segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os pecados de Woody Allen


Woody Allen e Mia Farrow em 1981, no "setting" do filme "Uma Comédia Sexual de uma Noite de Verão". No início era a mestre e a sua musa.

Woody Allen está novamente envolvido numa polémica relacionada com abuso sexual de menores, e mais uma vezes com contornos pouco claros, e um "timing" que se pode considerar no mínimo estranho - Woody Allen acaba de receber o Globo de Ouro pela sua carreira, o "Prémio Cecil B. de Mille", e está mais uma vez nomeado para um Oscar da Academia para melhor guião original com o filme "Blue Jasmine". Quem estava vivo e mais ou menos bem informado por alturas de 1992 recorda-se certamente de um dos casos mais apaixonantes envolvendo personalidades do mundo da sétima arte. Woody Allen, o mais premiado e celebrado escritor de filmes do mundo, mantinha desde 1980 uma relação com uma das suas "musas", a actriz Mia Farrow. Juntos adoptaram duas crianças, Dylan Farrow, uma menina, e Moses Farrow, um rapaz, e tiveram um filho, Ronan Seamus Farrow, nascido em 1987. Antes do relacionamento com Allen, Mia Farrow tinha uma filha adoptiva com o seu ex-companheiro, o escritor André Previn, uma menina de etnia coreana chamada Soon-Yi.


Mia Farrow, Woody Allen, e o filho biológico de ambos, Ronan.

Viviam todos felizes e contentes em Nova Iorque, rodeados do bom e do melhor, com Allen a escrever os filmes onde Mia Farrow desempenhava o papel de actriz principal, até ao dia que a actriz descobre fotografias de Soon-Yi nua, tiradas por Allen. O realizador assumiu sempre que mantinha uma relação com a filha adoptiva da companheira, e os dois separaram-se. Allen casou com Soon-Yi em 1997, situação que se mantém até hoje, e eles próprios têm duas filhas adoptivas. É preciso notar que Woody Allen nunca teve qualquer parentesco com Soon-Yi anterior ao casamento entre ambos; a jovem não era filha adoptiva de Allen, nem sequer enteada, uma vez que ele e Mia Farrow nunca chegaram a casar. Quem não pensa bem dessa maneira é Ronan, o filho biológico de Allen e Farrow, e que mantém uma relação distante com o pai, de quem diz "ser casado com a minha irmã, portanto isso faz dele meu pai, e meu cunhado" - e tecnicamente isto é verdade. Em 2012, no Dia do Pai, Ronan Farrow deixou uma mensagem na sua conta da rede social Twitter, e onde se lia: "Feliz dia do Pai - ou como se diz na minha família, 'dia do cunhado'". Pelo menos herdou do pai a veia sarcástica.


Soon-Yi Previn e Woody Allen em 2009, no Festival de Cinema de Tribeca. Contra as expectativas de muitos, o seu casamento dura há 16 anos.

O relacionamento entre Allen e Soon-Yi terá tido início em 1991, quando o realizador tinha 56 anos e a amante 19. Legalmente não existiu abuso de menores, mas certas questões morais e éticas se levantaram. Por exemplo, Soon-Yi tinha 8 anos à data do início da relação entre Allen e Mia Farrow, teve no companheiro da mãe adoptiva uma figura paternal, e a juntar a tudo isso este era ainda o pai dos seus três irmãos, que são "de juris" filhos da mesma mãe. A propósito da sua relação com Soon-Yi, Woody Allen diz que "aconteceu, simplesmente", e que questões do foro sentimental "não precisam necessariamente de obedecer a qualquer lógica". Quem segue a carreira de Woody Allen há vários anos e viu quase todos os seus filmes, como é o meu caso, fica sem entender muito bem o que viu o realizador na altura com 56 anos numa miúda de 19, que ainda por cima era filha adoptiva da sua companheira. O que vejo quando olho para Soon-Yi é apenas a sua aparência, que não é nem nunca foi excepcional, e em termos de bagagem cultural, duvido que tivesse categoria para encadernar um dos guiões de Allen num dossiê de argolas.


Em 1988, uma família que aparentava ser feliz: Woody Allen à direita, Dylan Farrow entre ele e Mia Farrow, que vai com Ronan ao colo, Moses em baixo e Soon-Yi à esquerda.

