segunda-feira, 28 de julho de 2014

Provedor do leitor


Recebi de um leitor anónimo um comentário relativamente a um artigo que tem já mais de dois anos: A Tuxa Separou-se, de 3 de Abril de 2012, pouco depois do meu regresso do "lost weekend" que teve início em Agosto de 2011. A notícia diz respeito a uma bicha louca que à boleia da legalização das uniões civis entre as pessoas do mesmo sexo resolveu casar-se, e meses depois pediu o divórcio, alegando que o marido "já não era o mesmo", e que "lhe batia", mais precisamente "dando-lhe com as texanas na cara. Na altura apontei para o ridículo da situação, e para o facto do casamento "gay" ser propício a que situações desta natureza fossem cada vez mais comuns, e que não faltaria quem com sede de mediatismo se sujeitasse a cenas humilhantes como esta. Mas de volta ao comentário, este reza assim:

És um otário preconceituoso, lá porque estes atrasados mentais façam este circo não quer dizer que todos os gays levem por tabela, o facto deles se casarem afecta-te alguma coisa? vais ao casamento deles? Provavelmente nem te queriam lá. Deixa de ser quadrado e respeita as diferenças e principalmente os direitos "ditos" de todos. Sai do poço!

Em primeiro lugar obrigado pelo seu contributo, e admiro a frontalidade com que inicia o seu comentário, com um "otário preconceituoso" - retribuo a gentileza em dobro. Só é pena que a frontalidade fique por aí, e que mais à frente escreva "o facto deles de casarem" em vez "o facto de nós nos casarmos", e "vais ao casamento deles" em vez de "vais ao nosso casamento". Quer dizer, por uma questão de coerência podia ter-se mantido no papel de larilas indignado, pois a prática ensinou-me que as pessoas tolerantes aceitam quer a opinião de quem se opõe a algo fracturante como é isto do casamento "gay", como daqueles que a apoiam, independente da sua própria opinião. Mas adiante que se faz tarde.

Já fui contra ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, sim, admito, mas hoje coloco-me numa posição que tecnicamente se define por "nas tintas". Ao contrário dos que se opunham por questões de moral ou de ética, que estranhamente abandonaram a luta (o que se torna legal hoje pode-se muito bem ilegalizar outra vez amanhã), eu não tenho receio de Deus fique zangado ou que a Virgem Maria venha revelar um quarto segredo, que seria "deveis evitar a rabetice, e desafiar e elasticidade do orifício destinado à evacuação através da acção semelhante à de tentar guarnecer uma tripa de porco com um salpicão" - a virgem falava desta forma tão vernacular a ambígua aos pastorinhos, e estes, apesar de serem crianças que frequentavam o ensino primário (ou nenhum, de todo), entendiam. O que me aborrece é a própria instituição do casamento ser metida ao barulho nisto da causa da emancipação "gay".

Como dizia mais em cima, já fui mais contra a união civil entre homossexuais. É uma daquelas coisas que primeiro estranha-se, depois entranha-se, como a cola do Pessoa. Desde sempre que os homossexuais foram oprimidos, perseguidos, descriminados, sujeitos a humilhações, desde tortura, electro-choques e violações em grupo por parte de indivíduos que se dizem "heterossexuais", mas que perante estes "desnaturados", encontravam uma forma de arrebitar a alheira para lhes "ensinar uma lição" - pois, pois, a gente acredita. Os próprios criacionistas, aqueles que acreditam que o homem é feito do barro e a mulher de uma costela retirada do boneco de barro, têm entre eles defensores da teoria de que a verdadeira razão pela qual Caím matou Abel foi por este se ter recusado a fazer de carruagem da frente quando o primeiro queria brincar aos comboizinhos, e que quando Caím puxasse os caracóis loirinhos do irmão, ele gritaria "tui! tui!".

Mas depois de séculos de homossexuais queimados na fogueira, pregados na cruz, arremessados em valetas cheios até a cima de sémen alheio e lobotomizados ao ponto de lhes restar apenas um terço do córtex cerebral, eis que obtêm o devido reconhecimento. Em qualquer país minimamente civilizado são aceites pelos restantes, contando que não precisem de beber pelo mesmo lado do copo que eles, e as campanhas de saúde pública recomendam que "usem o preservativo", como se fazia no passado com os marinheiros sifilíticos, esses grandes badalhocos. Agora isto do casamento, para quê? Eu sempre pensei que os homossexuais se divertiam muito mais sem a nem sempre consensual vertente da monogamia imposta aos "hetero" pela instituição do casamento. Afinal também eles queriam ser tão miseráveis como nós. Tentámos avisá-los, levantando uma barreira que eles entenderam como preconceito, mas era apenas para poupá-los. Não entenderam, paciência.

