrir um restaurante chinês ou uma das tais lojas de
min, qualquer sítio serve. Para um restaurante português, existe o centro de Macau e a ilha da Taipa, onde já deve residir a maior parte da comunidade. Para um negócio "exótico", o melhor é pensar bem onde estão as bocas que podem justificar a sua existência. Os restaurantes japoneses e a "fast-food" safam-se bem em qualquer sítio, mas um restaurante filipino fica melhor onde existem muitos filipinos (Rua dos Cules) e um restaurante tailandês tem mais possibilidades de vingar na área junto à famosa "rua dos tailandeses" (também conhecida por Rua Abreu Nunes). Qualquer outra ideia exótica (com excepção para os mexicanos, indianos e italianos, que são poucos) está condenada ao fracasso.
É estranho que em Macau a escolha de comida macaense seja tão limitada. Existe o Litoral, um restaurante de luxo, carote (mas muito bom, por sinal) e o Riquexó, um restaurante caseiro e cada vez mais degradado localizado na Av. Sidónio Pais, em frente ao Edifício Hoi Fu. É uma pena. Talvez a tal Confraria da Gastronomia Macaense devesse organizar mais eventos que dessem a conhecer a culinária tradicional macaense a preços acessíveis, ou que os seus responsáveis patrocinassem um restaurante novo, amplo e moderno a preço amigo, onde a malta fosse provar um porco balichão, um minchi à moda macaense ou um bom tacho nos dias de mais frio. Enquanto não se concretiza esta a outras ideias originais, fiquemos pelo
min.