sexta-feira, 26 de junho de 2015

Carmen Miranda: a maior de Portugal (então porque a ignoramos?)


Estava eu um dia destes a deitar os olhos naquela série de documentários que tem passado na TDM a respeito do Brasil, e num episódio dedicado ao samba e às suas origens, houve algo em particular que me chamou a atenção. Perdão, alguém em particular: Carmen Miranda. Já sei o que estão a pensar, e é mesmo que eu, ou o que toda a gente pensa quando ouve falar do nome ou vê uma imagem de Carmen Miranda.  Mas já lá vamos. Muita gente sabe que Carmen Miranda nasceu em Portugal, filha de pais portugueses, tendo emigrado com eles para o Brasil quando tenha menos de um ano de idade, em vésperas do golpe republicano em Portugal, que derrubaria a Monarquia em 1910. A pequena  Carmen Miranda deixou o Reino de Portugal no mesmo ano que este conheceu o seu fim - coincidência? (Aproveito para lembrar que não acredito nessas, mas aqui está ligação que provavelmente pouca ou nenhuma gente terá feito).


Carmen cresceu, viveu, cantou o encantou o Rio de Janeiro, o resto do Brasil e depois a América, e seria em Los Angeles que viria a falecer ainda jovem, em 1955. Mas foi numa pequena freguesia do concelho de Marco de Canavezes que nasceu Maria do  Carmo Miranda da Cunha. A rainha do samba, precursora do movimento que surgiria já depois da sua morte e ficaria conhecido por "Tropicalismo", e uma das maiores estrelas de Hollywood da década de 40 do século passado nasceu em Várzea da Ovelha e Aliviado, localidade com pouco mais de mil habitantes. E não, não estou a brincar, o local chama-se mesmo aquilo, e podem confirmar em qualquer média, e de facto trata-se de um local que ninguém quer ter a constar no bilhete de identidade. Contudo isto leva-me a elaborar uma teoria. Parva, mas teoria. Inútil, mas usem-na à vontade. É o seguinte: pessoas que nascem em localidades portuguesas com nomes atrozes têm tendência para se tornarem vedetas internacionais reconhecidas num universo de milhões de fãs. Yep, isso mesmo. Provas do que digo? Ora, além da Maria do Carmo, a.k.a. Carmen Miranda, há um António Joaquim Fernandes, nascido na freguesia de Vale da Porca, do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros, que se tornaria conhecido do grande público por Roberto Leal. Oh yeah. Se quiserem um exemplo mais chungoso, temos uma tal de Teolinda Joaquina de Sousa Lança, mais conhecida por Linda de Suza, que na lotaria das naturalidades saiu-lhe um Beringel, Beja. E há mais, lógico: António Variações, Marco Paulo, etc.


Mesmo tendo feito toda a sua carreira no Brasil, e depois nos Estados Unidos, Carmen Miranda nasceu em Portugal. Ponto assente. Se há gente que não sabe disto é porque não lhe é dada a devida importância. É que na verdade, meus amigos, o facto de ter nascido em Marco de Canavezes, filha de portugueses, neta de outros, bisneta, etc. faz dela  A MAIOR CELEBRIDADE DO MUNDO DO ESPECTÁCULO NASCIDA EM PORTUGAL EM TODA A HISTÓRIA. Isso mesmo, e não estou a querer "subtraí-la" do seu Brasil que a tornou célebre, mas o mínimo que se pedia era que se falasse um pouco mais de Carmen Miranda. Afinal somos uns tipos que se emocionam quando um luso-descendente isola a molécula da caspa do piolho num laboratório dos Estados Unidos, ou somos quase levados a entoar o hino lavados em lágrimas quando o Joaquim Marreta termina uma etapa da volta à França em 15º lugar, e ignoramos por completo uma artista nascida entre nós, e que era provavelmente a maior estrela dos filmes musicais Estados Unidos durante os anos 40? Contracenou com Don Ameche, Cesar Romero, Groucho Marx e Perry Como, era íntima de Cole Porter, chegou a ser...


...a actriz mais bem paga em Hollywood, decorria o ano de 1945. Foi só mesmo pena que no auge da sua carreira se estivesse em plena II Guerra Mundial. Mesmo assim isso não lhe impediu...


...de ter uma estrela com o seu nome no passeio da fama em Hollywood. Em Portugal quase não se fala dela. Não há homenagens, entrevistas com sobrinhos-netos ou outros parentes sobrevivos em Marco de Canavezes, e não conheço uma rua, praceta, beco ou chafariz que ostente o seu nome - é possível que exista, atenção, mas certamente que a sua imagem está desaproveitada no nosso país, como se fosse alguma vergonha ter sido o berço de uma mulher talentosa, genial, mesmo que a sua rotina se limitasse praticamente a um único número. Mas que número!


