segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Só se morre uma vez


Uma das impressões com que se fica quando se volta da China é aquilo a que ontem chamei "um saudável desprezo pela vida humana", e que hoje gostava de desenvolver. Já tinha falado no Hoje Macau, no artigo Desumanização, de Outubro de 2013, de uma certa indiferença pelo outro, de uma frieza perante a desgraça alheia que nos aflige a nós, ocidentais, que temos na assistência ao próximo um valor que consideramos essencial na escala humanista, indispensável se nos quisermos considerar minimamente "humanos". No tal artigo mencionei as reticências que alguns cidadãos na China têm na hora de ajudar alguém em perigo, ferido ou visivelmente a necessitar de assistência urgente. Mencionei também que isto se deve muitas vezes ao facto de algumas dessas "vítimas" serem gente sem escrúpulos, planeando extorquir o amável benemérito, acusando-o de ser responsável por algum dano físico ou material de que tenha incorrido na altura do seu "acidente". A desconfiança a que levou esta mesquinhez chega ao ponto de fazer com que as pessoas hesitem em chamar as autoridades caso encontrem um cadáver na rua, pois temem ser acusados de lhe ter causado a morte - nunca se sabe. Para ajudar à festa, a própria emergência médica chega a recusar transportar um ferido sem que este ou alguém pague as despesas hospitalares antecipadamente. Soa um bocado a um filme de terror, do tipo "The Invasion of the Body Snatchers", mas é a realidade.

Não quer isto dizer que os chineses são um povo sádico, dotados de uma frieza que os faz bocejar caso estejam a assistir a uma violação seguida de desmembramento e completa com um acto de canibalismo, nada disso. Tal como toda a gente, choram os seus mortos, sentem a perda de alguém que lhes é próximo, sofrem quando os pais sofrem, querem o melhor para os filhos, temem se os irmãos ou os amigos correm perigo, e sentem saudade, também. A única coisa que lhes falta conquistar é a solidariedade, o amor ao próximo, desinteressado e com o fim de fazer o bem sem olhar a quem. Faltam noções que mais do que características dos Ocidentais são comuns à espécie humana, mas apenas precisam de ser estimuladas, soltas das muralhas do orgulho. Têm a noção de crueldade, e são capazes de se afastar ou demonstrar repúdio se vêem alguém na rua a maltratar um animal ou uma criança, mas não são capazes de interferir, censurar o autor dos maus-tratos ou sequer chamar as autoridades. Se lhes perguntamos porque não, respondem "porque não é nada comigo", e até são capazes dizer isto com uma expressão de firmeza que nos leva a entender que são uns palermas, mas para os seus, foi uma atitude inteligente, e a única a tomar neste caso.

Esta interpretação alternativa do respeito pelos limites do espaço de cada um são uma das coisas que nos fazem confusão a nós ocidentais. Talvez por isso quando viajamos na China nos seja permitida uma certa ousadia que caso os locais observassem num compatriota seu, imediatemente assumiriam tratar-se de um acesso de loucura. Isto é comum a todos os chineses, não apenas os do continente; em Macau não é normal que um homem abra a porta a uma senhora que não conhece, a não ser que ela venha atrás de si e deixe-a entrar primeiro. Ajudar uma senhora, especialmente uma idosa, a carregar as compras é aceitável se for feito por um vizinho ou um conhecido, mas impensável se a gentileza partir de um estranho. Uma jovem minimanente atraente que caia estatelada no meio do passeio prefere lá ficar do que ser ajudada a levantar-se por um desconhecido, especialmente se for um estrangeiro. O contacto físico entre pessoas do mesmo sexo, mesmo que se conheçam mal, é tolerado, mas se um homem tocar numa mulher com quem não tem uma relação íntima reconhecida e assumida, é considerado um "prevertido" - com alguma sorte passa por "brincalhão", dependendo do caso. Claro que para os familiares abre-se uma excepção, mas mesmo aqui há limites; entre primos, nem pensar, e não fica nada bem a um pai manifestar fisicamente a sua afeição por uma filha.

Isto levou-nos a ter problemas durante a nossa vivência de quatro séculos por estas paragens do sul da China, nomeadamente com a questão dos beijinhos, a forma como habitualmente os homens e as mulheres, mesmo sem relação um com ou outro, se cumprimentam em Portugal e outras paragens mais "quentes" do Ocidente. Na China continental, onde o contacto com outras culturas é escasso, o "beijinho" seria entendido como uma tentativa de violação - passo o eventual exagero - mas aqui em Macau os locais até se habituaram, e alguns acham graça e aderem ao que consideram "um costume importado". Os que não gostam mas não querem passar por deselegantes ou pouco sofisticados usam o pretexto da higiene: "é uma coisa suja". Por acaso estes preceitos higiénicos levam a situações curiosas; eu próprio tenho um hábito, terrível, admito, que herdei da minha avó paterna: molhar o dedo com a língua para virar folhas de papel, especialmente se estiver a contá-las. Vou já deixar claro que não acontece sempre, depende do papel, e nunca faço isto com notas de dinheiro. Alguns colegas dizem-me que este hábito "é sujo", mas estes são os mesmos que às vezes lavam a boca com a água que bebem, cortam as unhas no escritório durante uma pausa do trabalho, e por vezes se estão mais absortos em algum pensamento "pescam" um burrié do nariz. Conheço um que cava cera dos ouvidos e come.

Mas a isto a gente até se vai habituando, mas o mais difícil mesmo é a adaptação a certas formas de entender as relações humanas, profissionais e a própria vida em sociedade. Fico por vezes abismado com a passividade que demonstram perante as injustiças, e em contrapartida a rigidez com que seguem certas directivas, ou normas que não têm qualquer valor prático (por vezes até atrapalham). Há casos em que insistem em cumprir uma lei quando talvez contorná-la fosse mais indicado, e outros em que se expõe ao risco ignorando o cumprimento de outras, apenas "porque toda a gente faz", ou "fulano disse-lhe que era assim" (normalmente um superior ou alguém de indiscutível autoridade). No primeiro caso dizem com orgulho e um ar sério que estão a "cumprir escrupulosamente a lei", no outro chamam-lhe "flexibilidade", que até soa a algo assim de muito moderno e progressista, e fazem-no com uma descontração de como quem nos diz que estão a "ter iniciativa", e que nós "não queremos progredir". Se no fim se lixam, ninguém foi, ninguém viu, ninguém soube. Paciência, melhor sorte da próxima vez, se houver uma próxima vez. Pode parecer um lugar comum, mas quem acerta 99 vezes e erra uma é lembrado pela vez que errou, mesmo que não tinha sido grave. Isto leva a que tenham medo de errar, naturalmente, e de assumir qualquer responsabilidade que não seja estritamente do seu âmbito. Se têm dúvidas numa resposta a dar ao público e pedem-me para os esclarecer, faço-o sempre com muito gosto, claro. De seguida viram-se para o utente e respondem começando com: "o meu colega disse que...". Acho isto engraçado. Quer dizer, "engraçado".

Nas relações de trabalho vigora um sistema hierárquico palaciano que é aceite como "normal", e para quem tira benefícios disso, é o sistema mais indicado, enquanto os "outros" comem e calam - e é muito difícil ficar numa posição de neutralidade. Aqui dizer que se tem dois pesos e duas medidas é o mesmo que dizer que se come com a boca e se anda com os pés; cada um trata o outro conforme a relação de confiança que tem com ele, e são capazes de suportar calados toda e qualquer humilhação vinda de cima. Se chegam um dia ao mesmo nível o agressor inibe-se e o outrora agredido mantém com ele uma relação de harmonia, apenas até ao dia em que fica por cima, e aí vinga-se com juros. E isto é aceite com uma naturalidade assustadora. Quem sabe que ficará sempre por baixo de outrém, faz o possível para não o irritar, andando em bicos de pés se for possível. Nem é preciso dizer que existe a cultura do "yes man", e que outra podia existir, se as chefias não vêem com bons olhos o incumprimento rigoroso das suas directivas, o que imediatamente olham como sendo "rebeldia", sem querer saber os porquês? Discordar também é perigoso, e mesmo uma sugestão convém ser dada com muita diplomacia. Começar com "eu penso que..." é desastroso, e eu próprio (e cada vez mais me estou nas tintas) opto por um "posso dar uma opinião/sugestão?". Numa sala cheia de subordinados, um chefe pode propôr o maior disparate que com toda a certeza trará prejuízo à empresa e aos seus funcionários, que dificilmente alguém abre a boca, ou faz sequer uma careta.

Assisti a um caso em que certa pessoa ficou como suplente num concurso para progressão na carreira, e alguns meses depois, ainda dentro do prazo de validade desse concurso, um colega seu morreu, deixando aberta a tão aguardada vaga. O que fez esta pessoa ao saber do infortúnio do outro? Festejou com os amigos a sua promoção! Passou o dia inteiro a sorrir, a telefonar a familiares e conhecidos relatando o sucedido com toda naturalidade do mundo. Claro que não há nada de ilegal aqui, e os mais pragmáticos podem até explicar isto pelo facto de ambos não se conhecerem bem, ou não terem trabalhado muito tempo juntos. Só que para mim isto é a mais pura das filhas-da-putice. Lógico que eu não renunciaria à promoção, até porque o segundo suplente não se faria rogado e agarrava logo o lugar. Talvez esteja a ser pacóvio ou simplório, ou quem sabe inocente, mas eu optaria pela discrição, atendendo a que desgraça alheia foi a razão da minha promoção, e não o mérito próprio por inteiro. Tive uma ajudinha das forças do mal, que não pedi, e o melhor mesmo é não pensar muito nisso e demonstrar que pelo menos sou merecedor daquilo que o azar de outro me reservou de bom. Ao festejar tornava-me suspeito de um pacto com Lúcifer, e o preço a pagar seria alto.

