sábado, 12 de abril de 2014

Fume, pela sua saúde


Chegamos ao fim de mais uma semana, um regresso à forma em matéria de postagens no blogue, que espero que se mantenha, apesar das razões que já aqui apresentei que justificam uma certa "letargia" criativa. Posto isto, espero que tenham gostado do artigo de quinta-feira do Hoje Macau, que como é hábito deixo aqui reproduzido, que considero um dos mais "inspirados" dos últimos meses. Para quem não entendeu ou para os pseudo-esclarecidos que só lêem os títulos, esta é uma peça semi-realista, e nunca em circunstância alguma defendo o tabagismo, ou considero os cigarros benéficos para qualquer outro efeito que não seja o do lucro da indústria tabaqueira, claro. Esclarecidos que estamos, resta-me desejar aos leitores a continuação de um excelente fim-de-semana, e espero que continuem a preferir o Bairro do Oriente, que sendo um blogue unipessoal vem obviamente com as oscilações próprias do seu uniautor. Um abraço deste lado do ecrã!

The sun’s not yellow – it’s chicken
Bob Dylan, Tombstone Blues

Se está a começar a ler este artigo no momento em que sai de casa, do emprego, do restaurante, da sauna ou de qualquer outro ambiente onde exista ar artificial, purificado e recirculado, pare! Agora inspire, com todas as suas forças. Isso mesmo, encha essas duas sanfonas a que chama de pulmões desse O2 de faz-de-conta. Muito bem. Agora espere. Resista à tentação de expirar, e depois inspirar. Não se iluda com essa conversa do “ar livre” que lhe impingiram. É falso. Aprenda a duvidar de tudo o que lhe ensinaram e dá como garantido. Foi enganado, lamento. Octanas o tanas. Mas nunca é tarde para se ter uma infância feliz; mantenha nos pulmões o ar que adquiriu gratuitamente no ambiente esterelizado e inócuo de onde acabou de sair. Por tudo o que é mais sagrado, pelas alminhas todas que há no céu, não se atreva a respirar. Está a ir muito bem, sim senhor. Olhe como lhe fica a matar o peito inchado, as bochechas insufladas, os olhos a sair das órbitas – devia-lhe tirar uma fotografia, para mais tarde recordar. Mas que ar aflito é esse? É tudo pela sua saúde, caro amigo ou amiga, conforme o caso. Pois, o melhor é não dizer nada. Nem um pio. Isso, vê como é fácil?
Por enquanto o melhor é não arriscar, não respirar o ar. O ar que nos oferecem é sujo, é nocivo, não presta. Basta pum basta! Morra o ar, morra! Pim! Este ar serve para tudo menos para se respirar, que é a única coisa para que ele serve. Sopra leve levemente, como quem chama por mim. Será chuva ácida? Será gente doente? Gente não é certamente e a chuva não polui assim. Fui ver. A cinza caía, com o ar insalubre do céu. Ah! Que me deu um enfisema. E uma bronquite crónica, Deus meu! Basta pum basta! O que foi amigo? Quer dizer alguma coisa? Está roxo…qualquer coisa que comeu? Beterraba, se calhar? Porque é que gesticula assim tanto com as mãos? Está com calor? Deixe-se de gemidos, e preserve esse arzinho que trouxe de lá do ambiente fechado de onde saíu, que é melhor que a brisa da montanha. Olhe que é para o seu bem, acredite.
E por falar em montanha, o nosso CE está atento. Sim, de Santa Sancha, do palácio altaneiro rodeado pelas frondosas matas da Penha, zela por nós, aqui, em Ká-Hó e em toda a parte, qual Odin do alto do Valhala olhando pelos seus guerreiros. “A poluição é um problema sério” – diz. “Na China também estão preocupados, e qualquer problema da China, é um problema nosso” – diz outra vez. “Mas na China a poluição é causada pelas indústrias pesadas, como a do carvão, por exemplo…” – atira um espertalhão qualquer lá atrás, com a mania que sabe tudo. “É preciso acabar com a indústria do carvão em Macau!” – ordena o chefe, determinado a deixar-nos finalmente respirar em paz. Seja feita a vossa vontade! Que acabem com essas malditas indústrias poluentes que envenenam o ar em Macau. Basta de carvão! Pim! Ó homem o que está a fazer aí deitado no chão a contorcer-se feito um maluco? Sabe a quantidade de ar nocivo que está a deixar agarrado à roupa? Quer levar isso para casa, é? E que urros de aflição são esses? Componha-se, homem de Deus. Querem ver…
É preciso voltar aos hábitos antigos, rejeitar tudo o que os nossos pais nos ensinaram, e copiar os nossos avós. Toca todos a fumar, e já, de preferência três maços por dia. Só assim conseguimos adquirir a imunidade necessária para sobreviver com este ar que se respira em Macau. Adaptem-se à nova realidade, ao mundo novo, ao “smog”. Morte aos higienistas, pum! O tabaco adverte que o Governo é prejudicial à saúde. Dorme bem? Faz exercício? Evita o álcool e as gorduras? Sim, sim e sim? Eu também…sou um grande mentiroso. E as vacinas estão em dia? Tétano, difteria, gripe, hepatite, não se irrite? Tudo em dia, é? E tem fumado? Não??? Olhe que com a saúde não se brinca! Vou-lhe passar uma receita, vinte unidades por dia, 8 mg de alcatrão cada, e isto é só para começar. Quando voltar para a próxima consulta quero vê-lo a acender cada cigarro com a ponta do último que acabou de fumar. E por falar nisso, tinha-me esquecido de si. Olhe que essa tez azulada e esses livores cadavéricos não auguram nada de bom. Andou a respirar o ar não foi? Pois é, não me deu ouvidos e agora fica aí a olhar para mim com esse ar funesto, sem pestanejar. Sabe o que é que pode fazer? Fume um cigarrinho, que vai ver que fica como novo. Pim!

1 comentário:

Paulo Oliveira disse...

Cada vez melhor!
Está-se a tornar um poeta!