terça-feira, 22 de abril de 2008

Natal em Abril


O Chefe do Executivo Edmund Ho Hau Wah deslocou-se hoje à Assembleia Legislativa pela primeira vez esta ano para responder às perguntas dos srs. deputados. Edmund Ho anunciou então uma iniciativa inédita: cada cidadão residente permanente de Macau vai receber cinco mil patacas, e cada não-permanente três mil, sem precisar de fazer nada! Uma notícia bem vinda, já que a cada agregado familiar de quatro pessoas (como o meu, por exemplo), cabem 20 mil patacas! Uma óptima notícia, especialmente para as familias mais carenciadas. É uma forma interessante que o Governo encontrou para distribuir pela população os frutos da sumarenta árvore das patacas. Falta ainda saber em que termos a distribuição do dinheiro se processará, mas digo já, se hoje fosse dia 1, não acreditava...

Desculpa, Jing


O presidente do Senado francês, Christian Poncelet, apresenta a Jin Jing uma carta do presidente Nicolas Sarkozy, pedindo desculpas pelos incidentes do passado dia 7, em Paris. Jin Jing é uma atleta paraplégica que foi atacada por um grupo de manifestantes pró-Tibete que tentavam apagar a tocha olímpica quando Jing a carregava. Uma atitude nobre do presidente francês.

Parabéns Lenine


Passam hoje 138 anos (10 de Abril no calendário Juliano) desde o nascimento de Vladimir Illych Ulyanov, conhecido por Lenin, fundador e primeiro presidente da já extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criador de uma ideologia ainda hoje conhecida por Marxism-Leninismo. Já sei que estava errado, sim, mas foi um homem do seu tempo, e rendo-lhe aqui uma singela homenagem, na forma da sua estátua que se encontra no Palácio Real em Madrid, Espanha.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Mais vale ser maluco


Ontem resolvi aproveitar o solarento Domingo para dar um passeio na Venetian. Deixei os miúdos com os sogros (para que servem, afinal?), tios e primos, para deixá-los tomar contacto com as suas raízes sínicas, o que também é importante. Uma vez na mega obra de Sheldon Adelson, eu a minha cara metade resolvemos fazer compras várias, até que chagámos na multinacional espanhola Zara.

Tudo estava a correr em perfeição, até ao momento em que a mulher decide experimentar um vestido. Fiquei ali pacientemente junto ao gabinete de provas, que não era mais que um pequeno corredor no canto da loja, com quatro ou cinco cabines apenas tapadas por um cortinado castanho. Depois de provar um dos vestidos, ela pede-me que lhe traga o mesmo modelo numa outra cor. Trouxe-lhe o vestido e foi para grande espanto que sou advertido por uma das meninas que ali trabalha, que “não podia estar ali”, e que aquela área era reservada a senhoras.

Mas não foi um simples chega para lá, o ar agastado da menina, que se dirigiu a mim naquele inglês macarrónico, com os olhos fechados e uma cara zangada de quem parecia querer afastar um gato dos carapaus. Tivesse ela uma vara verde e levava eu uma valente vergastada. Deixei a mulher comprar os vestidos, e de seguida dei à menina o correctivo da ordem. Disse-lhe que não era nenhum tarado ou violador, e que não era assim que devia falar com os clientes. Passou de amarela para roxa, e só não me pediu desculpas (como devia) porque ficou sem palavras.

Só depois de matutar uns instantes naquele episódio cheguei à conclusão que talvez a menina me tivesse confundido com um certo tipo de clientes que por ali andam. Provavelmente do alto da sua pouca experiência terá pensado que eu, por ser branco, teria engatado aquela pobre chinesa (a minha mulher) na noite anterior e estava ali na Venetian a pagar os serviços prestados durante o fim de semana. A julgar pela quantidade de mulherame assim do tipo modelo de Grande Prémio de Zhuhai que se encontra acompanhada de estrangeiros com aspecto lânguido, que tanto se vê por aí ao Domingo.

É que já se sabe, Macau é pequeno, e é apenas um lugar de passagem para muita dessa estrangeirada perversa. Aos Domingos e Feriados é vê-los aí a exibir as suas conquistas, nos restaurantes, nas lojas de roupa, nos centros comerciais, com aquele ar de “tem que ser”, de típicos conhecedores das regras do jogo. O mais desagradável é ser confundido com essa gentinha, principalmente ter que levar com o ar de reprovação e às vezes a retórica de quem se calhar também não é nenhum santo.

Lembro-me uma vez ter ido à antiga discoteca do Hotel Mondial com uma rapariga Filipina, que por acaso era só uma amiga. Quando saimos juntos duas horas depois, cada um para o seu lado, levámos com aquela cara de carrasco das suas compatriotas que frequentavam aquela danceteria, empregadas domésticas e meretrizes de fim-de-semana, que sorriam com um ar cúmplice de quem dizia com os seus botões “olha a nossa compatriota vai lucrar uma quinhentola”.

Cheguei a ter uma namorada portuguesa, que por acaso era loira, em meados dos anos 90, altura em que as prostitutas russas eram moda. Passei pelos maiores embaraços imagináveis. Eram os chineses que se detinham a olhar, os carros que paravam, os outros kwai-lous que olhavam e sorriam como quem esperava que eu descesse e que se levantasse novamente o putímetro (adaptação de “taxímetro”). Sei de casos de outras loiras, portuguesas e outras ocidentais, que sofreram também com a “russiamania”.

Mas isto não é surpresa para quem já em tempos, e mesmo antes de Monte Carlo ou Las Vegas, apelidou esta cidade de “Sodoma & Gomorra do Oriente”. É mais fácil arranjar uma prsotituta que um táxi, e as filas de espera nas urgência dos hospitais públicos nada se comparam às filas de espera (se as há) das inúmeras saunas e bordéis espalhados pelo território. Os preços são também para todas as bolsas; temos para cem patacas e para cem mil, passo o exagero. Como disse uma vez aquele senhor economista muito pragmático, “tudo tem um preço”.

Não que eu tenha algo contra as virtudes do sexo casual, e dos one night stands. E que raio, cada um faz o que quer com o seu corpo. O que não me agrada mesmo nada é ser confundido com algum voyeurista com tendências masturbatórias, e muito menos ser tratado abaixo de cão numa loja da espanholada por essa razão. Já não basta o mundo que temos em que perguntar as horas a uma criança já é quase entendido como um acto de pedofilia.

Mas fiquei vacinado após este episódio na Zara. Da próxima vez vou perfeitamente identificado como chefe de família, levo os miúdos e os primos deles, todos com as mãos devidamente cagadas de ranho e chocolate, a mexer nas roupas e a fazer um estardalhaço do caraças. Já agora, alguns dos leitores devem estar a pensar que a culpa se calhar é minha, e tenho pinta de pervertido ou pedófilo. Nada disso. Mas se tivesse, ninguém se metia comigo. É que às vezes o melhor é parecer mesmo maluco, assim pode ser que nos deixem em paz.

O outro lado do patriotismo





A campanha lançada na internet na passada semana tem sido levada a sério pelos patrioteiros chineses, que têm feito um autêntico cerco aos vários supermercados da cadeia Carrefour em várias cidades da China. A situação é tão séria que o presidente gaulês Nicolas Sarkozy mandou um comité de crise à RPC para se inteirar da dimensão do problema. Em causa está a passagem da tocha olímpica por Paris no último dia 7, perturbado por manifestantes a favor da causa tibetana. Segundo os patriotas chineses, o governo francês "não fez tudo o que estava ao seu alcance" para impedir os tumultos. O governo chinês já apelou à calma e à contenção.

