A apresentar mensagens correspondentes à consulta sr. morte ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta sr. morte ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sr. Morte - 死先生


Não está satisfeito com o seu apelido? Não gosta de se chamar Frasquinho, Charroco ou Pé-Curto? Pense um pouco nos pobres chineses cujos apelidos significam "zero", "fantasma" ou mesmo "morte". Um investigador de Jiangxi passou os últimos vinte anos a compilar apelidos fora do comum. Cheng Yinglian descobriu assim elementos da família Si (死), ou "morte", Liang (零), ou "zero", Yí (一), ou "primeiro" ou ainda Cui (醋), ou "vinagre" (esse também temos em português). Chen tomou interesse em descobrir apelidos "estranhos" quando há alguns anos leu num jornal uma notícia sobre um senhor Gui (鬼), ou "morte". A partir daí procurou apelidos raros em livros, jornais, e outras publicações, tendo já conseguido encontrar mais de 2000. A maioria dos chineses pertence às famílias Wang, Zhang, Li, Chen ou outra dos considerados "100 principais" apelidos. Os nomes continuam a ser revestidos de uma carga supersticiosa na China, e muitos casais procuram mestres de feng-shui antes de dar o nome aos filhos, cuidando para que cresçam fortes, saudáveis ou ricos. É permitido a um maior de 18 anos na China mudar de nome, e até de apelido. É provavelmente o que alguém faria se fosse conhecido por "Sr. Morte".

terça-feira, 19 de novembro de 2013

As noites loucas do sr. rato


Quinta-feira, 14 de Novembro. Depois de ter provado e reprovado a cenoura na noite anterior, penso em qualquer coisa de novo para oferecer ao sr. rato. No topo do frigorífico encontro uma caixa de pão de tosta, aberta há já algum tempo, e como nunca tentei oferecer-lhe pão, vai ser isso mesmo. Abro a caixa e reparo como as tostas ainda se encontram crocantes, hermeticamente seladas em pacotes de plástico, contendo duas cada. Parto uma tosta em pedacinhos, e como sei que o sr. rato não gosta de comida seca, deito-lhe em cima um fio de azeite, e como gosta de doces, um pacote de açúcar para completar o arranjo. Na manhã seguinte, a tosta com azeite e açucar continuava intacta, e não escutei nenhum movimento durante a noite. Este seria um daqueles dias em que sr. rato tinha ficado a fazer serão - ou neste caso, a fazer manhã. Vou trabalhar, depois logo se vê. Regressado pela hora de almoço, verifico que a tosta foi submetida à prova de sabor sr. rato. Aparentemente mordiscou alguns pedaços, os que estavam cobertos com açúcar, e não gosta de azeite. Conclusão: açúcar sim, azeite não, pão de tosta mais ou menos. É um finório, este sr. rato.

Sexta-feira à noite, opto pelo regresso aos clássicos, e deixo-lhe algo que vai gostar com toda a certeza: gomos de tangerina cortados em metades, com quatro quadrados de chocolate. Nessa noite escuto o sr. rato em tracção pelo sótão, e subitamente um estrondo, seguido de um guincho prolongado. Que diabo, o que teria acontecido? Queres ver que o sr. rato foi esmagado por alguma das caixas de livros ou CDs que tenho ali guardadas? Preferi não saber, e fui dormir. Na manhã seguinte confiro o prato com o Templo da Barra ao fundo, onde o sr. rato aprecia a minha culinária de fusão "bípede racional/quadrúpede roedor", e foi com grande satisfação (alívio?) que vi que o chocolate tinha passado à história, e restava metade da tangerina. Morto é que ele não estava, com toda a certeza. Subi até ao sótão para ver o que tinha acontecido na noite anterior, e não vi nada derrubado ou partido. Mistério. Do que não tenho dúvidas que o sr. rato é definitivamente um trapalhão. Um ratito torpe e desajeitado. E gosta de chocolate, e de açúcar, também. Será ainda um pequeno rato em idade escolar,um infante? Quem sois senhor rato. Revela a tua identidade e pode ser que te compre um chupa-chupa.

Nessa noite fui ao Festival da Gastronomia (tema de um "post" a publicar mais tarde) e voltei a casa às 10:30. Acendo a luz da cozinha, e surpreendo o sr. rato a limpar o prato com o desenho do Templo da Barra ao fundo. Passa mesmo em frente aos meus pés como um raio, e desta vez opta por fugir pelo ralo da casa-de-banho, uma das suas saídas/entradas predilectas. Que falta de educação, podia ter ficado para agradecer, ou pelo menos lavava as mãos. Como "limpou" o prato, lindo menino, hoje já não leva mais nada. Bonne nuit, Ratatouille. Dia seguinte, Domingo. Sacudindo a letargia típica das tardes de véspera de segunda, vou ao New Yaohan, inteirar-me das últimas novidades - fazia uns dois meses que não punha lá os presuntos. Das poucas coisas que comprei, e não, nenhuma delas foi presunto, destaco uma salada de sushi de salmão,soja, ovas e carne de caranguejo, assente num molho de couve picada que além de crua estava rija. Rija não, rijinha. Como não sou jumento nem búfalo, resolvi deixar as couves para o sr. rato essa noite, e juntei-lhe um pedaço de milho bebé que se havia partido em duas metades, outra das minhas aquisições nessa tarde. Fui dormir cedo, e nessa noite nem sombra do sr. rato. Manhã seguinte, dia de trabalho, couve e milho intactos.

E foi assim todo o dia de segunda-feira. Ou o sr. rato se ausentou por esses telhados do Tarrafeiro e arredores à procura de aventura, ou rejeitou a nova entrada do cardápio. Foi nessa noite que encontrei a resposta: ambas. Mas insisti; deixei lá a couve pelo segundo dia, e podia ser que a exposição aos elementos lhe conferisse um aroma e um sabor mais de acordo com os gostos do sr. rato. Talvez a frescura não seja a sua praia, e prefira a comida com uma relativa dose de fermentação. Fui dormir já depois da uma da manhã, e talvez inebriado pelo sono, esqueci-me de efectuar um procedimento a que me tinha habituado nos últimos dias: despejar o lixo, ou pelo menos dar um nó no saco preto, que por coincidência, estava especialmente cheio. Ainda não tinham batido as sete badaladas de terça-feira, e sou alertado por um enorme reboliço que se ouvia da cozinha. Regressado de um Domingo em que não se fez notar a sua existência, o sr. rato deparou com um banquete, como que a celebrar o seu regresso. "Uma lata de lixo cheia? Para mim? Não deviam..." deve ter dito ele em ratonês, enquanto enxugava uma lágrima do olho.

O que se passou a seguir, caro leitor, foi quase pornográfico. A forma como o sr. rato mergulhava no saco do lixo, rebolava por entre as cascas, latas, pacotes vazios e outras porcarias faziam uma orgia romana parecer um grupo de crianças do jardim de infância a darem passeios de pónei. O sr. rato pulava, remexia, enfiava-se até às profundezas do lixo - que por acaso era todo desse dia - e aproveitava para se emporcalhar ao mesmo tempo que comia. Atirou a lata do Red Bull para o chão, e consegui escutá-lo a empurrá-la com focinho, tentando aproveitar as gotas residuais do doce néctar. Ouvia-o a subir até ao cano do lava-loiça para ganhar balanço, e aí mergulhar novamente no lixo, como o Tio Patinhas nas moedas da sua caixa-forte. Era possível deduzir através do som do plástico que se enfiava dentro do comprido saco de pão-de-alho que se compra congelado no Park'n'Shop, e ia chafurdando nas migalhas que lá tinham ficado. "Sim, sim, é disto que eu gosto", parecia dizer ele em êxtase, "Quais couves, qual carapuça". E ria, ria um riso ultrassónico de rato que me penetrava nos tímpanos e me mantinha desperto enquanto a primeira luz do dia entrava pela janela do quarto.

Se foi tudo isto que me foi dado a perceber apenas pelo que escutei, imaginem o que seria se tivesse visto com os meus próprios olhos. As imagens que lá ficariam gravadas seriam de um grafismo tal que a própria terra se recusaria a comê-los, estimado leitor, a quem peço desde já as mais sinceras desculpas pela descrição tão explícita dos eventos desta terça-feira, que parecia uma terça-feira como outras tantas, mas que fica marcada pela promiscuidade do sr. rato, esse desenvergonhado. A mais pequena distração foi a morte do artista, e a vitória do sr. rato. Ganhaste desta vez ó vil criatura. Hoje tens um prémio. Mas isso fica para contar de uma outra vez.

sábado, 9 de novembro de 2013

Quem somos, realmente? Parte XVIII: vingança


Vingança, uma palavra forte. O próprio som da palavra dá a entender sangue, violência, tiros, cabeças cortadas, espadas atravessadas do abdómen às costas. Reparem na intensidade das palavras da família de “vingança”: vingativo, vingador, vingado. Convidam à poesia. É preciso não confundir a vingança com outras mariquices. Um tipo que dá um murro a outro que lhe bateu primeiro é uma simples retaliação. O indivíduo que atropela com o carro o filho mais novo do vizinho e lhe parte as pernas porque o outro lhe matou o gato é um ajuste de contas. o gajo que denuncia às autoridades a plantação de “cannabis” do vizinho porque este teima em receber visitas e ficar a ouvir Bob Marley toda a noite é um “queixinhas”. O fulano que fura os pneus do carro do colega depois deste ter contado ao chefe que andava a roubar lapiseiras do escritório é uma “vingançazinha”, nem chega a ser vingança, e dificilmente o castigo corresponde ao crime – não chega para se ficar vingado.

Vingança que é vingança implica um longo período de angústia, de dor, de humilhação, seguido de outro não menos longo período de recuperação, planejamento e preparação ao nível do corpo e da mente. Quem planeia uma vingança nunca o faz para daqui a pouco, para amanhã ou dentro de semanas. É um processo que pode demorar meses, anos, toda a vida, e pode mesmo nunca chegar a ser realizado. É um peso que se carrega no peito, que nos assalta a cada minuto, a última coisa em que pensamos quando vamos dormir e a primeira quando acordamos. Dizer que se tem “sede de vingança” diz muito pouco sobre o que é realmente a vingança. Devia dizer-se “ter dores de dentes de vingança”.