Tenho uma teoria para estas diferenças de comportamento: na China nunca houve uma tradição cristã, ou seja, nunca se incutiram certos valores como a compaixão, o perdão, a misericórdia, o auxílio mútuo, o voluntarismo, e tantos que associamos normalmente à moral e aos ensinamentos da doutrina cristã. Posso não ser católico, ou sequer religioso, mas tiro da religião aquilo que considero válido, e que posso usar para mim, no meu dia-a-dia, e nas relações com os outros, pois cresci rodeado destas valências. A moral para os chineses resume-se à tradição, à honra, e o núcleo mais duro é o da família, que não trocariam por nada, nem que fossem do piorio. A compaixão é muitas vezes entendida como um sinal de fraqueza, e a misericórdia e o auxílio eles deixam a cargo das instituições competentes; quando olhamos para um indivíduo sem uma perna e sem um braço ou uma mulher com um bebé ao colo que pedem esmola, é apenas isso que vemos, mas eles visualizam o esquema lucrativo engendrado pelos patifes que exploram essas pessoas. Nós acreditamos na reabilitação, de que é possível mudar alguém para melhor, enquanto para eles quem roubou uma vez, e não importa o motivo, será sempre "um ladrão". Pode-nos chocar que torturem, esfolem, assem e comam um cão, que entendemos como um companheiro, ou um animal doméstico. Se a sua atitude para nós é reprovável, para eles o nosso julgamento causa estranheza: pode ser que ali vejamos um amigo de quatro patas, e eles vêem apenas comida, mesmo que este aspecto esteja gradualmente a mudar para melhor.

Para um povo que esteve cinco milénios constantemente em guerra, passou por fome, invasões, agressões externas, tragédias naturais da dimensão do grande país que são, submissão a potências estrangeiras, à corrupção dos seus costumes, à miséria do seu povo, ora por raz­ões externas, ora às mãos de um regime feudalista que perdurou até bem dentro do século XX, o actual regime pode ser autoritário, totalitarista, inflexível e por vezes até cruel, mas a história ensinou-os que a sua civilização não se coaduna com certos princípios de que nós nunca em situação alguma iriamos abdicar. Os chineses que valorizam a Pátria, a sua bandeira e o hino, que vibram com as vitórias dos seus ginastas ou dos mergulhadores nas competições de saltos para a água nos jogos olímpicos, e que se colocam sempre do lado do seu país e dos seus dirigentes, mesmo quando isso não faz sentido para nós, estão gratos pela paz e estabilidade que o partido único lhes vai garantido, mesmo que tenha por vezes que impôr a ordem e prevenir a sedição com recurso ao uso da força. É um misto de pai tirano e uma versão muito oriental de "pax romana", onde a filosofia confucionista da "obediência sem reservas" assenta que nem uma luva - mesmo que o partido não seja muito dado a outra retórica que não a sua. Será que lhes devemos impingir o nosso estilo ocidental de democracia, com eleições e tudo mais? Será mesmo que eles não anseiam por democracia apenas porque são oprimidos e silenciados, ou devemos considerar por um instante que não estão interessados? Se vamos tentar impôr em vez de propôr, o mais natural é que o outro lado imponha com mais força, e resista ainda com mais determinação.

Os chineses não são "maus", como algumas pessoas julgam, especialmente os que não tiveram contacto com esta civilização ou conhecem-na mal, ou apenas o que se sabe através dos media, da forma como os direitos humanos são aplicados, ou neste caso não são aplicados na China. Aplicar aquilo que entendemos por direitos humanos ou civis em "strictum sensum" na China é estar a querer encaixar um triângulo numa forma ciruclar - aqui é uma cultura que mesmo fazendo todo o esforço possível para entendê-la, nunca vamos entendê-la por completo. Podemos exigir-lhes que se tentem equiparar a nós se quiserem usufruír das coisas que nós temos e eles também gostam, ou se nos quiserem honrar com a sua visita, e em contrapartida devemos fazer um esforço no mesmo sentido, mesmo que isto implique renunciar a alguns dos "nossos valores". Posso ficar um pouco sobressaltado quando ando na rua e de repente um carro ou um motociclo resolve cortar caminho através do passeio, ou considerar negligente que se transportem cinco ou seis pessoas numa moto, entre elas crianças, mas tudo bem, é assim, e resta-me exercer cautelas redobradas. É que atendendo a algumas especificidades que referi acima nesta longa dissertação, a vida pode ter um valor relativo num país onde tantas são obrigadas a ficar unidas. Se valorizamos a nossa vida, porque só se vive uma vez, quem sabe se eles optaram por fatalismo positivista: "só se morre uma vez, e depois acabou". E assim cada um entende da maneira que quiser - ou o copo está meio cheio, ou meio vazio.

Depilações


- E hoje regressado de umas longas férias, temos Leocardo, com a sua habitual coluna de opinião. Boa noite Leocardo, seu momo inconsequente.

- Boa noite Rita Palha-Ribeiro Telles, é uma prazer estar aqui, onde há ar-condicionado, mas falando das férias, estas estavam-me a saber bem. Mas enfim, teria que regressar de qualquer jeito. Noblésse oblige...

- Santinho. O que tem dizer então sobre o BES?

- O quem?

- O BES, o Banco Espírito Santo?

- Amen.

- Não...oiça, acha que a sua dependência de Macau, o Banco do Oriente, vai ser afectado de algum jeito?

- Ah isso. Pois, eu não tenho conta lá. Bem, eles já disseram que não tinham activos tóxicos aqui na RAEM, e não são propriamente um banco normal, senão já tinha sido notícia, com os velhotes a fazer fila desde as quatro da matina para retirar as suas poupanças.

- De facto. E Raymond Tam?

- Olha, Rita Palha-Ribeiro Telles, eu acho que ele mereceu o Oscar, mas temos que reconhecer que a concorrênica era fraca. O Gene Hackman...o Tom Hanks ainda inexperiente, e...

- Não estou a falar desse Raymond. Queria dizer Raymond Tam, ex-presidente do IACM.

- Oh está bem, está bem. Isso foi outra vez o "timing", Rita. O maldito "timing". Da próxima vez têm que combinar melhor as coisas antes que o Ministério Público vá acusar o homem de qualquer coisa, e depois na sentença dizer que não foi nada. É preciso algum entrosamento, francamente!

- Vendo bem...e o referendo?

- Olha Rita Palha-Ribeiro Telles, eu estive fora de férias, e levei comigo as minhas já célebres acutilância e perspicácia. Estivesse eu cá e dizia ao Governo para ignorar esses auto-intitulados democratas mais ao seu auto-intitulado referendo sobre o auto-intitulado sufrágio universal.

- Mas não estavas, Leocardo. E agora, o impacto político.

- Qual impacto político? Aquilo não é nada; os miúdos vão para ali, não há ninguém a fiscalizar aquela tropa-fandanga, depois metem para lá cupões da Caritas, daqueles que a gente paga 10 patacas cada e a gente pensa que fica habilitado a um sorteio mas depois aquilo não serve para limpar, quer dizer, hmmm...e metem folhetos de "call girls" daqueles que se apanham no chão no NAPE, pacotes vazios de Lay's, e depois contam aquilo tudo como "sim" e no fim vão dizer que 110 % da população quer o sufrágio directo para a eleição do Chefe do Executivo. Enfim...

- Bem, vieste com a lição estudada.

- E vou mais longe, a não ser que a adesão do eleitorado seja na ordem dos 90% ou mais, nem se deve tirar qualquer leitura desse tal..."referendo", que Deus me perdoe.

- Mas...isso não faz sentido. Qual adesão de 90%?

- Ó Rita, 90% do eleitorado a ir até aos locais onde se realiza essa farsa e protestar alto e bom som: "O que estais a fazer é ilegal! Seus malandrins! Quereis arruinar o segundo sistema, e atrapalhar o funcionamento normal das instituições e sabotar as progressivas reformas democráticas operadas em Macau pelo nosso amado Executivo, com a bonomia da República..."

- Chega, chega, boa noite.

- Eu sei, eu sei, sou um génio. A falta que eu fiz por cá, hein?

- Whatever. Há coisas que eu não digo porque sou uma senhora.

O "porblema" é "ôtro"


Gostaria de chamar a atenção dos leitores para este texto, que certamente muitos já devem conhecer:

REDAXÃO

'O PIPOL E A ESCOLA'

Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem
Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver
q á razões qd um aluno não vai á escola. Primeiros a peçoa n se sente
motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.

Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto
Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem
um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os
Lesiades''s, q é u m livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas
q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos
profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os
jovens n tem abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a
sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é
q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é
livro desde o
Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço
de otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de
xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar
um gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?

Pronto, espero que não tenham tropeçado nas barbas deste texto - obviamente falso e pretensamente humorístico - que se fez passar por "verídico", alegando ser "uma composição de um aluno do 9º ano de uma escola das Caldas da Rainha". O autor anónimo terá começado a mandá-lo por e-mail em meados de 2008, e a referência mais antiga que consegui encontrar foi neste "site", de Dezembro desse ano. Depois andou até 2010 pelas redes sociais e e-mails de gente desocupada que lê (?!) este tipo de "spam" (são os mesmos que reenviam aquelas mensagens que dizem que se não o fizerem "acontece uma grande desgraça"), fez um retorno breve em 2012, e pelos vistos continua a enganar alguns tolos.

Ao contrário do que muitos possam pensar, a reacção nem sempre é de riso ou de indiferença, e há mesmo quem leve isto muito a sério, agitando com a bandeira da "geração perdida", e do "onde é que isto vai parar", e "caminhamos para o abismo", e a composição mal feita é o "quinto cavaleiro do apocalipse", etc. Depois apressam-se a culpar o facilitismo, o abandono da educação como uma das prioridades do Governo, a ministra (na circunstância Maria Helena Rodrigues), a geração, que é rasca, enfim, todos metem a colher no pudim opinativo, porque como já disse atrás, não têm mais nada que fazer. Irónico como neste "site", o seu autor, muito cheio de si, recomenda para "quem não entendeu à primeira, que leia mais uma vez, porque está de mais". Pois, pois, nós entendemos, não se preocupe. Entendemos até bem "de mais".