O que esta instituição do casamento representa é, na prática, um "passe" para a badalhoquice e para a pouca vergonha. Até no Islão, que ninguém gosta de ver usado como exemplo, "tudo é permitido na santidade do casamento". Repare-se no uso das expressões "tudo é permitido" e "santidade" na mesma frase, uma contradição em termos. É uma licença para procriar, se quiserem. Uma mulher que goste muito de crianças e diga "quero ter filhos" é recebida pelos pais e outrros familiares com um "o quê???", mas se corrige para "quero casar e ter filhos" sente-se na sala o vendaval causado pelos suspiros de alívio. Uma mulher que queira ter bebés sem que isso implique precisar de aturar um gajo que deixa as meias no chão, cabelos no ralo da banheira, ressone e encha-a de beijocas de manhã com a boca a cheirar a retrete pública é tida com uma "devassa", uma "perdida", que anda aí pelas esquinas a esfregar-se nos homens até que um deles a engravide. Para os homens este preconceito funciona um pouco como a fava do bolo rei: - "se engravidou a menina, "tem que casar com ela?", diz o paladino da moral e dos bons costumes; - "mas porquê?", retorque o apreciador de uma boa queca, mas com reservas. Não existe uma resposta para esta pergunta, e fica à imaginação de cada um. O que eu penso? Sei lá...se não casarem o miúdo nasce sem orelhas?

Mas calma lá, que há aquela coisa do regime de bens, das partilhas, das heranças e de todas essas regalias que os casais têm, e que os homossexuais usaram como razão oficial para todo o aquele chinfrim. Ora essa, se é "protecção legal" que querem, podem sempre celebrar um contrato e depositá-lo num notário, ou comprar um seguro. E nem era isso que se lia nos cartazes durante as manifestações a favor do casamento "gay"; o que se lia era "eu amo quem eu quiser", e viam-se os tipos à beijocada cada vez que deparavam com uma câmara de televisão, mesmo que não lhes apetecesse por aí além. Quer dizer, estes tipos são na realidade muito corajosos, ou então o pináculo na evolução da espécie do "amante", que quer submeter o seu amor ao supremo teste do casamento - e eu que sempre pensei que a vantagem da "promiscuidade" de que tantas vezes acusam os casais homossexuais era nunca precisar de cair na rotina. Ter o poder de dormir com quem quiser sem precisar de dar satisfações a ninguém e exigir " os mesmos direitos" das pessoas casadas é como ser cidadão de Roma e exigir "os mesmos direitos" que os cristãos, e ser atirado aos leões no circo.

E isto leva-me à questão principal, o amor, ou "o direito de se amar quem quiser". Já nem falo da poligamia, que é permitida em alguns países por "razões culturais" (estão a ver como é fácil encontrar uma boa desculpa?), mas e o incesto? Porque podem dois homens ou duas mulheres casarem um com o outro mas o mesmo direito é negado a quem o queira fazer com a mãe/pai/filho/tia/prima? Não que eu esteja a defender o incesto, e apesar de invejar quem teve esse tipo de fantasia, nunca tive uma prima atraente, mas também nem toda a gente que defende o casamento "gay" é necessariamente homossexual, e o princípio subjacente é o mesmo: amam-se. Mas que horror, a consaguinidade pode levar ao nascimento de crianças com deficiências graves! E depois? A cossexualidade leva ao nascimento de crianças nenhumas, e perante esse dilema, adoptam, que é outra das exigências dos casais "gay", ainda em fase de estudo. Penso naquele casal alemão que se amava mais que tudo, mas viu o seu conto de fadas diluir-se depois de descobrir que eram filhos do mesmo pai, e foram impedidos de casar. E aqui o "amor" valeu de alguma coisa na hora de se submeterem à censura da sociedade?

Mas como já disse, já fui contra o casamento "gay", mas não fiz activismo no sentido de o imperdir, não andei por aí com crucifixos ou a cuspir no chão com cara de rufia cada vez que dava de caras com duas florzinhas de mão dada na rua. Sim, os casais "normais" (notem como os próprios partidários do casamento "gay" chamam "normais" aos casais mistos) também se divorciam, o que me leva a pensar se no momento em que se agridem com as panelas lá em casa e chamam nomes à mãe um do outro não se recordam mais daquele dia lindo, em que ela de véu e grinalda, e ele de paletó, saíam da igreja abraçados debaixo da chuva de trinca de arroz dos convidados a caminho da lua-de-mel. Só que a imprensa - esses homófobos sem vergonha - prefere dar mais destaque à Tuxa e ao Fernando, que "lhe deu com as texanas na cara" depois de ter bebido umas Tagus a mais. Vá pedir-lhes satisfações, e guarde para eles esses mimos como "otário preconceituoso" que resvalam na dura carapaça da minha indiferença. Passar bem.


5 comentários:

Ana disse...

Comparar a homossexualidade com o incesto, e falando numa linguagem que percebe de certeza é a mesma coisa que comparar a feira de beja com o olho do cú.
De certeza que não tomou a devida atenção a que na minha maneira de ver como jornalista “está” obrigado aos problemas graves que o incesto trouce e trás a todos que a tal foram sujeitos. Por favor não compare um acto sexual, seja ele de que tipo for, consentido e que ambas as partes o “desejam” com uma violação como ocorre 99,78% das vezes no incesto. Espero que nunca ocorra na sua família mais chegada nenhum caso de incesto. Bjs

Leocardo disse...

