segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os sons dos 80: Ofra Haza


Para mim é quase impossível falar de Ofra Haza sem me comover. A cantora que melhor representou a riquíssima música israelo-árabe teve um fim triste, pouco digno de uma diva como ela, a quem chegaram a chamar "a Madonna do Oriente". De origens humildes, com um talento inegável, e linda, lindíssima como era, arrebatou a Europa e o mundo em meados dos anos 80 cantando numa língua que poucos ou nenhuns fora da sua nativa Israel entendem, Ofra Haza era a beleza em pessoa, tanto pela sua voz de grande alcance, como pela sua presença. Ofra Haza combinou elementos da música tradicional iemenita e israelita, passando pela música de dança e pelo "synthpop", conseguindo manter-se sempre fiel às suas origens.


"Im nin'alu"
Nascida Bat-Sheva Ofra Haza no bairro pobre de Hatikva, em Tel-Aviv, corria o ano de 1957, era filha de um casal de judeus originários do Iémen. Aos 12 anos entrou numa troupe de teatro local, o Shechunat Hatikvat, e a sua voz de mezzo-soprano suave chamou a atenção do encenador Bezalel Aloni, que se ofereceu para a agenciar. Aos 19 anos era já uma estrela, com três álbums gravados, e em 1979, cumprido o serviço militar, dedicou-se exclusivamente a uma carreira a solo. Este vídeo é de uma versão daquele que viria a ser o seu maior êxito internacional, "Im nin'alu", um poema do Rabi Shalom Shabazi, datado do século XVII .


Em 1980 lança o álbum "Al Ahavot Shelanu", que a torna numa estrela em Israel, com o tema "K'mon Tipor" (sou como um pássaro) a tornar-se o seu primeiro grande êxito. No início as rádios recusavam-se a tocar muitos dos temas do disco, que continha letras consideradas "atrevidas", especialmente atendendo ao facto de que se tratava de "música tradicional". Só que a popularidade de Ofra Haza era tremenda, e depois dos álbums "Bo Nedaber" (1981) e "Pituyim" (1982) tornou-se também no seu maior sucesso de vendas.


Não surpreendeu portanto que em 1983 Ofra Haza tenha participado no Festival da Canção em Israel e vencido, com este "Chai", que significa "Estar vivo". Na Eurovisão, que realizou em Munique, na Alemanha, terminou em 2º lugar, apenas seis pontos atrás da representante do Luxemburgo, Corinne Hermes, com "Si la vie est cadeau". A interpretação de Ofra Haza e o próprio tema tiveram uma forte carga simbólica, pois na mesma cidade onde onze anos antes a delegação olímpica de Israel tinha sido vítima um atentado, a cantora foi dizer que o país "estava vivo".


Foi em 1988 que Ofra Haza obteve projecção internacional, e primeiramente com o single "Im nin'alu", o primeiro do seu álbum "Shaday". E o que tinha este "Im nin'alu" diferente do anterior, de 1978, e ainda de outra versão gravada em 1984? Além de um vídeo "das arábias" onde a artista aparece deslumbrante, uma mistura muito dançável, muito "pop", e que lhe valeu o nº 15 do top do Reino Unido, bem como o 1º lugar em muitos outros países da Europa, do próprio Eurocharts.


O álbum "Shaday" - cujo título causou polémica por ter um duplo sentido em hebreu, podendo significar "os meus peitos" (?) - contém ainda vários outros sucessos, como "Eshal", "Love Song", "Da'ale Da'ale" e este "Galbi", todos com uma mistura que os tornam aprazíveis, mesmo a quem não entenda uma única palavra de hebreu. Aproveitando esta internacionalização, sai em 1989 o álbum "Desert Wind", mais pensado para os fãs fora das fronteiras de Israel.


Durante os anos 90, Ofra Haza gravou mais três álbums de originais, com destaque para "Kyria", de 1992, que incluía uma colaboração com Iggy Pop, um álbum ao vivo, gravado durante a sua participação no Festival de Jazz de Montreux, e foi ainda cabeça-de-cartaz da banda sonora original do filme de animação "The Prince of Egypt". Em 1997 casou com o empresário Doron Ashkenazi, de quem não teve filhos. Em Fevereiro de 2000 Israel e o mundo ficaram chocados com a morte de Ofra Haza, vítima de pneumonia, que mais tarde se veio a saber ter sido provocada pela imuno-deficiência relativa à infecção com o vírus da SIDA. Ashkenazi, que era toxicodependente, viria a falecer de "overdose" de heroína em Abril do ano seguinte. Ofra Haza deixou-nos um enorme legado, de uma carreira de quase trinta anos, e vamos recordá-la neste tema "Yerushalayim Shel Zahav" (Jerusalém de Ouro), que a sua interpretação transformou como que num segundo hino de Israel.

2 comentários:

luciano mendes disse...

Faz muita falta.....

marcia regina baptista disse...

adorava a Ofra; ainda guardo com carinho o LP Shaday...