domingo, 27 de julho de 2014

Desdém, quem não tem?


Depois de Maria Vieira, foi a vez de Paula Bobone emitir a opinião que ninguém pediu sobre Dolores Aveiro, a mãe de Cristiano Ronaldo, que na semana passada deu uma entrevista na RTP onde falou da sua vida e do seu livro, "Mãe Coragem". Paula Bobone, que certamente quase toda a gente do "mundo português" conhece ou pelo menos ouviu falar, é uma ave rara que se diz uma autoridade em etiqueta, um eufemismo para designar o seu descaramento de "tia" afectada e complexada, para quem a aparência é tudo. Este vendaval do disparate passou por Macau em Dezembro último, onde deu uma palestra dedicada ao disparate no clube C&C, e uma entrevista com queda para o cómico-trágico na Rádio Macau, que comentei neste artigo. Agora a delirante senhora veio dizer no programa "Você na TV" da última sexta-feira que Dolores Aveiro "fez um excelente trabalho de recauchutagem" (?), melhorando muito a sua imagem, mas que "precisa de aulas de terapia da fala" para que se torne numa verdadeira "lady". Agora permitam que me ausente por um instante para ir vomitar.

Pronto, já está. A irmão mais velha de Cristiano Ronaldo, Kátia Aveiro, respondeu chamando Paula Bobone de "horrorosa" (a aparência ainda é o que menos assusta), e dizendo que a sua mãe "pode não ter formação académica, saber línguas ou falar um português perfeito, mas deu lições de vida a muita gente". Depois passou ao ataque, e entre ou um outro bitaite mais ligeiro, acabou por dizer a Paula Bobone para "pegar na sua opinião e enfiá-la no cu". Eu nem sei por onde começar a analisar o ridículo de tudo isto, que já se começa a tornar numa saloiice pegada. A mãe de Cristiano Ronaldo nunca pediu qualquer tipo de protagonismo, e ninguém me convence que a publicação do livro onde conta a história da sua vida foi ideia sua, pessoa humilde que é. Não estamos aqui a falar da mãe do Macaulay Kulkin ou do pequeno Saul, que estoirou com o marido a fortuna do filho menor em luxos e futilidades, e de regresso à normalidade só ficaram dívidas e arrependimento. Além disso nomeou (se nomeou...) uma procuradora terrível para responder a este tipo de provocações parvas: Kátia Aveiro nem consegue dar uma resposta que lhe faça sair por cima, com dignidade, e reage ao insulto dissimulado com o insulto declarado, só lhe faltando ameaçar com porrada.

Não sei se a mãe do jogador português do Real Madrid, o mais bem pago do mundo, está a ser alvo deste tipo de remoques vindos de gente que apesar do estatuto de (mais ou menos) figura pública, conseguem mais baixa e rústica que ela - não que eu a esteja a chamar de rústica, mas em comparação, quer Maria Vieira quer Paula Bobone ficam muitos furos abaixo dela. Até sinto um pouco de revolta ao pensar o que deve sentir a sra. Maria Dolores, pouco habituada a este tipo de filha-da-putice a que se sujeitam os colunáveis, quando vê o seu nome achincalhado deste jeito. Desconfio que há aqui outra intenção em tudo isto: ou estas duas estão com inveja de quem conseguiu protagonismo sem precisar de fazer o mesmo percurso sinuoso de anos e anos, ou querem pedir-lhe dinheiro emprestado. Já diz o povo e com razão, "quem desdenha quer comprar".


Ajax vence Eusébio Cup


O Benfica foi ontem derrotado no Estádio da Luz frente ao Ajax por 1-0, em encontro amigável que atribui a Eusébio Cup, troféu que vai na sétima edição, e que os encarnados venceram por três vezes. O único golo foi apontado aos 41 minutos por Ricardo Kishna, e o Benfica desperdiçou uma grande penalidade perto do fim, por Franco Jara, que falhou a conversão de uma falta cometida sobre ele próprio. Jorge Jesus ainda está a encontrar a afinação ideal dos campeões nacionais, que como tem sido hábito, perderam este defeso algumas das suas pedras principais. Esta foi a terceira derrota consecutiva das águias na pré-temporada, depois de terem perdido a final da Taça de Honra da AF Lisboa no Domingo passado frente ao Sporting, também por 0-1, e a meio da semana um amigável frente aos franceses do Marselha, por 1-2.

sábado, 26 de julho de 2014

Não


Enquanto se discute a legalidade do "referendo" democrata, vou adiantando a minha tendência de voto, "just in case". É o habitual artigo de quinta-feira do Hoje Macau. Gozem bem o resto do fim-de-semana.

Apesar das vozes dissonantes e dos alertas que apontam para uma eventual legalidade, sustentados em meras interpretações pessoais, parece que os democratas vão mesmo avançar com aquilo que chamam de “referendo informal”, e cujo objectivo é tentar apurar com um maior nível de fiabilidade qual é a posição dos residentes de Macau quanto a uma eventual eleição do Chefe do Executivo da RAEM através do sufrágio universal e directo, no sistema de “um eleitor, um voto”, saindo vencedor o candidato que obtenha mais votos. Pelo pouco que já nos é permitido perceber, a votação será feita através de um sítio da internet, que ficará disponível durante dez horas nos dias de Domingo, dia 24 de Agosto, e Sábado, dia 30 – exactamente na véspera da eleição IV Chefe do Executivo propriamente dita.
Quer a data, quer a designação da iniciativa do sector pró-democrata, são entendidos pelos mais variados sectores que normalmente se colocam do lado do Executivo como uma “provocação”. De facto o momento escolhido pela Associação Novo Macau (ANM) e o seu recém-criado satélite Consciência Macau não podia ser mais controverso. Na noite do dia 31, Domingo, poucos minutos depois da Comissão Eleitoral o resultado da eleição do Chefe do Executivo, os democratas anunciarão o resultado da sua consulta.
Como se pode entender facilmente pelo “timing” dos dois anúncios, o segundo, o falso, poderá causar algum transtorno ao primeiro, o oficial – e tudo depende ainda quer da participação na iniciativa dos democratas, quer do resultado da mesma. Chamar-lhe de “referendo” tem feito correr muita tinta, pois nem os seus organizadores têm legitimidade para tal empreitada, como esta não vem sequer prevista em qualquer legislação vigente quer no território, quer na China continental, e como tal o seu resultado não terá qualquer carácter vinculativo. Se isso já seria motivo suficiente para relativizar o assunto, o mal-estar permanece. Mas porque razão, se esta votação virtual vale tanto como escolher entre lasanha verde e “al ragú” num sítio da internet dedicado à “pasta”?
Mais uma vez fica a impressão que o actual Executivo, que termina agora o seu mandato, insistiu em nāo medir o pulso à sociedade, e mesmo que não lhe agrade discutir questões do foro político que possam atrair as atenções quer das camadas da população mais adormecidas, quer do Governo Central, a verdade é que foram avisados inúmeras vezes desta possibilidade. Não é preciso ser um analista político especializado para perceber que a situação em Hong Kong causaria um efeito de “arrastão” em Macau, e quanto mais se bate na tecla da ilegalidade, da violação da Lei Básica ou da Constituição da R.P. China, que foi metida ao barulho vá-se lá saber porquê, competia aos dirigentes da RAEM esclarecer a sua população sobre a questão do sufrágio universal, ou de uma eventual alteração (ou aperfeiçoamento) do método da escolha do Chefe do Executivo.
O que mais poderia a opinião pública pensar, olhando para o actual processo de eleição do principal cargo público da Região Administrativa Especial, que tudo não passa de uma elaborada encenação, e onde o escrupuloso cumprimento das etapas do processo, o primado da legalidade e toda a cerimónia e burocracia envolventes produzem o mesmo efeito do que um jogral com uma corneta e um papiro anunciando o nome do vencedor? E assim ainda se economizavam uns milhões de patacas. Por outro lado os democratas apresentam um conjunto de moções, sendo a primeira a que coloca a seguinte questão: “Deverá o Chefe do Executivo da RAEM ser eleito por sufrágio universal em 2019”, com três opções de resposta, o “sim”, o “não” e o “abstenção”. Fico feliz por finalmente poder converter a minha opinião em algo quantificável, e espero participar da consulta, avançando desde já que o meu voto será no “não”. E tenho boas razões, nenhuma delas pessoal, para acreditar que o sufrágio universal seria uma catástrofe.
Alguns podem pensar que se não estou a favor do sufrágio universal, considero que o actual método de eleição do Cehfe do Executivo é o ideal, e que se deve manter após 2019, sem que se questione sequer a sua validade. É por causa deste extremar de posições que em Macau ninguém fala de política, todos têm medo do papão da política, e dá-se o efeito perverso desta demonização: não há, não se faz e não se pensa política, quando às vezes era necessário que houvesse, fizesse e pensasse. O método actual, explicado e bem na Lei Básica, seria perfeito em muitas legislaturas por este mundo fora onde a participação directa da sociedade civil na escolha dos seus representantes só tem causado transtorno, em vez de dar credibilidade à democracia no seu estado puro. Tivessemos em Macau uma maior independência dos diversos agentes do poder, e talvez em cada eleição surgissem dois ou três candidatos, e o Colégio Eleitoral que em última instância escolhe um deles adquirisse contornos de seriedade que actualmente não tem. A população não entende como se processa o acto, como se chega ao resultado final, e também não precisa de entender; tem quem trate disso por eles.
Sendo o método actual mais um pró-forma do que propriamente uma escolha, é normal que ao acenar de uma alternativa onde possa dizer de sua justiça, o eleitorado tenha pelo menos curiosidade em saber no que consiste, e que vantagens pode ter em relação ao actual, onde ficam de braços cruzados à espera que se anuncie o vencedor de uma eleição com apenas um candidato. Isto não quer dizer que o sufrágio universal seja a única saída, ou um dos dois, ou nada. E é nessa perspectiva que o actual elenco encara esta novidade: um desafio, ou mais do que isso, um ultraje. Nunca lhes terá passado pela cabeça que os democratas tenham ousado propôr o “referendo” após cansados de esperar pela promoção do debate público sobre algo perfeitamente legítimo: a evolução da sociedade, e a necessidade do sistema político de se adaptar a ela.
Escolher quem pensamos que melhor nos representa é uma ambição própria do ser humano, ainda mais antiga que a própria democracia. As sociedades ditas primitivas, nómadas e recolectoras, tinham os seus líderes, que ora impunham a sua autoridade pela força, e esta era reconhecida ou então contestada, levando eventualmente à sua disputa; ora era aclamado pelas suas capacidades de liderança, pela força ou pela coragem, ou através de outros expedientes – em suma, qualquer outra qualidade que os distinguisse dos restantes. Em Macau dá a sensação de que ainda estamos nesta fase, sem ofensa, mas não há outra explicação para o atraso que persiste no germinar de uma consciência civil e política. As eleições para os poucos lugares na AL dados a decidir pelo eleitorado sofrem de uma declarada falta de credibilidade, com a compra de votos e a manipulação dos resultados a ser tratada como “normal”, e vendo bem, só faria sentido o sufrágio directo depois de atingida a maturidade quer desta eleição, quer daquela que se vai realizar no dia 31 de Agosto.
Era ideal que o Governo abordasse estes temas com a população, em vez de lhe passar um atestado de incompetência. Claro que teria que ser uma aproximação mais diplomática, mais programada, e que no limite levasse o eleitorado a reflectir se o sufrágio universal seria uma boa solução caso fosse adoptado em Macau, e quem gostariam eles de ter como candidatos. Por enquanto não me resta senão agradecer aos democratas a oportunidade de materializar os meus receios: no vosso “referendo informal” vou votar no “não”. Obrigado na mesma.


Morte lenta: sabe tão bem...





Fumar mata. A Coca-Cola tem quantidades copiosas de açúcar. Seja saudável: não fume, não beba Coca-Cola. O quê? Não quer deixar de fumar? Bebe o que lhe apetecer? O que tenho eu a ver com isso? Nada, mas...O quê? Vá você!

