terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo (vulgo "gay")


Abomino histerias. E o casamento "gay" é histeria. Segundo dizem, recusar o casamento a pessoas do mesmo sexo é uma "discriminação". As pessoas dizem a palavra - "discriminação" - e esperam que eu me comova. Não me comovo. Claro que é uma discriminação. E daí? Todos os dias, a todas as horas, sobre as mais variadas personagens, a sociedade exerce as suas "discriminações". Se, por mera hipótese, eu pretendesse casar com duas mulheres, estaria impedido pela força da lei. Não será isto uma "discriminação"? Por que motivo o Estado impede que três adultos que se amam possam construir uma família em conjunto?

Arrisco hipótese: porque a sociedade estabeleceu os seus códigos de conduta, os seus símbolos, as suas "instituições". São estes códigos, estes símbolos, estas "instituições" que sustentam a vida em sociedade e não vale a pena questioná-los por cálculo racionalista. Acabamos por chegar a conclusões francamente lunáticas. Se o casamento passasse a ser um mero contrato baseado no afecto (a visão sentimental da tribo), não haveria nenhuma razão substancial para impedir todas as formas possíveis de casamento: entre pais e filhos; entre irmãos; entre duas mulheres e um homem; entre uma mulher e vários homens; etc.

É justo que duas pessoas do mesmo sexo que partilham uma vida em comum possam assegurar certos direitos sucessórios ou fiscais. Não é justo desmontar o casamento tradicional para acomodar o capricho de uns quantos. Pior: o gesto apenas abriria uma nova forma de "discriminação" sobre todos os outros - pais e filhos; irmãos; duas mulheres e um homem; uma mulher e vários homens - que são deixados injustamente à porta do matrimónio. Tenham juízo e, já agora, portem-se como homenzinhos.


João Pereira Coutinho, Expresso

Assino por baixo. Não concordo com os casamentos "gay", mas sou um democrata e aceito a vontade da maioria, de metade mais um. O problema é que nem isso têm. Aceito que queiram casar, que queiram usufruír dos mesmo direitos que qualquer outro cidadão. Mas o que parece ser o problema, é ao mesmo tempo a solução! Já usufruem exactamente do todos os direitos, e não perderam nenhum pelo facto de terem preferências sexuais diferentes. Aliás isto de mudar leis, instituições e conceitos com base nas preferências sexuais ou vida privada de cada um parece-me pérfido.

Na sexta-feira Fernanda Câncio escrevia que o casamento era "a última conquista" dos homossexuais. Assim como foi o fim da discriminação, e depois as uniões de facto, e agora o casamento. E não vai ficar por aqui. Depois vão ser as adopções e depois sabe-se lá mais o quê. Isto até ficarmos completamente convencidos que sim senhor, têm toda a razão, e quais mordomos de serventia fidalga, devemos voltar sempre para ter a certeza se não lhes falta nada.

Mas devo aqui reiterar que o que se passou na sexta-feira no Parlamento foi uma vergonha. Ver a lei do casamento dos homossexuais reprovada pelo governo socialista que fez do apoio a essa mesma lei uma das suas bandeiras, e logo com o apoio da direita. Mesmo sendo contra a lei, pela questão de princípio que referi acima, incomodam-me estas maquinações, estas jogadas de bastidores, e sobretudo toda esta hipocrisia.

Olhemos para o exemplo de Macau. O que não falta são homossexuais (entenda-se homens e mulheres) que assumem abertamente a sua opção. Sabemos quem são, conhecemos alguns casos, e basta caminhar todos os dias pelo Largo do Senado para saber que existem. Mas lobbies, há? Alguém fala nisso? Existe discriminação? Já veio alguma associação ou deputado dizer que os direitos dos homossexuais não são respeitados? Falar de casamento nem passa pela cabeça de ninguém. E curiosamente nem em Hong Kong. E não são felizes assim?

Na era do politicamente correcto, é difícil abordar este tema sem ser considerado "homofóbico", mesmo que seja para apoiar. Aceitam mal se alguém diz que aprova, pois consideram discriminação. Aceitam ainda pior quem reprova, pela mesma razão. Querem ser tratados como cidadãos normais, mas especiais. Não querem ser especiais, mas querem privilégios. Estão a perceber? Eu também não...

14 comentários:

Anónimo disse...

Isto do casamento gay é como o aborto: agora não passa, vêm mais dois ou três governos de caca, e daqui a uns dez anos lembram-se de aprová-lo. Depois vem a adopção, mesma fantochada. Em Portugal as coisas também se fazem, só que muuuuuiiito devagarinho.

Anónimo disse...