E aqui está ele, o original, o único, o inconfundível chapéu de tutti-frutti, que Carmen Miranda usou pela primeira vez em 1939 no filme "Banana da Terra" com tanto sucesso que fez deste ornamento tão vitaminado a sua imagem de marca - a partir daí, não apareceu uma marca de bananas que não tivesse que pagar direitos ao acervo de Carmen Miranda. O icónico chapéu é inspirado nos tradicionais turbantes usados pelas baianas (e em "Banana na Terra" a actriz fazia o papel de baiana), mas Carmen deu-lhe uma roupagem mais "kitch".  É uma daquelas coisas....



...que a baiana tem, e este tema da autoria de Dorival Caymmi, é um dos muitos imortalizados por Carmen Miranda, sempre a atirar para os ritmos do samba. Mas já lá vamos, e voltemos ao chapéu, e na Bahia...


...são assim os chapéus, e era assim que Carmen Miranda os usava a maior parte das vezes. O do "tutti-frutti" ganhou projecção internacional já depois da actriz ter ido trabalhar nos Estados Unidos. Foi no filme "Down Argentine Way", com Don Ameche no papel principal, que foi introduzida a "lady with the tutti-frutti hat", e foi um sucesso. E o que fazem os americanos aos sucessos? Exacto, espremem até à última gota. Mas a Carmen agradecia, e ia sorrindo a caminho do banco.


Pode-se decorar com fruta a gosto, e o meu preferido terá que ter  obrigatoriamente um cacho de bananas, outro de uvas, e um ananás ao alto (ou papaia, mas ananás fica melhor). Reparem neste poster, que foi o título de um documentário sobre Carmen Miranda, feito por altura os 50 anos da sua morte, em 2005. É originalmente é o título de uma das suas canções em inglês, gravadas nos Estados Unidos - e ela até não falava nada mal inglês, antes pelo contrário. Os seus fãs no Brasil iam-lhe voltando as costas, acusando-a de se "vender", e de transmitir uma imagem "negativa" país, dando a entender que era tudo festança e cantoria. Ah? Agora estou um bocado perdido, o melhor é ver isto antes de passar ao próximo ponto:



Este é dos momentos "golden" da artista, e felizmente já consigo ver isto sem me desmanchar a rir. E não ria por deboche, por desprezo, ou por considerar estas imagens tão "kitsch" (e são mesmo) e nem sequer achei aquilo, como se diz no Brasil, "brega". É preciso ter em conta que estamos aqui a falar de uma realidade a 70 anos de distância, e em termos comparativos, Carmen Mirada gozava da  popularidade que Shakira tem hoje, digo eu, só que sem os milhões de dólares e os namorados super-estrelas do FC Barcelona e tudo isso - nem de um clima de paz mundial a coitada da Carmen Miranda gozava. Pode parecer um disparate, esta comparação, e são bem capazes de ter razão: fosse a cantora colombiana fazer aquelas coreografias de marmota no cio a levar descargas de alta voltagem em 1930 e troca o passo e era abatida, internada num hospício ou sujeita a um exorcismo - no mínimo. Mas atentem a esta versão do tema:



Nesta rendição de "Tico-tico no Fubá", a "safadeza" do "samba" e transmitida pelos golpes de cintura de Ney Matogrosso, o gigante andrógino da MPB, enquanto que Carmen Miranda abana feita uma bonequinha suspensa numa mola, olhos revirados para cima, como se verificasse a integridade da cesta da fruta, e as mãos fazendo gestos como quem afasta os peixinhos enquanto mergulha de apneia nas profundezas no oceano. Reparem no encanto que tanto Miranda como Ney dão a uma canção que fala de...um passarinho que rouba farinha. Não tem mais nada do que isto, contudo uma das críticas que se fazia a Carmen Miranda durante o tempo em que gozou de grande popularidade nos Estados Unidos foi o de "desrespeitar as raízes negras do Samba" - aquilo que Jorge Ben Jor chamou de "Samba de preto velho", mas que já se chamava "samba de preto" antes disso. Pouco, ou mesmo nada sei sobre as raízes do samba, ou da sua história, mas sinceramente não entendo o que fez Carmen Miranda de tão "blasfemo"; as marchas de Carnaval mais conhecidas, por exemplo, têm uma temática que vai de um "mamãe eu quero mamar" a um "é dos carecas que elas gostam mais" - denso, sem dúvida.