Entretanto verificaram-se mais protestos contra a cadeia de notícias norte-americana CNN. A CNN transmitiu na semana passada um programa em que um dos membros do seu painel, Jack Cafferty, terá proferido palavras pouco simpáticas ao povo chinês e apelidou os produtos chineses de "lixo". A CNN já deixou claro que as opiniões de Cafferty não reflectem o pensamento da cadeia de televisão, e que foram dirigidas ao Governo chinês, não ao povo. Vários manifestantes pró-China seguravam cartazes apelidando a CNN de "anti-China" e insurgindo-se contra o tratamento a que as notícias sobre a China é dado no Ocidente.

Uma notícia preocupante a respeito da tocha; a polícia nepalesa tem ordens para disparar sobre os manifestantes quando o facho olímpico chegar aos Himalaias. Hoje em Kuala Lumpur, por onde a tocha passou, foram registados mais incidentes provocados por manifestantes anti-China. Saiba mais no Jornal Tribuna de Macau, Hoje Macau, e leia o que pensa Carlos Morais José, no seu editorial.

Em todas as frentes


A lista única encabeçada por José Pereira Coutinho foi a grande vencedora das eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas, realizadas ontem na sede do Consulado Geral de Portugal em Macau. Uma participação considerável, uma vez que o deputado e presidente da ATFPM conseguiu fazer com que 2630 eleitores passassem pelo antigo Hospital S. Rafael e fossem votar. 2540 votaram na lista A, um total de 99.4% dos votos expressos, um resultado a fazer lembrar o Iraque de Saddam Hussein. Os votos nulos 67 e 23 eleitores votaram em branco. Pode-se dizer que Pereira Coutinho venceu em todas as frentes, e se alguma coisa ficou provada, é que possui um grande poder de mobilização, e uma máquina eleitoral bem oleada.

Viva a Constituição


Um poster soviete que comemora o 7 de Outubro, o dia da Constituição, que protege a instituição da família, acima de tudo.

A iguana faz anos


James Newell Osterberg, Jr., conhecido no mundo musical como Iggy Pop, faz hoje 61 anos. Ainda me lembro de um concerto dele em Cascais, nos finais dos anos 80 em que a iguana do rock - como também é conhecido - saltou de uma altura de cinco metros para cima do palco, estatelando-se por completo, tendo continuado a cantar e a pular como se nada fosse. Fica aqui este "Real Wild Child". Parabéns e conte muitos, sr. Osterberg!

domingo, 20 de abril de 2008

Lálancha loh!


Nota: este postal não é sobre a laranja ou qualquer outro citrino.

Das vezes que passo pelo novo Mercado de S. Domingos fico encantado com o esforço feito pelas senhoras da fruta e das flores em me tentarem vender o produto, sempre no melhor português que podem, e que aprenderam com anos de convivência com os antigos senhorios de Macau. Ora ele é a lálancha (laranja), uva munto dóci (uva muito doce) ou a flô (flores). Lá em cima vendem o falango (frango) ou o camalan (camarão). Em outras conversas já tomei contacto com a fálanda (varanda) ou com o paticula (particular). É de se lhe tirar o chapéu, de como tentam pronunciar palavras com uma estrutura e uma pronúncia tão diferente do seu silabário.

Confesso que quando cheguei a Macau achei estranha, e até um pouco engraçada a forma como se falava o português entre os macaenses e até mesmo os chineses que estudaram português. As redundâncias, por exemplo: o subir para cima ou o sair para fora. As outras expressões traduzidas directamente do chinês, como o comer cigarros (sik yin, ou seja, fumar) ou o fulano já voltou? (já chegou) ou ainda o explosivo NÃO É!!! (do chinês m'hai, que expressa surpresa ou choque) demoram tempo a entrar, bem como os defeitos de pronúncia: mau-entendimento (mal entendido), ténico (técnico) ou garida (garrida, rebelde), mas a gente adapta-se com alguma facilidade. Eu por exemplo considero muito mais musical e simpático dizer chuchumeco/a quando se fala de um coscuvilheiro/a ou bisbilhoteiro/a. Palavras difíceis, essas.

E por falar em mal entendidos, já repararam como os chineses e até mesmo alguns macaenses têm dificuldades com os números grandes? Isto deve-se ao uso, em chinês, de um antigo numeral grego, o míriade, que equivale a 10.000, e reprentado em chinês por yát man (一萬). Cem mil, por exemplo, serão dez miríades, e dez milhões mil míriades. A minha mulher no outro dia dizia-me, em inglês, que a China tinha "mais de 10 mil milhões de pessoas". Outra confusão muito comum é feita com as fracções: três quartos, ou três sobre quatro, em chinês é sam fan zi sei (四分之三), literalmente "de quatro são três", ou seja, o denominador aparece antes do numerador.

E já alguém se interrogou sobre aquela partícula que tanto se ouve no final de uma frase? Normalmente soa a loh, mas às vezes também pode ouvir lur, kar, wor ou lar. Alguns exemplos: "Não sei loh", "Não sejas assim lar", "É o teu irmão kar". Esta partícula não tem qualquer significado especial, e serve apenas para dar um tom informal à frase. Num discurso formal nunca se ouvem os musicais loh's. Sempre achei isto giríssimo, e já me habituei a usar, lor.

Um erro muito comum entre os nossos expatriados é assumirem que "têm um nome chinês". Nada mais errado. Por vezes, para que se facilite a leitura ao povo chinês, que não usa o nosso abcedário, traduzem-se alguns dos nomes de alguns profissionais (normalmente liberais, como advogados, médicos ou arquitectos). Assim, os Gomes ficam Kou Mei Si, ou os Santos ficam San Tou Si, mas isso não são nomes chineses. Um nome chinês obedece a um conjunto de normas: o primeiro nome é o apelido do pai, e os outros dois (ou apenas um, em alguns casos), quer encadeados, quer separados, têm um significado especial. Alguns chineses que optaram por nomes portugueses fizeram-no de forma aleatória (alguns recorreram até ao dicionário de nomes), outros fizeram-no de uma forma natural: as Mei Lin ficaram Melinda, as Ka Man ficaram Carmen.

As relações luso-chinesas têm sido ao longo dos séculos pacíficas. Certo? Claro, mas isso muito devido ao facto de ser praticamente impossível encontrar um ponto comum entre os insultos de ambos os lados. Note-se alguns dos insultos em chinês traduzidos para português: "tens os nervos trocados" (chi ma gán), "és atrasado mental" (nei yuk chi), "fizeste um erro" (yau mou kau chou) ou "testículos estúpidos" (pán chát). Ou não fazem sentido, ou não são assim realmente tão ofensivos quanto isso. Mesmo o maior insulto que se pode dizer em chinês (diu lei lou mou, que se refere à prática do coito com a progenitora do interlocutor) é usado livremente entre alguns conhecidos mais íntimos. Razão? É que para que tenham estas intimidades, só mesmo se forem muito amigos...wor.

Já votou?


Passam um pouco despercebidas as eleições de hoje para o Conselho (mais um...) das Comunidades Portuguesas. As urnas abriram às 8 da madrugada e encerram às 19 horas. O cônsul-geral Pedro Moitinho de Almeida chamou a atenção para a "necessidade de participar", mas há apenas uma lista concorrente, a de José Pereira Coutinho, vencedor há cinco anos com uma larga maioria. O tempo ajuda, a chuva parou e está um lindo dia de sol. Eu não vou votar, da mesma forma que não assisto a corridas de um só atleta, mas certamente que muito boa gente vai pôr o seu melhor fato, e passar por lá entre a ida à missa e o chá gordo de Domingo. São os conselheiros do conselho do conselho, os vice-presidentes das assembleias gerais, os vogais dos conselhos fiscais, e por aí fora. Gente fina é outra coisa. Bon appetit, e viva a Democracia!

