
Para quem é casado com uma menina chinesa, como eu, sabe muito bem o que é o “problema das amigas” no âmbito do relacionamento inter-cultural. As amigas da esposa. Ai, as amigas. Especialmente as mais jovens, as mais bonitas, as mais docinhas. São um mimo. Se o casamento fosse uma lista de compras escolhia sempre “a outra”. Se fosse uma sapataria onde se pudesse experimentar, melhor ainda. Mas não me entendam mal. Adoro a minha esposa, foi a melhor escolha que alguma vez fiz e não estou mesmo nada arrependido.
O pior mesmo é ter que conviver com as amigas dela. Acho algumas “o máximo”, outras nem tanto. Mesmo quando têm o desplante de casar e perder a graça toda, fico feliz por elas, vou ao casamento e dou um enorme abraço ao matulão sortudo, e pouco me interessa que ele seja um bilionário ou um ladrão de galinhas. Interessa-me é que sejam felizes. Da primeira vez que conheci “as amigas” cometi um enorme erro – fui igual a mim próprio. Fui igual a todos nós, no fundo. Temos a tendência de elogiarmos as pessoas que conhecemos e de quem gostamos, de as fazermos sentirem-se bem, à vontade. De lhes mostrarmos amizade e afeição.
Só que impera o Confucionismo e o Confusionismo. Passo a explicar. Na cultura chinesa, quando um homem conhece uma menina, mesmo que a ache bastante simpática, atraente e desejável, deve comportar-se como se ela fosse invisível. “Olha Wong, esta é a Man-Man”. O Wong acena ligeiramente com a cabeça, diz um “hello” forçado e olha para outro lado um segundo depois. A Man-Man retribui o “hello”, baixinho, olhando para o chão como se tivesse a ouvir um raspanete do director da escola por ter sido apanhada a roubar o giz. Apertos de mão nem pensar, e muito menos beijinhos.
Ao fim de uma semana pode ser permitido um ao outro conversarem sobre o tempo, se vai chover, ou se vai haver tufão. Ao fim do mês é possível que possam almoçar juntos. Caso nessa altura estejam ambos irresistivelmente atraídos um pelo outro, mesmo que ele sonhe em arrancar-lhe a
lingerie com os dentes e dar-lhe um banho de língua, e ela deseje ardentemente que o urso dele visite a sua caverna (desculpem se isto soa muito a Henry Miller), não devem quebrar o protocolo. Só de fim de alguns meses, ou mesmo um ano, se pode dar início ao namoro. Não se pode ir com muita sede ao pote sob o risco de dar a entender que as intenções são meramente carnais e desonestas (como se tal coisa existisse entre adultos). O Confusionismo passa por não seguir à risca estas regras, o que só vai dar confusão.
Claro que há mulheres fáceis, mas essas não contam. Quanto aos homens, são todos fáceis, e sabemos muito bem disso. O problema é resistir. Mas voltando à questão das amigas, tenho a sorte e ao mesmo tempo o azar das amigas da minha mulher serem as mais atraentes, as mais interessantes, e as que cheiram melhor. As mulheres em geral são as mais ciumentas, as mais desconfiadas, e as mais possessivas. Já se sabe como o maior pesadelo das mulheres é que outra tenha um vestido igual, uma mala igual, um sapato igual. É por isso que a moda anda como anda, cheia de bilionários. Os homens apresentam as namoradas aos amigos como quem diz “Olha, esta é a minha namorada, OK? Entendido? A minha”. Já as mulheres desvalorizam a conquista. É como se fosse uma peça de pescado ou de caça. Se uma amiga diz “O teu namorado é giro” ela responde “Nem sempre”. Se a amiga nos acha “engraçado”, ela acusa-nos de “estarmos sempre a fazer palhaçadas”.
Nas habituais reuniões das sextas ou Sábados (que evito cada vez mais de participar…), os outros homens, namorados das amigas comprometidas, mal abrem a boca, passam o tempo todo a olhar o ar, e lá de vez em quando anuem quando a namorada lhes pergunta alguma coisa. Olhar é como comer um bocado. Depois de um serão de bem-estar e enorme hipocrisia, a nossa cara metade acaba sempre por perguntar: "estavas a olhar para onde? eu não chego para ti?". São as amigas. Se calhar o melhor mesmo é adoptar esta estratégia, e olhar para o chão. Pode ser que lá se encontre uma nota de mil...