segunda-feira, 23 de junho de 2014

O velho continente perde no novo


Concluída a segunda ronda da fase de grupos do Brasil 2014, uma das conclusões que se pode tirar é de que as coisas não estão lá a correr muito bem para as equipas europeias. Dos treze países da zona UEFA qualificados para o torneio final há já três eliminados, outros tantos em sério risco de fazer as malas esta semana, e ainda mais três que dependendo apenas de si para seguir em frente, têm as contas um tanto ou quanto complicadas, e partidas decisivas pela frente. Dos restantes quatro, apenas Bélgica e Holanda já carimbaram o passaporte para os oitavos, enquanto França e Alemanha estão bem encaminhados, e pouca gente acredita que se dê um cataclismo que os afaste da fase a eliminar da prova. Vamos portanto deitar uma olhadela neste "hospital de guerra" do mundial da América do Sul.



FALECIDOS

ESPANHA - Por esta ninguém esperava, certamente. Bi-campeões europeus e campeões do mundo, orientados pelo mesmo selecionador desde 2008 e praticamente com a mesma equipa base de 2010, os espanhóis fizeram a pior defesa do título mundial de que há memória. Pode até ser que depois de vencerem a Austrália esse recorde negativo continue a pertencer à França de 2002, mas uma eliminação ao fim de apenas dois jogos e uma semana depois do início do torneio é inédito. Entre as razões apontadas para a desilusão fala-se de "cansaço"; aparentemente a "roja" está farta de ganhar, e quer saber como é perder - e em grande estilo.

INGLATERRA - Das selecções já eliminadas após dois jogos, a Inglaterra será aquela que sai com mais dignidade. É verdade que no "grupo da morte" dificilmente qualquer equipa resistiria a duas derrotas consecutivas, e os ingleses apanharam logo pela frente a Itália e o Uruguai. Apesar de perderem ambos os desafios por 1-2, deram boa réplica, e assumiram estar em renovação. Roy Hodgson deverá entrar para a história como o treinador que mais depressa foi eliminado de um mundial pelos "three lions" e permanece no cargo.

BÓSNIA-HERZEGOVINA - A única estreante em mundiais desiludiu, mas fica com a desculpa da falta de experiência. Num grupo teoricamente acessível, dá a sensação que podia ter feito muito melhor contra a Argentina no jogo inaugural, e contra a Nigéria os adeptos bósnios devem ter levado as mãos à cabeça, tanta foi a cerimónia. O mais difícil foi mesmo qualificarem-se, e se mais alguma vez repetirem o feito, dificilmente ficarão num grupo tão feito à sua medida.



MORIBUNDOS

GRÉCIA - Da Grécia não se esperava grande coisa, e pouca gente acredita que consiga vencer a Costa do Marfim amanhã e seguir em frente. Na realidade é apenas isso que precisa a equipa de Fernando Santos, pois dificilmente o Japão vencerá a Colômbia e termina à frente dos helénicos na diferença de golos, mas pelo que mostraram até agora - ou não mostraram, pois nem um golo marcaram ainda - os gregos não merecem estar nos oitavos-de-final.

PORTUGAL - Destes "moribundos" a selecção portuguesa é a que se encontra em estado mais crítico. Depois de uma prestação vergonhosa contra a Alemanha na primeira ronda e um empate arrancado a ferros nos últimos segundos contra os Estados Unidos, Portugal tem a permanência no mundial do Brasil presa por uma linha muito ténue, e depende de uma conjugação de resultados muito improvável. Mesmo quem acredita que alemães e norte-americanos não empatam e passam os dois, tem sérias dúvidas sobre a capacidade da equipa de Paulo Bento para bater a selecção do Gana.

RÚSSIA - Dos três pacientes em estado crítico, os russos são aqueles cujo quadro clínico é mais favorável, e basicamente basta-lhes vencer a Argélia para seguir em frente. Mas se em teoria isto parece viável, na prática as coisas não são bem assim. Os argelinos têm praticado um futebol vistoso, e já levam cinco golos em dois jogos, enquanto os russos têm mostrado muito pouco para uma equipa com ambições a chegar longe no mundial do Brasil, com vista à sua própria organização em 2018. Se a Rússia quiser fazer um bom mundial em casa, terá que encontrar duas ou três referências, pois a sua equipa pode valer pelo colectivo, mas isso não tem sido suficiente.



AFLITOS

CROÁCIA - A Croácia joga esta noite o tudo ou nada contra o México, e está obrigada a ganhar. Depois de uma derrota frente ao Brasil no jogo de abertura, um resultado considerado "normal", os croatas golearam a frágil selecção dos Camarões, mas não contavam com o empate entre mexicanos e brasileiros, que os deixa sem margem de erro para esta noite. A equipa de Nico Koavac depende apenas de si mesma, mas tem pela frente uma selecção mexicana que não falha o apuramento para a segunda fase desde 1994, e neste torneio ainda não sofreu qualquer golo.

ITÁLIA - Os italianos alteraram o decente com o medíocre; depois de uma vitória "na marra" frente aos ingleses por 2-1 no primeiro jogo, os "azzurri" foram surpreendidos pela Costa Rica, perdendo pela margem mínima no último Sábado. Agora em igualdade pontual com o Uruguai, a equipa de Cesare Prandelli necessita apenas de um empate para garantir o 2º lugar, mas os sul-americanos contam agora com um Luis Suarez inspirado, e jogar para não ganhar pode sair caro.

SUÍÇA - Os suíços começaram bem, com uma vitória frente ao Equador, que era a única selecção que teoricamente poderia discutir a passagem em conjunto com a França. Só que a derrota por 2-5 contra os gauleses atrapalhou as contas, e os helvéticos precisam agora de fazer um resultado melhor que os equatorianos para seguir em frente. A lógica dá o favoritismo à Suíça, que enfrenta as Honduras, enquanto o Equador defronta a França, mas há quatro anos os suíços também só dependiam de uma vitória contra os hondurenhos e empataram a zero, permitindo o apuramento de Espanha e Chile, na ocasião. Paciente com diagnóstico favorável, mas com risco de recaída.



Argélia-4 Coreia do Sul-2



A Argélia surpreendeu o mundo ao vencer a Coreia do Sul por 4-2, colocando não só fim a jejum de 32 anos sem vitória em mundiais, mas também marcando num só jogo quase tantos golos como nas três participações dos argelinos em fases finais: em nove partidas distribuídas pelos mundiais de 1982, 1986 e 2010, os magrebinos marcaram apenas seis golos, cinco dos quais na estreia em Espanha. Os argelinos tornaram-se também a primeira equipa africana a marcar quatro golos num mundial, e quem diria, eles que são conhecidos por marcar e depois ficar na retranca. Só que ontem o adversário deu para tudo, pois a selecção da Coreia do Sul deste ano é uma das mais fracas desde 1998, ano em que foram goleadas pela última vez, por 0-5 pela Holanda em Marselha. E de facto os coreanos apareceram mais desorientados do que nos têm habituado, e ao intervalo já perdiam por 0-3. O sportinguista Islam Slimani, que desta vez foi titular, abriu o activo aos 26 minutos, e na jogada seguinte o defesa da Académica Rafik Halliche fazia o segundo - dois golos "portugueses" em Porto Alegre. Os coreanos tentaram reagir, mas da terceira vez que os argelinos subiram à área dos asiáticos, fizeram o terceiro, desta feita por Abdel Djabou, aos 38 minutos. O intervalo foi bom conselheiro para a Coreia, que regressou do intervalo decidida a mudar o rumo dos acontecimentos, e logo aos 5 minutos Son Heung-Min reduziu para 1-3, que recebeu um passo longo do meio campo de Ki Song-Yong, e desmarcado e sem oposição rematou por debaixo das pernas de Rais M'Bolhi. Os argelinos responderam, e aos 62 minutos fazem o quarto golo numa combinação entre Sofiane Feghouli e Yacine Brahimi, com este último a dar o toque final, com a defesa coreana a ver jogar. Nove minutos depois seria Koo Ja-Cheol a fechar a contagem, assistido por Lee Keun-Ho. A Coreia do Sul ainda dispôs de mais uma boa oportunidade, mas não teve engenho para fazer melhor. A Argélia deu boas indicações, e vai decidir na quarta-feira com a Rússia quem acompanha a Bélgica nos oitavos-de-final.

Bélgica-1 Rússia-0



A Bélgica venceu ontem a Rússia por 1-0 no Maracanã, e garantiu a qualificação para os oitavos-de-final do Brasil 2014, confirmando assim o estatuto de favorita. Mas a nova geração dos "diabos vermelhos" não teve a teve a tarefa facilitada perante uma Rússia marcadamente defensiva, mesmo que bem organizada. A selecção de Fabio Capello tem sido uma desilusão, e não tem mostrado argumentos para passar esta fase de grupos. Os belgas tiveram uma contrariedade aos 31 minutos, quando o defesa Thomas Vermaelen foi obrigado a sair por lesão, dando o seu lugar a Jan Vortonghen, mas nem isso justifica a apatia dos comandados de Marc Wilmots, com uma linha avançada que tem nomes como Eden Hazard, Romelo Lukaku, Dries Mertens ou Kevin Mirallas, e ainda se dá ao luxo de deixar no banco Nacer Chadli ou Moussa Dembelé, teria a obrigação de ser mais eficaz no capítulo da concretização. Quando já toda a gente esperava que o resultado terminasse num 0-0, seria um jovem de 19 anos avançado do Lille, Divock Origi, a quebrar o enguiço aos 88 minutos. Origi é filho do ex-internacional Mike Origi, radicado na Bélgica desde os anos 90, e entrou para o lugar de Lukaku, ele próprio filho de um ex-intercional do Congo (ex-Zaire), radicado igualmente naquele país. A integração dos filhos do imigrantes resulta, mas os belgas ainda não mostraram "músculo" neste mundial. O Maracanã merecia um melhor espectáculo de futebol.