Recordando Lafond


Jorge Luís Sousa Lima, carioca, mais conhecido no mundo artístico por Jorge Lafond, era um actor, dançarino e transformista, conhecido pelos seus trabalhos no teatro, TV e cinema, celebrizado pela personagem Vera Verão, do programa A Praça é Nossa. Lafond era homossexual assumido, e depois de falecer em 2003, aos 50 anos, de ataque cardíaco, nunca revelou quem foi o jogador da selecção brasileira de futebol com quem mantinha um caso. Recordo hoje estas inspiradoras palavras de Lafond à revista RAÇA, quando lhe perguntaram se é mais difícil ser homossexual ou negro:

Ser negro é mais complicado. Ser homossexual, não. Se um grupo não te aceita, há outros que sim. Mas a cor incomoda muito, tiro isso por mim. Viajo duas vezes por semana num vôo só com executivos. Enquanto há negros que entram primeiro para se esconder e não serem vistos, entro por último, com um perfume arrasante. O avião é uma passarela. E chegou ela, a rainha do pedaço. O negro é maravilhoso. Chegar entre gente cor-de-rosa com essa cor é óptimo.

A gente de Macau (é a minha gente)





sábado, 19 de abril de 2008

Um senhor urso


O tufão Neoguri - que significa "urso" em coreano - passou ao lado de Macau, mas foi o suficiente para que entre as 13 e as 18 horas deste Sábado estivesse içado o sinal nº 8 de tempestade tropical. Ventos fortes de rajada e aguaceiros deixaram praticamente desertas as ruas de Macau e estragaram o fim-de-semana a muito boa gente.

Passei hoje ao final da tarde pela Av. da Praia Grande e garanto que cheguei a ficar assustado; os placards balançavam numa posição quase vertical, os bombeiros recolhiam alguns ramos caidos e cortavam outros que poderiam colocar em perigo os transeuntes. O vento a favor era tão forte que se estivesse a correr os 100 metros certamente batia o recorde mundial, passo o exagero.

Quem mais deve ter lucrado com esta tarde pouco produtiva terão sido os casinos, uma vez que o Largo do Senado encontrava-se depleto de turistas, fora alguns mais corajosos que aproveitavam o pouco movimento para tirar umas fotografias. As lojas encontravam-se fechadas (até o McDonald's), com a excepção de algum comércio familiar. O supermercado San Miu da Praia do Manduco, que se encontrava aberto, registava filas intermináveis.

As três pontes que fazem a ligação entre Macau e as ilhas encerraram às 15 horas e reabriram às 19. No entanto o tabuleiro inferior da ponte de Sai Van, idealizado para ser utilizado em casos de tufão, encontrava-se congestionado, o que dificultou a passagem das viaturas de emergência. Veja a reportagem da TDM aqui e aqui.

O requinte na versão chinesa


Passei esta manhã pelo café Starbucks, e à minha frente tinha três turistas do continente, que tomavam café preto, mais conhecido por "Americano" naquela multinacional dos States. Dirigiram-se à "mesa dos temperos" e lá usaram tudo a que tinham direito: a baunilha e o chocolate em pó, a noz-moscada, o leite gordo e magro, e apesar de terem à sua disposição toda uma variedade de pacotes de açucar, insistiam em usar o shaker, e até mesmo o xarope. Tivessem pedido um copo de água a ferver e tinham inventado uma bebida nova.

Durante os últimos anos o turista endinheirado, originário das mais diversas províncias da China, tem procurado comprar o requinte das mais variadas formas. Por um lado isto é positivo, uma vez que traz ao continente mais conforto e variedade tanto para os seus residentes, como para turistas e estrangeiros. Apareceram mil e uma opções e mil e um sabores. Os 7-11, os Starbucks, as restantes multinacionais americanas mas não só. Até os restaurantes italianos, franceses, espanhóis e outros começaram a nascer nas cidades chinesas como cogumelos.

O consumidor chinês médio gosta do que é estrangeiro. Pelo menos essa é a sua ideia de requinte. Um amigo meu dizia-me uma vez, irritado pela falta de bilhetes para o Festival de Música de Macau, que os chineses "viam a Opera para se sentirem brancos". Não partilho desta visão redutora, até porque eu próprio sou um adepto da ópera chinesa e não a vejo para me "sentir chinês", mas a sua afirmação tem um fundo de verdade. Alguns são capazes de ver a Opera pelo "estatuto", e não por serem realmente apreciadores do belcanto.

Basta olhar a cada vez que aparece em Macau uma novidade. Seja o KFC, O Deli France ou um restaurante chic (com "c" na ponta), é praticamente impossível ir lá nos primeiros dias. Mas depois passa-lhes. Veja-se a Doca dos Pescadores, por exemplo, era impossível caber mais um alfinete na inauguração, mas passado alguns dias já estava às moscas. E quantas vezes fiquei a fazer cruzes na fila para comprar um gelado porque algumas madames não sabiam se iam escolher zuppa inglesa, cherry vanilla ou pistachio. Quanto mais "off limits" for o sabor, melhor.

Lembram-se da moda do conhaque? Foi há mais ou menos 10 anos, quando o Rémy Martin V.S.O.P. e outra porcarias que só se servem a vítimas de tempestades na neve fez furor na região. Os gajos compravam garrafas atrás de garrafas daquilo, quanto mais caras melhor, e chegavam a beber conhaque às refeições! Quando acordavam no dia seguinte com uma ressaca monumental e milhões de neurónios mortos, deviam interrogar-se "como conseguem os kwai-lous beber aquilo? São estratégias de marketing.

E por falar em marketing, para quando se cumprem as promessas de alguns casineiros que diziam trazer para cá a Sogo, a Marks & Spencer e outras multinacionais de qualidade? É exasperante ir a Hong Kong, Taipé ou Cantão e comportar-me quando um autêntico saloio quando entro nos supermercados e vejo a frescura e a qualidade que é impossível encontrar em Macau. O pior é que não levo comigo o carro para levar tudo o que quero para casa.

Cada vez que viajo ao continente é notório o esforço que é feito para melhorar em todos os aspectos. Os hotéis de quatro ou menos estrelas, por exemplo, fazem o que podem para se equipararem aos níveis de exigência ocidentais. Diria mesmo que fazem um esforço heróico para que tudo corra pelo melhor, os seus empregados são especialistas na arte de receber e falam no melhor inglês que podem. No entanto ainda muita gente traz o próprio champô e ainda não se come o chocolatinho de mentol que fica em cima das almofadas.

É preciso no entanto perceber que nada isto era possível há 20 anos. A China evoluiu muito, saiu de um quase nada. Quando Deng Xiaoping idealizou as reformas, teve que se debater com a resistência dos mais conservadores. Imaginem o que "o pequeno gigante" diria hoje olhando para o país do meio. Os mais críticos do regime falam das diferenças gritantes entre ricos e pobres. Há alguns anos as diferenças eram entre pobres, muito pobres e paupérrimos. Pessoalmente considero estas diferenças mais graves em países com democracias sólidas com séculos de experiência É preciso deixar viver, e as coisas acontecem naturalmente. Até o tal requinte.

Sinal nº 8


O Neoguri aproxima-se de Macau, e foi içado o sinal nº 8 de tempestade tropical, por volta das 13:30. As ligações marítimas entre Macau e Hong Kong foram suspensas ai meio-dia. Os serviços de Metereologia e Geofísica aconselham os residentes a permanecer em casa, fechando todas as portas e janelas. Esta é a primeira vez que o sinal nº 8 é içado em quase dois anos, tendo sido a última vez a 3 de Agosto de 2006.