A origem deste texto e de outros semelhantes remonta quase aos primórdios da internet, mais precisamente aos tempos do mIRC, que para os que ainda se lembram, era um programa de conversação muito popular entre 1995 e os primeiros anos do novo milénio (eu usei regularmente até 2009). Os maiores aficionados do mIRC chegavam a falar com tanta gente ao mesmo tempo que começaram a adoptar um sistema de abreviaturas para não deixar os amigos a "secar" do outro lado. Assim nasceram os "pq" (porquê), "qd" (quando), "dd tc" (de onde teclas), os "ch" abreviam-se para "x", etc, etc. Com a banalização desta espécie de estenografia informática, vieram logo os inteligentes dizer que daqui a dez anos andava toda a gente a escrever assim, blá, blá, blá, entretanto as pessoas fartaram-se do mIRC e eles calaram-se, para depois acontecer o mesmo com as mensagens de telemóvel e blá, blá, blá outra vez. Espero sinceramente que ninguém seja pago para emitir estas opiniões parvas no sentido de quem escreve assim na internet ou no telemóvel vai como que por reflexo fazer o mesmo nos testes escolares.

Como sei que aquela tal composição é falsa, e que não foi escrita por aluno nenhum de escola nenhuma de ano nenhum? Porque uso uma coisa com que todos nascemos mas nem sempre todos usam: senso comum. Quem queria fazer passar isto por uma coisa séria, dar-lhe um ar de credibilidade, podia evitar ter dado erros em 90% das palavras - quer dizer, nem tem cabimento nenhum, e qualquer um percebe que é uma paródia. Na eventualidade de existir algum aluno assim tão iletrado não seria capaz de produzir um texto tão comprido - e nem se atrevia a tal coisa. Caso fosse mesmo o produto de um sistema educativo decadente, se calhar só precisava de uns safanões para atinar com os factos, que até chega a expôr, só que baralhados. E dando algum crédito a quem está mesmo convencido da veracidade da composição: e depois? Não seria a primeira vez nem será a última que um aluno do ensino público escreve asneiras. Já no tempo do pai dele se escreviam asneiras, no tempo do avô, e antes disso sabem o que mais? A taxa de analfabetismo em Portugal era da ordem dos 70%. Tomem lá que já almoçaram!

Existe uma certa..como lhe chamar...ah sim, conversa da treta, que defende que "um diploma da antiga quarta classe vale mais que muitos cursos superiores". Claro, claro, e a tubercolose é preferível a um simples resfriado. Muitos dos nossos avós, e até em alguns casos os nossos pais, que viviam no tempo "da outra senhora" completavam a quarta classe e iam trabalhar com 12 ou 13 anos. O tipo de trabalho era normalmente braçal, e entre os que mais tarde se valorizaram e regressaram aos bancos da escola e tiraram de noite pelo menos o 9º ano ganharam alguma "bagagem", foram muitos os que nunca mais ligaram aos estudos, e que aos 40 ou 50 anos se tornaram praticamente analfabetos. Entre um analfabeto que usa "atão" e "pipol" e outro que escreve "otoclismo" e "nalgas", prefiro o primeiro. Engraçados são os que defendem que o pseudo-declínio do ensino em Portugal se deu "com o 25 de Abril" - qualquer dia culpam o 25 de Abril pela derrota em Alcacer-Quibir. Estes vão ainda mais longe e afirmam que "Salazar podia ter muitos defeitos" - sim, bastantes de facto - mas "preocupava-se com a educação". Por acaso tenho à minha frente um livro de textos da 3ª classe dos tempos do Estado Novo, do qual vou reproduzir algumas passagens, sem comentários:

"Se estamos doentes, devemos consultar o médico, porque só ele tem o saber necessário para averiguar a causa dos nossos sofrimentos e para nos curar. Evitemos, pois, os curandeiros que por toda a parte existem, sustentados pelos ingénuos que se deixam iludir com as suas palavras enganadoras".

Minha Mãe é pobrezinha
Não tem nada p’ra me dar
Dá-me beijos coitadinha
E depois põe-se a chorar


(Na contra-página de uma onde se vê uma efígie de Salazar, em tudo semelhante à de Júlio César nos sestércios de prata, lê-se o seguinte no último parágrafo):
É função do presidente do conselho orientar superiormente todos os trabalhos do Governo e presidir às suas reuniões e conselhos. Todos os portugueses devem obediência ao Governo da Nação.


QUESTIONÁRIO (pag. 189):
P: - Para que veio à Terra o Filho de Deus?
R: - O Filho de Deus veio à Terra para nos salvar do pecado e nos ganhar o Céu.
P: - De quem nasceu o Menino Jesus?
R: - O Menino Jesus nasceu da Virgem puríssima Santa Maria, na cidade de Belém.
P: - Qual é a maior dignidade da Virgem Maria?
R: - A maior dignidade da Virgem Maria é ser Mãe de Deus.


E podia ficar aqui a noite toda a exemplificar o quanto se ficava a saber apenas com a quarta classe. Os cotas tavam todes tipe...duhhh...Deus e Salazaradas, o velhadas, duhhh....

Portanto, toda a gente erra, meus meninos. Reparem como aquela deputada "chuchalista" cometeu três "gaffes" num comentário de quatro linhas e toda a gente lhe caíu em cima, quais abutres à carniça. Chegaria ela a deputada se isto fosse habitual? Já tinham reparado, com toda a certeza, como o fizeram logo à primeira escorregadela - todos temos o direito a um dia mau, e só não erra quem não faz. Dá-nos mais gozo quando alguém que supostamente deveria ser um exemplo para os restantes comete um erro, mas isto não mostra que somos mais inteligentes, ou que o sistema está podre de raíz: mostra apenas a nossa pequenez.

Portanto se quiserem acreditar que a piadola que é o texto em cima é o verdadeiro estado da educação em Portugal, e de vez em quando retirar do congelador estas chalaças tão vistas que já nem têm sal (eu nem li o texto todo, sinceramente), então boa sorte. Mas tenham cuidado se o chefe vos apanha, e levam com um raspanete: "é para isto que eu vos pago, ó mandriões?".

Ódio é ódio, do que estavam à espera?


O conflito em Gaza é o sabor do Verão em matéria e actualidade noticiosa, com imagens de destruição e morte a chegarem a um ritmo diário dos territórios palestinianos ocupados por Israel, que vem levando a cabo há semanas uma operação para neutralizar uma eventual investida do Hamas, grupo terrorista que governa (?) esses territórios desde 2007. Ambas as partes beligerantes desfazem-se em operações de charme para angariar a simpatia da comunidade internacional; Israel apresenta provas de que o Hamas esconde armas em habitações de civis, escolas e hospitais, e pelo sim pelo não bombardeia - em caso de dúvida o melhor é mandar tudo pelos ares, e o Hamas faz paradas com os mortos e os feridos, certificando-se que as camâras fotográficas e de televisão apanham a maior quantidade de sangue e tripas possível. Recentemente foi anunciado um cessar-fogo, finalmente alguma paz para aquela gente, e passado hora e meia o Hamas rapta um soldado israelita, mata-o, e recomeçam os bombardeamentos. C'est la vie.

A opinião pública divide-se entre apoiantes de Israel, que alegam que o Hamas é um grupo de fanáticos e malucos que maltratam as mulheres, os animais e as crianças, e os que estão solidários com o Hamas, ou pelo menos não aprovam a atitude ultra-militarista e agressiva de Israel. Entre uns e os outros, venha o Diabo e escolha. E que tal mandar os dois se irem-se lixar, dar uma volta ao bilhar grande, praticar saltos na prancha de cu-para-a-picha? Sinceramente não entendo esta gente que sentada por detrás do monitor de um computador, ou da praia através de um telemóvel, e que nunca ouviu uma explosão de perto manda bitaites condenando mais uma bomba que cai, mais uma escola que rebenta, mais uma "sacanice" do Hamas ao alojar civis em depósitos de armas, e vai não vai, lá cai uma teoria da conspiração avisando para os perigos de um mundo onde os árabes mandam. Ainda no outro dia vi (não digo "li" porque havia pouco para ler) um artigo da imprensa "online" judaica a ir buscar uma frase do ex-ditador líbio Moahammad Gaddafi, que era completamente passado dos carretos, e onde defendia que "as mulheres tomadas como prisioneiras de guerra que sejam virgens devem ser violadas antes de executadas, para prevenir que vão para o Paraíso". O que isto tem a ver com o conflito entre Israel o Hamas na faixa de Gaza? Não sei, estou à espera que alguém me elucide.

Isto não é uma partida de futebol nem um combate de boxe, onde se fica a torcer por uma das partes. Isto é guerra, pessoal, guerra. G-u-e-r-r-a. E é guerra entre dois lados que se odeiam. E o que fazem as pessoas que se odeiam umas às outras? Estão à espera que Israel sinta misericórdia, para a seguir o Hamas entender isto como um sinal de fraqueza e atacar? Ou que o Hamas implore de joelhos por perdão, e Israel aproveita para acabar-lhes com a raça? Deixemo-nos de merdas pá: isto não é uma guerra justa, como foi a II Guerra Mundial, onde a Europa se mobilizou para combater um louco e o seu regime predatório, isto não é a Revolução Francesa, isto é uma quezília por questões territoriais e étnicas, e por uma etnia que nem sequer é a nossa. Por mim matem-se, esfolem-se, mas não me chateiem. Quando acabarem de se matar, pode ser que se arranje gente de jeito para ir lá viver, e fazer alguma coisa daquilo.

Crise? Qual crise? Ah...esta crise!