O cenário típico de vingança é aquele que apreendemos dos filmes de acção, Imaginemos o Mesquita, um cidadão médio a quem a vida corre bem, casado e com dois filhos lindos, uma menina adolescente e um rapaz de dez anos. Um belo dia estão em casa a viver as suas vidas de família como outra qualquer, e são assaltados por um gangue de seis ou sete indivíduos, que lhe violam a mulher e lhe cortam a garganta, rebentam os miolos ao miúdo e raptam a filha, vendendo-a posteriormente à escravatura sexual. Mesquita tenta resistir, mas entre um tiro numa perna, duas ou três facadas nas costelas e a mesa de vidro da sala despaçada na tola, é deixado à beira da morte. Quando chega a polícia, muito depois dos bandidos se terem posto em fuga, encontra-o num estado lastimável, com o rosto feito numa papa Nestum.

Segue-se um longo período de recuperação para o Mesquita, com a imagem da violência a que foi sujeito gravado na retina. Já em plena forma, aprende uma arte marcial ou compra uma arma de grande calibre, e depois de saber para quem trabalham os assaltantes, e para quem trabalham estes, e finalmente para quem trabalham todos estes, chega ao topo da hierarquia, a um tal sr. X. Este sr. X é um respeitável elemento da sociedade, o mais generoso contribuente do último peditório para o combate à paralisia infantil, e principal patrocinador da reeleição do presidente da câmara. Apesar do seu aspecto diabólico e fortuna de origem duvidosa, normalmente obtida através do tráfico de droga ou de pessoas e complementado pela fuga ao fisco, é respeitado por todos os cidadãos da comunidade, e está acima de qualquer suspeita.

Depois de limpar o sebo a 40 ou 50 capangas do sr. X com muito má pontaria e pouco jeito para a porrada, com o grau de dificuldade a aumentar à medida que vai chegando ao seu objectivo, Mesquita chega finalmente ao tão desejado face-a-face com a sua nemesis. Depois de um diálogo completamente desnecessário, onde cada um deles podia ter aproveitado o tempo para matar o outro, dá-se o confronto final, e depois de um combate equilibrado mas com uma inclinação para o vitória do sr. X, Mesquita parece derrotado. Quando o seu inimigo se prepara para desferir o golpe final, dá-se um volte-face, Mesquita reúne o que lhe resta das forças e derrota o sr. X, que tem uma morte horrível e poética, de preferência acrescentada de uma "punch-frase" a condizer.

Já todos assistimos a filmes com um argumento mais ou menos semelhante a este, e até conseguimos imaginar Bruce Willis ou Mel Gibson no papel de Mesquita, e Kevin Spacey ou Gary Oldman no papel de sr. X. A TDM tem exibido nos últimos meses a novela portuguesa "Vingança" - o título diz tudo - e nela temos Diogo Morgado no papel de vingativo e Nicolau Breyner como o objecto da sua vingança. O personagem de Diogo Morgado viu o pai ser morto a mando do personagem de Breyner, e ele próprio foi traído pelo filho deste, que o deixou dado como morto, a apodrecer numa prisão marroquina. A vingança é um dos ingredientes mais amargos da composição do género humano, uma comichão que só se alivia quando a vingança é finalmente concretizada. Só há uma coisa que me deixa incrédulo quando assisto aos filmes ou outras obras de ficção que falam de uma vingança. Quando alguém como o dr. X, com esqueletos no armário, fica finalmente face-a-face com o seu vingador, neste caso o Mesquita, diz sempre: "Mesquita...finalmente...estava à tua espera". Estava à espera? Não acredito. No mundo real, o sr. X ficaria borrado de medo, isso sim.


domingo, 12 de abril de 2009

A casa "violenta"


Um homem de Taiwan foi condenado a oito meses de prisão por ter vendido uma casa sem avisar o comprador que alguém se tinha suicidade nela. O tribunal distrital de Panchiao sentenciou ontem Lee Chiong-chui por não ter dito ao comprador, o sr. Chang, que a casa era "violenta" - uma expressão local que significa que ocorreu na casa uma morte não natural.

Lee comprou a casa em 2006 por apenas 4,68 milhões de dólares de Taiwan (pouco mais de um milhão de patacas), porque um residente cometeu suicídio por inalação de monóxido de carbono, queimando carvão. Um mês mais tarde vendeu-a por 5,45 milhões de dólares, com um lucro de 770 mil. Lee indicou "não" na parte dos papéis da propriedade que perguntava se era uma casa "violenta".

Depois de se terem mudado para a casa, os novos inquilinos foram informados do suicídio pelos vizinhos, e ficaram assustados. O sr. Chang alegou que a filha não conseguia dormir à noite, e a família inteira dormia nos sofás da sala, e nunca usava a casa-de-banho, onde se deu o suicídio.

Quando o sr. Chang confrontou Lee com os factos, este mentiu, dizendo-lhe que o residente queimou carvão na casa-de-banho, mas morreu no hospital. Juntamente com a pena de prisão, o tribunal ordenou que Lee ficasse com a casa, e devolvesse o dinheiro ao sr. Chang.

Segundo a tradição em Taiwan, uma casa onde tenha ocorrida uma morte não natural, é assombrada, e a maioria das pessoas têm medo de viver nela.

Segundo a lei, os vendedores devem informar os compradores desse facto. Se não o fizerem, o contrato será considerado inválido, e o comprador pode reaver o dinheiro, e processar o vendedor por fraude. É assim em Taiwan, em pleno século XXI.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O triunfo dos porcos


Para quem ainda não leu, fica aqui o artigo da edição de ontem do Hoje Macau.

Era uma vez uma quinta muito próspera, muito rica e auto-suficiente, que fazia a inveja de todas as quintas da sua região. Esta quinta era propriedade de um sr. Silva, um homem solitário e cruel, mas os seus animais residentes sonhavam com a autonomia, com uma quinta “governada pelos seus animais”. Um dia enquanto o sr. Silva bebia na cidade com os amigos, os animais reuniram-se no celeiro para ouvir o velho Major, um sábio porco por todos respeitado, que os incentivou em pegar nas armas e expulsar o malvado Silva. Só assim os animais iam poder usufruir de todas as riquezas que a quinta produzia, e assim ser felizes e dar um futuro melhor às suas crias. Ao proferir as últimas palavras de encorajamento aos animais, o velho Major faleceu, derrubado pelo peso da idade.
Assim que o sr. Silva voltou, inebriado como sempre, os animais, liderados pelos porcos, iniciaram o levantamento contra o tirano, e unidos derrotaram-no, expulsando-o da quinta, oxalá para sempre. Os animais celebraram a liberdade agora conquistada, e começaram a planear o futuro. Na porta do celeiro da quinta foi escrita uma mini-constituição com sete pontos, sendo o mais importante aquele que definia o propósito daquela gloriosa revolução: “Todos os animais são iguais”. O futuro era risonho, e estava finalmente na mão dos animais, e não de um qualquer explorador que os oprimia.
Dos animais que lideraram a revolta contra o sr. Silva, houve dois que se destacaram pelas suas capacidades de liderança: os porcos Chu-pa-pao e Siu-iok-pao. O primeiro era um visionário, e tinha projectos para a quinta, que passavam pelo aumento da produção e o contributo igual de todos para o bem comum. Um projecto ambicioso a que Chu-pa-pao dedicava a maior parte do seu tempo, acreditando na utopia da igualdade entre todos os animais, sem distinção de espécie, tamanho ou função. Siu-iok-pao, por seu lado, era um porco mais astuto, menos inteligente mas com o dom da oratória, um estratega sem escrúpulos, dotado de uma ideologia que receberia a reprovação do velho Major.
Após a revolução Siu-iok-pao adoptou uma ninhada de cachorrinhos que tinham ficado órfãos da mãe, a cadela doméstica do sr. Silva, caída em combate durante a revolução. Rapidamente os cãezinhos cresceram e tornaram-se em mastins ameaçadores, fiéis ao seu pai adoptivo. Siu-iok-pao, matreiro e calculista, chamou para o seu lado outros porcos, e todos conspiraram contra Chu-pa-pao com o objectivo de chamar para eles o poder absoluto sobre a quinta. Chu-pa-pao foi morto pelos mastins após anunciar a construção de um moinho de vento que traria mais riqueza para todos, e os porcos convenceram os outros animais que se tratou de um contra-golpe do sr. Silva e dos seus amigos humanos. Siu-iok-pao foi aclamado como líder natural da quinta.
Os dias passavam e os animais trabalhavam para o bem da quinta, ignorantes da ambição desmedida de Siu-iok-pao e dos restantes porcos. Um dos animais mais produtivos era Ma-chai, um elegante e robusto cavalo, que fazia o trabalho pesado da quinta em nome da consolidação da liberdade conquistada a tanto custo. Trabalhador dedicado e incansável, apoiante incondicional do plano dos porcos, que julgava ir de encontro ao tal bem comum que todos ambicionavam. Os restantes animais, a maioria deles humildes e analfabetos, davam também o seu contributo da melhor forma que podiam. O pessimismo de alguns, como Benjamim, um velho burro sábio, contrastava com o optimismo dos restantes, que confiavam nos seus líderes suínos para levar o projecto da emancipação dos animais a bom porto.
Um dia Siu-iok-pao ordenou a construção do moinho, chamando a si a autoria da ideia de Chu-pa-pao. Mais uma vez os animais não pouparam esforços para cumprir mais esta empreitada, mas num dia de chuva e muito trabalho duro, tragédia, uma pedra cai sobre a perna de Ma-chai, tornando-o impossibilitado de trabalhar. Os porcos prometeram tratar bem do seu elemento mais valioso, que tanto contribuiu para o progresso da quinta, mas A-Mui, a burrita companheira de Ma-chai, viu-o a ser levado para uma fábrica de cola, para seu choque. Fei-chu, um porco poeta, braço direito de Siu-iok-pao e seu porta-voz e propagandista-mor, anunciou aos animais a morte de Ma-chai, que teria dedicado a Siu-iok-pao e ao Governo dos porcos as suas últimas palavras. Os animais desconfiaram, sentiam-se traídos e começavam a duvidar da prosperidade que lhes havia sido prometida. As primeiras a amotinarem-se foram as galinhas, que por causa isso foram executadas, servindo de exemplo para os restantes. O sonho estava desfeito. Tudo não tinha passado de uma ilusão.
Os porcos subverteram os valores da revolução, e contra os mandamentos da quinta começaram a adoptar o modo de vida dos humanos: bebiam álcool, dormiam em camas e usavam roupas, e começaram a andar em dois pés. Esmagavam pela força qualquer tentativa de sublevação, silenciavam opiniões incómodas, e negociavam com os humanos, que antes consideravam inimigos figadais dos animais. O último sacrilégio foi cometido quando alteraram o princípio fundamental da revolução, alterando a directiva mais importante da constituição. Onde se lia apenas “Todos os animais são iguais” lia-se agora a emenda “…mas alguns são mais iguais do que outros”.
Enquanto os porcos consolidavam cada vez mais o seu poder, a vida era cada vez mais difícil para os outros animais. Não só os poleiros e os estábulos eram cada vez mais caros, como os preços dos bens que eles próprios produziam estavam cada vez mais inflacionados, e o ar da quinta cada vez mais poluído, apesar dos cigarros e charutos serem apenas um privilégio dos porcos e seus amigos . Faltavam creches para os vitelos, chibos, borregos, potros e pintainhos, e a economia da quinta estava completamente dependente de uma “porcaria” que tinha sido trazida pelos anteriores donos humanos, e que os porcos tinham sabido usar em seu proveito para enriquecer. O sr. Silva era agora um parceiro de negócios dos porcos.
Ao contrário da alegoria de Orwell, esta é uma narrativa aberta. O último capítulo ainda não está escrito, e cabe aos porcos e aos restantes animais trabalharem juntos para dar a este conto um final feliz, sem ressentimentos, contagem de espingardas e sem uma nova revolução, que é uma coisa que a quinta não precisa. O que a quinta precisa é que os animais voltem a ser todos iguais, e que uns não sejam mais iguais que os outros.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os blogues dos outros