Propaganda checa


Um poster checo de 1960, que comemora o 15º aniversário do fim da II Guerra Mundial.

GNRs juntos em palco


A banda da Guarda Nacional Republicana e o Grupo Novo Rock, os dois GNR, juntaram-se ontem em palco pela primeira vez no Pavilhão Atlântico, 30 anos depois da fundação do grupo de Rui Reininho e Toli César Machado. O SAPO esteve lá e fez a reportagem.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Leituras


- Cada vez melhor o trabalho de Ana Cristina Alves para o Hoje Macau. O seu artigo desta última quarta-feira, Ainda a propósito do Qingming (清明), é para mim o melhor da semana.

- Um ensaio de Yu Keping, director adjunto do Gabinete Central de Traduções, intitulado A Democracia é boa, merece destaque na edição de hoje do HM.

- Carlos Morais José tenta perceber como numa terra onde o dinheiro é abundante, um grande segmento da população anda preocupado com o aumento dos preços dos bens de primeira necessidade, em Tempo de Mudar.

- Miguel Senna Fernandes assina a sua habitual crónica das sextas-feiras no Jornal Tribuna de Macau. Desta vez fala-nos de Quelê-modo rufâ (Como comer?).

- Pedro Daniel Oliveira fala-nos da saúde em Macau, em Saúde e pozinhos de perlimpimpim para a paz, n'O Clarim, o semanário da igreja católica em Macau.

- João Severino recorda o Primeiro raid terrestre Macau-Lisboa, de que foi um dos organizadores e participantes, e comemorou ontem o 20º aniversário, no seu Pau Para Toda A Obra.

Bom fim-de-semana!

Sans internet


O último episódio da série norte-americana South Park, transmitida todas as quartas na Comedy Central, levantou uma questão muito curiosa: o que seria de nós sem a internet? O episódio é uma paródia de As Vinhas da Ira, de Steinbeck. Uma família do Colorado sem internet muda-se para a Califórnia na esperança de encontrar "alguma internet". Subitamente vê-se numa espécie de campo de concentração onde cada habitante pode usar a internet 40 segundos por dia.

O acesso da internet ao cidadão comum generalizou-se em meados dos anos 90, e desde então nunca mais deixou de fazer parte do nosso dia-a-dia. É praticamente impossível imaginar o mundo real sem a sua componente virtual. Em retrospectiva, foi a febre do e-mail, do IRC, do ICQ, hoje temos o MySpace, o I-chat, o MSN, e por aí fora. Para muitos é um sofrimento passar um dia sem ver o e-mail, ler os seus websites favoritos (o Bairro do Oriente, por exemplo!), ou contactar com os seus amores virtuais. O prefixo “cyber” passou a fazer parte do quotidiano; é o cybersexo, os cybercafés, sempre um cyber-qualquer-coisa.

Eu próprio quando vou de férias para qualquer sítio onde não tenho internet sinto a falta de qualquer coisa. Quando se dão problemas técnicos e ficamos sem computador em casa, está ali um buraco como se faltasse qualquer coisa de muito querido. Tenho mesmo dúvidas se os sintomas de desabituação da internet não serão semelhantes aos da nicotina, e se haverá alguma relação intima entre a falta de internet e a impotência sexual. A falta deste hábito deixa-nos irritados, indispostos, com um sabor amargo na boca e uma tolerância muito limitada. Uma vez que volta perdemos horas a ver "o que perdemos". É que não há televisão, jornal ou, aham, serão em família, que substitua o mundo virtual.

Resistem apenas os mais velhos ou os mais ignorantes. Mera burrice. É o mesmo medo que tiveram quando nos anos 30 do século XX viram o automóvel: "No meu tempo tinhamos a carroça e ninguém se queixava!". Ou nos anos 50 quando a televisão tomou o lugar do rádio, ou quando foram descobertas as vacinas para a poliomelite ou o tétano. Os mais velhos têm medo das novidades porque sabem que não as podem usufruir. Coitados. O que vale é que mesmo esses casos vão sendo cada vez mais raros...

O ano da batata


A nossa amiga batata, tão apreciada por nós na sua forma frita, assada, cozida ou em puré (eu pessoalmente prefiro a batata a murro) é apresentada como uma solução para a nova ameaça de fome que paira sobre o mundo, com o crescente aumento do preço dos alimentos de primeira necessidade.

Este simpático tubérculo cresce com facilidade nos campos por esse mundo fora. Não é por acaso que a um campo de futebol pelado e mal tratado é chamado "um batatal". A batata veio das Américas no sec. XVI e desde então tem feito as delícias da gastronomia em todas as partes do mundo. Este ano de 2008 é o ano da batata.

Apesar dos portugueses serem conhecidos entre os chineses por uns autênticos comedores de batata, o nosso país é apenas o 10º maior consumidor deste alimento no mundo inteiro, com 118.6 quilo consumidos per capita em 2005. Portugal está atrás de países como a Rússia, a Ucrânia, a Polónia ou o Ruanda.

A Bielorússia lidera de longe no consumo da batata; em 2005 cada bielorrusso consumiu em média 337.9 quilos de batata, mais que o dobro do segundo país, o Quirgistão. É caso para dizer que na Rússia branca deve haver sumo, gelado e iogurte de batata. É a capital mundial da batata.

Os maiores produtores de batata do mundo são, claro, a China e a Rússia, é tudo uma questão de área. Só as produções anuais destes dois países - mais de 100 milhões de toneladas - é suficiente para suprir as necessidades mundiais no que toca ao consumo. Países como os Estados Unidos ou a França têm todos os anos um excedente de produção.

Parece-me uma boa ideia fazer da batata a staple food num maior número de países. Só para que se tenha uma ideia da crise, os preços dos cereais dispararam em flecha só no último ano: o milho em 31%, o arroz em 74%, a soja em 87% e o trigo em 130%! Consulte estes dados e saiba mais sobre a batata no Potato World.

Putin, o malandreco


O nosso rei dos déspostas, chefe da máfia russa e imperador dos oligarcas, Vladimir Putin, está apaixonado! A vítima é a ginasta olímpica, medalhada nos Jogos de 2004, a tártara Alina Kabaeva, 31 anos mais nova que o presidente russo. E parece que o caso é sério, pois Putin está mesmo em vias de se divorciar de Ludymila, a sua mulher de quase trinta anos, e casar com a moça. Com o contorcionismo dela e o judo dele, aquilo vai ser festa brava lá no Kremlin. E se ela recusar, ainda se arrisca a levar com Polónio 210 no borsch. Ah Putin, seu malandreco...

Oaxaca livre


Um poster de propaganda comunista mexicana, para variar. A FPR (Frente Popular Revolucionário, o partido marxista-leninista mexicano) e a UTE (Unión de los Trabajadores Educativos) insurgem-se contra o estado de coisas no estado de Oaxaca, segundo eles "o bastião do fascismo no México".

Naked


Um vídeo diferente e bastante interessante para acabar esta produtiva semana. Vale a pena recordar este "Naked", do saudoso cantor austríaco Falco, um dos seus últimos temas, e também um dos menos conhecidos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O crime em Macau


Ainda me lembro bem de quando cheguei a Macau, nesse longínquo ano de 1992, que uma das coisas que mais me surpreendeu, e que tive o prazer de contar aos meus amigos, era a forma como se podia andar por qualquer parte da cidade a qualquer hora em segurança. Uma das formas que usei para conhecer melhor Macau era perder-me. Perdia-me pelas ruas estreitas e desconhecidas, pelas travessas escuras, e mais cedo ou mais tarde criei os necessários automatismos que me permitiram dizer “conhecer Macau”.

