sábado, 8 de outubro de 2016

Palhaços (tenham medo, muito medo)


Quando era miúdo, das poucas vezes que ia ao circo, o meu número favorito era o dos palhaços. Correcção: o único que eu gostava, e se a regressão mental até à infância que estou a fazer neste momento não me engana, eu só lá ia mesmo por causa dos palhaços. Tudo mais me aborrecia; o mágico que tirava o coelho da cartola (entre Houdini e David Copperfield o ilusionismo fez uma ENORME travessia do deserto), os trapezistas e o bailado aéreo que interpretavam sem cair, mas que teriam muito mais piada se caíssem, e os animais, os pobres animais. A participação dos animais nos números de circo pode-se resumir numa frase apenas: "Elefantes a fazer macacadas, e macacos de trombas". Triste, muito triste. Quando havia um pónei ou um urso, era impossível ignorar o odor a excrementos, que com mais ou menos intensidade estava sempre presente. Do que eu gostava mesmo era dos palhaços, que para mal dos meus pecados apareciam quase sempre no final. Fossem os palhaços o primeiro número, e quando saíssem de cena ia-me embora para casa, e sem ter dado o dinheiro do bilhete por perdido. Adorava a rotina do palhaço rico/palhaço pobre. O primeiro trajava de Pierrot com uma maquilhagem semelhante a um dos elementos da banda de "hard-rock" Kiss, e o pobre vestia-se de trapos com um padrão de quadrados coloridos e um grande nariz vermelho, assim como o nosso palhaço mais famoso, o Batatinha. O rico fazia gato-sapato do pobre, e há um diálogo entre ambos que nunca mais me esqueci. 

Rico: Ó estúpido (eh eh), vou apostar contigo que não estou aqui neste lugar, mas sim noutro lugar. 
Pobre: Ah ah, estás maluco, pá? Olha, olha. É p'ra já, aqui tens a tua aposta (colocava uma nota numa pequena mesa ali ao lado, e o rico fazia a mesma coisa) 
Rico: Ora bem, diz-me lá uma coisa, estou em...Paris? 
Pobre: Não... 
Rico: E será que estou...em Nova Iorque?  
Pobre: Não, claro que não... 
Rico: Então quer dizer que estou NOUTRO LUGAR, verdade? 
Pobre: Bem, sim, mas...
Rico: Mas, nada! (guardava o dinheiro da aposta no bolso)
E pronto, este era o tipo de diálogo humorístico que me arrebatava quando tinha os meus 5 ou 6 anos. Depois cresci, pronto, tornei-me mais refinado, se calhar, e também pode ser que tenha ajudado a descoberta daquilo que há por detrás da maquilhagem e da vestimenta de um palhaço: um tipo qualquer como eu ou o leitor, que precisava de fazer pela vida, coitado. E salvo raras excepções (o já referido Batatinha ou ainda Tété, a mulher-palhaço), não se pode falar da sua opção de carreira do ponto de vista da "realização artística". Para isso contribui ainda a conotação negativa que a própria palavra "palhaço" tem no outro "circo", o da gente série: um individuo frustrado, pouco dotado de talento e sem graça, e que se faz alguém rir, é involuntariamente.

Posso dizer que sou de uma geração que adorava palhaços, e é estranho que nos tempos que correm, em que os miúdos são muito mais espertos que no meu tempo, e que têm muito mais acesso à...a tudo! Sim, é estranho que existam mais crianças com medo de palhaços que no meu tempo - o meu próprio filho tinha pavor a palhaços quando era pequeno! Um desgosto para mim, que começava a sorrir antes da entrada em cena daqueles que já foram "os melhores amigos da criançada". É uma era complicada, esta em que vivemos, e onde não dá para confiar nem no vizinho do lado que conhecemos há décadas. A figura do palhaço deixou de ter lugar nestes tempos em que todos querem saber o que está por baixo de uma burqa, ou por detrás de um véu. A auto-estrada da informação não dá boleia a anónimos e afins, sempre mal-vistos, seja qual for o ângulo, e pronto, os palhaços são mais uns tipos que "têm qualquer coisa a esconder". Umas velhas, foi aquilo em que nos tornámos. Somos as proverbiais velhas que no meu tempo passavam o dia à janela a coscuvilhar a vida alheia.


Deu-me para falar nisto agora devido a uma notícia que tem sido destaque nos média, e que dá conta de uma "onda de pânico" nos Estados Unidos, provocada por indivíduos "vestidos de palhaço" que têm sido vistos com mais incidência junto de escolas secundárias e universidades. Não há muito mais informação sobre as motivações destes palhaços, a não ser que têm sido vistos em maior número desde Agosto, e que já imitadores na Austrália, onde duas mulheres chegaram a ser detidas por...se vestirem de palhaço. Não é muito normal, temos que admitir, pois quem não é saltimbanco de profissão, não será inocentemente que se veste de uma forma que permita não ser reconhecido. Stephen King, célebre autor de contos de terror que deram origem a inúmeras transposições para o grande ecrã já veio dizer que este pânico "não se justifica". Irónico, que este comentário parta do autor de "It", e de um dos principais responsáveis pela demonização da imagem do palhaço.


Uma opinião que importa reter é a dos Insane Clown Posse, uma banda de...nem sei bem em que estilo se inserem, mas andam algures entre o "death metal" e o "gangsta rap". Esta dupla de palhaços cantores que chegou a ter álbuns censurados a pedido da Disney (imaginem só), e cujos fãs, conhecidos por "Jugallos", estão referenciados pelo FBI como "um gangue potencialmente perigoso", vieram afirmar que os "palhaços" mais perigosos da América não usam máscara: "são palhaços de uniforme azul que disparam sobre suspeitos desarmados, palhaços que incendeiam centros islâmicos e propagam o ódio e o preconceito, são os palhaços dos serviços secretos, que vigiam as contas de e-mail e as mensagens de telemóvel dos cidadãos". Perante estes argumentos, o que dizer? Entre uns e outros palhaços, é tudo uma questão de caracterização, e nada mais.


1 comentário:

Anónimo disse...

"propagam o ódio e o preconceito"

Se tu se der o trabalho de escutar essa banda de palhaços veras que ódio e pré conceitos é o carro chefe das suas cançoes.