Por diversas vezes, ante alguns ataques movidos contra as posições da Igreja Católica, estive para vir a terreiro defender o direito da mesma a manifestar a sua opinião e a reforçar a validade dos seus dogmas religiosos - que são, no fundo, o seu sustentáculo. Porém, também nunca tive dúvidas que a Igreja Católica, enquanto representação humana, nem sempre é o retrato fiel da crença que a alimenta. Se, por um lado, João Paulo II verdadeiramente dignificou a fé cristã em todo o mundo e foi um Papa razoável, ponderado e visionário; por outra banda, Bento XVI parece viver alheado da realidade e, regra geral, não tem prestado um bom serviço à causa cristã. Inacreditáveis as declarações que tem proferido em África sobre o uso do preservativo! Tal como diria Mahatma Gandhi, “I like your Christ, I do not like your Christians. Your Christians are so unlike your Christ."

VICI, MACA(U)quices

Procuro sempre respeitar ao máximo as convicções religiosas de toda a gente, mas existem coisas que me tiram do sério. Um bom exemplo disto são as recentes declarações do Papa onde afirma que o uso do preservativo não é a resposta adequada para se combater a Sida no continente Africano, propondo a abstinência sexual. Isto vindo de uma pessoa com tal cargo e influência social reflecte um total alheamento da epidemia que grassa em África bem como um profundo desconhecimento da natureza humana.

El Comandante, Hotel Macau

Para combater as doenças sexualmente transmissíveis, a ICAR faz a apologia da abstinência sexual, mas nem todos podemos ser padres (mesmo esses…) e se seguíssemos à risca essa recomendação, a espécie humana entraria rapidamente em vias de extinção. A ICAR condena o uso do preservativo e, de um modo geral, de qualquer método de controlo de natalidade. Mas, ao tentar influenciar o abandono do preservativo, a ICAR comete um acto lesivo da protecção da vida. Tanto mais grave, quando esse apelo é dirigido a povos africanos, as principais vítimas da pandemia da SIDA precisamente devido à manutenção de comportamentos de risco, entre os quais, as relações sexuais desprotegidas. Curiosamente, alguns cardeais e bispos e muitos padres e missionários católicos não têm rebuço em desobedecer ao Papa. Eles sabem, em consciência, que este tipo de apelo apenas contribui para a expansão das doenças. Infelizmente, há milhões de pessoas, em todo o Mundo, que seguem à risca os ditames da ICAR. Em países como, por exemplo, as Filipinas, Timor-Leste ou Brasil, onde as populações são predominantemente católicas e crentes na infalibilidade das palavras papais, condenar o uso do preservativo pode ser, mesmo, uma condenação à morte. Em África, 25 milhões de mortos exigem outra ética menos dogmática.

CN, Escrita em Dia

Para Bento 16, 22 milhões de miseráveis não passam de almas que aguardam baptismo e o bilhete para o Paraíso, mas para quem não tem empedernido o coração pela fé, para quem sente alguma solidariedade com a dor, para quem desespera com o sofrimento, não pode tolerar-lhe que despreze a distribuição de preservativos como medida acertada. Por mais frio e insensível que a sotaina o tenha tornado, por mais ódio que a castidade lhe tenha instilado, por maior cegueira a que as leituras pias o tenham conduzido, não pode dizer às pessoas condenadas para não se protegerem e aos jovens enamorados para praticarem a castidade. A viagem de um dignitário religioso que a propaganda se encarrega de apresentar como sábio e a ignorância tribal de acreditar como bondoso, em vez de ajudar à melhoria dos níveis sanitários, contribui para aumentar a mortalidade. Não sei em que consiste a terapêutica prescrita pelo autocrata: “um despertar espiritual e humano” e a “amizade pelos que sofrem”. Sei que a distribuição de preservativos é – contrariamente à mentira que afirma – a solução mais comprovada cientificamente e a de resultados mais sólidos na contenção da dramática epidemia. Assassino não é apenas aquele que dispara a arma para causar a morte, é também o que usa a ignorância para impedir a vida.

Carlos Esperança, Diário Ateísta

As manifestações são uma forma de um grupo de cidadãos, muito ou pouco numeroso, protestar, defender o que entendem ser os seus direitos, pressionar o poder a favor de uma reivindicação. Podem também servir para influenciar a opinião pública e é esse o caso de muitas das manifestações que ocorrem em Lisboa. Neste aspecto as manifestações têm evoluído. Já não se organizam manifestações para incomodar a população de Lisboa, lançando a confusão no trânsito, os nossos sindicalistas perceberam que era má estratégia. Agora as manifestações visam passar a mensagem na comunicação social, fazem-se manifestações a contar com editoriais do director do Público, com os orgasmos da Manuela Moura Guedes e até com os posts do Abrupto de Pacheco Pereira.

Jumento, O Jumento

A construção do aeroporto de Alcochete "pode esperar, pelo menos, 10 anos", disse-me esta manhã um especialista alemão em estudos de viabilidade de aeroportos. O meu interlocutor adiantou que o aeroporto da Portela "serve perfeitamente as necessidades actuais, tendo em conta que relativamente ao ano passado o tráfego caiu 3,9 por cento". Com a crise mundial enraizada "para os próximos cinco anos, não existe qualquer necessidade de construir o aeroporto de Alcochete, correndo Portugal um grave risco de endividamento brutal das gerações vindouras", acrescentou o especialista alemão. Só o ministro Mário 'Jamé' Lino e a sua partner Ana 'Pontes' Vitorino é que não entendem isto...

João Severino, Pau Para Toda a Obra

Quando o merceeiro, o Sr. Hildefonso, partiu para a terra na sua carrinha Ford a deitar fumo pelo escape, as velhas da rua comportaram-se como viúvas. Já tinha reparado no à-vontade com que desfiavam os rosários das suas vidas enquanto o Sr. Hildefonso pesava a fruta, sempre de olhos na televisão durante a missa, ou de ouvido na Renascença durante o terço. Apesar desta surdez, e a avaliar pelo desprezo com que as velhas passaram a exibir os tróleis de compras frente ao novo lugar de fruta do chinês, alguma coisa lhes faltava. Mas Deus sabe que é difícil ignorar o chinês. Começou por impressionar a rua com a diversidade de fruta, tudo entre 20 e 40 cêntimos o quilo. Depois, foi visto várias vezes a encher os sacos dos mais necessitados com quilos de fruta que não cobra. Eu própria vi a albanesa com o miúdo ranhoso e o paquistanês sairem da loja às vénia e arrecuas, a protestar em linguajares estranhos, com os sacos carregados de laranjas. Oferta do chinês. Aos poucos, as velhas foram-se chegando à frutaria e hoje já as vi lá dentro, agarradas aos tróleis, a gesticularem os rosários da suas vidas com o chinês. Este, entretanto, passou a ter nome: é o Sr. Chow. O Sr. Chow não percebe uma palavra de Português, mas acena que sim com a sua cara bondosa. Tal e qual como o Sr. Hildefonso, mas com a fruta muito mais barata.

Cristina Ferreira de Almeida, Delito de Opinião

Cada vez que vai ao Parlamento, José Sócrates apresenta mais uma meia dúzia de medidinhas. Estas aplicam-se à prestação da casa do desempregado há mais de 5 meses e 3 dias, às mulheres com filhos a cargo com marido desempregado, aos filhos de mães solteiras sem uma perna ou ao passe social dos filhos de casais em que um dos membros é desempregado de longa duração, desde que façam prova de não possuir mais do que um automóvel. Em resumo: uma salgalhada de beneficiozinhos que estimulam o interesse dos beneficiários por dinheiro ganho a trabalhar e que desincentivam qualquer tipo de subsidiodependência. Está de parabéns o Primeiro-Ministro.

João Miranda, Blasfémias

Mais estranho do que um primeiro-ministro que se parece comportar como se fosse a oposição da oposição, só mesmo um primeiro-ministro que, passando os dias a reclamar contra os maledicentes e os bota-abaixo que não apresentam soluções, passou a última semana a apresentar propostas da oposição que há muito vinha rejeitando. Não só o Provedor do Crédito hoje anunciado não anda muito distante da reciclagem do Mediador do Crédito defendido pelo PP, também a comissão máxima para a transferência de PPR e a redução na prestação do crédito à habitação para as famílias com desempregados, já tinham sido apresentadas há vários meses pelo Bloco de Esquerda. A táctica é sempre a mesma. Malhar nas “irresponsáveis” propostas dos outros partidos, aproveitar todos os palcos para dizer que a oposição não tem nada para dizer ao país e, passados uns meses, apresentar como grande novidade e a derradeira solução contra a crise o que o que até aí era irresponsável e leviano. Não se pode dizer que o truque seja mau. Começa é a dar nas vistas.