Ponto morto (ou) o problema dos paralelos


Portugal terá ontem dito adeus ao mundial do Brasil 2014, e atendendo às microscópicas possibilidades que tem de passar aos oitavos-de-final, pode-se dizer que o golo de empate de Varela, obtido a segundos do fim, tem mais requintes de malvadez do que contornos de milagre. Podíamos estar já a fazer o balanço da participação, que seria sempre negativo, claro, mas em vez disso vamos andar mais uns dias até quinta a "acreditar". Por muito crentes que sejam os portugueses, duvido que alguém no seu perfeito juízo (ou até um pouco desajustado) pense que Portugal vá seguir em frente. Este ponto obtido quando já ninguém esperava é um "ponto morto", que nos impede de começar a manifestar oficialmente a nossa frustração. Se quisermos considerar o golo de Varela uma espécie de "milagre", será preciso uma manifestação divina de dimensões épicas, daquelas que onde nem na Bíblia se encontra uma igual, para que todos os "ses" de que a selecção depende se realizem. É que se existir um vencedor no jogo dos Estados Unidos, e se Portugal vencer o Gana, terá que o fazer sempre por goleada, e no caso de ser a Alemanha a terminar empatada em pontos com Portugal, e só perder com os Estados Unidos por um golo, precisaremos de vencer os ganeses pelo menos por sete de diferença - e aí já começamos a entrar pelo campo do disparate. Com aquilo que ficou demonstrado ontem em Manaus, vencer o Gana, ponto final, já seria algo bastante positivo. Uma surpresa, para quem tem acompanhado o desempenho das duas equipas.

Ontem Portugal jogou o que deu para jogar. Se contra a Alemanha pecou por optar pela indisciplina, contra os Estados Unidos mostrou o que é capaz de fazer neste momento: só aquilo e mais nada. Seria injusto ter perdido, mas mais injusto ainda para os norte-americanos se Portugal tivesse ganho. A nossa selecção partiu para o Brasil apontada como uma das com mais possibilidades de chegar longe no mundial, e os jogadores garantiram "estar bem". Mentiram, coisa feia, pois se há coisa que eles não estão é bem, quer fisicamente, quer em termos anímicos. Que outra equipa vimos neste torneio com jogadores a lesionarem-se com tanta facilidade, praticamente sem que ninguém lhes toque? Além dos que se lesionaram contra a Alemanha, com Fábio Coentrão e Hugo Almeida à cabeça de um rol de suspeitas quanto à competência do departamento médico da selecção, nota-se desgaste e falta de motivação noutros jogadores. Nani fez a época que se sabe no Manchester United, e ainda tem sido um dos menos maus, e o "miolo" composto por Miguel Veloso, Raúl Meireles e João Moutinho demonstrou falta de entrosamento, sendo que qualquer um destes joga em equipas de segunda no panorama europeu, talvez com a excepção de Moutinho, que mesmo assim tem tido dificuldades em impôr-se no onze do Monaco. A defesa ficou comprometida com a atitude de Pepe no jogo inaugural, e a situação clínica de Cristiano Ronaldo tem sido notícia desde a primeira hora, e pairado como uma sombra sobre o resto do grupo.

Na hora de apurar responsabilidades, todos apontam o dedo a Paulo Bento. Tudo bem, um capitão tem o dever de afundar com o navio, mas para mim tudo o que posso acusar o selecionador nacional de fazer é, e permitam-me o pleonasmo, "selecionar os selecionáveis". O elo mais fraco da selecção na era Paulo Bento tem sido, a meu ver, João Pereira na posição de lateral-direito, mas fico coçar os piolhos pensando noutra alternativa. Miguel dava jeito, mas já não joga. Outra insistência é em Rui Patrício na baliza, e tanto este como João Pereira serão resquícios da passagem do selecionador pelo Sporting, onde "descobriu" estes jogadores, a que juntemos ainda Miguel Veloso como o "terceiro mosqueteiro". Beto mostrou ontem ser uma alternativa para a baliza, mas quem mais poderia Paulo Bento optar para tapar eficazmente os "remendos" da selecção portuguesa. Para o lado esquerdo da defesa, que tanto se ressentiu ontem da falta de uma alternativa fiável queriam quem? Já sei: Daley Blind, que tem sido sensacional quer no lugar de lateral como de centro-campista, e...ah esperem lá, é holandês, paciência. O Raúl Meireles tem sido um zero no meio-campo? Porque é que ele não chamou antes o Eden Hazard? Ah pois, porque é belga, ok. Não há homens-golo? Então e o Luis Suárez, ou o Thomas Müller, e que tal Karim Benzema, que até se entende com C. Ronaldo no Real Madrid, onde jogam juntos há anos? Era bom, era, mas o problema é que estas alternativas nem se colocam, pois só para nos lixarem a vida, estes tipos resolveram ir nascer noutro país que não Portugal. Penso que se alguém descobrisse por aí um sítio onde abundassem jogadores de qualidade elegíveis de representar a selecção portuguesa, o Paulo Bento já lá teria chegado antes, com toda a certeza. Pode ser que este fiasco signifique o seu fim como selecionador nacional, mas quem se atreve a calçar esta bota, especialmente se for nas mesmas circunstâncias?

As comparaçõres desta campanha com o mundial de 2002 na Coreia e no Japão são inevitáveis; tinhamos vindo de um Euro 2000 onde fizemos uma boa campanha e éramos apontados como uma das equipas de topo, tinhamos o melhor jogador do mundo, Luís Figo, que estava fisicamente limitado, existia confiança em excesso no grupo, e ficámos tristemente célebres pelos problemas de indisciplina. Neste último particular a diferença foi o "timing", pois enquanto na Coreia guardámos a arruaça para o último jogo, aqui fizemos questão de armar barraca logo na estreia. Isto leva-me a pensar que Portugal dá-se mal com estes ambientes "exóticos". Se olharmos para oo que aconteceu na Coreia, ou ainda recuando mais, no México, dá para chegar a esta conclusão. Há quatro anos na África do Sul as coisas correram mais ou menos bem, mas talvez porque ficámos situados no mesmo paralelo, com o mesmo fuso horário. Talvez seja do "jet-lag", do clima, saudades da mãezinha ou do cão lá a um continente de distância, sei lá, a verdade é nos únicos dois mundiais que disputámos no continente europeu, chegámos às meias-finais, e com 40 anos de distância! Com a sorte que temos, ou com a falta dela, se calhar falhamos o mundial da Rússia daqui a quatro anos, mas temos sempre o mundial de 2046 para nos voltarmos a orgulhar dos nossos rapazes - contando que seja na Europa, claro.

Portugal-2 EUA-2



Depois de Alemanha e Gana terem empatado a duas bolas no Sábado em Fortaleza, Portugal e Estados Unidos fizeram o mesmo resultado ontem em Manaus, mas em de deixarem tudo na mesma, clarificaram as contas - alemães e norte-americanos só precisam de empatar entre eles na quinta-feira, e ambos passam. Portugal precisa de um autêntico milagre, que passa não só por uma derrota da Alemanha ou dos Estados Unidos, mas também por uma vitória robusta sobre o Gana. Mesmo acreditando que os treinadores alemães Joachim Löw e Jürgen Klinsmann não arranjam uma saída airosa que beneficie as suas equipas (eu apostaria tudo num empate), as possibilidades do Gana golear a selecção portuguesa são maiores do que o contrário acontecer, julgando pelo que Portugal mostrou ontem no jogo da Amazónia. A equipa de Paulo Bento, com várias alterações forçadas, até não entrou mal, e marcou logo aos quatro minutos, aproveitando uma enorme asneira da selecção norte-americana; Miguel Veloso lança uma bola aparentemente inofensiva para área, e o defesa Geoff Cameron alivia defeituosamente, deixando-a ao alcance de Nani, que não perdoa e remata para o fundo da baliza de Tim Howard. Se era de uma goleada que Portugal precisava, tinha começado bem, e o adversário até deu uma ajuda. A primeira contrariedade apareceu logo ao minuto 13, quando Hélder Postiga, que substituíu o lesionado Hugo Almeida, saíu lesionado, obrigando Paulo Bento a apostar em Éder - bom ou mau, era a única alternativa que restava. Os Estados Unidos tomaram então conta do jogo, e faziam o que queriam pelo flanco direito, às custas de André Almeida, o lateral-esquerdo português adaptado, que mostrou ser lesto a atacar mas uma desgraça a defender - valeu na circunstância o guarda-redes Beto, que também substituíu Rui Patrício e fez um punhado de boas defesas, e alguma falta de pontaria dos avançados americanos. Apesar de dominado, Portugal podia ter "matado" o jogo em cima do intervalo, quando após um remate de Cristiano Ronaldo ao poste, Éder faz a recarga para uma defesa espectacular de Howard. Foi a defesa do jogo.


