segunda-feira, 8 de julho de 2013

Líchias para todos os gostos


Apresentando a "líchia"

Do panteão de frutas que podemos encontrar nesta região do Globo existem muitas que não encontramos em Portugal, e cuja simples aparência pode causar estranheza. Entre as que se comem mais ou menos bem ou não desafiam certos preconceitos (ex: comer “durian”, que cheira a merda), gosto especialmente das líchias. Não soa bem, “líchias”, mas penso que esta é a designação portuguesa corrente para aquela fruta pequena, redondinha, com uma casca fina, miolo mole e doce de textura suave que cobre um grande caroço duro com tons de castanho-escuro. Uma fruta deliciosa, doce e especialmente refescante durante estes dias de maior calor. A facilidade com que se prepara e a garantia que oferece de ser sempre doce, não dependendo da maturidade ou da qualidade, tornam-na a mais apetecível da sua família. É mais consistente que o minuscúlo “longan” e mais prática que o peludo e selvage rambutan. É usada em chá e como aromatizante em iogurtes, entra na confecção de algumas sobremesas e cocktails, e com o equipamento adequado pode-se extraír o seu sumo.


Parecem "van-tan", mas são líchias, pasme-se...

A China é o país de origem da líchia (pelo menos julgo que é), e onde a fruta se encontra em maior abundância. Não surpreende que onde exista abundância, se dê largas à imaginação, e que ao fim de anos a usar a omnipresente líchia para o mesmo efeito, descubram-se outras aplicações para o fruto. E assim é, pois nas últimas semanas têm surgido em forums e redes sociais do continente mil e uma receitas de líchia que vão muito além da simples sobremesa. Um cibernauta de Xangai publicou esta imagem de líchias com molho se soja, o que despertou a curiosidade de milhares de seguidores e visitantes acidentais. Utilizadores da rede das mais diversas partes da China aprovaram a ideia, e uma jovem de Chaozhou sugeriu mesmo que algumas frutas sabem melhor com um tempero salgado, nomeadamente amoras e outras com uma acidez mais acentuada.


O recheio é de carne de porco, mas mais uma vez, não são "van-tan". Sim, adivinharam, são líchias.

Não tardou a que chegassem outras sugestões de como incluir as líchias na preparação de pratos originalmente “salgados”. Desde líchias recheadas com carne de porco, apimentadas com malagueta ou wasabi, fritas com mariscos e vegetais, acompanhadas de molhos mais elaborados, há uma “trend” para libertar a fruta da sua mera função de sobremesa. Contudo esta não é uma ideia original, e a História prova que houve quem pensasse nisto antes. Liu Chang, último rei da dinastia Han do Sul que viveu no século X, era conhecido por preparar para as suas concubinas e séquito um banquete com pratos fritos e cozidos tendo como a líchia o ingrediente principal, e muitas vezes o único. Líchias fritas, líchias cozidas a vapor, líchias com molho de líchia, sopa de líchias, era uma ementa "lichiada" lá no palácio. Mas se é bom que chegue para um rei, este é um ponto a favor da inovação.


Camarão frito com feijão verde e...cebola? Errado! Líchias!

Mas da mesma forma que há quem prove e aprove, há quem reprove e não tenha intenção de provar. Os mais conservadores questionam se a utilização de temperos salgados e a fritura não afectarão as propriedades vitamínicas das frutas, enquanto outros não aceitam a mistura de doce e salgado no mesmo prato. Uma das críticas chegou curiosamente de Dongguan, província de Cantão, conhecida pela “capital das líchias” na China. Uma cibernauta aí residente considera que esta ideia “é extravagante”, e o único resultado “é o desperdício de líchias e de outros ingredientes”. Palavras fortes de quem sabe do que fala, vindas do lugar onde as líchias são o símbolo regional. Há ainda quem questione os possíveis efeitos em termos de saúde, e estes estraga-prazeres têm mesmo alguma razão. Os médicos avisam que comer fruta com molho de soja ou outros temperos pode a longo prazo causar problemas em pessoas com problemas digestivos, como diarreia, dores de estômago e irritações do aparelho gástrico. A “aventura” também não se recomenda a diabéticos e doentes cardíacos. Portanto ficam aqui as sugestões, as opiniões dos que gostam e dos outros, e a perspective médica do tema. Agora se quer ousar, é só exprimentar. Líchias fritas para o jantar?

Quem não paga, não mama


Milagre da natureza, ou simplesmente uma ordenha?

Conta-se que uma personalidade assaz conhecida da História de Macau tinha o vício de beber leite materno, e pagava a mulheres lactantes para saciar o seu apetite. O que parece assim à primeira impressão uma espécie de parafilia, é na verdade um costume antigo entre algumas elites, que acreditam nas propriedades do leite humano na manutenção de uma boa saúde, do reforço do sistema himunitário e eventualmente numa maior longevidade. Na China já é negócio, e existem mesmo companhias especializadas neste mercado, oferecendo amas-de-leite a adultos que andem à mama (literalmente, pois). Uma agência em Xinxinyu disponibiliza um razoável número de mulheres lactantes, Pela amamentação as mulheres recebem do “bebezão” 16 mil yuan por mês – quatro vezes mais que um vencimento médio no país – mas podem receber mais caso sejam “atraentes e com aspecto saudável”. Aqui já cheira a marotice, pois os clientes destas leitarias pouco convencionais podem querer algo mais que leitinho. E não me refiro a bolachinhas para acompanhar.

Quanto ao método de consumo, que é a dúvida que estará na cabeça dos simpáticos leitores que usaram um pouco do seu precioso tempo para ler isto, é exactamente como estão a pensar: pode-se beber directamente da fonte. Mas para quem está ali apenas pelo leitinho e mais nada, ou não aceita colocar a boca numa parte íntima de outra pessoa completamente estranha, existe um método de recolha, uma espécie de bomba que retira o liquido que depois se pode beber ou levar para o lanche, ou para a ceia. Mais prático, cómodo e menos controverso, sem dúvida. E é mesmo de controvérsia que esta nova “moda” se cobre. A reacção dos cibernautas chineses foi de forte repulsa, falando de violação da intimidade e ambição de lucro através de meios pouco éticos. O site Sina Weibo realizou uma sondagem online, e mais de 90% dos 140 mil participantes se mostra contra a ideia, enquanto os restantes 10% consideram “um negócio como qualquer outro”. Não surpreende contudo que este seja um produto que desperte a curiosidade e o interesse de muitos, pois segundo a UNICEF apenas 28% das mulheres chinesas amamentam os filhos, uma das taxas mais baixas do mundo. Além do pouco tempo dado de licença de maternidade e das campanhas agressivas dos fabricantes de leite em pó, muitas mulheres acreditam que a amamentação causa danos irreversíveis à sua figura, tornando os peitos pouco firmes e descaídos.

Eu sou a favor de que as mães dêm de mamar aos filhos, pois além de ser a opção mais saudável para a criança, diminui significativamente as possibilidades de contrair o carcinoma mamário. Quanto a este “negócio”, não consigo pensar noutro adjectivo que não seja “doentio” – que me perdoe a personalidade histórica macaense há muito falecida. A lactação é, nos mamíferos, a resposta da natureza à maternidade, completando um ciclo de transformações fascinante, graças ao qual se perpetua a espécie. É humilhante para uma mulher vender um fluído do seu corpo, mesmo que a necessidade extrema o obrigue. Não me parece muito higiénico beber o leite de uma desconhecida, sem saber quais os seus hábitos alimentares, se goza de saúde plena, se consome drogas e tudo mais. Os bebés não têm muito por onde escolher, e qualquer médico recomenda apenas o leite materno como alimento nos primeiros quatro ou cinco meses de vida. É aceitável que uma mulher lactante se ofereça para amamentar uma criança que não é sua quando a mãe desta se encontra impossibilitada, chega mesmo a ser um gesto nobre. Mas um adulto…fica difícil de entender a motivação. Aos mamões, que justificam esta conduta com razões de saúde e não um simples fetiche: procurem um psiquiatra, e já. E aposto que ele vos vai dizer: “era menos grave se fosse mesmo um fetiche”.



Fim-de-semana com os tigres


Quem é o gatinho mais fofinho do dono, quem é?

Um grupo de caçadores furtivos na ilha de Sumatra, na Indonésia, passou um fim-de-semana diferente do habitual. Os cinco homens estão há três dias presos em cima de uma árvore rodeados de tigres, depois de terem morto acidentalmente uma cria do grupo de felinos, no parque nacional de Gunung Leuser. O pequeno tigre caíu numa armadilha montada para apanhar veados, mas nem a natureza acidental da tragédia evitou que a família montasse um cerco aos assassinos – neste particular os tigres são um pouco como os ciganos. Está a ser preparada uma operação de resgate, mas o parque fica a dois dias de distância da cidade mais próxima, Simpang Kiri, na provincia de Aceh. Na eventualidade de chegar ajuda, os tigres precisarão de ser anestesiados com dardos atordoantes, para que os caçadores possam descer da árvore em segurança. Um salvamento que requer mais logística do que simplesmente enxotar as feras, resgatar os homens e levá-los dali para fora nas traseiras de uma carrinha. Os habitantes da região vizinha dizem que são cada vez mais os que se arriscam em Gunung Leuser, a maioria em busca de uma espécie rara de madeira utilizada na fabricação de perfumes e incenso, e que existe em abundância na floresta do parque. O problema dos tigres tem tendência a piorar, pois a desmatação provocada pelas indústrias de plantação de palma e extração de celulose empurram os tigres for a do seu habitat e para junto das áreas mais populadas. Um drama ecológico com um efeito dominó curioso. A natureza no seu estado bruto aliado à influência negativa do ser humano sobre ela.

Morreu o rei do chuto


Bonito fato. Já os heroinómanos...

Morreu este Sábado Lo Hsing Han, conhecido barão da droga birmanês, que um dia os serviços secretos norte-americanos baptizaram de “padrinho da heroína”. Lo, cujo falecimento na sua casa em Rangum foi anunciado por familiares, estaria agora na casa dos 70 anos, e começou a sua fortuna no tráfico há mais de 40. Nos anos 60 o então empresário rural fez um acordo com o então ditador do país Ne Wing: em troca da formação de uma milícia para ajudar a combater rebeldes comunistas na região de Kokang, foi-lhe permitido o comércio de ópio e heroína. Em poucos anos tornou-se num dos mais poderosos e armados barões da droga do chamado “triângulo dourado”, a zona por excelência da produção e exportação de opiáceos para o resto do mundo, que compreende partes da Birmânia, Cambodja e Tailândia. Mas a fortuna e o sucesso não significavam necessariamente respeito e impunidade, e foi precisamente na Tailândia que Lo foi capturado em 1973, e entregue às autoridades birmanesas. Sem que pudesse recorrer às boas graças que o tornaram famoso, foi condenado à morte, pena comutada para prisão perpétua, e finalmente libertado em 1980, beneficiando de uma amnistia geral. Em 1992 fundou com o genro Stephen Law o conglomerado Asia World, uma empresa que serviu de fachada às suas inúmeras operações no âmbito do tráfico de estupefacientes, revestindo-as de uma capa de legalidade. Não deram ponto sem nó, pois com os lucros financiaram a Junta Militar no poder, que por sua vez atribuia-lhes concessões para a construção de pontes, auto-estradas, aeroportos privados e outros empreendimentos imobiliários. O departamento de estado norte-americano colocou-o na lista de embargos e sanções financeiras (apenas) em 2008. Parte assim o homem a quem o mundo deve muitos chutos para a veia. O mesmo senhor que vemos na fotografia com o ar distinto que faz lembrar o pai da noiva num casamento chinês.