Casamento é um contrato entre um homem e uma mulher e que se destina a proteger os filhos e os viúvos. Não havendo filhos, não é preciso perder tempo com casamentos;
para o caso dos "viúvos gays" tem de haver uma legislação que facilite as heranças deles, senão tudo vai para os herdeiros da família.
Para isso não é preciso fazer um casamento e sim um contrato com base em lei específica.

João Gaspar disse...

Se, por mera hipótese, eu pretendesse casar com duas mulheres, estaria impedido pela força da lei. Não será isto uma "discriminação"?

a questão é que estaria ele o estaríamos todos nós, em igualdade de circunstâncias perante a lei. não, não é discriminação porque não há uma fracção da sociedade que pode e outra que não pode. mas poder casar ou não poder casar apenas com base no sexo já é discriminação. o acesso a um contrato com o Estado está impedido a alguns cidadãos apenas com base na sua homossexualidade. que se concorde com isso é uma coisa, mas comparar o incomparável é, da parte do JPC, intelectualmente desonesto.



...Isto até ficarmos completamente convencidos que sim senhor, têm toda a razão, e quais mordomos de serventia fidalga, devemos voltar sempre para ter a certeza se não lhes falta nada.


esta forma de falar(mos) em nós e eles, como se tivéssemos uma superioridade moral e social sobre "eles" e lhes fôssemos dar o que quer que seja é um dos grandes problemas. achamo-nos no direito de dar ou não dar direitos a alguém, direitos esses que nós temos, como se ficassem diminuídos por todos sem discriminação terem acesso aos mesmos direitos que "nós". o acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo não é dar nada "nosso" a ninguém, é simplesmente o corrigir de uma discriminação sem sentido.

o que se passou na AR foi a politiquice mais tacanha, rasteira e sem vergonha, principalmente do ps que tratará de apresentar esta mesma proposta se for governo na próxima legislatura.

as leis mudam-se e muitas vezes para melhor. neste caso específico a lei choca violentamente com a constituição

(Art. 13.º, nº2)
Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

a impossibilidade de acesso ao casamento civil por homossexuais é proibida na constituição e só subsiste na sociedade por pura homofobia. o resto são mariquices.

João Gaspar disse...

porra, isto ficou grande, desculpa lá.

;)


um abraço.

ludovico disse...

É-me indiferente que o casamento seja entre pessoas do mesmo ou de diferente sexo (até que seja entre pessoas). Se deputados aprovam uma lei, favoreça ela ou não os meus anseios, compete-me aceitá-la. E cumpri-la, nas circunstâncias em que se me aplicar.
Face à actual, e aliás muitíssimo circunscrita, discussão, aponto algumas curiosidades e ironias :
1) Há para ai 30 ou 40 anos, a juventude heterossexual em que me enquadrava (e eu, entretanto, só deixei de ser jovem) militava fervorosamente na abolição do casamento. Para quê, se se tratava de mero papel quando o ponto assente era que só o amor contava? Na velha luta da geração sixties “por um mundo melhor”, sem ódios nem discriminações, a aspiração resumia-se a um celestial “viver juntos”. Não quero jurá-lo (por falta de conhecimento adequado do meio) mas desconfio que as guerras dos gays (naqueles tempos, invertidos e fressureiras) se alinhavam lindamente com as dos straights.
Pois bem, no presente contexto homossexual, os que tanto batalharam pelo direito à diferença, pelos vistos correm agora atrás do direito a serem iguaizinhos a qualquer casal de mamas pela cintura e farfalhudo bigode.
Ao que li, em Espanha, a lei que passou a permitir o casamento de pessoas com o mesmo sexo originou cerca de 2.800 enlaces de cidadãos do mesmo género.
Há mais gente num jogo de hóquei em patins do Barcelinhos...
2) O primeiro-ministro português anunciou enternecedoras medidas com vista a minorar o sofrimento que é pagar impostos : assim, o igualitário governo concederá mais tempo e prestações mais suaves no pagamento das dívidas ao fisco e à segurança social. Os gestores que durante anos não entregaram o dinheiro que as empresas que geriram, ou ainda gerem, descontavam aos trabalhadores, podem respirar de alívio. Ah, mas note-se, tais medidas aplicam-se a quem deve, não a quem cumpre. Se isto não é uma deprimente, absurda, injusta e discriminatória medida, não sei o que é. Ah, mas a Constituição não o proibe.
3) O Presidente da Republica, em cada intervenção que faz, aponta os jovens como o “futuro de Portugal” e clama vigorosamente por apoios para as suas iniciativas empresariais, culturais e outras. Há velhos de 50anos que enfrentam burocracias, legislações laborais estupidamente rígidas, mercados em contracção, trabalhadores em cegas exigências e, mesmo assim, abrem empresas e criam emprego. Apoios para estes, a lei não prevê.
E embora o JPC tenha metido o pé na argola, isto não é mariquice minha, não senhor(a).
Cumprimentos
JS

Leocardo disse...