Que abutre tão janota



Imagens que chocam, e que nos fazem pensar que se calhar aquele cenário pós-apocalíptico onde só as baratas sobrevivem à face da Terra não é tão mau quanto parece. Ekaterina Parkhomenko, uma ucraniana de etnia russa, publicou no Instagram fotografias suas usando maquilhagem pertencente a uma das vítimas do voo MH-17 da Malaysian Airlines, abatido na semana passada por rebeldes separatistas pró-Moscovo. Com a fotografia dos cosméticos publicou a mensagem em russo: “Máscara de Amesterdão, ou melhor, dos campos. Bem, acho que percebem o que quero dizer”. Que uso tão requintado da ironia; se fosse redondo com um bico na ponta podia enfiá-lo no cuzinho. Arrependida - ou apenas melindrada pelo destaque nos media - acabaria por retirar as imagens da rede social. É que nem toda a maquilhagem do mundo seria capaz de disfarçar a pouca vergonha que tem na cara.

Barman: esta cerveja sabe a merda


Depois de produzirem bebidas destiladas de peixe podre e bílis de baleia, eis que os sempre exóticos islandeses inventam agora uma cerveja com merda de ovelha. A "Fe Nrir nº 26", produzida pela conceituada cervejaria Borg Brugghús tem a particularidade de serem introduzidos excrementos de ovelha durante o processo de secagem da cevada. O resultado, segundo Sturlaugur Jon Björnsson, especialista em cervejas e possível cropófago, é "um 'ale' com sabor mais delicado, notas cítricas e de lúpulo, deixando um sabor exótico no final". Isto traduzido para miúdos quer dizer: "um cheiro a peido, sabor a cócó, deixando na boca um cheiro a cagalhão". São feitas comparações a outras bebidas onde entram fezes no processo de fabricação, nomeadamente o indonésio "café luwak", mas se nesse caso os grãos de café são digeridos e expelidos pela civeta já fermentados, e depois de limpos é obtido o produto final, na cerveja islandesa pinga bosta de ovelha, juntamente com a cevada. Recorde-se na Islândia não existem restaurantes da cadeia McDonald's, sendo um dos pouco países do mundo que se pode orgulhar desse facto. Sim, porque eles lá não comem essas porcarias.

A vida é um bem precioso: altere os seus "settings"


Este é o vídeo de uma campanha da Cruz Vermelha da Polónia, alertando para os perigos do Facebook. Quer dizer, quando comecei a ver este filme de um minuto e meio pensei que fosse mesmo isso, mas na verdade alerta para "os perigos", ponto final, e não entendo onde é que o Facebook se enquadra nessa lógica. Quer dizer, posso não ser a maior autoridade no assunto, mas é óbvio que contactar pessoalmente com uma pessoa estranha é diferente do que contactar uma pessoa estranha no Facebook ou noutra rede social qualquer. Se convivemos com alguém que acabámos de conhecer ou conhecemos mal, devemos exercer as mesmas cautelas independentemente do local onde nos encontramos, ou da forma como nos conhecemos. Há quem alerte para o facto das redes sociais serem "ideais" para o "engate", ou "um perigo", dependendo da perspectiva, dada a quantidade de predadores sexuais e gente maluca com as piores intenções que por ali grassam, mas sem ter a intenção de me estar aqui a gabar, também se fazem "engates" noutros sítio, e frente-a-frente com as pessoas. Só a crescente desumanização provocada pela dependência da rede explica que hajam cada vez menos pessoas que não conseguem conhecer outras no seu dia-a-dia, no contacto com outros seres humanos.

Apesar de tudo, prefiro dar crédito a quem se apresenta como sendo bem intencionado, e que aparente ser quem diz que é, e se quiser passar da amizade virtual a um contacto pessoal tudo bem, mas certamente que não é recomendável que o primeiro encontro se dê num local ermo e escuro, ou na casa dessa pessoa - se o convite for endereçado nestes termos, é já por si suspeito. E não, de facto o Facebook não é a vida real, e isto é uma das primeiras noções que se adquirem quando se senta em frente a um PC e do outro lado estão pessoas igualmente do outro lado de um PC, ou "Smartphone", ou "tablet", e qualquer dia com um "chip" implantado nas têmporas. Não sei se as pessoas da Polónia são tão estúpidas que não entendam isto, mas se é esse o caso, permitam-me uma recomendação: se alguém contar uma piada engraçada no "chat", evitem fazer um "high-five", pois é possível que venham a entrar em despesa com a aquisição de um monitor novo. E por falar em piadas, esta conversa toda levou-me a inventar uma. Com o devido desconto por não ser humorista e sem me querer armar em engraçadinho, aqui vai:

- Então, Artur, que cara é essa?
- Olá Jaime. Olha...tive um problema bicudo, pá.
- A sério? Conta lá, meu. Desabafa que te faz bem.
- Olha, é que recebi um e-mail a dizer que ganhei 50 milhões de libras num sorteio. E engraçado, não me lembro de ter concorrido a nenhum.
- A sério??? Bestial, pá! Parabéns! E não pagas um copo nem nada?
- Não brinques...pediram-me os contactos, o número da conta bancária, e eu mandei. Depois disseram que precisavam de um montante para processar a transferência, e eu mandei também.
- É natural. E depois?
- Bem, a seguir mandaram-me outro e-mail dizendo que precisavam de mais dinheiro para outra taxa, aquelas que são normais para acelerar os processos naqueles países sub-desenvolvidos, 'tás a ver? Da África e isso...
- Ah pois, percebe-se. E tu?
- Bom, como já tinha mandado dinheiro pela primeira vez, mandei outra vez, mas o problema é que pssaram-se dias, nunca mais respondiam, e quando lhes perguntei o que se passava percebi que a conta de e-mail tinha sido desactivada! Fui enganado!
- Bolas! Quer dizer que isso dos 50 milhões de libras que eles alegaram que tu ganhaste num sorteio onde nem sequer participaste ou tinhas conhecimento da sua existência era mentira?
- Sim...
- E quanto perdeste nisto tudo?
- Duas mil libras.
- Já não se pode confiar em ninguém pá...este mundo está perdido. Mas mudando de assunto, como vão as coisas com aquela tipa super-giraça que conheceste no Facebook?
- A Ana? Olha, no outro dia era mandou-me uma mensagem a perguntar se queria sair com ela.
- Não me digas, e foste?
- És maluco, meu? Não sabes que isso é perigoso? Sei lá se a tipa mistura-me qualquer coisa na bebida e amanhã acordo na praia com menos um rim?
- Tens razão. Com essas coisas todo o cuidado é pouco.
- Podes crer, e é por isso que ainda cá estou, e outros mais incautos foram de vela.
- Uh uh. Que estúpidos...

Afinal estava aí!


Uma mulher escocesa de 38 anos deu entrada num hospital de Aberdeen, queixando-se de perda de peso, letargia e uma sensação incómoda na zona do abdómen. Depois de se realizarem testes, os médicos descobriram a presença de um "corpo estranho" no interior da vagina, perto da zona do cérvix, e ao retirá-lo descobriram tratar-se de um brinquedo sexual. Atrapalhada, a mulher explicou que teria deixado ali o objecto há dez anos, durante uma brincadeira com o parceiro, e não tinha dado conta do esquecimento, uma vez que "ambos tinham bebido" - recordo que a mulher é escocesa. O "intruso" provocou alguns danos no aparelho urinário da paciente, nomeadamente uropatia obstructiva, uma condição que leva a que a urina fique armezanada nos rins, danificando-os. Os danos foram reparados, mas o médico que conduziu o procedimento achou estranho que a mulher não tivesse dado por nada, pois trata-se de uma zona "extremamente sensível, cheia de terminações nervosas". Quem sabe o "lapso de memória" ou a invulnerabilidade à dor se devem a mais algumas três mil e poucas noites bem regadas com álcool, tal como naquela em que se "esqueceu" do brinquedo na vulva. E já vos disse que a mulher era escocesa?


"Intolerantes" é apelido


Um homem foi condenado por tribunal iraniano por ter desrespeitado o jejum obrigatório do Ramadão, o mês sagrado da religião islâmica, que termina na próxima segunda-feira. O homem ingeriu alimentos durante o dia, e de nada lhe valeu o facto de ser cristão, e não estar obrigado a cumprir os preceitos da religião oficial do Irão, que como se sabe é uma república islâmica. O castigo é que foi o que se pode considerar entre o absurdo e o desumano; o homem foi levado para uma praça da cidade de Karmanshah, e em frente a uma multidão de centenas de pessoas foram-lhes queimados os lábios com um cigarro aceso. Juntamente com ele foram sentenciados cinco homens muçulmanos, a uma pena de 70 chibatadas. O Conselho Nacional de Resistência do Irão, que se opõe ao governo clerical, chama a atenção para a crescente perseguição levada a cabo contra os 250 mil cristãos no Irão, país com 76 milh­ões de habitantes. Segundo este grupo o ataque a cristãos e outras minorias religiosas têm aumentado tanto em quantidade quanto em crueldade, desde que a comunidade internacional aligeirou as sanções impostas ao regime, como parte de um acordo de não-proliferação de armas nucleares, acordo que ainda segundo o conselho, não tem sido respeitado de todo. Os cristãos são obrigados a atender a cerimónias religiosas islâmicas, impedidos de praticar a sua fé em liberdade, detidos e torturados por "heresia", e as mulheres cristãs são obrigados a trajar de acordo com os preceitos do Islão. A Organização dos Direitos Humanos Sem Fronteiras (HRWF, na sigla inglesa), incluíu o Irão na lista dos cinco países onde mais se pratica a "repressão da liberdade de religião ou crença”. Um dos casos mais mediáticos foi o de Hossein Soodmand, que em 2008 foi condenado à morte e enforcado por se ter recusado a abdicar da fé cristã e seguir o islamismo.


Os anjinhos estão no céu


Tenho visto um pouco por toda a parte nas redes sociais uma certa desculpabilização do Estado de Israel pela agressão que tem levado a cabo na Faixa de Gaza, no âmbito do seu combate ao Hamas. Esta legitimação daquilo que Israel chama de "direito à defesa" é baseada sobretudo em imagens divulgadas pelo Hamas, o grupo que luta contra o estado judaico pela auto-determinação da Palestina, e a retirada de Israel dos territórios ocupados. Essas imagens mostram sobretudo homens, mulheres e crianças mortos ou feridos com gravidade, e exibidos em parada em vez de serem levados onde pudessem receber assistência médica, além de cenários de destruição onde o Hamas alegadamente oculta armas, usando civis como "tampão", e apontando depois o dedo a Israel. Concordo com tudo isto, e não há dúvida que os militares do Hamas são gente sem considerão pela vida humana, e que dispõe da população que alega querer defender, usando-a como peões políticos - além de terem um conceito de propaganda que chega a insultar a inteligência da opinião pública. No entanto reservo o direito de não ilibar Israel de responsabilidades nesta tragédia humanitária, e é uma pura desonestidade intelectual tentar convencer alguém que alguma desta violência é justifica. Reparem no vídeo acima, onde se vê um edifício em Gaza a ser destruído por artilharia israelita. Primeiro é disparado um morteiro de aviso, de modo a permitir a saída de eventuais civis que se encontrem no prédio, e de seguida é disparada a bomba que o destrói - 25 (vinte e cinco) segundos depois! Quer dizer, vinte e cinco segundos? Quem estava lá dentro, o Flash, o Roadrunner e o Speedy Gonzalez? Censuro o Hamas pela forma como coloca em risco os seus cidadãos, apelando depois à simpatia da comunidade internacional e a condenação de Israel, e censuro Israel por achar que isso justifica tudo e mais alguma coisa - duas partes beligerantes, nenhuma delas inocentes. Os anjinhos, a existirem, não será certamente num cenário de guerra.