Para a segunda parte Paulo Bento tira André Almeida e coloca William Carvalho, passando Miguel Veloso a tapar o lado esquerdo da defesa. A alteração, mais uma no sentido de remediar a falta de opções na selecção portuguesa, até resultou, mas se os americanos deixaram de atacas pela direita do seu atauqe, continuavam "em cima" de Portugal. Aos 64 minutos chegariam ao empate, e não por culpa de ninguém, mas graças a um momento de inspiração de Jermaine Jones, que atira um remate forte e colocado de fora da área, que descreve um arco e encaixa-se no canto direito da baliza de Beto, que não tinha a mínima hipótese de defesa. Portugal precisava de ganhar, e Bento arrisca a última substituição, tirando Raúl Meireles, que esteve muito apagado, e fazendo entrar Varela, que tinha sido o "pronto-socorro" no europeu há dois anos frente à Dinamarca, em circunstâncias idênticas. Mas de pouco ou nada valeu, pois com Cristiano Ronaldo desinspirado, Éder a ir "apagando-se" e apenas Nani a remar contra a maré, o golo não chegava, e tudo piorou quando aos 81 minutos os Estados Unidos consumam a reviravolta, aproveitando a desorientação lusitana e a maior frescura física - Klinsmann teve a seu favor a maior disponibilidade dos seus jogadores. Gareth Zusi passa pela defesa portuguesa como se fosse manteiga, e Clint Dempsey faz o 2-1, resultado que apurava os americanos e deixava Portugal de fora do mundial. Chegava o minuto 90, Portugal já jogava mais com o coração do que com a cabeça e os americanos iam festejando. Só que festejaram demasiado cedo, pois faltavam vinte segundos para se atingir o quinto minuto de descontos, e C. Ronaldo manda uma bola para a área, onde perante uma defesa adversária que parecia estar já a encaminhar-se para o balneário, Varela aparece na cara de Howard e faz o empate. Os americanos nem queriam acreditar na sua própria ingenuidade, e isto nem parecia vindo de uma equipa que vem de um país onde na NBA se decidem jogos no último segundo. Portugal não ficou de fora do mundial por um triz, mas volta a ficar de calculadora na mão. E desta vez a equação é muito complicada de resolver.

domingo, 22 de junho de 2014

ManifestaCÃO




E se em Yulin os cães fazem parte da ementa, em Macau realizou-se esta tarde uma manifestação a favor dos seus direitos. Dos "seus", quer dizer, dos cães, entenda-se, e dos restantes animais de estimação. A iniciativa partiu do Novo Macau Democrático (NMD), em conjunto com a Consciência Macau, e contou com a participação do deputado José Pereira Coutinho, que juntamentamente com os seus colegas do NMD, tem sido uma das poucas vozes a favor de uma legislação que proteja os animais da maldade dos humanos - e se estes são o que são uns com os outros, imaginem o que sofrem os indefesos bichos nas suas mãos. O local foi, como já é hábito, a praça do Tap Seac, e a manifestação contou com centenas de participantes. Mesmo não sendo uma acção contra o desempenho do Executivo, o número de aderentes é considerado significativo. Pereira Coutinho já apresentou um projecto de lei no sentido de proteger os animais de maus tratos, mas este foi rejeitado (duas vezes), e alguma da argumentação que serviu de base a esta rejeição teve contornos surrelistas, como podem recordar neste artigo de Fevereiro último que assinei nas páginas do Hoje Macau.

No ano em que passamos pela "primavera macaense" e o "summer of love" em termos de manifestações aqui no território, esta é uma que se podia perfeitamente evitar. O Governo já adiantou que vai produzir legislação neste sentido, e sabendo o que a casa gasta será certamente aprovada, mas a iniciativa peca por tardia. É difícil entender porque se hesita tanto em dotar Macau de uma lei comum a todos os países civilizados. Quem não nos conheça ou nunca tenha cá posto os pés, ainda vai pensar que praticamos tortura em animais como desporto. Além do mais é descabido que não o exista uma legislação deste tipo em Macau. Com excepção daquele "bico-de-obra" que tem sido a questão dos galgos de corrida no Canídromo, a população tem condescendência com os animais - isto é, se aceitarmos a questão do "frangocídio" a que se assiste nos mercados, bem como a decapitação das rãs, como um "aspecto cultural". Mas a verdade é que há sempre um ou outro palerma que descarrega as frustrações nos inocentes, mas para que mais são as leis com carácter preventivo ou punitivo senão para os palermas e para os teimosos que só aprendem quando "levam nas orelhas"?

Com a já referida (nada) honrosa excepção dos galgos de corrida, não se entende a hesitação da Assembleia Legislativa em produzir uma lei, uma leizinha que seja para garantir aos animais irracionais protecção da irracionalidade dos animais racionais. O que é o pior que pode acontecer? Ir um cão à esquadra com um olho roxo alegar que o dono lhe bateu, quando isso não é bem verdade? O dono de um gato não ter o direito de o esfolar vivo depois dele o arranhar após tentar roubar-lhe um carapau? Privar um apostador que acabou de perder uma fortuna no casino do direito de pontapear o primeiro quadrúpede que encontrar pela frente? Eu próprio entendo a indignação de quem protesta, pois assim dá a entender que eu gosto de torturar a vaca só para dar um sabor mais agreste ao bife. Se me perguntassem se preferia esta lei ou outra que regulasse os preços da habitação e acabasse de vez com a especulação escolhia esta última, lógico, mas isto não é um concurso televisivo, e sinceramente fica-se sem entender a existência desta lacuna.

E falando de "indignados", certamente que na manifestação de hoje não terão faltado os radicais da causa, as madamas que dormem com os cães, dão-lhes beijinhos e levam-nos ao cabeleireiro e à "paticure" ao fim-de-semana, e choram baba e ranha cada vez que veêm um gato zarolho ou perneta. São estas pessoas que muitas vezes tiram credibilidade a esta luta; não aceito que se maltratem ou torturem os animais, mas também não aceitem que os tratem como pessoas. Por exemplo, enquanto houver gente a morrer por falta de cuidados médicos, não se entende que existam ambulâncias para animais. É fácil entender a que ponto pode chegar o ridículo, havendo a possibilidade de se requisitar essa ambulância porque a tartaruga se engasgou com um pintelho que alguém deixou na banheira. Isto para não falar de alguns vegatarianos, vegans e afins do tipo fascizóide, que impõem algo que devia ser uma opção, e gostam de chamar a atenção realizando funerais a casacos de vison e sapatos de camurça. E a hipocrisia de quem não come carne de vaca e quase arranca os cabelos quando ouve falar de touradas, mas usa produtos feitos de couro. Quer dizer, o exagero aqui impede que muito boa gente adira e esta luta - nem todos estão dispostos a fazer figuras tristes.

Penso que mais do que os direitos dos animais, o que é já de si um motivo perfeitamente legítimo, o que está aqui em causa é mexer um pouco com este Governo e pedir-lhe para que desça do pedestal e faça aquilo que lhe compete, que é, sei lá, governar? Se toda esta inércia se deve ao facto dos animais não votarem, isso nem chega a ser desculpa, pois as pessoas votam e isso não adiantado grande coisa. Ponham os olhos no deputado Pereira Coutinho, que esteve lá hoje, e por muito que se esforçe só consegue convencer alguns cucos e outras aves raras. Se o Executivo não gosta de ver fente nas ruas porque com isso passa uma má imagem para os "patrões" mandarins, então não anda a fazer o trabalho de casa. Que não se mexa quanto às uniões civis dos casais homossexuais ainda se compreende (nem convém, se a ideia é dar "graxa" a Pequim), que não se decida quanto à questão da violência doméstica é reprovável, e que não mova uma palha para resolver a inflação e o problema do imobiliário é exasperante, mas isto? Hoje são os cães e os gatos, amanhã as galinhas e os patos, depois as pulgas e os carrapatos - tudo vai servir para malhar no Governo. Olha quando se lembrarem de uma manifestação contra a CTM (e já fazia falta), contem comigo; eu vou estar lá na frente com uma forquilha e uma tocha em chamas.


HoloCÃOsto em Yulin


Este artigo surge no lançamento do próximo, e fala da forma muito "especial" como os habitantes de Yulin, na província chinesa de Shaanxi, celebram a chegada do solstício de Inverno: com um festival onde se come carne de cão. Todos os anos no mês de Junho são mortos cerca de 10 mil cães naquela cidade, onde os habitantes acreditam que consumir a carne daquele animal, bem como líchias e uma espécie de licor "garantem a saúde durante o Inverno". Isto de pensar na saúde quando chegar o Inverno consumindo carne de cão durante a chegada do Verão ultrapassa-me, mas pelo menos os amigos de quatro patas têm algum sossego durante o resto do ano, sendo que o festival decorre apenas durante pouco mais de uma semana. Também não é claro o que acontece se alguém optar por comer cão noutra altura do ano, pelo que esta combinação de solstícios e "cachorros-quentes" só pode ser mesmo um delírio próprio de gente chalupa.



Yulin tem sido nos últimos anos ponto de romaria dos defensores dos direitos dos animais na China, e pelas imaginas que podemos ver acima é fácil entender porquê. Já não é muito fácil aceitar uma "tradição" destas, ainda mais quando os animais são mantidos em condições precárias, e depois chacinados, cozinhados, preparados e consumidos à vista de todos. Eu próprio sou carnívoro, tenho os meus conceitos sobre o consumo de carne de animais, mas não aceitaria que as vacas, porcos, ovelhas ou aves fossem abatidas na rua, à frente de toda a gente. O preconceito de que os chineses comem cão da mesma forma que os ocidentais comem uma sandes de queijo é falso, e vai sendo cada vez menos verdade à medida que se vai ganhando consciência de que o cão é um animal doméstico, de companhia. A acção dos activistas parece estar a surtir efeitos, uma vez que cerca de 100 restaurantes de Yulin que aderem a este festival falam de uma "redução significativa" do consumo desta carne. No entanto isto pode também ter a ver com preocupações quanto à saúde pública, uma vez que os cães para consumo não passam pela inspecção sanitária, e a fiscalização é muito precária, senão mesmo inexistente. Este ano registou-se ainda um aumento dos casos de raiva, o que pode ter levado muitos "aficionados" desta prática a ficar em casa, ou a preferir um restaurante da cadeia McDonald's.



É de louvar que haja quem se oponha a esta orgia de tortura e morte com contornos tão sádicos, mas isto do activismo em prol dos direitos dos amigos de quatro patas é um pau de dois bicos. Colocando Yulin no mapa deste tipo de activismo, não faltarão os habituais "espertalhões" à procura de lucrar com a bonomia alheia. Reparem naquela artista nas imagens acima, que logo pelo aspecto dá para perceber que se trata de um canalha. Alguns dos activistas compraram os animais com o intuito de os salvar da panela, e o pintarolas não se inibe de torturar um cão para que alguém com pena do bicho lhe ofereça 400 renminbis - isto para quem está ler em Portugal ou em qualquer outro sítio são mais de 40 euros. Só lhe faltava cortar o rabo ao cachorro, ou uma das orelhas, para mostrar que estava mesmo a falar a sério e aproveitar para aumentar o preço.