Vettel conquista Julho em Nurbruring


Como foi na Alemanha, só ele conseguia ler as placas com as direcções.

Sebastian Vettel ultrapassou mais um obstáculo pessoal ao vencer finalmente durante o mês de Julho, terminando na frente do Grande Prémio da Alemanha, disputado ontem no circuito de Nurbruring. O tri-campeão mundial corria em casa, e conseguiu resistir às investidas do Lotus de Kimi Raikkonen, que regressou aos pódios depois de classificações menos bem conseguidas. O outro Lotus, o de Romain Grosjean, alcançou o último lugar do pódio, assegurando uma etapa positiva em termos de pontuação para a escuderia britânica. O espanhol Fernando Alonso, perseguidor imediato de Vettel na luta pelo primeiro lugar do mundial, não foi além do quarto posto, deixando assim o alemão com uma confortável vantagem de 34 pontos na liderança do mundial de pilotos. Lewis Hamilton em Mercedes foi quinto, à frente do seu compatriota e ex-companheiro de equipa Jenson Button, que marcou pontos pela discreta McLaren. O seu companheiro de equipa Sergio Perez também pontuou, graças a um oitavo lugar atrás do Red Bull de Mark Webber, que depois de um excelente 2º lugar em Silverstone voltou a evidenciar que o desempenho do seu bólide está muitos furos abaixo de Vettel, seu parceiro de escuderia. Nico Rosberg e Nico Hulkenberg completaram os lugares pontuáveis, com o primeiro a ficar muito aquém da sua prestação na semana passada em Inglaterra, onde venceu, e com o último a “raspar” um ponto para a Sauber, que ainda só conseguiu sete esta temporada. O brasileiro Filipe Massa continua a somar desilusão atrás de desilusão, e desta feita foi obrigado a abandonar apenas à terceira volta, depois de uma saída de pista. Os Williams continuam sem pontuar, com Pastor Maldonado e Valtteri Bottas a terminarem em 15º e 16º lugar, respectivamente. Vettel lidera o mundial de pilotos com 157 pontos, seguido de Alonso com 123, Raikkonen 116, Hamilton 99, Webber 93, Rosberg 84. Nos construtores Red Bull comanda com 250, Mercedes 183, Ferrari 180, Lotus 157. A próxima paragem do “grande circo” será na Hungria, com o circuito de Hungaroring como palco, no próximo dia 28 de Julho.

Lord Murray: Ao serviço de Sua Majestade


Já tenho uma fruteira para levar os "fish and chips"

Andy Murray fez ontem história, ao tornar-se o primeiro britânico em 77 anos a vencer o torneio de Wimbledon, o mais mítico dos quatro troféus do Grand Slam em ténis. Poucos estarão vivos para recordar a vitória de Fred Perry em 1936, o último vencedor caseiro do torneio, numa altura em que modalidade estava longe do peso comercial e mediático dos dias de hoje. Murray tinha pela frente o super-favorito Novak Djokovic, nº 1 do mundo e numa forma que indicava não ir deixar fugir mais este título, mas surpreendentemente o sérvio foi “despachado” em apenas três “sets”, com parciais de 6-4, 7-5 e 6-4. Um motivo para os habitualmente arrogantes britânicos se encherem de orgulho, depois de um homem “da casa” triunfar numa modalidade onde o domínio tem pertencido a atletas norte-americanos, nórdicos, espanhóis e do leste europeu. Isto é que foi uma noite agitada nos "pubs" da velha Albion...

Gana, Iraque, França e Uruguai dão "jovens" cartas


A selecção portuguesa de sub-20 já voltou em Portugal há alguns dias, após a eliminação frente ao Gana no mundial da categoria, que se disputa na Turquia. Se server de algum consolo, agora também os chilenos vêm a porta da saída ser-lhe mostrada pelos africanos. Os ganeses voltaram a demonstrar uma grande capacidade de reacção, estando em desvantagem por duas vezes e terminando por consumar a reviravolta: 4-3 foi o resultado, após prolongamento de 30 minutos.

Nas meias-finais o Gana vai encontrar o fenomenal Iraque, que eliminou a Coreia do Sul no desempate nos pontapés da marca de grande penalidade, após um empate a três golos depois de 120 minutos. Já no Sábado foram encontrados os restantes semi-finalistas, a França e o Uruguai. Os sul-americanos também necessitaram da lotaria dos "penalties" para afastar a Espanha, tida como uma das grandes favoritas ao título. Os franceses são agora os únicos sobreviventes europeus em prova, e mostraram serviço, goleando o Uzebequistão por claros 4-0, no único jogo dos quartos que ficou resolvido em 90 minutos.

domingo, 7 de julho de 2013

O quê de bacalhau?



Estava a ler na versão brasileira do Yahoo! um artigo dedicado a pratos com nomes “esquisitos”, onde constava a nossa “Roupa Velha”, aquela refeição económica que se faz com os restos de comida que sobraram dos dias anteriores. Os brasileiros têm a sua parte de nomes de pratos que farão qualquer boa boca hesitar, ou pelo menos certificar-se que se trata realmente de algo comestível. Na região da Bahia, por exemplo, a ousadia leva a que se misture a culinária com o sexo, baptizando alguns pratos com nomes de fluidos corporais e afins, sem prejuízo para a fama da gastronomia baiana, reconhecidamente deliciosa. “Sovaco de Cobra”, “Braço de Cigano” ou “Cueca Virada” (na imagem) são nomes passíveis de pelo menos um levantar de sobrancelhas, mas para nós, portugueses, isto não é nenhuma novidade. Temos uma lista de nomes de pratos pitorescos igualmente respeitável.

Começando então pela tal “roupa velha”. A origem deste nome, bem como de todos os outros que não terão saído das cozinhas dos grandes chefes “gourmet”, tem origem popular. Nas lides do campo e noutras tarefas que implicam esforço, suor e trabalho sujo, convém levar uma roupa já usada, que dê para deitar fora caso não tenha resistido à jornada. Depois de uma semana de farta cozinhação, e onde tantas vezes a quantidade excede o apetite dos comensais, sobra quase sempre comida. Como povo que se preze não deita comida fora, porque não acabar com os restos da semana antes de fazer mais despesa? Usa-se a “roupa velha”, que ao contrário de envergonhar o lar, dando uma ideia de austeridade e contenção, é uma maneira de honrar os menos afortunados, não os insultando com o acto de deitar comida fora “porque sobrou”, ficou a mais. Comer “roupa velha” não implica que se aqueçam os restos da semana e se comam no seu estado original mas com uns dias a mais de frigorífico. Com alguma criatividade e uma dose de talent pode ser um pitéu de fazer crescer água na boca. A culinária macaense tem um prato semelhante a que chamou um nome igualmente divertido: “Diabo”, que é um excelente exemplo de como algo tão deprimente como “restos” se pode transformar num repasto régio.

Outro prato que nos induz em engano é o “Bolo Podre”. Não um bolo podre, mas O Bolo Podre. Temos todos a ideia de que nada podre pode ser bom, mas esta receita beirã que leva farinha de tapioca, leite de coco, leite condensado, coco ralado, ovos, canela e açucar é uma delícia. O nome deve-se provavelmente ao seu aspecto escuro e humedecido, que levou a que alguém mais bem-humorado lhe atribuísse esta designação pouco comercial. Fica complicado convidar um estrangeiro a provar uma fatia de Bolo Podre. – “Want some rotten cake with your tea?” – “Rotten? No thanks…” – “It’s not really “rotten”, it’s actually quite sweet” – “I don’t get it”. De facto é complicado convencer um leigo nestas coisas da pastelaria portuguesa. Nem o Bolo Podre é realmente podre, longe disso, nem o Toucinho do Céu é toucinho, e muito menos caíu do Céu. É uma daquelas “cosas nostras” de que nos orgulhamos tanto.

Quando era pequeno escutava os mais velhos falarem de uma tal “água-pé”, que na verdade é um vinho de qualidade inferior, misturado com água. Uma bebida popular em época dos Santos Populares e das festas que se prolongam noite fora, e onde a pinga barata permita que todos bebam sem dar muita despesa à comissão organizadora. Para quem não sabe que se trata simplesmente de vinho tinto “amartelado”, o nome “água-pé” não transmite muita confiança. A hifenização das palavras “água” e “pé” sugere que se trata do conteúdo de uma bacia que lavou as patorras de alguém. Para mim foi ainda mais difícil superar o choque, uma vez que os tios e os seus amigos da sueca que me deram a conhecer esta “água-pé” ostentavam através das sandálias pés calejados e unhacas pretas. Foi um processo de assimilação do nome complicado antes de me juntar à malta que bebia a “água-pé” que tirava dos barris.

Existem certamente muitos outros pratos com nomes bizarros, mas termino esta breve dissertação com o meu favorito: as punhetas de Bacalhau. Novamente recuando até à infância, lembro-me de ouvir falar deste prato, e a forma como os adultos o pronunciavam deixava-me intrigado. Dizer a palavra “punheta”, o calão que designa a auto-gratificação masculina, não me livraria de pelo menos um raspanete, mas “punhetas de bacalhau” dizia-se com um à vontade tal que parecia que acrescentando “bacalhau”, a palavra “punheta” tornava-se completamente inofensiva – ninguém se lembra da onanista “punheta” quando se refere a uma das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Ao contrário da expressão popular “o bacalhau quer alho”, cujo valor se reduz à mais pura das brejeirices (o bacalhau não “quer” nada, está morto), estas “punhetas de bacalhau” são um prato a sério. Quer o ardina, a peixeira, o operário, o medico ou o Presidente da República podem dizer “punhetas de bacalhau” sem que alguém o censure, e pode fazê-lo no restaurante, na televisão, no Conselho de Estado ou em frente dos filhos pequenos ou do papagaio. Quanto às punhetas, cada um terá a sua opinião pessoal, mas quando se toca às do bacalhau, são uma delícia.

sábado, 6 de julho de 2013

O triste e os turistas


Mais uma semana que termina, e como é habitual à sexta ou ao Sábado, deixo-vos com o artigo da edição de quinta-feira do Hoje Macau. Tenham um bom resto de fim-de-semana.