Portugal soma e segue nos sub-19


Portugal completou a primeira do europeu de sub-19 vencendo a Áustria por 2-1, e garantiu o primeiro lugar do Grupo A, com um total de três vitórias nas três partidas realizadas. Depois de goleadas sobre Israel (3-0) e Hungria (6-1), os austríacos demonstraram ser um adversário à altura, e discutiam a vitória no grupo com os jovens portugueses, a quem bastava apenas um empate. Portugal adiantou-se aos 41 minutos por Tomás Podstawski, um jogador de ascendência russa mas nascido no nosso país, e o intervalo chegaria com os comandados de Hélio Sousa em vantagem. A Áustria voltou do descanso determinada a dar a volta ao resultado, e empatou logo no primeiro lance da etapa complementar, por Florian Grillitsch. O jogo que vinha sendo equilibrado passou a ter sinal mais dos austríacos, mas o guardião André Moreira esteve em grande, assinando um par de grandes defesas. Portugal voltou a equilibrar a partida, e Romário Baldé "decidia" a cinco minutos do fim, disferindo o golpe final nas aspirações austríacas. Na outra partida do grupo a Hungria venceu Israel por 2-1, e garantiu presença no mundial de sub-20, que se realiza no próximo ano na Nova Zelândia. Portugal vai defrontar segunda-feira a Sérvia nas meias-finais, depois dos sérvios terem vencido a Bulgária por 2-0, beneficiando da vitória da Alemanha sobre a Ucrânia por 1-0. Os alemães venceram o grupo B com sete pontos, mais dois que os sérvios e mais três que os ucranianos, que ficam como consolo com o lugar marcado no mundial.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Faites vos jeux



Soa o gongo mais um assalto. Os democratas provocam, o Governo reage, os democratas provocam outra vez, o Governo volta a reagir, e quanto mais os democratas sabem que o Governo reage, mais provocam. A polémica do "referendo informal" que as três associações encabeçadas pelo Novo Macau vai ganhando a intensidade de um "thriller" hitchockiano, com o IACM a negar aos organizadores da consulta a ocupação de qualquer lugar público para realizar a sua promoção. Razão? A mesma de sempre: "é ilegal, vai contra a Lei Básica e a Constituição da R.P. China" - e vão mesmo mais longe, proibindo "quaisquer actividades relacionadas com o referendo". Jason Chao diz que "existe um plano B", e que a iniciativa terá lugar de qualquer jeito, e deu entrada em Tribunal de uma queixa contestando a validade da decisão do IACM, e estes demoraram na devolução dos documentos do pedido, e o democrata acusou-os de tentar pedir que os documentos sejam entregues nos tribunais em tempo útil, "porque têm medo de perder".

Neste braço-de-ferro dá a entender que os democratas levam alguma vantagem, e mesmo os maiores especialistas na área do Direito defendem que não se pode falar em ilegalidade, mesmo com alguns "mas...". Pois é, mas...nada, e deixando transparecer que a principal preocupação não é com a ilegalidade do acto, mas com as possíveis consequências políticas do mesmo, os promotores do "referendo" têm o Executivo entre a espada e a parede, e revelam uma tranquilidade que dá a entender terem a certeza de ter a lei do seu lado. Com este recurso ao terceiro braço do sistema, os orgãos judiciais da RAEM, deixam uma batata quente na mão dos magistrados, que se lhes dão razão fazem o Executivo "perder a face", e caso confirmem a tese da ilegalidade, vão precisar de a fundamentar com argumentos legais que podem nem sequer existir, ou serem passíveis dessa interpretação. E tudo parece indicar no sentido dos democratas não deixarem cair a questão, e recorrerem até onde lhes for permitido.

A persistência na tese da ilegalidade do referendo parece neste momento ser mais uma questão de princípio do que de convicção: foi à que se agarraram no início e nem uma reflexão mais cuidadosa foi posta como possibilidade. Foi não, não, não e não. O jurista António Katchi declarou hoje ao Jornal Tribuna de Macau que não só há nada de ilegal na realização do "referendo", como não é sequer ilegítimo que assim o designem, pois "deixaram claro desde início não se tratar de um referendo oficial". Para o docente do Instituto Politécnico a tentativa de impedir a realização da iniciativa "pode constituir crime de coacção grave", e de facto muito têm os críticos apontado para eventuais "perigos" da realização do acto, mas sem revelar quais, e que consequências poderá isto ter. Tivessem uma base legal sólida que suportasse a ilegalidade do "referendo", e já a teriam usado para inviabilizar à partida - nem a página oficial que os democratas criaram para a sua divulgação ficaria de pé.

E de facto ainda a procissão ia no adro e já Jorge Neto Valente havia deixado claro que a tese da ilegalidade seria estéril, improdutiva e até perigosa. O presidente da Associação dos Advogados demonstrou ser uma pessoa firme de princípios, pois apesar de ser evidente que não aprova a iniciativa dos democratas, manteve a sobriedade e analisou o caso do ponto de visto jurídico, a sua especialidade. De facto a Lei Básica fala "do que é", e não "do que não é". Isto levou a uma discussão sobre a relação entre o não-legal e o ilegal, ou seja, tudo o que não é legal, ou seja, não está previsto ou regulado na lei, não é necessariamente ilegal - e isto abriria um precedente perigoso, e não é preciso ter conhecimentos jurídicos para entender isto: tudo é permitido se não estiver proibido por lei, e os vacatio legis que requeiram a produção de legislação não têm efeitos retroactivos, e neste caso particular não se aplicaria qualquer analogia da lei - pelo menos da lei de Macau, uma vez que é um caso único.

E é aqui que entra a opinião de Gabriel Tong, também ele jurista, mas assumidamente com ligações ao Governo. Mesmo este não reconhece qualquer irregularidade no "referendo", mas deixa no ar uma declaração que pode ser considerada controversa: invocar a Constituição da China é elevar a questão para um outro patamar que vai gerar “grande debate”. Eu diria mais, é chamar a polícia de choque para resolver uma discussão entre vizinhas onde uma deixou cair lixívia para vestido vermelho da outra na hora de pendurar a roupa. A Constituição da R.P. China, pelo menos que eu saiba e sem aprofundar a questão não vigora em Macau, e de acordo com o artº 31º da mesma: "O Estado pode criar regiões administrativas especiais sempre que necessário. Os regimes a instituir nas regiões administrativas especiais deverão ser definidos por lei a decretar pelo Congresso Nacional Popular à luz das condições específicas existentes". As tais "condições específicas existentes" estiveram na génese da própria Lei Básica, no âmbito do "elevado grau de autonomia" garantido pelo Governo Central - e na Constituição da R.P. China também não se encontra uma única vez a palavra "referendo".

O que Gabriel Tong poderia ter sugerido em vez da possibilidade de um "debate alargado" sobre o tema à luz da Constituição chinesa era um debate sobre a própria possibilidade da revisão do método de eleição do Chefe do Executivo. Reparem: possibilidade, não imperatividade ou inevitabilidade. Uma troca de ideias ou a discussão pública de uma possibilidade, ainda para mais prevista na própria Lei Básica, não é meio caminho andado para a sua imposição. Reparem como a produção legislativa do proposto no artº 23 foi uma espécie de desígnio, mas ninguém parece com muita vontade de criar legislação que regule o direito às associações sindicais e à greve, previstos no artº 27. Ainda hoje um colega meu abordou-me sobre o meu artigo de ontem do jornal Hoje Macau, onde não excluo de todo, antes pelo contrário, participar no tal "referendo" e votar no "Não" à pergunta sobre o sufrágio universal. Então porque é que o Governo não encara a possibilidade do feitiço se virar contra o feiticeiro? Que indicações têm de que a população votaria em massa no "Sim", e de que isso seria "crítico"? Medo do quê, afinal?

Ao criar um falso "tabú" em redor deste "referendo" é como estar a esconder um rebuçado de uma criança gulosa, mesmo que esta desconheça se é doce ou amargo. É natural que a curiosidade vá sendo cada vez maior, e que um maior número de residentes procure saber qual a razão deste alarido, e porque tem o Governo tanto receio de esconder algo que afinal não é ilegal - pelo menos até os tribunais se pronunciarem, o próximo capítulo desta saga. Um pai que evita falar com os filhos quando estes têm uma dúvida ou são acometidos de curiosidade arrisca-se a que sejam estranhos a fazê-lo, substituíndo-os no seu papel de pais. Ao assumir a confrontação, tudo indica que mais por teimosia do que por outra coisa, a derrota arrisca-se a ser maior do que simplesmente promover o debate, ou agora que já é tarde, autorizar o "referendo" - e se possível aproveitar o seu resultado para emendar a mão e fazer o que não fez antes. Agora com esta atitude de "fé e força", os dados estão lançados; faites vos jeux, que é como quem diz, façam as vossas apostas.

Figura da semana


Não tenho por hábito nem gosto de dar valor às pessoas apenas no fim do seu percurso, seja de vida, de carreira ou de missão. Detesto aquela mania tão portuguesa de que quando fulano morre "é o maior", e "vai fazer muita falta", mas nos últimos anos da sua vida, no seu último fôlego, é ignorado, esquecido, atirado para um canto e considerado um "fardo". No entanto não posso deixar de deixar aqui uma pequena homenagem na forma deste simbólico "petit je ne sais quoi" que é a "Figura da Semana" - até para que fique pelo menos para memória futura - ao programa da Rádio Macau "Rua das Mariazinhas", que durante quatro anos animou as tardes da lusofonia no território.

Uma palavra de apreço aos dois radialistas que apresentaram o programa, Jorge Vale e Hélder Fernando, que desde 2009 nos trouxeram música, entrevistas, curiosidades e até algum humor, e que agora "fecham" a "rua". A razão oficial é a saída de Hélder Fernando, por ter atingido o limite de idade. Certamente que a opção foi do próprio Hélder, pois a mais-valia que é para a Rádio Macau certamente fariam com a estação lhe propusesse um contrato. Mas é a escolha de vida de cada um, e só me resta agradecer-lhes, e desejar boa sorte. Até sempre!

Vídeo da semana


Como é que ele viu lá isto, se não têm internet?

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Quem se mete com o Afonso, leva


Afonso Carrão Pereira, ribatejano da tribo dos cartaxenses, conhecidos pela sua elevada tolerância ao tintol, a que se habituam antes de aprender a falar, reside em Macau há 30 anos. Não, Macau ganhou o Afonso há 30 anos, assim está bem. Depois de fazer a sua formação na hotelaria, passando pelos iniciados, juvenis e juniores, chegando mesmo a treinar às ordens do mítico Chefe Silva, Afonso iniciou a sua carreira profissional na Rua Central, onde permaneceu 24 anos num espaço conhecido de todos os aficionados da gastronomia lusitana, e onde brindavam (literalmente) às jogadas de fino recorte técnico e sabor inconfundível do mestre. Encantava com meias doses e doses inteiros de coelhos que tirava do tacho, os remates ora com o chispe de coentrada, ora com a perna de vitela, e os únicos frangos que dava eram servidos na púcara. Indiferente à crítica, recebia a mais ilustre clientela, e de sítios longínquos onde a sua fama chegava (Hong Kong, por exemplo) vinham ao estádio Afonso III os amantes do bom garfo, ver com os seus próprios olhos e saborear com a sua própria boca as criações do artista.


Como tenho a sorte de morar perto da Rua Central, não tinha o privilégio de assistir da janela às exibições do astro, mas por um preço ainda mais baixo que o de um bilhete para o futebol, levava a família a assistir aos "slaloms" culinários de Afonso Pereira. Foi numa dessas vezes, há um bom par de meses, que senti algo diferente quando entrei na catedral da comida portuguesa em Macau. O recinto mal iluminado, as bancadas tinham sido retiradas, e o "craque" estava sentado numa mesa ao fundo com o resto da sua equipa - temi uma lesão que comprometesse a carreira do meu ídolo. Perguntei-lhe o que se passava, e contou-me que o estádio tinha sido vendido, e o clube não poderia mais utilizá-lo. Num estado entre o choque e a revolta, preparava para amaldiçoar esses patos-bravos do imobiliário, e lamentar que o grande Afonso não os tivesse apanhado a jeito e os metido no assador, decorados com rodelas de laranja. Ao perceber o olhar triste de um fã de longa data, prometeu que voltaria em breve a encantar as audiências com as suas fintas na cozinha. "Depois digo-te", afirmou com aquela classe própria dos predestinados, a quem título fugiu mas na época seguinte há sempre outra oportunidade.


