segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Os sons dos 80: Born in the USA


A capa que fez o público feminino do "boss" entrar em delírio.

Falar dos anos 80 e de Bruce Springsteen é falar de "Born in the USA", o disco mais conhecido e mais vendido do cantor norte-americano que todos conhecemos como "the boss". Springsteen nasceu em 1949 em New Jersey, gravou o seu primeiro trabalho discográfico de longa duração em 1973, e gozou de algum sucesso durante os anos setenta, tornando-se conhecido a nível internacional com "Born to Run", de 1975, e tendo atingido o seu auge com o duplo LP "The River", em 1980, sempre na companhia dos seus músicos de sempre, a E Street Band. Em 1982 grava um trabalho a solo, "Nebraska", mais intimista e muito sombrio, que a crítica considerou "só para fãs incondicionais", mas em Janeiro desse ano já tinha começado a trabalhar no seu "magnum opus", que só sairia mais de dois anos depois, no Verão de 1984. "Born in the USA" foi o seu sétimo álbum, vendeu 30 milhões de cópias em todo o mundo, apreciado por miúdos e graúdos, homens e mulheres, gente de todas as origens, credos e condição social. Nunca mais Bruce Springsteen repetiria um êxito desta natureza. Nem de perto, nem de longe.


"Born in the USA" foi posto à venda nos Estados Unidos a 4 de Junho de 1984, um trabalho épico de Springsteen e da E Street Band que demorou 15 meses a gravar, produzir e misturar nos estúdios da Power Station e da Hit Factory, em Nova Iorque. O resultado foram 12 temas, todos da autoria do próprio artista, sete dos quais seriam lançados na vers0←o single. O primeiro saíria um mês antes do próprio LP, em Maio, e foi "Dancing in the Dark", que daria logo a entender que ao contrário de "Nebraska", este seria uma trabalho mais acessível ao grande público. No video que promoveu o single vemos um "boss" limpinho, barbeado e em grande forma física, na pujança dos seus 35 anos, em palco com a sua banda, a cantar para uma jovem plateia. A certo ponto convida uma fã para subir ao palco e dançar com ele, e passados alguns anos essa fã viria a tornar-se ela própria uma celebridade: trata-se de Courtney Cox, que viria a ser uma das protagonistas da série "Friends", na altura com apenas 20 anos.


As vendas do disco foram apenas "cálidas" no início, mas viriam a disparar em finais de 1984 e inícios de 85, tornando-se mesmo o maior sucesso de vendas desse ano. Muito por culpa do terceiro single, aquele que dá o nome ao álbum, e que saltou direitinho para o top-10 da Billboard após o seu lançamento, em 30 de Outubro de 1984. "Born in the USA" tornou-se uma espécie de hino alternativo da América, graças à energia que Springsteen colocava no refrão, que os seus compatriotas entoavam com o peito cheio de orgulho. O que muitos nem devem ter notado, no meio de tanto furor patriótico, é que a letra é bastante crítica da sociedade norte-americana, e do ideal do "sonho americano". O seu autor não deve ter ficado saber muito bem se a mensagem passou, mas deve ter agradecido a preferência, em todo o caso.


"Born in the USA" é um disco em que todas as faixas são de grande qualidade, e fáceis de entrar no ouvido, aquilo que se chama de "radio-friendly". Apesar da temática das letras incidir sobretudo sobre o dia-a-dia da vida Americana, não é difícil encontrar algo com que os não-americanos se identifiquem, contando que saibam inglês. E mesmo os que não sabem podem contentar-se apenas com a melodia, que é "rock" do mais puro e do mais bem feito que há. Dos restantes singles destaco este "My Hometown", ou em português "A minha terra-natal". Foi o último single a sair, já em Outubro de 1985, e é também a faixa que encerra o álbum. Em grande estilo, diga-se, pois trata-se de uma sentida homenagem à nossa terra-natal, às terras de toda a gente por esse mundo fora.


O "boss" e a sua "patroa", Patti Scialfa.

No que toca aos anos 80, isto é basicamente tudo o que há para dizer sobre Bruce Springsteeen. O trabalho que se seguiu, "Tunnel of Love", em 1987, marca o regresso de Springsteen a um tom mais taciturno, uma desilusão para os que aguardavam a mesma qualidade e o mesmo entusiasmo deste épico trabalho do cantor. Mesmo depois disso a sua carreira nunca atingiu este pique, nem ficou lá perto, e mesmo a canção que lhe valeu o Oscar em 1994, "Streets of Philadeplhia", dificilmente caberia neste disco. Actualmente com 64 anos, Bruce Springsteen deve recordar com saudades estes tempos. Imagino-o a suspirar ao lado da sua mulher e parceira da E Street Band, Patti Scialfa, e desabafar: "Patti..lembras-te do Born in the USA? Aquilo é que era". E era mesmo, ó boss. Por onde tem andado essa inspiração, afinal?

Bater na porta errada


Os encarregados da mesquita de Estocolmo, na Suécia, voltaram de comer as tâmaras do Ano Novo para encontrar cruzes suásticas pintadas na parede do seu templo. O Imam Mamut Kalfi, na imagem a mostrar uma fotografia do graffiti, apressou-se a apresentar queixa às autoridades, que consideram tratar-se de um "crime de ódio". Omar Mustafa, presidente da Federação Islâmica da Suécia, diz que a mesquita inaugurada em 2000 é atacada pelo menos duas vezes por mês, e recebe correio com ameaças e insultos. O Concelho Nacional de Prevenção do Crime da Suécia diz que foram registados 5500 casos de crimes de ódio em 2012, mas apenas 6% dirigidos à minoria muçulmana do país. Agora perdoem-me a insolência, mas não estariam os rapazes que fizeram este lindo serviço enganados? Pintar suásticas numa mesquita? Se calhar viraram à direita em vez de virar à esquerda a caminho da sinagoga. Se queriam deixar estes mesmo pior que estragados, deviam ter-lhes antes deixado um pacote de torresmos à porta.

Morreu Nelson Ned


Faleceu ontem aos 66 anos em S. Paulo o cantor brasileiro Nelson Ned, um dos maiores intérpretes românticos dos anos 60 e 70. Nelson Ned tinha a particularidade de ser anão - media apenas 1,12 metros, e o actor Paulo Gracindo chamava-o ironicamente de "pequeno gigante da canção". Gravou 32 discos em português e espanhol, vendou 45 milhões de discos nos seus quase 50 anos de carreira, e foi o primeiro artista latino-americano a chegar à marca do milhão de discos vendidos. Ned estava afastado dos palcos há sete anos, depois de ter sofrido em 2003 um acidente vascular cerebral e passou a ter problemas de locomoção e cognitivos. Dos seus êxitos, que incluem "Domingo à tarde", "Tudo passará" ou "Parabéns, prabéns, querida", entre outros, recordemos este "Se as flores pudessem falar".

A crise mora em Old Trafford


O Manchester United foi eliminado ontem da Taça de Inglaterra, ao perder em casa por 1-2 com o Swansea City em Old Trafford. O teatro dos sonhos guardou um minuto de silêncio em memória de Eusébio, mas o que se seguiu foi mais um pesadelo para os da casa, numa época tão má como já não havia memória. Routledge adiantou os visitantes no marcador aos 12 minutos, mas apenas quatro minutos depois Javi Hernandez restabelecia o empate. Foi nos descontos que os galeses fizeram a festa, com Wilfried a atirar o ManU para fora da competição, mais uma que David Moyes pode riscar da lista de eventuais troféus. A contestação ao treinador escocês sobe de tom, e os "red devils" já perderam em casa tantos jogos esta época como nos últimos nove anos (!), com Alex Ferguson no banco. Quem também continua muito mal é o West Ham; os londrinos ocupam o penúltimo lugar da Premier League, e foram afastados da taça com uma goleada de 5-0 na casa do Nottingham Forest, da Championship. Já o Sunderland, lanterna-vermelha no escalão principal, foi mais feliz, batendo em casa o Carlisle United por 3-1.


Os outros grandes que tinham compromissos na taça este Domingo ultrapassaram oss eus adversaries com mais ou menos dificuldades. O Chelsea de Mourinho foi ao reduto do Derby County vencer por 2-0, com os golos a chegarem no segundo tempo, por Obi Mikel aos 66 e Oscar aos 71. O Liverpool recebeu o Oldham Ahtletic e venceu pelo mesmo resultado, mas nem por isso resolveu cedo a contenda; Iago Aspas aos 54 minutos e um autogolo foram quanto chegou para os "reds" seguirem em frente.

Aves e Penafiel tomba-gigantes na Taça


No dia em que o futebol português em particular e o mundo em geral chorou a morte da lenda Eusébio, realizaram-se os restantes encontros dos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Afinal "the show must go on", e há um calendário a acertar, mas com toda a certeza a memória do "Pantera negra" esteve presente na mente de todos os que entraram em campo neste Domingo. E que melhor maneira de ajudar à festa da Taça com os tombas-gigantes, equipas de escalões inferiores que batem os primodivisionários. Nesta ronda os heróis foram o Penafiel e o Aves, da Liga de Honra, e as vítimas o Marítimo e o P. Ferreira. No Funchal os penafidelenses foram vencer por 3-2, e em P. Ferreira, onde os locais continuam completamente irreconhecíveis, o Aves foi voar alto, carimbando o passaporte para os quartos-de-final da prova. Quem no se deixou surpreender foi a Académica, que foi a Aveiro vencer o Beira Mar por uma bola a zero. No único encontro entre equipas da Superliga, o Braga bateu o Arouca por 2-0, partida da qual ficam as imagens. Peço desde já desculpa pela má qualidade do video, que foi o melhor que pude encontrar compatível com o blogger.

Comprar raposa por burro


A companhia norte-americana Wal-Mart Inc., a maior retalhista do mundo, mandou retirar de um supermercado de Xangai um produto feito com carne de burro, pois continha carne "de outros animais". Testes realizados ao produto "carne de burro com cinco especiarias" revelaram a presença de vestígios de ADN de raposa. A empresa mandou ainda investigar o fornecedor do produto, uma fábrica localizada em Shandong. Os investidores temem que este escândalo (!) venha a afectar a reputação da Wal-Mart, que tem investidos na China mais de um bilião de dólares (um milhão de milhões), e tem planos para abrir 110 novas lojas nos próximos anos. O mercado retalhista chinês é o maior do mundo, e prevê-se que cresça 1,5 biliões em valor neste ano de 2014. A carne de burro é muito apreciada na China, e só em 2011 foram para o matador 2,4 milhões de burros - o animal equestre, entenda-se. E o que pensa o consumidor desta adulteração? Um cliente da Wal-Mart deixou um comentário na rede social Weibo onde se lia: "Mas a carne de raposa não é mais cara que a carne de burro?". Pois é, parece que a Wal-Mart não deve ter feito o seu estudo de mercado como deve ser. Ou então esqueceu-se que estava a investir na China.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O passageiro da noite


Pode ser que já vos tenha acontecido, especialmente se forem homens e viverem sozinhos, como é o meu caso, ir dormir cedo, acordar a meio da noite com uma certa larica e não encontrar no frigorífico nada que se coma - ou que apeteça comer. Foi o que se passou comigo na sexta-feira passada, incidentalmente. Cansado de mais um dia na linha da frente a finger que percebo chinês, chego a casa pelas sete horas mas já feito num oito, como qualquer coisa que apanhei pelo caminho, publico dois rascunhos que deixei no fumeiro do blogue, e depois do Telejornal vou-me esticar um pouco na cama, para ficar mais "fresquinho" pela hora do lobo. Pelo menos era esse o plano. A calma do quarto e o remanso do travesseiro eram bons conselheiros, e apesar das pestanas ameaçarem abrir umas duas ou três vezes pelo meio, a sorna prolongou-se até de madrugada.