Agora reparem neste animal, e refiro-me obviamente àquele gordo filho da puta que está a ameaçar agredir uma das activistas, que tem menos de metade do seu tamanho. Não dá para entender bem se a está mesmo a ameaçar, ou apenas a descompô-la, mas eu adorava estar ali naquele momento, que assim enchia meia dúzia de pacotes de banha de suíno, e ele aprendia a meter-se com alguém do seu tamanho - salvo seja, que não tenho aquele aspecto asqueroso, mas pelo menos não ficaria intimidado. O problema aqui é que as autoridades não reconhecem este festival como oficial, mas não o proibem, uma vez que o consumo da carne de cão na China não é crime. O melhor que teriamos a fazer neste caso era não lhes dar corda, boicotar o festival e levar o activismo a outras instâncias, nomeadamente as oficiais, fazendo pressão para que haja algum decoro neste tipo de exibicionismo.

Joe quem?


Cristiano Ronaldo...o nome não me é estranho. Será o rei da Roménia?

Hoje é dia (ou noite, ou madrugada, ou manhã, dependendo da distância do Brasil) de Portugal-Estados Unidos, partida da segunda jornada do Grupo G do mundial do Brasil. O encontro assume um carácter decisivo para a equipa portuguesa, que na primeira ronda deu muito má conta de si, perdendo de goleada para a Alemanha, e ficando privada de quatro das suas pedras: Rui Patrício, Hugo Almeida e Fábio Coentrão, por lesão, e Pepe, expulso num lance que deixou uma enorme mácula em todos nós - não queremos ver os nossos jogadores a reagirem daquela forma só porque estão a perder. Ficamos a torcer pelos restantes 19, e a fazer força para que limpem em Manaus a má imagem deixada no jogo de estreia. Na falta de um deserto, nada melhor que a selva, neste caso a Amazónia, para fazer a tão necessária catarse.

Os norte-americanos, por seu lado, partem em vantagem para este encontro, depois de terem vencido o Gana por 2-1 na ronda inaugural, e um empate serviria em pleno as ambições da equipa orientada por Jürgen Klinsmann. Espera-se portanto que os "yankees" adoptem uma postura que passa por chamar a equipa portuguesa a tomar a iniciativa do jogo. Como sempre as atenções vão estar concentradas no nº 7 da selecção das quinas, Cristiano Ronaldo, que na chegada a Manaus tinha centenas de fãs à sua espera, esperando pelo menos ver ao vivo o "craque" português. O fenómeno C. Ronaldo ultrapassa as fronteiras do desporto-rei, e entra numa espécie de misto entre "pop" e Papa. Fiquei perplexo ao ver tantas fãs, na grande maioria jovens, e do sexo feminino, encostadas às barreiras de segurança junto ao hotel onde a selecção portuguesa ficou instalada, chamando pelo jogador, e exigindo que "pelo menos ele aparecesse para falar com elas", depois de horas de espera debaixo de chuva intensa. Pode-se afirmar com uma grande dose de certeza que Cristiano Ronaldo é o português mais popular de sempre em todo o Brasil.

Mas quem não pensa assim é Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos que vai estar em Manaus para assistir ao encontro, e que considera C. Ronaldo "um fiteiro", chegando mesmo a chamá-lo de "homem-atum" - por estar sempre caído no relvado. Oh, oh, oh. Perdoem-me a "boca machista" de ocasião, mas se há alguém que é pior que as mulheres quando fala de futebol são os americanos. O que percebe este gajo de bola, este Joe-qualquer-coisa? O pior é quanto se encontram os dois mundos: há uma semana Sarah Palin, aquela desvairada que é governadora do Alasca, afirmou na sua conta do Twitter que o futebol, ou "soccer", como lhe chamam por aquelas bandas, era "um desporto de terroristas", e que "os americanos a sério não querem saber desse desporto". A sra. Palin chegou mesmo a sugerir que uma adepta que confessou assistir ao mundial de futebol e apoiar a Espanha "se mudasse para o México" (deve pensar que é a mesma coisa), e nem fazia ideia que a selecçãos dos Estados Unidos estava na prova, afirmando "não é mundial se não estiver lá a América". Mas o que esperar de alguém que garante que o mundo "foi criado há 5000 anos por Deus", e que "tudo está exactamente como Ele deixou"?

Eu até respeito a equipa dos Estados Unidos, e como podem ter percebido, nem fiz com eles a mesma sátira com que presenteei a selecção alemã na passada segunda-feira. Há que tirar o chapéu aos "carolas" americanos, que devem sofrer por gostar de futebol num país onde os desportos de eleição incluem o basebol, o futebol americano - uma espécie de "rugby" onde os seus praticamentes se vestem como num filme de terror - e hóquei no gelo, que difere do boxe apenas nos aspectos do equipamento e do local onde se pratica. Só o facto de considerarem o futebol um desporto "para meninas", e chamarem ao seu campeonato nacional de basebol "world series", quando são apenas americanos que participam, diz tudo sobre o tipo de patetas que estes gajos são - mais uma vez, sem desrespeito pelos que gostam de futebol. Portanto vá lá a Manaus fazer o papel que lhe compete, que é meramente simbólico, e evite fazer comentários durante o jogo. Tenha alguma dignidade. E já agora, sabe quem é o Cristiano Ronaldo? É "apenas" o melhor atum do mundo. Perdão, o melhor jogador do mundo daquele desporto do qual você não entende nada.




Liga de Elite: Benfica campeão de Macau



O Benfica de Macau sagrou-se campeão da Liga de Elite do território, ao derrotar esta tarde o Sporting por 2-1, em partida a contar para a 18ª e última jornada, e realizada no Estádio da Taipa. As equipas partiam em igualdade pontual para este jogo, e o empate bastava aos encarnados, que haviam vencido os leões no jogo da primeira volta, por expressivos 3-0. O Sporting sabia que era necessária assumir as despesas do jogo, e adiantava-se mesmo no marcador aos 31 minutos por Bruno Brito, na transformação de uma grande penalidade, e chegavam ao intervalo em vantagem, e virtualmente campeões. O treinador do Benfica, Bruno Álvares, sabia que era preciso mudar alguma coisa, e fez entrar ao intervalo Luís Amorim para o lugar de Chan Pak Chun, o que se viria a revelar uma aposta acertada, pois logo ao segundo minuto da etapa complementar o jovem macaense marcava o golo do empate. Embalados pelo restabelecimento da igualdade, as águias marcariam de novo cinco minutos depois, pelo brasileiro William Gomes, o "artilheiro" do campeonato, e a partir daí foi só gerir a vantagem. O Sporting correu atrás do prejuízo, e em apenas dez minutos o treinador João Maria Pegado fez entrar Pascoal Júnior, Rui Pires e Rodrigo Veloso, mas era difícil dar a volta ao resultado perante uma equipa como o Benfica, que dificilmente sofreria dois golos em tão curto espaço de tempo, atendendo a que apenas consentiu cinco durante todo o campeonato, e os dois últimos foram de grande penalidade. Os leões acabariam com dez elementos, após expulsão de Éder Arruda por acumulação de amarelos aos 87 minutos, e pouco depois ouvia-se o apito final, e a festa tinha tons de vermelho no Estádio de Macau, na Taipa, que por motivos óbvios estava mais composto de público que o habitual.

O Benfica merece inteiramente este título, apesar de início de época periclitante, com uma vitória, um empate e uma derrota nos primeiros três jogos, que levaram ao polémico despedimento do treinador Daniel Pinto, ou "Dani", e o regresso de Bruno Álvares, que no ano passado levou as águias ao 2º lugar da Liga de Elite, com apenas menos um ponto que o campeão Monte Carlo. A aposta da direcção do Benfica provou ser acertada - apesar da decisão precipitada em despedir Dani, que perdeu pontos apenas para equipas do topo da tabela - e nos 13 jogos em que Bruno Álvares orientou os encarnados obteve 12 vitórias, perdendo apenas pontos para o Monte Carlo na 12ª jornada, com um empate a uma bola. A Casa do Benfica em Macau vê assim o seu investimento produzir frutos, pois ao terceiro ano consecutivo na Liga de Elite chega finalmente ao título, depois do terceiro lugar em 2012, e do vice obtido na época passada. O Sporting deu muito boa conta de si, pois no ano de estreia na Liga de Elite chegam ao 2º lugar, levando a decisão do título para a "negra". Estreia não será bem a palavra certa, se considerarmos que os leões foram "refundados" por António Conceição Júnior há alguns anos, e eram presença assídua na divisão principal durante os últimos anos da administração portuguesa, chegando inclusivamente a ser campeões na época de 1991/92 pela última vez. De louvar a iniciativa da comunidade portuguesa em prol do muito murchinho futebol do território, com dois emblemas de matriz lusitana a terminar nos dois primeiros lugares da classificação. Só é pena que o projecto do FC Porto de Macau não tenha tido continuidade, mas para o ano teremos a Casa de Portugal entre os grandes, se bem que devido a questões de orçamento dificilmente teremos um pódio 100% português na liga macaense.

Nas restantes partidas do fim-de-semana, destaque para a goleada do Monte Carlo frente ao Chao Pak Kei por 9-2, um resultado que já não se usa, verificado nesta partida que encerrou a Liga de Elite neste ano de 2014. Francisco Rodrigo e Anderson apontaram um "hat-trick" cada, ficando os restantes golos a cargo de Júlio César Tavares, Rafael Medeiros e Ao Ieong Kin Long. Para o Chao Pak Kei, que já perdia por 4-0 ao intervalo, marcaram Aureo Peio e Leong Tak Wa, que teve pelo menos o mérito de marcar o último golo desta edição da Liga. O Monte Carlo, que defendia o título conquistado no ano passado, terminou no terceiro posto a cinco pontos do campeão Benfica, e a dois do Sporting, e pode-se dizer que foi contra os leões que perderam o campeonato, com derrotas na jornada inaugural (0-2), e na 10ª jornada, na abertura da segunda volta (2-5). De resto foram estas as únicas derrotas dos "canarinhos", que tiveram o mérito de "roubar" cinco dos sete pontos perdidos pelo campeão Benfica, graças a uma vitória na 3ª jornada (1-0), e um empate na 12ª (1-1). O Ka I despediu-se no Sábado com uma vitória por 3-1 sobre a Polícia, com os brasileiros Adilson Silva e Reginaldo a marcarem aos 42 e aos 45, e Ho Man Hou a ampliar aos 51, com a formação da PSP a reduzir dois minutos depois por Lam Man Leong. Tri-campeões entre 2010 e 2012, o Ka I foi este ano uma sombra dessa equipa, terminando a dez pontos do campeão Benfica, revelando grandes dificuldades em discutir um dos três primeiros lugares, e evidenciando até alguma displicência contra equipas da segunda metade da tabela.