Macau é uma cidade visitada anualmente por milhões de turistas. Hordas de forasteiros entram pelas nossas fronteiras, pela terra, pelo mar e pelo ar, procurando a resposta à pergunta que cada vez mais se faz lá fora: “O que é que Macau tem?”. Além do mais que óbvio do jogo e quejandos, muitos chegam ao território sedentos de conhecer o que ficou dos quatro séculos de convivência Ocidente-Oriente, encontrar os vestígios da presença de uma potência estrangeira, neste caso Portugal, em terras chinesas. Os monumentos, as igrejas, as placas com os nomes das ruas, outras referências catitas tão únicas e que deixam sonhar com histórias de piratas e aventureiros, da macedónia de influências que moldou Macau a tornou um lugar único no mundo, que acicata a curiosidade de quem ainda não viu o que isto é. Claro que o tom elogioso com que descrevo Macau neste parágrafo é com a melhor das intenções, estilo “cartão postal”, sem ironia de espécie alguma. Uma aproximação mais redutora à estatística do número de visitantes passaria pelo jogo apenas, entre outras malandrices. Mas digamos que temos património e motivos de interesse quanto bastem para trazer até cá mais do que jogadores, branqueadores e outros usurpadores.

Para quem vive em Macau há alguns anos, e não serão precisos muitos, já viu e reviu o tal património que consta dos guias turísticos, e está farto de saber o que recomendar a um visitante mais desorientado que lhe peça ajuda. O Macau dos livros de História fica visto em menos de uma semana, e o que realmente tem interesse em termos de património edificado conta-se pelos dedos de uma mão. Quem conheceu Macau há dez, vinte ou trinta anos fica pouco impressionado com a transformação do seu centro histórico, uma amálgama de comércio insonso que alterna a opulência e o baratucho a cada porta, e a espaços é decorado com este ou aquele monumento. Para nós portugueses faz um pouco de confusão ver aquela malta toda a fotografar as Igrejas com a avidez de um burro que contempla um palácio. Qualquer paróquia mais humilde em Portugal tem uma igreja matriz que em nada fica a dever com as igrejas de Macau. As Ruínas de S. Paulo são o ex-líbris do território por excelência. Mas porquê, se não passa de uma escadaria em pedra que vai dar a uma fachada do que em tempos foi um convento/igreja? O que é aquilo comparado com o Mosteiro da Batalha, por exemplo?

Quem circula diariamente pela área que a Unesco distinguiu como património da humanidade sabe quão fácil é perder a paciência face às resmas de turistas que nos entopem o caminho. Os fins-de-semana, feriados, semanas douradas, prateadas e tudo mais são os mais críticos, e é interessante observar o comportamento de alguns dos forasteiros que nos visitam. A tendência da maioria é de se preocupar com o próprio umbigo, alheios ao que os rodeia. Parados no meio da rua ou em fila indiana seguindo um guia que os orienta através de uma vara com uma bandeirinha, um lenço ou uma cueca rendada na ponta, ignoram completamente o facto de existirem pessoas que aqui vivem e trabalham, têm coisas para fazer e sítios onde ir, e às vezes têm pressa. Sorte deles, que estão de férias e em viagem, mas pouco me importa se fazem beicinho quando me atravesso à sua frente quando estão a tirar fotografias da família, da namorada ou das pedras da calçada. Ainda estou para perceber o que leva alguns “tours” que por aí andam a ostentar na camisa um autocolante da agência de viagens que os levou até cá. Eu tinha vergonha. Já agora tatuavam na testa qualquer coisa do género “Não sou de cá, só vim ver a bola”.

Não duvido que existam turistas de qualidade, mesmo que poucos, que dotados da sensibilidade de quem ouviu falar das coisas boas de Macau nos honram com a sua visita. Mas ao contrário de outras cidades que convidam ao regresso ou a uma visita mais demorada, que transbordam de motivos de interesse e insistem em renovar constantemente o seu charme, Macau fica visto da primeira vez, e em poucos dias. Seria uma ingenuidade da minha parte pensar que podíamos aspirar à elegância e à estética de cidades como Paris, Barcelona ou Berlim, ou ao encanto cosmopolita de Hong Kong, Singapura ou Xangai, citando alguns exemplos mais próximos. Macau é o que é, e quem aqui regressa tem provavelmente mais que fazer do que simplesmente passear. E é pena. Preferia que tivéssemos qualquer coisa por descobrir, uma cartada mais para jogar, um ás na manga.

Mas não se pense que estou a cuspir no prato onde como, nada disso. Respeito o património e qualquer esforço no sentido de o preservar, a sã convivência entre pagodes e capelas deixa-me inchado de orgulho, e o número de turistas que nos visitam só peca por escasso. Venham muitos mais, e mais vezes, que nos invadam, que nos fotografem, que se metam no caminho, que encham os restaurantes e se atravessem no nosso caminho. Se acaso nos pisarem aquele calo mais sensível, respondamos com um sorriso amigo, e indiquemos o local mais próximo onde possam provar uma “portuguese egg tart”. E onde fica o lugar de interesse mais próximo? Fácil: é sempre cinco minutos a pé do local onde se encontram. E se no for, com toda a certeza que há um autocarro que os leve até lá.


Assexualidade: chegaram os neutros


Já conheciamos os heterossexuais, os homossexuais, os bissexuais e mais recentemente os metrossexuais, mas eis agora os “assexuais”. Um assexual é alguém que não sente atração sexual, muito resumidamente. Se todos nós procura um parceiro ou parceiros para uma boa dose de pouca-vergonha, os assexuais são uns tipos que não estão para ali virado. Não lhes apetece. O libido encontra-se permanentemente fora de serviço. Se a sobrevivência da humanidade dependesse deles, teriamos que nos reproduzir como as amoebas ou os caracóis. Calcula-se que 1% da população mundial seja assexual – o que ajuda a explicar aqueles tipos solteiros sempre sozinhos que nem por isso são rabetas, ou as tipas que rejeitam as investidas masculinas mas não parecem lésbicas. Parecendo que não, isto até é uma quantidade respeitável de gente, e existe um site oficial sobre o assunto: www.asexuality.org , que se dedica a esclarecer dúvidas e partilhar experiências (ou neste caso a falta delas). Os especialistas (psiquiatras e outros “endireitas” da mioleira) descrevem mesmo a assexualidade como uma forma de sexualidade; há os que gostam do sexo oposto, do mesmo, de ambos e porque não, de nenhum. Existe mesmo mais que um tipo de asexual, mas como no fim o resultado é igual, é indiferente que exista um tipo ou mil, conforme a pancada. Em França foi mesmo criada uma associação, e para quem tem vontade de ser membro, basta não ter vontade…bem, mais ou menos isso. Uma curiosidade que fere a reputação que os franceses gozam de serem uns gajos muito namoradeiros. Ser assexual não significa ficar indiferente aos encantos alheios, mas a falta de “acção” complica as coisas. Um participante do forum da página oficial queixava-se que “tem namorada há cinco meses, ama-a, mas a assexualidade está a começar a afastá-la”. É mais ou menos uma espécie de eunuco, só que em vez de lhe faltar o equipamento, teima em mantê-lo dentro do pacote. Razão têm os tipos que convencem a namorada a ir para cama com ele a primeira vez para “expressarem fisicamente o amor que sentem um pelo outro”. Mesmo existindo um número assinalável de assexuais por aí, esta modalidade sexual não deverá pegar, talvez por ser demasiado…aborrecida? Anormal? E que tal “esquisita”? Mas já que estão identificados e ainda por cima contactáveis, deixo uma recomendação ao Vaticano: www.asexuality.org é um lugar bestial para recrutar novos membros, e evitar mais escândalos.

A ração do século XXI


Os efeitos nocivos da “fast-food”, ou comida rápida, são piores do que se pensava. Segundo alguns especialistas em nutrição, uma dieta regular de comida rápida está a causar efeitos devastadores na juventude dos países industrializados, e o seu valor nutritivo é inferior ao dos racionamentos em tempo de guerra. Uma ração no Reino Unido durante 1940 e 1954 consistia de um ovo, 100 gramas de margarina, 50 de manteiga e chá, uma fatia de queijo, quatro fatias de bacon e duzentas gramas de açúcar. Não parece grande coisa, mas é certamente mais nutritivo que um Big Mac meal ao almoço e uma lasanha congelada ao jantar. A única guerra que se trava nos dias de hoje nas grandes cidades é a do quotidiano, e muitas famílias optam por refeições rápidas para alimentar o seu agregado. Para os pais é mais económico que os filhos almocem numa das cadeias de “fast-food”, para os miúdos é mais rápido e normalmente mais saboroso que a comida da cantina da escola, e ao jantar opta-se cada vez mais pela comida de microondas, que se prepara em poucos minutos. O resultado é o regresso de doenças que apenas tinhamos conhecido através dos livros de História, como o escorbuto (carência de vitamina C) e o raquitismo (carência de vitamina D, calico e fósforo). As deficiências vitamínicas causadas pelo consumo regular de alimentos produzidos à escala industrial sem outra qualidade de monta que não seja encher a barriga, provocam um agora um retrocesso inesperado em matéria de saúde pública. Um reconhecido dietista britânico, Sioned Quirke, afirma que a maior parte das dietas actuais “são piores do que há cem anos”, e teme um aumento de doenças oportunas causadas pelo enfraquecimento do sistema imunitário, derivado de uma dieta desequilibrada. Dados preocupantes, sem dúvida. A este ritmo as próximas gerações urbanas não reconhecem uma laranja ou uma cenoura.

World War Z


O filme deste Verão, "World War Z", com a super-estrela Brad Pitt no papel principal. Pode não ser nada de novo, trata-se apenas de um blockbuster-catástrofe-apocalipse-zombie a abarrotar de efeitos especiais, mas nada mais agradável do que assistir ao mundo a ser destruído no conforto de uma poltrona equipado de óculos 3-D, para dar a impressão que os cacos do planeta nos batem na tromba. Uma noite de férias bem passada.

Russos de barba rija


A Rússia encaminha-se a passos largos para se tornar no meu país favorito. Nestas imagens recolhidas numa cidade não identificada, um motorista aborrece-se com um taxista que lhe risca o carro. E o que fazem eles? Chamam as autoridades? Preenchem apólices? Ficam com o contacto um do outro? Na, isso é para meninas queixinhas. O tipo sai do carro com um revólver, atinge o taxista com um tiro na perna, e depois vai à sua vida. E ainda dizem que este é um povo de burocratas…

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Demografias

Entrou em vigor na segunda-feira na China uma legislação controversa e que tem gerado coros de protestos, que obriga os familiares com idosos a viver sozinhos ou instituidos a visitá-los pelo menos uma vez cada dois meses. No mesmo dia que a legislação entrou em vigor, uma avó do continente ganhou em tribunal um processo que interpôs contra a filha e o marido desta, porque “não a visitavam”. Esta senhora de 77 anos, de Wuxi, província de Jiangsu, anda com a ajuda de muletas, mas anda aparentemente muito bem informada. A audiência no mesmo dia em que entra em vigor uma lei que decide o caso a seu favor não será mera coincidência. O juíz decidiu a seu favor e a filha é obrigada a visitá-la pelo menos uma vez cada 60 dias, e pelo menos um dos dias festivos. O incumprimento pode levar a multa, que como se sabe na China pode ser mais complicado do que ser preso. Podia ter recomendado que lhe trouxessem também guloseimas, em vez de veneno para os ratos, mas provavelmente deixam isso ao seu critério.