Mas a batalha legal que se seguiu entre Woody Allen e Mia Farrow nada teve a ver com Soon-Yi, mas sim com a atribuição do poder paternal dos três filhos que tinham em conjunto - os dois adoptivos e Ronan, o biológico. Foi um processo desgastante para a imagem dos dois, especialmente a do realizador, e Mia Farrow acabaria por obter a custódia dos três menores. Durante o julgamento, a actriz acusou o companheiro de ter "molestado sexualmente" a filha adoptiva de ambos quando esta tinha sete anos. O júri descartou a acusação por falta de provas, e Mia Farrow viria a desistir de qualquer procedimento criminal no sentido de apurar se os abusos realmente tiveram lugar, mas Allen perdia quaisquer direitos de visita sobre a filha, e só se podia encontrar com os filhos "com a supervisão de terceiros". A realidade é que a partir daqui cada um foi à sua vida, e a carreira de Woody Allen como realizador e guionista foi proliferando, com prémios e nomeações em catadupa, elevando-o ao estatuto de "guru" do cinema que detém hoje. Quem previa a sua quebra depois desta sucessão infeliz de incidentes, enganou-se completamente, e Allen não dava sinais de estar com problemas de consciência.


Dylan Farrow, que está a precisar de uma passagem pelo detector de mentiras.

O casamento com Soon-Yi veio deixar cair as suspeitas de abuso de menores, bem como o facto de Woody Allen fazer em média quase um filme por ano e o seu sucesso nos últimos anos o terem tornado bastante solicitado deixarem uma impressão de que está ali um artista, e não um pederasta. Só que os velhos fantasmas foram agora despertados por Dylan, a tal filha adoptiva do realizador em parceria com Mia Farrow, que vem agora, quase 22 anos depois, alegar que de facto Woody Allen abusou sexualmente dela quando tinha sete anos. Numa carta aberta ao New York Times e publicada este Sábado pelo jornalista Nicholas Kristof (pode ler aqui a versão integral da carta, no blogue que Kristof mantém para o jornal), Dylan conta que o pai adoptivo a levou para o sotão, mandou-a deitar-se no chão de barriga para baixo e brincar com comboio eléctrico do irmão, e de seguida "molestou-a sexualmente". Enquanto o fazia, dizia-lhe "que era uma boa menina", e que aquele "era um segredo só deles", e prometeu-lhe que levava para Paris, e a tornava numa estrela de cinema. Estava aberta a caixa de Pandora.


Woody Allen com Dylan ao colo, mas sem malícia, sem malícia...

Dylan Farrow é parca em detalhes quanto à verdadeira natureza dos abusos, mas podemos imaginar do que se trata. Onde não poupa nos detalhes é na natureza da relação com o pai adoptivo, e faz referência a alguns episódios íntimos da convivência entre ambos, como quando Allen metia o seu polegar dentro da sua boca (!?), deitava-se com ela vestido apenas com uns calções, ou ainda quando pousava a cabeça nas pernas da jovem e começava a inalar (!!!). Dylan alega que resistia às investidas de Allen, trancando-se na casa-de-banho ou escondendo-se noutras divisões da casa, mas ele "encontrava-a sempre". Sendo este o pai que tinha, perguntou à sua mãe, Mia Farrow, se era assim a relação entre pais e filhas. A actriz ficou naturalmente alarmada, e foi com base nas palavras de Dylan que acusou Allen de a ter molestado. Na altura Dylan remeteu-se ao silêncio, e nada ficou provado. Agora passados que estão 22 anos, recorda-se de tudo. Será que finalmente percebeu que Woody Allen já não a vai levar para Paris e fazer dela uma estrela de cinema? Se é essa a razão, estamos aqui na presença de alguém com um raciocínio muito lento.


Scarlett Johansson com Woody Allen: "musa" de um génio ou mais uma vítima de um velho depravado?

