
Ultimamente tem sido feita uma certa confusão, com laivos de radicalismo e até de fanatismo, sobre certas posições tomadas neste blogue. Aparentemente alguns cavaleiros do politicamente correcto não estão satisfeitos com a minha posição de apoio aos Jogos Olímpicos de Pequim ou aos esforços diplomáticos que têm sido levados a cabo pelo regime chinês para agradar ao Ocidente, que cada vez mais descaradamente, e pouco consciente das realidades chinesas, tenta impor o seu modelo de democracia e respeito pelos direitos humanos.
Têm sido tempos difíceis estes para quem como eu acredita na progressiva democratização da China e do seu regime. Depois de anos de um silêncio esmagador a respeito da causa tibetana e dos alegados atropelos aos direitos humanos que por lá se verificam nas últimas 5 décadas, eis que em 2008, e a poucos meses da realização dos Jogos Olímpicos cuja organização foi atribuída à China há sete anos (não foi ontem nem no ano passado), brotam como cogumelos e saltam como pipocas os enfurecidos apoiantes do Dalai Lama. E que forma encontraram para fazer ouvir os seus ressentidos protestos? Cometer actos de vandalismo e desobediência pública durante a passagem da tocha olímpica.
“Ah é verdade, o Tibete”, dizem os tubarões do capital enquanto contam os chorudos lucros dos seus investimentos na China. “Mandem lá o povão”, rematam. E o povão – mesmo o que nem sabe ao que vai - chega lá e parte tudo, qual touro que só vê à frente a bandeira vermelha, apoiado pelos tais movimentos pró-democracia. Depois de uma boleia na traseira de um veículo policial ficam convencidos que “mudaram o mundo”. Esses tais movimentos alegadamente sem outra agenda que não a defesa dos direitos humanos trabalham de graça, correm por gosto, ou então vivem do dinheiro que nasce nas árvores. Acreditam? Eu também não.
Essa mistura do cú com as calças tem sido um dos tais fatalismos lusitanos. Ainda em Dezembro último, quando da cimeira UE-África em Lisboa, um grupo de empresários portugueses teve a oportunidade rara de se encontrar com o General Gadaffi na sua tenda improvisada no Forte de S. Julião da Barra. A primeira coisa de que se lembraram de falar, em vez de negócios, foi a questão do respeito pelos direitos humanos na Líbia. Saíram desiludidos e até assustados. Se alguém viesse à minha casa vender-me seguros e a primeira coisa que perguntasse fosse como tratava a minha mulher e filhos, é claro que em menos de dois minutos estava pela porta fora.
Não chegam só as boas intenções ou as palavras bonitas. Não é lá muito coerente formar associações de amizade luso-chinesas que dão jeito quando se quer entrar no imenso mercado chinês, nem apertar o bacalhau à malta da China quando surgem oportunidades de negócio. Das duas uma: ou a China não interessa para nada, ou aceitamos o tal socialismo de mercado com características chinesas. Mesmo o nosso bobo da corte, o madeirense Alberto João, ao dar um murro na mesa e afirmar a viva voz que “não quer cá os shnezz (sic)” esqueceu-se que o material e meios que usa nas suas mui pouco democráticas campanhas vem quase todo da China.
Os exemplos não ficam por aqui. Francisco Louçã, bloquista e economista, foi convidado em 2000 para uma conferência na China. Depois de fazer críticas às condições desumanas dos infantários chineses, o convite foi-lhe retirado. Estivemos em Macau durante 400 anos, mantivemos sempre as mais cordiais relações de amizade com o país do meio, no entanto deixamo-nos ultrapassar em termos de investimento por países que nunca estiveram na China. Somos os campeões do respeitinho pelos tais direitos humanos em versão Ocidental e recebemos a respectiva palmadinha nas costas. Outros usam a diplomacia salpicada de hipocrisia e levam o ouro.
Veja-se o exemplo da Alemanha. O governo de Pequim ficou furioso quando a chanceler Angela Merkel recebeu o Dalai Lama. Mas será que isso teve algum impacto nas relações sino-alemãs? Será que os senhores da Volkswagen, BMW, Adidas ou Grundig levaram logo as mãos à cabeça? Claro que não. E não haverá na Alemanha defensores da causa tibetana? Claro que há. Isto porque a Alemanha é o parceiro comercial mais antigo da China, com relações que se reportam ao tempo de Mao, um exemplo peregrino de pragmatismo e visão, ao perceber que ali estava um gigante adormecido.
Continuamos a ser muito bonzinhos e impressionamo-nos com muito pouco. “Que horror, coitadinhos dos tibetanos”, lamenta-se a malta nova como se “tibetanos” fosse uma espécie de caniche. Nem os fracos conhecimentos de História, Geografia e Geopolítica do nosso povo os inibem de se juntar a uma causa, desde que dê para ir para a rua fazer barulho e comer umas febras, bloquear a estrada e destilar ódio por um país de que nada conhecem.
Não sei se estão recordados da campanha contra a Guerra no Iraque. Discordou-se, bateu-se o pé, saíu-se para a rua a fazer barulho. Nem uma única franchise norte-americana foi atacada, e os tais manifestantes anti-guerra não deixaram de fazer os seus lanchinhos no McDonald’s ou no KFC ou continuar a consumir os enlatados Hollywoodescos que todas as semanas passam nos cines locais. Apesar das promessas que os americanos tão abertos ao diálogo e à transparência gostam de fazer, a situação continua na mesma.
É irónico que se condene a China por vender armas ao Sudão e ao Zimbabwe, mas que durante os anos da Guerra Fria e mesmo depois disso os Estados Unidos tenham apoiado regimes sanguinários na África, na Ásia e na América Central. Foi a Nicarágua, El Salvador, o Zaire, o próprio Iraque durante a guerra contra o Irão, o regime de Marcos nas Filipinas. Apoios em armas, inteligência e logística que foram responsáveis por milhões de mortes. Os norte-americanos organizaram os Jogos Olímpicos em 1984, no auge da Guerra Fria, e depois em 1996, e a tocha passou sempre incólume.
Não se pense que sou contra a auto-determinação do povo tibetano. Nada disso. Seja o que eles quiserem, mas em sede própria. Ainda não desisti do sonho de ver um dia o presidente Hu Jintao e o Dalai Lama de mãos dadas. É um sonho da paz. E não falta informação e contra-informação a respeito do que realmente se passa no Tibete. Aconselho a leitura
deste artigo de Nuno Lima Bastos (que por acaso é apoiante da causa tibetana) e daí tirem as vossas ilações.
Não embarco em rebeldices toscas de ocasião que conspurcam o ideal olímpico. Por acaso já repararam que o próprio Dalai Lama apoia a organização dos Jogos pela China? Não é ele que condena qualquer tipo de violência? Repugno também com veemência outros actos de fanatismo, como o boicote aos produtos franceses por um grupo de nacionalistas simplórios, o tal Nacionalismo com caracteríticas chinesas, como José Carlos Matias tão bem referiu, e que minam as relações sino-francesas. É gente sem o mínimo de sensatez, que não consegue dissociar um povo das acções de meia dúzia de néscios.
O que se passou ontem em Macau foi mais do que um exemplo de submissão ou anuência ao regime, ou um trabalho de casa bem feito pelas autoridades. Foi um exemplo de civismo da população, que deixou uma boa imagem do território e das suas gentes. Agora não se esqueçam é de continuar a lembrar o problema do Tibete quando terminarem os Jogos. É que aproveitar apenas o momento em que a China está mais vulnerável aos olhos da opinião pública internacional não chega. É preciso mais.