quinta-feira, 29 de maio de 2014

Eu desculpo, e vocês?


O Chefe do Executivo da RAEM, Fernando Chui Sai On, veio hoje anunciar a suspensão da votação do diploma da proposta de lei que estabelece um regime de garantias para os titulares dos principais cargos públicos, uma decisão tomada depois de uma "semana horribilis" para o Executivo, com protestos de rua contra o diploma, e uma série de "gaffes" cometidas por algumas figuras da nomenclatura, e que em nada ajudaram a pôr água na fervura. Acompanhado da secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, e do porta-voz do Conselho Executivo, Leong Heng Teng, o CE anunciou ainda que o diploma segue agora para consulta pública depois de se procederem às alterações necessárias, e apresentou ainda um pedido de desculpas à população pela demora em decidir-se pela solução, e julgo ainda pela forma pouco hábil com que o fez - isto estando limitado pelo que me chega das traduções, é óbvio.

Eu, pela parte que me toca, desculpo o CE, não lhe guardo rancor, e espero que esteja mais atento da próxima vez, e saiba ler os sinais que indicavam apenas num único sentido: fazer cair a proposta. Não é por acaso que saíram à rua vinte mil pessoas, gente de todas as idades, estratos sociais e até alguns habituais apoiantes do Executivo. Estar contra uma lei não é a mesma coisa que estar contra o Executivo, e é saudável que as pessoas se manifestem pacificamente, como aconteceu, e é um erro de palmatória tratar esta demonstração como um simples "fait-divers". Era urgente agir com rapidez, o que não veio a acontecer, e no fim o CE estende a mão, sujeita-se à tal palmatória, e faz a devida retracção. Tudo bem, era isso mesmo que devia ter feito, e mais vale tarde que nunca. Se confiou em alguém que lhe tenha dito para ignorar a "vox populi" e submeter a lei a votação na mesma, então foi mal aconselhado.

Não é inédito o que aconteceu em Macau, não revela sinal de fraqueza, nem chega a ser um atestado de incompetência - pelo menos da parte do próprio Chui Sai On, ou apenas dele, claro. Não sinto que seja necessário procurar aqui responsáveis pela falácia da proposta, um "bode expiatório", e se a lei é mesmo necessário (continuo a achar que não, atendendo às características de Macau e da sua Economia), então que se revejam os aspectos que levaram a população às ruas reclamando tratar-se aqui de uma "injustiça". Penso que o artº 4º, o tal que se refere à imunidade do CE devia ser o primeiro a submeter-se à "cosmética", e as tais subvenções de que os detentores dos altos cargos públicos virão eventualmente a beneficiar devem também ser revistas - em baixa, logicamente. Os valores são simplesmente demasiado altos, e se é verdade que actualmente há dirigentes que exercem os cargos há década e meia (estão protegidos por outros tipos de regime, mas isso é outra conversa), no futuro existe o risco de premiar quem trabalha meia dúzia de anos de forma mais generosa do que quem trabalha vinte ou trinta, e nunca chega a usufruír das regalias contempladas nesta versão da lei.

Penso que será excusado continuar a bater nesta tecla, agora que Chui Sai On veio emendar o erro. Os seus opositores podem usar este incidente no futuro, mas isso só os virá fazer perder razão. É preciso agora olhar para a frente, repensar seriamente a lei que agora acaba de cair, e tentar ter um pouco mais de tacto da próxima vez. Sinceramente gostaria que o actual CE fosse reeleito, pois de facto é difícil pensar numa alternativa fora da elite que tem governado Macau desde a primeira hora dia 20 de Dezembro de 1999: mesmo que não primem pelo brilhantismo, estes dirigentes que temos são "the devil we know" - "o diabo que já conhecemos", e portanto pelo menos sabemos com o que se pode contar. Se isto afectou a sua imagem, penso que não existem dúvidas, mas esta é uma oportunidade para Chui Sai tomar finalmente o pulso à governação, e mostrar-se mais atento ao que se passa no terreno. É bom também que escute as opiniões, e evite a petulância que demonstrou no último Domingo, quando se recusou a receber os organizadores da manifestação. Não estou a dizer que era obrigado a recebê-los, e certamente que ele consegue justificar a recusa de mil e uma maneiras que me deixarão convencido, mas tratando-se de uma situação especial como aquela, só veio revelar distanciamento da população que governa.