E de facto assim foi, e na última segunda-feira fiquei a saber através de uma peça no Ponto Final que o grande Afonso se mudou de armas e bagagens para o Café Xina, clube do empresário Pedro Ascensão, que investiu neste reforço com o objectivo de lutar pelo título. E nem foi preciso esperar mais tempo, pois com a fome com que estava, não a de bola mas a outra, fui logo no mesmo dia, comovido com a perspectiva de matar saudades. E ainda por cima numa casa que conheço bem, com uma vizinhança simpática, que se ainda não conhece o Afonso, vai ficar rendido ao seu talento. O perímetro de jogo é sensivelmente mais reduzido, talvez do tamanho do anterior mas sem a bancada superior, e apesar de ainda estar novinho em folha, não tardará muito para que o brilho do Afonso lhe dê o seu ar característico, e voltará a ser a sua "casa", onde é imbatível.


O Afonso ainda se está a adaptar à nova equipa, falta-lhe ainda o "playmaker", uma grelha que lhe faça as assistências para as suas célebres espetadas de vitela e bacalhau à lagareiro, mas já se nota que continua a concretizar o bife à café como mais ninguém, e o café continua a ser a "arma secreta", e não poucas vezes marca o golo da vitória nos descontos. Fiquei aliviado. Nem os defesas carniceiros do imobiliário, que tantos mandaram para o estaleiro com as suas entradas especulativas duras dirigidas aos joelhos e à canelas do pequeno e médio comércio, conseguem deter o "master-chef" do Cartaxo. É quem se mete com o Afonso, leva, e sai bem servido com uma goleada.

Retribuição com lucro


A notícia foi adiantada ontem no Telejornal da TDM, e confirmada hoje na imprensa em português do território, e como num golpe de cintura, o noticiário anunciou esta noite uma mudança de planos. Fiquei atordoado com todo este diz-que-disse, foi-não-foi, não-há-afinal-há. Resumindo, parece que alguém com a mania das espertezas e sem nada de melhor para fazer andou a brincar com a organização do Festival da Lusofonia, uma espécie de "Woodstock" anual para a comunidade lusófona em Macau. Ontem estalou o verniz ao anunciar-se a possibilidade do evento não se realizar este ano, o que não constitui novidade, pois há sempre um ano ou outro onde as queixas quanto às dificuldades em organizar o festival deixam os seus organizadores a pensar se vale mesmo a pena todo o esforço, ainda por cima quando os discursos oficiais apontam para a sua importância, e não se cansam de elogiar a encorajar a iniciativa.

Este ano o IACM anunciou à Associação das Comunidades Lusófonas, que está encarregada e organizar o Festival da Lusofonia, que "as regras iam ser alteradas". Assim a semana da Lusofonia passaria a realizar-se depois do Festival e não antes, como tem acontecido sempre, os convidados musicais do Fórum Macau não seriam autorizados a participar, e o próprio IACM convidaria dois grupos - sem indicar quais - para actuar no palco da Lusofonia. Mais do que uma ingerência, isto mais parece um insulto. O Festival da Lusofonia, a vertente dos comes e bebes e do convívio que tem lugar no Largo do Carmo, na Taipa, só faz sentido como remate da semana dedicada às exposições, conferências e toda essa face mais formal da semana cultural - fecha com chave de ouro, por assim dizer. Os convidados musicais do Fórum Macau, e isto de não estou equivocado, são sobretudo os artistas locais, que não sendo a principal atracção, vão mantendo o local animado com música e exibições de dança, de capoeira, de tudo um pouco. Quanto a essa imposição dos dois grupos escolhidos pelo IACM, nem sei o que dizer. Será que a edilidade da RAEM criou alguma comissão especializada no tema da Lusofonia e não nos disse nada?

Afinal não foi nada. Parece que o IACM e a organização chegaram a um consenso, e o Festival da Lusofonia não está em risco, pelo menos como estava há um dia atrás, o que abriu a porta a todos o tipo de especulação. A primeira coisa que me veio à cabeça, e acredito que outras pessoas que gostam do festival pensaram o mesmo, foi: porquê criar obstáculos a que se realize? O Festival é uma das poucas ocasiões em que Macau mostra as suas qualidades mais originais e únicas, de ponto de encontro de culturas, do oriente e do ocidente, e materializa todas estas valências que de outra forma nunca passa do papel e das boas intenções dos discursos oficiais, que repetem a mesma ladaínha que lhes fica sempre bem, mas que não mobilizam esforços ou meios para que se concretize. Macau foi uma província ultramarina portuguesa até há 15 anos, e esse facto não é uma memória turva de um passado distante. Mesmo os jovens residentes com menos de 20 anos têm plena consciência dessa realidade, e muitos interessam-se em saber mais sobre o assunto - e louvados sejam, pois pobres os que pensam que Macau apareceu por geração espontânea em 20 de Dezembro de 1999.

O Festival realiza-se durante um fim-de-semana por ano, três dias apenas, e com mais intensidade no período da noite, depois do jantar, e não incomoda ninguém. O espaço onde tem lugar é afastado de zonas residenciais, numa área classificada como património, as casas museu, não altera num azulejo que seja a integridade desse património, e não há registo de incidentes graves que levem seja quem for a questionar a sua realização. Se a intenção do IACM foi de mandar uma mensagem no sentido de que o Festival da Lusofonia "incomoda", mexe com certas sensibilidades, e há quem não o aprove por razões patrióticas, de identidade, ou que o seu fim poderá ter um carácter simbólico de confirmação de soberania, foi infeliz. É que este evento nem chama sequer a atenção dos mais distraídos que de passagem dão com uma manifestação cultural que desconhecem, e que os confunde. Nem tive conhecimento de qualquer queixa, quer do IACM, quer de particulares, de que os participantes do festival deixam o local sujo, ou danificam qualquer estrutura pública. Em suma: não chateiam, nem obrigam quem que seja a lá ir. É quase impossível ir lá parar "por acaso".

E quem não se enquadra no grupo da Lusofonia e visita o festival sai dali sempre com uma boa impressão. E nunca seria de outra forma, uma vez que há música, há alegria, há confraternização, e sente-se isso no ar, é quase contagiante. Se os locais que espreitam o festival por curiosidade não parecem sentir-se muito à vontade isso deve-se talvez a um certo choque, por não estarem habituados a tanta descontração e sentirem-se em minoria num ambiente onde existe tanta diversidade. Quem é que não gosta de comer, beber, dançar e rir, rodeado de um "tutti-fruti" cultural com primazia para os climas tropicais, onde as gentes são despidas de preconceito ou limitam as vestes a uma tanga? Quem nasceu, cresceu e sempre viveu num meio onde existe o primado da tradição, são muitos os preconceitos e se ensina a humildade e o respeito pelos costumes, vai pelo menos identificar uma agradável diferença, e não se sente agredido. Os que defendem que Macau "é China, e não Portugal", e acha que este tipo de "reposição de um passado humilhante" não tem aqui lugar, o melhor então é ficar na caminha, e esperar pacientemente para fazer de ovelha na Marcha do Milhão ou algo do género.

O que dá a entender com esta pequena e (felizmente) breve confusão é que existiu um mal-entendido que tomou uma proporção dantesca. Macau só tinha a perder se minasse as intenç­ões dos organizadores de um evento que ainda é dos poucos que vai dotando o território de uma particularidade que o distingue. Pode ser que haja por aí quem pense seria suficiente ter os casinos e em Novembro realizar o Grande Prémio, esse sim, um enfarta-brutos que justifica qualquer despesa que se faça com ele, e onde se aproveita para fazer as habituais "contas de merceeiro", ainda por cima com o aval de uma entidade mundialmente reconhecida como a FIA. Ora aí está um cartaz turístico de excelência, mesmo que o único contributo do território seja o asfalto, pois mesmo a organização deixa uns poucos de cá a brincar às corridas, mas quem trata das coisas sérias são os que vêm de fora. E no fim de contas, ainda bem que isto aconteceu, pois não só o IACM cedeu às condições da Associação das Comunidades Lusófonas, como reveu o seu contributo, em alta. Há males que vêm por bem.



Sorria...está em Auschwitz


Uma jovem turista norte-americana esteve no centro de uma polémica quando no mês passado, durante uma viagem pela Europa, visitou o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Numa decisão um tanto ou quanto precipitada, talvez explicada pelo distanciamente que os americanos têm da História em geral, tirou um "selfie" onde aparece a sorrir, mesmo em frente às camaratas onde eram alojados os prisioneiros. A jovem, identificada apenas pelo nome próprio Breanna, publicou a imagem na rede social Twitter, e não demorou muito até começar a receber mensagens de censura, insultos, e até ameaças. Nas primeiras 24 horas terá recebido cerca de seis mil mensagens a reprovarem a sua conduta - e eu que pensava que os sobreviventes de Auschwitz se contavam pelos dedos, passados 70 anos desde o fim da II Guerra Mundial. Imagino como que o "lobby" judeu terá reagido a isto; devem ter pensado em vestir a pobre rapariga de palestiniana e sentá-la em cima de uma montanha de caixas onde se lia "munições do Hamas" no momento em que uma mira israelita se preparava para dar início a mais um espectáculo de fogos de artifício na Faixa da Gaza.

Primeiro gostava de dizer uma ou duas coisas sobre isto dos "selfies". Portanto, trata-se de apontar a câmara do telemóvel na nossa direcção e tirar uma foto, mais nada. E é isto que chamam "moda", ao ponto de nos últimos meses não se ouvir outra coisa senão "selfies" para aqui, "selfies" para acolá. Desde que inventaram telemóveis com câmara fotográfica, e já lá vão uns bons anos e nem se sonhava ainda com Smartphones, que as pessoas tiram "selfies", só que não tinham um nome especialmente criado para designar essa acção. É simples: alguém compra pela primeira vez um telemóvel com a função de tirar fotografias, e para testar essa função aponta a lente para si mesmo e dispara. Pelo menos foi o que eu fiz, mas se calhar sou "especial", e as outras pessoas aguardaram até encontrarem um bom motivo para experimentar a novidade. Desde que alguém se lembrou de chamar a isto "selfie", toda a gente usa essa expressão a torto e a direito, para mostrar que estão actualizadas, a par do último grito da moda, e que não vivem numa caverna da era do Paleolítico. Esta mania de dar nomes a qualquer parvoíce é a razão porque as grandes multinacionais estão cada vez mais ricas e destroem o planeta, pois basta-lhes lançar uma porcaria qualquer e fazer uma campanha no sentido de que quem não compra é um bardamerdas, e caem todos que nem patinhos.

Mas adiante, a atitude da Breanna parece à primeira vista censurável. Estamos aqui a falar de um local para onde foram mandados milhares de civis inocentes, entre eles mulheres e crianças, e onde além de terem sido gaseados e queimados, alguns deles feitos em sabão, não é motivo de chalaça. E apesar de não se encontrarem ali os restos mortais de ninguém, e o local estar transformado num museu, foi naquele perímetro que esses prisioneiros sofreram uma angústia que só quem passa por ela consegue imaginar. Os engraçadinhos da extrema-direita e outros que pensam que negar o Holocausto é uma forma de demonstrar "firmeza de convicções" falam de boca cheia, desvalorizando o horror por que estas pessoas passaram, por vezes escondidos por detrás do ecrã de um computador, debitando opiniões parvas que mesmo assim podem despertar nos outros sentimentos de raiva e dor, enquanto dão mais uma dentada numa "pizza". Mas não é esse o caso de Breanna. Depois de concluir um período de isolamento sabático de modo a evitar que uma pedra lhe atingisse a boca antes de a poder abrir para se explicar, a jovem conta que no dia em que tirou a fotografia, 20 de Junho, tinha passado um ano desde a morte do seu pai, um investigador e historiador cuja última obra que publicou antes de morrer foi um estudo sobre Auschwitz - a menina sorria porque se estava a lembrar do pai. E agora?