Outra das críticas que os brasileiros faziam à artista (ao ponto de a levar a perder um grande número de fãs, imaginem) era o da "imagem" que transmitia do Brasil e da América Latina em geral no exterior. Isto é típico dos latino-americanos em geral, fazerem-se de pobres e mal-agradecidos. Já quando Madonna interpretou o papel de Eva Perón para o filme musical "Evita", os argentinos ficaram logo todos piursos, e mais tarde quando foi a vez de Salma Hayek encarnar a figura da pintora mexicana Frida Kahlo, os mexicanos vierem dizer que "têm melhor" - e note-se que nem Eva Perón era uma "santa", e Salma Hayek é, de facto, mexicana. Bem, se não ficam contentes com nada, se calhar o melhor é mesmo ignorá-los. E se os brasileiros não se contentam com a imagem de "país tropical, abençoado por Deus e lindo por natureza, que beleza", então bem podiam deixar de vender essa imagem para fora. A outra que têm é de narco-estado corrupto com tiroteios, raptos e violações, às vezes na via pública e em plena luz do dia. Se calhar é essa a imagem que preferem.


Quanto à objectificação da pessoa mulher que é própria do "show business", e especialmente do circuito onde Carmen Miranda obteve sucesso, permitam-me um pequeno aparte: cada vez que procuro saber mais sobre uma artista ou personalidade histórica do sexo feminino, o capetinha que mora no sótão do meu subconsciente, esse velhaco, espeta-me com o tridente no hipotálamo e pergunta em surdina: "olha lá...levavas aquilo ao castigo ou não". E desta vez até achei a pergunta mais ou menos pertinente: o que dizer de Carmen Miranda como "sex symbol"? Os americanos teciam-lhe os mais rasgados elogios, anunciando-a como "The brasilian bombshell", ou "The sexiest thing coming from South America". Ela cantarolava aqueles sambinhas em português à velocidade de 78 rotações de um velho gira-discos, e bem mandá-los todos a um tal sítio, ou chamar-lhes os piores nomes à mãe, e eles...dançavam. Os americanos gostam é de paródia, e o "sabor do mês" era uma latina com um cesto de fruta na cabeça - uma fruteira ambulante. Quando oiço falar de Carmen Miranda, lembro-me imediatamente de fruta, e se passo por uma frutaria com o produto exposto cá  fora em caixotes penso logo em Carmen Miranda. Se tivesse que existir uma personificação da fruta, seria ela. Se fosse um super-herói (ou heroína, neste caso) era a "Vitamine Woman", ou algo que lhe valha. Se "ia ao castigo"? Em princípio sim, mas para mim mais parecia um personagem da banda desenhada, e isso foi também o seu grande mal, coitada. O que seria um encontro com Carmen Miranda, considerando a possibilidade de romance? Ela vinha vestida de modo informal, na sua versão "humana", e o cavalheiro ia passar a noite a olhar para a sua cabeça. Ela nem precisar de perguntar "porquê", pois a resposta seria sempre algo na ordem do "onde está a cesta da fruta"? Era como se alguém estivesse à espera de ir encontrar o Superman, e lhe aparecesse o Clark Kent.


O tempo em que encarnou a frutífera personagem nunca a deixaram ser ela própria, mas em 1947, já numa fase descendente da sua carreira, casou-se com David Sebastian. Carmen não teve filhos, e desconheço por completo a natureza da relação com o marido, mas posso deduzir que este não lhe terá dado o apoio de que a diva necessitou quando, pura e simplesmente não lhe renovaram o contrato e lhe mandaram ir ser "outra coisa qualquer"? Mas e o quê, se ela não era nada sem a fruta na cabeça, a baloiçar e a dizer inanidades em português do Brasil com voz fininha? Preencheu esse vazio deixado pela decadência com barbitúricos e anfetaminas, quando finalmente em 1955, apenas com 46 anos, desfaleceu durante um dos (poucos) espectáculos para que era convidada a actuar, e não mais voltaria ao nosso convívio.