Sim senhor, é uma honra poder contar com comentadores deste calibre. Obrigado do João Gaspar e parabéns pelo seu blogue que sigo religiosamente, ao Ludovico pelo seu extenso e oportuno comentário, e ao anónimo pela sua análise realista e directa.

Anónimo disse...

Estou surpreendido que não tenham havido alguns comentários inflamatórios ou mesmo insultuosos. Pelos vistos os gays e os seus amigos não visitam o bairro.

homossexuali/ sim, paneleirice não disse...

Pois eu concordo a cento e tal por cento com o artigo de opinião de JPC. Se eu quiser casar com duas mulheres e elas comigo, não podemos, porque a sociedade definiu que o casamento é entre duas pessoas. Da mesma forma, se um homem se quer casar com outro homem não pode porque a sociedade definiu que o casamento é entre pessoas de sexo diferente.

Aquilo a que João Gaspar chama incomparável e intelectualmente desonesto, não é nada disso. Pelo contrário, é uma comparação perfeitamente lógica. E ao contrário do que João Gaspar diz (tal como o dizem todos aqueles que se renderam ao "politicamente correcto"), não há discriminação nenhuma no impedimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da mesma forma que não a há no impedimento do casamento entre três pessoas.

Vejamos: diz João Gaspar que no caso da proibição do casamento entre três pessoas não há discriminação porque estamos todos em igualdade de circunstâncias perante a lei, ou seja, o que ama uma mulher pode casar-se com ela, o que ama duas pode-se casar na mesma, mas só com uma. Como ambos podem casar com uma, não há discriminação. Então, pergunto-lhe eu, uma vez mais, se no caso da proibição do casamento homossexual não se passa exactamente a mesma coisa: eu amo uma mulher, posso-me casar com ela; outro homem ama um homem mas, tal como eu, pode-se casar com uma mulher. Onde é que está a diferença entre as duas situações?

Parece-me que anda por aqui gente a tentar ludibriar as coisas, talvez porque o lobby paneleiro das paradas gay já lhes deu a volta ao cérebro.

Esclarecimento: não sou homofóbico, as pessoas são livres de gostar daquilo que quiserem, mas politicamente correcto(hipocritamente correcto, para ser mais exacto) é que também nunca hei-de ser. Alguém gostar de outra pessoa do mesmo sexo é homossexualismo e não tenho nada contra. Agora andarem a dizer-se discriminados e fazerem manifestações e paradas de orgulho gay, já não é só homossexualismo, é paneleirice da pior.

Anónimo disse...

Sim, se aquelas paradas gay são o espelho do orgulho gay, então estes gays e lésbicas são a degeneração total da humanidade. Já imaginaram um mundo maioritariamente assim? Os nossos filhos vestidos daquela maneira e a espernear assim? Um nojo!
Há dias, vi na RTP as duas lésbicas portuguesas que andam a tentar casar-se há anos e chegaram a meter os papéis no notário, que recusou celebrar o acto. Ambas dão uma péssima fama à luta lésbica, de tão rascas que aparentam e falam. Uma delas tem um cabelo à teenager rasca, estilo moicano descuidado.
Estes Blocos de Esquerda e Juventudes Socialistas só defendem coisas destas. Não sei se é para chocar ou se é a mania da diferença e da libertinagem, mas já não há saco para estas reivindicações. Qualquer dia, ainda exigem benefícios fiscais e prioridade nas adopções para os paneleiros. E lá vamos ter que andar todos a declarar que somos paneleiros para pagarmos menos impostos. O pior é se os fiscais das finanças exigem que façamos prova da nossa condição.

Anónimo disse...

Entre um casamento ou o simples juntar os trapinhos, praticamente a unica diferença tem a ver com questões relativas a bens, como heranças, divisão de bens com o divórcio e outras que tais.
Portanto se dois adultos se querem casar, pois que casem.
sejam eles panascas, irmãos, pai e filha, gajos com duas ou mais mulheres e vice versa, etc.
Se são maiores e vacinados, por mim tudo bem.

Cada um que coma daquilo que gosta e que assuma os seus actos.