Não pensem que toda a gente que visita este local de má memória do nosso passado recente vai ali com cara de enterro. Para muitos não passa de uma mera atração turística, e para ser sincero ninguém tem a obrigação de se identificar com o sofrimento alheio. Afinal se fosse um lugar "maldito" não faria qualquer sentido estar aberto ao público, e são milhares os que o visitam anualmente, sem precisarem de se submeter ao despiste de qualquer indício de anti-semitismo para entrar. Há famílias inteiras que vão a Auschwitz, tiram fotografias em grupo, todos sorridentes, e a única diferença é que não a publicam no Twitter. E volto a frisar que esse terá sido o único erro de Breanna, a foi apenas um erro de julgamento. Quer dizer, se há saída do campo de concentração existe uma loja de lembranças onde se pode adquirir uma "t-shirt" onde se lê "I survived Auschwitz" (eu sobrevivi Auschwitz), onde está então o sentido de humor? A história existe para que tenhamos referências, para aprendermos com ela, e não para usá-la como arma de arremesso, reavivando-a quando nos convém para molestar aqueles a quem um ou outro acontecimento diz muito pouco, ou nada. Atendendo a que as ameaças e insultos que a jovem recebeu acusavam-na de exibir a sua ignorância, porque não educá-la, em vez de eliminá-la da face da Terra? Assim estão a comportar-se quase como os carrascos de Auschwitz.


Quem não arrisca não petisca, mas às vezes...


Um avião da companhia aérea TransAsia, de Taiwan, aterrou de emergência no aeroporto de Magong, na ilha de Penghu, depois de ter partido de Kaohsiung menos de uma hora antes. O voo doméstico foi condicionado por condições atmosféricas adversas causadas pela passagem de um tufão, e apesar não ser recomendável que se efectuasse, a companhia aérea arriscou, e das 58 pessoas a bordo, incluindo passageiros e tripulação, perderam a vida 51, tendo as restantes ficado feridas - praticamente a mesma coisa do que se tivesse despenhado. O avião aproximou-se da pista 35 minutos antes da hora prevista de chegada, e a queda deu-se a pique, com o aparelho a ficar praticamente destruído. Há uma teoria para os desastres de avião na ilha nacionalista, que há alguns anos eram bastante frequentes; muitos dos pilotos actualmente ao serviço das companhias civis são ex-militares, que durante o tempo que estiveram na força aérea, foram treinados para não ter medo de morrer, e não hesitar caso fosse necessário tentar uma manobra mais perigosa. Mas se este é um factor a ponderar, ninguém explica o porquê do voo ser autorizado quando o tufão obrigava ao seu adiamento. Para estas companhias que se estão nas tintas para questões de segurança e colocam o lucro acima de tudo, sempre com receio da concorrência, se em dez cair um vale sempre a pena arriscar. Qualquer dia os passageiros são enfiados em caixas na posição horizontal, para se poderem acomodar um milhar deles num avião e tornar "lucrativa" a viagem. Mas pronto, o que estou para aqui a dizer, quando a hora é de luto, e devia estar antes a lamentar as vidas humanas que se perderam neste acidente. Afinal a culpa é do tufão, que mandou o avião a pique para cima da pista do aeroporto, onde se estava alguém com dois palmos de testa, certamente ainda se está a interrogar: "quem é o maluco que mandou para aqui esta gente?".

Em má companhia


Esta imagem é datada de 2008, mas pouco importa de quando é, pois entre 2008 e hoje continua a ter o mesmo significado. É possível que este aperto de mão entre Cavaco Silva e Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, presidente da Guiné-Equatorial, se tenha repetido ontem em Díli, na cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que no topo da ordem de trabalhos tinha a inclusão daquele país como membro. Um dos factos que mais estranheza causou foi o da Guiné-Equatorial não ter o português como língua oficial, nem o nosso idioma se fala entre uma parte significativa da população. Os únicos laços históricos com aquele pequeno país da costa oeste africana resumem-se à sua descoberta, pelo navegador Fernando Pó, que deu o seu nome ao diminuto território desabitado localizado entre os Camarões e o Gabão. Portugal cedeu esta posse aos espanhóis no século XVIII, como condição do Tratado de El Pardo, e permaneceu como colónia espanhola até 1968, altura em que declarou a sua independência. Obiang é presidente do país desde 1979 depois de um golpe de estado que destituíu o seu tio, Francis Macias Nguema, e governa com mão-de-ferro aquela que é uma das maiores cleptocracias e narcoestados da História, minado pela corrupção e onde a situação dos direitos humanos é das mais lastimáveis do planeta - do mal o menos, a população é de apenas 650 mil habitantes, mais ou menos a mesma que Macau. Irónico é que Cavaco Silva tenha passado pela Coreia do Sul a caminho desta conferência, e ali tenha afirmado que o governo da Coreia do Norte "viola os direitos humanos". Do pouco que nos é dado a saber sobre o regime dos Kim, podemos arriscar que sim, que a situação quanto ao respeito pelas liberdades individuais, de expressão ou de associação é nulo. Por tudo o que sabe da Guiné-Equatorial, temos a certeza.


O tio de Obiang, Francis Macias Nguema, foi o primeiro presidente da Guiné-Equatorial, após a sua independência da Espanha em 1968. Macias era filho de um curandeiro, falhou três vezes o exame civil de acesso ao um emprego no sector público, mas acabaria por conseguir um lugar de presidente da câmara de uma pequena localidade, devido à sua lealdade ao governo colonial espanhol. Candiatou-se à presidência nas primeiras eleições após a independência, que seriam também as últimas, como candidato de uma plataforma de forte pendor nacionalista, e venceu. Apesar de se dizer marxista, Moscovo nunca quis nada com ele - e estávamos no auge da Guerra Fria. Durante os onze anos que esteve na presidência fez a Revolução Cultural de Mao Zedong parecer uma brincadeira de crianças, e Pol Pot um cordeirinho manso: perseguiu, torturou e matou os intelectuais, e os que sobreviveram partiram para o exílio, e mesmo que ficassem, Macías tinha banido a palavra "intelectuais". Baniu o ensino privado, que considerava "subversivo", e a medicina Ociental, porque "não tinha nada a ver com África". Deu nomes africanizados às cidades, passando a capital Santa Isabel a chamar-se Malabo, inventou títulos honoríficos para si próprio, um deles o de "milagre único", e mudou o seu próprio nome para Masie Nguema Biyogo Ñegue Ndong. Espalhou o terror no seu país, sendo responsável pela morte de um terço da população, promoveu a ortura e as prisões arbitrárias, e para que ninguém fugisse mandou destruir todos os barcos, ilegalizando a pesca, e dinamitou uma estrada que era o único acesso terrestre para fora do país. A comunidade internacional chamava à Guiné-Equatorial "a Dachau de África", tal era a semelhança da sua maior prisão, a Playa Negra, com os campos de concentração nazi. O comportamento tresloucado de Macias era atribuído ao consumo de quantidades copiosas de iboga, um arbusto com propriedades halucinogénicas, mas para as elites que ficavam a cobro da sua loucura tanta fazia, até que no Verão de 1979 começou a ordenar o assassinato de alguns dos seus familiares. Apercebendo-se de que homem já não raciocinava de todo, o seu sobrinho Obiang destituíu-o, organizou um julgamento "à la minuta" e mandou-o executar juntamente com alguns dos seus colaboradores mais próximos, contratando para o efeito os serviços de um pelotão de fuzilamento marroquino.


Obiang subiu ao poder e operou de imediato mudanças, libertou os prisioneiros políticos (os que sobreviveram) e prometeu um estado de direito. O optimismo era elevado, e até o rei Juan Carlos de Espanha e o Papa João Paulo II brindavam à boa nova com uma visita oficial. No entanto foi mais do mesmo, e apesar do menor número de casualidades e de ser menos sádico que o tio, Obiang não mudou nada no que respeita aos direitos humanos, prisões arbitrárias e culto da personalidade. Perpetuou-se no poder através de referendos onde obtinha um "rating" de aprovação na ordem dos 99,9%, e chegou dar-se o absurdo de obter 103% dos votos numa das assembleias. É o líder de um país não-monárquico há mais tempo no poder, depois da morte de Gaddafi há três anos, e termina o seu mandato em 2016, o seu último, de acordo que uma lei que ele próprio idealizou. Contudo diz que "não abandona a presidência", e talvez por isso há quem o considere "pior que Mugabe" no aspecto da eternização do poder. O país ficou sempre à margem dos efeitos das sanções internacionais, pois além de pequeno e pouco populoso, era rico em recursos naturais, e mais rico ficou quando em 1996 descobriu petróleo no seu território, passando a ser conhecido pelo "Kuwait de África". Um progresso comparado com a associação a Dachau, mas as semelhanças com o estado árabe ficavam-se pela dimensão. Com o dinheiro do petróleo aumentou a corrupção, e as multinacionais que se instalaram no país nem se importam de pagar "taxas especiais" impostas por Obiang. O ditador diz que "como a única ex-colónia hispânica em África, a Guiné-Equatorial sente-se culturalmente orfã", daí ao pedido de adesão à CPLP, e nós, ao contrário de qualquer outra comunidade de países que considera Obiang um dos últimos grandes déspotas do mundo, aceitamos.


Mas actualmente com 73 anos, pode ser que a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP seja uma aposta no futuro, e com a eventual saída de cena de Obiang o país poderá registar melhorias no seu horrendo registo. No entanto tudo indica que o sucessor seja o filho favorito do presidente em exercício, Teodoro Nguema Obiang Mangue, aqui na imagem. Este "júnior", actualmente com 44 anos, é conhecido pelo seu estilo de vida opulento. Desempenhou o cargo de Ministro das Florestas e dos Recursos Naturais entre 2009 e 2012, e cobrava 28 dólares por cada tronco que saía do país, de modo a sustentar os seus luxuosos hábitos. Depois de processos em França e nos Estados Unidos por suspeitas de associação criminosa e branqueamento de capitais, foi "promovido" a segundo vice-presidente, um cargo criado especialmente para ele, com o propósito de poder gozar de imunidade diplomática. Tem várias propriedades na Europa e na América, que incluem um "duplex" num bairro de luxo em Paris, e uma mansão em Malibu, com 1400 m2 e piscina com vista para o Oceano Pacífico. . É propeitário de uma editora de música "hip-hop", e uma colecção de carros desportivos e de luxo invejável. Um ex-motorista seu diz que "combinava o carro que usava com a indumentária, saíndo com um Rolls-Royce azul quando usava meias azuis". Se alguém que quiser questionar porquer é que um país que tem um PIB per capita de 24 mil dólares, mais que Portugal, mas três quartos da população vive com menos de um dólar por dia, a mortalidade infantil é de 15%, e a esperança média de vida 50 anos, aqui tem a resposta. Bem-vindos à Lusofonia, amigos. Estão só agora a começar a aprender português? Não faz mal, não tenham pressa que a gente espera.

