sábado, 8 de dezembro de 2007

O veneno da cidade


Passei praticamente toda a minha infância na casa dos meus avós, no Ribatejo. Os meus avós tinham um enorme quintal, onde faziam criação de galinhas, patos e coelhos. Ao fundo existia um limoeiro. A guardar o quintal estava o Campino, o rafeiro mais inteligente que alguma vez vi. O Campino guardava o quintal não só dos "amigos do alheio", mas também das ratazanas que vinham das redondezas alimentar-se das indefesas galinhas.

Todas as tardes brincava no quintal. Não havia dia que não voltasse para casa sem os joelhos e a roupa suja de terra. Ajudava o meu avô a limpar o quintal ao fim de semana. Trocava a palha dos coelhos, metia-me de joelhos a raspar o excremento dos patos do chão da capoeira com uma espátula, cortava as ervas daninhas. No Verão comiamos fora, literalmente. Trazíamos a mesa para o quintal, e quando a noite caía dormia muitas vezes no terraço, só na companhia do Campino e do luar ribatejano.

Adorava brincar com os bichos do campo. Fazia casas com legos onde guardava minhocas, bichos-da-seda e lagartas daquelas muito verdes. Corria atrás das lagartixas, das carochas, e deixava as aranhas urdirem teias nas pontas dos meus dedos, por onde desciam. Se acidentalmente matava um bicharoco, limpava as mãos aos calções, e continuava a brincar. Não havia insecto demasiado grande ou feio que me pudesse intimidar.

Hoje, consumido pelo veneno da cidade, sou alguém que não conheço. Não consigo apanhar uma barata morta com as mãos. Se uma traça entra em casa, fico estático até encontrar o jornal mais próximo. Lavo as mãos depois de fazer o que quer que seja. Se vejo uma ratazana mudo de passeio. E penso: como tudo seria diferente se o Campino ainda estivesse do meu lado.

4 comentários:

lusitano disse...

Não imagina como me revi no texto desta posta. Estas vivencias foram vividas igualmente por mim, na infância e adolescência, mesmo no que respeita à limpeza das capoeiras, aos sábados à tarde e por imposição(pois detestava) da minha avó paterna....
Hoje, recordo todo tempo com um misto de nostalgia e perda de sagacidade", isto porque o que considerava actos de coragem e destreza, com o passar dos anos transformaram-se em repugnância a bichos e tudo o que rasteje....

A grande cidade condiciona-nos ou colocam-nos afastados da envolvência da natureza?

Parabéns ao novo blog!

Leocardo disse...

Na cidade os animais rastejantes são outros...

Leocardo disse...

Ah, sim, e obrigado :)

Vitório Rosário Cardoso disse...

Revividas por mim também, dos tempos que participava na descasca do milho na terra do Avô paterno (Proença-a-Nova, Dist. Castelo Branco), dava aguardente aos senhores presentes (alguns arrumavam-se), cheguei a ordenhar cabras, fazer o reconhecimento das terras com o Avô no meio do pinhal, reconhecer pegadas de javalis, etc... respirar os ares da Serra, bebear água dos riachos.