Acordo bem acordado já passavam bem das três da manhã, e enquanto espreitava as novidades da net e coçava aquelas partes do tronco que precisam de ser coçadas depois de umas horas de sono, pensava em voltar para a cama até, sei lá, às oito ou nove horas? Pelo menos assim aproveitava um Sábado em vez de acordar pelas duas da tarde e ter meia dúzia de mensagens no telemóvel de gente em pânico à minha procura. Mas como tinha dormido as sete horas da ordem, apetecia-me tudo menos dormir, e na verdade já me apetecia qualquer coisinha que se comesse. Abro o frigorífico, e tudo o que via eram refrigerantes, molhos, e manteiga, além das mais sugestivas panquecas, compotas e o "golden syrup" da Taikoo, que me piscavam o olho. Mas bah, que se lixe, não me apeteciam panquecas, e para mais estas já estavam um tanto ou quanto duras. Decidi sair e procurar algo mais consistente, e as pernas já pediam uma caminhada.

Não foi difícil decidir pela saída, pois tinha a roupa preparada para o rendez-vous de sexta-feira que o sono me tinha roubado, e como não ia a lugar nenhum em especial, poupei tempo na produção de imagem. Assim foi só enfiar-me nos trapos, calçar umas sapatilhas e passar uma concha de água pelo cabelo, não fosse ser confundido com o professor Einstein do Tarrafeiro. Mesmo assim considero que me preocupei demasiado com a estética, como vão perceber mais à frente. Sai de casa passavam vinte minutos das quatro, em busca do petisco ilusivo. O tempo estava fresco, tinha sido um dia mais ou menos quente, com uma temperatura máxima de 20 graus com uma mínima que quinze. O ar até se respirava bem, devido à ausência de trânsito, e tinham passado algumas horas desde a recolha do lixo. As ruas estavam praticamente desertas, claro, e sabia bem andar em Macau - para variar.

Agora a pior parte: Macau, cidade internacional de turismo e lazer e blá blá blá é uma cidade-fantasma entre as quatro e as cinco da madrugada. Praticamente nada aberto, e os únicos sítios onde se encontra qualquer coisa que se coma são os restaurantes chineses onde os patronos dos casinos vão cear, e isto não falando dos próprios casinos, claro. Já andei pela rua a estas horas proibitivas em cidades como Kuala Lumpur, Singapura, Cantão ou Hong Kong, e epá, isto que nós temos aqui é uma treta. Nestes lugares que referi há sempre uma tasca aberta onde se pode provar uma especialidade local qualquer, enquanto que por aqui o melhor que temos são algumas lojas de sopas de fitas residuais, ou aqueles negócios familiares de rés-do-chão que vendem "dumplings" e pães cozidos a vapor, e que aproveitam para inflacionar os preços das bebidas em mais duas ou três patacas, por estarem abertos àquela hora. O diabo que os carregue.

O meu itinerário em busca da bucha perdida levou-me a percorrer a Rua 5 de Outubro, ddepois à Av. Almeida Ribeiro, subindo pela Rua de Felicidade sempre a direito até à Rua da Alfândega, descendo depois a Calçada do Tronco Velho, passando pelo Largo do Senado, e finalmente pela Rua dos Mercadores no regresso a casa. Antes de me lamentar de não ter encontrado nada que se comesse, apesar de ter deparado com um ou dois sítios com as portas abertas, deixem-me falar das pessoas que encontrei pelo caminho. Quem anda na rua em Macau a altas horas da madrugada? Malucos, sobretudo. Sim, a "beautiful people" anda por aí nas discotecas e nos bares, e entre os muito poucos que terminam o seu turno nos hotéis, casinos e saunas, e os ainda menos que começam o seu dia de trabalho a essa hora, há as prostitutas, os "ladyboys", os que perderam o dinheiro todo nos casinos e vagueam pelas ruas, os que beberam mais que a conta e demoram a atinar com o caminho de casa, e os sem-abrigo, os que dormem na rua, e que durante o dia se escondem debaixo dos panos, entre os latões do lixo, ignorados pela cidade que anda em roda-viva.

Na Rua dos Mercadores ainda tentei comprar qualquer coisa que me aconchegasse o estômago no 7-11, mas de entre tanta escolha, nada me enchia as medidas. Voltei para casa, já com as tais panquecas que anteriormente desprezei no pensamento, e com um pouco mais de vontade de completar o sono - afinal tudo se devia às pernas, que estavam a pedir uma caminhada que lhes dessem outra vez vontade de se esticarem na cama. Já perto de casa, ali ao lado na Rua da Tercena, dei com um casal de filipinas lésbicas que demonstravam abertamente o seu afecto uma pela outra à porta de um prédio. Passei por elas e mandei-lhes um piropo: "arranjem um quarto!". Não me orgulho de ter molestado as senhoras, mas considero que foi a minha pequena contribuição para a louca noite macaense, que não se recomenda a menores e pessoas sensíveis. Depois das panquecas fui então ajustar contas com o travasseiro, e lá pelo meio-dia estávamos quites. Macau, Macau, o que é que te estão a fazer, meu amor.

Os sons dos 80: Madonna


Madonna hoje, com 55 anos, uma carreira a uma vida que davam uma telenovela.

Madonna Louise Ciccione nasceu em Bay City, no Michigan, corria o ano de 1958. Muita gente que pensa que "Madonna" é apenas o nome artístico daquela que é considerada um dos maiores nomes da música pop do século XX e agora deste século, fique a saber então que o seu nome é mesmo Madonna, tal como o da sua mãe, uma canadiana do Quebec. O seu pai Silvio Anthony Ciccione, era italo-americano, um católico devoto, e como tal a pequena Madonna recebeu uma educação de forte pendor religioso. O seu carácter rebelde, de "bad girl" inconformada sempre com vontade de chamar a si o protagonismo que conhecemos hoje tem origem na sua infância e juventude problemáticas. A sua mãe partiu quando Madonna tinha 5 anos, vítima de cancro da mama, e três anos depois o pai casava com a criada da família. A jovem Madonna passou a maior parte desse período e até à adolescência com a avó materna, em quem procurava a figura da mãe que tão cedo a deixara. Do pai passou a guardar um ressentimento que se manteve até à idade adulta.


Madonna aos 11 anos.

Na escola era uma excelente aluna, ao ponto de conseguir uma bolsa para estudar dança na Universidade do Michigan. Não chegou a concluír o curso, pois em 1978 partiu para Nova Iorque, onde trabalhou primeiro como empregada de mesa no Dunkin' Donuts, ao mesmo tempo que fazia biscates numa troupe de dança moderna. Uma noite ao voltar a casa Madonna foi arrastada para um beco por dois homens, que lhe encostaram uma faca ao pescoço e a obrigaram a fazer sexo oral. A cantora considera esse o ponto de viragem da formação da sua personalidade, em que ficaram expostas as suas fraquezas, e passoua a encarar a vida de forma mais agressiva e determinada. Fez parte da "world tour" do cantor "disco" francês Patrick Hernandez como dançarina, em 1979, e aí envolveu-se com o músico Dan Gilroy, com quem viria a formar os Breakfast Club, onde assumia as funções de vocalista, e ainda tocava guitarra e bateria. Depois disso passou pela banda Emmy, até que chamou a atenção do proprietário da Sire Records, que assinou com ela um contrato.


O primeiro single saíu em Outubro de 1982, intitulado "Everybody", que viria a ser um êxito de discoteca, seguido de "Burning Up", em Março do ano seguinte. Os dois singles seriam incluídos no seu álbum de estreia, que levou o nome de "Madonna", que sairia em Julho de 1983. O disco produziu mais três singles, dois deles em Setembro: "Holiday", que marcou a estreia da cantora no top-100 da Billboard, e "Lucky Star", que seria top-5. Quando saiu em Abril de 1984 o quinto single, "Borderline", Madonna era já uma estrela, com uma legião de fãs respeitável; os rapazes ficavam encantados com a sua energia o originalidade, as raparigas imitavam o seu "look", com as famosas luvas de renda sem dedos e os brincos de cruz.


A Madonna-mania tomou conta da América nesse ano de 1984, vai para 30 anos, e para consolidar o seu estatuto de vedeta, Madonna lançou o seu segundo álbum "Like a Virgin", cujo single homónimo é ainda hoje o tema mais emblemático da artista. "Like a Virgin", o single, arrasou os tops de vendas em todo o mundo, e só nos Estados Unidos vendeu quase dois milhões de cópias. De "Like a Virgin", o álbum, sairam ainda os singles "Material Girl", "Angel", "Dress you Up" e "Into the Groove". Era impossível ficar indiferente a Madonna, e pelo ano de 1985 a família real da "pop" estava composta: Michael Jackson era o rei, e Madonna a rainha - não que coabitassem, necessariamte, e que se saiba, isso nunca aconteceu.


Madonna em Macau com Sean Penn, na filmagem de "Shanghai Surprise".

Além da música, Madonna tinha uma carreira paralela como actriz. Foi aclamada pela crítica em "Desperadamente Procurando Susana" em 1985, pela mesma altura que casou com o actor Sean Penn. Com o marido fez "Shanghai Surprise", parcialmente rodado em Macau, onde ficou célebre o incidente entre Sean Penn e o jornalista Leonel Borralho, com o actor, na altura embriagado, a deixar o então correspondente do "Hong Kong Standard" pendurado pelas pernas da janela do Hotel Internacional. Penn viria a ser acusado de tentative de homicídio pela polícia de Macau, e viria a escapar da justiça viajando para Hong Kong "debaixo dos panos". Um incidente que viria a ser relatado na biografia autorizada do actor: ""Sean Penn: His Life and Times", publicada em 2004.


"Shanghai Surprise" seria arrasado pela crítica, e Madonna voltou a fazer aquilo que melhor sabe: cantar. Em 1986 lança o álbum "True Blue", numa altura em que levou muito a sério uma comparação que lhe foi feita a Marilyn Monroe. O disco foi um sucesso, e produziu mais um naipe de singles que andaram pelos "tops", como o tema homónimo do álbum, "Papa don't Preach", "Open Your Heart", "La Isla Bonita", e este "Live to Tell", que foi banda sonora do filme "At Close Range", que contava com Sean Penn num dos papéis principais. Em 1987 Madonna voltou ao grande ecrã com a comédia "Who's that Girl", de que foi também autora do principal tema musical. Mais uma vez a crítica não ficou convencida.


Em 1988 Madonna tinha abandonado a imagem de menina-bonita da "pop" e adoptado uma pose mais provocatória, e em "Open Your Heart" celebrizou os famosos "soutien" em cone, e avançava a passos largos para uma postura de "sex-symbol", na vertente de "dirty girl". O casamento com Sean Penn terminaria em 1989, debaixo de acusações de que o actor a agredia, e nesse mesmo ano Madonna choca com "Like a Prayer", o seu novo LP que foi promovido com o single do mesmo nome. O single "Like a Prayer", onde Madonna exibe a sua vocação para o divino, resultado da sua educação crista, foi acompanhado de um video-clip polémico, onde a cantora mistura a temática da religião e do racismo. No video Madonna recorre à imagem de S. Martin de Porres, o primeiro santo negro da Igreja Católica, filho de um latifundiário espanhol e uma escrava negra do Perú, e patrono dos mestiços. O uso da simbologia e de alguns dogmas religiosos, como a estigmata, provocaram a ira dos mais conservadores, e o tema foi mesmo condenado pelo Vaticano como blasfémia. Vários grupos religiosos queimaram discos e outro material promocional da cantora, e boicotaram a marca de cola Pepsi, que usou "Like a Prayer" numa campanha publicitária. Claro que tudo isto levou Madonna aos mais altos píncaros da popularidade.