E falando agora dessa "segunda metade" - se é que podemos dividir assim um campeonato com nove equipas - a Polícia e o Chao Pak Kei perderam as suas partidas da última jornada, como já vimos no parágrafo anterior, e o único interesse residia na partida entre o Lai Chi e os Sub-23, que decidia o 7º lugar. O Lai Chi, que deu boas indicações nas primeiras jornadas da prova mas acabaria por ser "carne para canhão" das equipas do topo venceu os jovens da formação da AFM por 5-1, dissipando quaisquer dúvidas sobre a sua superioridade; basta ver que o Lai Chi apontou 26 golos em 16 jogos contra apenas dez dos Sub-23 durante o campeonato. Não estou por dentro dos regulamentos para afirmar categoricamente que esta partida decidia uma das equipas a ser despromovida, pois estou em crer que apenas desce o último classificado, na circunstância o Kei Lun, que folgou nesta última ronda e somou apenas um ponto. No entanto não seria nenhuma injustiça que os Sub-23 descessem, ou até ambas as equipas que discutiram este jogo no Sábado. O projecto da equipa apoiada pela AFM teve os seus momentos, chegando a ter um grupo competitivo até há dois, vencendo inclusivamente a "Bolinha", o torneio de futebol em miniatura disputado entre Agosto e Outubro, mas deixou de fazer sentido. Depois de terem perdido todos os jogos da Liga de Elite em 2013, seriam repescados devido às desistências de Lam Pak, Lam Ieng e Kuan Tai, e este ano venceram apenas três - os dois contra o "elo mais fraco", o já referido Kei Lun, e incidentalmente contra a Polícia, praticamente no arranque da época. Para o ano provavelmente estarão lá novamente, para "aprender" da pior forma: com mais goleadas. Mas o que dizer de um campeonato onde a diferença entre o quarto e quinto classificado é de doze pontos? Investimento precisa-se, para arrebitar esta liga tão "castiça". Em 2015 há mais.


Classificação final:

Benfica-16 13 2 1 63-5 41
Sporting-16 12 2 2 41-11 38
Monte Carlo-16 11 3 2 56-19 36
Ka I-16 9 4 3 47-17 31
Polícia-16 5 4 7 24-24 19
Chao Pak Kei-16 4 5 7 25-30 17
Lai Chi-16 4 1 11 26-52 13
Sub-23-16 3 0 13 10-63 9
Kei Lun-16 0 1 15 10-82 1


Nigéria-1 Bósnia Herzegovina-0



A selecção da Bósnia-Herzegovina, a única estreante neste mundial do Brasil, foi eliminada da prova ao perder ontem com a Nigéria por uma bola a zero. Os bósnios, e permitam-me uma opinião pessoal, saem do torneio por culpa própria, pois apesar da qualidade técnica que demonstraram, e apetrechados de estrelas como Edin Džeko, Zvejzdan Misimović, Vedad Ibišević ou Sejad Salihović, apresentaram-se com um timidez confrangedora, como se tivessem vindo para o torneio apenas com a esperança de não sairem goleados em todos os encontros que disputariam. Contra a Argentina temeram o que não havia para temer, e contra a Nigéria foi mais do mesmo, com o treinador Safet Sušić a hesitar de uma forma arrepiante - tivessemos um selecionador destes e era linchado na chegada à Portela. É certo que desta vez se podem queixar do árbitro australiano Peter O'Leary, que logo nos primeiros minutos anulou mal um golo a Džeko, por pretenso fora-de-jogo. Nem é preciso recorrer à repetição em câmara lenta para perceber que na altura do passe de Misimović, o defesa nigeriano Efe Ambrose coloca o avançado do Manchester City em jogo. Mas golo a mais ou golo a menos, os bósnios tiveram sempre medo de arriscar, e aos 29 minutos a Nigéria marcou, e desta vez a valer, com uma jogada de combinação entre Peter Odemwingie e Emmanuel Emenike, com este a receber a bola do primeiro, a trabalhá-la pelo lado direito, deixando o defesa Emir Spahić "nas covas", e depois devolvendo a bola ao colega que o desmarcou, que só precisou de atirar para o fundos das redes de Asmir Begović. Emenike foi o melhor jogador da Nigéria, que venceu o primeiro jogo em fases finais de mundiais desde 1998, quando bateu a Bulgária por 1-0 na fase de grupos. Os nigerianos nem fizeram muito para merecer o triunfo, mas perante uma equipa tão cerimoniosa como esta Bósnia-Herzegovina, bem podem eles dizer "que venham mais dos mesmos". O grupo F ficou praticamente decidido após esta segunda ronda, com a Argentina a somar seis pontos e a garantir o apuramento, a Nigéria tem quatro, o Irão tem um ponto e a Bósnia-Herzegovina tem zero. Este será talvez o mais desinteressante de todos os grupos até ao momento, com apenas 5 golos marcados nas quatro partidas realizadas, e para os nigerianos seguirem em frente, basta-lhes um empate com a Argentina, e não surpreenderia ninguém se ambas as selecções combinassem uma "peladinha" entre elas na próxima quinta-feira em Porto Alegre, que dessa forma ninguém se aleijava, e ambas passavam à fase seguinte - e é mais do que merecem, sinceramente.


Alemanha-2 Gana-2



Alemanha e Gana empataram a dois golos no Castelão, em Fortaleza, em jogo de abertura da segunda ronda do Grupo G do Brasil 2014. Um resultado que antes de mais nada serve as pretensões da selecção portuguesa, que fica a depender apenas de si mesma para atingir os oitavos-de-final, mas olhando para o que jogam os seus adversários, terá que fazer muito, mas mesmo muito melhor do que fez contra a Alemanha na ronda inaugural. Alemães esses que eram favoritos frente a uns ganeses que mais uma vez mostraram ser a equipa africana da actualidade com mais qualidade, mas desta vez tiveram pela sua frente uma equipa disciplina, fisicamente bem preparada, e que partia com rapidez para o ataque cada vez que estava com a posse da bola. Depois de uma primeira parte sem golos, os europeus voltaram decididos a resolver na segunda parte, e chegariam ao golo logo ao minuto 51, numa jogada bem desenhada, com Thomas Müller a cruzar para a área do Gana, onde encontrou Mario Götze, que bateu a bola com a cabeça e empurrou-a com o joelho para a baliza de Fatawu Dauda. Alguma sorte na execução da parte do avançado do Bayern, mas isso não lhe retira o mérito de estar no lugar certo para corresponder ao cruzamento do seu companheiro de clube e de selecção. O Gana não baixaria os braços a passou a atrever-se mais, e viria a ver a sua ousadia quase imediatamente recompensada, empatando apenas três minutos depois por Andre Ayew, que saltou no meio dos centrais alemães para empurrar de cabeça para o fundo da baliza uma bola cruzada por Harrison Afful - pouco habitual a apatia da defesa alemã, que parece ter-se "esquecido" de Ayew, um dos elementos mais perigosos da selecção ganesa. A "mannschafft" parece ter acusado o lance, enquanto os ganeses "cresceram", e chegariam mesmo a adiantar-se no marcador aos 63 minutos, quando Sulley Muntari "rouba" uma bola no meio-campo alemão, e sem perder tempo isola Asamoah Gyan, que remate forte e cruzado fora do alcance de Manuel Neuer - o Gana estava em vantagem, quem diria. Joachim Löw sabia que uma derrota ia complicar bastante as contas, e resolve "meter a carne toda no assador", tirando Götze e Sami Khedira, e fazendo entrar dois elementos da velha guarda, Bastian Schweinsteiger e Miroslav Klose. E seria este último a justificar a aposta do treinador, empatando o encontro apenas dois minutos depois de ter entrado, quando após um canto de Toni Kroos, Benedikt Höwedes desvia de cabeça e o veterano avançado actualmente ao serviço dos italianos da Lazio a desviar ao segundo poste para o fundo da baliza. Klose, actualmente om 36 anos, cumpre o seu quarto mundial, e igualou o brasileiro Ronaldo na lista de melhores marcadores de sempre em campeonatos do mundo, somando agora ambos 15 golos, se bem que o alemão tem 20 jogos, contra 19 do "fenómeno". A partida de Fortaleza terminaria empatada, um resultado justo para os ganeses, que não mereceram de todo perder, e conseguiram bater o pé à Alemanha.


Uma das curiosidades interessantes desta partida prendeu-se com um encontro de irmãos do lado oposto da barricada. Kevin-Prince e Jerome Boateng são meio-irmãos da parte do pai (apesar da diferença de idade entre ambos ser apenas de dois anos), e nasceram ambos em Berlim. Jerome é internacional "A" pela Alemanha desde 2009, tendo passado por todos os escalões de formação da "mannschaft", enquanto Kevin-Prince fez o mesmo caminho até aos sub-21, mas em 2010 optou por representar o país de origem do pai de ambos. Apesar da divergência em termos de nacionalidade, os irmãos dão-se maravilhosamente bem, e passaram férias juntos em Miami em 2011. Para nãohaver brigas "lá em casa", ontem dividiram os pontos e tudo.


Menos enternecedor foi o incidente protagonizado por um fã que meio da partida entrou no relvado. Aquilo que aparentemente parecia uma brincadeira inocente, afinal "levava água no bico". O indivíduo não identificado ostentava no peito inscrições de índole nazista; em cima um número de telefone com um indicativo da Polónia, e em baixo um endereço de e-mail falso: HHSSCC@gmail.com,. "HH" são as iniciais de "Heil Hitler", "SS" (desenhado em insígnia rúnica e tudo) representa as "Schutzstaffel", a milícia paramilitar do partido nazi, e "CC" é para "campos de concentração". Gmail, bem, é Gmail, e para quem considera a Google uma companhia de inclinação nazista, acrescenta mais uma ofensa à conta. Começo a ficar com pena dos alemães, que por muito que se esforçem - e esta selecção alemã é do mais multi-cultural que há - não se conseguem livrar desta página negra da sua história.