Kurisutiāno Ronaudo! クリスティアーノ・ロナウド


Cristiano Ronaldo esteve no Japão, e na terça-feira participou num popular concurso televisivo de grande audiência, um dos famosos "game shows", levando os fãs nipónicos ao delírio. O internacional português parece meio perdido, quer pela sequência de acontecimentos, quer pelo facto de não entender uma palavra de japonês, mesmo que tenha usado o seu melhor inglês para se fazer entender. Mas são ossos do ofício, e o mercado japonês não é para se desprezar. Agora estava a pensar: se a Maria Vieira ficou indignada com a participação de Diogo Morgado naquele concurso da SIC, o que vai dizer disto?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Não abandalharás a fé do próximo


Finalmente aconteceu. Depois de anos de deboche, libertinagem e adoração a Lúcifer, fui expulso da casa de Deus. De nada adiantou serrar os chifres, ocultar a cauda, ou investir em calçado especial que não deixasse marcas dos meus cascos de bode - não sou mais bem vindo à Igreja da Sé. Pelo menos é isso que dá a entender o novo aviso colocado à entrada da principal igreja católica do território, que reserva o direito de acesso apenas a católicos. Esta é uma medida ainda mais radical do que a implementada em inícios de Junho, que vedava a entrada a turistas, e que podemos recordar neste artigo que dediquei ao assunto. Não sendo eu um turista, não me senti incluído nesta triagem que a Diocese pretendia fazer quanto ao acesso à igreja, mas sendo não-católico, senti o "toque". Não que um templo cristão seja o tipo de local que me dê vontade de entrar, mas há quem não sendo praticante ou sequer um crente, encontre aqui um local tranquilo onde se pode refugiar e ficar a sós com os seus pensamentos, reflectir, e até quem sabe procurar no cenário ou nas imagens que o rodeiam algum conforto ou inspiração. Qualquer pessoa com dois palmos de testa entende que se a Igreja Católica tem como objectivo trazer a si novos membros, interditar o acesso aos seus locais de culto não é propriamente uma medida eficaz.

Mas apesar da mensagem pouco hospitaleira que o aviso transmite, esta é dirigida a um grupo específico, e não à generalidade dos gentios que procurem orientação no local destinado à prática da fé cristã; continua a ser bem vindo quem vier por bem. Segundo o Padre Luís Sequeira (que eu adoro, e para quem envio desde já um abraço) a ideia aqui é afastar um certo tipo de curiosos, nomeadamente os turistas do continente, que têm aparecido em Macau cada vez em maior número. Esta "horda de invasores", que atravessa a fronteira das Portas do Cerco com mais frequência devido à política dos vistos individuais implementada pelo Governo Central, tem uma certa dificuldade em compreender o conceito de "culto", uma vez que na China existem restrições nesse sentido. Perante uma igreja, que para eles é apenas mais um monumento, ou uma simples atração turística, entram e comportam-se sem respeito por um protocolo que desconhecem de todo. Basta colocarmo-nos na posição deles, e questionar o que pensarão os seguidores do budismo quando na condição de turistas visitamos os seus templos, fotografamos os seus ídolos, e adoptamos um comportamento que podemos até considerar humilde e respeitoso, mas que pode estar repleto de vícios dos quais nem fazemos ideia, e que os praticantes dessa crença podem considerar ofensivos, mas a que se resignam em nome da indústria do turismo, vital para a sua sobrevivência.

Antes que pensem que estou a dar exemplos de choque cultural para justificar o comportamento de alguns turistas que a Igreja prefere manter à distância, deixo bem claro que não é essa a intenção. Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento, cultura ou civilidade entende o que se passa ao seu redor quando entra num ambiente que não lhe é familiar. Caso estes indesejáveis para a Diocese fossem parar ao meio de um desfile de uma escola de samba do Rio de Janeiro em pleno Carnaval, iam perceber facilmente qual o comportamento a adoptar, sendo permitido, a até recomendável, que pulassem, dançassem, cantassem ou berrassem, conforme o que lhes fosse mais conveniente. Posto isto fica difícil de compreender a razão pela qual não conseguem diferenciar um local onde as pessoas que o frequentam estão em plena introspecção, e mais ninguém está a comer, beber, tirar fotografias ou falar alto, que são algumas das condutas de que os crentes os acusam. É possível que após várias aproximações mais suaves, a igreja tenha chegado a um ponto em que as queixas da parte dos seus fiéis os levasse a tomar esta atitude tão radical, onde mal alguém que entra é imediatamente avisado que o local é reservado apenas ao culto, e aos seus seguidores. E por falar em radical, eu próprio estive várias vezes em locais de culto islâmicos, vulgo mesquitas, e foi-me permitido circular em todo o perímetro com excepção da sala reservada à oração - e nem me sinto melindrado, pois esse local consiste apenas de um chão alcatifado e uma parede plana que estará supostamente virada para Meca, cidade sagrada do Islão.

Mas o conteúdo agressivo da mensagem é também explicado pelo Padre Sequeira, que pede desculpa e tudo, justificando-se com um capricho da tradução - só assim os intrusos entendem e deixam os crentes praticar o culto em sossego. Isto leva-me a pensar que um simples "Local de culto, silêncio por favor" e a presença de um segurança que faça cumprir a norma terá sido tentado, mas sem resultados, o que dá a entender que a situação é grave. Deixando de lado o trocismo a que uma situação tão surrealista como esta convida, tenho consciência de que o aviso não se dirige a mim ou a outra pessoa que se saiba comportar numa igreja, mesmo que não pratique a religião. Sou agnóstico mas culturamente apreendi os preceitos cristãos da sociedade em que me inseria, e não rejeitava ou desprezava quem optasse por viver mais ou menos de acordo com essas condutas, em quem as levasse mais a sério - curiosamente aqui o respeito já não era tanto da outra parte, e muitas vezes me apontaram o dedo por não professar uma fé. Portanto nada para mim é estranho, e sei que não me devo comportar numa igreja da mesma forma que noutro local onde me sinta no direito de permanecer e deixar claro que não sou crente. Numa igreja, tal como numa casa que não é minha mas onde fui recebido, comporto-me como um convidado, e vou até onde me é permitido ir.

Claro que me revolta saber que entre os comportamentos censuráveis se incluíam vários que interferiam com o culto alheio. Achei até bizarro quando o Padre Sequeira contou que alguns dos turistas se juntavam na fila dos crentes que iam receber a comunhão, que como se sabe é um privilégio exclusivo de quem é baptizado. Tenho dúvidas quando diz que "consegue distinguir" alguém que é baptizado de alguém que não o é, mas interpreto isto como uma conclusão feita após observar mais atentamente quem não sabe o que está a fazer, ou não demonstra uma percepção do todo que o rodeia. Sei que a mim, por exemplo, não me seria negada a hóstia, mas porque carga d'água havia eu de participar de um ritual associado a algo que não me diz nada? Não aceito sequer que me obriguem a benzer-me quando entro numa igreja, ou que me ponha de rabo para o ar se visito uma mesquita. O meu respeito limita-se a tirar os sapatos quando a ocasião me obriga a tal e não me armar em parvo no local onde os outros praticam a sua religião.

Mas se não sou católico nem professo outra religião, o que estou eu a fazer, entrando assim nas igrejas, mesquitas, pagodes ou templos hindus em vez de deixar em paz as pessoas que acreditam? Pela beleza do local, naturalmente, e é nesse particular que se torna oportuna a opinião do arquitecto Rui Leão, membro do conselho para o património da RAEM. Portanto é dado adquirido que quem não entre numa igreja com o propósito de praticar o culto, pode fazê-lo por interesse artístico. E de facto há locais de culto lindos, que vale a pena visitar, observar e porque não, tirar umas fotografias. E aí é que persiste a minha dúvida: se não estiver a decorrer uma cerimónia religiosa, é-me permitido recolher imagens do local? E gostava de uma resposta oficial, e não de uma mera opinião fundamentada no "respeito" e não-sei-que-mais, pois aí há quem considere isso um ultraje, e há quem não se importe. Mas concluíndo esta longa dissertação, Rui Leão diz "entender" a posição da Diocese de Macau, apesar de achar o texto da mensagem "inadequado" - é caso para dizer "para grandes males, grandes remédios". E aqui o mal está perfeitamente identificado: os turistas do continente, que entram onde muito bem lhes apetece e fazem o que muito bem entendem na via pública, ignorando o facto de ser um espaço público, e muitas vezes que estão de visita, e que a cidade não foi montada à pressa para eles se divertirem, e que vive aqui gente que tem a sua vida, trabalha, e por vezes está com pressa, e nas tintas para se eles estão a procurar o melhor ângulo para tirar um fotografia.

Causa identificada portanto, e a solução? Esta não passa tanto pelo número de visitantes, mas pela capacidade que temos em os receber. Se quem permite que eles venham nesta quantidade, certamente que pensou onde os acomodar, ou em organizá-los de forma a que a vida dos residentes se processe normalmente, de forma paralela a quem nos vem visitar, e por isso gostariamos de ter prazer em os receber. Mas não, e esta modalidade do "todos ao molho e fé em Deus" vai sendo suportada por uma certa franja desses turistas, uma minoria, que procura no território um detergente eficaz para eliminar umas manchas indesejáveis numa certa roupa que trazem, e que se distingue por uns convidativos tons de verde - entendem onde quero chegar, certamente. O património está aqui para ser visto, visitado e apreciado, e só é necessário que se criem as condições para que não surjam episódios infelizes como este da Igreja da Sé. Os turistas vêm a Macau visitar os pontos de interesse, como nós fazemos quando visitamos outro local, e tal como nós não é relevante saber quantos outros turistas vamos lá encontrar - queremos ir na mesma. Mais do que uma interdição aos bárbaros que interferem com o culto, que este aviso sirva para lembrar que este é um dos muitos problemas que há pela frente, e que urge resolver. Ignorá-lo só pode trazer resultados indesejáveis, como aliás tem ficado provado.

Engolir um Jiang



Aqui está mais um "assunto sensível" para a sempre atenta e rigorosa censura chinesa, e na forma de um sapo insuflável, imaginem. O sapo tem para os chineses uma conotação com a prosperidade, com a fortuna, e quem vive por estas bandas já terá visto certamente aquelas representações metálicas do anfíbio com uma sapeca presa na boca. Foi talvez com isto em mente que os responsáveis do parque Yuyuantan em Pequim tenham decorado o lago com um sapo de borracha insuflável com 22 metros de altura - se é prosperidade, quanto mais melhor. Tudo bem, e se olharem para a imagem em cima concordarão que até não é de mau gosto, e não destoa do resto da paisagem. O problema foi quando na internet (sempre a maldita internet, dirão eles) se começaram a fazer comparações com Jiang Zemin, presidente do PC chinês entre 1989 e 2002, e presidente e líder de facto do país entre 1993 e 2003, sucedendo a Deng Xiaoping e iniciando a nova era que impõe um limite de dez anos para cada mandato de um presidente da China. Apesar de ter descido da cadeira do poder há mais de uma década, e dos rumores sobre o seu estado de saúde, Jiang ainda é uma figura influente no partido, mesmo com as notícias que dão conta de alguns dos seus colaboradores mais próximos estarem a ser investigados por suspeitas de corrupção, no âmbito da campanha de "limpeza" iniciada pelo actual presidente Xi Jinping, que assumiu os destinos do país no ano passado.

O sapinho estava muito bem a gozar na plenitude a sua majéstica insulfabilidade no lago pequinense, mas assim que as comparações começaram a ser feitas, entrou a acção a "Grande Muralha", nome dado ao sistema de censura que bloqueia "websites" considerados subversivos, ou apenas incómodos. O facto de não ser mais possível aceder a imagens do sapo de Yuyuantan ou a qualquer história relacionada com ele prova que os critérios dos censores são tudo menos claros, e assentam numa imprevisibilidade que só se pode considerar...imprevisível - é complicado entender o que vai naquelas cabecinhas. Já no ano passado haviam surgido alguns problemas com o célebre patinho de borracha amarelo, uma criação do artista holandês Florentijn Hofman inspirada num clássico boneco de borracha com que os bebés costumam brincar no banho, e que chegou a boiar no Kowloon Harbour, aqui ao lado em Hong Kong. Gente mal intencionada usou o Photoshop para recriar o cenário do herói anónimo que se colocou em frente ao um tanque em 4 de Junho de 1989 na Praça de Tiananmen, uma das imagens icónicas do massacre operado pelo exército de forma a dispersar o movimento estudantil, e a internet chinesa apressou-se a censurar. Para quem considera que o inocente sapo agora tornado polémico não oferece grandes semelhanças a Jiang Zemin, saiba que partilho da mesma opinião, mas não se preocupem, que um responsável do parque já garantiu não existirem planos de o retirar. E no fundo isto abre um precendente perigoso: cada vez que não nos agradar uma imagem, basta associá-la a uma figura pública respeitada, e pode ser que a retirem. Na China pelo menos parece que funciona assim.