O Benfica deixou expostas imensas fragilidades durante a realização da Taça Emirates este fim-de-semana, em Inglaterra. Os campeões nacionais foram goleados no Sábado pelo Arsenal por 5-1, e já ontem perderam com o Valência por 3-1, terminando a prova no último lugar. Os encarnados estão muito longe da equipa de qualidade que venceu na época passada três competições - campeonato, taça e taça da liga, disputando ainda pelo segundo ano consecutivo a final da Liga Europa - e a principal razão parece terem sido as saídas de algumas das suas pedras-chave, casos do guardião Oblak e do defesa Ezequiel Garay, que deixaram um "buraco" no último reduto encarnado. As contratações para esta nova temporada não são consensuais, os novos jogadores demoram a adquirir rotinas de jogo, e a época oficial arranca já este fim-de-semana, com a disputa da Supertaça contra o Rio Ave. Os adeptos podem ter aprendido com o excesso de euforia de outras pré-temporadas mais conseguidas, mas desconfiam deste "novo Benfica", que em oito jogos amigáveis perdeu seis, e venceu apenas dois, contra Sion e Estoril-Praia. Jorge Jesus compreende a angústia dos benfiquistas, e diz que abandona o comando da equipa caso perca outro jogador importante - e fala-se de uma eventual saída do argentino Enzo Pérez. A manta começa a ficar curta para os lados da Luz, e fosse a águia um galo, seria altura de cantar para acordar os campeões.

Ouch!


Um momento arrepiante durante um "roster" do Team USA, a selecção de basquetebol dos Estados Unidos. Paul George, jogador do Indiana Pacers, de 24 anos, parte a perna direita enquanto disputa uma bola, depois de colocar mal o pé na base de um dos postes. No momento da lesão ouve o osso de George a partir-se, e na repetião em câmara lente fica mais detalhada a sua gravidade - uma daquelas imagens para a galeria das grandes lesões na história do desporto. Apesar da aparência arrepiante, foi "apenas" uma fractura composta da tíbia e da fíbula, o atleta já foi operado, e encontra-se agora a recuperar, esperando-se que volte a fazer pleno uso da perna em nove meses, ou quem sabe menos. Mas lá que doeu, doeu.

domingo, 3 de agosto de 2014

A diferença está mesmo aqui ao lado


Como os leitores devem ter percebido, fui dar um pulinho aqui ao lado a Guangzhou, a maior cidade da província de Guangdong, uma das maiores e mais populosas da China, e certamente a mais cosmopolita do sul do continente chinês, a par de Hong Kong. Para nós em Macau, e apesar de uma certa arogância inata (não é culpa de ninguém, realmente, nem é de propósito), Guangzhou é um mundo. Se para nós portugueses, Macau é "pequeno" em comparação com Lisboa, perante esta cidade a duas horas e meio de autocarro sentimo-nos como formigas: só a população urbana de Guangzhou, com os seus 11 milhões de habitantes, é mais que a de Portugal continental e ilhas inteiras. A área é aproxidamente a mesma da grande Lisboa e da Margem Sul - um pouco maior, talvez - a primeira vez que lá fui, em 1999, fiquei supreendido quando me disseram "chegámos a Guangzhou", e ainda foi preciso esperar mais de uma hora para chegar à paragem onde acabarai por sair, perto do centro da cidade.

Sim, são umas nove ou dez pontes, 3800 km2, é grande, grande como a própria China, imensa e diversa em todos os aspectos. Quem diz que Macau está cada vez mais parecido com o continente não sabe do que fala. Se já há quem sinta a diferença quando atravessa as Portas do Cerco e vai até Zhuhai, essa diferença acentua-se quando se faz um "esticão" até Guangzhou. É verdade que é cada vez mais comum encontrar turistas da China em Macau, e estranhamos alguns dos seus comportamentos, que consideramos "incivilizados", mas só sabendo de onde vieram, e sobretudo entendendo essa origem, conseguimos dar-lhes um desconto. Para quem nasceu em Macau e tem hoje mais de 30 anos fica mais difícil aceitar este contraste, pois ficou sempre a cobro das duas realidades maiores que contribuíram para a génese deste território: a China e Portugal, onde existe uma maior heterogeneidade de gentes e costumes. Para quem viveu em Portugal até completar a idade adulta, e sentiu o choque ente o urbano e o rústico, sabe identificar as diferenças, e sem querer aqui estar a ser presunçoso, entende melhor uma realidade díspar daquela a que está habituado. E posto isto, já que nos apercebemos das diferenças, serão estas para pior ou para melhor? Nem uma coisa nem outra - são para...diferente, só isso.

Permitam-se pegar num ponto que para mim é essencial: a liberdade de imprensa e o acesso à informação. Para quem não se importa de uma dose de isolamento do mundo, passa um fim-de-semana, uma semana, duas ou um mês na China sem se preocupar com nada. Para quem se quer actualizar e andar a par do que se passa no mundo e não dispensa a consulta de meia dúzia dos seus sítios de internet preferidos, pode vir a sentir algum incómodo. Como é sabido, a Google está bloqueada na China, bem como todos os seus afiliados - e acreditem, são muitos. Quem quiser passar uns dias na RPC e não dispensa navegar na net, mas está habituado ao motor de busca da Google, convém mudá- para o Yahoo ou outro qualquer (de preferência os locais Sina ou Baidu). Blogger, Facebook, YouTube e outros (ficariam supreendidos quantos, e aparentemente inocentes) são inacessíveis, e e mesmo quem tenha a paciência de instalar os "crackers" lhes que dão acesso, a "Grande Muralha", o maior censor de internet da China, já identificou alguns e "deu-lhes com a moca". Para quem tem o serviço de "wi-fi" das redes globais, talvez ainda se safe, mas se andar a depender dos hotéis e afins, esqueça - o melhor mesmo é gozar a estadia.

Aos nossos olhos ocidentais, esta preocupação com o controlo da informação parece-nos algo "demodé", e pode-nos até deixar um sentimento de desconforto, pouco habituados que estamos a este tipo de constrangimento, mas os chineses estão habituados, e até são capazes de concordar com esta política de "rédea curta", pelo menos em parte. Ao contrário da Coreia do Norte, os chineses do continente viajam pelo estrangeiro, pelo resto da Ásia, pela Europa, América, e até pela África, e têm consciência das diferenças em matéria de vivências, quer em termos de liberdades, quer em termos de civilidade. Muitos destes turistas chineses mais viajados sabem perfeitamente que alguns dos seus comportamentos são censuráveis aos olhos da sociedade dos países que visitam - e depois? Eles pagam, evitam misturar-se com os locais, fazem o que bem lhes apetece, desde que não violem qualquer lei, e eventualmente regressam à China, prontos para outra, e estão bem assim. Pensam que eles dão importância áquilo que os estrangeiros pensam deles? As diferenças vão muito além do regime e da cultura, como vamos ver mais à frente.

Uma das primeiras grandes diferenças de quem passa de Macau, a Região Administrativa Especial onde vigora um sistema semelhante ao das democracias ocidentais, com a separação de poderes e garantias no que toca à liberdade de expressão, associação e imprensa, pelo menos no papel, e convemhamos que na prática estamos muito, mas muito acima da China: a burocracia. Começa logo pela obtenção dos vistos de entrada; mesmo para alguém que viaje com um passaporte estrangeiro (e uma vez que se entra com um documento chinês não há maneira de voltar atrás) existe uma distinção geográfica: quem quer viajar apenas para Zhuhai, obtém um tipo de visto, e para o resto da China, um outro diferente. Paga mais? Não, mas "é diferente". Na China existe uma política migratória conhecida por hukou (戶口簿), que limita a deslocação entre a província natal e outra. Consiste em mais o menos o mesmo que precisarmos de uma autorização oficial para ir do Minho a Trás-os-Montes, o que para nós fica um pouco difícil de imaginar. Esta imposição previne que as populações do interior ou as regiões mais isoladas e pobres do país migrem todas para o litoral e para as grandes cidades, o que resultaria em 1) a desertificação de vastas zonas do território, 2) a massiva concentração de mão-de-obra nas principais cidades e consequentemente 3) aumento do desemprego, da mendicidade, da criminalidade e finalmente 4) mais focos de instabilidade. Daí que seja necessário que se compreenda e aceite este "controlo", mesmo atendendo ao facto de para quem reside em Macau não interesse nada migrar para uma província da China através de um visto que lhe permita apenas ficar um dia ou dois em Zhuhai.

E alguns estarão a pensar: "mas isso é apenas justo, que as leis sejam cumpridas por todos sem distinção entre locais e estrangeiros". Sim, de facto a China deixa bem claro que os estrangeiros que visitem o país são compelidos a seguir as suas leis, e não pensem que caso cometam um delito grave podem escudar-se na sua nacionalidade e pedir a intervenção da sua embaixada ou consulado. Mas o sol não nasce brilhante para todos na China, nem a justiça é cega ou a lei se aplica da mesma forma a todos os chineses. Os tribunais são orgãos do estados e os juízes seus funcionários, e é nítido que os círculos mais próximos do poder do partido único gozam de uma maior imunidade que um simples camponês ou operário - isto apesar da retórica oficial inerente à ideologia socialista que sustenta o regime. E é isto que muitas vezes indigna o Ocidente, que faz uma leitura simplista desta realidade e aplica a sua lógica, que é totalmente inaplicável. Para chegar à elite não se requer talento, inteligência ou trabalho: depende das ligações, do "background" familiar e político, e da riqueza pessoal, claro. Quem ousar enriquecer na China sem a benção do partido, pode tirar o cavalinho da chuva. O sistema é um misto da oligarquia russa, e das castas indianas. Quem for filho de camponeses pobres, estude, trabalhe e consiga ascender na escala social não morre de fome, antes pelo contrário, mas dificilmente chega a um cargo próximo do poder.