Madonna entrou nos anos 90 com o estatuto de diva da pop, de uma das maiores referências da música ligeira, conhecida no mundo inteiro e arredores. Soube sempre inovar, renovar o seu reportório, acompanhar as tendências e até aproveitar os deslizes. Exemplo disso foi aquando da divulgação de fotografias nuas e em poses eróticas com vários homens que fez quando era mais jovem, que usou em seu proveito, publicando o livro "Sex", seguido do álbum "Erotica", em 1992, e participando em filmes de pornografia "softcore" até alguns anos depois. De seguida recuperou a sua imaculada imagem encarnando Eva Perón no musical "Evita", que lhe valeu a simpatia da crítica cinematográfica, há muito de costas voltadas com a versátil artista. Teve uma filha, Lourdes, com um dos seus guarda-costas, casou mais tarde com o realizador britânico Guy Ritchie, e continua a fazer, dizer e ser quem quer, sem papas na língua e immune às críticas. Inspiração para muitos jovens artistas, obtém a aprovação de três gerações diferentes de fãs. Com 300 milhões de discos vendidos, o que lhe valeram o reocnhecimento do Guiness Book como "artista solo feminina que mais discos vendeu", Madonna é a maior sobrevivente dos anos 80, e leva já quatro décadas diferentes somando sucesso atrás de sucesso. Quer se goste ou não dela, muito, pouco ou mais ou menos, há que se lhe tirar o chapéu.

Morreu Eusébio, o maior


Morreu Eusébio da Silva Ferreira, conhecido apenas por Eusébio, "O" Eusébio. Qualquer pessoa que se chame Eusébio lembra este Eusébio. O "pantera negra", o maior jogador português de todos os tempos. Sim, claro, temos o Cristiano Ronaldo, o esmagador de recordes, mas Eusébio foi o maior do seu tempo, do tempo em que não se ganhavam milhares de euros durante os minutos em que se ficava sentado na retrete, tomava-se o banho e fazia-se a barba. Eusébio é do tempo em que jogar à bola era para os duros, não para os meninos. A bola era dura como uma bala de canhão, os adversários distribuíam "fruta" como se não houvesse amanhã, e imaginem só, nos tempos áureos de Eusébio nem se podiam fazer substituições. Levaste biqueirada? Dói muito e queres ir descansar? Aguenta que ainda falta mais meia hora.

Eusébio fez quase toda a sua carreira no Benfica, clube que desprezo especialmente. Os seus números, os seus títulos, tudo o que lhe diz respeito tem ligação com o Benfica, mas só aquela imagem do Eusébio a chorar quando Portugal foi eliminado das meias-finais do mundial de Inglaterra em 66 dá para lhe perdoar tudo e mais alguma coisa. Eusébio nasceu na antiga província ultramarine de Moçambique, mas era português dos quatro costados, e 100% benfiquista. A primeira destas qualidades deixa-me orgulhoso, a segunda eu perdoo-lhe. Perdoo-lhe tudo, e até estive no Estádio da Luz, território inimigo, quando o "Pantera negra" comemorou o seu 50º aniversário, onde reuniu algumas velhas glórias do seu tempo, e se seguida o plantel do Benfica daquele tempo jogou contra o Manchester United, naquela que foi a estreia de Eric Cantona pelos "red devils".

Eusébio era um homem humilde, com um coração enorme, que era tudo para os seus amigos e não sentia rancor por aqueles que o desprezavam ou subvalorizavam. Não tinha os "tiques" de vedeta, apesar de ser considerado um dos 10 melhores futebolistas de todos os tempos. Não vendia a sua imagem, e não fosse o seu papel como embaixador do Benfica, e teria passado dificuldades na sua vida. Mas e depois? Se o Benfica, um clube que reclama aquela dimensão toda precisa de um embaixador, esse terá que ser com toda a certeza Eusébio.

Eusébio passou por Macau duas vezes, a última delas em 1995, onde mais uma vez demonstrou toda a sua simplicidade de um homem de que era muito fácil gostar. O seu rosto carregado, a sua expressão simples, de alguém que abraçaria fosse quem fosse que dele se aproximasse e dissesse: "você é o maior, Eusébio" - e não era mentira, ele era mesmo o maior. Hoje ele deixou-nos, partiu para o lado de lá, e deixa-nos a sorrir, cheios de saudade, e não nos resta mais senão recordá-lo, ao legado que deixou, da pantera que na verde selva dos relvados furava as balizas do adversário com o seu pé canhão, e desmontava as defesas com a sua brilhante técnica. E ele nem fazia isso por mal. Nasceu e morreu com ele.

Qualquer coisa extra


Um jovem norte-americano no identificado tem dois pénis, e a sua história bem podia ser ficção e daria uma comédia (ou um filme porno), mas aquilo que muitos homens dizem por graça que gostariam de ter, pode tornar-se num problema sério. O jovem escondeu sempre a sua condição, por razões óbvias, e nos tempos de escola era constantemente humilhado pelos colegas. A mãe levantava a sua auto-estima dizendo-lhe que ele era "especial", e disso ele podia ter a certeza, pois os médicos dizem que o seu caso, que se chama difália, é tão raro que só foram encontrados 100 casos em todo o mundo, de que há registo. Ter dois pénis leva a problemas de ordem fisiológica, e quando ainda era criança, precisou de inserir um catéter na uretra, para poder distribuir a urina pelas duas, ahem, "saídas", e a pele de um dos orgãos é mais sensível que a do outro, o que lhe causa alguns incómodos. Sofre ainda de inflamação da prostáta, pois tendo duas glandes recebe dupla estimulação, e produz mais sémen que um homem normal.

Para provar que não era mentiroso, o "Double Dicked Boy" (rapaz dos dois "coisos"), como é conhecido na Reddit, publicou naquela rede social a prova, uma fotografia que esclarece todas as dúvidas. Pode ver a imagem aqui, mas aviso desde já para o conteúdo gráfico da mesma (quem não for uma virgem ofendida não vai ficar chocado, e sempre pode dizer depois que "já viu tudo"). Claro que choveram milhares de perguntas dos restantes utilizadores da Reddit, e o jovem esclareceu algumas. Diz que já fez filmes pornográficos, mas que agora "não precisa do dinheiro", e que algumas namoradas "ficam assustadas" quando descobrem o seu segredo - pudera, se achassem normal é que seria...anormal. Diz ainda que é bisexual, e que neste momento tem um relacionamento "com um casal". Gente prevertida, só posso assumer, sem querer julgar ninguém. Tenho pena do rapaz, pois aquilo que muitos considerariam uma benção, é na realidade uma maldição. É caso para dizer: cuidado com aquilo que desejam, porque pode vir a acontecer.

Festa da FA Cup em Inglaterra


Ontem foi dia de FA Cup em Inglaterra, a competição de futebol mais antiga do mundo, que nesta eliminatória já incluíu as equipas da Premier League. O Manchester City abriu as hostilidades, e não foi além de um empate em Ewood Park, casa do Blackburn Rovers, actualmente nos escalões secundários. Negredo marcou para os "citizens" em cima do intervalo, mas Scott Dann empatou aos 55 minutos para o Blackburn, levando a decisão da eliminatória para o desempate em Manchester.


O tomba-gigantes desta ronda foi o Sheffield United, actualmente 18º classificado da League One, o terceiro escalão do futebol ingles, e que foi vencer por 2-1 no reduto do Aston Villa. Jamie Murphy e Ryan Flynn foram os autores dos golos para os visitantes, enquanto o dinamarquês Niklas Jensen marcou para os da casa, que deixaram o treinador escocês Paul Lambert em maus lençois. Mais sorte tiveram outros primodivisionários que jogaram em casa, com o Everton a golear o Queen's Park Rangers por 4-0, enquanto Southampton e Stoke City tiveram mais dificuldade em levar de vencidos o Burnley e o Leicester, por 4-3 e 2-1, respectivamente.


Num dos encontros entre equipas do primeiro escalão o Newcastle foi surpreendido em St. James Park pelo Cardiff City por 2-1. Os galeses são agora orientados por Ole Gunnar Solskjaer, antiga glória do Manchester United, que não podia ter tido melhor estreia. O senegalês Papis Cissé adiantou os "magpies" no marcador aos 62 minutos, mas o Cardiff ainda teve tempo para operar a reviravolta, marcando por Craig Noone e Frazier Campbell aos 73 e 80 minutos. O Crystal Palace foi vencer fora o West Bromwich por 2-0, e o Hull City venceu em Middlesbrough pelo mesmo resultado. Norwich e Fulham não foram além de um empate a um golo, deixando a decisão da eliminatória para a segunda mão, no campo dos últimos.


A ronda de Sábado terminou com o jogo grande da eliminatória, entre os rivais londrinos do Arsenal e do Tottenham. Os "gunners" jogaram na sua casa, nos Emirates, e não deixaram os seus créditos por mãos alheias, vencendo por dois golos sem resposta. Santiago Cazorla aos 31 e Thomas Rosicky aos 62 fizeram os golos que ditaram a primeira derrota de Tim Sherwood desde que assumiu o commando dos Spurs. Hoje realizam-se as partidas envolvendo outros "grandes", com o Chelsea a visitar o Derby, o Liverpool a receber o Oldham e o Manchester United a jogar em Old Trafford frente ao Swansea.

Porto e Benfica abrem o ano com goleadas


Porto e Benfica golearam ontem os seus adversários nos oitavos-de-final da Taça de Portugal, e avançaram sem problemas para os quartos. Os dragões golearam o Atlético por 6-0, e as águias não ficaram muito atrás, brindando o Gil Vicente com cinco golos sem resposta na Luz. Na Invicta o Porto "vingou-se" da eliminação frente ao Atlético em 2007, com dois golos de Varela, um de Defour, Otamendi e Kelvin, e ainda um autogolo de Fábio Marinheiro. A equipa da Tapadinha, actualmente na liga de honra, não conseguiu repetir a gracinha de há seis anos, saíu vergada por uma derrota com números que não estariam nas expectativas do seu treinador, o conhecido Prof. Neca.


Na Luz o Gil Vicente mostrou que está longe da forma que evidenciou no início da época, e foi presa fácil para o Benfica, que nem precisou de se esforçar muito para golear. Rodrigo e Lima marcaram dois cada, e Markovic também fez o gosto ao pé. Ao intervalo o Benfica já vencia por 3-0, com os primeiros dois golos marcados nos 18 minutos iniciais. Noutras partidas deste Sábado o Rio Ave bateu o V. Setubal por 1-0, e o Estoril foi a Matosinhos golear o Leixões por 5-1. Hoje disputam-se as restantes partidas dos oitavos: P. Ferreira-Aves, Marítimo-Penafiel, Beira Mar-Académica e Sp. Braga-Arouca.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Os loucos


De vez em quando aparece lá pela repartição uma senhora que é louca. Quando digo "louca", não quero dizer que é alguma megalomania com a mania das grandezas, ou alguma pobre pateta armada em espertalhona, ou ainda uma jovem apoiante dos vários grupos activistas da pró-democracia de Macau. Nada disso. É louca no sentido clínico da palavra. Fundiram-se-lhe os fusíveis, faltam-lhe cartas no baralho, está a uma onda do naufrágio completo, a um número apenas de encher o cartão e fazer bingo. Em suma, é louca, coitada. Passou para o lado de lá, toma o chá das cinco à meia-noite, e convém mantê-la afastada de crèches, lugares altos, armas de fogo e objectos contundentes.