Pedro Sales, Arrastão

A Escola Básica de Lagoa Negra, em Barcelos, arranjou forma de formar uma turma de ciganos a maioria deles atrasadíssimos em relação ao que, em função da idade, seria de esperar. Essa turma foi instalada num pré-fabricado (coisa absolutamente irrelevante). Aqui d'el rei que há discriminação, dispara um autarca. Não, responde a DREN, que há discriminação positiva e integração social. Claro que há discriminação e há integração social. Há discriminação negativa de todos os alunos que não dispuseram do apoio que têm os ciganos e não vem, por aí, nenhum mal ao mundo. Há integração social dos ciganos porque, pelo menos, passam-lhes professores a curta distância. Mas há outra discriminação mais insidiosa, negativa para todos, de formas diferentes e que tem a ver com o "currículo alternativo". Os alunos normais (não tenho qualquer problema com o termo, como também não tenho em relação à opção heterossexual como sendo do mesmo tipo) terão que partir a cabeça (dando de barato que aprendem o necessário) para conseguirem passar de ano (aquilo a que agora se chama "transitar"). Os ciganos aprendem (?) umas coisas e estão passados. Os alunos normais tenderão a não perceber porque terão que se esforçar mais que os outros para obter a mesma classificação e tenderão a seguir a via dos ciganos porque o sistema lhes garantirá uma "alternativa" com o mesmo resultado que, embora falacioso, é, nas suas cabeças, compatível. Os ciganos não virão a perceber porque continuarão a ser "discriminados" mesmo tendo a "mesma" escolaridade. E depois há os idiotas que querem misturar os ciganos nas outras turmas como forma de "integrar", imunes à hipótese de perceberem que a probabilidade de abandalhamento geral é monumental e que nem os ciganos aprenderiam o (pouco) que podem aprender, nem os normais que conseguem, apesar de tudo, aprender mais.

Range-o-Dente (?), Fiel Inimigo

Do dia de ontem aprendi uma coisa: Fitzl nunca recebeu uma prenda de dia do pai.

João Moreira de Sá, Arcebispo de Cantuária

domingo, 27 de abril de 2014

Coreia do Norte: o país das maravilhas


A menina Kim portou-se bem, e ganhou um quilo de peixe.

Durante uma das suas visitas à seclusa República Democrática da Coreia do Norte, o jornalista Eric Lafforgue teve oportunidade de trocar impressões com a sua guia, a menina Kim (que original), que devido à sua "aderência incondicional aos princípios do partido", tem a liberdade de conversar com os estrangeiros. Desta forma, deu-nos a conhecer um pouco mais do que pensa a população do país mais isolado do mundo, que é ao mesmo tempo o mais feliz do planeta. Já diz o povo: "olhos que não vêem...".

Porque é que a música "pop" anglo-saxónica não chega ao vosso país?

'Porque não gostamos; aqui ouvimos sobretudo Mozart, Bach e Beethoven!'

Qual é o critério de beleza na Coreia do Norte?

'A mulher deve ter olhos grandes, nariz alto, boca pequena, pele branca, e não deve ser demasiado magra. As mulheres na Coreia do Norte são como lindas flores!'

As mulheres na Coreia do Norte acham Kim Jong-un atraente?

'Sr. Eric, essa pergunta é inoportuna!'

Porque é que ninguém pinta o cabelo na Coreia do Norte?

'Precisamos de cumprir os regulamentos no que toca ao corte de cabelo. Mudar de cor ou de forma é a última coisa com que nos devemos preocupar'

Têm alguma noção sobre as novidades da moda na Europa?

'Não, Sr. Eric.'

Sabias que os jovens usam calças rasgadas...

'Não acredito Sr. Eric - só pode estar a brincar'

Gostavas de ter um carro, um dia?

'Não, os carros tornam as pessoas preguiçosas'

Quem é a pessoa mais rica na Coreia do Norte?

'Somos todos iguais'



A higiene, antes de mais nada.

O que acontece se um sul-coreano atravessar a fronteira e vier para o norte?

'É bem recebido'

E se um norte-coreano passar para o sul?

'É abatido'

Porque é que as mulheres não andam de bicicleta em Pyongyang?

'É perigoso, e faz mal às pernas'

Mas então porque é que no interior quase todas as mulheres andam de bicicleta?

'Não têm outra escolha...'

Quem era, para ti, Kim Il Sung?

'Sr. Eric, só lhe posso dizer que ele era o pilar do meu coração'

Porque é que dão luvas de plástico a quem come hamburguers nos restaurantes de "fast-food"?

'É que ainda não nos habituámos a ficar com as mãos sujas quando comemos'



Com os cumprimentos do Querido Líder.

É verdade que foi Kim Jong Il quem inventou o hamburger?

'Sim, é verdade! Em 2009!'

Onde estavas durante a grande fome?

'Preferimos chamar a esse período "marcha árdua"'



Uma prenda? Assim de repente...o Grande Líder.

Queria dar-te uma prenda. O que gostarias de receber?

'O Grande Líder Kim Jong-un seria uma excelente prenda'

Lembras-te do dia em que Kim Jong-il morreu?

'Sim, o nosso Querido Líder Kim Jong-il morreu num Sábado, mas a sua morte só foi anunciada na segunda-feira'

Porquê?

'Porque o seu último desejo foi não fazer as pessoas tristes ao Domingo, dia de folga'

O que estava a fazer Kim Jong-il antes de morrer?

'O Querido Líder estava a assinar um documento a ordenar que se distribuísse um quilo de peixe por cada habitante de Pyongyang'

E tu recebeste o peixe?

'Claro que sim, Sr. Eric!'


sábado, 20 de julho de 2013

Fong passa aos actos, "português" executado na China


Eu até sou mansinho, mas não me pisem a cauda...

1) O deputado Fong Chi Keong voltou a estar em destaque, e desta feita não foi pela habitual verborreia a que já nos habituou durante as suas intervenções na AL. Antes de falar de mais esta tropelia do sr. deputado, convém localizar o espaço e o tempo. Um grupo de residentes do edifício Flower City, na Taipa, queixa-se de uma série de obras realizadas nos últimos meses no supermercado Park’n’Shop, situado numa das areas comerciais térreas junto ao condomínio, alegando que a alteração da estrutura que sustenta o edifício coloca em perigo a sua estabilidade. Durante os protestos, os locatários colocaram cartazes mencionando Fong Chi Keong, proprietário da companhia de construção “Man Kan”, responsável por ter erguido o Flower City, e fala-se de um conluio com o bilionário honconguense Li Ka-Shing, proprietário do grupo a que pertence o Park’n’Shop. Um irritado Fong Chi Keong já havia pedido aos residentes do Flower City para retirarem os cartazes e desistirem do protesto – sem que no entanto apresentasse uma solução alternativa às preocupações dos residentes daquele bloco de apartamentos na Taipa. Na noite de quinta-feira o próprio dirigiu-se ao local acompanhado de alguns subordinados e retirou os cartazes, um comportamento que alguns dos manifestantes equipararam ao de uma tríade. O caso mereceu a condenação da opinião pública, e teve honras de editorial na edição de ontem do Hoje Macau. Sem dúvida que fazendo uma análise superficial da ocorrência dá para concluír que o sr. deputado perdeu a cabeça, ignorando os mais básicos princípios da diplomacia e do primado da lei que devia cumprir como legislador, dando um bom exemplo. Mas por outro lado, qual é a novidade? Para Fong Chi Keong, bem como outros empresários, continuam a tratar Macau como o seu clube privado e os seus residentes como serventes, que devem ficar é quietinhos e caladinhos se sabem o que é bom para a tosse. Mais um exemplo de como a promiscuidade entre a política e o mundo emprasarial produz efeitos desastrosos. Não surpreende que Fong confunda a imunidade que goza como deputado da AL com impunidade. Afinal a diferença é apenas um “p” a mais ou a menos.

2) Um cidadão português foi executado na China, quatro anos depois de ter sido condenado à morte por tráfico de droga. A notícia foi capa na edição de ontem do Ponto Final e mereceu destaque nos serviços noticiosos da Rádio Macau. Os mais desatentos poderão pensar que se trata de algum Joaquim da Silva de A-dos-Cunhados que foi apanhado no continente com um pacote de “doces” e acabou à mercê da justiça chinesa, que não é bem vista de todo aos olhos do Ocidente, muito graças ao registo de condenações à pena capital, em maior número que todos os restantes países do mundo, Na realidade este “português” chama-se Lau Fat-wai, tinha 53 anos e nasceu em Cantão. Adoptado na infância por uma família chinesa de Macau, adquiriu a nacionalidade portuguesa, passaporte incluído, mas é seguro arriscar que não falava português, nem tinha muitos pontos em comum com a nossa cultura. A família fez o que lhe competia, apelando à diplomacia portuguesa, mas debalde, pois o desfecho foi este, e só surpreende pelo facto da execução se ter realizado em Fevereiro último, e só agora tenha chegado ao conhecimento da imprensa e quiçá da própria famíilia – não existem indícios de que já soubesse da morte do seu parente. É complicado para a diplomacia portuguesa lidar com estes casos quando o passaporte português se atribui de forma tão generosa; nos atendados de 11 de Setembro em Nova Iorque muitos dos terroristas que o levaram a cabo detinham o passaporte nacional. Em todo o caso nunca é demais recordar: cometer crimes desta natureza que possam resultar numa condenação à morte nestes países é sempre uma opção arriscada. Não há passaporte que se sobreponha à lei dos países onde são cometidos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ó tu que fumas


O tabagismo voltou a ser debatido ontem na Assembleia Legislativa, nomeadamente a controversa proibição do fumo nos casinos, esse jardim florido frequentado por famílias respeitáveis e corredores de fundo. Esta discussão é completamente fútil, e quem está convencido que faz alguma diferença a quem frequenta um estabelecimento de jogos de fortuna ou azar que se fume ou não, está a ser teimoso. Já repararam bem na aparência dos indivíduos que frequentam os casinos e casas de apostas? Os seus modos, os palavrões que saem da sua boca, o estado em que deixam os lavabos? Só podem estar a brincar.