João Gaspar disse...

caro paneleirice não,

vamos por partes:
na discussão do politicamente correcto não entro (nem sei o que seja). penso o que penso sem ter a ver com modas políticas ou sociais.
hipocritamente correcto seria se estivesse a dizer o contrário do que penso, pelo que a boca me passou completamente ao lado.

esta questão, mais do que politicamente correcta, prende-se com o que seria constitucionalmente correcto (leia lá o artigo da constituição).

há um direito (acesso ao casamento) que está impedido a alguém com base na sua orientação sexual. isto é mesmo proibido na constituição, não fui eu que fui politicamente correcto e me lembrei de inventar.


sobre a discriminação, cito-o:

eu amo uma mulher, posso-me casar com ela; outro homem ama um homem mas, tal como eu, pode-se casar com uma mulher. Onde é que está a diferença entre as duas situações?

onde é que está a diferença?! (quer mesmo que eu lhe explique isto?) a diferença é que você casa com quem quer. um homossexual,APENAS pelo facto de ser homossexual, não.


sabe, há mesmo quem defenda isto sem ser hipócrita ou politicamente correcto. o único argumento hipócrita aqui é esse do "não sou homofóbico mas vão fazer as paradas gay para longe da minha vista."

e agora tenho mais que fazer do que discutir com anónimos e por isso vou deixar o bom blogue do leocardo fora desta discussão. tenho mail no perfil, se achar que isto merece mais discussão.

é que para quem assina como "paneleirice não", o mínimo que podia ter feito era deixar-se de mariquices e dar a cara.

Paneleirice Não disse...

João Gaspar: Na pergunta "Onde é que está a diferença entre as duas situações?" não fui suficientemente explícito. O que eu queria perguntar era: "Qual a diferença entre o impedimento de um homem poder casar com outro homem e o impedimento de um homem poder casar com duas mulheres ao mesmo tempo?". Se o primeiro homem, homossexual, é discriminado, o segundo homem, bígamo, é igualmente discriminado. Onde é que está, afinal, a tal desonestidade intelectual de JPC? A comparação está muito bem feita.

Mas claro, todos sabemos que neste século de idiotas que é o século XXI, tem de se defender tudo o que está na moda e condenar o que não está.

E parece que não entendeu em que sentido é que usei a palavra "paneleirice". Se aquelas paradas gay e o histerismo a propósito do casamento homossexual não são paneleirices, são o quê? Apenas homossexualidade? Pois saiba que tenho dois ou três conhecidos (um deles é mesmo amigo) homossexuais. E acha que fazem aquelas figuras ridículas e circenses que os paneleirões fazem? Não. Só sei que preferem homens porque os conheço, porque de resto são iguaizinhos a qualquer outro homem.

Eu posso gostar de coisas diferentes sem ter de o andar a mostrar a toda a gente, apregoando diariamente o meu orgulho. O que é isso do orgulho gay? Um homossexual tem de se sentir orgulhoso porque é homossexual? Essa é boa! Vou aproveitar a ideia e fazer uma parada de orgulho bígamo, mostrando a todos os que se contentam com apenas uma mulher que são uns frouxos e eu tenho muito mais motivos do que eles para me sentir orgulhoso das minhas preferências. Haja juízo. Quem se auto-discrimina são esses paneleirões que se vestem de mulher, de borboleta e de anjo e que se beijam ostensivamente e põem a língua de fora perante as câmaras de televisão nas paradas do orgulho gay...

Última nota: Para mim, João Gaspar é o mesmo que Paneleirice Não. Não sei quem é, da mesma maneira que não sabe quem sou. Que eu saiba, sou livre de escolher nome próprio ou não para comentar. Ou amanhã também vai fazer uma parada do orgulho onomástico, sentindo-se orgulhoso perante os comentadores que não usam nomes próprios? E vai-se disfarçar de quê? De anjo ou de borboleta?

João Gaspar disse...

esse argumento do "eu até conheço/tenho amigos homossexual" é demais para mim.

e joão gaspar não é igual a paneleirice não. não é melhor nem pior, é só diferente. posso até chamar-me maria joaquina, nunca saberemos. mas há o pequeno pormenor de ter ali um endereço de mail no perfil e um blogue se me quiser "encontrar". já eu se o quiser contactar não posso. é esse pequeno pormenor. mas esteja descansado que não farei qualquer parada de orgulho onomástico.

neste blogue pode assinar ou não, conforme lhe apetecer, e é coisa que não me chateia mesmo nada. pessoas que se escondem atrás de máscaras conheço muitas. muitos deles maricas.

Paneleirice não disse...

«esse argumento do "eu até conheço/tenho amigos homossexual" é demais para mim.» (sic)

Argumento? Era uma pequena informação sem importância de maior. Os argumentos estão no resto do comentário, só que foge a responder-lhes como o diabo foge da cruz.

Então também pode organizar a parada do orgulho bloguístico, porque tem um blogue. Um dia destes também crio um, para não me sentir diminuído. E peço-lhe ainda desculpa por só dar o meu e-mail a amigos. Talvez este meu egoísmo seja também "desonestidade intelectual", que é uma expressão muito na moda.