sábado, 11 de janeiro de 2014

Os sons dos 80: Michael Jackson


Michael Jackson em 1988, quando estava aparentemente "tudo bem".

Se alguém se tem incomodado a seguir de perto esta rubrica que iniciei faz hoje uma semana, já deve estar a pensar: "anos 80? e o Michael Jackson?". Claro, é impossível falar da década de ouro da "pop" sem referir aquele que é quase unanimamente considerado o seu rei. Portanto falemos de Michael Jackson, e arrancamos assim uma possível unha encravada neste tópico. A carreira do "rei da pop" começa muito antes da década de 80, mais precisamente em 1964, quando ainda não tinha seis anos. Michael, o oitavo de dez filhos de um casal de operários negros do Indiana, começou a cantar ainda antes de saber ler, e actuava com os irmãos mais velhos no agrupamento de "soul-funk" Jackson 5, onde se começou logo a destacar pela alma que colocava nas canções e pela forma desinibida como dançava. Tinha nascido para ser estrela. Começou a carreira a solo aos 13 anos,em 1972, e logo nesse ano obteve o seu primeiro nº 1 no top norte-americano, o Billboard, com o tema "Ben", dedicado a um ursinho (?!). Só viria a repetir o feito já em 1979, com "Don't Stop 'Til You Get Enough" e "Rock with You", do seu quinto álbum de originais, "Off the Wall", considerado por muitos críticos o seu mais bem conseguido em termos musicais. Mas os anos 80 estavam à porta, e o jovem Michael tinha um futuro agridoce reservado para ele.


Em Novembro de 1982 Jackson regressa com "Thriller", o seu sexto disco de originais, que foi o início de uma ascensão vertiginosa no ascensor da fama. "Thriller" é ainda hoje o álbum com maior sucesso de sempre, com qualquer coisa como 65 milhões de cópias vendidas. A produção ficou na ordem dos 750 mil dólares, considerado uma extravagância para a altura, e o video de apresentação, também ele intitulado "Thriller", revolucionou o conceito de clip musical. Com um custo de meio milhão de dólares, o video original tem a duração de 14 minutos, foi realizado por John Landis e estreado em exclusivo na MTV, o que aconteceu pela primeira vez naquele canal dedicado à música popular. Á volta da canção, que tem menos de seis minutos de duração, há uma pequena história inspirada nos filmes de terror dos anos 50, envolvendo zombies, cemitérios e outros monstros, e com a narração de Vincent Price, um dos grandes nomes do cinema do fantástico. Fantástica foi também a reacção do grande público, que ficou de boca aberta com a extravagância. As novas gerações podem não achar isto nada de especial, mas garanto-vos amiguinhos, naquele tempo foi do caraças.


Nem só de "Thriller" se fez o disco com o mesmo nome. Os dois singles que foram respectivamente o quarto e quinto nº 1 do cantor no top da Billboard foram "Beat It" e este "Billie Jean", a meu ver o melhor tema de Michael Jackson. Um momento de inspiração que combina a melodia com os seus dotes vocais, um ritmo bastante dançavel que seria acompanhado de um clip muito bem coreografado. Outros temas incluídos no disco eram "Wanna Be Startin' Somethin'", "Human Nature" e ainda "The Girl is Mine", um dueto com Paul McCartney, que devolveria o convite a Jackson um ano depois com "Say, Say, Say", do seu álbum "Pipes of Peace". Depois do estrondoso sucesso de "Thriller", Michael Jackson tornou-se uma mega-estrela, e era o centro de todas as atenções, fazendo as delícias da imprensa tablóide. Falava-se das operações plásticas, do branqueamento da pele e da repulsa do cantor pelo facto de ser negro, de que dormia numa câmara de oxigénio e ambicionava viver até aos 110 anos - viria a viver menos de metade disso. Do que se sabia ao certo era que se mudou para uma mansão luxuosa, contraíu amizade com alguns famosos, como Liz Taylor ou Diana Ross, e adquiriu um macaquiho de estimação a quem chamou de Bubbles.


Nos anos seguintes teve uma agenda de concertos cheia, fez parte do projecto USA for Africa, com outros artistas, no single "We Are the World", e entrou no filme 3D (um dos primeiros) "Captain EO", realizado por Francis Ford Coppola, encomendado pela Disney e exibido nos seus parques de diversões entre 1986 e 1990. Em 1987 regressa com material original, e o single "I Just Can't Stop Loving You", lançado em Julho, anunciava o novo LP, que sairia em finais do mês seguinte. "Bad", assim se chamava a nova proposta de Jackson, não teve o mesmo sucesso de "Thriller", mas andou lá perto - consta da lista de 20 álbums mais vendidos de todos os tempos. O single do tema que dá nome ao disco foi realizado por Martin Scorsese e conta com a participação de Wesley Snipes, então apenas uma actor principiante. Outros temas que ficaram na memória foram "Dirty Diana", "The Way you Make me Feel", "Man in the mirror" ou "Smooth Criminal". Estes dois últimos, juntamente com "Speed Demon" e "Leave me Alone" seriam incluídos no filme "Moonwalker" no ano seguinte.


Entre a gravação dos vídeos e agenda preenchida com a "Bad tour", Michael Jackson ainda teve tempo de fazer "Moonwalker", uma longa-metragem auto-promocional com um enredo de um filme de fantasia, muito ao estilo de Jackson, e que foi inovador em alguns aspectos. Foi em "Moonwalker" que surgiu o famoso passo de dança com o mesmo nome, onde o cantor desliza sobre a ponta dos pés enquanto anda para trás, ao som do tema "Smooth Criminal". Com dois álbuns que venderam a rodos, concertos que levaram multidões ao delírio e uma legião de fãs nos quatro cantos do planeta, Michael Jackson era mais do que a maior estrela da música moderna: era também o modelo do jovem negro, originário de uma família pobre e numerosa, e que graças ao seu talento conquistou o mundo a pulso. Era mais importante e influente que políticos, académicos e generais, e ser visto ou fotografado a seu lado era um exclusivo de muito poucos. Os anos 80 foram os anos de Michael Jackson, e o que estava para vir veio a provar que talvez toda esta fama terá sido "muita areia para a camioneta" do artista.


Um conto de fadas, mas sem final feliz.

A década de 90 abre com o álbum "Dangerous", outro triunfo, com inúmeros singles de sucesso, vídeos caros e hiper-produzidos com meios técnicos espectaculares e vários artistas convidados. Foi nesta altura que começaram a sair rumores de eventuais abusos sexuais cometidos a crianças que o cantor convidava para o seu rancho privado/parque de diversões, a Neverland. Para disfarçar, casou com Lisa-Maria Presley, filha de Elvis, mas o matrimónio não durou muito tempo. Teve dois filhos de uma enfermeira através de inseminação artificial, e a sua vida privada permanecia um mistério insondável. No panorama artístico, as coisas não iam bem, com apenas dois álbums de originais, History (1995) e Invincible (2001), com vendas razoáveis mas longe dos tempos áureos, e circulavam rumores de que o cantor estaria falido. Foi em 2009, enquanto preparava o seu regresso, que Michael Jackson chocou o mundo pela última vez. Na noite de 25 de Junho de 2009 os paramédicos foram chamados à sua casa em Los Angeles, e encontraram o rei da pop já sem vida, aos 51 anos. Veio depois a saber-se que era fármaco-dependente há vários anos, e era habitual abusar da medicação. Michael Jackson, no seu pior, deve ter desejado que os anos 80 nunca tivessem fim.

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