Somos todos sensíveis aos casos de idosos solitários abandonados pelos descendentes, os velhos que morrem em casa e apodrecem até se notar o cheiro, vultos de roupão e cabelos brancos a contemplar uma folha que cai de um carvalho no Outono, com um olhar vazio. Tudo isso, muito triste, muito maricas. Agora que se aproximam as férias muitos agregados familiares começam a pensar em “internar” um idoso a seu cuidado durante trinta dias, dizendo que “amanhã voltam” e vão buscá-los no regresso bronzeados e cheios de saúde, dizendo que se “esqueceram”. Esta baga do arbusto da vida é uma que nos assusta, pois se hoje andamos por aqui na boa vida sem miocárdios ou tromboses, nunca se sabe se amanhã vamos estar de boca aberta a falar com uma parede, sem fazer sentido e requerendo cuidados básicos de higiene. Se a isto juntarmos o efeito “boomerang”, mostrando aos nossos filhos como se deve tratar um velho, temendo que eles nos façam o mesmo. Quem não tem cu não tem medo, mas também morre sozinho quem opta pelo celibato – vai dar ao mesmo. Esta lei que entrou a vigor na China esta semana devia ser implementada em Portugal, e já.

Os asiáticos em geral e os chineses em particular dão um grande valor aos idosos, e respeitam-nos mesmo que estejam gagás e os ameaçem com a bengala. O negócio de lares de idosos existe em Macau também, mas é tão residual que mal se notam. Os velhos que acabam nos lares ou a cargo das instituições são normalmente pobres, de família dispersa. Os residentes do território de idade superior a 70 produziram a geração que tem actualmente entre 30 e 50 anos, e isto são famílias relativamente numerosas. Dos cinco ou seis filhos ficarão sempre dois ou três para garantir que cuidem dos pais na sua velhice, que os assistam na doença e garantam que não perdem a casa num qualquer conto do vigário. Um idoso de uma família de classe média tem normalmente casa própria, são visitados pelos filhos diariamente, e caso estejam sozinhos contrata-se uma empregada que olhe por eles durante o dia. Ser velho em Macau não é tão dramático como tantos pintam no retrato. Até não é um sítio mau para se esperar pela morte.

Na China a coisa muda de figura. Actualmente a população acima dos 60 é de 14%, em 2050 será de 30%, com tendência a subir pelo menos um ponto por ano. Não entendo o motivo da lei, se agrada aos idosos desprezados serem visitados como cumprimento de uma obrigação legal, e se não insulta os filhos que visitam regularmente os pais. Só faltava pendurar na cadeira de rodas um relógio de ponto para registar a entrada. Talvez perante os números acima referidos estejam já a pensar num plano de educação cívica a longo prazo: “Vem visitá-los antes de te juntares a eles”. A verdade é a política do filho único, a panaceia encontrada para travar o ritmo formigueiro do aumento da população, levou a um monte de problemas, e um deles foi este: ficou um “buraco” geracional que deixou mais velhos para tomar conta e pouca gente nova com tempo para isso. Quem sabe se em vez da política do filho único deviam ter pensado antes na “política do número de filhos razoável”? Era só anunciar que depois não ia haver comida para todos, e pedir que tivessem juízo.

Na India foi há alguns anos levado a cabo um programa que visava travar o crescimento populacional e o subsequente empobrecimento. A campanha “two will do” apelava a que os casais tivessem apenas dois filhos, conforme as posses. Mas como nestas coisas a India é uma “democracia”, não se pode obrigar ninguém a nada, e ficou-se pelas boas intenções. A população rural, que representa uma grande parte da India, insiste em ter hordas de filhos, cuidando para que hajam mais braços para trabalhar. Outros ainda argumentam que têm muitos filhos “porque os desastres e as epidemias matam sempre um ou dois”. Quem pode negar que este é um argument de peso? É uma matéria de poucos anos até a India se tornar o país mais populoso do mundo, e se tivermos em conta que o Paquistão, Bangladesh, Nepal, Sri Lanka ou Praça de Espanha são meras fracções alienadas da grande India, então há muito que encontrámos o grupo demográfico dominante neste continente.

Isto dos gráficos de crescimento populacional e o envelhecimento da população apresenta números assustadores, caso lhes validemos com algum crédito. Juntando todos os mapas demográficos actuais e acreditando nas tendências, daqui a 500 anos temos um mundo de 60% indianos, 30% chineses, e os restantes dez de troco em africanos, turcos, árabes, hispânicos e malaios. Por mim tudo bem, que até nem gosto de jogar com as brancas, mas além da probabilidade deste cenário ser mínima (pelo menos tão cedo), é indeferente quem cá anda, desde que se porte bem. Se hoje fosse revelado que os esquimós são a espécie humana que mais se aproxima da perfeição, que tenhamos um mundo apenas com esquimós. Só é preciso é não esquecer os mais velhos, os que nos pavimentaram o caminho, a um custo que só vamos saber quando chega a nossa vez. E enquanto não partirem, usemos o tempo que nos resta com eles para aprender um pouco mais, e reflectir sobre coisas simples, como a natureza que se renova a cada estação, e pensar também em fazer a renovação necessária. Todos queremos viver mais, passar mais tempo junto dos nossos, e de preferência felizes. Porque é que temos que fazer disso um problema?

Fartos um do outro? Depois isso passa...

Até que a quê nos separe?

Está farto do seu marido ou mulher? Já passou por tantas crises matrimoniais que só o doce beijo da morte trará sossego? Cada gota parece ser sempre a última? Só ainda não bateu com a porta “por causa dos miúdos, coitadinhos”? O suicídio parece a única saída? Não desespere, pois segundo um estudo recente levado pela Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos, o tempo encarrega-se de tornar o casamento mais suportável. E de facto é assim mesmo, pois o estudo que acompanhou 127 casais de meia-idade ou mais velhos, todos casados há mais 13 anos, concluíu que a comunicação melhora à medida que as discussões se sucedem. Muitos casais recém-casados ou com apenas cinco ou seis anos de “trela” ficam agastados depois de uma discussão com o cônjuge, e aquela sensação de querer ver a cara-metade pelas costas custa mais a passar. Mas a dra. Sarah Holley, que conduziu a pesquisa, afirma com alguma segurança que os casais adquirem como que uma espécie de anticorpos à medida que o casamento se vai prolongando. “O avançar da idade e a longevidade do matrimónio levam a que uma das partes ou ambas evitem a confrontação”, diz Holley, considerando que a certo ponto as discussões “servem apenas para canalizar algum tipo de descontentamento de uma das partes, enquanto a outra tenta apaziguar concordando ou simplesmente ignorando”. É mesmo assim, os velhinhos são mais felizes e levam isto do casamento como se fosse um desporto. Podem insultar-se mutuamente, esconder os remédios um do outro, deitarem-se juntos apenas para dormir, resmungar por tudo e por nada, mas são felizes. O segredo é aguentar essa enorme tentação de meter os papéis para o divórcio nos primeiros anos, que depois a decadência e o pavor de morrer sozinho encarregam-se do resto.

Quem contra quem

Saíu a data das conversas de café

Realizou-se ontem na sede da Liga de Clubes em Portugal o sorteio do calendário da Liga de Elite 2013/2014, bem como da Segunda Liga e da primeira eliminatória da Taça da Liga. Na primeira jornada, a realizar no fim-de-semana de 18 de Agosto, o tri-campeão FC Porto vai ao Bonfim visitar o V. Setúbal, enquanto o Benfica terá que se deslocar à Madeira para defrontar o Marítimo. A ver se Jorge Jesus não começa a "meter água" logo nas ilhas. O Sporting joga em casa, e logo frente ao estreante Arouca. Um bom teste para conferir as "melhoras" do leão, agora com novo treinador e plantel ainda indefinido. Só é preciso esperar até à 3ª jornada para assistir a um clássico, e o palco será o Estádio Alvalade XXI, onde o Sporting recebe os eternos rivais da capital, o Benfica. Já em finais de Outubro, na oitava ronda, é a vez dos leões desafiarem o Porto no Dragão. Quem achou emocionante que o campeonato anterior tivesse ficado decidido com um Porto-Benfica na penúltima jornada, segure-se bem, pois este ano é na última! Assim o FC Porto vai à Luz nos primeiros dias do mês frio de Janeiro concluír a primeira volta, e já em pleno Maio primaveril recebe os encarnados, na derradeira ronda da prova. Um campeonato que promete. Confira aqui o calendário completo.

Morreu o pai do rato


O inventor fez o seu último "click"

Se o seu rato não estiver com muita vontade de funcionar hoje, é porque está de luto. Doug Engelbart morreu esta terça-feira aos 88 anos de insuficiência renal na sua casa da Califórnia. Foi na feira de tecnologia de S. Francisco em 1968 que Engelbart apresentou a sua criação, que viria a revolucionar o uso de computadores em todo o mundo. Diz quem lá esteve que a teatralidade da apresentação valeu-lhe mesmo uma ovação de pé. Um génio da técnica e do marketing. E assim nos deixa um dos revolucionários da indústria informática; parte o homem e fica a obra.

Querida, fizeram-me Photoshop


Doutor, não sei bem porquê, mas ultimamente dói-me a cabeça. É grave?

Parece uma fotografia digitalmente modificada, mas é mesmo este o aspecto de António López Chaj, um californiano de 43 anos que recebeu agora uma indemnização de 58 milhões de dólares depois de ter ficado sem parte do crânio. Tudo aconteceu em 2010, quando Chaj foi a um bar do seu bairro com o irmão e dois sobrinhos. Um dos familiares envolveu-se numa discussão com o dono do estabelecimento, e quando Chaj se intrometeu entre ambos foi agredido com um bastão por um dos seguranças, que ainda lhe pisou a cabeça. O seu estado inspirou de imediato cuidados, e Chaj foi levado para um hospital próximo, já sem parte do crânio. O segurança autor da agressão e o gerente do bar puseram-se de imediato em fuga. Os médicos conseguiram salvar a vida a Chaj, mas o pobre homem ficou com lesões que o impedem de falar e fazem com que necessite tratamento ambulatório 24 horas por dia. A aparência de Chaj deixou os jurados em choque, e como tal atribuiram-lhe a maior indemnização do género na história do estado da Califórnia. É caso para perguntar: é melhor a morte que tal sorte?