Mas ainda quanto à burocracia, por vezes excessiva e até incómoda, é considerada um "mal necessário". Simplificar procedimentos, reduzir as etapas de modo a facilitar os processos e tudo mais são coisas do Ocidente. Na China a papelada, os departamentos e os cargos que à primeira vista parecem não ter razão de ser empregam muita gente, alguma dela que chega a não ter nada para fazer o dia todo, mas precisa de comer, e para isso ter um ordenado fixo. Mesmo a prostituição, ilegal em todo o país, é em geral tolerada, apesar das acções esporádicas que dão a entender o contrário. Se estas mulheres não optarem por esta via, e perante a escassez de emprego, vão fazer o quê? Roubar, matar, traficar droga? A caminho de Guangzhou e no regresso, o autocarro fez duas paragens para "controlo", onde entra um oficial, que olha para os passageiros como os estivesse a primeiro a contar e depois à procura de alguém em particular, e depois vai embora. As directivas são levadas muito a sério, e para quem não está habituado ou vem de uma realidade onde algumas regras são "dobradas" em nome da lógica e do senso comum, é capaz de ficar um pouco irritado com tanta intransigência, mas habitua-se. Eu próprio não gostei de ser tratado como um ígnaro, e no meu entender considero a censura dos media um atestado de burrice passado ao povo pelos que se dizem servidores do povo - mas quem sou eu para contrariar algo com quem a maioria dos 1200 milhões que ali vivem acha bem?

Fiquei num hotel na Avenida Jiangtu, não longe da estação ferroviária sul de Guangzhou, relativamente longe do centro. As ruas à volta faziam-me lembrar Lisboa do início dos anos 80 - até os candeeiros públicos eram iguais. O sentimento com que fico ao circular pela cidade é estranho; além da habitual atenção que me é reservada pelo facto de ser estrangeiro, tenho aquela sensação de insegurança, de perigo constante, como se algo pudesse de repente cair-me em cima da cabeça e "apagar a luz" de uma vez por todas. Fico com aquela impressão de que existe uma "saudável indiferença" pela vida humana. Claro que ninguém quer matar ninguém intencionalmente, mas dá a entender que não seria uma "tragédia", na forma como entendemos algo desse género. Quer pela forma como se conduzem os veículos, irrompendo pelo passeio como se fosse uma coisa normal, como os peões atravessam fora da passadeira, os operários ignoram as regras mais elementares de segurança, parece que não se valoriza a própria vida, quanto mais de outros milhões que no fim de contas nem fariam uma grande diferença se deixassem de contar na hora de dividir o arroz por todos. Em matéria de comportamentos incivilizados, digo apenas que em Macau ainda nos podemos dar por felizes com os tais "javalis" que tantos criticam. Aqui é pior, mas estranhamente parece existir uma maior "solidariedade" - pode-se atirar lixo para o chão, cuspir ou arrotar num transporte público e ninguém liga.

E falando em arroz, eu próprio sou uma pessoa que não se impressiona com aparências ou cheiros, indiferente a tabus ou relatos de crueldade por vezes até um pouco exagerados, mas na China exerço uma certa contenção. Em Kuala Lumpur cheguei a procurar o restaurante mais sujo do bairro indiano para almoçar, mas em Guangzhou desconfio até dos sítios mais caros. Isto porque não é nenhum mito que existem vários empresários da restauração que descuram a vertente da segurança alimentar ou da higiene pública em nome do lucro, e entre o que se "petisca", e não se rejeita logo de início, há sempre grandes reservas. E o apetite também depende dos estômagos; estava à porta de um centro comercial a beber um copo de café, e quando terminei não encontrei um cesto do lixo nas redondezas. Não me apetecendo ficar de copo na mão, reparei num buraco no chão perto da estrada, fui lá espreitar e confirmou-se o já suspeitava: estava cheio de lixo até acima. E não só: de vómito, ou pelo menos algo parecido. As idas à casa-de-banho também são algo a ter em conta: quanto menos público o lavabo, melhor. Penso que me fiz entender.

Mas apesar de todos estes defeitos, Guangzhou é uma cidade cosmopolita, de oferta diversificada, e quem conhece e tem bom gosto pode até retirar de lá apenas experiências positivas - o que é cada vez mais difícil de se fazer em Macau, por exemplo. A última vez que lá fui foi há sete anos, e antes disso tinha ficado outros tantos sem ir, e por isso as diferenças são sempre enormes, e para melhor. Quem lá vá uma vez por ano já se apercebe de uma evolução constante, e os problemas que persistem, ou os aspectos desagradáveis, são próprios de uma grande cidade num país que ainda há menos de 40 anos estava isolado do mundo, longe dos olhares dos forasteiros. As cidades chinesas teriam mais a ganhar imitando Istambul, por exemplo, capital da Turquia, resquício do antigo império Otomano, onde o complexo de inferioridade vigente faz com que os seus habitantes tentem tudo e mais alguma coisa para impressionar quem os visita, e tenta ser o mais agradável possível para os estrangeiros. Guangzhou está longe de ser Istambul, mas tem outras vantagens: é perto, é mais barato, e está na China - aprendemos mais sobre o meio que nos rodeia, e quem sabe voltamos de lá com a sensação que há em Macau coisas que não trocávamos por nada. E outras que gostariamos de ter, é claro.

Chovia chuva...molhada

Taofu fedorento - 臭豆腐


Qual foi o prato, o "snack", a comida mais mal cheirosa que alguma vez comeram? Quando era pequeno lembro-me do cheiro das mercearias que tinham bacalhaus pendurados por cima do balcão, ou do bucho de porco que a minha avó comprava na praça e deixava um dia inteiro a macerar no vinagre, só para que tornasse minimamente comestível. E mesmo os rins de porco, como os apreciadores devem saber, requer uma certa arte em preparar para evitar aquele odor a urina próprio daquele orgão secretor. Na Ásia a primeira agressão que normalmente é feita ao nosso sentido do olfacto é através do "durian", aquela fruta com casca espinhosa que depois de aberta revela uma polpa cujo cheiro é qualquer coisa entre o mijo de gato e as fraldas de bebé cagadas. Mas isso não é nada. O perigo chega de onde menos se espera: do "taofu", ou seja, a proteína de soja, uma das jóias da coroa dos nossos amigos vegetarianos, esses chatonços.


O "chao taofu" é uma espécie de pudim de soja fermentado ao ponto do cheiro fazer correr a sete pés qualquer ser humano com o mínimo de percepção do mau cheiro. A história remonta à antiguidade chinesa, quando um tal Wang Zhi He, vendedor de "taofu" fresco, guardou os excedentes de um dia num frasco selado a vácuo, e passados poucos dias notou uma tonalidade verde no outrora branco amarelado do seu produto. Apesar do cheiro nauseabundo da soja, arriscou, fritou-a e começou a vendê-la a quem tivesse este gosto tão "particular". E isto manteve-se até aos dias de hoje; em Macau o "chao taofu" vendia-se até finais dos anos 80, e tal como nos outros (poucos) lugares onde ainda tem adeptos, era obtida nas ruas, através dos vendedores ambulantes. Contudo o odor pútrido, que lembra uma gangrena com mais de uma semana, obrigouo Leal Senado a proibir a sua venda. A vendilhona mais popular situava-se na Rua Pedro Nolasco da Silva, perto do actual Centro Comercial Capitol. O "chao taofu" é frito na sua variedade em tons de branco e preto, e ainda se pode encontrar facilmente em algumas partes da China continental, casos da província de Guangdong e Zhejiang, de onde será alegadamente originário, e em Taiwan, onde é mais uma das muitas opções para os gastrónomos mais audazes.


Audaz também eu sou, e poucas vezes rejeito uma experiência gastronómica com base no preconceito, cheiro ou aparência, mas aqui abri uma excepção; o cheiro desta "iguaria" ainda hoje apreciada por muitos ("gourmets" do nojo, diria eu, apesar do bom aspecto do produto que nos sugere a imagem em cima) é tão repugnante que não me consigo imaginar a comê-la - e provei o tal "durian", e só depois pude liminarmente rejeitar a fruta que sabe a peidos. Actualmente o "chao taofu" é fermentado bacteriologicamente através de camarão seco, feijões amarantinos, rebentos de bambu e outras ervas chinesas. Para quem gosta, bom apetite, e respeito a preferência. Por outro lado dou graças a que esta "especialidade" tenha sido banida em Macau. Sem desprezo pelos seus apreciadores, este é um tipo de comida que define a diferença entre a civilização e a mais cruel das selvajarias. Outra vez, desculpem-me, bom apetite, e façam-me um favor: não falem comigo depois de comer esta merda, pois o hálito que fica é realmente traumatizante.


Chinglish


Na China, a língua inglesa obedece às leis e à Constituição da República Popular da China.


Ainda bem que o elevador é acessível, senão...


A porta que fecha é imparável. Nem pensem em detê-la.


Hmmm..."pinched"? Soa mais a um beliscão no rabo. E que tal "wedged"?


Será que queriam dizer "french toast"?


Se "cash" é dinheiro, será que dinheiros é "cashes"? I don't think so...


"Do not beat"??? E que tal: "do not PUNCH"?


Em chinês está escrito que a clínica prepara os medicamentos (chá de ervas chinesas) para os clientes, em inglês lemos "doctor will serve people who is over" - parece dramático.


Tantas "emergências"? Será mesmo necessário?


E depois? Não tenho conhecimento de que tenha ocorrido nada de ilegal.


No país dos javalis...like a boss!


Foi um fim-de-semana diferente, caros leitores. Retribuindo a simpatia dos nossos amigos e camaradas do continente, eu mais a minha "entourage" passámos dia e meio em Guangzhou, a duas horas e meia de autocarro de Macau. Aqui vos deixo o relatório de actividades...like a boss!


Em território hostil, o melhor é começar por escolher o veículo de combate, like a boss.


Com que então, a invadir a Igreja da Sé durante a missa, uh? Ora aqui está uma "vingançazinha", dando uma de turista na Catedral de Cantão. Take that, Patriotic Church! Like a boss!


...e chupa que é cana doce! Like a boss.


Estava a passar por Shamian e fui ver para o que estava esta gente a olhar. Muito parado para o meu gosto, que é mais tipo like a boss.


A mandar obscenidades pelo correio para as senhoras, não é seu pequeno canalha? Olha que levas um tabefe com as costas da mão, like a boss.