A senhora em questão andará pela casa dos sessenta anos, e visita amiúde alguns organismos governamentais, onde mal chega, começa a berrar, a insultar funcionários e a dizer obscenidades, enquanto acena com recortes de jornal e pretensos documentos. Alega que lhe roubaram as propriedades da família, que a filha assinou um contrato qualquer sob a influência de drogas que lhe misturaram na bebida, algo assim do género - e isto a confiar na tradução dos meus simpáticos colegas. Depois de dois ou três minutos a apontar para o pessoal da linha da frente e insultá-los mais as respectivas mães, é convidada pelos seguranças a retirar-se, o que faz sem oferecer muita resistência, mas enquanto sai vai bradando mais alguns palavrões. Nos piores dias ainda volta atrás e ofende a cidadania de mais algum agente público que tenha escapado à razia.

Recebemos a visita da senhora duas vezes no último mês e meio, pelo menos que eu tenha dado por isso. Às vezes fica sentada sossegadinha com os restantes utentes que esperam para ser atendidos, murmurando qualquer coisa, falando sozinha, mas é uma questão de minutos até soltar as feras e largar os fogos de artifício. Um dos sinais exteriores da sua loucura, além do cabelo desgrenhado e a roupa que deve ter adquirido no último saldo do Crazies'r'us é um adesivo que ostenta debaixo do olho direito, que aparenta ser o mesmo. Nunca estive a uma distância dela que desse para perceber se emana algum odor desagradável, mas a julgar pela sua aparência prefiro continuar na ignorância. Especialmente se for perto da hora de almoço, pois não estou de dieta neste momento.

Não sei se as suas alegações são válidas, se é mesmo verdade que lhe roubaram a casa, comeram-lhe a pinha ou eu sei lá, mas perde toda e qualquer razão que possa eventualmente ter com a conduta que adopta. Quem é enganado, trapaceado, vítima de fraude ou de alguma ilegalidade, não vai a uma repartição pública e desata aos berros. Se tem um caso sólido, recorre às instâncias judiciais, e se tiver provas concretas ou as costas muito quentes, tem fortes possibilidades de ganhar. Ajuda se tiver um daqueles advogados de topo, que ainda o desafio não começou e já estão a ganhar um a zero. Não vai ser a berrar e a bater o pé que lá chega, com toda a certeza. Não sei se já alguém se atreveu a escutar o que tem para dizer, ou a verificar a legitimidade das "provas" que diz ter das maldades que lhe fizeram, mas para que isso acontecesse devia pelo menos adoptar uma postura menos tresloucada. Eu pessoalmente teria medo que ela me mordesse, se me atrevesse a chegar perto.

Não faltam casos destes por aí, de gente que afirma que perdeu as propriedades que pertenciam à família, ora porque os pais foram enganados, ora porque a mãe é viúva e foi vítima de uma esquema montado por maladrins sem escrúpulos, ou porque "o Governo os roubou". Com o actual valor a que está a habitação e o metro quadrado, não me surpreende que se multiplique o número de potenciais lesados. Há quem chegue ao ponto de afirmar que alguns dos maiores marcos do território deviam ser seus, por direito, e o Teatro D. Pedro V é apenas um de muitos exemplos. Destas pessoas há os que são maluquinhos e demonstram-no, como no caso desta senhora que vos falei, outros que não batem bem e disfarçam mal, outros que ainda conseguem levar alguém na cantiga, e outros que até são capazes de ter a razão do seu lado, mas que nada conseguem provar ou que são impotentes para reaver o seu património. Desses não nos resta mais do que sentir pena deles. Paciência, é a vida. "Better luck next time".

Agora uma notícia que não tem nada, mas mesmo nada a ver com este caso da senhora louca e dos usurpadores do património alheio. O deputado Pereira Coutinho e o seu colega de bancada Leong Veng Chai apresentaram na Assembleia Legislativa um projecto que visava regular os aumentos das rendas dos imóveis e dos espaços comerciais, o Regime da Actualização das Rendas dos Bens Imóveis. A proposta foi votada na última quinta-feira e chumbada pela segunda vez, com apenas sete dos 31 deputados a votarem a favor, e foram os suspeitos do costume; além do próprio Coutinho e camarada, os democratas Ng Kwok Cheong e Au Kam San, o deputado dos "kai-fong", Ho Ion Sang, e as representantes das associações de operários, Kwan Tsui Hang e Ella Lei. Esta última foi a única entre os deputados eleitos pela via indirecta ou nomeados a aprovar a proposta.

Dos que votaram contra, nada de novo. O "gangue" do costume, composto pelos representantes dos sectores económicos e empresariais, e dos deputados eleitos pela via directa destacam-se os nomes de Mak Soi Kun, Zheng Anting e Si Ka Lon. A ligação dos dois primeiros ao sector da construção civil e do imobiliário não terá tido certamente alguma influência no seu sentido de voto, assim como esta notícia não tem nada a ver com a tal senhora que é louca, coitada. Além dos sete votos a favor e dos 17 (!) contra, há ainda a registar cinco abstenções e duas ausências. Curiosamente Wong Cheng Kit, a tal que não gosta de enfermeiros portugueses, não seguiu o sentido de voto do seu colega de bancada Ho Ion Sang, que votou a favor. A malta de Fujian dispersou-se ainda mais, com Chan Meng Kam a abster-se e Song Pek Kei, a "caçula" do hemiciclo que se celebrizou recentemente pelas suas afirmações xenófobas a respeito dos trabalhadores não-residentes, estava ausente do plenário na hora da votação. Leonel Alves nem foi ao hemiciclo nesse dia. Para quê? Se calhar já sabia no que aquilo ia dar. É advogado, e se calhar um daqueles que já sabe qual vai ser o resultado ainda antes do início do jogo, e que referi há pouco.

Mas agora vamos lá a ver: porque diabo os srs. deputados AL, o orgão legislador da RAEM, com a função de fiscalizar a acção do Executivo, e representar a população e zelar pelos seus melhores interesses, votam contra uma proposta desta natureza? Pôr um ponto de ordem nessa tropa-fandanga que tem sido o aumento desmesurado do preço das rendas, que tem efeitos directos na economia das famílias e vem arruinando o comércio tradicional é de todo o interesse para a população. Mas o que é que querem? O Mercado "é livre", e o Governo "não deve interferer" como afirmou o próprio Chefe do Executivo. De facto dá muito jeito que na cleptocracia que Macau se tem vindo a tornar a roubalheira seja praticada com a cobertura da lei. Porque é que os senhorios vão poder continuar a praticar os aumentos absurdos das rendas, pedindo às vezes o dobro ou o triplo, como tem sucedido com as lojas, sem que nada o justifique? Porque podem. "Yes they can".

É no mínimo irónico que poucos dias depois de Chui Sai On ter dito na sua mensagem de Ano Novo que "está atento à qualidade de vida da população", o seu irmão Chui Sai Cheong e o seu primo Chui Sai Peng, ambos deputados, vão votar contra uma proposta que podia contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população. Mas porque é que estou a trazer para aqui os laços familiares, se afinal os três pensam pela própria cabecinha? A única coisa que têm em comum além do apelido derivado do parentesco são as participações nas empresas "offshores" registadas nas Ilhas Virgens Britânicas e a sociedade naquela Associação de Beneficência em proveito próprio, e que leva o nome de um tal hospital. Se calhar o louco sou eu, e não a senhora da outra história que não tem nadicas de népia a ver com este caso. E no fundo "de poeta e de louco, temos todos um pouco", e já que me socorro deste provérbio, reparo que em Macau se tem feito pouca ou nenhuma poesia. E pronto, agora se não se importam, vou dormir, pois amanhã vou almoçar com o Pai Natal e o Coelho da Páscoa na tasca dos sete anões, onde se comem umas asas de leitão assado de chorar por mais. O pior são as espinhas. Boa noite!

Os sons dos 80: Live Aid


O "Live Aid" foi um mega-evento organizado pelos cantores britânicos Bob Geldof e Midge Ure, no sentido de reunir donativos para auxiliaras vítimas da grande fome de 1983/84 na Etiópia. A iniciativa surgiu no seguimento da gravação do single "Do They Know It's Christmas", em Dezembro de 1984, e cujos lucros reverteram para a mesma causa. Muito mais ambicioso, o "Live Aid" teve lugar a 13 de Julho de 1985 em dois palcos de ambos os lados do Atlântico: em Wembley, Inglaterra, e no EstádiO JFK, em Filadélfia, nos Estados Unidos, numa duração total de 16 horas. A ideia inspirou ainda a realização de cpncertps nesse mesmo dia noutros países do mundo, como na Alemanha ou na Austrália, tornando esse 13 de Julho conhecido na história como "o dia do Live Aid". A cobertura televisiva foi massiva, com uma transmissão ao vivo para 150 países, e uma audiência de quase 2 mil milhões de espectadores.


Em Wembley mais de 72 mil pessoas encheram o mítico estádio londrino para o concerto que teve início ao meio-dia, e terminou já depois das dez da noite. O Status Quo encarregaram-se de aquecer o ambiente com o seu sucesso "Rockin' All Over the World", além de outros temas. Outros momentos altos incluíram a "performance" dos U2, com o vocalista Bono a descer do palco e dançar com uma espectadora durante a interpretação de uma versão de 14 minutos do tema "Bad". Elvis Costello contribuíu com a sua rendição do tema um tema dos Beatles, "All You Need is Love", e o próprio beatle Paul McCartney subiu ao palco para cantar "Let It Be", com o seu piano a trai-lo, recusando-se a tocar durante os primeiros dois minutos da canção. Essa não foi a única avaria da noite, pois a transmissão em directo para o outro lado do Atlântico caíu no momento em que os The Who cantavam "My Generation". David Bowie também esteve em palco para cantar "Heroes", e o próprio organizador do evento, Bob Geldof, fez-se acompanhar dos seus Boomtown Rats para cantar o seu maior êxito "I Don't Like Mondays".


Passavam 41 minutos da seis da tarde quando subiram ao palco os Queen, liderados pelo carismático Freddie Mercury, especialmente inspirado nesse final de tarde. Durante os 25 minutos que estiveram em palco, os Queen fizeram a audiência vibrar com temas como "Bohemian Rhapsody", "Radio Gaga", "We Will Rock You" ou "We Ar the Champions", entre outros. Um momento memorável que valeu ao grupo um regresso a Wembley no ano seguinte, que ficou registado no álbum ao vivo intitulado precisamente "Live at Wembley '86".


Em Filadélfia foi Joan Baez a abrir as hostilidades cantando "Amazing Grace" em coro com a audiência, e ainda antes disso iniciou a parte Americana do "Live Aid" dizendo: "este é o vosso Woodstock, e já era tempo". A tarde foi marcada por alguns momentos caricatos; Tom Petty fez um manguito a um elemento da produção, e Madonna entrou em palco começando por dizer que "não ia tirar a roupa", uma referência às fotografias nuas publicadas na Playboy e na Penthouse sem o consentimento da cantora. O momento mais cómico da noite deu-se quando o guitarrista Ronnie Wood subiu ao palco com os Rolling Stones...sem guitarra, tudo porque "emprestou" a sua a Bob Dylan, que partiu uma corda durante o seu acto. Ron Wood levou tudo na desportiva, e tocou uma guitarra imaginária. O momento mais embaraçoso foi quando o vocalista dos Duran Duran errou numa nota do tema "A View to a Kill", mas o momento que ficou na rotina foi quando Mick Jagger e Tina Turner cantaram em dueto "It's Only Rock'n'Roll (and I like it), que record aqui neste espaço. As ausências mais notadas foram as de Prince, Michael Jackson - já na altura a debater-se com os seus "dramas pessoais" - e Bruce Springsteen, que foi o artista que mais vendeu nesse ano. O cantor viria mais tarde a admitir que "desvalorizou a importância do evento". Um caso de mau "management" do "boss", portanto.