Ui, a Bolívia! Que medo!


O índio andou a passear pela Europa...e ainda se queixa

A diplomacia boliviana está furiosa, depois de um conjunto de países europeus ter recusado a passagem do avião que transportava o presidente Evo Morales a sobrevoar o seu espaço aéreo. Portugal, Itália, e especialmente a França são o alvo da fúria andina, que os acusa de não respeitarem tratados e normas internacionais. Na origem do problema está o ex-espião Edward Snowden, retido no aeroporto de Moscovo desde 23 de Junho à espera de um país que lhe conceda asilo politico. Acontece que Morales esteve numa cimeira em Moscovo, e como é célebre a pouca simpatia do politico boliviano com o Executivo norte-americano, temia-se que no vôo entre a capital russa e a América do Sul viajasse também Snowden. Os países europeus até simpatizam com a Bolívia e tal, mas não querem chatices com Washigton e assim jogaram pelo seguro, negando as intenções de Morales de sobrevoar o seu território. O avião presidencial ficou retido em Viena de Austria durante 13 horas aguardando uma nova rota, o que em matéria de agenda constitui sempre um enfado. Afinal parece que Snowden continua no aeroporto de Moscovo, e Morales não se quis armar em herói, levando o “troféu” para La Paz debaixo das barbas dos americanos, que querem deitar as mãos no ex-agente da CIA – e não será para lhe fazer festinhas. O MNE boliviano faz agora o que lhe compete, refilando e batendo o pé aos países que causaram a fatiga de “el presidente”, que perante tal incerteza de quando chegaria a casa, mascou a reserva de folhas de coca que leva consigo para toda a parte. Pronto, os governos europeus em causa já apresentaram desculpas, mas a Bolívia diz que “não chega”. Por enquanto vão desbobinando a habitual retórica do imperialismo “yankee” e dos seus lacaios europeus, no estilo “old school” do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, mas depois isto passa-lhes. Ora bolas, a Bolívia está zangada. Que medo.

Morsi já não mora ali


Nem a gravata o livrou da "bota"

O Egipto volta a estar a ferro e fogo nos últimos dias, com mais uma onda de protestos a levar ao derrube de mais um governo. O presidente Mohammed Morsi, eleito há apenas um ano, viu-se forçado pelo exército a abdicar do cargo e encontra-se em prisão domiciliária, e o poder volta a ser temporariamente entregue aos militares até à convocação de novas eleições. Morsi assumiu a liderança de um dos maiores países de Africa e do mundo islâmico em 2012 após a vitória do seu partido, a Irmandade Muçulmana, nas primeiras eleições livres realizadas em mais de 30 anos. A Irmandade Muçulmana gozava de grande popularidade no Egipto, muito devido à oposição assumida que fazia ao regime do ex-presidente Osni Mubarak, que se agarrou ao poder no país durante três décadas. Contudo a Irmandade é vista com desconfiança no Ocidente, pois terá sido desta que a infame Al-Qaeda se originou, e de onde se inspirou. Morsi era contestado praticamente desde o início, pois planeava levar a cabo reformas que levariam a maior islamização do Egipto, que apesar de ser um dos países mais cumpridores dos preceitos do Corão, goza de algumas características que o diferem de estados onde impera a lei islâmica, sobretudo no que toca à tolerância religiosa ou às relações com países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos. O Egipto é um bom exemplo das dificuldades que alguns estados têm em lidar com a liberdade recém-adquirida. Mubarak e o seu séquito exerceu o poder com uma mão-de-ferro que muitos interpretaram como “necessária” para preserver a ordem num país dividido em aspectos politicos e religiosos, e situado numa zona do globo sensível, entre Israel e o mundo árabe. Os egípcios têm direito a uma democracia real, onde possam escolher os seus líderes e fazer ouvir a sua voz, mas precisam de se decidir. Festejar a queda de regimes ou de presidentes pode parecer uma noite bem passada e uma desculpa para que se cometam alguns excessos que durante muito tempo não lhes foram permitidos, mas um país é um colectivo, e precisa de um Governo. Que se orientem o mais rapidamente possível e desta vez escolham com sensatez, para o seu próprio bem.

O regresso de Maddie McCann (ainda desaparecida)


Maddie à data do desaparecimento e como poderá ser agora

O caso de Maddie McCann, a criança inglesa desaparecida em Portugal há seis anos, continua a mexer. A Scotland Yard, a polícia britânica, anunciou que vai iniciar a sua própria investigação, e afirma existir uma forte possibilidade da jovem estar viva. Os investigadores identificaram 38 pessoas envolvidas no caso, 12 deles cidadãos britânicos, e nenhum conhecido do casal McCann. A Scotland Yard nomeou uma equipa de 37 especialistas para tratar o caso, reuniu 30500 documentos e planeia levar a cabo 3800 acções. Já foi requisitada a colaboração das autoridades portuguesas, que ficaram inicialmente encarregadas do caso. O desaparecimento de Maddie McCann deu origem a uma novela que apaixonou a opinião pública. No dia 3 de Maio de 2007 o casal McCann passava ferias na Praia da Luz, em Lagos, com os três filhos menores. Na noite em que se deram os factos sairam para jantar deixando as crianças a dormir no quarto, e quando regressaram depararam com aquilo que preenche os pesadelos de todos os pais que amam os seus filhos: o desaparecimento de um deles. Madelaine, de apenas três anos, sumiu sem deixar rasto, e desde logo se temeu o pior. A polícia portuguesa encarregou-se da investigação inicial, e a forma como a conduziu não ficou isenta de críticas. Entre algumas das hipóteses formuladas para o desaparecimento de Maddie estava a possibilidade dos próprios pais a terem matado, e depois ocultado o corpo. Apesar do pragmatismo das autoridades que lidam com estes casos, que consideram à partida “improvável” que a criança raptada esteja viva, os McCann continuam a acreditar que vão ver novamente a pequena Maddie. Não querendo fazer aqui o papel de juíz, condenando os pais desleixados ou as autoridades incompetentes, espero que a investigação da polícia inglesa produza resultados. O ideal seria que a pequena fosse encontrada com vida e devolvida à família, mesmo que isto signifique uma longa e intensa terapia de readaptação. Se não for possível um final feliz, que se fique a saber a verdade, pelo menos , e já agora que se apurem e castiguem os responsáveis.

Vídeo da semana


Imagens dignas de um daqueles filmes-catástrofe produzidos em Hollywood. Uma mulher de Toledo, Ohio, não ganhou para o susto depois do seu carro ter sido literalmente “engolido” por um troço de estrada. Pamela Knox, de 60 anos, conduzia o seu automóvel na hora de almoço de quarta-feira quando o piso alcatroado cedeu, fazendo-a cair num buraco de seis metros de profundidade. A condutora escapou com ferimentos ligeiros e foi prontamente assistida no hospital. Os bombeiros afirmam que o buraco “pode tornar-se ainda mais fundo”.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Something about Portugal


Aborreces-me Pedro...não quero brincar mais.

Alerta! Alerta! Há uma crise politica em Portugal. Vejam só que coisa tão banal: está prestes a cair o XIX Governo Constitucional. Para quem não é familiar com a numeração romana, XIX quer dizer “19” em numeração árabe. Partindo da certeza que este Governo não cumprirá o mandato para que foi indigitado até 2015, o próximo será o 20º, em menos de 40 anos de democracia abrilista, uma média de menos de dois anos por Governo. A única excepção que torna esta média menos frequente foram os 10º, 11º e 12º Governos, liderados por Cavaco Silva, que se “aguentou” no cargo durante 10 anos, um recorde desde o evento da democracia. Se os governos passam como uma brisa e não deixam saudades, a sua queda deveria ser tratada com indiferença na imprensa. Nos telejornáis, depois das notícias e já com os créditos a passar em rodapé, o locutor ou locutora de serviço devia anunciar assim em jeito de curiosidade: “Ah sim, e o Governo voltou a cair, eleições outra vez um dia destes”. E o povão, já habituado a coisas destas, fica a pensar com os seus botões: “só espero que não caiam num dia bom de praia”.

A crise que ocupa agora o “prime-time” da informação em Portugal e tem merecido destaque na imprensa internacional teve origem na demissão do ministro das Finanças Vítor Gaspar, o pai da austeridade que deixou os portugueses (ainda mais) à míngua. Gaspar anunciou na segunda-feira que não tem mais condições para conduzir as finanças do país durante a próxima fase do grande plano do saque nacional, desculpem, aquela coisa que a Alemanha e a troika querem para que Portugal se mantenha no Euro e não dê origem a outra crise que coloque em causa a união monetária, imitando a Grécia. No dia seguinte o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho nomeou Maria Luís Albuquerque para o seu lugar, e num gesto simbólico, promoveu o Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas a nº 2 do Executivo. Portas é líder do PP, partido-muleta do PSD de modo a garantir a maioria parlamentar que legitima esta (des)governação desde 2011. Portas, e logo quem, demitiu-se de seguida, alegando discordância com a escolha de Albuquerque, e perante a cisão da coligação, o Governo fica com os dias contados, e todos esperam que o presidente Cavaco Silva dissolva o parlamento e convoque novas eleições.

Vítor Gaspar é um indivíduo com que simpatizo, e reconheço ter sido o homem certo no lugar errado e há hora errada. Não foi por malícia ou perfídia que projectou os pacotes de impostos e redução da despesa pública.Foi-lhe exigido que se tornasse o mensageiro das más notícias, e foi preciso coragem para queimar completamente a sua imagem, que fica associada à de um vulgar gatuno ou pilhador de galinhas. Seria preciso um louco em camisa-de-forças com um funil na cabeça, estrábico e com a língua de for a para deixar os portugueses felizes, prometendo mundos e fundos e dizendo aos portugueses “gastem, gastem meus irmãos, que a Europa paga”. Chego a ficar com pena do senhor, que durante algum tempo vai ter problemas em sair de casa, ir ao café da esquina beber uma bica e comer uma queijada sem se submeter à censura dos portugueses, que o culpam por andar a contar os trocos poucos dias antes do fim do mês. Quando tudo isto passar – se alguma vez passar – devia-se erigir uma estátua a Vítor Gaspar, um dos mártires da crise provocada por anos e anos de gestão danosa.

Paulo Portas, por seu lado, é um indivíduo matreiro, calculista e indiferente. Quem nasceu em berço de ouro como ele, fundou um jornal para se divertir a exercer o papel de “bad boy” do anti-estabelecimento e entrou na política para se divertir e acabar chatear os tipos que não conseguiu atingir n’”O Independente”, está-se nas tintas para os pobres ou para os remediados. Portugal a nadar em euros ou na bancarrota total é-lhe igual, pois não lhe faltarão os Maseratis, as vivendas, as jantaradas e a restante opulência a que habituou desde que nasceu. A sua birra fez tremer a coligação, o Governo está ainda por um fio, e a possibilidade de regressar ao Executivo em novas funções que evite a sua queda não o livram dos olhares mais suspeitos. Num período em que exigem sacrifícios aos portugueses, quem é este gajo para deitar tudo a perder em nome de um lamentável assomo de vaidade? A partir de agora um Governo com Portas e o PP do seu lado é como uma ferida que por mais pontos que cosam, vai manter-se sempre aberta e a sangrar.