É um facto que o CE ficou um pouco "perdido" perante esta situação, e não é por acaso, pois num território conhecido pela sua pacatez, tinha em mãos a maior manifestação em mais de 50 anos - não era fácil. Hesitou, recuou, optou erradamente pelo silêncio como forma de ver se a "tempestade" passava, deixou os seus apoiantes tradicionais prestarem-se a figuras ridículas, em suma, na hora de ter mão firme, faltou-lhe o engenho. Com isto tudo deixou o caso transbordar e chegar ao conhecimento do Governo Central, que naturalmente não gostou, e pode ter estalado o verniz da certeza da sua reeleição em Novembro próximo. No entanto gostei da forma como se dirigiu esta manhã à população, revelando tranquilidade, boa disposição e até algum humor, uma grande diferença da última vez que o Executivo da RAEM ficou, digamos, "com as calças na mão", aquando da prisão do ex-secretário Ao Man Long. Desta vez não houve angústia, nem ambiente pesado, quase fúnebre - Chui Sai On soube lidar com a forma com que admitiu o seu erro, e deixou no ar a ideia de que não estará completamente errado, e quem sabe se tudo não passou apenas de um "mal-entendido", e da próxima promete deixar a população informada sobre os conteúdos deste ou de outros diplomas "fracturantes".

Quem esperava ver um CE abatido, derrotado, rancoroso, ficou certamente desiludido, mesmo que no somatório da avaliação de como geriu esta crise, a nota continue a ser negativa. Terá outros testes onde poderá recuperar, espero. Ao defender a lei que insiste ser "necessária", brincou com a sua estrutura física, assumindo "ser gordo", e não estar à espera de "engordar mais ainda" com as regalias que vai auferir depois de ver a lei eventualmente aprovada. Disse ainda que "não precisa do dinheiro" (isto já sabemos, pois), e que faz planos de "doá-lo à caridade". É muito nobre da sua parte, só que é melhor ter cuidado com a "caridade" que escolhe. Se for a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, aí a emenda será pior que o soneto. Mas julgo que depois desta tormenta o nosso CE "despertou" para o facto que, e afinal de contas, a malta não anda aqui a dormir na forma. Mais uma vez obrigado, sr. Chefe do Executivo, e boa sorte do que resta do seu mandato. O resto logo se vê.



E caíu mesmo!


O Executivo da RAEM cedeu, e a lei caíu. Chui Sai On anunciou esta manhã pelas dez horas que vai suspender a votação da proposta de lei do regime de garantias para os titulares dos principais cargos públicos, e submeter o diploma a consulta pública. Uma vitória da população, e um cartão amarelo ao Executivo. Afinal as gentes de Macau sentem, e quem sente, é filho de boa gente. Parabéns ao Chefe do Executivo por ter tido o "fair-play" de dar o braço a torcer.

A caminho do Brasil: no meio (nem sempre) está a virtude


Áustria, Bélgica e Suíça, eis três países cujas selecções de futebol têm motivos tanto para se orgulharem, como para se envergonharem. Rodeados de outras potências futebolísticas que têm no seu palmarés títulos mundiais e europeus, casos da França, Alemanha, Itália ou Holanda, estes três juntos não têm um sequer unzinho para mostrar. Hoje vamos dar uma olhadela a estes três simpáticos participantes em torneios mundiais que no máximo conseguiram sair "de cabeça erguida".


Ich Wunderteam, ja?

A Áustria é o único destes três que este ano fica em casa, e vem sendo assim desde 1998. No entanto os austríacos foram em tempos a melhor equipa do mundo, pasme-se. Foi nos longíquos anos 20 do século passado, quando já em 1930 se tornaram a primeira equipa europeia a vencer a Escócia (!?). Portanto foi uma pena que não tivessem viajado até ao Uruguai, onde se realizou o primeiro mundial, exactamente nesse ano. Em 1934 na Itália mostravam a sua garra, vencendo a França por 3-2 após prolongamento na primeira ronda, e depois a Hungria por 2-1, caíndo nas meias-finais frente à equipa da casa por 0-1, e no jogo para o 3º lugar com a Alemanha por 2-3. Qualificaram-se para o mundial de 38, mas deu-se o "anschluss", a anexação pela Alemanha nazi, e em 1950 os austríacos pagariam também a factura da agressão às restantes nações europeias durante a II Guerra.