De entre os deputados do hemiciclo, até é possível que haja quem esteja genuinamente preocupado com a saúde dos cidadãos, queira poupar os não-fumadores que frequentam os casinos ao fumo passivo, ou simplesmente ache que a indústria do jogo não devia ser excepção quando todos os outros espaços proíbem na totalidade o fumo. E depois há alguma hipocrisia. A deputada Angela Leong, por exemplo, diz-se a favor da proibição na totalidade do fumo nos casinos e apresenta a espaços algumas propostas. Sendo a sra. deputada uma empresária do ramo do jogo, sabe perfeitamente que uma medida deste tipo lhe traria mais prejuízos que benefícios, e custa acreditar que a apoie. Se dá a entender que sim, é porque tem consciência que dificilmente se concretizará.

Mas como vem sendo hábito nestas discussões mais acaloradas que convidam à opinião mais extravagante, a estrela foi Fong Chi Keong, o deputado eleito pela via indirecta dos interesses empresariais. O sr. deputado defende que o tabagismo “não reduz a esperança média de vida”, que isso não passam de disparates para assustar os fumadores, e ilustrou com o exemplo do camarada Deng Xiaoping, que “fumou toda a vida e viveu até aos 90 anos”. Fong foi ainda mais longe, usando ele próprio como exemplo: “fumo desde jovem e tenho os pulmões limpos!”, aniquilando de uma vez as conclusões de anos de pesquisa e avultados investimentos na investigação da relação entre o tabagismo e a morte prematura. Não conheço o sr. Fong Chi Keong e muito menos tive o prazer de me encontrar com Deng Xiaoping, mas posso falar do meu pai, que pereceu aos 51 anos vítima do hábito que o sr. deputado tanto estima e defende com unhas e dentes. Mas também que parvoíce a minha, o meu pai trabalhava que nem um mouro, enquanto o empresário Fong nasceu rico, nunca pregou um prego na vida e recorre aos melhores especialistas que o dinheiro pode comprar quando é acometido de uma simples gripe.

Tenho um colega chinês que domina perfeitamente o portaguês que comparou Fong Chi Keong a um “professor”, pela forma como apresenta as suas teorias mais descabidas. Eu ia mais longe: é um poeta, um filósofo e um santo. É como se o Padre António Vieira tivesse voltado dos mortos, mas com o cérebro devorado pelos vermes. Eu nem levo o sr. deputado a mal, que ele faz o que pode, e só está ali para tratar da vidinha dele e o resto são tretas. Ele gosta de fumar e até hoje ainda não morreu, portanto aquilo não pode fazer mal a ninguém. Que parvoíce. Se gostasse de bestialidade, pornografia com animais, até dizia que as vaquinhas sentiam prazer e atingiam o orgasmo. Não se deixem enganar por aquela carinha de tanso, que ele está ali para nos orientar no bom sentido, para que não sejamos enganados por esses tipos que dizem que o tabaco faz mal e não sei quê. Uma vez que não concorre às eleições de 15 de Setembro, nem pela via directa nem pela indirecta, que seja nomeado pelo Chefe do Executivo para mais um mandato, onde nos vai generosamente transmitir os seus vastos conhecimentos durante mais quatro anos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Os crimes do sr. Procurador



Ho Chio Meng, ex-procurador do Ministério Público de Macau detido em Fevereiro último vai a julgamento no próximo dia 5 de Dezembro, e responderá por 1536 crimes (mil quinhentos e trinta e seis). Isso mesmo, a pessoa que durante 15 anos esteve encarregada de levar os criminosos à justiça, pode afinal ser mais "criminoso" que eles todos juntos. Quem tome conhecimento de uma bizarria destas sem saber exactamente o que se passa em Macau, é capaz de achar irónico. É mesmo possível que aquelas pessoas que andam descontentes com a vida - e são bastantes, cada vez mais - aproveite para reiterar a cantiga do coitadinho, de como "isto está cada vez pior", e "a começar pelos políticos", etc. etc.. Lamentável, foleiro e patético. Em muitos casos o problema é dor de cotovelo, provocada pela falta de um "tacho" onde se agarrar. O caso do procurador trata-se de mais um sintoma de uma doença crónica de que sofre o sistema judicial em Macau: o síndrome palaciano-imperial.

É difícil de conceber que o procurador do Ministério Público tenha cometido quase tantos crimes quantos dias em que esteve no cargo. Supondo que dias houve em que não lhe apetecia cometer crimes (isto até soa ao enredo de um filme de Quentin Tarantino), outros havia em que os praticou desde que acabou de lavar os dentes de manhã, até que foi para a cama à noite. Ho Chio Meng não está acusado de matar ninguém, nem de roubo à mão armada - afinal era a figura maior do Ministério Público, 'cum raio. A maioria dos 1500 e tal crimes de que o acusam são económicos: burla, participação económica em negócio, e abuso de poder. Crimes de "colarinho branco" - e toga preta, neste caso. O mais grave de todos e que pode custar ao magistrado uma boa temporada à sombra é o de "associação criminosa", um crime que normalmente é imputado aos elementos das sociedades de malfeitores, vulgo "seitas". É um bocado difícil descortinar onde é que está aqui a "seita", afinal.

Os operadores do Direito em Macau manifestaram a sua surpresa e indignação. Mesmo quem entenda um pouco de leis, ou até quem faça uso do bom senso percebe que não estamos aqui na presença de um caso de "justiça poética", ou "tardia", de o fim do reino de terror de um criminoso sem escrúpulos, ainda para mais um pérfido e metódico malvadão que ludibriava a lei para levar avante os seus nefastos intentos; é apenas "impossível" que o procurador tenha cometido 1536 crimes sem que ninguém tivesse dado por isso, ou pelo menos desconfiado. A voz mais crítica, e em boa hora, voltou a ser a do presidente da Associação de Advogados de Macau (AAM), Jorge Neto Valente, que considerou a acusação "arrepiante", mencionou o facto de ser dada à defesa tempo insuficiente para estudar o processo de 10 mil páginas (haja inspiração...), acrescentando que Ho Chio Meng "está a ser vítima de uma grande injustiça". Outros juristas falam numa interpretação muito livre do que poderá eventualmente ser um ou mais  crimes "na forma continuada", ou seja, mesmo que existam provas que o incriminem de "alguns crimes", o que parece ter contado para a acusação foi o número de dias em que o procurador não os confessou - será assim? E cada dia os mesmos crimes eram contados como "reincidência"? Não sou qualificado para dar uma resposta, e aqui duvido que alguém consiga produzir uma explicação convincente.

É público que Neto Valente nunca teve uma relação pacífica com o ex-procurador, mas aqui mantém-se, e bem, fiel ao princípio da presunção da inocência, algo que infelizmente muita gente hoje em dia considera "conversa fiada" - até lhes sair na rifa, lá está, e aí pelo menos sabem com o que podem contar. Ho Chio Meng era uma figura controversa; semblante fechado, dando a entender pouca ou nenhuma flexibilidade perante o rigoroso cumprimento da lei, ficaram famosas algumas das suas ideias. Chegou a defender, ou apenas sugerir, a pena de morte em Macau como forma de combater mais eficazmente os crimes de droga, era adepto de uma reforma jurídica que adoptasse a "common law" em detrimento do sistema de direito de matriz portuguesa que vigora na RAEM, foi crítico do bilinguismo, defendendo que a tradução de sentenças para a língua portuguesa "era o motivo da falta de celeridade na justiça em Macau". Havia quem não simpatizasse com o personagem, além do presidente da AAM, mas não era para se gostar ou meter de lado no prato: o importante era que fosse o garante da legalidade. A sua fama de "justiceiro", muito "no-nonsense" levou a que o seu nome fosse indicado para o cargo de Chefe do Executivo por duas vezes. Primeiro aquando da saída de Edmund Ho, e cinco anos mais tarde, quando se especulou sobre a possível retirada de Chui Sai On, durante um período politicamente conturbado no território. E será que estes 1536 crimes viam a luz do dia na eventualidade de Ho Chio Meng ser o actual inquilino do palácio de Santa Sancha? Nem pensar! Nem actual, nem nunca. É melhor nem imaginar semelhante situação, pela vossa saudinha! Vade retro, cruzes canhoto!

E chegou a altura de explicar o que é o tal "síndrome palaciano-imperial", que referi no primeiro parágrafo. É difícil de acreditar que as ilegalidades praticadas pelo ex-procurador não fossem do conhecimento de ninguém, e nem por acaso há três ou quatro alegados cúmplices constantes do processo, e que se encontram igualmente em prisão preventiva há nove meses, mas...para 1536 crimes? Três ou quatro? A explicação é simples: tudo o que o sr. procurador fazia no exercício das suas funções era "bem feito", e agora afinal vem-se a descobrir que não fez nada de jeito - era tudo crime. Vá lá alguém imaginar uma coisa destas! É esta complacência e falta de verticalidade que se confunde com "lealdade" e "espírito de equipa" que é comum encontrar um pouco pela Administração Pública em Macau. O "sr. dr. é que sabe", "se o sr. dr. disse, é porque é verdade", "a lei diz assim, mas o sr. dr. mandou fazer assado". A mentalidade palaciana que vigora leva a que não se pondere por um segundo que tanto o sr. dr., como o secretário, o oficial e o motorista trabalham todos para uma mesma figura concreta mas impessoal: o Governo. É uma noção que aqui não colhe, esta, e colhe menos ainda se existem vínculos precários dependentes de uma avaliação da parte de um superior hierárquico - do Imperador. É a figura do Governo que tem a obrigação de dar o exemplo, regendo-se pelo cumprimento escrupuloso da lei, resistindo à tentação de se inclinar parcialmente para aquilo que alguns figurões "acham ser melhor". Ho Chio Meng foi o "imperador" que após deixar de o ser, ficou com a cabeça a prémio.