Vai fotografar a tua avó, ó espião do c... . Like a boss!


A música é gira, as crianças encantadoras, mas a fila não anda. E eu aqui à espera do quê? Acabou-se Shamian...vou bazar, like a boss.


Cagando e andando, chego à mansão do clã Chen, uma das muitas casas no estilo do nosso Jardim Lou Lim Ieoc, só que nesse caso o milionário chinês de Macau doou o local para o Governo de Macau, mas aqui a pobre família Chen foi expropriada nos loucos tempos da Revolução, expulsa do próprio lar e exibida em público com ditames insultuosos pendurados ao pescoço - e no fim seriam todos eventualmente executados, claro, like a boss.


Belos biombos. Que bem que viviam os Chen, like a boss.


Pensativo numa das mesas da casa dos Chen, like a boss.


Já chega! Comprei um baralho de cartas temático, com selos da Revolução Cultural. Agora apadrinhado pelo Grande Timoneiro, é tempo de deixar a casa dos Chen. Like a boss!


Quase tempo de voltar para Macau, mas antes vou encher o bandulho com uma pizza de uma tal "Champions Pizza". Like a boss!


Chirp, chirp...bem, chegamos ao fim...chirp, chirp...ao fim da viagem, e agora...chirp, chirp...vou voltar a Macau. Like a boss.

sábado, 2 de agosto de 2014

Os patriotas e os "scuds"


É assim, "pipol", vou passar o fim-de-semana fora, e para vos deixar entretidos com qualquer coisa para lerem (não vão depois querer tirar uma "selfie" e ainda acabam mortos ou matam alguém, ah, ah) ficam aqui o artigo desta quinta-feira do Hoje Macau, que até dizem que é bom para saúde e tudo. Quem sabe se não previne a doença do vírus do Ébola, hã? Então até amanhã, e passem um fim-de-semana ao fresco, que este calor é de subir pelas paredes. Salut!

“Patriota: indivíduo a quem os interesses de uma parte parecem superiores aos interesses do todo. O joguete dos estadistas e a ferramenta dos conquistadores.”

Ambrose Bierce

A palavra “Pátria” tem para nós, portugueses, uma conotação que ainda faz com que se levantem muitas sobrancelhas de espanto. A culpa foi de um certo santacombadense que em tempos usou e abusou da palavra para dar consistência à sua versão muito própria de unidade, de nação, de soberania, apelando aos jovens lusos que numa ocasião por volta do inícios dos anos 60 do século passado “dessem a vida pela Pátria”, na Guerra do Ultramar. Um apelo tem por vezes o valor de uma mera sugestão, ou de um convite, mas neste caso escutava-se o chamamento da Pátria, que era assim como um daqueles apitos silenciosos que emitem uma frequência que só os cães conseguem ouvir. O que se ganhava em “dar a vida pela Pátria”? Logo se via. E recusar? Isso via-se logo. Era um pouco aborrecido não poder escolher o que se fazer com a vida, que é só uma, deixada assim nas mãos de uma das muitas Pátrias que há por esse mundo.

A Pátria é um conceito abstracto, tal como a alma, a paixão, ou dando-lhe um sentido mais formal, a República, personificada amiúde por uma jovem com os seios de fora. E falando de seios e de paixão, por estas bandas ouve-se muito a expressão “amar a Pátria”, ou a sua variante “amor à Pátria”. Apesar disto nos soar um pouco a “dejá vu”, pois já sentimos na pele essa imposição da parte da Pátria, é uma coisa que parece ser bem recebida pela generalidade. Qualquer caramelo que inicie um discurso com uma referência ao “amor à Pátria”, e termine dizendo que “ama a Pátria”, é tido como um fulano às direitas – mesmo que pelo meio não tenha dito nada de jeito. Pode revelar a maior ignorância e desprezo pela inteligência de quem o escuta, indiferente às suas patrióticas introdução e conclusão, mas ai de quem fale mal dele: afinal, “ama a Pátria”.

Eu tenho um problema lexical com isto de “amar a Pátria”, tal como o Executivo local tem andado um pouco baralhado nos últimos tempos com uma certa interpretação da palavra “referendo”. Para mim amar é uma coisa séria; posso gostar, estimar, respeitar, sentir consideração ou querer saber notícias de alguém, mas amar é outra cena, meu. O que entendo por “amar” implica o acto físico do amor. Quando oiço “amar a Pátria” e coloco a mim mesmo essa possibilidade, imagino-me numa cama redonda e larga, com lençóis de seda, a beijar apaixonadamente a “Pátria”, afagando-lhe os cabelos com uma mão e explorando com a outra as suas partes pudibundas, antes de avançar determinado para aquilo que a Pátria ela própria fazia com aqueles jovens lusitanos que mandava para o Ultramar para darem por ela a vida.

Mas consideremos para efeitos dramáticos (e para não acabar por aqui o artigo) que isso de “amar a Pátria” é uma coisa mesmo séria, mesmo que saindo da boca de alguns chalaceiros destas bandas dê vontade de pelo menos dar uma risadinha marota. Os que amam a Pátria são chamados de “patriotas”, e assim partilham o nome com um sistema de lançamento de mísseis, e com o próprio míssil, bastante na berra durante a primeira Guerra do Golfo – pode-se mesmo dizer que quem não ama a Pátria e não é patriota, é um “scud”. Mas quem não sente amor pela Pátria, que se “scud”, pois aqui isto tem mais valor do que um argumento com pés e cabeça, ou que uma boa ideia, com potencial para surtir efeitos práticos e positivos. Basta vir com uma besteira qualquer, e no caso de alguém discordar atirar com um “você não ama a Pátria?”, e todos os burros baixam de imediato as orelhas.

De orelhas levantadas e sempre alerta, qual escoteiro, está a ex-presidente da Assembleia Legislativa, Susana Chao, que depois de deixar o cargo de moderadora no hemiciclo da RAEM, veio fazer-me companhia nas lides bloguísticas. Desconheço o nome do seu blogue, todo ele em língua chinesa, mas bem podia ser “Lavandaria Jolie”, tal é a quantidade de roupa suja que por ali passa. Um destes dias, numa das suas habituais diatribes contra os seus antigos colegas e cúmplices, chegou a sugerir que a maltósia democrata que foi fazer chinfrim para a porta da AL há dois meses “são verdadeiros patriotas”, ao contrário de outros que assumem como tal, e deu o exemplo de um tal Ao Man Long, que depois de me socorrer dos livros de História antiga, fiquei a saber que se tratava de um patriota que passou a “scud” com a mesma ligeireza com que azeda um “tao fu fa” deixado ao sol a tarde inteira.

Posso achar o que Susana Chao faz no seu blogue de uma deselegância e baixeza extremas, vil, mesquinho, próprio de uma pessoa vingativa e ingrata, mas não posso deixar de concordar com ela num aspecto: o verdadeiro patriota é aquele que luta pelo melhor para si e para os seus irmãos, e nem que para isso tenha que sacudir o sistema e todos o que dele tiram partido, “à mama” da mãe Pátria – e nem chama isto “patriotismo”, mas sim “justiça”. É que por muito que os patrioteiros de trazer por casa digam cheios de bazófia que “amam a Pátria”, no fim ela acaba por confrontá-los, e de mão na cintura a cara de poucos amigos, vocifera: “Muita lábia tens tu, mas o que tens feito aqui pela Pátria, afinal?”.


Pescadinha - o prato do dia, todos os dias


A edição de ontem do Hoje Macau dedicou a rubrica "Perfil" a um jovem filipino que dá pelo nome de Channel Deluna, e que ganha a vida a como cabeleireiro no salão "Blossom", que é onde normalmente vou cortar o cabelo - ou ia, ou pelo menos não vão tantas vezes como antes. No Verão prefiro raspar a cabeça a pente zero, e para o efeito basta qualquer baeta, mesmo de rua, que tenha uma "tosquiadora" à mão de semear. Além disso detesto perder tempo em barbeiros, salões de beleza e afins; raramente se encontra lá alguém interessante que tenha uma conversa de jeito. Sim, já sei que não se vai ali para "conversar", mas se a ideia é demorar muito, existe uma forte possibilidade disso acontecer, e como já muitos devem ter reparado, as pessoas que frequentam estes locais por gosto (há sempre um ou dois que estão sempre lá e não "consomem") são algo..."problemáticas", digamos. Sofrem daquela terrível mania de fazer muitas perguntas e às vezes é necessário levar as boas maneiras ao limite para não os mandar a certa parte.

Mas como era aqui perto e eu tenho uma ideia feita de que os filipinos são bons cabeleireiros, e podendo comunicar em inglês sempre dá para explicar melhor o que queremos, fiz-me cliente do "Blossom" desde que abriu portas, e se não em 2009 terá sido um ano antes ou depois, não me recordo ao certo. No início a proprietária era a sra. Tess - conhecia-a apenas por esse nome - que entretanto trespassou o negócio para se juntar ao seu marido de há mais de 20 anos, que é britânico, e actualmente vivem no Vietname, onde ele trabalha. Foi a sra. Tess (que era muito conversadora, diga-se de passagem) que trouxe para Macau este talento do "coiffeur" de nome de guerra "Channel", que conquista a simpatia de todos com a sua extravagância, e com o ar natural com que se relaciona com as pessoas, tratando quem conhece à apenas cinco minutos como um amigo de infância. Isto nem sempre é bom, mas neste caso dá gosto baixarmos as defesas, já que se trata de um tipo divertido e bem disposto.