Já regressados à normalidade, em 1954, voltam a fazer um mundial brilhante, obtendo o 3º lugar, a sua melhor classificação de sempre. Na primeira fase voltaram a vencer a Escócia por 1-0, e golearam a Checoslováquia por cinco golos sem resposta. Nos quartos-de-final vencem a Suíça, a equipa da casa, por 7-5 - sim, num jogo de futebol, e este é o encontro da história dos mundiais que mais golos teve: 12. O avançado Theodor Wagner esteve especialmente inspirado, ao aponter três dos sete golos dos austríacos, que terão gasto aqui todas as "munições", pois seriam goleados nas meias-finais pela Alemanha Ocidental por 6-1, consolando-se com uma vitória por 3-1 sobre o Uruguai, que lhes valeu o pódio. Em 1958 na Suécia as coisas corriam menos bem, e depois de derrotas por 3-0 com o Brasil e 2-0 com a União Soviética, e um empate a dois golos com a Inglaterra, seriam afastados na fase de grupos.


Depois disto a Áustria demorou a reencotrar-se, e só voltaria a participar em 1978, na Argentina, com uma geração onde se destacavam o jovem médio Herbert Prohaska, considerado o melhor jogador austríaco da era moderna, e o avançado Hans Krankl. Na primeira fase de grupos impressionaram, vencendo a Espanha por 2-1 e a Suécia por 1-0, perdendo depois por apenas 0-1 com o Brasil. Na segunda fase tiveram o azar de apanhar pela frente a Holanda em versão "laranja mecânica", e perderiam por 1-5, e a seguir nova derrota por 0-1 frente à Itália ditou a eliminação, valendo como consolo a vitória por 3-2 frente à Alemanha Ocidental. Em 1982, mais ou menos com a mesma formação, voltariam a fazer boa figura, vencendo Chile (1-0) e a Argélia (2-0), e perdendo com os alemães (0-1) na primeira fase de grupos, e ficando afastados das meias-finais após derrota com a França (0-1) e empate com a Irlanda do Norte (2-2) na segunda fase. Só voltariam a participar em 1990, onde ficaram pela fase de grupos e apenas conseguiram vencer os Estados Unidos, e novamente em 1998, onde ficaram novamente pela fase de grupos com dois empates e uma derrota.


Sabe quem é? Keith Richards? Perto...é Raymond Goethals.

A Bélgica é um caso de sucesso, mesmo que apenas recente, mas nos últimos anos passou por uma renovação que a deixou afastada dos grandes palcos mundiais. Os belgas foram uma das únicas quatro selecções europeias a aceitar o convite para o primeiro mundial em 1930 no Uruguai, juntamente com Jugoslávia, Roménia e França, mas foi aquela que teve o pior desempenho, perdendo os dois encontros que realizou, por 3-0 contra os Estados Unidos e 1-0 com o Paraguai. Em 1934 conseguiram a qualificação, mas seriam afastados na primeira ronda por 2-5 contra a Alemanha, e quatro anos depois tiveram a mesma pouca sorte, perdendo para a anfitriã França por 3-1. Depois de uma ausência no primeiro torneio do pós-guerra, voltariam em 1954 na vizinha Suíça, e obtiveram um heróico empate a quatro golos frente à Inglaterra, para depois perderem por 1-4 com a Itália, ficando de novo pelo caminho. Depois de mais um hiato de 16 anos, dá-se o regresso no México em 1970, sob o comando técnico de Raymond Goethals, o mais carismático dos treinadores belgas. Goethals, que faleceu em 2004 aos 83 anos, isto apesar de ter aspecto de 83 anos durante os últimos cinquenta da sua vida, venceu a Taça das Taças com o Anderlecht em 1978, e a Liga dos Campeões em 1993, com passagem pelo V. Guimarães pelo meio, na época de 1984/85. O seu consulado na selecção não foi brilhante, ficando novamente pela primeira fase depois de perder por 4-1 com a União Soviética e 1-0 com o México, mas teve o mérito de vencer na estreia a selecção de El Salvador por 3-0, a primeira vitória dos "diabos vermelhos" em mundiais.