Portugal encontra-se numa encruzilhada que nem o maior milagre vindo do panteão dos santos em que os portugueses depositam tanta fé podia resolver. Assumimos o compromisso de disputar a Liga de Elite da Europa civilizada, quisemos esticar-nos até chegar aos franceses e aos alemães, mas temos as condições dos campeonatos distritais. Os problemas estruturais e a falta de confiança dos mercados não nos permitem sequer ser levados a sério. No contexto da Europa e dos investidores somos como o cigano que entra num supermercado e é seguido pelos empregados para ver se não mete nada ao bolso. E ainda chamam a polícia com antecedência, pelo sim pelo não. Não gostaria de estar no lugar de Cavaco Silva, a quem cabem as decisões mais sensíveis deste imbróglio. Ou “parte a loiça”, convoca eleições e a Europa perde a paciência, ou mantém estes artistas a brincar com estalinhos num paiol cheio de explosivos. Penso que nem ele gosta de estar no seu lugar, quanto mais eu.

O que é meu não te interessa


A nova lei da mediação imobiliária que entrou em vigor no dia 1 deixou preocupados alguns residentes, que temem que alguma da informação necessária ao cumprimento das formalidades de obtenção de uma licença para celebrar contraltos de compra e venda de imóveis comprometa a sua privacidade. Este é apenas mais um episódio que demonstra bem a importância que a cultura chinesa dá à privacidade, ao sigilo, ao segredo. Afinal os chineses são por natureza um povo de negociantes, e como todos sabem, “o segredo é a alma do negócio”. Os chineses adoram manter reserve quanto ao número de propriedades que possuem, o montante das contas bancárias ou o valor de outros bens materiais. A forma de secretismo aplicada é mais ou menos a mesma utilizada pelo homem de negócios que reparte o tempo com a família e sua concubina, fazendo o que pode para que a mulher legítima não fique a saber da existência da amante. Mesmo que não consiga enganar a esposa, por vezes eles finge-se despercebida, tudo depende dos valores envolvidos. No fundo é um pouco como os negócios.

Quem convive de perto ou a paredes meias com a comunidade chinesa apercebe-se de uma curiosidade que desafia os mais elementares princípios da matemática e da lógica: como é possível a alguns indivíduos que toda a vida declararam rendimentos na ordem das sete ou oito mil patacas mensais, com uma mulher doméstica e dois ou três filhos para sustentar conseguem ser proprietários de várias moradias e ter contas bancadas recheadas? Bem, terá sido certamente com muito esforço, através de um rigoroso plano de poupança aliado a investimentos sensatos. Não foi a jantar fora todas as noites ou a comprar roupa de marca que conseguiram amealhar durante anos um pé-de-meia que lhes permita encarar o futuro sem preocupações de maior. Mas em quê? O que fizeram para transformar tostões em milhões? Qual é o segredo? Aiiii…não interessa loh. Quanto menos se souber melhor. E o que têm vocês a ver com isso?

Um pouco como quem não quer a coisa, esta forma quase religiosa de proteger os interesses particulares materializou-se em lei, e foi criado o Gabinete para a Protecção dos Dados Pessoais, que não tendo autoridade para meter ninguém na cadeia, emite pareceres e faz recomendações sobre a forma como devem ser tratada a informação pessoal do sujeito jurídico individual ou colectivo (não tenho bem a certeza do que estou a dizer, pois não sou jurista, portanto estejam à vontade para me puxar as orelhas se estou a dizer algum disparate), penso que é mais ou menos isso. Quem já foi a uma sessão de esclarecimentos sobre o tratamento de dados pessoais e as competências do gabinete, levadas a caba por elementos do mesmo, fica um pouco confuso com o conceito de “dado pessoal”. Então como deve agir um trabalhador que trabalha atrás de um balcão de informações? Como sabe se está a violar a lei? E se agir de boa fé mas a sua conduta for interpretada como dolosa e passível de procedimento disciplinar mediante a queixa de um cidadão lesado? Deve consultar um superior cada vez que precisar de fornecer uma informação que possa ser tida como privada ou sensível? Ou mais vale a pena ficar calado?

As orientações não são muito claras. Os próprios responsáveis deste GPPDP não providenciam uma lista conclusive do tipo de informação que pode ou não ser divulgada. Numa reunião a que assisti, um dos seus altos quadros (desconfio que o próprio director, um tipo ainda jovem, mas não tenho a certeza) destacou a importância do equilíbrio. “É preciso encontrar um equilíbrio”, foram as suas palavras. Penso que com isto queria dizer que é necessário cumprir com as tarefas designadas, mas ao mesmo tempo acautelar a privacidade dos cidadãos, cuidando que não se divulgue informação necessária a seu respeito, ou que possa compremeter a sua segurança e a dos seus familiares. Isto assim até parece fácil, mas para a maioria das pessoas que lidam diariamente com dados pessoais ao mesmo tempo que executam outras funções, isto pode querer dizer muita coisa. Quando se fala em “encontrar o equilíbrio”, pode ser entendido como divulgar apenas os primeiros quatro dígitos do BIR, ou fornecer a morada incompleta, com o nome da rua e até o nome do edifício, mas sem indicar andar e o bloco. Pode ser isso, quem nos diz o contrário.

De qualquer forma, esta é uma legislação protecionista que agrada ao cidadão médio de Macau, mesmo que entre em choque com princípios que todos partilhamos de uma forma ou outra. Se perguntarmos a um residente de Macau com idade entre os 30-50 anos com nível médio de formação se concorda com combate à corrupção, ele diz que concorda. Se lhe perguntamos se é a favor de mais transparência e rigor no combate a crimes como o branqueamento de capitais, ele é capaz de responder que sim senhor, metam os malandros todos na cadeia. Agora se isto incluír investigá-lo a si e à sua família, alto lá, pára o baile? Mas porquê? Não fizemos nada de mal. Eu até não me importava de divulgar os nossos dados pessoais, contas bancárias e tudo mais, mas a minha mulher/mãe/irmã matava-me. Prendam os outros e deixem-nos em paz, que somos gente honesta. O mais interessante é que apesar da concordância do cidadão médio perante esta resguarda da privacidade, quem mais fica a ganhar com esta lei são uns certos senhores que nem sabem quanto têm, transferem avultadas quantias em numerário para o exterior, “pelo sim, pelo não”, e normalmente em paraísos fiscais onde as contas estão registadas em nome de companhias “offshores”, e não declaram o património com medo dos invejosos. Houve quem tivesse afirmado que divulgar a fortuna pessoal poderia levar o empresário a ser raptado. Esses malditos invejosos.

A civilização chinesa, a actual e a antiga, tem uma história de luta, repleta de sofrimento e de toda a espécie de privações, sujeitos aos desvarios de loucos com delírios de poder que para atingir não olhavam a meios, mesmo que isso significasse massacrar o seu próprio povo. Mas se há algo que sempre os distingiu foi o jeito para o negócio, para o comércio, para as trocas comerciais. Gosto de os comparar com o povo judeu, igualmente orientado para o comércio e para o lucro, e que em comum tem também o facto de ter sido martirizado em várias estâncias da existência da espécie humana. Chineses e judeus têm em comum o melhor e o pior, e nesse particular há algo em que são irredutíveis: são uns tipos porreiros até ao momento em que lhes vão ao bolso. E metem o nariz na sua vida e nos seus negócios. Protecção dos dados pessoais? Parece bem. Especialmente se isso significa que os deixam em paz.

Happy Birthday, America!

Gana elimina Portugal


Portugal disse adeus ao mundial de sub-20, ao perder em Kayseri frente ao Gana por 2-3. Saída inglória, logo nos oitavos-de-final, de uma equipa que foi uma das melhores da fase de grupos. Os ganeses, "especialistas" em chegar longe nos mundiais jovens, marcaram aos 19 minutos, chegando ao interval a vencer pela margem minima. Portugal conseguiu quebrar a resistência ganesa já no derradeiro terço do encontro, com Tiago Ferreira e Eduardo Ié a consumarem a reviravolta, aos 71 e 73 minutos, respectivamente. Depois apareceu o nervoso miudinho destas horas, com que Portugal não se costuma dar nada bem nos momentos decisivos. Os ganeses reagiram, e marcaram por duas vezes, aos 78 e aos 85, beneficiando do desacerto tanto defensivo como ofensivo dos portugueses. No golo que ditou o afastamento a defesa portuguesa reagiu como se estivesse a ganhar por cinco. No final um desempenho que não sendo dos melhores, deixou algumas boas indicações sobre jovens talentos portugueses. Talvez um adversário mais acessível que o Gana nesta fase pudesse ter levado os portugueses um pouco mais longe.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Os dados estão lançados

Eleições à porta, candidatos definidos, 22 listas a sufrágio muitas novidades, algumas interessantes, uma campanha que promete. As legislativas de 2013 em Macau prometem agitar a habitualmente amorfa vida política do território, mesmo que depois dos quinze dias que antecedem a votação se volte ao marasmo e à sempre-mesmice do deserto em matéria de debate politico digno desse nome. A segunda-feira depois das eleições é uma longa ressaca depois da farra, que dura mais quatro anos, até às novas eleições. Se dúvidas persistem sobre o desempenho de algumas das listas concorrentes a este sufrágio,existe pelo menos uma certeza: a força mais votada no próximo dia 15 de Setembro será, como sempre, o Novo Macau Democrático (NMD). Foi assim em 2001 e 2005, foi assim em 2009 no total das duas listas que os democratas apresentaram, e vai ser assim no somatório das três listas com que concorrem este ano.

A minha simpatia com o NMD é frequentemente criticada por alguns leitores por razões com as quais discordo, mas já lá vamos. Essa simpatia não passa disso mesmo: apenas simpatia. Não sou militante do NMD, não tenho qualquer relação com os seus elementos, nunca participei de nenhum evento organizado por este grupo (com excepção da vigília de 4 de Junho, cujo significado está acima de qualquer organização que a promova), e posso ir mais longe ao ponto de dizer que nem sempre concordo com a orientação ideological e muitas vezes não me revejo com alguns dos métodos. A razão que me leva a simpatizar com o NMD tem a ver com um facto muito simples. São o que temos de mais próximo com um partido politico em Macau. Quando se trata de eleições e de política nestas bandas, fala-se de NMD. Associações de operários, casineiros, trabalhadores da administração não têm um carácter abrangente que valide a sua existência. A Assembleia Legislativa é, ou devia ser, o orgão legislativo que representa e defende os interesses da população, exercendo uma acção fiscalizadora sobre o poder executivo, de que é, ou devia ser, autónoma. Eleger representantes que defendam apenas os grupos de interesse que os apoiam, ou que pelo menos se apresentam como tal e como tal são eleitos, não é levar a política a sério. Não quero votar em quem defenda os meus interesses em particular. Quero quem defenda os interesses da generalidade da população. Pode ser que tenha sido mal ensinado, tenha percebido mal, ou faltei à aula de Ciência Política nesse dia, mas penso que é assim que funciona a democracia. Ou devia ser.