Nunca, por uma única vez foi abordado por qualquer tipo de meliante, ou me vi metido em qualquer situação embaraçosa, mal entendido ou altercação. Para quem veio de Lisboa (nos últimos anos que vivi em Portugal), esta foi uma mudança bem vinda. Não que evitasse passar por bairros pobres; fiquei a conhecer bem a zona norte da cidade, a Ilha Verde, o Fai Chi Kei e a área das Portas do Cerco. Cheguei a viver na zona do Bairro do Iao Hon durante uns tempos. E dei com gente muito mal encarada.

Os problemas eram praticamente todos relacionados com o jogo, o submundo da prostituição, das seitas. Lembro-me que era considerado “perigoso” andar na Taipa na Terça-feira à noite, uma vez que havia corridas de cavalos e alguns apostadores crónicos cometiam roubos. A Rua Abreu Nunes, conhecida ainda hoje por “Rua dos Tailandeses” era também considerada problemática. “Ouviam-se lá tiros”, diziam. Os mais marialvas batiam-se numa ocasional briga de bar ou discoteca. Tudo problemas perfeitamente isolados e com uma fronteira perfeitamente definida do cidadão médio.

Existiam, é claro, as histórias mais ou menos verídicas, ou apenas com um fundo de verdade, que falavam de altas traições, de paixões que terminavam em tragédia, que envolviam vingança e morte, com um certo je ne sais quoi de lenda urbana, típicas da vivência numa terra distante, com costumes tão diferentes dos nossos, de venenos chineses, e até de uma certa loucura que alguém ousou associar à excessiva humidade da Ásia das monções.

Com o desenvolvimento económico, deu-se também um natural crescimento da criminalidade. O povo queixa-se em surdina que “a culpa é dos vistos individuais”, que permitem que cada vez mais criminosos passem a fronteira, quando antes, com os grupos, vinham apenas os turistas. Foi um mal necessário. Afinal foi graças à política dos vistos individuais que começaram a haver apostadores de sobra para encher os quase 20 novos casinos que abriram e deram os resultados que se conhecem.

São portanto, como diria Deng Xiaoping, “moscas que entram quando se deixa a janela aberta”. Mas em alguns casos, que moscas estas. Varejeiras imundas e da pior espécie. Roubos à luz do dia, aumento do número de carteiristas, aumento drástico dos números da criminalidade violenta, cidadãos que têm medo de sair da sua própria casa. Enfim, é um nunca mais acabar de situações que vêm dar razão aos que temiam o pior, aos tais velhos do Restelo de quem os críticos riem em alguma imprensa, reiterando ao mesmo tempo a sua plena confiança nas autoridades. Riem, mas sem que se saiba muito bem do quê. Talvez só riam até que o azar lhes bata à porta

E as tais autoridadades, conseguem dar resposta? Talvez conseguissem, e talvez tenham mesmo experiência para tal. Afinal foram anos a combater indivíduos perigosos, crime organizado, e estiveram mesmo no passado envolvidos em trocas de tiros e outras acções mirabolantes. Talvez seja a falta de experiência, a velha convicção de os malfeitores estão sempre um passo à frente dos policias. O que fica das tais LAGs, apresentadas todos os anos em Novembro, é que a Secretaria para a Segurança apresenta sempre “os resultados menos positivos”.

Hoje as principais vítimas desta criminalidade violenta são os idosos e as mulheres, mas já se sabe, não existem limites para o desespero. Não que a situação de hoje seja um completo caos. Mas as diferenças entre 1992 e os dias de hoje são evidentes. Ainda não temo quando ando pelas ruas em Macau, mas já olho por cima dos ombros quando levanto dinheiro das caixas ATM, por exemplo.

E já agora, quem são aqueles indivíduos operários da construção civil que estão todos os dias de manhã sentados nos degraus da entrada da Escola Portuguesa? Tenho a certeza que se eu, por exemplo, me sentasse nos degraus do Colégio de Santa Rosa de Lima todos os dias de manhã, já tinha sido avisado, pelo menos...

Mais turistas enganados


Um grupo de turistas de Cantão sentiu-se enganado por operadores turísticos de Macau, após comprar um pacote turístico de dois dias a Macau. O "tour" foi cumprido no primeiro dia, e a ira dos turistas chineses deu-se quando lhes foi dito que o segundo dia era destinado a "actividades livres". A ira transformou-se em discussão, e as autoridades foram chamadas ao hotel perto da Avenida Horta e Costa, onde os turistas permaneceram.

Mais um caso de compra de gato por lebre. Alguns operadores do turismo de Macau continuam a pensar que os turistas chineses são uma cambada de ignorantes, e hoje em dia, ainda melhor: ignorantes com dinheiro. É preciso uma intervenção urgente dos responsáveis deste sector para que não se repitam situações como as da batalha de Hac-Sá, em Dezembro último, e para que Macau não comece a ser riscado do mapa para o vasto e apetecível mercado turístico do continente.

Primeiro tufão


Está içado desde as 16 horas o sinal número um de tempestade tropical. O tufão Neoguri dirige-se para oeste, para a ilha de Hainão, e não se prevê que haja necessidade de içar o sinal número oito. Como é hábito nestes casos, o fim-de-semana em Macau deverá ser bastante chuvoso. Este é o primeiro tufão do ano de 2008. Desde 1960 que o sinal de tufão não era içado em Abril.

Brigadas vermelhas


O fundo vermelho e a estrela branca das "Brigate Rosse", um grupo de extrema-esquerda italiano, responsáveis pelo rapto e assassínio do primeiro-ministro Aldo Moro, há 30 anos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Alto e pára o baile


O Governo arranjou finalmente uma solução para a polémica que envolvia a "skyline" de Macau desde meados do ano passado: ninguém pode construir mais de 90 metros acima do nível do mar numa área de 1400 metros à volta do Farol da Guia. Em causa estavam dois edifícios - um na Av. Rodrigo Rodrigues e outro na Calçada do Gaio, perto da Rua Nova à Guia - que ameaçavam tapar a visão do farol, ex-libris de Macau e património mundial da UNESCO.

Os protestos chegaram ao Governo Central da RPC, através de uma carta elaborada por um grupo de moradores das imediações do farol, e outros interessados na vertente cultural. A UNESCO chegou mesmo a considerar retirar Macau da lista do património mundial se não fossem cumpridas as suas exigências. A situação manteve-se num impasse até à publicação destas restrições à construção em altura publicadas hoje em Boletim Oficial, pelo Despacho do Chefe do Executivo n.º 83/2008.

O caso do edifício da Calçada do Gaio é o mais controverso. O projecto de obra aprovado definia uma altura de 126 metros, que agora passa para menos de metade: apenas 52 metros. Já foi criado um Gabinete para negociar com os empreiteiros uma indemnização que, ao que tudo indica, deverá ser elevadíssima. Por vezes penso que em Macau existem direitos a mais. Os empreiteiros alegaram inicialmente que "não podiam reduzir a altura do edifício" uma vez que "já existem compradores para as fracções". Agora estarei eu enganado ou isto não está correcto. Venderam algo que ainda não existe?

Veja as reportagens da TDM aqui e aqui.

Para além da pena de morte


A Amnistia Internacional divulgou os habituais números da pena de morte, que mais uma vez deixam a China em maus lençois, no que toca ao cumprimento dos direitos humanos, versão Ocidental. Dos 1200 executados em 24 países no ano de 2007, a China lidera com 470 execuções, seguida do Irão. Queria deixar claro, antes de mais nada, que sou contra a pena capital. No entanto é preciso tentar perceber as causas sociais e culturais por trás de um castigo que parece ser, à maioria de nós almas livres e democráticas, um acto de desespero.