Goethals não fazia milagres, e não conseguiu levar os belgas ao mundial de 1974, na Alemanha. Em 1976 entra para o seu lugar Guy Thys, que dá início a uma de era de sucesso ímpar dos "diabos vermelhos". Depois de falhar a qualificação em 1978 para o mundial da Argentina, surpreende ao chegar à final do Euro 1980, onde perde com a Alemanha Ocidental. Em 1982, a Bélgica participa na primeira de seis fases finais consecutivas; a geração que trouxe jogadores como François Van Der Elst, Franky Vercauteren, Eric Gerets, Jan Ceulemens, Lei Clijsters (pai da tenista Kim Clijsters, e já falecido), Erwin Vandenbergh e o famoso gaurdião Jean-Marie Pfaff, figura-mor dos alemães do Bayern de Munique, podiam não jogar bonito, mas conseguiam resultados. Na Espanha têm uma passagem inédita da primeira fase, com vitórias sobre a campeã mundial Argentina no jogo de abertura por 1-0, mesmo resultado contra El Salvador e empate a um golo com a Hungria, sendo então afastados na segunda fase de grupos após derrotas por 3-0 com a Polónia e 1-0 com a União Soviética. No mundial de 86 no México, já com o jovem Enzo Scifo a liderar uma nova fornada de talento, casos de Patrick Vervoort, Stephane Demol e Nico Claesen, conseguem a melhor classificação de sempre, um 4º lugar, sendo afastados da final pela Argentina, e perdendo no jogo de consolação por 4-2 com a França, após prolongamento. Em 1990 para o mundial de Itália mais uma injecção de juventude: Marc Wilmots, Marc Degryse, Bruno Versavel, e o sucessor de Pfaff na baliza, o nosso conhecido Michel Preud'homme, que chega a nº 1 dos belgas apesar dos seus 31 anos. Passando num grupo onde estavam Espanha, Uruguai e Coreia do Sul, são afastados pela Inglaterra nos oitavos, com um golo de David Platt no último minuto do prolongamento.


Thys deixa a selecção, e é com Paul Van Himst que a Bélgica participa no mundial dos Estados Unidos, onde Preud'homme esteve em grande destaque numa equipa liderada pelo avançado Luc Nilis, a referência do ataque dos "diabos vermelhos" durante a década de 90. Na fase de grupos vencem Marrocos e a rival Holanda por 1-0, e pelo mesmo resultado sofrem uma surpreendente derrota com a Arábia Saudita, e nos oitavos são eliminados pela Alemanha por 2-3, com Rudi Völler a fazer de "carrasco", ao apontar dois golos. Em 1998, sob as ordens de George Leeskens, empatam todos os jogos do seu grupo, frente à Coreia do Sul, México e Holanda, e pela primeira vez desde 1970 ficam pela primeira fase. Em 2002 na Coreia/Japão, Robert Waseige (ex-treinador do Sporting) passa a fase de grupos ao vencer a Rússia por 3-2, após empates com os japoneses e com a Tunísia. Nos oitavos perdem para o Brasil de Scolari por 2-0, e essa foi a última participação da Bélgica, que este ano regressa após uma longa renovação, e aos comandos do ex-avançado Marc Wilmots.


A selecção da Suíça participa este nao pela 10ª vez numa fase final de um mundial, o que parecendo impressionante, deve-se sobretudo à consistência dos helvéticos até aos anos 60, onde participaram em seis dos primeiros mundiais. Conhecida por "la nati" (de "natzionale", o que soa assim um bocado fascista), os suíços estrearam-se em mundiais em 1934, na vizinha Itália, vencendo na primeira ronda a Holanda por 3-2, perdendo nos quartos-de-final com a Checoslováquia pelo mesmo resultado. Quatro anos depois foi só atravessar a fronteira do outro lado até à França, e protagonizariam na primeira ronda um momento daqueles que constam do álbum de recordações dos mundiais. Com a Alemanha Nazi pela frente na primeira ronda (eles próprios também eram um bocado nazis, mas pronto), empatam a uma bola, sendo obrigados e um "replay", e onde num Parque dos Príncipes com 22 mil fãs a puxar por eles, venciam os rapazes do führer por 4-2. Reparem como os cabrões dos nazis aparecem de pata esticada antes do início da partida. Nos quartos-de-final perderiam com a Hungria por 2-0, que tal como os checos quatro anos antes, seriam finalistas vencidos. Em 1950 no Brasil ficam-se pela primeira fase, apesar de um excelente empate a dois golos em S. Paulo frente à equipa da casa.