Argentina-1 Irão-0



A Argentina venceu ontem por uma bola a zero a selecção do Irão por uma bola a zero em Belo Horizonte, e carimbou a passagem aos oitavos-de-final do Brasil 2014, mas sem convencer - muito longe disso. Os argentinos já tinham monstrado contra a Bósnia-Herzegovina no jogo de estreia poucos argumentos para quem se assume a candidato ao título mundial, e contra os iranianos, uma equipa teoricamente inferior, fizeram ainda pior, e devem sobretudo ao factor sorte não terem perdido dois pontos. Seria inesperado apenas para quem não viu, pois apesar de terem assumido as despesas do jogo desde o início, como aliás mostra os 72% de posse de bola, o futebol dos sul-americanos foi um deserto de ideias, sempre canalizado para Messi, mas sem deixar uma bola em condições para o avançado do Barcelona. O Irão foi defendendo como sabia, e não foi preciso colocar o "autocarro à frente da baliza", que a título de curiosidade refira-se que foi entregue a Alireza Haghighi, guarda-redes do Sp. Covilhã, da Liga de Honra portuguesa. A equipa de Carlos Queiroz aproveitou a inoperância da Argentina para ir crescendo, e dispôs de uma grande oportunidade no primeiro tempo, e mais duas na etapa complementar, valendo sempre a intervenção do guardião Sergio Romero, que teve mais trabalho do que estaria à espera. Quando tudo indicava que o nulo seria o desfecho final, eis que Messi dá finalmente um ar da sua graça, com um grande remate de fora da área, surpreendendo a defesa iraniana, que já tinha "fechado" para o empate. Um momento de inspiraçãp a resolver o jogo, e desta vez Queiroz merecia sair com o seu 0-0.

sábado, 21 de junho de 2014

O sermão da montanha


O campus da Universidade de Macau mudou-se definitivamente estes dias para a Ilha da Montanha, e para começar em beleza realizou esta manhã a cerimónia de graduação, atribuindo os diplomas aos estudantes que concluiram os cursos neste ano lectivo de 2013/2014. Só que a cerimónia foi menos monótona que o habitual - estas cerimónias são uma seca, e só interessam aos pais dos alunos, que no fundo foram os que entraram com o "carcanhol" durante os últimos quatro ou cinco anos. Assim os papás, as mamãs, as irmãs, as tias, os namorados e as namoradas tiveram direito a circo e tudo, que podia ter ficado apenas por uns números de malabarismo, mas foi complementado pelos leões e pelos palhaços.


A certo ponto durante a cerimónia, uma recém-licenciada de seu nome Tou Weng Kei (tenho a certeza que vamos ouvir falar dela mais vezes) empunhou um cartaz onde se lia "Deixem de perseguir os docentes", referindo-se alegadamente às pressões feitas a seis académicos da UMAC, que terão expressado opiniões políticas sobre certas situações consideradas "sensíveis". Diz-se nos bastidores que a situação que acendeu o rastilho foi a da suspensão de Bill Chou Kwok Ping, professor de ciência política e activista, figura conhecida pela sua participação em iniciativas de grupos como o Novo Macau Democrático, e mais recentemente no Consciência Macau, fundado por Jason Chao e Sulu Sou. Depois do mal-estar causado pela alegada perseguição a Bill Chou, este terá recebido manifestações de solidariedade da parte de outros académicos, e após as manifestações de Maio último, pelo menos mais cinco deles terão sido pressionados pela Universidade para não comentarem ou emitirem qualquer opinião sobre o assunto - a isto chama-se "censura", em qualquer parte do mundo.



Gostaria de não tomar partido de ninguém neste caso, uma vez que os factos são novos, apanharam quase toda a gente de surpresa, e a informação é difusa, mas caso fosse possível evitar um escândalo, a segurança da UMAC decidiu borrar a pintura. Ocorrendo ao anfiteatro onde se realizava à cerimónia com o mesmo afã que a Scotland Yard ocorre a um estádio de futebol inglês onde se estão a dar altercações entre grupos de "hooligans" rivais (só lhes faltava vir pelo caminho a dizer "oi!oi!oi!oi!"), apressaram-se a retirar o cartaz das mãos da jovem e destrui-lo, e aproveitaram para agredir um elemento acreditado da imprensa que fazia a cobertura do evento. Agora aqui é que a porca torce o rabo: este elemento é nem mais nem menos que Choi Chi Chio, editor da revista "Macau Concelers", publicação oficial da Consciência Macau e "braço-direito" de Jason Chao. Choi tentou recolher imagens do momento em que a segurança abordou Tou Weng Kei, e foi impedido de o fazer, sendo-lhe retirada a máquina, e como se pode depreender facilmente pelas imagens, naquela escola que dá pelo nome de UMAC aplicam-se ainda os castigos corporais. Choi recebeu assistênica no Hospital Conde S. Januário.


E agora, quem é afinal Tou Weng Kei? Não foi por acaso que foi ela a levar aquele cartaz para a cerimónia, nem a sua consciência política e cívica caíu dos céus aos trambolhões: Tou é próxima do grupo Consciência Macau, de Jason Chao e de Choi Chi Chio, e é há algum tempo activa nas suas iniciativas. Penso que a imagem acima diz tudo.



Isto não significa nada, ninguém a proibiu de conhecer quem quiser ou pertencer ao que for, e nada mais fez esta manhã do que exibir pacificamente um cartaz, sem gritar palavras e ordem ou perturbar o funcionamento da cerimónia. Sim, não era a altura certa para se fazer activismo, até por respeito pelos restantes recém-licenciados, mas a intervenção dos seguranças foi desproporcional às circunstâncias. Se quiserem acusar Tou e Choi de terem ensaiado o drama, então contaram também com a cumplicidade do pessoal da segurança da UMAC, que chegou a levar a jovem para o exterior da sala, no dia da sua própria graduação. Algo me diz que este pessoal não anda a par das notícias sobre o que se tem passado em Macau ultimamente.


A jovem manifestante acabaria por receber o seu diploma das mãos do reitor Wei Zhao - e nem havia razão para que tal não acontecesse. Uma imagem curiosa, esta, especialmente se atendermos às expressões faciais de ambos. A propósito da suspensão de Bill Chou, Wei afirmou "existir uma regra que todos os académicos devem cumprir", não adiantando qual, e que "ele [Chou] não é o primeiro a enfrentar um processo disciplinar, não avançando também que outros académicos ou quantos se encontram nesta situação. Se o problema aqui é estarem a ser questionados os limites da liberdade de expressão, o reitor da UMAC, supostamente a instituição que forma os futuros altos quadros da RAEM, Wei Zhao não deixou ninguém descansado quanto a esse particular.


Quem veio meter alguma água...na fervura (eh, eh) foi Cheong U. O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura vem a terreno dizer que qualquer que seja o problema, ou a comichão de que cada uma das partes se queixa, "nada têm a ver com liberdade de expressão". Gostava de poder acreditar nisto, mas não consigo. O secretário disse ainda que se os visados forem inocentes "os preocessos serão retirados", mas caso fique provado que cometeram uma infracção, "serão severamente punidos - epá, isto assusta. Cheong U justificou ainda a ausência de Chui Sai On da cerimónia de hoje, dizendo que o Chefe do Executivo se encontra a braços com problemas de saúde, nomeadamente "uma artrite no pé, que o impede de andar". Deve ser dos tiros que ele e a sua equipa insistem em lá continuar a dar, certamente.


É milagre!




O futebol move multidões, gera paixões, e faz milagres! A polícia brasileira está a investigar alegados casos de fraude com bilhetes especiais reservados para este campeonato do mundo. Idosos, pessoas com mobilidade reduzida e estudantes têm direito a ingressos com desconto ou completamente gratuitos, e isto tem levado a uma série de casos de inválidos que se levantam durante os jogos, falsos estudantes, e pessoas com 30 anos que chegam a recorrer a maquilhagem para se fazerem passar por idosos - aparentemente vale tudo. Imagens como aquelas que vemos em cima têm circulado na internet, e dão conta de espectadores de cadeira de rodas que não contêm a emoção e a certa altura não resistem a levantar-se. A organização já alegou que essas imagens "não são de jogos do mundial". Ora bolas, não vale a pena ser mais mentiroso que os mentirosos, pois se aquelas imagens não foram colhidas nos estádios do mundial do Brasil, das duas uma: ou são foto-montagens bem feitas, ou o Brasil organizou outro campeonato do mundo e não nos disse nada. Em todo o caso a polícia anda a investigar através dos filmes gravados pelas câmaras dos estádios, e recolheram alguns outros de adeptos anónimos. Um deles garante ter estado sentado em frente de quatro adeptos argentinos em cadeira de rodas durante o jogo Argentina-Bósnia, e quando Messi marcou o segundo golo eles levantaram-se, pularam-se e abraçaram-se. Mas alguém ainda tem dúvidas dos poderes curativos milagrosos do futebol? E ainda se queixam do dinheiro que se gastou no estádios, que podia "ser usado para construir hospitais"? Para que precisam hospitais quando têm ali aqueles templos? Nem o pastor Edir Macedo faz melhor que isto, mermão!