A própria detenção do procurador no início deste ano teve o seu "petit je-ne-sais-quoi" de surreal. Foi detido no terminal de "jetfoil" do Porto Exterior quando se preparava para sair do território, e soube-se depois que estava a ser alvo de investigação num outro processo, que implicava estar interdito de se ausentar de Macau. Ora isto só nos pode levar a concluir que para passar na alfândega terá utilizado um documento de onde não constava o seu nome verdadeiro, e os rigorosos funcionários da mesma, os tais que negam a entrada em Macau a bebés de meses de idade por terem um nome idêntico a professores universitários de Hong Kong considerados "persona non grata" não fizeram mais do que a sua obrigação: "este tipo é a cara do ex-procurador Ho Chio Meng, mas se o documento diz que não é, é porque não é". Se calhar não acompanham a actualidade política local, e preferem seguir a Premier League inglesa. Se dessem com o Wayne Rooney a tentar passar com o documento do Cesc Fabregas, davam por isso, com toda a certeza.

As diferenças entre este caso e o outro que envolveu o ex-secretário Ao Man Leong são evidentes: o primeiro foi depenado e depois abatido, enquanto que ao engenheiro foi dado um tratamento "a sangue frio", sem anestesia, por questões que se prendiam com as próprias circunstâncias, e que quem seguiu mais ou menos de perto sabe muito bem quais foram. As semelhanças prendem-se com o facto de ambos serem julgados em última instância, ou seja, sem possibilidade de recurso. Nada mudou desde Ao Man Long, cuja falta parece ter sido interpretada como uma "excepção à regra" pensada pelos ideólogos a quem nunca passou pela cabeça que alguém num cargo daquela elevação tivesse a tendência para cometer crimes. É isto que assusta, meus amigos. Quem pensar que isto quer dizer que  em Macau "ninguém está acima da justiça" só pode ser muito ingénuo. Aqui a palavra "cima" só tem expressão na frase "a justiça caiu-lhe em cima". E esta justiça esmaga. Mete medo.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Provedor do leitor


Bem dizia a minha avózinha e com razão: cá se fazem, cá se pagam. No distante mês de Janeiro do ano de 2013, mais precisamente no dia 14 (ou seja, há exactamente 19 meses passados hoje) escrevi no blogue um artigo de análise da actualidade em três pontos a que dei o título Olho Vivo. O último desses pontos dizia respeito a um artigo publicado nesse dia no jornal Ponto Final, e da autoria de um tal Inácio Natividade, cidadão moçambicano de que muito pouco sabia e do qual continuo a saber o mesmo, a não ser que tem ligações à FRELIMO, o partido que governa Moçambique desde 1975, e que foi activo durante o período pós-independência, combatente na guerra civil contra a RENAMO, e fazendo uma busca na "net", aparenta ser uma pessoa com muitos esqueletos no armário. Não sei nem se interessa o passado do sr. Natividade, não tinho laços familiares ou de outro tipo com Moçambique, e não procuro saber qual o papel deste indivíduo no passado e no presente daquele país, e falei apenas daquilo que li. Não o disse na altura mas posso dizê-lo agora: o que o sr. Natavidade escreveu naquele artigo, que suponho ter sido para o jornal moçambicano "Domingo", onde aparentemente é ou foi colunista (e é pena que o "link" do Ponto Final não esteja disponível), é da mais vil e doentia das sabujices, roça a mendicidade, e sorte dele os chineses que tanto bajula não gostarem de rabinho zambeziano, caso contrário andava com as pernas "à canejo" - nada contra os chineses per si, mas estivesse eu no lugar deles, dizia entre dentes sobre este senhor "o que tu queres sei eu muito bem". Mas guardemos o grosso da argumentação para a altura apropriada.

Acontece que na edição do mesmo jornal "Domingo" de 6 de Julho passado - um ano e meio depois do meu artigo no blogue - o sr. Inácio Natividade responde-me, e é caso para dizer "mais vale tarde que nunca". No entanto pelo teor da resposta fico com a impressão de que o senhor Natividade me está a confundir com algum dos seus (muitos) inimigos, e mais uma vez para constatar este facto basta fazer uma busca, e desagrada-me a forma demasiado permissiva, diria mesmo debochada, quase pornográfica, como intepreta as minhas palavras, acrescentando outras às minhas afirmações e emitindo juízos de valor a meu respeito que só podem ser produto da sua diarreia mental. Deixei o "link" para o artigo de Janeiro em cima, no primeiro parágrafo, mas vou na mesma reproduzir ipsis verbis aquilo que escrevi sobre o texto de opinião de Inácio Natividade, com excepção da introdução, que não tem qualquer relevância. Só para que possamos fazer uma análise mais concisa da resposta do sr. Natividade, e para que quem tiver dois palmos de testa tire as suas conclusões:

(...) Depois de vários parágrafos de graxa ao regime chinês que chega para dar brilho aos sapatos dos membros do Politburo durante os próximos dez anos ou mais, e dissertações sobre a qualidade dos produtos chineses (sabiam que quem põe no espaço naves com 100 toneladas de peso só pode produzir tecnologia de qualidade? Eu também não...), passa depois ao ataque: "Chineses e indianos foram como os africanos muito explorados e humilhados na sua própria terra por potências coloniais estrangeiras, mas nem por isso são anti-ocidentais". Ora aí está, e ainda bem! Estava preocupado que os chineses e indianos fossem agora entrar pela Europa e "humilhar" os europeus. Eu não sei que visão do colonialismo este senhor Natividade tem, mas o facto de escrever na nossa língua, por exemplo, já é um reflexo de que nem tudo do colonialismo foi uma tragédia. Basta olhar para Macau, e o facto de estarmos aqui a discutir pontos de vista, para perceber que além da escravatura, da exploração das matérias-primas e restante "humilhação", foi feito algo de construtivo durante os últimos cinco séculos. Não quero especular como seria a África hoje sem a colonização de potências europeias como a Inglaterra, Portugal ou a França, mas não creio que fosse muito melhor, quando a totalidade daquelas ex-colónias são países livres ou independentes. Não penso que o Ocidente tenha responsabilidade directa no sistema imperial e feudal que vigorou na China durante milénios, ou no sistema de castas (que é referido) na Índia. Também não encontro no Ocidente paralelo com os eventos recentes naquele país, nomeadamente as violações e outras atitudes de selvajaria. Acho óptimo que faça "business" com os seus amigos chineses, mas abstenha-se de escrever tanto disaparate. Valeu? Kanimambo.

Vejamos agora a resposta do sr. Inácio Natividade, e também aqui elimino tudo o que não está relacionado com esta nossa troca de galhardetes, mas quem quiser ler (e duvido que alguém queira) a versão integral do seu texto pode fazê-lo aqui. Entretanto vamos ao essencial:

(...) há vezes que uma ponderação radical pode responder convenientemente a um grau de provocação elevada. Digo isto porque alguém saudosista do colonial fascismo com simpatias políticas à oposição política lançou-me farpas inedecorosas num desses blogs à deriva, e na qual diz que fiz uma apologia ao sistema de desenvolvimento chinês. O infeliz blogista com falta de inteligência ética queria tentativamente alinhar-me à ideologia oficial do Pcchinês. Um desespero de causa motivado de factores ideológicos, e que acha e julga que como negro e africano não tenho direito de opinião. No artigo de minha autoria não faço apologia do regime chinês, mas ao sistema de desenvolvimento económico chinês. Faço uma análise ao capitalismo chinês, na forma como este guindou a Nação chinesa a um alto padrão de vida, e invejável qualidade de vida que não tinha há 20 ou 30 anos. Falo de uma China que todo o mundo admira pelo trabalho e obra desenvolvida; um país que foi colonizado, que se tornou na segunda economia mundial, que lhe permite ser credor de mais de metade do tesouro da dívida estadunidense 1.44 triliões nas mãos dos chineses, assim como credor da dívida de vários países europeus ex- potências coloniais. Falo numa China em relação à robustez económica, industrial e tecnológica daquele país asiático, contribuindo dessa forma para se dissipar a percepção que se tem de que aquele país só produz pirataria. Para esse senhor Leocardo do Olho vivo ou sei lá quem é, o colonialismo não foi tão mau pois me deu o nome e foi-me ensinado a ler e a escrever. Esqueceu-se de mencionar que a taxa de analfabetismo antes da independência atingia 93 por cento. Éramos um país a viver sob ocupação miserável e infame, sob tutela do colonial fascismo e racista que para além da exploração económica, obrigava-nos a viver na desonra de uma vida sem dignidade, nem auto estima, que a independência de Moçambique liderado pelo partido Frelimo se encarregou de restaurar. No que respeita a nomes, muitos nomes da elite portuguesa e europeia de hoje estão directamente associados a escravatura dos negros africanos e ao colonialismo. Quanto a nomes africanos, detemos valores culturais que se expressam nas variantes línguas nacionais, tradições, dança, cantares, música e teatro. Apesar de acreditar na lusofonia como um espaço a explorar dentro da diversidade que caracteriza a indentidade, Moçambique independente tem apenas 39 anos, os valores culturais estrangeiros vão-se dissipando, e os de afirmação africana gradualmente vão-se impondo à medida que fomos crescendo como Nação, e povo identificado com a sua matriz civilizacional e cultural africana libertada de espartilhos da dominação estrangeira. (...)

Ora aqui está, o móbil do crime, por assim dizer. Portanto aqui o "je", que o sr. Natividade nem se deu ao trabalho de pesquisar a identidade, é "saudosista do colonial fascismo", apesar de na altura da independência de Moçambique ter apenas 10 meses de idade. E mais: tenho "simpatias políticas à oposição política", e deixando de parte a cacofonia, significa que tenho alguma ligação ou simpatia com a RENAMO ou algo assim (juro que precisei de pesquisar qual era qual para fazer algum sentido disto, mesmo que fique patente na missiva que o senhor gosta do sabor dos mackensis da FRELIMO). Paranóia típica de quem passou toda a vida a tirar dividendos de um conflito que reduziu a esmagadora maioria de um país rico em recursos à mais lamentável das misérias, e soube-se posicionar do lado do poder, de uma daquelas ditaduras que se promove através do ideal de "hoje vocês estão na merda, mas sem nós ficavam na merda duas vezes". Á guerra da independência, e quando todos pensaram que se tinham livrado da opressão colonialista, que os obrigava a "viver na desonra de uma vida sem dignidade, nem auto estima", seguiu-se a Guerra Civil, em 1977, que em 15 anos deixou mais de 100 mil moçambicanos mortos em combate e outro milhão a perecer às mãos da fome - obrigado, FRELIMO, por "restaurar" a "dignidade e a auto-estima" ao povo de Moçambique.