Não concordo com o seu ponto de vista. Na sua vertente "abominável", o incesto estará para a homossexualidade como esta estava - e em alguns casos ainda está - para a heterossexualidade. Faria sentido o seu argumento caso a violação fosse um exclusivo das relações incestuosas, o que não é o caso. O que dizer das agressões sexuais nas prisões, por exemplo? E sim, existe incesto consentido, e mais do que na ordem dos 0,22% que sugere. Além do exemplo concreto que referi, há imensos casos de primos e primas que se apaixonam. Claro que no que toca aos pais e filhos há um longo caminho até que se determine a diferença entre amor paternal e amor físico, e por isso as coisas estão como estão. Mas quem nos diz que no futuro o mesmo princípio aplicado aos homossexuais, quando a generalidade do pensamento apontava para a impossibilidade do acto, não se aplica também? Se a tabela é a do "amor", e a condição é o consentimento, tudo é possível, excepto com animais irracionais e coisas.

Cumprimentos.

FireHead disse...

No famoso turismo sexual nos lugares típicos como a Tailândia ou as Filipinas, muitas das prostitutas que são procuradas são menores de idade e conseguem perfeitamente enganar qualquer incrédulo que não lhes exija os doumentos de identificação. E são elas próprias, as prostitutas menores, que têm, muitas das vezes, gosto naquilo que fazem. Os homens, sem o saberem, tornam-se assim pedófilos... forçados. E a relação sexual, ainda que paga, é consentida. O que é que a senhora que diz ser jornalista e que escreve palavras como "trouce" e "trás" tem a dizer em relação a isso? Casos pontuais, talvez...

Ana disse...

Leocardo aceito a sua forma de ver o assunto mas não concordo consigo em alguns pontos…e garanto-lhe que a percentagem está muito perto, não fosse a vergonha e outras coisas e os dados seriam diferentes. Quanto aos problemas que trazem, bem…se tiver possibilidade trabalhe de perto com crianças, homens e mulheres que sofrem ou sofreram de incesto, depois diga-me…..
Quanto à homossexualidade cada adulto faz do seu corpo o que quer, desde que não obrigue nem seja obrigado cada um faz o que quiser, afinal os grande filósofos Gregos que ainda hoje todos estudam eram praticamente todos homossexuais….por exemplo. E existe homossexualidade numa maioria muito grande de animais selvagens, mesmo muito grande, aliás existem espécies que só procuram um parceiro de diferente sexo precisamente para procriarem e depois disso cada um volta para o seu parceiro do mesmo sexo.
FireHead…primeiro acho sempre graça a quem se esconde atrás de um nikname…, segundo a prostituição infantil e o incesto estão na realidade muitas vezes associados, aliás começa muitas vezes aí mesmo, é muitas vezes o ponto de ignição…ou não têm qualquer ligação as comparações não podem ser assim feitas de tão leve animo, terceiro não sou doutora, quarto o seu dicionário deve ser diferente do meu

Leocardo disse...

Bem, para não andarem os dois à estalada, de facto escreve-se "trouxe" e "traz", ambos tempos do verbo "trazer". Posto isto, sei do que fala, Ana, e o meu raciocínio foi no sentido do que se considera por "casamento" na sua forma original, ou seja, entre um homem e uma mulher. Logo ficam de fora os homossexuais e o parentesco, MAS, partindo dessa lógica que se trata de um contrato em que as duas partes consentem, as violações ficariam obviamente excluídas. Não quero dizer, naturalmente, que aprovo o incesto, ou que existe um número de casos de pais e filhas, mães e filhos, irmãos ou primos que se apaixonam para que seja quase que um imperativo permitir esse tipo de uniões. Já agora, o exemplo que refere dos animais irracionais não é muito feliz, pelo menos como defesa do seu argumento: é que o incesto é tanto ou mais comum no mundo selvagem que as próprias relações homossexuais. E isso leva-me à última parte deste argumento. Repare como não falo sequer da bestialidade, do sexo entre humanos e animais. Fosse eu buscar essa "modalidade" e inclui-la no contexto do casamento "alternativo", e estaria a ser até um bocado parvo. Mas veja o exemplo que dei em relação ao incesto:

http://bairrodooriente.blogspot.com/2013/08/amai-vos-irmaos-mas-nao-literalmente.html

É portanto correcto concluir que as convenções, a moral e todos esses preceitos que nos foram impostos não terão sido tanto no sentido de sermos felizes, mas para que se impusesse alguma ordem na sociedade, e nas relações humanas. Agora se os homossexuais ultrapassaram as barreiras impostas por essas convenções, como ficam os outros, que não se sentem incluidos e não são homossexuais?

Cumprimentos.