Equador-2 Honduras-1



Equador e Honduras encontraram-se em Curitiba, uma das cidades mais problemáticas deste mundial do Brasil 2014, onde se têm registado nos últimos dias confrontos entre a polícia e os manifestantes que se opõem à organização do torneio pelo Brasil - e há-de este acabar e ainda estarão eles a protestar. Quem esperava que este fosse um dos jogos mais pobres em termos de qualidade, por se tratarem de dois "outsiders", enganou-se, pois ambas as formações deram um bom espectáculo. Os hondurenhos, que participam pela terceira vez numa fase final e nunca venceram qualquer jogo, adiantaram-se no marcador aos 31 minutos por Carlos Costly, que aproveitou um desentendimento entre dois defesas adversários para ganhar o esférico, e rematar à vontade à entrada da área, batendo assim Alexander Dominguez. A festa dos centro-americanos durou pouco, pois cinco minutos depois Enner Valencia, que tem sido a grande figura da equipa do Equador, fazia o empate, repondo alguma lógica e justiça no "placard". O Equador mostrou no segundo tempo ser uma equipa superior, mas os hondurenhos venderam cara a derrota, e chegaram a ter um golo invalidade pelo árbitro australiano Ben Williams. Valencia faria o segundo golo aos 65 minutos, e deixava tudo por decidir neste Grupo E, onde ainda não há equipas apuradas nem eliminadas. A França joga com o Equador na quarta-feira, bastando um empate para terminar em 1º lugar, e nesse caso os equatorianos precisam de esperar que a Suíça não vença as Honduras - o que aconteceu em 2010, quando ambas as equipas terminaram empatadas a zero. As Honduras têm a tarefa mais complicada, pois caso vençam os helvéticos por um golo, presisam de esperar que a França vença o Equador pelo menos por duas bolas de diferença. A ver vamos.


Não sei quem estava a comentar o jogo ontem, nem quero embirrar com ninguém, mas por mais que uma vez ouvi qualquer coisa do tipo "O Equador não é na América do Sul" ou "não é bem na América do Sul". Portanto deixei aqui esta imagem que mostra a localização do Equador, que faz fronteira a norte com a Colômbia, a sul com o Perú, e não fica muito longe do Brasil. Voltansdo para a Costa do Pacífico, com as ilhas Galápagos à sua ilharga, situa-se na foz do Amazonas e a sul ainda apanha as cordilheiras andinas. Agora, alguém me explica isto: se não fica na América do Sul, onde fica, afinal?

França-5 Suíça-2



"O que é que a baiana tem", rezava o samba composto em 1939 por Dorival Caymmi e imortalizado na voz de Carmen Miranda. Aqui é caso para perguntar "o que é a Arena Fonte Nova em Salvador da Bahia tem", que nos três jogos ali disputados até agora neste mundial foram marcados nada mais nada menos que 17 golos! Primeiro foi a Holanda a imprimir a primeira goleada da prova ao bater a Espanha por 5-1, depois foi Portugal a sair goleado pela Alemanha por 4-0, e ontem foi a vez da França bater a Suíça por cinco bolas a duas. Mas justiça seja feita aos suíços, que não merecem ser incluídos no mesmo lote das equipas ibéricas, pois apesar da sua defesa ter em alguns momentos lembrado o famoso queijo helvético com buracos, fizeram um jogo de parada e resposta frente aos franceses. Os gauleses, por seu lado, estiveram com a pontaria afinada, e há muito que não se via uma França tão atacante. Mérito para Didier Deschamps, que transformou por completo a equipa que foi uma das grandes desilusões na África do Sul. A partida estava dividida em termos de domínio, até que aos 16 minutos Matthieu Valbuena marca um canto e Olivier Giroud corresponde de cabeça no meio da área suíça fazendo o primeiro golo. Bola o meio, Karim Benzema ganha a posse de bola e lança Blaise Matuidi no lado esquerdo do ataque, e este, já de ângulo quase fechado, encontra um buraco no canto da baliza de Diego Benaglio e faz o 2-0. Sem que realmente merecessem, os helvéticos estavam em desvantagem por dois golos, mas reagiram, e apenas a falta de pontaria evitou que regressassem à discussão do resultado. Basta olhar para a estatística dos remates que falharam o alvo, onde os suíços tiveram 11 contra 8 dos franceses. Mas cada vez que a França ia lá acima era quase letal, e aos 32 minutos beneficiou de uma grande penalidade a castigar uma falta de Johan Djorou sobre Karim Benzema, que o último foi chamado a converter, permitindo a defesa a Diego, e Valbuena na recarga, com a baliza completamente à sua mercê, faz o mais difícil, rematando ao poste. Não foi desta que os franceses marcaram o terceiro, mas seria oito minutos depois, aos 40, com Valbuena a marcar de cabeça - ele que até é de estatura baixa - após cruzamento de Giroud. A vantagem de três golos ao intervalo era injusta para os suíços, que tinham visto um golo de Grani Xhaqa invalidado pelo árbitro, e pareciam em dia de "gato preto" perante a implacável eficácia dos franceses. E pior ficaria a situação no segundo tempo, quando aos 67 minutos Benzema faz finalmente o gosto ao pé num golo espectacular. O cruzamento é de Paul Pogba, o defesa Philippe Senderos falha a intercepção, e a bola fica à disposição do avançado do Real Madrid, que num gesto técnico fantástico estica a perna direita e faz passar o esférico por debaixo de Diego. Os helvéticos sentiram o golo, e seis minutos depois Moussa Sissoko faz o quinto, com os suiços já rendidos, após uma triangulação entre Matuidi e Benzema, com conclusão médio do Newcastle. Cinco golos era uma exagero para traduzir a diferença entre ambas as equipas, e a Suíça por repor alguma justiça no resultado com dois golos nos últimos dez minutos, da autoria do suplente Blerim Dzemaili, e de Xhaqa, que merecia "molhar o bico" neste jogo. Benzema ainda faria o seu segundo e o sexto da sua equipa em cima dos descontos dados pelo árbitro, mas já não seria considerado, pois o remate foi feito depois do apito final. A França, apesar da veia goleadora que mostrou nos dois jogos já realizados, ainda não garantiu o apuramento; líderes com seis pontos, falta disputar ainda o jogo com o Equador, mas só uma combinação estranha de resultados afastaria os "bleus" dos oitavos-de-final. A Suíça fica obrigada a fazer contra as Honduras um melhor resultado que os equatorianos, e de preferência com muitos golos, ou os suficientes para anular a pesada derrota de ontem.




Costa Rica-1 Itália-0



E aí está a confirmação: a Costa Rica é a equipa surpresa do Brasil 2014, e já está nos oitavos-de-final da prova, contra todas as expectativas, até as mais optimistas - os próprios costa-riquenhos devem estar incrédulos. A pequena nação centro-americana com pouco metade da área de Portugal e apenas 4,5 milhões de habitantes foi incluída no grupo D, com três campeões mundiais: Itália, Uruguai e Inglaterra, e pouca gente acreditava que fizessem um ponto, quanto mais ser um dos dois qualificados para a fase seguinte. Mas foi isso mesmo que aconteceu, e depois de uma surpreendente vitória na ronda inugural frente aos uruguaios por 3-1 em Fortaleza, ontem foi a vez da Itália cair aos pés do pequeno estado da CONCACAF na Arena Pernambuco, Recife, com um único golo de Bryan Ruiz ao cair do pano na primeira parte. A Itália tinha dado boa conta de si no primeiro jogo contra a Inglaterra, mas ontem esteve estranhamente apática, e não conseguiu dar a volta aos costa-riquenhos, menos atrevidos do que no jogo contra o Uruguai, mas com uma formação compacta e unida, tiraram ainda partido de marcar na altura certa, e conseguiram conter o ímpeto da "azzurra", a que também faltou alguma imaginação. A Costa Rica segue para os oitavos, enquanto italianos e uruguaios discutem na Arena de Dunas, em Natal, a segunda vaga, com os europeus a necessitarem apenas de um empate para seguir em frente. A Inglaterra ficou matematicamente eliminada, pois aos ingleses apenas interessava a vitória dos italianos, e ainda dependiam de terceiros. O milagre não aconteceu, e a equipa de Roy Hodgson voa de volta a Londres na quarta-feira.



Depois do árbitro apitar para o final da partida no Recife, foi a festa na Costa Rica, com milhares de adeptos a sairem às ruas na capital San Jose, festejando o apuramento, que repito, foi completamente surpreendente. Os costa-riquenhos devem ter dito cobras e lagartos após o sorteio da fase de grupos deste mundial, e terão ficado sem entender como é que a vizinha e rival Honduras ficou num grupo bastante mais acessível que eles. A verdade é que os jogadores suaram a camisola, e se a oposição não contava com eles, paciência, mas eles aí estão. A Costa Rica participou pela primeira vez numa fase final de um mundial em 1990, e orientados por Velibor Milutinovic chegariam aos oitavos-de-final logo nessa estreia, vencendo a Escócia e Suécia e perdendo com o Brasil na fase de grupos, sendo depois eliminados pela Checoslováquia. As outras duas participações em 2002 e 2006 saldaram-se pela eliminação na primeira fase, tendo apenas vencido um dos seis jogos que realizaram, contra a China no mundial da Coreia e do Japão. Este ano têm motivos para se orgulharem do seu desempenho. Vejamos até onde podem ir, e se não caem no deslumbramento.



Em Itália a derrota frente à Costa Rica mereceu natural destaque na imprensa, como Corriere Dello Sport a fazer capa com uma imagem de Balotelli em desespero no final do jogo, e com o título "Acreditemos", lembrando que o mundial está agora em risco. O Gazzetta Dello Sport fala numa Itália "nervosa, uma caricatura do primeiro jogo", enquanto os "tiffosi" falam em "vergonha". Ficam em dívida com os seus adeptos, Cesare Prandelli e os seus homens.



Os ingleses, por seu lado, estão estranhamente resignados com a eliminação logo na fase de grupos, o que já não acontecia desde 1958 - apesar da Inglaterra ter falhado a qualificação três vezes depois disso, em 1974, 1978 e 1990. Isto talvez porque este foi um dos anos em que os ingleses depositavam menos esperanças na sua selecção, e o grupo em que ficaram colocados não era ideal para uma equipa em renovação. Após a derrota de ontem frente ao Uruguai por 1-2, mesmo resultado que havia conseguido na primeira ronda frente à Itália, a Inglaterra precisava quase de um milagre para seguir em frente; era necessário que a Itália vencesse ontem e na última ronda frente ao Uruguai, e que os ingleses vencessem a Costa Rica. A imprensa parece unânime em considerar Roy Hodgson o homem certo para liderar a renovação, e de facto em termos de entrega e ao nível exibicional, esta Inglaterra não ficou nada a dever às equipas que em 2006 com Eriksson e em 2010 com Capello chegaram aos quartos e oitavos de final, respectivamente.