Virgem só o azeite


O psicólogo Quintino Aires foi repreendido com pena suspensa por dois anos, pelo Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos, por declarações proferidas num programa de rádio sobre a virgindade de um rapaz com 26 anos. A decisão foi ontem tornada pública, num edital publicado na imprensa escrita. As declarações foram proferidas em Janeiro de 2012 no programa de rádio da Antena 3 "A hora do sexo", que Aires faz juntamente com a sua colega de profissão Raquel Bulha (juntos na imagem). O psicólogo referiu-se a um concorrente do "reality show" Casa dos Segredos que tinha confessado nunca ter tido relações sexuais aos 26 anos, comparando aquela condição "à de uma criança com 10 ou 12 anos que não iniciou a atividade escolar". Acrescentou ainda que "é chocante" que os restantes concorrentes do programa o tenham felicitado, sugerindo que o jovem "tem um problema, e devia procurar ajuda". A decisão da suspensão que toma agora efeito foi tomada em Setembro.

Quintino Aires é um personagem interessante, muito requisitado para programas de televisão e quejandos devido à forma aberta como fala de sexualidade; é assim um prof. Júlio Machado Vaz mais ousado. Não contesto a decisão da Ordem dos Psicólogos, mas concordo com o dr. Aires. Se errou foi ao não guardar a sua opinião consigo, ou per ter feito um diagnóstico que não lhe foi encomendado. Um jovem de 26 anos que nunca teve relações sexuais e orgulha-se disso, e ainda confessa como se fosse algo meritório, tem certamente algum desiquilíbrio de ordem psíquica. E isto dando-lhe o benefício da da dúvida, pois tratando-se de um daqueles "reality shows" em que os concorrentes são votados pelas audiências, dizem-se todos os disparates e mais alguns. Isto de ser ou não virgem não diz nada sobre a personalidade de ninguém. Para mim o única virgem que importa é o azeite. E tem que ser mais que virgem - extra-virgem de preferência.

Pregos e bifanas, delicadezas lusitanas


Qual é o nosso património, no fim de contas? O fado? Passo, obrigado. As descobertas? Águas passadas não movem moínhos. A nossa bela e solarenga costa banhada pelo Atlântico? Sim, mas isso é mera coincidência, um acaso da natureza. E que tal a gastronomia, a nossa paparoca? Sim, sim, boa, mas qual? O bacalhau à Lagareiro, o Cozido à Portuguesa, a perdiz de escabeche rematado com o pudim de abade de Priscos e uns pastéis de nata para os menos exigentes? Nah, isso são coisas fofas, rebuçados para os meninos e chupa-chupas para as meninas. Essa é a ementa dos meninos de coro. Do que a malta gosta mesmo é de bifanas, de prego no pão, de coiratos e entremeadas, e já agora de torresmos porque não? E haja mostarda para os cachorros.

Para quem acha que estas delícias económicas, que não requerem muito esforço e aconchegam a barriga são o manjar da plebe, uma espécie de tremoços e amendóins para carnívoros, aqui está uma notícia que vai deixar os vossos caviares e faisões a saber a esterco de boi: uma rulote de bifanas e derivados na Califórnia é um sucesso, e os "camones" lambusam-se com as especialidades que normalmente se podem encontrar nas redondezas do Estádio da Luz. Levi Medina e a sua mulher Tanya, que é também sua sócia, imigrantes açorianos da Graciosa e S. Miguel respectivamente, abriram uma tasquinha em Abril último na costa oeste, a que chamaram Portu-Galo, e o sucesso foi tal que alargaram as operações até à Florida, e têm a sua sede no estado de Rhode Island. Optaram pela simplicidade, e depois foi só facturar.

Além das iguarias já mencionadas, a Portu-Galo serve ainda galinha de piri-piri, empadas de chouriço, rissóis de camarão, mas as bifanas com ovo são sem dúvida o pedido com mais saída. "Chegamos a vender dez dúzias em duas horas", diz o casal. Levi Medina diz que os seus clientes são quase todos norte-americanos e outros não-portugueses, e atribui o sucesso do negócio à curiosidade dos locais, e ao alho. "Quer dizer, quem não gosta do sabor a alho?", diz o empresário. A página do Facebook do Portu-Galo (podem acedê-la aqui tem mais de sete mil "likes", ou "gostos", de gente de mais de 20 países que gosta dos "Portuguese sandwiches and small bites", que é o que prometem. São os nossos melhores bocadilhos, e pecadilhos.

Vídeo da semana


Era isto que fazia falta por cá, para tornar o "revéillon" mais interessante. Esta aurora boreal foi avistada em Reiquejavique, capital da Islândia, na primeira noite de 2014. Bom para eles, enfim, nós temos coisas que eles não têm, outras luzes, como as dos casinos, por exemplo.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Mandarim, manda-tripa, haja paciência


Também no Portugal no Coração de ontem, um dos convidados foi o Jorge Serafim. Não sabem quem é o Jorge Serafim? E se vos disser que esteve por cá ainda há pouco tempo, em Outubro, na companhia do seu parceiro Ângelo Torres a "contar histórias". Pois, são contadores de histórias, fantástico. Quando disse que tinha "voltado agora de Macau", Jorge Gabriel não resistiu a perguntar o que achou, e Jorge Serafim disse que "viu muita coisa", e deu o exemplo do patuá, que é "uma mistura do português e do Mandarim", e que "cada vez menos gente fala". Epá pois é, o gajo tem razão. É uma mistura do Português e do Mandarim, e prontos. E nós aqui a discutirmos o que é o patuá, e tal, e veio aqui este iluminado e ficou completamente esclarecido. Vá lá, do mal o menos. Pelo menos não foi ao "Cinco para a Meia-Noite", senão tinham-lhe perguntado se tinha comido cães e gatos, que o público português adora ouvir essas coisas: que as pessoas vêm aqui a Macau ou à China e não há mais nada para comer a não ser animais domésticos.

Os portugueses que viveram em Macau - e quero dizer os que "viveram" mesmo, e não ficaram aqui um ano a ir de casa para o trabalho e vice-versa de carro preto - sabem que isto são tudo disparates, e sabem que nem vale a pena contrariar essa fantasia húmida que a tuga tem do Oriente. Os que vêem aqui de férias ainda aprendem qualquer coisinha, mas encontram sempre algo completamente diferente do que estavam à espera. Permitam-me que em nome de Macau apresente as minhas mais humildes desculpas por vos termos desiludido, e que o cão que as pessoas têm em casa não tenha aparecido cozinhado para o almoço, para vossa satisfação. E sim, desculpem lá uisso das pessoa aqui serem normais, e não todas amarelas com roupões de desenhos de dragões e trancinhas.

Mas é mesmo assim, quando se pensa em Macau pensa-se na China, e quando se pensa na China pensa em chineses, e quando se pensa em chineses pensa-se em...crescimento económico? Super-potência? Oportunidades de investimento? Nada disso! Pensa-se em chineses, ora. No chinesinho Limpopo, no Pudim Flan El Mandarin, sei lá, em coisas esquisitas. É que logo a seguir ao Portugal no Coração deu um documentário sobre os chineses a viver em Portugal, e a reportage da RTP levou-nos a S. João da Madeira, distrito de Aveiro, ex-capital do calçado. Ui aquilo é que eu desaprendi com aquele riquíssimo programa. Valeu ter ficado de pé quase até às três e assistir àquele lindo espectáculo. Portugal no seu melhor.

Primeiro assistimos a um casamento muito sui generis, com um noivo português e uma noiva chinesa. Nãããooo! O mundo ao contrário. Como é possível isto? É como acasalar um polvo e uma andorinha. O noivo lá desabafa que não foi fácil, que os pais dela preferiam um noivo chinês, seus pais preferiam "outra noiva" - isto explica em parte porque os pais da noiva preferiam um noivo chinês. Os amigos dele acham "esquisito", e ficamos a saber que os casamentos entre portugueses e chineses são "pouco comuns". Também com esta atitude, como é que as lindíssimas chinesas, quase sempre originárias de Zhengjiang, provincial vizinha de Xangai, iam querer casar com uns sebosos como nós? É que o rapaz ainda casasse com uma kenga ucraniana, moldava ou brasuca, ainda vá lá, agora chinesa?

E de facto a integração dos chineses em Portugal tem que se lhe diga. Uma portuguesa que trabalha numa loja dos chineses diz-nos que "é mais fácil uma cliente entrar quando ela está lá dentro", porque se virem só chineses "têm medo". Pois é, se estivesse ali o Jack o Estripador entravam, porque "é inglês", mas chineses, vade retro, será que mordem? Pelo menos com o medo podem eles bem. O pior é quando vai um chinês na rua e um tuga marialva qualquer grita ao longe "ó chinês!". Que rica observação, que exemplo de coragem. Agora se fosse um africano, teria um pouco mais de relutância para expressar os seus dotes de bom observador, denunciando a tez de alguém que lhe é completamente estranho. Porque será? Somos uns heróis, meus compatriotas.

Diz a moça da tal loja que aprendeu a ler os números em chinês "por causa dos preços" (?). Bem, pelo menos alguém aprendeu alguma coisa nisto tudo. Ao contrário de outro ndivíduo entrevistado logo a seguir, que diz ter "aprendido Mandarim!". E o que sabe ele dizer? "Nin hao"...."Xie xie"...e...e mais o quê? Foi só. E não foi aprender em S. João da Madeira, pensam o quê? Foi na China! Aquilo é que foi uma viagem proveitosa. Mas o que é o Mandarim? Segundo este brilhante documentário, "é o DIALECTO mais falado da China". Afinfa-lhe, que é dialect. Mas que importância tem se é dialecto ou a língua oficial? Se perguntarem ao um tuga médio que língua se fala na China, eles respondem "chao chu chi chong".

O contrário é menos verdade, pois os chineses de aprendem muito mais depressa o Português dos que os portugueses o chinês...em S. João da Madeira. Ficámos a conhecer uma escola de Mandarim, com uma professora chinesa que dá aulas a meia dúzia de curiosos tugas que nunca terão a iniciativa de se mudar de armas e bagagens para a China, mas ouviram dizer que aprender a falar chinês "é que está a dar". Quando a 'stôra chega exclamam todos em coro: "nin hao, lao xie!". A jornalista que conduziu a reportagem - que se ainda não fiz esta referência, era parvinha - entrevistou um exportador de vinhos que faz negócios na China, e de tudo o que lhe podia perguntar, quis saber se os chineses sabem pronunciar "Alvarinho". O empresário, com muita paciência, explicou-lhe que não, "assim como não conseguem pronunciar muitos nomes estrangeiros". Nas entrelinhas notava-se que o lhe estava a dar vontade de mandar a menina a tal sítio, mais as suas perguntas idiotas.

Um dos participantes deste desastre foi Y Ping Chow, o aclamado líder da comunidade chinesa em Portugal, e ali residente há várias décadas. A repórter perguntou-lhe se o senhor Y se tinha adaptado bem a Portugal, aos costumes portugueses, e se "tirava férias". Ahahahah, hilariante. Não perceberam? Eu explico: os chineses trabalham todos os dias, até ao Domingo, e não fecham pontualmente às 5:30 da tarde nos dias de semana. Y Ping Chow respondeu que sim, enfim, que tira férias e tal, e coitado, até o devem ter obrigado a parar de trabalhar. Os chineses em Portugal são a antítese da anedota do Alentejano, mas é aquele tipo de anedota que só quem a conta acha uma ponta de graça.