O NMD surgiu nos anos 90, ainda durante a Administração Portuguesa, e o seu fundador e líder histórico é Ng Kwok Cheong, ou António Ng na versão portuguesa. Ng é um católico que durante os protestos contra o massacre de Tiananmen em 1989 perdeu o seu emprego no Banco da China, e como muita outra gente que não sabe fazer mais nada, dedicou-se à política. O NMD é inspirado nas suas congéneres de Hong Kong, onde o campo pró-democracia tem uma força notável, ocupando 27 dos 70 assentos do LegCo. A existência dos movimentos pró-democracia nas regiões administrativas especiais obedece a um princípio um tanto ou quanto redutor: se não é pró-Pequim, é pró-democrata. A palavra “democratas” é assim usada um tanto ou quanto livremente. Deste lado, o NMD tem crescido, e depois de António Ng surgiram outras caras novas na associação, e muita juventude oriunda da classe media intelectual, que se vem demonstrando especialmente talhada para o activismo. Sejam eles “democratas” ou outra coisa qualquer, é salutar ver a malta jovem a mexer-se, a dizer o que pensa, e caso não esteja satisfeita, que saia à rua e o faça saber. Não há nada que os impeça de fazer, desde que respeitem a lei. A lei, nomeadamente os seus agents, e o NMD nem sempre têm tido uma relação pacífica. Apesar dos evidentes excessos de alguns dos seus elementos, as autoridades têm-se pautado por uma postura que se pode entender como alguma “má vontade”, para ser simpático. Algumas das acções dos agentes da lei chegam a ser discutíveis em termos de legalidade, e algumas segundas leituras causam-me calafrios.

Os críticos do NMD (que se referem ao grupo apenas como “Novo Macau”, não lhes reconhecendo um cariz “democrático”) acusam a associação de ter um discurso “xenófobo”, muito por culpa da pressão que fazem junto do Executivo para que se dê prioridade aos residentes no acesso ao mercado de trabalho. É discutível que se possa considerar lutar pela empregabilidade dos residentes de Macau em deterimento da contratação desenfreada de mão-de-obra não-residente (e mais barata) uma forma de “xenophobia”. Não me recordo do NMD ter feito referências em termos de etnia ou de nacionalidade quando reclamam a prioridade dos residentes ao emprego. Algumas das tiradas contra os pró-democratas partem muitas vezes de gente que está há anos instalada à sombra da grande bananeira da nomenclatura vigente, e não lhes agrada que a abanem. Muitas das vezes as críticas tomam contornos de ridículo, como daquela vez que certo senhor considerou “um atentado à democracia e às suas regras” quando o NMD organizou uma recolha de assinaturas e levou a cabo uma eleição simbólica a propósito da construção de habitação social. Mas aceito que exista uma grande dose de populismo na oratória do grupo, mas também entendo porquê. O NMD não está equipado da mesma máquina associativa que a maioria dos sectores tradicionais, e muito menos com a capacidade financeira – já alguém viu a Fundação Macau ou outra qualquer atribuir verbas ao NMD por dá cá aquela palha? Não tendo os meios para pagar jantaradas, organizar passeatas ou oferecer “lai-si”, precisam de encontrar outra forma de cativar o eleitorado, e apelando aos anseios mais primários – o emprego e a habitação – vão levando a água ao seu moinho. Mesmo que não acreditem na plenitude do discurso que proferem; primeiro é preciso que os ouçam, depois logo se vê. Sem votos é que não dá.

Posto isto, o NMD vence sempre as eleições, pois conta com o voto dos eleitores independentes, os não-alinhados ou que não se revêm nas associações a que pertencem. A julgar pelo crescimento do NMD as urnas, é cada vez mais gente: 17 mil votos em 2001, 23 mil em 2005, 27 mil em 2009. A oscilação percentual em termos de eleitorado tem-se mantido entre os 18 e os 20 pontos, o que significa que entre os novos eleitores existem muitos que votam no NMD. Há quatro anos a associação dividiu-se em duas listas, uma estratégia pensada para contrariar a corrupção do método de Hondt praticada na atribuição do número de mandatos. Uma estratégia arriscada mas que se revelou frutífera, pois os pró-democratas elegeram pela primeira vez um terceiro deputado. Alguns comentadores de pacotilha atribuíram a vitória há quatro à União para o Desenvolvimento (UPD), os “operários”, que obtiveram 22 mil votos. As duas listas do NMD obtiveram 16 e 11 mil votos, que somados dão 27 mil. Ora 27 é mais que 22. E três deputados são mais que dois. Quem ganhou as eleições, mesmo? Os mesmos comentadores consideraram “desonesta” a estratégia do NMD para eleger um terceiro deputado. Se a honestidade fosse praticada em todo o seu explendor, o triplo dos votos necessários para um mandato dariam direito a três mandatos, e não é isto que acontece. A razão deste método de Hondt adulterado é a mesma razão que o NMD se dividiu em duas listas. É uma das leis mais básicas da natureza: para cada reacção existe uma reacção oposta. Em qualquer dos casos os números falam por si, e quanto a isto estamos conversados.

Para as eleições deste ano o NMD divide-se em três listas: as mesmas duas de 2009, encabeçadas por António Ng e Au Kam San, e uma terceira que se pode considerar uma lufada de ar fresco. Jason Chao, que muitos analistas consideram a grande revelação da política local nos últimos anos (não é difícil, atendendo à mumificação da política de Macau), concorre com uma plataforma que pela primeira vez representa a comunidade gay do território, mas muito mais do que isso. O seu nº 2 é Scott Chiang, que apesar da sua juventude tem sido uma das caras do NMD mais habitualmente vistas nos media. A terceira lista dos democratas tem uma forte conotação com a juventude de Macau, da classe média e intelectual, e pode captar muitos dos votos dos estudantes universitários e jovens profissionais liberais, além da comunidade “gay”, como já referi. É curioso como nenhuma lista se tenha lembrada da comunidade homossexual, que não é assim tão residual como alguns pensam, e, “surprise, surprise”, também vota. É quase certo que António Ng, Au Kam San e Paul Chan Wai Chi serão reeleitos, e a eles se juntará Jason Chao. O NMD apresentou a sua nova estratégia da divisão tripartidária das listas com o ambicioso objectivo de “eleger 5 ou 6 deputados”. Alguns riram do que consideram uma audácia, mas ao apontar alto, os democratas garantem pelo menos um quarto deputado, o que seria um resultado muito positivo. Gostaria de ver lá também Scott Chiang, na eventualidade do resultado ser acima das expectativas. Tudo dependerá da forma como o NMD conseguir distribuir o seu eleitorado pelas três listas.

Agrada-me sobretudo ver sangue novo interessado na política de Macau, e interessado em contribuir civicamente participando nas eleições. Não sou partidário da ideia de que a experiência ou a idade são factores determinantes para fazer um bom politico, e o que não falta são exemplos de gente que apesar da idade tem menos juízo que uma criança de dez anos. Alguns pioram à medida que os anos avançam. Olhando para o mapa politico da actual RAEM e verificando uma certa tendência para a eternização nos altos cargos públicos – quase os mesmos secretaries-adjuntos desde 1999, deputados “ad eternum”, curadores, presidentes de Institutos e directores de serviços acomodados ou já além da idade da reforma – penso que é altura de aparecer uma nova geração que conduza os destinos de Macau nas próximas décadas. Pelo menos até 2049, data de validade do segundo sistema, e mesmo além desse prazo, integrados na grande China, que será então diferente, com toda a certeza. Se há algo em que o NMD é pioneiro é na criação desta “escola” de política. Ninguém os pode censurar se os sectores tradicionais estão a tal ponto apegados ao poder que não consigam perceber que depois deles o vazio não é alternativa. Em Setembro o eleitorado voltará a mostrar a força dos que remam contra a maré do comodismo e da ditadura da sempre-mesmice, em nome da estabilidade e da “harmonia”. Os senhores que estão à sombra da tal bananeira que se cuidem.

Estes bifes são loucos!


Robbie Williams, cantor inglês de sexualidade ambígua e produção musical oscilante, deu um concerto no ultimo Domingo em Wembley. Como Wembley é na Inglaterra e a atração idem, 99,9% do público era, naturalmente, inglês. E como concerto é festa (menos um concerto dos Madredeus), não há festa em Inglaterra sem porrada - é como uma festa infantil num jardim sem a presença de um palhaço. Cenas de bifes à chapada que deixariam os velhos saxões com o peito cheio de orgulho.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Buraco do Patane


Uma tentativa frustrada de tapar um buraco

Em mudança de casa durante os últimos dias, debaixo do sol escaldante e suando em cascata, torna-se necessário comprar esta ou aquela peça de mobília, este ou aquele electrodoméstico, requisitar arranjos domésticos, carregar roupas, livros, loiça, aparelhos elecéctricos, requisitar arranjos, mil e uma coisas. Uma chatice, como muitos dos leitores certamente sabem. No Domingo, dia especialmente quente e cansativo, dei por mim a levar pela rua um daqueles carrinhos mão que transportam objectos mais volumosos e mais pesados, que no meu caso foi uma mesa de computador. Sim, ironia das ironias, o Leocardo que tanto se irrita com os velhotes que andam pela rua ao cartão com esses tais carrinhos, a fazer agora exactamente o mesmo. Bem, não me restou outro meio de transporte, e se me serve de alibi, não andei por aí todo o dia a catar ferro-velho. Na realidade tentei despachar a tarefa o mais rapidamente possível. Mas se há algo que ficou desta experiência, foi um pouco mais de simpatia pelos tais apanhadores de cartão, latas e outro lixo. Não é nada fácil levar um carrinho-de-mão por algumas ruas da zona norte de Macau, que se encontram num estado lastimável.