Pode ser que Carmen não fosse ninguém sem a fruta, mas vingou-se: a fruta nada seria sem que Carmen lhe tivesse dada outro uso que não...bem, comida? Sumos e compotas? Coisas boas, mas sem nada de muito artístico. A sua imagem tornou-se universal, a sua indumentária usada em motivos festivos, quer por miúdos, graúdos e quadrúpedes, deu nome a joalheria e tornou-se - como não podia deixar de ser - um ícone "gay": não deve haver parada em que não se vejam meia dúzia de "carmen mirandos". Deu nome ainda o nome a um tipo de joalharia, e não há marca de bananas com um nome apelativo que não nos lembra, ou de um personagens que encarnava no cinema. Quando não era simplesmente ela própria, interpretava variações dela com nomes como Rosita Rivas ("Weekend in Havana", 1941), Chiquita Hart ("Something for the boys", 1944), Chita Chula ("Doll Face", 1945), Rosita Cochellas (A Date with Judy, 1948) ou Carmelita Castinha (Scared Stiff, 1953). Mesma que insistam que é outra coisa, ninguém me convence que a tal Chiquita Banana não era na realidade Carmen Miranda. E se não era, então para quê imitar o inimitável?


Apesar de tudo isto, Carmen Miranda é praticamente  ignorada em Portugal. É possível que isto se deva ao nosso já célebre fatalismo lusitano, que prefere Amália e os clássicos "Ai que sofro", "Coitadinhos de nós" e "Bom dia? O que há de bom no dia?", entre outros. Além disso no tempo em que ela aquecia os palcos com a sua malagueta (é uma fruta, sabiam?), em Portugal venerava-se Fátima. E mais não digo. Naquele vídeo ali em cima vemos Caetano Veloso e David Byrne a homenageá-la com o tema "Marco de Canavezes/Dreamworld", o que nos leva a pensar o que seria se Caetano fosse um preciosista e desse à canção o título "Várzea da Ovelha e Aliviada" (um nome deveras infeliz, realmente). E por falar nisso...


É em Marco de Canavezes que encontramos o Museu Municipal Carmen Miranda, e não se vale a pena visitar, mas duvido bastante, uma vez que todo o acervo da artista pode-se encontrar no Museu Carmen Miranda, no Rio de Janeiro, que recebe mais de 10 mil visitantes por ano (podem ver aqui o sítio do museu) Em Marco de Canavezes devemos ter uma espécie de "descargo de consciência", como é o tal Museu Salazar em Santa Cona Dão (foi mesmo para  a frente, a ideia parva?) - uma expressão de orgulho bairrista, do tipo "somos poucachinhos por isso somos bons". Mentira, pois se fossem alguma coisa de jeito, eram mais, e não menos e em vias de desaperecer. Duh. Contudo em Várzea da Ovelha e Aliviada ainda existe a casa onde nasceu Carmen Miranda, o que simboliza...bem, o preciso e exacto sítio onde ela nasceu? Pelo menos se quisermos reproduzir uma nova Carmen Miranda, já sabemos onde. Agora é só encontrar as frutíferas criaturas que lhe dêm forma. E vida, e cor, e luz. No ano em que se assinala o 60º aniversário da sua morte (a 5 de Agosto, para ser mais exacto), deixo aqui esta pequena e singela homenagem ao mito, e aproveito para lhe dizer - se ela me estiver a escutar ou ler - que a amo, ao contrário dos seus outros compatriotas. Ingratos...


1 comentário:

Dália Cunha disse...

Boa Tarde,
Sou de Várzea da Ovelha e Aliviada e, apesar de suscitar sempre questões de "como?", "de onde?", "pode repetir?" gosto muito da minha freguesia :)
Li o seu texto e agrada-me ver sempre alguém interessado nesta "pequena notável" nascida nesta freguesia. É certo que durante muitos anos não lhe foi reconhecido o devido valor mas temos lutado por isso! Nesta freguesia, aquando da realização da última toponímia, decidiu-se não haver nomes de ruas com nomes de pessoas, exceto a Rua Carmen Miranda e a Travessa Carmen Miranda. Esta é a rua onde se situa a casa onde a Carmen nasceu. No dia em que se comemoraram os 60 anos da sua morte, em colaboração com a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia e outros importantes patrocínios, o Real Combo Lisbonense apresentou o seu espetáculo "às voltas com Carmen Miranda", de entrada livre, junto à igreja onde a Carmen foi batizada - igreja de S. Martinho em Várzea da Ovelha e Aliviada. https://www.facebook.com/realcombolisbonense?fref=ts . Foi um grande momento para a freguesia e com certeza que a Carmen Miranda apreciou ;)Mais uma vez, muito obrigada pelo seu interesse sobre esta grande senhora e espero que meu comentário lhe tenha agradado. Só o fiz para lhe responder a algumas das suas dúvidas que, confesso, muito pertinentes. Podem ser poucas as coisas que por cá se fazem para manter acesa esta grande estrela, mas em tempos idos não se fazia mesmo nada! Um abraço, Dália Cunha