Em 1954 organizam pela primeira vez, e até agora única, o mundial de futebol, e na primeira fase venceram a vizinha e rival Itália por 2-1, e depois de perderem 0-2 com a Inglaterra, voltaram a encontrar os transalpinos no "play-off" onde alcanåam uma goleada histórica de 4-1. Histórica seria ainda a derrota nos quartos-de-final frente à Áustria por 7-5, o tal jogo dos mundiais que mais golos teve, como já vimos acima neste artigo. Em 1958 "faltam à chamada" na Suécia, regressando em 62 no Chile e repetindo a presença em 1966 na Inglaterra, e em ambos os torneios sairam vergados pelo peso de três derrotas; italianos e alemães aproveitaram para se vingarem, com os primeiros a vencerem a "nati" por 3-0 no Chile, e os segundos a golearem por 5-0 os seus vizinhos monteses na Inglaterra. Seguia-se uma longa travessia do deserto, com seis mundiais sem a bandeira da cruz branca em fundo vermelho - igual à da Cruz Vermelha Internacional, só que com as cores trocadas.

Mas o país famoso pela relogoaria, pelos chocolates e pelo queijo, e que teve o engenho para inventar os canivetes multi-usos e os cubos de sopa, teve também o engenho para se reinventar, e nos anos 90 surgiria com uma geração de novos mundialistas. E para mal dos nosso pecados, também, pois na qualificação os suíços venciam o grupo europeu onde estavam também Itália e Portugal, deixando-nos novamente a ver o mundial pela TV - isto apesar de termos conseguido um empate fora e uma vitória em casa sobre a Suíça. Nos Estados Unidos, orientados pelo inglês Roy Hodgson, que este ano leva a Inglaterra ao mundial do Brasil, e com o avançado do Borussia de Dortmund, Stephane Chapuisat, como sua maior estrela, ficam no Grupo A com os Estados Unidos, Roménia e Colômbia. Depois de um empate na ronda inaugural frente aos norte-americanos, garantem o apuramento após uma goleada por 4-1 sobre os romenos, com dois golos de Adrian Knup, e mais um de Chapuisat e Alain Sutter. Já com pensamento na fase seguinte perdem com os colombianos por 2-0, e despedem-se nos oitavos com uma derrota por 0-3 com a Espanha. A Suíça ficaria ausente das fases finais em 98 e 2002, e deixam a sensação que a geração de 94 foi excepcional.


Só que depois de um apuramento para o Euro 2004 em Portugal, eis que a "nati" regressa aos mundiais dois anos depois, na Alemanha - nunca podiam faltar a uma prova onde pudessem simplesmente ir de autocarro. E é aí que protagonizam mais um episódio bizarro: são eliminados sem sofrer um único golo. Isso é fácil, diriam vocês, pois bastaria empatar todos os jogos da fase de grupos por 0-0. Mas não foi isso que aconteceu; depois de terem efectivamente empatado a zero frente à França no primeiro jogo do Grupo G, venciam o Togo e a Coreia do Sul por 2-0, terminando no primeiro lugar. Nos oitavos-de-final voltariam a empatar a zero com a Ucrânia, e com o empate a persistir após prolongamento, foram ao desempate na lotaria das grandes penalidades, e aí não conseguiram concretizar nenhum dos seus três remates, enquanto os ucranianos acertaram três. Mérito para o guardião Pascal Zuberbühler, que não só saíu da Alemanha sem ser batido uma única vez, que ainda defendeu o "penalty" apontado por Shevchenko na série de quatro com que os ucranianos afastaram a Suíça. Na África do Sul as coisas já não correram tão bem, e depois de uma vitória fantástica sobre a Espanha no jogo inaugural por 1-0, seguiu-se uma derrota com o Chile, também pela margem mínima, e um nulo frente às Honduras, que ditaram o afastamento na primeira fase. Agora no Brasil, com Ottmar Hitzfeld, que transita de 2010, a Suíça vai para o seu terceiro mundial consecutivo.