Ist nicht gut!




Polémica em Salvador da Bahia, uma das cidades que acolhe o mundial do Brasil 2014. No centro comercial Sampão estão em exposição algumas camisolas históricas de outros mundiais, entre elas a da infame selecção alemã de 1934, que ostents o "parteiadler", o símbolo do Partido Nazi, num fundo prateado. A colecção, que inclui ainda a camisola de Itália em 1938, com o emblema fascista, e a camisola de Israel em 1970 foi oferecida por um médico local, e aprovada pela FIFA. Rolf Zettel, um visitante suíço residente em Wolfsburgo e adepto da Alemanha disse "estar chocado", e pensa tratar-se "de uma brincadeira sem graça": "É alguma piada de mau gosto, isto? A Alemanha dessa época era uma equipa desprezível". Ostentar a cruz suástica ou qualquer outra simbologia nazi é uma ofensa punível por lei. Um responsável do Centro Comercial Sampão disse à Associated Press que a exposição "não tem qualquer motivação política". E está tudo dito. Se estes gajos têm problemas em lidar com a sua própria história, pensem melhor da próxima vez que entrarem por outros países adentro nos seus "panzers".

E a menina, fumou o quê?




A actriz holandesa Nicolette Van Dam demitiu-se do cargo de embaixadora da boa vontade da UNICEF, ao demonstrar muito má vontade com os colombianos. Van Dam colocou na sua conta do Twitter uma imagem onde se viam os jogadores da Colômbia James Rodríguez e Radamel Falcão a "snifarem" a espuma que a FIFA introduziu este ano nos jogos do mundial para os árbitros a colocação das barreiras nos livres, como se fosse cocaína, e escreveu por baixo "Colombiaans Muurtje", que naquela língua neerlandesa imperceptível quer dizer qualquer coisa como "muralha", ou "barreira". A actriz pediu desculpa aos colombianos, que ficaram ofendidos, naturalmente, mas não foi suficiente, pois a filial da UNICEF na Colômbia protestou, e a autora da gracinha demitiu-se do cargo que desempenhava naquela instituição da ONU. Não deixa de ser curioso, contudo, que a sugestão de que os colombianos consomem cocaína parta de alguém da Holanda. É caso para dizer que a Nicolette andou a fumar qualquer coisa que lhe fez achar graça ao que não tem graça nenhuma.

É um massacre!


Anda tudo a morrer na Costa do Marfim. Sei que não devia "brincar" com estas coisas, mas estou a falar a sério: a selecção africana deve ser aquela com a maior elevada taxa de mortalidade durante um campeonato do mundo. Depois dos rumores que circularam no Twitter antes do jogo com a Colômbia que davam conta da morte do pai de um dos jogadores (depois soube-se que foi o pai de outro), depois da partida que os africanos perderam por 1-2 soube-se que morreu Ibrahim Toure, irmão mais novo de Yaya e Kolo Toure. Ibrahim era também jogador, na posição de avançado, e passou por alguns clubes europeus, como os ucranianos do Metalurh Donetsk e os franceses do Nice, e representava actualmente o Al-Safa, do Líbano. No final do ano passado foi-lhe diagnosticado um cancro, e estava em tratamento na cidade de inglesa de Manchester, onde acabou por perder a batalha contra a doença, aos 28 anos. Ao contrário dos irmãos, nunca foi internacional pelo seu país, mas a notícia do seu desaparecimento causou natural consternação na comitiva da Costa do Marfim. Andam a precisar de ir à bruxa, estes marfinenses.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A casa ganha sempre, mas faz batota



Quando cheguei a Macau trabalhava com uma colega que era para nascer czarina, mas errou na época e no local onde veio ao mundo. Era portuguesa, uma daquelas que tinha chegado em finais dos anos 80 com a intenção de fazer um "pé-de-meia" decente em dez anos, e depois voltar a Portugal e, enfim, viver um pouco menos mal que os que lá andam a trabalhar para o boneco, e passar a vida a esticar o ordenado até ao fim do mês. O seu projecto de vida era ambicioso e rigorosamente planificado, e passava por não perder um centavo entre os muitos que haviam a ganhar nessa recta final da Administração Portuguesa no território. Casada e mãe de filhos pequenos, levava todas as manhãs os pequenos à creche, e contava com a ajuda dos colegas para lhe picarem o cartão antes das nove horas, não fossem os atrasos ser descontados das horas extraordinárias, o que lhe podia custar algumas centenas de patacas, ou mesmo um milhar ou mais, no final do mês - sei que isto de picar o cartão alheio hoje pode parecer um crime de lesa-pátria, mas há vinte anos era assim, e era "normal". Não escondia a sua atração pelo vil metal, bufava quanto ouvia falar de quantias superiores a 50 mil patacas, e tinha uma lema interessante, que repetia vezes sem conta enquanto ria a bandeiras despregadas: "pagar e morrer, quanto mais tarde melhor". É preocupante quando alguém tem um filosofia de vida que implica pedir dinheiro emprestado aos outros e achar que não tem a obrigação de pagar, ou que ache que as obrigações fiscais são uma dor de cabeça para os parvos. No fundo esta senhora não era má pessoa. Não queria o dinheiro para comprar jóias, visons ou para ostentar. Era apenas uma daquelas pessoas que aprendeu que o dinheiro nunca era demais, e tinha dificuldade em interiorizar esse pensamento - ou seja, fingia mal.

Não sei porque me fui lembrar desta minha colega, e já lá vão uns bons aninhos que não sei nada dela, mas a sua máxima do "pagar e morrer, quanto mais tarde melhor" veio-me à memória quando soube da notícia de que o deputado José Pereira Coutinho e o seu colega Leong Veng Chai foram entregar uma petição exigindo mais fiscalização no pagamento dos prémios das "slot-machines" nos casinos. Só no último ano e meio foram reportadas 133 queixas de apostadores que venceram prémios nas "slots" que não lhes foram pagos, simplesmente porque o casino onde lhes saíu o "jackpot" alegou que a máquina "estava avariada". Isto é completamente ridículo, pois quando se passam horas a enfiar moedas na ranhura (ou actualmente através de cartão pré-pago, tanto faz) e encher a barriga do "bandido maneta", tudo bem, mas quando se ganha, ai não pode ser, é impossível, que a máquina deve estar avariada. Ganhou? Como é possível, se estamos aqui para roubar e não para dinheiro a ninguém? Oops, que já falei demais. Ganhar pode ganhar, claro, claro, vinde e esvaziai os bolsos no nosso "centro de entretenimento", mas caso ganhe, "a casa tem a última palavra em caso de conflito". O problema aqui é que estes apostadores ganham, a casa diz que não, que foi "uma avaria", e está dita a última palavra. Se fosse o contrário, e aparecesse lá um tipo a dizer que perdeu 100 mil paus durante uma tarde inteira "porque a máquima estava avariada", era pegado pelos dois braços e pelas duas pernas e atirado para o meio do passeio à saída do casino. Ainda ficava interditado de entrar e era apelidada de "vigarista" - olha a lata do gajo, já viram?

A iniciativa do deputado Pereira Coutinho pode parecer um pouco, digamos, inócua, mas estamos em Macau, o jogo é que faz mover a economia, e não fica bem passar a mensagem de que jogar é sinónimo de perder. Afinal chama-se a isto "jogos de fortuna e azar", ou "jogos de azar e azar, e se não gostas come menos"? Eu sempre achei esta coisa dos casinos muito pérfida, muito mesquinha, mas a ideia, o "selling point" da coisa é fazer acreditar ao desgraçado que vai ser depenado que existe uma possibilidade de ganhar "na ordem dos 50%", quando na verdade nem 1% de hipóteses tem. Cheguei a conhecer tipos que se gabavam de levar mil patacas ao casino e voltar de lá com vinte ou trinta mil, mas era nos dias que ganhavam que ocorria a bazófia - ninguém vinha dizer no dia seguinte que perdeu, e que precisa de 500 mil patacas urgentemente ou caso contrário lhe partem as pernas. Essa conversa de dizer que quando se ganha a máquina "estava avariada" é andar a brincar com a tropa. Nem toda a gente que frequenta os casinos precisa de injectar roletas e bacarás para a veia. Por exemplo, se nunda fiz uma aposta na minha vida, e tenho curiosidade em exprimentar, e me garantem que vou perder de certeza, e na eventualidade de ganhar dizem-me que perdi na mesma, bardamerda, mas vale deitar o dinheiro pela pia abaixo, que assim ninguém se fica a rir.

Conheço pessoas que têm o vício do jogo, e permitam-me acrescentar "infelizmente" antes de "conheço". Isto são indivíduos que estão completamente dissociados da realidade, e mesmo quelhesd tentemos chamar à razão, não se dão por vencidos. Chegam a gastar o que têm e o que não têm, endividam-se até aos ossos, arruinam-se a si mesmos e às suas famílias, e mesmo que lhes apontemos para esse facto, dizem que estão conscientes que "têm um problema", mas ao mesmo tempo esboçam um sorriso malandreco, como quem diz que os parvos somos nós e quando eles ganharaem o mundo um dia, vão-nos esfregar na cara esse facto. E não se pense que eles só perdem, nada disso. Mesmo quando estão a ganhar muito acima do que para nós seria razoável, continuam a apostar e acabam por perder tudo. Mas no fundo esta é a "ratoeira" do jogo, é preciso acreditar que existe a possibilidade de ganhar, mesmo que exista uma possibilidade muito remota, ou que seja simplesmente mentira. Dizer que se perdeu quando se ganhou é que parece ser mais do que simples roubalheira - é uma infantibilidade. O deputado Pereira Coutinho faz bem em apelar àquilo que é mais que justo: é também sensato.