Your fault, round eye!


A China pronunciou-se sobre o desastre aéreo da última semana, que vitimou os 298 passageiros a bordo de um voo da Malaysian Airlines que fazia a ligação entre Amesterdão e Kuala Lumpur, e que viria a ser abatido por uma bateria anti-aérea enquanto sobrevoava a Ucrânia. Eu sinceramente penso que aquilo que a China ganhou em "tomates" perdeu em coerência, e quando os "tomates" não vêm acompanhados de coerência, a isso chama-se "lata", e os tomates de lata não são tão frescos como os da horta. Um comunicado da Xinhua critica o "Ocidente" pela interferência na questão da Crimeia, acusando-os de reatar os conflitos depois de já ter sido declarado o cessar-fogo. Aqui por "Ocidente" entende-se tudo o que não seja a China, a Rússia, alguns países árabes, o Irão ou todo o que não esteja alinhado com os Estados Unidos. É um conceito político, não geográfico, e nessa perspectiva até o Japão pode ser considerado "Ocidente".

Ainda segundo a Xinhua, a Rússia "não tinha qualquer interesse em abater o avião", e de facto isto não é difícil de perceber, e não era preciso a Xinhua vir explicar. O problema aqui é que uma vez cometido o erro que provocou uma tragédia que vitimou centenas de inocentes, a Rússia e o seu presidente ainda se dão ao desplante de considerar isto um mal que se podia evitar não fosse a interferência externa na questão da Crimeia - algo que a China reitera. Um pedido de desculpas e uma posição clara na condenação da conduta dos rebeldes era o mínimo que se pedia de Putin. O disparo não foi na direcção do exército ucraniano, foi dirigido a um voo comercial cheio de passageiros que nada tinham a ver com esta questão. Pelo menos o governo holandês tem tido um comportamento à medida das circustâncias, não mudando uma vírgula ao discurso que responsabiliza os verdadeiros culpados da tragédia. Retirando a componente da política de tudo isto, qualquer pessoa com bom senso considera desumano e doentio o comportamento dos autores do atentado, e não esperaria outra coisa dos seus dirigentes que não a condenação incondicional dos rebeldes, pouco importa qual a situação das relações com Moscovo.

A leitura que a China faz deste incidente e do conflito em geral choca com o que tem vindo ser a sua posição em termos de política externa. Estamos aqui a falar de separatistas pró-Rússia num território que é, para todos os efeitos, ucraniano. No passado a China manifestou uma firme oposição a qualquer forma de separatismo, fazendo-o em questões bem longínquas da sua esfera geográfica, casos do Quebeque e da Catalunha. Ficou do lado de Moscovo, mesmo que apenas por uma questão de princípios, na questão da Chechénia, e bateu forte com pé por altura da declaração unilateral de independência do Kosovo. Em mente estavam, como é fácil de perceber, a situação no Tibete e em Xinjiang, ou até de Taiwan, se bem que sem a preocupação de impôr a soberania ao nível territorial. O que teria acontecido caso o avião da Malaysian Airlines tivesse sido abatido por separatistas "uygur" enquanto sobrevoava a província de Xinjiang? A China entenderia isto como um sinal para avançar com força sobre os rebeldes e ainda contaria com o apoio do Ocidente - pelo menos agia, ao contrário do que fez Putin.

Portanto onde não cabe a questão do separatismo, entra a da interferência nos assuntos internos, e condam-se que a participação das democracias ocidentais, quer na procura de uma solução pacífica ou apenas uma mera mediação, quer as sanções impostas após decisões tomadas à revelia de tratados internacionais e que resultem em baixas civis ou catástrofes humanitárias. Não é segredo para ninguém que Pequim admira a postura de Putin; a forma como controla o aparelho de estado, desde a economia à política externa, garantindo uma zona tampão à volta do seu território,a mão-de-ferro com que lida nas questões de segurança interna, de como mantém a oposição domesticada, mantendo uma enorme popularidade e sendo reeleito mandato após mandato, mesmo sujeito às regras de uma democracia normal, e sobretudo dois aspectos que a própria China considera de importância vital, mas onde Putin se tem conseguido exceder: o separatismo e as interferências externas. O presidente russo não negoceia com terroristas, recusa tudo o que considere interferência externa, mesmo em forma ajuda ou de apoio logístico e humano, e não se compromete com qualquer pacto que pense ir contra os interesses do seu país.

Russos e chineses têm uma história quase tão longa quanto os quilómetros de fronteira que os dividem, e apesar de nenhuma destas nações poder dizer que o caminho foi fácil, ambas são hoje potências no quadro geopolítico actual. Uma cooperação entre as duas pode trazer benefícios mútuos, tanto pela identificação de "inimigos" comuns (separatismo, terrorismo, oposição interna, ingerência externa), quer pelo facto de nunca terem entrado directamente em disputas territoriais - talvez porque o expansionismo russo foi sempre na direção da Europa, e a China só se unificou em meados do século XX. A única vez que se encontraram foi exactamente no contexto da implantação da R.P. China, com a antiga URSS a "apadrinhar" mais uma filial do marxismo-leninismo que inaugurou, e mais tarde ficaram de costas voltadas por questões ideológicas - como se a gente acreditasse. Mas se é passível de existir debate sobre qual a foice que melhor corta ou martelo que melhor malha o ferro, onde perseguem um objectivo comum que só tem uma forma de expressão, que é esta: $. E nesse contexto compreende-se que existam dois pesos e duas medidas. Basta olhar para o todo, e de vez em quando ignorar os detalhes.

Os "putos" não dão hipótese


Portugal qualificou-se para o mundial de sub-20 de futebol, competição onde tem pergaminhos, ao garantir ontem à passagem às meias-finais do Europeu de sub-19, que se está a realizar na Hungria. Depois de uma vitória por 3-0 sobre Israel na primeira ronda do Grupo A, Portugal goleou ontem a equipa da casa por 6-1, numa partida em que o avançado André Silva, do FC Porto, apontou quatro golos. A selecção das quinas discute na sexta-feira o primeiro lugar do grupo com a Áustria, que soma também seis pontos, mas basta um empate aos jovens portugueses, devido à vantagem no "goal-average". No Grupo B, Alemanha e Ucrânia também já estão no mundial de juniores, partilhando a liderança com 4 pontos, mais dois que a Sérvia, mas não garantiram ainda um dos dois lugares de acesso ao "final-four". O mundial de Sub-20 realiza-se no próximo ano bem longe, nos antípodas da Nova Zelândia, e as seis vagas da zona da UEFA são decididas no europeu de sub-19, bastanto evitar o último lugar de um dos grupos para marcar presença no mundial. Isto equivale por dizer que a França, campeã em título, não o vai poder revalidar na Nova Zelândia. Espanha e Inglaterra, duas presenças habituais, também não participam desta vez.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Moção 1, opção "B": Não


Nota prévia: este artigo é uma versão (muito) mais alargada daquele que vai sair esta quinta-feira no Hoje Macau.

A Associação do Novo Macau Democrático (ANMD) anunciou ontem que o "referendo informal" que pretendem realizar para saber o que pensa a população de uma eventual eleição do Chefe do Executivo pelo sufrágio directo e universal, na base de uma pessoa, um voto, vai contar com a participação de futuros eleitores. Ou seja, vão poder participar do voto "online" residentes permanentes com mais de 16 anos de idade. Contudo, e para não comprometer o resultado, estes votos serão contados à parte, com uma projecção feita para os residentes com capacidade eleitoral efectiva, com mais de 18 anos, e outra para as "esperanças", os que ainda não estão recenseados, mas podem inscrever-se na Comissão Eleitoral a tempo de poder participar numa hipopética eleição do Chefe do Executivo em 2019. Eu aguardo pacientemente pela realização deste sufrágio e pelos seus resultados, eu que sou um fanático destes "case studies" que qual ventania levantam a saia da sociedade, deixando ver alguns dos seus aspectos mais ocultos. Espero que se realize, sim, e como residente permanente, maior de 16 anos e recenseado, faço intenções de votar, ai não, coração. Ainda não estão decididas as moções que vão constar do boletim, mas é quase garantido que a Moção 1 não ficará muito longe do rascunho já tornado público pelo ANMD: "Deverá o Chefe Executivo da RAEM ser eleito por sufrágio universal em 2019? Opção A: Sim; Opção B: Não; Opção C: Abstenção. Vou adiantando desde já que o meu voto será na opção B: não. Fico feliz por poder expressar o que penso da questão do sufrágio directo, e que sorte que a ANMD me tenha dado essa oportunidade.

Agora estarão alguns a pensar: mas então para quê este barulho todo, se não queres o sufrágio directo para a eleição do Chefe do Executivo? Aí está; eu nunca disse que queria. Aliás gostava, mas não quero. Não nestas condições, com este eleitorado, e sem um único nome onde colocaria a cruz no quadrado à frente do seu nome. Ng Kwok Cheong e a malta do Novo Macau quer, sabemos disso, mas este "referendo" não tem como finalidade apenas mostrar quantos querem além deles - para isso faziam antes um abaixo-assinado, que aliás já fizeram por mais que uma vez - mas qual é a recepção da população a esta ideia. E o facto de se ter feito todo este alarido por nada vem provar que Macau não está preparado para uma iniciativa desta natureza, quanto mais para eleger o Chefe do Executivo através do voto directo. Como não me contento em dizer não apenas "porque não", dando a entender que o actual sistema me serve melhor (o que não é de todo verdade) ou que o método de eleição do CE que vigora é o melhor, penso que devo uma justificação para este "não". E de facto não acho que o actual método seja adequado. É bem pensado, mas não serve para Macau, pois o Colégio Eleitoral que no fim escolhe o único candidato que concorre nem sequer representa condignamente o grosso da população do território. Mas se não quero o sufrágio directo, nem quero o actual método, então quero o quê? Que o CE seja escolhido por meia dúzia e com a benção do Governo Central? Nem por isso, mas não é o que acontece agora? Vamos então analisar ponto por ponto este raciocínio.

Vamos recuar até à primeira eleição para o Chefe do Executivo, corria o ano de 1999. Foi a única vez que tivemos duas candidaturas, e com Edmund Ho concorria ainda Stanley Au Cheong Kit, empresário e presidente do Banco Delta Ásia. Por muito respeito que este último mereça - e não é propriamente um modelo de virtude - o seu papel fez-me lembrar o daquelas equipas de basquetebol desconhecidas que jogam contra os Haarlem Globetrotters, durante as suas exibições de malabarismos. Era importante que houvesse uma corrida a dois, quer para testar a eficácia do método, quer para lhe conferir alguma credibilidade, mas nunca subsistiram dúvidas de que Edmund Ho sairia vencedor. Mesmo a campanha e os debates entre ambos pautaram-se pela tranquilidade, sem ataques de parte a parte (normal em política "a doer"), e com Au a mostrar um carácter mais extrovertido, ao contrário de Ho, que primava pela placidez que se exigia na circunstância, com vista à construção de uma "sociedade harmoniosa".

