
Nota: este postal
não é sobre a laranja ou qualquer outro citrino.
Das vezes que passo pelo novo Mercado de S. Domingos fico encantado com o esforço feito pelas senhoras da fruta e das flores em me tentarem vender o produto, sempre no melhor português que podem, e que aprenderam com anos de convivência com os antigos senhorios de Macau. Ora ele é a
lálancha (laranja),
uva munto dóci (uva muito doce) ou a
flô (flores). Lá em cima vendem o
falango (frango) ou o
camalan (camarão). Em outras conversas já tomei contacto com a
fálanda (varanda) ou com o
paticula (particular). É de se lhe tirar o chapéu, de como tentam pronunciar palavras com uma estrutura e uma pronúncia tão diferente do seu silabário.
Confesso que quando cheguei a Macau achei estranha, e até um pouco engraçada a forma como se falava o português entre os macaenses e até mesmo os chineses que estudaram português. As redundâncias, por exemplo: o
subir para cima ou o
sair para fora. As outras expressões traduzidas directamente do chinês, como o
comer cigarros (
sik yin, ou seja, fumar) ou o
fulano já voltou? (já chegou) ou ainda o explosivo NÃO É!!! (do chinês
m'hai, que expressa surpresa ou choque) demoram tempo a entrar, bem como os defeitos de pronúncia:
mau-entendimento (mal entendido),
ténico (técnico) ou
garida (garrida, rebelde), mas a gente adapta-se com alguma facilidade. Eu por exemplo considero muito mais musical e simpático dizer chuchumeco/a quando se fala de um coscuvilheiro/a ou bisbilhoteiro/a. Palavras difíceis, essas.
E por falar em mal entendidos, já repararam como os chineses e até mesmo alguns macaenses têm dificuldades com os números grandes? Isto deve-se ao uso, em chinês, de um antigo numeral grego, o míriade, que equivale a 10.000, e reprentado em chinês por
yát man (一萬). Cem mil, por exemplo, serão dez miríades, e dez milhões mil míriades. A minha mulher no outro dia dizia-me, em inglês, que a China tinha "mais de 10 mil milhões de pessoas". Outra confusão muito comum é feita com as fracções: três quartos, ou três sobre quatro, em chinês é
sam fan zi sei (四分之三), literalmente "de quatro são três", ou seja, o denominador aparece antes do numerador.
E já alguém se interrogou sobre aquela partícula que tanto se ouve no final de uma frase? Normalmente soa a
loh, mas às vezes também pode ouvir
lur,
kar,
wor ou
lar. Alguns exemplos: "Não sei
loh", "Não sejas assim
lar", "É o teu irmão
kar". Esta partícula não tem qualquer significado especial, e serve apenas para dar um tom informal à frase. Num discurso formal nunca se ouvem os musicais
loh's. Sempre achei isto giríssimo, e já me habituei a usar, lor.
Um erro muito comum entre os nossos expatriados é assumirem que "têm um nome chinês". Nada mais errado. Por vezes, para que se facilite a leitura ao povo chinês, que não usa o nosso abcedário, traduzem-se alguns dos nomes de alguns profissionais (normalmente liberais, como advogados, médicos ou arquitectos). Assim, os Gomes ficam
Kou Mei Si, ou os Santos ficam
San Tou Si, mas isso
não são nomes chineses. Um nome chinês obedece a um conjunto de normas: o primeiro nome é o apelido do pai, e os outros dois (ou apenas um, em alguns casos), quer encadeados, quer separados, têm um significado especial. Alguns chineses que optaram por nomes portugueses fizeram-no de forma aleatória (alguns recorreram até ao dicionário de nomes), outros fizeram-no de uma forma natural: as Mei Lin ficaram Melinda, as Ka Man ficaram Carmen.
As relações luso-chinesas têm sido ao longo dos séculos pacíficas. Certo? Claro, mas isso muito devido ao facto de ser praticamente impossível encontrar um ponto comum entre os insultos de ambos os lados. Note-se alguns dos insultos em chinês traduzidos para português: "tens os nervos trocados" (
chi ma gán), "és atrasado mental" (
nei yuk chi), "fizeste um erro" (
yau mou kau chou) ou "testículos estúpidos" (
pán chát). Ou não fazem sentido, ou não são assim realmente tão ofensivos quanto isso. Mesmo o maior insulto que se pode dizer em chinês (
diu lei lou mou, que se refere à prática do coito com a progenitora do interlocutor) é usado livremente entre alguns conhecidos mais íntimos. Razão? É que para que tenham estas intimidades, só mesmo se forem muito amigos...wor.