terça-feira, 4 de outubro de 2016

Alberto Alecrim - recordado (sempre) com um sorriso


Foi com tristeza que recebi a notícia do desaparecimento de Alberto Alecrim, um dos ilustres "resistentes" da comunidade portuguesa em Macau. Mas não posso deixar de sorrir quando me lembro da sua figura. Tal como afirmou António Correia no Telejornal de ontem, onde foi recordar o amigo de décadas que acabara de partir, Alberto Alecrim não deixou contas mal resolvidas com ninguém. Toda a gente que teve a honra de o conhecer só pode mesmo recordá-lo com um sorriso, tal era a boa disposição que ele irradiava, e para o efeito bastava-lhe ser ele. Era um natural. Um bonacheirão - no bom sentido, e só podia ser desse jeito.

Conheci-o em 1993 no café do Zé António, no antigo Park'n'Shop da Av. Sidónio Pais, onde ficava o Riquexó, até mudar para o beco mesmo ali ao lado. Ia lá por mera conveniência, pois na altura trabalhava no China Plaza ali perto, e da segunda vez que lá fui já sabia que aquele personagem era "o Alecrim". Era impossível ignorar a sua presença, tal era a galhofa que ali ia entre ele e os seus "colegas da bisca", entre os quais ele se destacava por garantir que nenhum minuto se passava de tédio. Para que me faça entender melhor, o sr. Alecrim é aquela pessoa que todos os adultos queriam ter como amigo, e que qualquer criança gostaria de ter como avô. Nunca o vi ser arrogante ou desconfiado com ninguém. Tenho a certeza que ele nunca soube o meu nome, mas tratava-me como se eu fosse um catraio qualquer filho de uma vizinha sua, e que ele viu nascer.

O sr. Alecrim era um português "dos antigos". Não quero dizer com isto que era conservador, e das suas convicções só sei uma coisa: era do Sporting. Vivia no Hoi Fu, mesmo ali em frente do tal café que frequentava diariamente até a sua debilitada saúde lhe limitar as saídas. A última vez que o vi foi no supermercado Welcome, mesmo ao lado do prédio onde vivia, e já lá vão uns bons dez anos. Realmente sim, deve ser isso, pois se a memória não me falha foi no dia em que Portugal jogou com a Inglaterra nos quartos-de-final do mundial 2006. Mas ainda antes disso, e desse momento recordo-me bem, convivi com ele no Hotel Bela Vista, numa dessas recepções do 10 de Junho, onde apareceu a emanar classe, ostentando as medalhas que obteve durante o tempo que serviu a Pátria. Se alguém precisasse de saber uma coisa apenas sobre este homem, é que ele foi um herói de guerra. Sim, o sr. Alecrim esteve em Goa durante a queda daquela antiga possessão ultramarina portuguesa, e chegou mesmo a ficar cativo do exército da União Indiana. Quem estiver interessado na sua nota biográfica - e garanto que vale a pena espreitar - pode vê-la aqui e aqui. E há muito mais, basta procurar pelo seu nome em qualquer motor de busca, e não há que enganar. Até nisto ele é especial.

Gostaria de deixar os meus sentidos pêsames à família enlutada, e pedir-lhes que desculpem esta minha ousadia, mas pronto, não consegui resistir, e espero que não me tenham levado a mal. Todos partimos um dia, uns atrás dos outros, enfim, é deprimente, deveras. Mas como os invejo, meus amigos, que nesta hora tenham tanta, mas tanta coisa para recordar deste vosso ente, e tenho a certeza que quando o fizerem será sempre com um sorriso, também, e nem uma gota de ressentimento. Obrigado por ter sido quem foi, Alberto Alecrim. Até um dia destes.


2 comentários:

Catarina Valente disse...

Obrigado, o meu avô ficaria honrado pelo seu testemunho.

Guimaraes disse...

Também o recordo com saudade e, claro, um sorriso...