Altos, baixos, pretos, cinzentos e muitas fendas

Alguns arruamentos da zona do Patane, onde recolhi estas imagens, estão em condições que se assemelham às estradas do Paquistão, ou a alguma cidade-fantasma ou cenário de pós-guerra. Alguns dos buracos visíveis no alcatrão sugerem que rebentaram ali várias granadas de mão, e outros são suficientemente profundos para criar um pequeno lago quando chove. Os pobres moradores destes bairros que tenham um ou dois patos podem aproveitar a ideia, e quem sabe dar um aspecto mais aprazível às a cair de podre, as paredes de chapa ou as placas de plástico a substituir as janelas. Actualmente como se encontra, a estrada que têm à porta de casa combina na perfeição com o retrato. Fica completo o bairro de lata padrão, que nem chega a favela. Pelo menos as favelas do Brasil foram reformadas e pintadas com cores catitas que não ofendem a vista. Não sei se a Associação dos Moradores, os tais “kai-fong”, que aqui têm uma parte do seu eleitorado habitual já identificaram este problema, mas a julgar pelas fotografias dos seus responsáveis a visitar o bairro que se vêem amiúde à porta de algumas associações da vizinhança, julgo que sim. Se calhar acham que não está mal, e “é mesmo assim”, como diria o tuga desenrascado.


Traçado de um circuito de enduro? Pista de ralis? Ou simplesmente uma miséria de estrada?

As rachas no chão, o piso desnivelado, a gravilha, os passeios estreitíssimos e o trânsito constantemente a circular são um pesadelo para quem se vê obrigado a transportar manualmente um volume. O carrinho de mão vai numa tremideira tal que é seguro afirmar que se estivesse a transportar vasilhas de leite fresco, tinha manteiga quando chegasse ao meu destino, e a estridência provocada pelo contacto das pequenas rodas da carripana de metal com a estrada dá cabo dos nervos de qualquer um. Que me desculpem os transeuntes e viaturas que me apanharam pelo caminho, mas eu próprio não ia de sorriso nos lábios enquanto provocava altos decibéis de poluição sonora. Ia pior que estragado, pois além das dificuldades de locomoção, fiz uma figura triste que chega e sobra para os próximos dez anos. Levar um carrinho de bebé já seria complicado neste caminho que nem as cabras aprovariam, quanto mais um carro de metal com um móvel em cima. É mais fácil correr com uma colher na boca com um ovo na ponta, tentando não o deixar cair. E se calhar atraía menos a atenção, também.


Um acesso a pessoas com deficiência motora da era neolítica?

Não entendo muito bem que planos tem o nosso Governo para o urbanismo, ou se pensam que ter acessos nestas condições contribuem para resolver o problema do trânsito. Já nem falo da qualidade de vida dos cidadãos, uma vez que estes não tiveram a sorte de habitar numa área de condomínios de luxo, onde os arruamentos ainda têm um mínimo de qualidade. O bairro do Patane é um dos mais antigos e mais tradicionais de Macau, é também um dos poucos onde se pode olhar para cima e ainda ver o céu sem ter blocos de vinte e trinta andares à frente. Não se pede que se aplique ali a política do camartelo, que se deite tudo a baixo e que se levante de novo e em altura, descarecterizando a zona, mas deixá-lo nestas condições é, resumindo numa palavra, desleixo. Falta de dinheiro não será justificação, certamente, o que existe mesmo é má-vontade e laxismo. É realmente pena que aqui ao lado em Zhuhai se tenha executado um plano urbanístico que tornou a cidade num brinco, onde dá gosto andar na rua. Enquanto isso Macau assemelha-se cada vez mais ao Zhuhai antigo…ao de há vinte anos.

O dinheiro não traz felicidade (mas ajuda muito)


Olha a linda noiva...e rica também

Uma mulher de Marco de Canavezes que se venceu em Março o Euromilhões, deu uma festa na vizinhança para agradecer aos amigos – e para irritar os invejosos. A senhora em questão é uma tal Dona Amélia, uma ex-empregada de limpeza de 54 anos, gorducha, cabelo loiro oxigenado e um aspecto tão rústico que nem os milhões de euros consegue disfarçar. Se a sua aparência já deixa entender que se trata de um pessoa simples e com poucos estudos, as suspeitas confirmam-se cada vez que abre a boca. Entre as inanidades que brada com o volume quase no máximo, sai linguagem imprópria para os conteúdos televisivos do horário nobre, tendo o Telejornal da RTP censurado uma ou duas profanidades com o famoso “pii”. Para não destoar, a festa que deu aos amigos da vizinhança da freguesia de Ariz consistia numa churrascada de sardinhas, febras e pinga, animada pelo seu próprio filho Renato, que ao som do acordeão decalcou alguns êxitos do reportório pimba. A festança foi a versão campónia de uma “cocktail party”, e foi até anunciada durante a missa de Domingo. O padre da paróquia da aldeia lembrou aos seus residentes que “só precisavam de aparecer lá e comer, que a Amélia paga tudo”.

As amigas gostam imenso dela, e agradecem-lhe a atenção. Uma delas diz que a Dona Amélia “foi sempre uma pessoa humilde”. Pudera, como podia ser outra coisa que nunca aprendeu? Outra diz que antes de ganhar o Euromilhões, a Dona Amélia “trabalhava a dias…andava por aí na vida, coitadita”. As coisas que ficamos a saber. Amélia, por sua vez, mantém o orgulho de quem sempre ganhou a vida com o suor do rosto (até Março, claro…) e contou que depois de ter sido premiada “apareceram pessoas à sua porta a pedir dinheiro”. Ora nem mais Amélia, bem vinda ao Planeta Terra. Então a rica não sabia que os amigos são como o sol: só aparecem nos dias bons. Mas o que respondeu a boa da Amélia a essa gente interesseira que lhe bateu à porta? Qualquer coisa como “vão trabalhar ,que eu trabalhei toda a vida, criei os meus filhos sozinha, etc, etc”. Mas ó Amélia, assim não pá. Bastava dizer-lhes “não, desculpe lá”, ou como se diz aos mendigos, “tenha paciência”. Não foi o trabalho que levou a senhora a enriquecer, nem sequer o talento, a oportunidade ou a inteligência. Foi só meter seis números num papel e o resto ficou entregue à sorte e ao acaso. Mas é melhor é calar-me já, senão a senhora vem por aí aos berros a insultar-me a mim mais à minha progenitora, enquanto me bate com o tamanco. E honra lhe seja feita, no fundo, pois com a abundância que lhe caíu nas mãos de repente pagou a hipoteca da casa, comprou mais uma para cada um dos filhos, e casou com o companheiro Abílio, que é bom rapaz e já estava com ela mesmo no tempo em que andavam, ahem, "na vida". Reparem só na imagem, já viram noiva com um capital social destes? Pronto, parabéns Dona Amélia, e tenha juizinho.

Qual gay qual quê...vai tudo preso!


Ai Boris, que creme uso agora para disfarçar estas feridas horríveis?

A polícia russa deteve dezenas de activistas gay e jovens nacionalistas, depois de se terem confrontado e provocado distúrbios no último Sábado, em S. Petersburgo, a segunda maior cidade da Rússia. Na origem dos protestos e dos contra-protestos está uma lei aprovada no início deste mês, que proibe “propaganda gay”, incluíndo demonstrações públicas de homossexualidade, o que significa que os 40 activistas da causa LGBT que se manifestavam estavam a “violar a lei”. Curioso como um simples protesto de um grupo de pessoas pode ser entendido com “demonstração pública de homossexualidade”, a não ser que se passasse ali mais qualquer coisa que a agência de notícias Itar-TASS não divulgou. Manifestar-se a favor de uma causa não significa necessariamente que essa casa seja sua. Por essa lógica os defensores do fim da caça à baleia são…baleias? Mas em frente. Se na principal praça de S. Petersburgo estavam 40 gays, logo apareçeram 200 nacionalistas, apoiantes da extrema-direita. O facto dos machões nacionalistas comparecerem na ordem de cinco para um dá vontade de perguntar: quem eram os maricas? Entre as palavras de ordem gritadas pelos contra-manifestantes ouvia-se: "A sodomia não passará!". Ora, quem conhece estes tipos já sabe o que a casa gasta. Andam aí pela rua a dizer que não gostam, e depois vão para casa praticar sodomia até de madrugada. As autoridades é que não tiveram pelos ajustes e distribuíram “fruta” por onde acharam melhor, e não discriminaram ninguém na hora de proceder às detenções. Assim vai a Rússia de hoje, um estado autoritário e musculado, muito “business minded” e “no-nonsense”, onde o enriquecimento súbito não foi acompanhado pelo progresso social – vinte anos é muito pouco para adquirir mecanismos para atender aos problemas de crescimento. Ah sim, e isto das homossexualidades e dos direitos “gay” é uma coisa lá do Ocidente, e como sabem para esse peditório os russos não costumam dar.

Saco de gatas


É sempre um prazer assistir a porrada entre mulheres: as chapadas, os puxões de cabelos, os pontapés meiguinhos, enfim, que me desculpem as senhoras, mas deve ser porque estamos mais habituados a ver este tipo de comportamento animalesco nos homens. Este pequeno video foi recolhido no Cambodja, onde dois grupos de mulheres entram em vias de facto à beira da estrada, chegando a travar uma batalha de proporções épicas, chegando ao ponto de dar mesmo a entender que já nem sabem a quem devem bater. Depois do calor inicial da luta, os grupos separam-se, mantendo-se a uma certa distância, e vão mandando de quando em vez umas bocas, sem que no entanto os combates se reacendam. Desconheço o motive que levou estas jovens a agredirem-se mutualmente, arriscando-se a ficar com um arranhão ou mesmo partir uma unha ou duas, mas gostei desta nova aproximação: primeiro a gente anda à porrada, e depois podem mandar bocas à vontade.

Brasil deita Espanha ao tapete


O Brasil conquistou esta noita a Taça das Confederações, a quarta da sua história, batendo na final a campeã mundial e europeia, a Espanha, e logo por esclarecedores 3-0. Com o Maracanã lotado, o "escrete" entrou a matar, inaugurando o marcador logo aos dois minutos por Fred. Os espanhóis sentiram o golpe, e raramente consigaram mostrar o futebol que os tem tornado a equipa a abater em todas as competições. E as coisas ficaram piores para a "rioja" quando Neymar resolveu dar um ar de sua graça. O craque que na próxima época vai alinhar no Barcelona ao lado de Messi e terá como companheiros de equipa alguns dos seus adversaries de hoje marcou um golaço perto do intervalo, dando mais expressão ao domínio brasileiro antes do descanso. No início do segundo tempo Fred bisou, e o marcador mostrava a Espanha a perder por 0-3, coisa rara nos tempos que correm. O pesadelo espanhol parecia ir chegar ao fim quando aos 55 minutos o árbitro assinala uma falta de Marcelo sobre Jesus Navas na area brasileira, mas Sergio Ramos desperdiçou a chance, rematando ao lado da baliza de Júlio César. Para piorar as coisas Piqué foi expulso quatro minutos mais tarde, depois de travar Neymar em falta quando este seguia isolado para a baliza. Podia ter sido histórico, mas o Brasil ficou pelos três, e quebrou a série de 29 jogos sem perder da Espanha. O Brasil deu boas indicações neste torneio, praticando um futebol vistoso e marcando muitos golos. Em 2014 o mundial é também no Brasil, e com o apoio do seu incansável público, a "canarinha" de Scolari pode sonhar com o "hexa".