Lembro-me de ter havido há uns tempos em Macau uma acesa discussão sobre o tema, nos anos anteriores à transferência de soberania. Lembro-me também das palavras do dr. Henrique de Senna Fernandes naquela altura: “a pena de morte está demasiado enraízada na cultura chinesa”. Só isto é já meio caminho andado para explicar um problema que, no fundo, e perdoem-me se já ouviram isto em qualquer lado, é apenas problema da China e assunto interno das suas gentes.

É preciso lembrar em primeiro lugar que na China vigora a prevenção geral, ao contrário das nossas democracias ocidentais, onde se crê na reabilitação do indivíduo, na prisão perpétua e nas virtudes do arrependimento. Na tal prevenção geral “exige-se justiça”. E isto tem muito que se lhe diga. Num crime de sangue, de flagrante delito, como se sentem compensadas as famílias das vítimas? Quem lhes vai explicar que o indivíduo ou indivíduos que perpetraram aqueles crimes podem sair um dia em liberdade?

E não se trata de nenhuma surpresa para ninguém. A pena de morte vigorou sempre na China, desde os tempos mais remotos, e nem há registos que nos deixem saber se hoje ela é aplicada de forma mais ou menos suave. É certo que a sua aplicação pouco inibiu os cidadãos chineses de praticar crimes, mas por outro lado, a consistência com que os números surgem todos os anos na AI e pintam as estatísticas de preto, levam-nos a questionar o conceito da santidade da vida humana que nos é tão querido e especial.

Os casos de corrupção mais graves, por exemplo. Trata-se aqui de roubos de milhões de yuans, em que os seus autores, mesmo conscientes das consequências que daí poderão advir, não se inibem de praticar. E não me venham dizer que é “incompreensível” a aplicação da pena de morte nos casos de corrupção. A corrupção é um mal terrível que mina a sociedade, responsável pela pobreza e em muitos casos a própria morte das populações onde alastra. É um mal tão grave ou pior que o próprio homicídio.

Sem dúvida que para nós, que crescemos em liberdade (ou pelo menos vivemos a maior parte das nossas vidas), com valores materiais e humanos completamente diferente dos chineses e outros povos dos países onde vigora a pena capital, custa-nos aceitar que alguém possa ser julgado sumariamente e executado no mesmo dia, com o tenebroso negócio do tráfico de orgãos humanos à mistura. E mesmo que as autoridades chinesas venham agora prometer que “vão usar mais ponderação” nas suas decisões, isso faz-nos lembrar o elevado grau de ponderação utilizado pelo ex-governador do estado do Texas e actual presidente dos Estados Unidos, que afiançava “analisar todos os casos cuidadosamente”.

E a vontade popular? Só porque o Governo chinês afirma que a pena de morte colhe a aceitação da generalidade da população chinesa, isso é necessariamente mentira? As Filipinas foram o primeiro país asiático a abolir a pena de morte em 1987, e depois de um aumento drástico da criminalidade violenta, foi reinstituida em 1994, sendo então o único país do mundo a voltar atrás. Em 2006, por pressão da Igreja Católica que ameaçava destituir Gloria Arroyo por fraude nas eleições de 2004, a actual presidente voltou a abolir a pena capital, e comutou a pena a 1200 prisioneiros por crimes de sangue, o que causou a ira da população.

Na China existem ainda, em pleno século XXI, casos de pirataria dos mares, pilhagens, saques a aldeias inteiras e outros crimes hediondos. A população convive com a lei assim como em muitos outros países do mundo, alguns deles ditos democráticos (ver aqui o mapa dos países onde ainda se aplica a pena de morte, lembrando que o mundo não é só a Europa), aceita, e está consciente das consequências dos seus actos. Parece até a opção mais acertada, até a mais humana, atacar a China por causa da pena de morte, mas se os processos são segredo de Estado, e a sua natureza é desconhecida, o que nos faz julgar que é aplicada erradamente? E sem conhecimento de causa?

Mas supreende-me a hipocrisia da Amnistia Internacional. Já nem falo dos Estados Unidos, bastião das liberdades e direitos humanos, e os seus corredores da morte. No caso da Arábia Saudita, essa ditadura sanguinária, onde mais se aplica a pena de morte per capita, os executados são decapitados, os ladrões vêem as suas mãos decepadas e os homossexuais são internados em hospitais psiquiátricos, os números parece que não contam. E o país árabe sai das estatísticas com um sorriso nos lábios e uma maior sede de sangue, enquanto o mundo se entretem a apontar o dedo à China.

Cafferty on acid


O comentador da CNN, Jack Cafferty, insulta os chineses, chamando-os de "os mesmos rufias de há 50 anos", apelidando os produtos chineses de "porcarias com tinta de chumbo" e afirmando que as empresas americanas "retiram os empregos aos americanos e vão para a China onde podem pagar aos trabalhadores um dólar por mês". Este incidente provocou a ira do Governo chinês, que através da sua porta-voz Jiang Yu manifestou repúdio pelas afirmações de Cafferty, e exigiu desculpas.

Nota: eu é que peço desculpas pela qualidade da imagem, foi o melhor que se pode arranjar.

Orgulho checo


Um poster checo de 1951. Este jovem tem orgulho de servir a sua nação, pertencendo ao exército da Checoslováquia.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Larga o telemóvel, tanso!


Vinha hoje a voltar do supermercado quando fui quase atropelado por um palermóide, que não só vinha a conduzir uma das tais discotecas ambulantes, como vinha também a falar no telemóvel, ignorando por completo a passadeira dos peões. Já sei que praguejar em chinês nada ajuda, mas alivia.

Apesar do polémico Código da Estrada que entrou em vigor em Outubro último deixar bem claro que não é permitido falar no telemóvel enquanto se conduz, os nossos heróicos e audazes automobilistas continuam a ignorar a lei, e a polícia continua mais preocupada com a caça à multa por estacionamento indevido.

Eu sei que muitos leitores vão dizer: "ó Leocardo não sejas fascista, as pessoas têm a sua vida". NÃO INTERESSA! NÃO QUERO SABER! Está comprovado que 99% das chamadas de telemóvel são palermices e chanchadas, e que não há um único acidente de trânsito provocado pelo uso do telemóvel que fosse uma chamada útil ou uma emergência. Por falar em emergências, existe um número para esse efeito: o 999. E não é um telemóvel.

Acho realmente muita piada aos tipos que dizem "mas pode ser importante!". Se fossem assim tão importantes tinham um serviçal que lhes atendesse o telemóvel. Um mordomo, sentado ao lado do condutor, que atendia dizendo com uma voz grave "ligou para o Dr. Leopoldo das Dores Pacheco de Assis Teixeira da Cunha, como posso ser útil?".

É que realmente não deve haver morte mais estúpida do que levar com o carro de um gajo que ia a dizer a namorada para deixar lá o dedo, que ele estava quase a chegar, ou de fulana que ia explicando à empregada como temperar o cabrito para o jantar. E já repararam nos imbecis que param a mota no meio da ponte para falar no telemóvel?

E não me venham com essa conversa do hands free; em Macau não há auto-estradas e chega-se de uma ponta a outra em dez minutos, ou vinte se for para as ilhas. Basta ligar de volta quando se chega ao destino. Duh! Assim evitam-se tragédias como as do vídeo aqui anexo. Valeu?

Mon Dieu!


Uma petição que tem passado online e através de SMS apela aos consumidores chineses a boicotar produtos franceses, como retaliação à forma como a passagem da tocha olímpica foi recebida na semana passada em Paris. A mensagem vai mais longe e apela aos consmidores do país mais populoso do mundo a boicotar marcas como a Luis Vuitton ou Christian Dior, e que não façam compras na cadeia de supermercados Carrefour entre 8 e 24 de Maio (!), como forma de demonstrar "a força da China". Isto de boicotar as marcas de toilette e supermercados é mau para as senhoras, mas o consumidor chinês mais requintado e ao mesmo tempo patriótico, vai sofrer, e muito! Senão vejamos:

- Os mais gulosos não vão poder comer brioches, croissants ou baguettes.