Na sua carta aberta Dylan diz ainda que durante todos estes anos viveu com o horror dos abusos cometidos por Allen sempre presentes na memória enquanto cresceu, e até hoje, na idade adulta. Diz que não entende como é possível que tanta gente elogie aquele homem, que digam maravilhas dele, e de como consegue tão facilmente aproximar-se de outras mulheres jovens. Penso que Dylan Farrow, que deve andar muito confusa ultimamente, coitada, se refere às actrizes que colaboraram com Woody Allen nos últimos anos, tantas vezes com resultados brilhantes. Fala na sua carta de Scarlett Johansson, por exemplo, mas esquece-se de Mira Sorvino ou Penelope Cruz, que ganharam Oscares com filmes do realizador. Faz ainda uma referência a Diane Keaton, companheira de Allen antes de Mia Farrow, dizendo que "costumavam ser amigas". O que significa exactamente este toque? Será que Keaton sabe de alguma coisa? É que Diane Keaton continuou amiga de Allen mesmo durante o tempo em que este viveu com Mia Farrow, e chegaram a trabalhar juntos depois disso. Além disso tem uma carreira respeitável como actriz, e não deve nada ao realizador que possa fazê-la ocultar um segredo tão terrível todos estes anos.


Woody Allen na promoção do seu mais recente filme, "Blue Jasmine".

O problema aqui é o seguinte: de um lado temos um génio, nomeado para 24 Oscares, 16 deles para melhor argumento original, oito deles já após a sua separação com Mia Farrow, e venceu quatro, um deles apenas há três anos, com "Midnight in Paris". Já foi nomeado nas categorias de melhor filme, como produtor, de melhor realizador, melhor actor e melhor argumento original, sendo o único a alcançar este feito, e graças ao seu sucesso recente com filmes produzidos em várias cidades europeias (Veneza, Londres, Barcelona, Paris, Roma) é solicitado por outros edis, que lhe oferecem propostas para que faça nas suas cidades o seu próximo filme. Do outro lado temos uma jovem que ninguém conhece, problemática, que já mudou de nome três vezes e que "se cortava" quando era adolescente, comportamento que vem atribuir agora ao trauma de infância provocado pelo pai adoptivo. Quando lamenta a reverência que a indústria cinematográfica faz a Woody Allen, acusando-os de serem "cúmplices", está a jogar uma carta arriscada. É que dê por onde der, sem provas concretas a palavra dele vale sempre mais do que a sua. Há 22 anos teve uma oportunidade para deter o "monstro", mas em vez disso ficou sentada a assistir ao rol de prémios, distinções e nomeações que ele foi acumulando. Porquê só agora, é a pergunta que apetece fazer.


Allen e os herdeiros: Soon-Yi e os filhos adoptivos.

O véu deste mistério que rodeia esta súbita "sede de justiça" por parte de Dylan Farrow é levantado pelo próprio Nicholas Kristof, o jornalista do NY Times que publicou a sua missiva. Numa nota introdutória, diz que este testemunho da filha adoptiva de Allen "levanta questões sobre a legitimidade do prémio de carreira recentemente atribuído ao realizador", que, acrescenta, "negou sempre ter cometido qualquer tipo de abuso". E ainda a este respeito o filho Ronan, o tal "biológico", comentou nas redes sociais a propósito de um documentário sobre a carreira de Woody Allen, em jeito de homenagem pelo prémio que acabou de receber, dizendo: "Não assisti, e tenho pena. Quando é que mostraram a parte em que ele abusa de uma criança de sete anos? Antes ou depois de 'Annie Hall'?". É importante relembrar que apesar de continuar na posse das suas faculdades mentais e gozar de uma saúde razoável, Woody Allen tem 78 anos, e mais cedo ou mais tarde vai partir, deixando um património riquíssimo. A não ser que se dê uma mudança imprevista, a gestão desse património ficará a cargo de Soon-Yi Previn, que tem actualmente "só" 41 anos. Pode ser que eu esteja apenas a especular, e que isto não faça sequer muito sentido, mas as motivações que levam Dylan Farrow a desenterrar este caso vão muito além da simples honra, dignidade, ou descargo de consciência.

1 comentário:

Alexsandro Almeida disse...

Interessante como o autor deste texto tentar desacreditar a filha denunciante de Wood Allen, de como se apropria de fatos isolados para tentar julgá-la, dizendo que deveria ter falado quando ainda era uma criança e que agora que cresceu deve se calar... Argumentos fabulosos!