Y Ping Chow levou a repórter ao cemitério onde estão depositados os restos mortais dos seus avós, e sem ter entrado em qualquer tipo de detalhe, assumimos que o empresário chinês terá trazido os seus familiares para viver em Portugal quando ali se radicou. A nossa cicerone não resistiu e fez a pergunta que tem atormentado os portugueses desde sempre, chegando a tirar-lhes o sono: porque é que não se vêem funerais chineses em Portugal? Y Ping Chow explicou que de facto alguns chineses voltam à sua terra natal quando envelhecem, ou se ficam doentes, e preferem morrer lá. Vejam só, isto é mesmo um povo esquisito; querem morrer na sua terra em vez de noutro sítio qualquer a milhares de quilómetros de distância. Mas Y deixou saber que sim, alguns chineses defuntos ficam enterrados em Portugal, e prova disso são os seus próprios avós, cujo túmulo se encontrava mesmo ali à sua frente. É que para os portugueses um "funeral chinês" implica que hajam danças do leão e do Dragão e a actuação da ópera de Pequim.

O documentárioa cabou com o Marco, um filho de chineses nascido e criado em Portugal há quase vinte anos, e que se sente "100% português". Não troca os "erres" pelos "eles", fala um português perfeito, e vejam só, é fã da selecção portuguesa e do Cristiano Ronaldo. Que fenómeno...porque será? Ainda existe o Jornal do Incrível? É que isto é matéria para primeira página e reportagem de quatro páginas centrais. Meus caros amigos chineses a viver e a trabalhar em Portugal: em nome de todos os portugueses, que não tiveram a dignidade de os receber como pessoas e tratam-vos como marcianos, as mais sinceras desculpas. E garanto que não somos todos assim. É da crise, sei lá.

Júpiter & Neptuno Lda.


Esta senhora que vemos na imagem é uma tal Cristina Candeias, que apesar de já não ser uma franguinha de aviário, ainda tem umas curvas de meter respeito a muita garina que por aí anda. Não sei que idade a senhora tem, mas diria que anda pela casa dos 50 ou por aí perto, mas o seu ar jovial e bem disposto confere-lhe uma graça própria daquelas pessoas que estão de bem com a vida - e bem na vida. Sim, e reparem na capa deste livro de que a Cristina é autora. Está com óptimo aspecto, e ao contrário das suas aparições televisivas, optou por um penteado mais discreto, enquanto que outras vezes aparece com o cabelo espetado, madeixas brancas ou loiras, assemelhando-se (penso que involutariamente?) a uma bruxa. E falando em bruxa, atentem ao título do livro: "Astrologia, Karma e Felicidade". Esqueçam o "karma", que é uma coisa muito complicada que não me atrevo a discutir, e a "felicidade", que depende da ambição pessoal. Assim ficamos com "astrologia", e é disso que o livro se trata. A Cristina Candeias é astróloga, ou seja, prevê o futuro através dos astros. Agora trocando por miúdos: é uma charlatã e uma cabotina que vive da superstição alheia. E olhem lá que isto é uma coisa que dá dinheirinho do bom, upa, upa. Chamem-lhe de tudo menos de parva.

Pronto, já sei o que vão dizer as pessoas que acreditam na astrologia: estou a falar do que não sei, e há coisas que ultrapassam a minha compreensão blá, blá, blá. Sim, de facto há coisas que me ultrapassam, como ainda existirem pessoas com medo de um gato preto ou do nº 13, adultos que dormem com a luz acesa com receio que venha o bicho papão, e sabem quantas cartas recebeu o Pai Natal este ano? Nem imaginam. Mas pronto, neste "carnaval" não podiam faltar as pessoas que acreditam que fenómenos cósmicos que acontecem a milhões de quilómetros de distância podem ter influência na vida de um único indivíduo na Terra. E pimba! assim resumi a astrologia numa frase simples que qualquer criatura semi-alfabetizada entende. É preciso não confundir a Astrologia com a Astronomia. A Astronomia é uma ciência que estuda os astros e que se baseia em factos, enquanto a Astrologia é uma aldrabice que qualquer um com lábia consegue efectuar, desde que aprenda a terminologia e saiba ler aqueles mapas da gruta dos 40 ladrões das Mil e Uma Noites a que chamam "cartas astrais". É chato que confundam os astrónomos, que apesar de serem uns tipos esquisitos que passam a vida a olhar para o céu com os astrólogos, que são uns vigaristas. É o que acontece quando se dá a uma ciência respeitável um nome semelhante a uma patranha.

Por incrível que pareça, existe gente educada, civilizada e com educação superior que acredita na Astrologia. Aliás, é mais provável alguém com um nível literário superior acreditar do que alguém com uma educação mais modesta. Os primeiros lêem religiosamente o horóscopo na edição de Domingo do Correio da Manhã, enquanto os segundos preferem as fotos das gajas semi-nuas. Até o cidadão médio que se diz nada supersticioso e "não liga a essas parvoíces" não resiste a espreitar a página do horóscopo no jornal, que fica normalmente na mesma secção da banda desenhada ou das palavras cruzadas e ao lado da programação da TV - isto prova quão "científico" isto é. Os horóscopos destes jornais são um conjunto de inanidades ambíguas e aleatórias que se aplicam a qualquer pessoa que tenha nascido no espaço de tempo que a pessoa que a leu nasceu, e são normalmente escritos por uma colaboradora solteirona que vive com um bando de gatos ou um gajo qualquer da redacção que ficou incumbido daquela secção nesse mês.

Cada pessoa tem um signo de um tal zodíaco, dependendo da data em que nasceu. Estes signos são baptizados com nomes de constelações da Via Láctea. Há pessoas que se recusam em acreditar na Astrologia a tal ponto que duvidam até que estes grupos de estrelas se chamam mesmo "Capricórnio", "Touro" ou "Virgem". Há quem não saiba sequer o seu próprio signo, pois para aumentar a confusão, um signo não corresponde a um mês. Alguém que tenha nascido a 22 de Março e se esteja nas tintas para o zodíaco não sabe bem se é Peixes ou Carneiro, pelo que se torna complicado oferecer-lhe uma medalhinha com o signo no aniversário. É um facto comprovado que 99% das pessoas que sabem o seu signo desconhecem por completo o ascedente, ou seja, outro signo que lhe serve assim como uma espécie de co-piloto, e depende da hora em que nasceu - uma ideia genial para acrescentar à aldrabice, pois assim como doze são os signos e doze são os mesmes do ano, também o dia se divide em duas partes de doze horas. Ena. E reparem como os minutos de uma hora e os segundos de um minuto são 60, que é múltiplo de 12. Os aficionados da Astrologia devem ter portanto co-ascendentes, co-co-ascendentes, cócó ascendentes, etc.

A mim quando me perguntam o ascendente a seguir ao signo, fico piurso. Muito bem, sou Sagitário, respond sempre com educação a quem pergunta, mas se depois me perguntam "...e o ascendete", dá-me vontade de responder "é a fava; agora vá lá ao meu ascendente, por gentileza". O pior é quando nos julgam em termos de personalidade de acordo com o signo: se digo "sou Sagitário" respondem "logo vi". Logo viu o quê? Nem o mês em que eu nasci isto revela se eu não disser o dia exacto, que pode ser finais de Novembro ou primeiros dois terços de Dezembro. Desde quando o dia em que alguém nasceu revela o que quer que seja sobre a personalidade? Conheço pessoas de todos os signos que são encantadoras, e outras que são umas pestes. Portanto peguemos num dia ao acaso, vejamos, pode ser 20 de Abril. Quem nasceu neste dia? Portanto temos Santa Rosa de Lima, começamos bem, e Tito Puente, o saudoso rei da rumba, "muy caliente", ou a actriz Carmen Electra, das ricas mamocas, e...Adolf Hitler. Caso encerrado. Ganhei, vou para casa.

Mas a boa da Cristina Candeias explica estas coincidências e muito mais: depois de anos de profundos estudos, leituras de mapas astrais, etc, etc, (e uma dieta; lembram-se de como era gorda há coisa de dez anos?) chegou a conclusões que a levam a determinar tudo e mais alguma coisa que vai acontecer a alguém que nasceu às 15 horas, 13 minutos e 52 segundos do dia 25 de Junho de 1994. Fazendo as previsões para o ano de 2014 para cada signo - e por acaso dava jeito saber para poder passar logo para 2015, que estou cheio de pressa de morrer - diz-nos que a Balança isto porque Júpiter está na casa de Saturno, ou que as finanças não vão ser boas para Leão porque Neptuno está na casa das finanças, mas que parvoíce é esta? E comigo, como estão Neptuno e Jupiter? Neptuno ainda compreendo que esteja um pouco aborrecido, por causa dos xixis que fiz na água quando vou à praia, mas Jupiter? Nunca fomos apresentados. Pelo menos que eu me lembre.

Para um leigo nesta matéria, ouvir que Jupiter vai ser mau para as finanças quer dizer que se vai ser assaltado por um carteirista com esse nome (talvez cigano), que o amor está em Neptuno, pode significar que vamos conhecer a mulher da nossa vida num clube nocturne com esse nome, lá para as bandas do Seixal ou do Monte da Caparica, o que a saúde vai ser influenciada por Mercúrio, sópode querer dizer uma coisa: febre. Mas a Cristina Candeias garante que é tudo verdade, verdadinha, só não acerta nos números do Euromilhões porque lhe dá gozo fazer aquela figura triste. E por falar em figuras tristes, o Jorge Gabriel divirtia-se a valer com aquilo, e só lhe faltava rir-se na cara da senhora. Mas que gajo tão ignorante pá, só podia ser Gémeos!

PS: Jorge Gabriel nasceu a 29 de Maio de 1968, o que faz dele, efectivamente, um native do signo de Gémeos.

Figura da semana: David Kong Cardoso


Todos sabemos por que ruas da amargura anda o futebol em Macau, e de como estamos em matéria de formação: não dá para falar mal do que simplesmente não existe. No entanto não há obstáculos que muito trabalho e uma boa dose de vontade não consigam ultrapassar, e esse é o caso de David Kong Cardoso, o jovem macaense que corre atrás de um sonho que já esteve mais longe de realizar. Filho de Rui Cardoso, um ex-futebolista que veio terminar a sua carreira em Macau nos anos 90 e se tornou campeão como jogador e treinador, David foi para Portugal treinar nos escalões de formação do Benfica, passando ainda pelos juniores do Feirense e pelo meio com um regresso a Macau, onde alinhou na equipa dos sub-19 da AFM. O jovem David, que completou 19 anos no último dia 13 de Dezembro cumpre agora o seu primeiro ano como sénior no Mafra, equipa que lidera a Série F do Campeonato Nacional de Seniores, a antiga II divisão "B", o terceiro escalão da pirâmide do futebol português. A sua juventude não permite que se imponha tão rapidamente como desejaria na primeira equipa, mas devagar se vai ao longe, e o David já teve o seu "baptismo" na recta final do mês passado, jogando como suplente utilizado nos empates em casa frente ao Alcanenense (3-3, 30 minutos), e em Fátima (0-0, 17 minutos).

Conheço o David pessoalmente, e uma vez tive o prazer de o acompanhar numa viagem de "jetfoil" a Hong Kong, onde treinou durante algum tempo nos juniores do South China, a maior equipa da RAE vizinha. É um "puto" quem cativa quem o conhece: desinibido, conversador, com aquele brilhozinho nos olhos que todos os candidatos a estrela ostentam, sem no entanto deixar de manter aquela humildade de quem ainda nada conquistou, e de quem está ainda muito longe da meta. Pelo menos em termos de personalidade (vou ser sincero, nunca o vi jogar) é um exemplo para os jovens como ele que perseguem uma profissão a sério nos relvados do futebol, uma opção de carreira nem sempre bem vista por alguns pais. Está de parabéns o David, que a manter-se assim vai pelo menos conseguir impôr-se na sua equipa actual, e continuando a trabalhar como tem feito, é uma questão de tempo até dar o "salto". Está também de parabéns o seu pai, Rui Cardoso, que acreditou no seu rapaz, e não foi em cantigas: se é esse o sonho do miúdo, não resta senão apoiá-lo em tudo o que for necessário.