E de facto o colonialismo português foi só desgraças. Sim, nisto estamos os dois de acordo, mesmo que em pólos diferentes: para mim o último período do Império português foi uma pouca vergonha, onde vigorava a exploração e o deboche colonialista, e os brancos das províncias ultramarinas tinham a profissão de "latifundiário", com os negros a trabalhar para eles. Só que ao contrário do que o senhor Natividade sugere, não eram escravos, e se tirasse da frente dos olhinhos a pala dessa sua verve marxista apaneleirada que já não convence ninguém saberia que Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a escravatura. Mas ya, cocuana, o tuga era satanhoco e só fazia machimba. Depois de correr com ele do xilunguine acabou-se a canganhiça, e veio a FRELIMO que era maningue nice e fez os uenas regressar às "tradições": a "dança" das minas, os "cantares" de dor e angústia, a "música" das explosões no "teatro" de guerra. De facto é muito melhor assim do que ter de suportar essa horrível humilhação de ter 93% de analfabetos - número certamente desmentível por quem não se estiver nas tintas para isso, como eu. Antes a morte que tal sorte, não é mesmo, mesungo?

Eu nem sei por onde começar a descrever o que sinto por criaturas como este Natividade, que até dá um mau nome à época natalícia. Que fantoche sem graça este que se apresta a ser lacaio de uma das facções que dividiu um país e o sujeitou a uma guerra estúpida e demasiado longa quando a ideia era "expulsar o opressor e caminhar juntos em unidade para um futuro próspero". Ah! Ah! Ah! Um acomodado ao conflito, pois é evidente que alinha por uma postura destrutiva, que dá menos trabalho que a construtiva, e é um sabujo de primeira água, que perante a emergência da China como grande potência económica, mesmo sem a sustentabilidade de outras como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha, agrada a parasitas como ele, que se alimentam do entulho da guerra, da divisão e da precariedade. Saiba que eu vivo na China, e mesmo que seja em Macau estive na RPC tão recentemente como há menos de 15 dias. Tem razão, a China não produz só pirataria - há ainda o fabrico original e de marca local, medíocre e mau. Sim, a China interessa (e já interessou mais) às multi-nacionais estrangeiras graças ao trabalho precário e semi-escravo, que para si são sinónimo de "robustez económica, industrial e tecnológica", e por "alto padrão e invejável qualidade de vida" deve-se referir aos trabalhadores chineses da fábrica da taiwanesa Foxconn, que faz os telemóveis da Nokia e os "laptop" da Lenovo e onde os operários são obrigados a trabalhar mais de 12 horas por dia por menos de 200 euros mensais, sem intervalos para descanso ou idas à casa-de-banho. Mas isso deve-lhe agradar a si, que se encosta à elite que explora a mão-de-obra alheia, e pisca os olhinhos - o de cima e o de baixo - ao regime chinês, que "é credor de mais de metade do tesouro da dívida estadunidense". Pudera!

E não me venha co essa retórica que lhe sai pelo inhafe, tentando colocar palavras na minha boca, e acusando-me de racismo, "como racistas eram os colonialistas portugueses". Eram mesmo, ó regulo, e quando os primeiros mulungos deram à costa do Zambeze a primeira coisa que disseram foi: "epá isto é só pretalhada, até parece a Musgueira". Mas tem razão, ó madala, eu sou maningue de racista, especialmente no que toca à raça da gente burra, a qual você representa na perfeição. Por isso se mete alguma inteligência nessa sua cabecinha de coco, e enfia duas rolhas nessas narinas de turbina para ver se a massa encefálica não lhe escorre e continua a apregoar essas alarvidades de que se orgulha. E deixe-se de merdas, andando aí de mão estendida a mendigar à China, revirando o estrume da "exploração e humilhação pelas potências estrangeiras" que essa não cola. E é só pelo respeito que tenho pelo povo moçambicano em geral que não lhe digo que se fossem todos como você, os chineses não queriam o seu país nem para despejar os penicos. E passe bem. Famba, uena!



sábado, 31 de dezembro de 2016

...e o que respondeu Deus?


Nunca simpatizei com Charlie Sheen, actor que pertence a uma geração de onde o maior exemplo de sucesso é Demi Moore, e nem passei a gostar mais dele depois daquilo que vou mostrar a seguir. Sheen não me convence por razões puramente artísticas: é um actor mormente de comédia, mas não tem lá muita piada. A película de 1990 "Hot Shots" (em português "Ases pelos ares", oh oh oh) é possivelmente uma hora e meia perdida da minha vida que lamentarei no meu leito de morte, mas pasme-se, fui ver ao cinema porque um amigo meu me garantiu ser "hilariante". O problema deve ser meu, realmente, que devo ser demasiado obtuso para entender a comédia em Charlie Sheen - em 2010 era este o actor mais bem pago da televisão norte-americana, devido ao sucesso de uma "sitcom" que dava pelo nome de "Two and a half men", que lhe valeram várias nomeações para os Emmy e Golden Globes. Só que isto de ser talentoso e rico "não chega" para Sheen, que viu a carreira desmoronar-se graças ao abuso de álcool e drogas, com acusações de violência doméstica pelo meio, que lhe valeram a rescisão do contrato com a CBS. Tido como um exemplo do que "não fazer" quando se fala em sexo seguro, o actor anunciou em 2015 que era seropositivo, e que sabia ser portador de HIV desde 2011. Aparentemente tudo isto faz com que Charlie Sheen não tenha o direito a abrir a boca, ou emitir qualquer opinião, mesmo que "só a brincar". Como neste caso, que deu que falar:


"Trump next" - "Trump o próximo", ou "Trump a seguir". Posto assim nestes termos, nada de grave, mas o contexto em que é feita esta chamada ao presidente eleito dos Estados Unidos é a morte do artista, e usando agora o termo "morte" no sentido literal, Sheen referia-se à mais recente razia no mundo artístico, que na mesma semana registou o desaparecimento do cantor George Michael, da actriz Carrie Fisher, e da mãe desta, a também actriz Debbie Reynolds, que faleceu no dia seguinte à filha. Dramático. Naquilo que muitos podem entender apenas como um simples desabafo, Sheen sugere que a próxima celebridade a quinar bem podia ser Trump, e atendendo ao estilo de vida que o actor leva e a que fiz referência no primeiro parágrafo, duvido que seja uma pessoa religiosa, e não estaria a apelar a Deus que "limpasse o sebo" ao próximo ocupante da Casa Branca. De mau gosto? Bem, levando a coisa um bocadinho a sério, até concordo, mas...


...não me peçam para atingir este nível de indignação. Estes são alguns dos comentários mais "leves" de entre os muitos milhares deixados nas redes sociais entre quinta feira e hoje, reprovando o "tweet" de Charlie Sheen. Talvez estes sejam mais contidos por se tratarem de seguidores do actor, e se repararem na sua entrada inicial, foram registados mais de 100 mil "likes", possivelmente de pessoas que deram às palavras de Sheen o valor que têm: entre "relativo" e "nenhum", e não de pessoas que querem ver Deus a matar Trump. Quanto ao "resto", bem, desconfio que nesta operação de divisão, estamos perante uma dízima infinita:


Ah, o Breitbart, aquele "site" que se diz "independente", e solto das "amarras do politicamente correcto" impostas pelas "elites globalistas", ao serviço das "grandes corporações" - das outras, que não aquelas que comercializam as porcarias que se vêem na página inicial do "site" do Breitbart, publicitadas de forma tão evidente que eu quase chamaria de "pornográfica". E o que diz este repositório de "verdades alternativas", esse novo eufemismo para designar a comum mentira? Ah? Que Sheen "calls on God to kill Donald Trump"? Estas duas palavras da língua inglesa, "calls on", pode ter diversos sentidos, desde "convocar", "chamar", ou "apelar". Dando aqui o benefício da dúvida ao Breitbart  (não devia, mas pronto, estamos na quadra natalícia), suponho que quisessem dizer "apelar". Não posso é deixar de detectar naquele cabeçalho uma leve nota de "certeza absoluta", como se Deus fosse uma figura deste presépio do disparate. Mas enquanto o Breitbart e quejandos dão o mote, a América profunda(mente retardada) prossegue com a sinfonia dos enganos, em urro maior:


Barbara Messer, que destila indignação de cada um dos cabelos grisalhos e encaracolados que lhe cobrem o focinho (é o que me dá a ver a fotografia, queriam o quê?), acha que Charlie Sheen "devia ser preso". Viva a liberdade de expressão! Viva a América! Sabem onde é que sugerir que um alto dignitário de uma nação "devia morrer" dá direito a prisão? No Irão - ou nem isso! Curioso como ninguém foi preso, interrogado ou inquirido quando Hillary Clinton foi acometida de uma pneumonia no período antes do início da campanha, e muitos "Trumpistas" a davam como morta, ou tinham sonhos molhados com a perspectiva da candidata democrata ficar cadáver. E já para não falar do verdadeiro festival de lavagem de roupa tão imunda que nenhuma marca de detergente ousou patrocinar, que envolveu detalhes da vida íntima de Hillary Clinton e da sua família. Isto por falar em "big mouths" que desempenham a mesma função do recto. Mas isto "melhora", querem ver?


Jan McNall acha que o "tweet" de Sheen devia ser "crime de ódio" - "hate crime". Uhh...crime, uma palavrão tão feio que nem se deram ao trabalho de arranjar palavras distintas nos idiomas inglês e português. A figura do crime de ódio, segundo o nosso Código Penal, tem como finalidade punir quem ataque "pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género". Ora bem, quer o malucão do Sheen, quer o não menos mentalmente salubre do Trump são brancos, norte-americanos, do género masculino, tarados sexuais e têm como religião o dólar, e não sendo o presidente eleito um "grupo de pessoas", não, não encaixa. Paciência. Gostava de saber onde é que parava a indignação da sra. McNall no momento em que Trump incluiu no rol das suas promessas eleitorais o "escrutínio rigoroso à entrada no país" de um determinado grupo religioso, ou durante as suas muitas tiradas de misógino militante e assumido. Quem sabe se ela também considera que "by the pussy" é como as donzelas devem ser "grabbed"? Sim, porque o Donald "apalpa-as para ver se estão maduras" Trump pode ser muita coisa, mas pelo menos não é...


