domingo, 23 de dezembro de 2007

O velho e o Natal


Estamos no Natal. O Natal amolece os corações mais frios e insensíveis. Ou será que é mesmo assim? Temos uma tendência demoníaca para nos preocuparmos com os nossos, se estão bem, se não lhes falta nada. Se temos um velho no lar levamo-no para casa. Pelo menos uma vez por ano não o deixamos ao abandono. A mesa é farta, as crianças sorriem ao abrir as prendas, e temos o sentimento do dever cumprido. Que bonzinhos que somos.

Perdoem-me esta introdução um tanto ou quanto amarga. É que custa, custa mesmo ver todos os dias este pobre desgraçado ali pelo largo do Senado, acompanhado de um carrinho com as suas tralhas. Apesar de velho, passa o dia de pé, cabisbaixo, espinha dobrada, atitude de quem já não espera mais nada. Só a morte. Seria interessante saber a sua história. De onde veio, como foi ali parar, se tem família, ou se simplesmente não quer ajuda porque tem dignidade ou somente porque é teimoso.

O que custa ainda mais é perceber que este velho sem nome vive ali, mesmo junto às multinacionais da Levi's ou da Starbucks, que parecem ignorar a sua existência. E se ignoram não é porque não se apercebem, pois este cidadão que a sociedade cuspiu dos seus brônquios mais sujos emana um cheiro a urina que se espalha além da limitada área da sua insignificante existência. Será porque simplesmente "são boas pessoas", e não vão correr com o velho dali.

E é agora no Natal que custa mais engolir a miséria humana. Principalmente aquela que nos dá uma bofetada com a sua luva mais imunda. Reportando-me ao meu último "post": será que ele sabe que é Natal?

11 comentários:

joão severino disse...

Feliz Natal para si Leocardo.

Leocardo disse...

Um grande Natal para o meu caro amigo João Severino, e que 2008 lhe traga o sucesso que merece.

Anónimo disse...

Parabéns por este post. Das suas amargas, mas sinceras palavras comungo sem hesitar. Da minha breve passagem por Macau, há pouco tempo, também retenho em mim a imagem desse pobre homem. Para ele e muitas outras pessoas como ele, tudo deverá parecer vão. Vidas tristes que nem os natais alegram. FELIZ NATAL para si e para todos os macaenses!

Armando disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Leocardo disse...

Bom, tive que apagar um comentário bem triste e despropositado. Enfim, alguém que se meteu nos copos ainda antes da consoada...

disse...

Muito bem Leocardo. Confesso que estava a preparar uma posta semelhante,talvez não tão "forte". Mas quando vejo este senhor, ou quando ao passar sinto aquele odor, por vezes duvido que esteja em Macau.Aquele senhor está lá a apodrecer e eu sou mais uma, no meio de centenas, que passam por ele e nada fazem.Algo aqui está errado.Não sei se também já reparou num outro senhor que está sempre com os mesmos calções e t-shirt a dormir pelos bancos.Ontem vi-o a ser levado numa ambulância (fiquei contente: sei que passou um Natal bem mais "quente" e "aconchegado").Mantive a esperança mas ao chegar ao tal local reparei que houve quem não tivesse a mesma sorte...

Leocardo disse...

Certo, minha cara Lei, dói ver e não fazer nada, mas não nos cabe a nós agir. Num território onde dinheiro é coisa que não falta, é difícil perceber porque é que isto acontece e bem no meio do centro turístico. E logo com a Santa Casa mesmo ali em frente. Se o pobre velho estivesse plantado em frente a um casino, já há muito que tinha de lá saído.

Um grande abraço de bom Natal e desejos de próspero ano novo para si e para os seus.

Armando disse...

Gostava de saber porque o meu comentário frontal e "sem espinhas" ou rodeios foi apagado sr leocardo. Julgo que esses tiques ditatoriais lhe ficam mal nesta quadra tão bela.

É bonito soltar lágrimas pelo senhor e fazer pedidos ao céu, mas não vejo ninguém de bom coração, e com comentários semelhantes aos que aqui li, disposto a ajudá-lo e a dar-le um futuro melhor.


PS: Já alguma vez pensaram que ele pode não estar ali obrigado?


Um Abraço do Armando

Leocardo disse...

Meu caro Armando, penso que soluções como "levar o velho para casa" ultrapassam os limites do surrealismo. E para mais deixe lá o o João Severino em paz, se o quiser atacar ele tem lá um blogue onde você pode fazê-lo. Isso é que fica mal nesta quadra tão bela.

Cumprimentos e boas festas.

Armando disse...

Prezado leocardo,

Permita-me, uma vez mais, discordar consigo. O meu comentário sublime e frontal sobre o "velhote" do Leal Senado tocou-lhe na ferida; como eu esperava, mas espero que tenha percebido o alcanse da mensagem.


Quanto ao Sr Severino, apenas interroguei-o, sem ofensa nem reservas, sobre se estava a pensar visitar Macau nos seus próximos tempos.

Um Abraço do Armando

Corrector residente disse...

«Alcance», Armando, «alcance»!