As galinhas e o pato


Christopher Poole tinha um sonho: ganhar um "black card" da cadeia de restaurants Nando's, que lhe garantiria refeições grátis para o resto da sua vida. Para quem não sabe o que é a Nando's, trata-se de uma cadeia que serve como especialidade frango assado com piri-piri à boa maneira portuguesa, e não é à toa que isto acontece, pois foi ideia de um emigrante português na África do Sul, o tal "Nando". A cadeia tem restaurantes um pouco por todo o mundo, e para conseguir o cartão que lhe daria licença para aniquilar galinhas até que a morte o levasse, Christopher comeu em 85 restaurantes do Reino Unido, o que significa que faltavam "apenas" perto de 950 para este jovem de 26 anos de St. Alban's, Londres, realizar o seu sonho. Só na Austrália existem 300 restaurantes Nando's, e o rapaz já fazia planos de ir lá este ano ajustar as contas com os galináceos locais, só que oops! a promoção que teve início há dois anos já não é válida. O pobre Christopher está desiludido, pois assim gastou mais de mil libras (15 mil patacas) em vão. Em vão não, pois afinal ingeriou uma quantidade copiosa de carne das aves, que até dizem que é a mais saudável do clássico triângulo carnívoro vaca/porco/galinha. Reparem no ar do Christopher, que respira saúde, por trás daquela cara de pato. Só lhe faltam as penas.

Qual é coisa, qual é ela...


Adivinha: Um gajo fica bêbado e entala a cabeça na janela. Em que país estamos?

Na Rússia, onde mais?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Está impedido


Existia uma tira da Mafalda, a pequena politóloga fictícia criado pelo cartoonista argentino Quino, que era uma das minhas favoritas. A pequena Mafalda ouvia na rádio que "o Papa fez mais uma chamada à paz", e comenta em voz alta: "e como sempre, estava impedido". Delicioso, sem dúvida. O Papa, como lhe compete liga para a Paz, mas esta viva com um irmão que é cabaleireira e encontra-se actualmente no desemprego, e passa o tempo em que está acordada ao telefone com as restantes amigas desocupadas a cortar na casa alheia. Ah sim, e transportando isto para a modernidade, a Paz também não tem telemóvel, Facebook, Yahoo! Messager, QQ ou algo que a valha, porque a Paz é antiga, tão antiga, que tropeça na própria barba. Aliás a Paz nunca existiu. Se o Papa ligasse para um número da CTM à procura da Paz, ouvia sempre aquela mensagem "o número que marcou não se encontra registado", que escutamos sempre que ligamos para uma tipa giraça com quem rolámos no palheiro há uns meses e ficamos com vontade de pedir um bis, mas a ramelosa mudou de número ou pisgou-se de Macau sem nos dar cavaco.

Pois é, como "noblesse oblige" das suas funções de líder espiritual de mais de mil milhões de alminhas, o Papa Francisco apelou durante a sua mensagem de Ano Novo à "paz no mundo", dirigindo-se aos líderes mundiais para que se esforçem nesse sentido, porque epá, como dizia um chefe que eu tive que era óptima pessoa mas não tinha jeito para mandar em ninguém, "sejam amigos, vá lá, não briguem...". O Papa Francisco, e quem me conhece sabe que digo isto com 99,9% de sinceridade (os 0,1% restantes são a margem que dou à minha face negra da Lua), é um tipo bestial, e gosto muito dele. A sério, eu até o queria eleger Personalidade do Ano, mas a TIME já o fez antes de mim, e não penso que essa menção neste modesto blogue fosse ter alguma importância. Mas sim, gosto muito do senhor, e acredito plenamente na sua bonomia. É muito difícil fingir ser tão genuinamente bom, mesmo para um sacerdote católico. E olhem lá que eu sou um pagão de primeira apanha, do tipo que evitava ir à catequese com medo de levar nas orelhas. Pelo sim pelo não, nem sequer me baptizei.

O Papa Francisco é merecidamente a figura do ano. Sim, sem sombra de dúvida, pois alguém que conseguiu transmitir a sua mensagem como pessoa, de homem para homens e mulheres (e crianças que não estejam demasiado distraídas a olhar para a sua farda para o escutar), sem aquela aura intimidatória e sisuda do cargo que ocupa, que arrasta a voz como se estivesse prestes a entrar em êxtase divina (ou com prisão de ventre), é merecedor de todos os encómios. O homem que demonstra querer pegar na Igreja Católica e transportá-la para a modernidade, que considera que uma mãe solteira é antes de "solteira" uma "mãe", e que se atrevou a considerar os homossexuais seres humanos, uma atitude pioneira no seio da Igreja que lidera, é um senhor. Gosto especialmente quando telefona a um fiel para lhe responder a uma carta, esclarecer-lhe uma dúvida, prestart-lhe apoio ou dar-lhe bons conselhos. Até estou a pensar em escrever-lhe e dar-lhe o contacto de certas pessoas que se dizem católicas e cristãs mas adoptam uma conduta pouco condizente com estes valores. Mas agora, "paz mundial"?

Isto da "paz mundial" é algo em que nem o próprio Santo Padre, o nosso estimado Papa Chico, acredita. Julgo que até ele considera que a "paz mundial" seria algo de perigoso, monstruoso até, e no fundo impossível de realizar - não é a toa que só os "hippies" acreditam na possibilidade de existir "paz mundial", que é uma cena bué da marada e psicadélica. Poderia começar aqui a filosofar sobre a necessidade do equilíbrio, do "ying" e do "yang", de que o bem nunca seria possível sem a existência do mal, o prazer não seria prazer sem que se soubesse o que é a dor, e ninguém pode dizer que acabou de encher a barriga e ficou satisfeito se nunca tivesse passado pela fome. Quer dizer, a utopia de "paz mundial" só é possível graças à existência da guerra. Sem guerra nunca se podia falar em paz, sem ódio o amor nunca faria sentido, e no limite, só há morte onde existe a vida. São coisas que se complementam. É como a própria vida na Terra e o ciclo da natureza, que não seria possível sem a existência de todo o tipo de bactérias, fungos, protozoários e outros seres tão prejudiciais como essenciais à vida.

Será possível atingir o sonho da "paz no mundo"? Lá possível é, mas faz com que esse sonho perca todo o sentido. E não é muito lucrativo, diga-se em abono da verdade. Pode ser mesmo uma faca de dois gumes. Imaginem os que vão dizer os mercadores da morte, fabricantes e traficantes de armas perante a possibilidade de uma "paz no mundo"? "Ah sim, porreiro, vamos deixar de fabricar armas e deitar fora milhares de milhões de dólares por ano. Afinal já somos tão ricos". E os politicos, que são afinal os senhores da guerra? "Paz mundial? Vamos nessa. Já nem vou mais snifar esta coca dos seios destas duas modelos adolescentes da Playboy que tenho ali no Jacuzzi que comprei dos lucros do conflito em "x" sítio". E os que vivem dos salários que auferem nas fábricas da Uzi e de outras que fabricam armamento e do qual dependem as suas famílias? "Ah tudo bem, agora com isto da "paz mundial" vamos ser antes jardineiros e vender flores, que os gajos que antes andavam aos tiros vão começar a oferecer todos os dias uns aos outros".

É irrealista chegar à Paz mundial, meus caros. Vivemos da guerra, da violência e do ódio do mesmo jeito que vivemos de muitas outras desgraças. Quanta gente ia para o desemprego num mundo perfeito, sem dor e sem sofrimento? O que seria dos médicos se ninguém ficasse doente? Ou dos agentes da autoridade se ninguém violasse a lei? Os dentistas aconselham as melhores formas de prevenir as cáries, mas lá no fundo querem é que ande toda a gente com a boca a cair de podre. Por acaso vêem a indústria tabaqueira por aí a queixar-se pela campanha negra que é feita contra eles há décadas? Estão fartos de saber que haverá sempre alguém que fume, que consuma o seu produto, e onde se esgota um mercado, é só procurar outro. Paz no mundo? Sem armas, sem pistolas, sem balas, sem adolescentes Americanos passados que entram na sua escolar e massacram dezenas de colegas e professores, dando a mesma ideia a outros à beira do desatino que mais tarde vão fazer o mesmo? Sim, o presidente Obama queria "mexer" com a tal emenda que limita o acesso dos seus cidadãos às armas de fogo, mas qual foi a maior oposição que encontrou? Os seus camaradas do senado e do congresso, que engordam com o negócio mais lucrativo do mundo a par da droga.

Pois é meu caro Papa Francisco, a sua mensagem de Ano Novo é tão bondosa e bem intencionada como você próprio é, meu bom homem. Mas eu sei que nem você próprio acredita nela. Nas entrelinhas lê-se que quando está a pedir "paz no mundo" está no fundo a pedir-nos que tenhamos um bocadinho mais de juízo, enfim, pois sem um pouco de tino, que do modo que isto anda, qualquer dia acabamos com a nossa raça. Ele pede-nos isto assim de boca cheia, "paz no mundo", que é para ver se pelo menos lhe arranjamos alguma. Se pedisse apenas "um bocadinho de paz" ou "pelo menos alguma contenção", de certeza que não levava nada. A guerra, essa, é como o colesterol do bacalhau da última ceia de Natal: sabemos que está lá mas e depois? Se calhar sem este mal não sabia tão bem. Sim, gostamos todos de paz, especialmente à nossa porta, e os outros que se entendam, pois, que se matem, que se esfolem mas que não nos aleijem. Mais uma vez o Papa faz a tal chamada, mas o telefone está impedido. Seria de pasmar se não estivesse, que do outro lado a tal Paz atendesse.

Maurício já tem um parque infantil!



Foi inaugurado na Amadora no dia 16 de Novembro o parque infantil Mauricio de Souza, com uma temática que incide sobre a Turma da Mônica, a banda desenhada que celebrizou aquele desenhista e autor brasileiro. Sim, eu sei, esta não é uma notícia nova, mas nem eu vivo na Amadora, nem soube dela até hoje, quando a RTP entrevistou o próprio Mauricio, que folguei ver, continua em grande, com um óptimo aspecto, e isto tudo apesar dos seus respeitáveis 78 anos.

Este homem sempre sorridente com uma imaginação fantástica é o criador de alguns dos heróis da nossa infância, e dos que vieram antes e depois - são mais de 50 anos a contar as aventuras da Mônica, do Cebolinha, do Cascão e companhia. Quem não se lembra da Mônica, a menina que se irritava quando lhe chamavam de "dentuça" e fazia uso do seu coelhinho de pelúcia atómico? E do Cebolinha, o "galoto" que "tlocava" os "eles" pelos "eles"? Ou do Cascão, que nunca tomou banho e morria de medo da água?

Se estes personagens foram baseados noutros da infância do seu autor, como ele alega, então Mauricio de Souza teve uma infância feliz. E fez tudo para contribuir que tivessemos uma nós próprios. Os seus "bonecos" não eram BD vazia de mensagem e de sentido; exploravam a inocência e ao mesmo tempo a astúcia e a honestidade da infância, dessa dor que nem sempre dói que é ser criança e crescer, descobrindo todo o dia um mundo de novidades, e a mais importante de todas as mensagens: a amizade, que fica para sempre entre os que crescem junto, que aprendem uns com os outros, que por muito que relembrem as suas aventuras juntos nunca se cansam de as repetir, como quem tenta trazer de volta um tempo em que era tudo mais fácil.