Maya Angelou (1928-2014)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pode ser que... - análise (a)política


O último Domingo poderá ficar para a história de Macau como o dia da tempestade que deixou à deriva a nau da governação. A nau "Harmonia", habituada a navegar em águas calmas à beira-rio, aventurou-se no Grande Oceano da Legislação Descabida e Inoportuna, e foi atingido de frente por vagas gigantes que o engoliram, encontrando-se agora à deriva em parte incerta, qual avião da Malaysia Airlines. Enquanto não se sabe bem se os náufragos estão numa qualquer ilhota que não vem no mapa e que os radares teimam em não captar na sua frequência, ou se foram transportados para outra dimensão, especula-se não sobre o paradeiro do "Harmonia" e da sua tripulação, mas sobre o seu futuro, e sobre as consequências de ter mandado a frágil nau e os seus marinheiros de água-doce para um Cabo das Tormentas, onde desprezando o Adamastor que ali morava, foram sacudidos a um ponto que fez a viagem do Titanic parecer "O Piquenique no Bosque" de Édouard Manet. Do muito que se disse - e todos meteram a sua colher no pudim desta tragédia em tantos actos que já lhes perdi a conta, interessa ouvir a opinião dos "politólogos" E já passo a explicar as comas.

Agnes Lam foi das primeiras a fazer o diagnóstico, logo no mesmo dia que os manifestantes sairam à rua. Sentada na sua zona de conforto, ostentando um penteado que me fez lembrar Tilly Losch, a Condessa de Carnarvon, disse aquilo que toda a gente já sabia. Sim, nós também vimos, e sabemos que a malta estava insatisfeita com o tal diploma, e que tal dizer qualquer coisa de novo, sei lá, uma opinião sobre o que vai acontecer a seguir, ou os números do "mark-six" da terça-feira a seguir, enfim, algo. Agnes Lam desilude-me cada vez mais, e já sei que sou suspeito, mas o que quer a menina, afinal? O que procura quando se candidata à AL, se tudo o que faz é, como se diz no calão local, "só fálá"? As eleições, aquelas que temos, que são bem pobrezinhas eu sei, ganham-se nas ruas. Para mandar postas de pescadas já lá eles têm muitos, a aparentemente a inteligência ou as noções de ciência política não são um requisito. O que continuo sentir quando oiço Agnes Lam é que ali está alguém que o Executivo podia usar cada vez que é necessário uma operação de charme, mas não faz porque se está (ou estava) nas tintas para o "charme" - como ficou provado aliás na pantomimice de Lam Heong Sang - e Agnes Lam também não parece ter calibre para fazer papel de "apaga-fogos", como faz Leonel Alves. O próprio deputado macaense parece estar rodeado de chamas, num verdadeiro "Towering Inferno", e em vez de uma mangueira deram-lhe um borrifador.

Dos restantes ouvimos ainda Larry Sou, outro "habitué" destas tertúlias analíticas, alguns ecos da imprensa estrangeira, muita opinião da imprensa local, sobretudo crítica, e dá a entender que ninguém está muito preocupado em sair em defesa do Executivo, e na melhor das hipóteses apontam-lhe onde errou. O pior é que "errar" não é bem o termo. Quer dizer, "errar" é mandar a bola para canto quando o guarda-redes está prestes a segurá-la; isto é um auto-golo no último minutos dos descontos, quando a equipa ganhava, e ser eliminado na diferença dos golos marcados fora de casa. E talvez na sequência do descalabro total, veio hoje Eilo Yu, em cima na imagem, dizer aquilo que muita gente já pensava e comentava em surdina: Chui Sai On colocou em cheque uma reeleição que parecia mais que garantida, e é bem possível que Pequim escolha um segundo candidato, ou então, horror dos horrores, OUTRO candidato. Isto seria um golpe no segundo sistema, que já por si está inserido na categoria de "meramente ornamental", e um atestado de incompetência aos intérpretes do pressuposto sacrossanto do "elevado grau de autonomia". Não surpreende portanto que a postura da elite dirigente da RAEM seja de retração total, tão defensiva que já não via nada assim desde a detenção do ex-secretário Ao Man Long. Afinal parece que a tão aguardada (e tardia) remodelação governamental vai ser mesmo feita, e pode ser que seja à vassourada. É pena, realmente.