- Os bons gourmet vão ter que dispensar o coq au vin, o pâté, o Rochefort, os hors d'œuvre ou o foie gras.

- Os nouveau riche (aha!) não vão poder mais usufruir das eau de vie, da Perrier, do Moët & Chandon, Cordon Rouge, Mumm ou Pommery, conduzir carros da marca Renault, Peugeot ou Citroën, ou usar material desportivo da Le Coq Sportif ou Lacoste.

- Os amantes do desporto podem vibrar com os Jogos Olímpicos "em casa", mas vão ter que passar sem o GP de França, em Magny-Cours, o Tour de France ou o Roland Garros.

- A cultura vai-se ressentir, com o boicote aos trabalhos de Vitor Hugo, Alexandre Dumas, Marquês de Sade, Camus, Sartre, Simone de Beauvoir, etc. Os cinéfilos vão passar sem os seus film noir ou os trabalhos de François Truffaut ou Jean-Jacques Annaud.

- Os mais libidinosos vão sofrer sem o seu voyeurism e os tão apreciados ménage à trois.

Certo, isto são apenas cliché, e isto dos boicotes a um país inteiro é dejà vu, mas se a moda pega e isto é mesmo levado a sério, acaba a joie de vivre. Domage!

Ma do bem


Estão bem mais calmas as águas no estreito de Taiwan, depois de quase uma década de tumulto e incerteza, em que pairava no ar um clima de conflito, especialmente quando a ilha nacionalista ameaçava cumprir a promessa da declaração unilateral de independência. Foram oito anos de governo de Chen Shui-bian, marcados por variados casos de corrupção e escândalos, e um ambiente geral de insatisfação que culminou no regresso ao poder do Kuomintang, agora liderado por Ma Ying-jeou, um moderado.

Se em 2000 os receios eram enormes (Chen prometeu a cisão total com a RPC e a eventual independência da ilha), e a RP China ameaçava com uma intervenção militar, já Ma nunca escondeu o jogo, e pautou o seu discurso pela batuta da aproximação e cooperação entre os dois lados do estreito. Nenhuma novidade, pois desde sempre existem interesses económicos e empresariais taiwaneses no continente. O abandono da retórica e a concentração de esforços no âmbito da cooperação económica são mais que bem vindos.

Até porque a questão de Taiwan tem sido uma pedra no sapato da diplomacia regional e internacional. É quase uma loucura nos tempos que correm abdicar de relações diplomáticas com a China Popular em prol da China Nacionalista (no contexto do “princípio de uma só China”, que os países que mantêm relações diplomáticas com Taiwan não defendem, portanto), e mesmo os Estados Unidos, cuja politica de venda de armas a Taipé irritou desde sempre a China, nunca deixaram de dar uma no cravo e outra na ferradura.

A via belicista nunca foi posta de parte, se bem que sempre dando a entender que eram mais as vozes que as nozes. Taiwan ameaçava com a independência, lá apareciam as tropas chinesas a fazer os tais “exercícios militares de rotina” em Fuzhu. As intenções norte-americanas quanto à tal soberania de Taiwan, assentes nos princípios da democracia e do respeito pelos direitos humanos, foram sempre tímidas, e mesmo a eventual intervenção militar na Coreia do Norte, que depende, como se sabe, do aval da China e da Rússia, podia ter a anuência de Pequim, mas só desde que se resolvesse primeiro a questão de Taiwan. Era um risco enorme.

É que Ma, bem como qualquer outro politico consciente faria, soube ler o tempo. Antes de mais nada, tratar da economia, pois já se sabe, a política não enche a barriga a ninguém. Primeira promessa, ligações aéreas directas entre Taiwan e o continente (o tal “problema” para o moribundo aeroporto de Macau), já a partir do primeiro semestre do próximo ano. Se para o presidente de Taiwan que vai tomar posse no dia 20 de Maio, o entendimento é fundamental, e logo a começar pela economia, com uma forte componente social e política, então só se pode esperar um futuro risonho para a região.

E por falar em futuro, esse continua incerto. A questão da independência total parece praticamente afastada, o extremo oposto, ou seja, a integração completa de Taiwan como provincia da RP China (中國台灣省). Improvável também parece a adesão ao princípio de “um país, dois sistemas”, idealizado para Macau e Hong Kong, ou qualquer outro tipo de autonomia, uma vez que aqui não existe qualquer motivação étnica ou cultural. Mas o futuro, a partir desta aproximação que se quer sincera, pode ser encarado com mais optimismo.

Homem-aranha em Hong Kong


O francês Alain Robert, conhecido por "Spiderman" por ter escalado apenas com as mãos e os pés vários edifícios no mundo inteiro está por Hong Kong a promover o seu livro With Bare Hands, em que conta muitas das suas aventuras. O alpinista urbano - assim é chamado - já subiu à Torre Eiffel, à Opera de Sydney, ao Empire State Building, à Torre Petronas na Malásia e à nossa Torre Vasco da Gama, entre outros.

Por falar em Jogos Olímpicos...


Lembram-se de Misha? A simpática mascote dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, marcados também por vários boicotes e carregados de uma pesada componente política.

Me chama que eu vou


Sidney Magal, mais conhecido por Capitão Frazão da novela "Da Cor do Pecado", é um cantor conceituado da Música Popular Brasileira. Vejam só como ele se mexe, neste "Me chama que eu vou", tema de abertura de outra novela de 1990, "Rainha da Sucata".

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O erro do Mandarim


Não sendo eu membro da Associação de Pais da Escola Portuguesa de Macau (APEP), e não tendo tido voto na matéria, nem participado em qualquer decisão, não posso no entanto deixar de lamentar o terrível erro que foi optar pelo Mandarim como “lingua chinesa” naquela instituição de ensino.

Aparentemente os critérios que pesaram na decisão são tidos como “indiscutíveis”, ou seja, é a língua oficial, fala-se em toda a China (a mentira que mais se teima em repetir) e é, realmente, uma aposta no futuro. O Cantonense pode ser, no papel, o dialecto da província de Cantão, mas na realidade é uma lingua com uma estrutura muito própria, falada por mais de 70 milhões de pessoas no mundo inteiro, é a lingua franca de Macau e Hong Kong, e falada pela maior parte das comunidades chinesas da Malásia, Tailândia, e até Estados Unidos, entre outras. O primeiro presidente da República da China, o Dr. Sun Yat-Sen, tinha o Cantonense como lingua materna.

Nem me apetece aqui discutir o carácter pragmático desta decisão. Basta olhar para as restantes instituições de ensino chinesas do território e perceber que o Cantonense é a lingua lá ensinada. E então isto dá-nos algum tipo de vantagem? Será essa a ideia? Se por acaso a aprendizagem do Mandarim se insere no contexto de uma “grande China”, então é caso para dizer que o resto da população está condenada a ser considerada, num futuro próximo, analfabeta. E para mais ensina-se o Mandarim com o recurso aos caracteres simplificados, conceito terminantemente rejeitado em Macau, Hong Kong e até Taiwan, onde a lingua oficial é, como se sabe, o Mandarim.

O ideal seria fazer – como já acontece nas restantes escolas de Macau – começar pelo ensino do Cantonense e passar ao Mandarim no ensino secundário. Que sentido faz ensinar a crianças do ensino básico uma lingua que a maioria dos adultos e mesmo a população mais jovem do território não domina? E não seria muito mais fácil para os jovens portugueses, filhos de portugueses que não dominam o Cantonense, ter os seus filhos a aprender um idioma que podiam usar no dia a dia em Macau, e até assim aperfeiçoá-lo?