Quanto ao parque dedicado a Mauricio na cidade da periferia lisboeta, o que dizer? Merecia pelo menos algo da dimensão da Disneyworld. Maurício de Souza é do tamanho de todas as crianças e dos adultos que ainda se lembram do que foi ser criança. É do tamanho do mundo.

Fraternidade Universal: o dia seguinte


Boas! Bem-vindos ao Bairro do Oriente versão 2014, e parecendo que não, este é o oitavo ano (vejam só...) que esta "tasca" na blogosfera está aberta a quem vir aqui parar, de propósito ou acidentalmente (mais acidentalmente, desculpem lá isso) - isto se contarmos com o último mês de 2007, que foi o primeiro da sua história. Parece incrível como já consegui atravessar duas Olímpiadas, dois europeus de futebol, e este ano preparo-me para trazer as novas do segundo mundial de futebol, depois de 2010, quando o maior certame do desporto-rei se realizou pela primeira vez no continente africano. São já seis anos e mais uns pózinhos a transmitir sentado da minha cadeira em frente ao PC, e tirando os sete meses entre Agosto de 2011 e Março de 2012 em que o blogue esteve interrompido por motivos pessoais - o meu "lost weekend" - tenho trazido novas de Macau e do mundo praticamente todos os dias. Penso que não deve haver um único dia dos 365 que compõem o ano civil que não tenha tido um "post", pelo menos. Se tudo correr conforme o planeado, chegarei ao "post" nº 10000 no próximo mês.

Como os leitores mais atentos devem ter reparado, dei a mim mesmo um dia de folga ontem, no primeiro dia do ano. Aproveitei para descansar do "stress" da quadra natalícia, bem como para colocar o sono e as ideias em ordem. Aproveitei ainda para dar um limpeza de Ano Novo à casa, lavar a loiça suja acumulada, varrer do chão o pó que restou de 2013, e já agora guardar alguma comida que sobrou da festa de terça à noite, não vá o sr. rato ficar tentado a fazer o seu regresso triunfal, ele que se tem mantido "entre as cobertas" ultimamente (será que percebeu dinalmente que estou chateado com ele?), e é assim que quero que permaneça. Enquanto dei por mim a fazer a faxina, cantarolava o velho tema dos Afonsinhos do Condado, "Vivi com a Lua cheia": Dei-lhe um beijo e abraçei-a/no Primeiro de Janeiro, amei-a/no segundo mês do ano, larguei-a/não fiquei com ela à esquina, dobrei-a/não deixei secar a vida, reguei-a/dei-lhe um soco e acordei-a/do seu leito tão perfeito, tirei-a/juntei toda a roupa suja, lavei-a/fui com ela pró deserto, sequei-a/vivi com a Lua cheia. A canção mais alegre que conheço para um 1º de Janeiro. Se não conhecem, escutem aqui.

E como foi o vosso "revéillon", ó tribo de maquistas natos, naturalizados e de faz-de-conta? Bem, para mim foi muito "private", juntei-me com família e amigos próximos na casa de um deles, fizemos uma fausta jantarada, contribuí com o peito de perú assado e o sempre imbatível Möet & Chandon, e pronto, "3, 2, 1...ehhhh!!!!". Eh o quê? Eh nada, pois, passa mais um ano, e parece mal deixar passá-lo sem fazer algum tipo de algazarra. Tentei passar a meia-noite sozinho na passagem de 2011 para 2012 e foi assustador, um pouco tétrico, até. Fiquei até com receio de ser visitado pelos fantasmas do Ano Novo passado, presente e futuro Por isso contactei de imediato o primeiro grupo de amigos e amigas que estavam a essa hora com o Facebook ligado no telemóvel e não mais de 15 minutos depois estava no Largo do Senado a respirar o ar do novo ano, que era igual ao do ano anterior, mas com um número a mais no calendário.

Convencionamo-nos desde novos que o "revéillon" deve ser celebrado com pompa e circunstância, e as imagem que temos de alguém que passa o ano sozinho é a de um pobrezinho, de um sem-abrigo ou de um louco. Mesmo esses já fazem o possível para combater esse estigma, e no caso dos dois primeiros juntam-se e assam uma ratazana que apanharam nesse dia perto das latas de lixo ou das barracas onde vivem, ou compram umas passas para assinalar as doze últimas badaladas do ano com Napoleão, Einstein e os restantes amigos imaginários (ou serão mesmo? entra agora música hitchockiana). Em suma, é-nos impingido esse conceito bacoco de passagem de ano, em que supostamente devemos tomar banho e vestir roupa nova para receber o, ahem, "Ano Novo". Na verdade não recebemos porra nenhuma, pois como já escrevi neste "post" (qualquer dia tenho um arquivo maior que a Torre do Tombo), não acontece nada de extraordinário à meia-noite do dia 31 de Dezembro; nem uma aurora boreal, ou um eclipse lunar que nos dê uma razão para estarmos ali a festejar feitos parvos.

No entanto há pessoas que insistem em investir umas massas na festa de passagem de ano, e não é tão pouco como isso. É uma das noites grandes do ano para hotéis, barcos de cruzeiro ou casinos decentes que têm espectáculos onde participam cantores a sério como Barbra Streisand, Tom Jones ou Cher, e não bandas filipinas anónimas como os nossos. Estes sítios estão normalmente sempre cheios dede gente que vem pagar o dobro ou o triplo do que pagaria numa noite normal por exactamente a mesma coisa, com a diferença de um "complementary" qualquer-coisa, normalmente um copo de espumante que toda a gente teima chamar de "champanhe", apesar de em muitos casos não ser sequer originário de França, e, claro, de ser noite de ano-novo. Quando faltam alguns segundos para a meia-noite, as duas tipas com maquilhagem de rabo-de-macaco que andaram a abanar o rabo toda a noite fazem a contagem, e depois berram "happy new year!!!". E depois segue-se o orgasmo fingido da festarola e da alegria, dos brindes e de mais "happy new years" para aqui e para ali. Que seca.

Não tenho nada contra quem vai passar o ano a esses sítios com um grupo de amigos, e eu próprio já fiz isso no passado, mas falo por mim, e não me sinto nada bem. Primeiro porque há gente a trabalhar no duro para que seja possível fazermos a festa, e não pensem que lhes pagam o dobro ou o triplo nessa noite, como nós pagámos para lá estar. Depois porque estamos rodeados de gente estranha. Sim, há sempre aqueles grupos grandes de amigos que reservam uma mesa para vinte e ainda conseguem fazer uma festa mais ou menos privada e ignorar os restantes pagantes, mas quando somos menos de meia dúzia arriscamo-nos, como disse um colega meu e bem, a "abraçar o bife que está na mesa ao lado". Depois reparem na quantidade de tipos que se fazem acompanhar de fulanas que são declaradamente pagas para lhes fazerem companhia nessa noite ou por apenas alguns dias. É fácil identificá-los: eles ocidentais, altos com um ar palerma, cara de Júlio Isidro mais jovem, e elas asiáticas, normalmente tailandesas, indonésias ou filipinas, com carradas de pintura e vestidas de putas. Quem paga a alguém para festejar o "revéillon" junto, é como quem paga para ter companhia para assistir à nossa equipa a ganhar a Liga dos Campeões, ela não percebe nada de futebol.

Não me lembro da última vez que passei o ano num desses sítios, rodeado de estranhos, mas lembro-me de um episódio que me aconteceu quando era mais novo. Tinha ido passar o "revéillon" de 1985 para 1986 no Barrete Verde de Alcochete, com os pais, o meu irmão e a minha irmãzinha Ana, que era ainda uma bebé de um ano e pouco. Quando soaram as 12 badaladas e eu, com a minha ingenuidade dos 11 anos celebrei entusiasticamente, dei um toque a um camarada mais velho que estava no salão e exclamei sorrindo de orelha a orelha: "Feliz Ano Novo! Estamos na CEE!". E estávamos mesmo, e já na pré-adolescência eu era dotado de consciência política. O tipo olhou de lado e resmungou: "olha a confiança", com cara de corno mal-disposto. Não era nenhum adulto pai de família com bigode, era um "puto" como eu, mas apenas ligeiramente mais velho, de uns 15 ou 16 anos no máximo. Há que lhe dar o devido desconto por ser provavelmente um troglodita alcochetano, mas aí está: por muito que levemos a sério isto do "revéillon", há sempre um ou outro filho da fruta para nos estragar a festa. E mesmo que faça a festa connosco nas primeiras horas do dia 1 de Janeiro, não nos conhece de lado nenhum no fim desse mesmo dia. Fraternidade Universal, pois, é um dia, como o Natal. Depois volta tudo ao normal.

Os três da vida airada


Jornada do "New Year Day", o Dia de Ano Novo na Premier League, com os três primeiros a vencer, e a ampliar a vantagem sobre a concorrência. O Arsenal bateu o Cardiff City no Emirates Stadium por 2-0, mas sofreu para derrubar a muralha defensiva dos galeses. Os golos chegaram apenas na parte final do encontro, com o dinamarquês Niklas Bendtner a marcar o primeiro aos 88, e o inevitável Theo Walcott a ampliar a vantagem já nos descontos.


O Manchester City mantem-se na perseguição aos "gunners", apenas um ponto atrás. Os "citizens" foram ao País de Gales bater o Swansea por 3-2, com Wilfried Bono em destaque para os da casa, ao apontar os dois golos. Para os visitantes marcaram Fernandinho, Yaya Touré e Kolarov, naquela que foi a quinta vitória consecutiva do City.


O Chelsea de Mourinho foi ao The Dell, em Southampton, e venceu por esclarecedores 3-0. Golos todos na segunda parte, por Fernando Torres, Willian e Oscar. Nos restantes encontros destaque para a vitória do West Bromwich Albion sobre o Newcastle por 1-0 - a primeira desde 2 de Novembro - e da vitória do aflito Fulham por 2-1 sobre o também aflito West Ham. O Aston Villa foi vencer no reduto do Sunderland, o lanterna-vermelha, pela margem minima, enquanto as equipas de Liverpool tiveram sortes diferentes: o Everon no foi além de um empate a um golo no reduto so Stoke City, enquanto o Liverpool regressou às vitórias ao vencer em casa o Hull City por 2-0.


No jogo que encerrou a ronda o Manchester United voltou a perder, em em Old Trafford frente ao Tottenham por 1-2. Adebayor inaugaurou o marcador no primeiro tempo, Cristian Eriksen fez o 2-0 aos 66 e no minute seguinte Danny Welbeck reduziu. O treinador David Moyes queixou-se de um grande penalidade não assinalada por falta do guardião francês dos visitantes, Hugo Lloris, sobre Ashley Young, mas não consegui evitar a crítica depois de mais uma derrota, que atira os "red devils" para o sétimo lugar, já a onze pontos da liderança.

Classificação dos dez primeiros:

1 Arsenal 20 14 3 3 39 18 21 45
2 Manchester City 20 14 2 4 57 23 34 44
3 Chelsea 20 13 4 3 38 19 19 43
4 Liverpool 20 12 3 5 46 23 23 39
5 Everton 20 10 8 2 32 19 13 38
6 Tottenham Hotspur 20 11 4 5 24 25 -1 37
7 Manchester United 20 10 4 6 33 24 9 34
8 Newcastle United 20 10 3 7 29 25 4 33
9 Southampton 20 7 6 7 26 23 3 27
10 Hull City 20 6 5 9 22 25 -3 23