Edmund Ho seria reeleito em 2005, e pela única vez não terá havido uma voz dissonante quanto ao seu excelente desempenho durante o primeiro mandato, ao ponto de se sugerir que se abrisse a porta para um terceiro, tal era o seu ratio de aprovação. Frequentemente elogiado pelo Governo Central, soube lidar com a crise da Pneumonia Atípica (SRAS), resolveu o dossiê da liberalização do jogo, e colhia a simpatia da generalidade da população - até se entende que mais ninguém tenha avançado com uma candidatura. Depois deu-se a falência do método, com Chui Sai On a concorrer sozinho para a sucessão de Edmund Ho, e de novo agora para um segundo mandato, quando a situação justificava uma alternativa, uma voz dissonante, nem que fosse apenas para o Chefe do Executivo ser obrigado a justificar-se, e a compromoter-se no sentido de melhorar o seu desempenho. Fica-se com a sensação que um putativo segundo candidato nunca iria concorrer por si, mas contra Chui Sai On, e portanto contra o sistema, e ninguém se atreve. Se em tempos ia fazia passar uma mensagem de unidade e confiança, agora deixa o CE numa posição embaraçosa. O tal Colégio Eleitoral, cuja composição é pouco representativa da generalidade da população e os seus membros selecionados de forma pouco transparente, vota no único candidato não como manifestação do seu apoio ou da sua aprovação, mas com receio de que votar em branco dê a entender que se está do lado dos críticos. Quem quiser expressar essa opinião precisa de uma base sólida que evite o seu "suicídio político", e aqui estou-me a referir, é lógico, ao deputado Pereira Coutinho - se bem que entendo a sua participação neste colégio um erro, pois renunciar teria mais impacto do que se abster. (A propósito ele hoje fez anos, parabéns para ele).

Perante a flacidez deste método e o desinteresse da opinião pública, acena-se com uma alternativa: o sufrágio directo e universal, com cada residente permanente com capacidade eleitoral a votar na escolha do Chefe do Executivo. Isto não é novo, pois já temos os residentes a votar de quatro em quatro anos para a eleição de uma pequena parte da composição da Assembleia Legislativa - e isto é o que me preocupa. Não há eleição em que no fim fiquemos com a sensação que a maioria do eleitorado votou em consciência e na lista que melhor acha que serve os interesses de Macau. Votaram na lista que melhor serve os seus interesses, isso sim, e caso não se sintam representados por nenhuma delas, não se inibem de vender o seu voto em troca de um "lai-si", um brinde ou uma jantarada. A indiferença de uma boa parte da população pelas coisas da política não é novidade, e tem uma explicação simples. Primeiro impingiram-lhes a ideia de que a política "é uma coisa suja" (um facto, nada a apontar), e que pouco importa em quem vão votar, pois nas questões essenciais a última palavra pertence sempre a Pequim. Sendo assim, porque não obter uma gratificação imediata, do que ficar à espera do dia de S. Nunca à tarde, quando finalmente uma medida qualquer tenha qualquer impacto nas suas vidas?

Tudo bem, isto pode parecer um golpe baixo, garantir o voto de quem não tem opinião formada em troca de um jantar ou de 500 patacas, mas porque é que estes eleitores não são mais espertos que o espertalhão, aceitam os seus mimos e depois na hora de votar põem a cruz onde lhes apetecer? - afinal o voto é secreto. Aí é que está o busilis da questão, e permitam-me ilustrar com um exemplo: uma associação tem nove membros, e dois deles concorrem à presidência, bastando portanto a um deles cinco votos para obter a maioria e ganhar as eleições. Um dos candidatos consegue convencer quatro outros associados a lhe darem o seu apoio, e com o seu próprio voto, isto é suficiente para garantir a eleição. Na hora da verdade, este candidato tem apenas um voto - o seu, lógico - e tem toda a legitimidade para acusar os que diziam apoiá-lo de "traidores", e estes não têm outra opção senão ficar de cabeça baixa a engolir os desabafos. Mas caso tenha dois votos, é-lhe impossível saber quem foram os três putativos apoiantes que mudaram de ideias. Se os quatro garantirem a pés juntos que votaram nele, não tem qualquer forma de saber quem está a dizer a verdade. Em Macau não é assim, pois não sei que tipo de hipnose ou bruxaria foi aqui utilizada, mas muitos dos eleitores que se comprometem com uma das listas, ora porque foram pagos ou lhes foram exercidas pressões, julga que existem meios para que se saiba se cumpriu com o combinado. Não me perguntem porquê, já gastei muita saliva a explicar que não há forma, nem aritmética nem outra qualquer para se saber em quem alguém votou realmente, mas os apologistas desta estranha teoria juram-me a pés juntos que "sim, que há maneiras de saber". Seja como for, enquanto este regabofe persistir, para mim não há condições para sufrágio directo nenhum. Livra!

Mas pronto, para o bem da restante argumentação, digamos que se avançava na mesma com o sufrágio directo, e já em 2019. Agora, em quem ia votar a população de Macau para seu líder? Partimos do prncípio que Pequim não interferia com a escolha dos candidatos, e que no fim era dado aos eleitores a escolher entre dois: um com um programa político, outro com dinheiro - em quem é que as pessoas de Macau votavam? Exacto, penso que não e necessário que eu diga o que toda a gente já está cansada de saber. Não é por maldade ou por ganância, mas mais por ignorância que a mentalidade vigente olha para alguém rico e poderoso como um caso de sucesso, e que deseja partilhar o segredo desse sucesso com a população, caso esta lhe confie a governação. Numa outra perspectiva, esta mais científica, eleger um empresário "é bom para a economia, pois estimula-a", e a economia é o suporte de todo o resto. Pode ser que um empresário rico conheça os caminhos que levam a fortuna, mas também pode ser que esses caminhos sejam ínvios, e que os tenha feito de mão dada com corruptos e elementos ligados ao submundo do crime organizado. É uma ingenuidade pensar-se que alguém rico acorda um dia e diz: "Já sou rico quanto basta. Agora vou-me dedicar a servir a sociedade, retribuindo pelo tanto que ela me ajudou a ganhar". Dá vontade de rir, não dá? Pior ainda se na sua equipa estão outros do mesmo calibre ou piores, e ainda mais ambiciosos. Não digo que isto vá acontecer com toda a certeza, mas o risco é demasiado elevado para se apostar com confiança.

Fazendo ainda outro exercício, este mais concreto: quem estaria interessado em concorrer caso houvesse sufrágio directo para a eleição do proximo CE? Atendendo que é a população quem decide, existe uma forte probabilidade de aparecer alguém que tenha obtido um bom resultado nas eleições para a AL. É preciso não esquecer que vamos ter outras em 2017, mas das últimas o grande vencedor foi sem dúvida Chan Meng Kam, que obteve o maior número de votos e conseguiu três mandatos para a sua lista, um feito inédito. Já se tinha avançado com a possibilidade do patrão da Golden Dragon avançar com uma candidatura para o principal cargo da RAEM num futuro próximo, independentemente do método da eleição. E de facto temos aqui um caso sério; um empresário e "self-made man" que passou de "surpresa" nas eleições de 2005 a figura carismática, tendo realizado uma campanha mais abrangente no último sufrágio, chegando a um eleitorado mais vasto que o seu, que como se sabe é o da comunidade originária de Fujian. E é exactamente aí que reside o senão; terá este candidato o perfil para CE, e conseguirá demarcar-se da componente regional da sua plataforma eleitoral? Será sensato optar por um candidato com fortes ligações ao jogo, quando a diversificação da economia é (ou devia ser) uma das prioridades? E já nos esquecemos aquando da sua primeira eleição para a AL, que recaíram suspeitas de corrupção eleitoral sobre elementos da sua lista, e na altura recusou colaborar nas investigações escudando-se na imunidade como deputado? Tudo factores a ponderar numa decisão desta importância.

Portanto quem seria o candidato ideal? Teria que ser alguém com conhecimentos sobre a realidade do território, de preferência nascido em Macau, com uma retórica convincente mas não demasiado inflamada, que apresentasse soluções, tivesse participação directa na resolução dos problemas de fundo, que escutasse a população e analisasse cada caso atendendo aos diversos pontos de vista, e que tivesse capacidade negocial para lidar com o Governo Central, e garantir que este o apoiava e reiterava a autonomia parcial da RAEM. Agora, dificilmente se encontra alguém com todas estas valências à face do planeta, e em Macau o seu avô ainda está para nascer. E os democratas? Se insistem tanto é porque talvez queiram apresentar eles também um nome. Que nada, pois nem seria possível ambicionar a um candidato que no caso de ser eleito não se poderia sentar à mesma mesa do Governo Central para tratar das questões de Macau. Eles sabe bem disso, e aqui ao avançar com o "referendo", estão a fazer o seu papel, e infelizmente estão-se a substituir ao próprio Executivo nessa função. É preciso ter vistas muito curtas para não entender que apesar de ser improvável que se avance com uma calendarização para o sufrágio directo, este é um tema que nunca pode ser tratado como tabu. Basta olhar para o barril de pólvora que se tornou Hong Kong para ler os sinais: discutir o tema não significa necessariamente considerar a hipótese de levar a ideia para a frente. Cansados de tanta indiferença, os democratas foram em frente com uma medida que pode ser entendida como radical, mas nunca como "ilegal", ao contrário do que alguns sugerem. É um facto que o actual método de eleição do CE consta da Lei Básica, e que não se fala de sufrágio directo, mas também não menos verdade que se deixa uma porta aberta à alteração dos moldes actuais, e mais uma vez remeto para o nº 7 do Anexo I da mesma Lei Básica.

As razões que me levam a votar no "não", caso o "referendo" se realize mesmo, não significam que reprove a iniciativa dos democratas - acho interessante, e só não a louvo porque não é conquistada pacificamente, e assim perde-se um pouco da sua pertinência e utilidade. Nem estou sequer a dar uma mãozinha aos que se opõem, vociferando quase como uns loucos, e estes para mim arruinaram uma boa oportunidade de se discutir um tema oportuno no seio da sociedade civil (na edição do Hoje Macau de hoje vem uma entrevista com um académico onde este diz que em Macau "não existe sociedade civil"; esta seria uma boa oportunidade para lançar as bases no sentido de construir uma). Não me considero o dono da verdade, mas tenho a certeza que algumas das razões que apresento para votar "não" são por demais reconhecidas pelos governantes, e mesmo que seja apenas porque "lhes dá jeito", concordam com elas no essencial. Então porque não apresentar as desvantagens da realização do sufrágio directo, em vez de atirar areia para os olhos da opinião pública com uma interpretação falaciosa da Lei Básica? Teriam feito um melhor serviço ao informar o eleitorado dos seus eventuais riscos, explicar o porquê do método actual não atribuir uma maior importância à opinião dos eleitores, e já agora procurar uma via para que estes se aproximem mais das tomadas de decisão, que participem da coisa pública.

Se me pedissem uma opinião sobre o que fazer depois do "referendo" que tanto os incomoda, fosse eu o "guru" que tanta falta tem feito ao Executivo, que dá a entender estar completamente à deriva, eu diria que pegassem nos resultados e os analisassem, discutissem, tirassem as devidas ilações - fossem eles quais fossem. Dar início a uma guerra sem quartel contra os promotores da iniciativa, acusando-os de ilegalidades que querem tirar como coelhos da cartola, ou chamando-os de traidores e anti-patrióticos já não resulta, lamento muito. Apelar ao amor pela Pátria só surte efeito quando também se encaram os novos desafios que a Pátria tem que enfrentar, e não esquecer que estamos inseridos num mundo globalizado, onde tapar os olhos de quem está a olhar para um elefante não faz o elefante ir embora; antes deixa a pessoa a questionar o que há naquele elefante que não querem que ela veja. Se Chui Sai On tem pela frente mais cinco anos de mandato, seja qual for o desfecho desta polémica do "referendo" dos democratas, não perde nada em dialogar, em debater os prós e contras, em tentar fazer a população perceber o essencial: sabem o que estão a pedir, e estão preparados para as eventuais consequências? Eu vou responder que "não". Mas isto é o que eu penso, e não é prato do dia. E vocês, preferem continuar a discutir futilidades ou andar com isto para a frente?