Só me resta concluir que esta ideia saiu da cabeça de alguém que não conhece a realidade de Macau, e muito menos da região. Um dos argumentos mais utilizados e que não colhe, é o da tendência do Cantonense em “desaparecer”, ou ser absorvido pela lingua oficial, mais dia, menos dia. Com a força que o Cantonense tem nesta região, principalmente em Hong Kong, esse dia vai chegar, sim, daqui a uns cinco séculos! Mesmo os quadros chineses que vêm para Macau trabalhar acabam por aprender o Cantonense. São as pessoas que se adaptam à lingua, e nunca o contrário

Qual o objectivo de ambientar os jovens ao ensino do Mandarim desde tão tenra idade, e num território onde predomina o Cantonense? Torná-los elegíveis para a ANP? Agora vem o responsável da APEP dizer que afinal em Macau o Mandarim não se fala todos os dias, e é difícil recrutar professores, etcetera e tal. No shit, Sherlock. E quando se optou por esta via? Não era já assim? Será que era preciso a visita de um sr. deputado da República Portuguesa (cada vez mais raras, cada vez mais preciosas) para que se constatasse esta realidade?

Especulação pode acabar mal


A especulação imobiliária em Macau tem seguido um princípio bastante simples: “Constrói-se que eles aparecem”, publicava o Wall Street Journal na quinta-feira. O jornal norte-americano aponta como causa para a crescente especulação imobiliária no território uma oferta limitada aliada a baixas taxas de juro e a uma crescente procura sustentada pelo aumento dos rendimentos da próspera indústria do jogo que trouxe para Macau uma nova população expatriada com acentuado poder de compra e disposta a investir no imobiliário.

Mas o jornal económico alerta os investidores para levarem em conta o enquadramento geral antes de entrarem neste mercado especulativo do qual as empresas imobiliárias de Hong Kong poderão também não tirar os lucros que ambicionam.

A evolução do mercado regional é um dos sinais a ter em conta, segundo o Wall Street Journal, que refere que o mercado local pode sofrer uma queda acentuada se os muitos especuladores com interesses em Macau optarem por liquidar os seus investimentos por receio de uma depressão generalizada. Essa pressão descendente pode, por exemplo, ter origem num aumento da oferta na vizinha Zhuhai onde as habitações de qualidade estão a aumentar e o preço das propriedades é uma fracção do que se pratica actualmente em Macau.

Um eventual abrandamento económico na China é outro dos elementos de alerta, uma vez que o crescimento do território depende cada vez mais dos turistas e apostadores oriundos do continente e que a prosperidade local é dos factores que mais influenciam o mercado imobiliário.

Optimismo no sector

Apesar destas possibilidades, Marcos Chan, responsável pela prospecção nos mercados de Macau e Hong Kong da imobiliária Jones Lang LaSalle, permanece optimista. “No curto prazo assistiremos a flutuações e incertezas no mercado, mas no longo prazo é um mercado muito saudável”, refere. “Não existe excesso de oferta em Macau”, afirma Chan, acrescentando que ”o nível de juros cobrados é baixo, os rendimentos estão a aumentar, a população e a procura também. Os sinais são todos positivos”.

Nos próximos anos uma nova vaga de abertura de hotéis e casinos irá empregar cerca de 20 mil novos trabalhadores, refere Johnny Lai, director-geral adjunto em Macau da imobiliária Colliers International. A Jones Lang LaSalle estima que o número ascenda a 60 mil. Apesar da disparidade nas projecções, uma coisa é certa, a oferta de trabalho irá fazer aumentar procura de habitação e inflacionar os preços das propriedades.

Segundo Chan, o preço das habitações mais caras aumentou 29 por cento em 2007 e a rendas sofreram um acréscimo de 5 por cento apenas nos primeiros dois meses de 2008.

Mas tais aumentos podem revelar-se prematuros, apesar de positivos para os promotores imobiliários. O preço das habitações pode ser afectado por uma vaga de oferta ao longo de 2009 e 2010. Segundo a Jones Lang LaSallle, em 2009 serão concluídas 5704 habitações em Macau, mais do dobro das 2710 de 2008.

Para George Choi, analista do mercado de Macau para a Citi Investment Research de Hong Kong, as acções das empresas imobiliárias que investem em habitações de luxo devem ser evitadas. “Mesmo que ocorra uma nova vaga migratória em Macau, poucos dos novos residentes serão os grandes investidores com que os empreiteiros estão a contar”, refere Choi.

Segundo os cálculos de George Choi, apenas cerca de dois mil dos cerca de 87 mil estrangeiros que vivem em Macau podem aceder às habitações de luxo que entrarão no mercado nos próximos dois anos. Essa oferta será aproveitada pelos especuladores que, segundo Choi, são responsáveis por 28 por cento das transacções imobiliárias, quando em Hong Kong o valor é de dois por cento.

Mercado na mão de especuladores

Numa onda de pessimismo regional, esses especuladores podem retirar-se do mercado. Mas para a maioria dos residentes de Macau, a compra de uma dessas unidades poderia implicar que despendessem 70 por cento dos seus rendimentos com o pagamento da habitação.

“Estas pessoas terão dinheiro para comprar um apartamento em Macau?”, questiona Choi. Talvez por isso a sua empresa aconselha aos clientes a venda das acções das empresas Shun Tak Holdings e Polytec Asset Holdings, dois dos maiores construtores de habitação de gama alta no território.

Tal como Choi, a Morgan Stanley considera que a maior parte da procura tem como alvo habitação mais económica, um segmento de mercado em que poucos empreiteiros estão bem posicionados. Apesar disso a empresa está optimista quanto ao futuro do mercado de Macau e a avaliação que faz das acções da Shun Tak e Polytec é positiva.

A perspectiva macroeconómica ajuda ao optimismo da Morgan Stanley. Forte crescimento económico, crescimento demográfico de 5 por cento, aumento de 18 por cento nos salários e descidas nos juros para compra de habitação, sustentam a previsão de que o mercado imobiliário local continuará em alta.

In Hoje Macau

Os assassinos de amanhã


Centenas de pessoas marcharam ontem em Hong Kong exigindo mais protecção para os animais, e o respeito pelos direitos dos amigos de quatro patas. Em causa estão recentes casos de violência contra gatos (?), o mais recente caso envolvendo dez jovens, o mais novo de 13 anos. Num ambiente de funeral (alguns manifestantes trajavam preto e choravam), Cheung Yuen-man, porta-voz do grupo Animal Earth, chamou a atenção para o perigoso precedente que é a violência contra os bichinhos. É que segundo este responsável, hoje matam animais, amanhã podem matar pessoas. São dores de crescimento.

Nepal de Mao


Tudo indica que o Partido Maoísta terá vencido as primeiras eleições livres do Nepal, e prevê-se que ocupem a maioria dos 601 assentos no parlamento nepalês. Os maoístas pretendem alterar a constituição e abolir a monarquia. Os resultados totais só serão conhecidos daqui a semanas, mas prevejo que sejam estas as primeiras e últimas eleições livres no Nepal.

A vida feliz


Um poster de 1954, ou seja, poucos anos depois da revolução. Em cima podemos ler: "a vida feliz que o presidente Mao nos ofereceu". Repare-se como estão três crianças à mesa. Longe ainda iam os tempos da política do filho único.

Lições de engate


Zé Beirão ensina 8 pequenos segredos para dar um jantar romântico. O melhor mesmo é...bem, fazer à nossa maneira.

domingo, 13 de abril de 2008