...SIDOSO! BANDIDO! SODOMITA! Desculpem, mas deve ser contagioso. Não entendo bem se a Christie Cottrell quer dizer que o Charlie Sheen "não tem moral para falar" porque é seropositivo, ou se o facto de ter sido infectado com HIV torna a sua sugestão quanto à morte de Trump um paradoxo. Enquanto George Michael, Carrie Fisher e Debbie Reynolds foram desta para melhor e não eram portadores de HIV, o bom do Sheen anda aí para as curvas. Pois é, a SIDA já não é uma "sentença de morte" como foi até há 20 anos - sabia disto, minha senhora? Claro que não, nem disto nem de muitas outras coisas, aparentemente. A juntar à costumeira tentativa de homicídio de carácter muito comum nesta gentinha, há ainda o "rigor informativo" que os caracteriza, bem patente naquela deturpação do comentário do actor que podemos ver em baixo na imagem. Charlie Sheen NUNCA escreveu "Please God, kill Donald Trump", mas apenas "Dear God: Trump next, please!". Ai é "a mesma coisa"? Considerando que o autor da gracinha é Herman Cain, presidente do Federal Reserve Bank de Kansas City, republicano, candidato à nomeação do seu partido nas primárias para as presidenciais em 2012, e elemento do "Tea Party" (um tipo "do povo", e nada corporativista, portanto), não é bem "a mesma coisa". Se calhar o sr. precisa de óculos. Ou de alfabetização urgente.


Na mesma bitola temos um tal site que dá pelo nome de "Smokeroom", uma outra daquelas "fontes alternativas" de informação, e que conclui das palavras de Sheen que o actor "quer Donald Trump morto". Ó ié, má da foca! O Sheen não tem que querer ou não, pois mais cedo ou mais tarde a natureza encarrega-se de fazer o Trump voltar à forma de matéria orgânica de onde inicialmente partiu. Sim, meus caros Trumpistas, pode ser que esta constatação vá cair que nem uma bomba nas vossas áridas cacholinhas, mas Donald Trump...NÃO É IMORTAL! Lixado, uh? Não prendeu a Hillary, é improvável que construa aquele muro ridículo que tanto apregoou, e agora isto? Não passa de um mero e comum mortal? Digam lá se não estão a começar a ficar arrependidos? E o que dizer do comentário da Ellen Rister, ali em cima na imagem? Não vale a pena a malta chatear-se com as bocas do tipo; a SIDA ou "um dos homens e mulheres que ele infectou" encarregam-se de lhe limpar o sarampo. Nada mau, exteriorizar o descontentamento com um comentário que sugere que uma entidade divina cuja existência é improvável devia tirar a vida a alguém com outro comentário sugerindo que uma doença real e pessoas de carne e osso o façam. Isso é que ia ser irónico cumó caraças, pá. E para quem pensa que a idiotice se cinge à língua de Shakespeare na sua norma transatlântica, desengane-se, pois...


...em português "coum xôtaqui" também há, pôxa vida! Bumba meu boi, desculpe o auê, nossa, nossa, assim você me mata. Com toda a certeza que a boçalidade na sua forma mais bruta (e burra) se traduziu em todos os idiomas um pouco por todo o mundo, mas escolhi este exemplo do Brasil para ilustrar aquilo que venho dizendo desde que o cheiro a podre se começou a notar. Olavo de Carvalho, do Brasil, tira da cartola um coelho em avançado estado de decomposição na forma do conceito absurdo de que "quem não gosta de Donald Trump ou não o apoia, é invariavelmente de esquerda". A tua tia, pá! Este senhor,quer na sua página do Facebook, quer no seu site pessoal, identifica-se como sendo "filósofo, crítico, escritor e ensaísta, um dos intelectuais mais respeitados do Brasil". Claro, e quem diz o contrário? Faltou foi acrescentar "...quando era novo e se encontrava na plena posse das suas faculdades intelectuais". Senão vejam isto:


O que é uma "regra universal infalível" é que está faltando alguém no sanatório, ó vovô. E isto é apenas uma selecção aleatória de "pérolas" publicadas por este indivíduo nas últimas 24 horas! E se ainda restam dúvidas:


Suponho que um "anti-olavette" será alguém que discorda das "iluminadas opiniões" deste evaporado mental. Da parte que me toca, obrigado - vindo de si é um elogio. Talvez a próstata do senhor tenha ficado inflamada a tal ponto que atingiu o crânio e lhe assimilou o encéfalo. Voltando ao Charlie Sheen, como é que ele reagiu a esta "quantidade de chorrilhos" (eh eh) que foram escritos a seu respeito?


Ah! Genial, apesar de não fazer com que suba um ponto que seja na minha consideração. Ao recorrer a um vocabulário tão elaborado como enigmático (o que é que "timidez" tem a ver com alguma coisa neste caso???), Sheen confunde os grunhos, com os mais lestos a retorquir prontamente "Ai é? És tu, e ainda por cima com SIDA!", e ainda termina com uma nota humorística: "Estava a falar com Deus, e não com vocês". Ora toma.

Agora como conclusão, gostaria de deixar no ar meia dúzia de questões que ficam por responder:

1) Teria sido mais grave se fosse o "tweet" da polémica fosse da autoria do Papa Francisco, e não de Charlie Sheen? E em caso afirmativo, Deus atenderia ao apelo do seu emissário, e Trump não chegava a 2017 com um sistema cárdio-respiratório funcional?

2) Será que Charlie Sheen devia ter optado por dizer "Que Deus me perdoe, mas que o próximo seja o Trump", redimindo-se assim do ultraje?

3) Ou em alternativa, em vez de apelar ao criador, terminar o seu desejo para o Ano Novo com "o Diabo seja cego, surdo e mudo"? E isso faria dele um satânico?

4) E se Deus realmente eliminasse o Trump da face da Terra? Será que os "social media" urdiriam teorias da conspiração a Seu respeito, implicando-o como cúmplice de Obama, George Soros e a "Nova Ordem Mundial"? 

5) Sugerir que Deus elimine Trump, que alguns veneram como se de UM deus se tratasse, pode ser considerado blasfémia? 

6) E o que tem Deus a dizer sobre tudo isto? Alguém sabe se Ele tem uma conta no Twitter?

Como podem ver, foram mesmo "meia dúzia de questões", ou seja, seis. Isto é facilmente verificável, basta contar. Já quanto a pedir a Deus isto e aquilo, trata-se da segunda coisa mais imbecil que alguma vez assisti. A primeira é levar a sério quem o faz, e armar um chinfrim destes, sem pés nem cabeça.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Não pode ser, sr. rato


A timidez do sr. rato começa a ser demais. Dizem que o rato é um animal inteligente, e não é por acaso que é testado, esquartejado e dissecado em laboratório, em nome das experiências dos humanos. Posto isto, porque é que continua a evitar-me, quando lhe deixo paparoca tão jeitosa todos os dias no pratinho com o desenho do Templo da Barra? Por acaso pensará que o quero matar, quando divide com ele o queijo "mozzarella" que me custa 55 patacas, ou lhe preparo as maçãs que compro de propósito para ele? O bicharoco é tão inocente que já podia ter morrido de "morte macaca". Bastava ter misturado estriquinina numa das suas guloseimas favoritas, e uma bela manhã estaria esticado no meio da cozinha, teso e duro, com o seu sopro de vida evaporado. Era tão fácil que nem que o quisesse matar optava por essa via.

Portanto deixo-lhe no prato um jantar de "gourmet", ora com o seu queijo favorito, sumarentas maçãs, e chocolate de vez em quando. E continua a fugir de mim, o sacana. E atabalhoadamente, também; sempre que apareço à sua frente, arranca com tracção às patas da frente, escorregando no arranque e batendo com a bunda de rato nos objectos à sua volta. E que tal um "obrigado pelo lanche, pá"? Ora essa, volta amanhã para comeres outra vez de borla os manjares que preparei de propósito para ti, sem terem passado pelo lixo, no meio das sopas azedas e das fraldas cagadas. Quer dizer, não ambiciono a ser um Park'n'Shop dos ratos, com frescura garantida e preços competitivos, mas prefiro que comas bem em vez de andares por aí a pegar doenças nas patas e depois andares a passear pela minha casa. A nossa casa, quer dizer, que se quer limpinha. Quando é que começas a fazer a tua parte, seu focinho de funil?

Sabes bem que te deixo a comida no prato a horas decentes, ó rabudo. Não vens mais cedo porque não queres. Enquanto estou em frente ao computador, ao serão, bem te oiço a esgravatar no sótão, a afiar as tuas unhas de rato antes de atacares o pitéu que não te custou a ganhar. Quer dizer, já que não fazes a ponta de um corno o dia todo, bem que me podias fazer companhia. Em alternativa, podias pelo menos entrar com a conta da água, que são só 50 rufas por dia, menos que eu gasto contigo em "mozzarella", maçãs e chocolates. Já pensaste nisso? Andas mal habituado. Não me digas que também jogas no casino.

Em vez de te fazeres útil, esperas que eu vá dormer e sais pela calada da noite, no escuro, comes do prato com o desenho do Templo da Barra e depois fazes a tua farra. Sabes quantas vezes acordo às cinco ou seis da manhã com o barulho que fazes a empurrar o prato ou a mergulhares na caixa de cartão onde guardo os sacos de plástico, os artigos de limpeza, as luvas de borracha e a vassoura. Na quarta-feira encontrei uma barata moribunda no meio da sala a mexer as pinças, entre a vida e a morte. Violentaste a bicha durante a tua festança, não foi ó dentuço? Ontem às seis precisei de me levantar e ir até a cozinha com uma sapatilha para ver se paravas com aquele escarcéu. Vê lá se te portas bem, pá, senão qualquer dia levo para casa um "señor gato", e tu com essa bunda larga não és nenhum Speedy Gonzalez.