
Jantei ontem naquele restaurante japonês muito giro no 1º andar daquele edifício em frente aos Correios, onde fica o Pacific Coffee. Faço-o uma vez por semana, e posso dizer que é uma forma agradável de consumir algum peixe fresco, mesmo que cru, e tomar o excelente chá verde japonês, já que não sou grande adepto do chinês. Não é difícil encontrar bons restaurantes japoneses em Macau, e no me interessa muito se são melhores, piores ou idênticos aos do Japão, uma vez que só gosto de sushi ou sashimi.
O mesmo já não se pode dizer de outros tipos de restaurantes, ou especialidades. Existe também uma miríade de restaurantes italianos, especialmente nos novos hotéis, e apesar da maioria ser uma porcaria (faço melhor comida italiana em casa), parece ser um negócio muito rentável. Talvez o facto dos italianos previligiarem as massas, à semelhança dos chineses, seja explicativo.
Do que gosto mesmo é de comida indiana, que em Macau se limita ao restaurante do Tony, na Nova Taipa, e à Aruna, residente no território há mais de duas décadas, e considerada a autoridade máxima deste deliciosa e exótica cozinha. Existia um restaurante paquistanês óptimo, primeiro situado na Rua Fernão Mendes Pinto, perto dos três candeeiros, e que mudou mais tarde para o Centro Internacional, onde adquiriu um aspecto mais marginal, e depois fechou.
O que é mesmo pena é que não exista um restaurante de comida árabe digno desse nome em Macau. Temos lojas de kebab aqui e ali, e o Beirut, situado na NAPE, aberto por libaneses. Sempre que vou a Hong Kong delicio-me no Habibi, no Soho, onde se pode apreciar a culinária das mil e uma noites com uma relação preço-qualidade bastante apetecível, e um serviço de cinco estrelas. Existia também no NAPE um restaurante cujo nome agora não me recordo (Star Hub?) que oferecia “a autêntica cozinha da Malásia e Singapura”. Não era grande coisa, mas pelo menos era diferente.
Infelizmente a indústria da restauração em Macau não oferece muita variedade, e obedece muito à regra dos monopólios. O que é mesmo muito curioso é que Macau deve ser um dos poucos lugares no mundo onde é quase impossível encontrar a culinária local, a de origem, a “indígena”. Obviamente que me refiro à comida macaense. Não existe um restaurante macaense propriamente dito, uma vez que o Riquexó é mais uma cantina, e o Litoral oferece apenas uma gama generalista dessa deliciosa e interessante cozinha. Acreditam que estou em Macau há 18 anos e nunca comi Diabo?
Li ontem no JTM, na coluna de Luís Machado aquele interessante poema
naife da autoria do sr. Monteiro, e fico a perguntar: o que é brêdo raba-raba? E Saran surabe? E onde posso comer chau-chau lacassá, dodol ou barbá? Serão estas iguarias previlégio exclusivo da tal Confraria da Gastronomia Macaense, e de uma ou outra família que ainda a saiba cozinhar? Ou estarão extintas? E porque será que oiço tantos macaenses saudosos e desiludidos com as ofertas de binbinca de nabo ou porco bafassá que ainda se podem encontrar, suspirando que fulano ou fulana que já não estão entre nós é que sabem fazer bem?
Curiosamente vejo naquelas reportagens que o JTM às vezes faz sobre as Casas de Macau da Califórnia ou de S. Paulo que os macaenses da diáspora mantêm ainda viva a boa mesa macaense. Será que a distância é amiga da culinária original? E será que os seus descendentes vão preservar essa tradição, ou o “segredo” morre com os seus gurdiões? É uma pena que esta culinária seja to elitista, e que os turistas que visitam o território confundam a culinária típica do território com o camarão assado, os pastéis de bacalhau ababatados ou a tal “Portuguese chicken” que se oferece naqueles restaurantes de imitação de comida portuguesa.
É que não basta cozinhar tudo com molho de tomate e cebolas e chamar-lhe “comida macaense” ou “portuguesa”. Assim ficamos mal vistos. Daí que desejo boa sorte para o Luís Machado e para a Confraria que agora preside, e que não deixe cair estas tradições gastronómicas. É preciso não esquecer que o caminho do coração passa também pelo estômago, citando um ilustre macaense.