Das primeiras vezes que lá ia, de dois em dois meses, ou de três em três, depende, nem sempre encontrava lá o Channel, e a sra. Tess explicava-me que a cada 55 dias ele era obrigado a regressar às Filipinas devido ao limite de permanência, e era obrigada a arranjar um substituto temporário - quando não era ela própria a fazer o trabalho. Queixava-se de não lhe atribuirem uma cota para contratar trabalhadores não-residentes, e esse era na altura um dos problemas de que se queixavam alguns proprietários de pequenas e médias empresas. Hoje em dia junta-se a este problema o outro das rendas, e fica quase impossível trabalhar por conta própria. Entretanto o Channel ia regressando e partindo, e uma das vezes a notícia da sua partida foi mais agradável que o habitual, quando foi para Paris tirar um curso de aperfeiçoamento. A este ponto gostaria de vos contar que da primeira vez que o conheci, apresentou-se como "Coco Channel", o que achei cómico, mas passado algum tempo "deixou cair" o Coco e ficou apenas Channel. Diz que gostou muito da passagem pela capital francesa, mas suspeitei da falta de entusiasmo. Num dos seus dias normais, ia-me contar tudo em minucioso detalhe, mas preferiu guardar para si as experiências na cidade das luzes. Como faz algum tempo que não corto o cabelo no "Blossom" (adoro quando elogiam a minha juba, que classificam como "espessa"; fiquem lá com esta, ó carecas) adorei a reportagem do Hoje, especialmente na parte em que dá a entender que resolveu finalmente o problema da permanência, ou do "sponsor", e claro que fico feliz que continue a patentear o seu entusiasmo característico, e que vá conhecer Portugal este ano. É bom saber.

Já na semana passada o jornal tinha falado coma proprietárias actual do "Blossom", Marissa Javillonar. Esta filipina que é residente permanente no território, onde reside há mais de 20 anos, é uma pessoa muito mais discreta que a anterior proprietária, a sra. Tess, mas queixa-se do mesmo problema: a falta de cotas para contratar trabalhadores de fora da RAEM. Uma das coisas que disse e que melhor resumem a actual situação foi: "como vou empregar locais para limpar, se eles me dizem que 'isso é trabalho dos filipinos'?". E de facto é mesmo assim, e torna-se uma pescadinha de rabo-na-boca indigesta para os pequenos e médios empresários: querem contratar alguém, não lhe dão cotas e sugerem os locais, e os locais dizem que não gostam desse trabalho ou não lhes agrada o salário proposto.

- O que fazer, então?
- E que tal ir buscar alguém às Filipinas?
- Não, isso não, que já chega de trabalhadores não-residentes; e os locais depois como ficam?
- Tudo bem, venha daí esse local.
- Para fazer o quê, limpar? Está maluco? Isso é trabalho dos filipinos.
- Ok, então podem-me dar uma cota para eu contratar esse filipino?
- Mas é que nem pense nisso, então e os locais?

Pois é, e os locais, que querem um emprego sentado a ganhar pelo menos 20 mil rufas sem mexer uma palha, e que na maior parte dos casos nem acabaram o ensino secundário porque se habituaram à subsídio-dependência e a parasitar os pais? E que tal se fossem à merda?

Ébola não...Éfoda!


Os Serviços de Saúde de Macau (SSM) emitiram esta semana um aviso no sentido de orientar a população no sentido de prevenir o vírus do Ébola, e já na quinta-feira anunciaram que
vão "avaliar o estado de saúde e a proceder a açcões preventivas junto de cidadãos portadores de passaporte da Guiné, da Libéria e de Serra Leoa que entrem na RAEM". Mas esperem lá, Ébola? Ébola?!?! ÉBOLA??!!?? Isto não é a mesma coisa que a febre de dengue e a gripe aviária, e perante este o vírus da SRAS é um calafrio provocado por uma corrente de ar causada por uma janela mal fechada. Nos dois primeiros basta não ser porcalhão: despejar a água parada dos vasos e não andar por aí a soprar no cu das aves, e em termos de "prevenção" basta um "spray" repelente de mosquitos e fazer dieta de frango, mas aqui não há nada a fazer! Quem ficar infectado com o vírus do Ébola tem quase tantas hipóteses de sobreviver como numa catástrofe aérea. Se isto chega aqui, não vão haver ex-infectados a falarem da experiência na televisão de Hong Kong, como aconteceu com a SRAS - não vai haver ninguém, ponto final. Viram aquele filme com o Will Smith, "I am legend"? Vai ser mais ou menos assim, só que pior.

E pronto, aqui estou eu a substituir-me aos SSM e ainda por cima estou a semear o pânico. Ora, se for detectado 1 (um) caso de Ébola em Macau, e as autoridades sanitárias disserem que "não há razão para alarme", seria o mesmo que o patriarca Noé estar a construir a arca e quando os curiosos lhe perguntassem "porquê" ele responder "porque me apetece, vão à vossa vida". Se suspeitam que uma galinha era portadora do vírus H5N1 mandam matar as aves todas do mercado, o que farão com o Ébola? E nem precisam de se incomodar em fazer o mesmo que às galinhas, pois o próprio vírus encarrega-se disso. Cidadãos de onde se deu a epidemia do Ébola entrarem na RAEM? Epá vejam de onde é que eles vieram e prendam os gajos que os mandaram para cá. Isso é o equivalente a um ataque com armas químicas. Nada contra os países em questão, coitados, mas para mim pouco importa que venham da África, da Patagónia ou do Pólo Norte. O meu amigo Hugo Gaspar devia estar mais preocupado com isto do que com a Islamização. Entre uma coisa e outra, eu até me antecipava e tornava-me já num "mijahideen".

Agora um pouco mais a sério. Os SSM estão a fazer o que lhes compete, que é o mínimo que se pode fazer e seria uma grave falha ignorar por completo a actual situação. É que este vírus pode não ser nenhuma novidade, pois foi identificado em 1976 e desde aí já aconteceram mais de vinte epidemias, sempre contidas e controladas. Só que desta vez não conseguiram conter os doentes infectados na zona de pressão do vírus, e é possível que andem por aí, por esse mundo fora, a espalhá-lo. A doença que recebeu o nome de um rio do Congo junto ao qual se deu a primeira epidemia é causada por cinco espécies, ou "estirpes" de vírus, sendo o mais mortal o EBOV. Este surto que teve início em Fevereiro na Guiné-Conacri e se espalhou pela Libéria e Serra Leoa já vitimou mais de 700 dos 1300 doentes contaminados, ou seja, 55% do total, mas teme-se que a mortalidade poderá atingir os 80 ou 90 em cada 100 infectados - e adivinharam: é a estirpe EBOV do vírus do Ébola.

O período de incubação é de cerca de duas semanas, podendo ir até às quatro semanas, e os primeiros sintomas são semelhantes ao da gripe comum acompanhada de febre. Quando o vírus atinge o sistema nervoso central do seu hóspede, começam a surgir sintomas como o desorientação, o delírio e eventualmente o coma. A febre torna-se hemorrágica, ou seja, causa a falência de alguns orgãos, especialmente dos rins e do fígado. A partir daí é uma questão de dias para que se dê a morte - aquela cura para todos os males. Não adianta pensar que as hipóteses de sobrevivência dependem da resistência do doente infectado, das condições de higiena ou da qualidade dos serviços médicos providenciados; a agressividade do EBOV deixa a sua vítima entregue à sorte e nada mais. O risco de contágio é elevado, bastando a proximidade com alguém que é portador do vírus - alguém ou algo, pois não só a transmissão se dá entre seres humanos, como o vírus também se pode introduzir na cadeia alimentar, e até nos animais de estimação. Os cães, por exemplo, podem ser portadores e não revelar qualquer dos sintomas.

E o pior de tudo: não há cura para a doença do vírus do Ébola. Como já referi, tudo depende da sorte, de como o organismo responde às investidas do intruso, e por estes lados isto leva-me a temer o pior. Temos uma população que em grande parte dá por vezes a impressão de que tira prazer da ignorância, e basta espalhar o rumor de que "o gás butano previne o Ébola", e toca de enfiarem todos a cabeça dentro do fogão. As botijas de gás esgotam em meia-hora, com multidões a ocorrerem às lojas, velhinhas a acotevelarem-se para chegar à frente, apelando que as deixem passar porque "são viúvas e não querem morrer" (isto nem faz sentido...), e os isqueiros a gás começam a ser vendidos a mil patacas a unidade. Portanto, quem é crente, faça um favor a si mesmo e aos que não gostam de depender da vontade divina, como eu: rezem com todas as forças. É que este Ébola é mesmo f..., e não brinca.

Killing yourselfie


Uma das notícias da semana: jovem mexicano disparou acidentalmente uma pistola que tinha encostada à cabeça enquanto tirava um "selfie". Ahem, já lá vamos. Oscar Otero (na imagem com um carneiro), de 21 anos, estava a passar um fim-de-semana numa "villa" com dois amigos na Cidade do México, e a certo ponto os três camaradas começam a beber um pouco mais que a medida. A este ponto isto podia ter terminado com os três a irem à bufa uns aos outros - o que por incrível que pareça seria considerado "normal", dadas as circunstâncias, e nem chegava a ser notícia. A certa altura Otero resolve tirar uma fotografia de si mesmo, ou como se chama agora "selfie", como se tivesse sido inventado na semana passada, para colocar na rede social Facebook. Mas que fotografia podia ele tirar, algo assim de original, como aquela com o carneiro? Na falta de um ovino nas redondezas, decide-se por encostar uma arma a cabeça, e estando esta carregada e o rapaz já com os copos, confundem-se os botões e em vez da fotografia ir parar à rede social, foi a sua mioleira para à parede da sala. Os amigos ficaram em choque, e um deles deu corda aos sapatinhos e tudo - podiam antes rir à gargalhada, afinal estavam bêbados e divertidos.

A infeliz tragédia resume-se a isto: jovem embriagado brinca com arma carregada, dispara sobre ele próprio e morre. Fim. Mas não! Esta não é uma notícia sobre um palerma que pagou pela sua irresponsabilidade com a vida, mas sim sobre a "selfie"! Não fosse a "selfie", e ele não tinha morrido, pá. Aquele tipo no Colorado, Estados Unidos, que tirou uma "selfie" com a filha antes de a matar e a seguir rebentar com os próprios cornos, não foi acometido por nenhuma psicose: foi a "selfie" que o levou a fazer aquilo. Ainda aqui há uns meses, por acaso também no México, uma adolescente matou a melhor amiga com 65 facadas porque esta publicou no Facebook "selfies" que tinham tirado juntas (assim também se chama "selfie"?) e completamente nuas. Não foi ter divulgado imagens íntimas das duas sem lhe pedir autorização que a miúda transformou a amiga num passador - foi por terem sido "selfies"! Curiosamente estes três episódios têm em comum o facto das fotografias irem ser ou terem sido publicadas no Facebook, mas culpar a rede social é uma coisa do passado. O que está a dar são as "selfies". E quem não entender isto não 'tá com nada, ya?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Um calor do ca...


Foi hoje de 1 de Agosto, e tudo aqui esteve um fogo posto. Rima, e é bonito, mas mais bonito seria ficar em casa, debaixo do ar-condicionado, ou na cama a recuperar das horas de sono perdidas com os problemas que têm aparecido para resolver (nada de grave, mas chato na mesma). Andar na rua de casa para o trabalho e do trabalho para casa é que não dá, e ainda para mais com uma hora para almoçar, e mal está a arrefecer o motor, lá precisa ele de "arrancar" outra vez. Deviam pensar em adaptar Macau à população activa durante estes meses mais asfixiantes, sei lá, mas no que me toca já ficava contente se me viessem buscar a casa no carro da companhia - desculpem se estou a ser egoísta. Estar "acalorado" devia ser uma razão para meter um dia de baixa. Vou ver se consigo um médico que me passe um daqueles atestados malucos, do tipo "o funcionário tem um síndrome raro que o faz acordar às vezes por volta do meio-dia", e onde ficasse claro que era incurável, e qualquer procedimento disciplinar contrariava o mais básico respeito pelos direitos humanos.

Passar Agosto em Macau não é mau de todo, e recomendo. Férias judiciais, muita gente fora (a malta mais aborrecida faz sempre férias neste mês), e tudo a trabalhar mais a menos a meio gás, deixando os ossos mais duros de roer para Setembro, quando os miúdos já estão na escola e há mais tempo para pensar. Enquanto os saem, outros regressam, há amigos e conhecidos que vêem até cá matar saudades, e miúdas super-giras, de férias das aulas da universidade na Inglaterra, Austrália e todos os sítios que as tornam ainda mais giras, pois aprendem a ser mais cosmopolitas e a cada ano vão mostrando "vistas mais largas", que abriram os horizontes - sem malícia, entenda-se. Agosto tem estes predicados todos, mas o problema é o calor. O calor e a humidade. E o tufão. Qual tufão? Boa pergunta, mas sempre que o tempo está assim e mal se consegue respirar, a culpa é sempre "do tufão" - e não há maneira dele cá chegar. Gosta de chatear, é só isso. Mas quem olha para os termómetros e vê que no máximo fazem 32º celsius, vai pensar que estou a exagerar, mas o problema mesmo é a humidade. Ainda estou para saber que foi o sacrista que deixou a porta da sauna aberta. Um problema comum a outros países e territórios da Ásia, é certo, mas nesses pelo menos há sempre um sítio aberto onde corre uma brisa que seja, e aqui em concreto é só concreto (ena, esta foi boa, e saíu sem querer).

É lixado fazer planos com este tempo. Esta manhã só entrava depois das dez, e assim aproveitei para tratar de uns assuntos, ir a dois ou três sítios, aproveitar aquela hora para fazer os outros trabalharem para mim, só para variar. Sai-se de sítio "a" para "b", demora-se menos num do que no outro, e suam-se as estopinhas. O suor escorre que é um caso sério, e já prevenindo esta eventualidade trouxe comigo uma camisa para trocar, caso já tivesse perdido três quilos de peso em cima daquela com que saí de casa. Parei na entrada de um prédio ali para bandas do Mercado de S. Domingos, um lugar discreto e ideal para não dar muito nas vistas, e antes de vestir a camisa limpa aproveito para limpar o excesso de perspiração com a outra já suada. Olho para trás e está um palerma de um velho parado à entrada do prédio a olhar para mim, como se eu estivesse a praticar nudismo e se calhar fosse recomendável chamar a polícia, ou então "gostou de mim" - sabe-se lá, nem em Agosto os malucos tiram férias. Mandei-lhe um berro no meu melhor chinês rufia, que domino, de tão habituado que estou a ouvi-lo no dia a dia em toda a parte: "tai mei-ah???" (está a olhar para onde?). Pôs-se na alheta, o gimbra, e talvez eu tivesse reagido de cabeça quente; pudera, com o sol que já tinha levado em cima dela e ainda eram só nove e meia. Pelo menos deu para me recordar que ando a precisar de cortar a "gadelha".

Chego ao trabalho e ainda preciso de me sentar uns dez minutos e beber um litro de água gelada, enquanto me abano com qualquer coisa que dê para fazer de leque improvisado para voltar pelo menos à temperatura ambiente. Quando volto para casa enfio-me de imediato na banheiras, e apetece-me apertar o pescoço a quem se mete na frente e me faz demorar mais dois segundos nesse Inferno que é andar na rua. Isto preocupa-me, pois apesar de sempre ter sido calorento e nunca me ter conseguido habituar a este clima, ando mais sensível ao calor a cada ano que passa. Se fosse mulher diria que são aqueles sintomas que precedem a chegada da menopausa, os "afrontamentos", ou lá como se chamam. Ando com uns quilinhos a mais, sim, tenho negligenciado o exercício físico, confesso, mas não tenho bebido álcool assim por além (neste tempo sabem melhor os suminhos e a água com gás), e a última vez que medi a tensão estava tudo normal. Depois vejo os meus colegas a queixarem-se também, e mesmo aquelas sonsinhas que aproveitam a hora de almoço para andar às compras e não lhes escorre uma gota sequer pela testa abaixo diziam com um tom afectado que "estava muito calor". Que alívio, afinal não sou que estou doente, ou a morrer. Quer dizer, lá estar a morrer estou, estamos todos. No meu caso é mais grave ainda: estou a começar a ficar velho. Ou então ando com o RAM f... por culpa deste calor. Um calor do ca...

Figura da semana: Raymond Tam


O que são agora todas estas igrejas, senão túmulos e sepúlcros de Deus?

Friedrich Nietzsche

Tudo é artificial, pois só a Natureza é obra de Deus.

Thomas Browne

A vossa consciência é a verdadeira voz de Deus.

Rutherford Birchard Hayes

Se a graça de Deus se der por milagre, será por algum meio subliminar.

William James

O divino é a única qualidade do Homem que compensa a falta de um Deus.

Jean Rostand

A insconsciênciad do Homem é a consciência de Deus.

Henry David Thoreau




Vídeo da semana


O rebentamento de uma conduta de gás ontem à noite em Kaohsiung, na ilha de Taiwan, provocou 15 mortos e mais de 200 feridos. O gasoduto estava instalado poucos metros abaixo da superfície, e o vasamento que se deu provocou uma série de explosões em cadeia, algumas ocorridas já enquanto as equipas de protecção realizam as primeiras operações de socorro e procediam à evacuação das zonas de risco; alguns carros de bombeiros foram revirados pelas explosões, que além de destruirem o asfalto lançavam pedaços de metal e de concreto em todas as direcções. Imagens impressionantes que nos deixam a pensar que nem só do terrorismo e das catástrofes naturais chegam ser avisar este tipo de perigos.

O voo ligeiro do Rio Ave


O Rio Ave Futebol Clube, nobre emblema do norte e da cidade de Vila do Conde, teve uma estreia auspiciosa nas competições europeias, ao ir vencer na Suécia o IFK Gotemburgo por uma bola a zero. Os vila-condenses foram uma das sensações na época passada ao chegarem à final da Taça da Liga e da Taça de Portugal, que viriam a perder em ambas as ocasiões para o Benfica, mas graças ao facto dos encarnados terem entrado na Liga dos Campeões conseguiram o acesso à 3ª pré-eliminatóroa da Liga Europa. Orientado agora por Pedro Martins, depois da saída de Nuno Espírito Santo para o Valência, o Rio Ave marcou aos 22 minutos por intermédio do egípcio Ahmed Hassan, e fica em posição privilegiada para passar ao "play-off" da segunda maior competição de clubes da UEFA. Noutras partidas da primeira mão desta eliminatória destaque para as goleadas dos italianos do Torino, que venceram fora o também suecos do IF Brommapojkarna por 3-0, e dos franceses do Lyon, que foram à Rep. Checa bater o Boleslav por 4-1. O PSV Eindhoven não fez melhor que um magro 1-0 em casa frente aos austríacos do St. Pölten, enquanto o Hull City, que tal como o Rio Ave participa nesta ronda como finalista vencido da taça, não foi além de um empate sem golos no reduto do AS Trancin, da Eslováquia. No encontro que se previa mais equilibrado, a Real Sociedad venceu em casa por 2-0 os escoceses do Aberdeen. A segunda mão realiza-se já na próxima quinta-feira.



A Alemanha, sempre a Alemanha...


Portugal perdeu ontem na final do Europeu de sub-19 frente à Alemanha por 0-1, em partida realizada no Estádio Nacional de Budapeste, na Hungria. O único golo do encontro foi apontado aos 39 minutos por Hany Mukhtar, um jogador de 19 anos das escolas do Hertha de Berlim, nascido na capital da Alemanha em 1995 filho de refugiados sudaneses - pode-se dizer que a multiculturalidade ganhoua qui pontos a favor da Alemanha, e sim, para quem ainda tem dúvidas, Mukhtar é de facto muçulmano. Quanto aos jovens portugueses, que tiveram o seu quê de multicultural também, ficam pelo 2º lugar,e uma presença garantida no mundial de juniores da Nova Zelândia no próximo ano. Vamos ver se é dessa que tiramos a desforra completa.

PS: Peço desculpa pela pobre qualidade do vídeo. Aparentemente o campeonato da Europa de sub-19 reveste-se de uma importância tal que intimida os habituais "piratas" dos resumos dos jogos.