Agora passo a explicar as comas em "politólogo" no final do primeiro parágrafo. É assim: em Macau não há política, pura e simplesmente, e isso fica agora mais uma vez provado. Em política temos eleições, aqui temos distribuição de mandatos. Em política há debate político, enquanto que aqui temos chincana, e nem chega a ser política. Em política temos políticos que resolvem problemas, a bem ou mal, fazendo política, e aqui temos tecnocratas semi-qualificados que delegam às acessorias o trabalho que devia ser feito por eles, ou pelo menos tentar participar mais directamente nesses trabalhos. A política é uma coisa pública, que requer a participação de todos, não é um palavrão nem um bicho de sete cabeças, e em vez de termos "opinião pública" temos um público que não tem nem quer ter opinião - desde que hajam papas e bolos, não se importam de ser os tolos. "O que é, saber de política enche a barriga a alguém, é? Olha lá ó tu, se sabes tanto de política, porque é que não vais também para lá, uh? Toma, que agora é que eu te apanhei". E os nossos pseudo-políticos aproveitam-se disto para dizer que sim senhor, é verdade, a política é uma coisa muito feia, que cheira muito mal, e o melhor é não se meterem nisso. Sabem o que eu oiço dizer dos rapazes destas associações que têm saído para a rua nos últimos tempos? Coisas como "não devem querer arranjar emprego em Macau", por vezes seguido de uma outra "boca" do tipo "aquilo já é um emprego!", ou ainda elaboradas teorias da conspiração, do género "são pagos por potências estrangeiras para desestabilizar", e soluções do tipo "rolha", como "querem é dinheiro, dêm-lhes dinheiro que eles calam-se". Portanto aqui qualquer coisa que se assemelhe a política ou esteja relacionada com política é proibitivo, e pensar pela própria cabeça é perigoso. Portanto, esclarecidos que estamos da ausência de política, permitam-se uma análise completamente apolítica da situação.

O que me parece que Chui Sai On e este executivo acabaram de fazer é o que chamam normalmente onde existe política de "suicídio político". Por muito legítimo e justo que fosse este diploma, e não é nem uma coisa nem outra, o "timing" foi uma desgraça. Nem sei como é possível alguém se ter lembrado de levar à apreciação do ramo legislativo do sistema uma proposta desta natureza quando: 1) faltam menos de seis meses para e eleição do Chefe do Executivo e 2) o conteúdo da lei é tão obtuso e o seu objecto tão selectivo que não pode nunca ser ignorado ou desprezado pela população, que logicamente não vai gostar de saber do que se trata.

Quanto ao ponto 1, como é que vai Chui Sai On aparecer em Novembro perante o Colégio Eleitoral? Vai ser aclamado? Eleito por unanimidade e aplaudido de pé? Talvez, já nem digo nada, pois não existindo política, tudo é possível, mas caso encontre uma solução milagrosa, duvido que isto aconteça. Para já começou muito mal, ao recusar o pedido dos organizadores do protesto de Domingo para um encontro. Que sinal está o CE aqui a mandar? Que está num pedestal, ou que a voz de vinte mil residentes não é importante quanto baste para ser escutada e atendida? Psrece-me que ao contrário de Edmund Ho, Chui Sai On está bastante desamparado, e tem alguma falta de tacto. O seu antecessor era cuidadoso com os passos que dava, olhava sempre por cima do seu ombro, preocupava-se em manter uma relação de proximidade com a imprensa, e sempre que necessário, com a população. Chui, por outro lado, terá cometido o erro de pensar que neste particular o trabalho tinha ficado todo feito por Edmund Ho, e que o seu cargo era meramente temporal. Ou seja, sentiu-se no comando de uma equipa tão rotinada que joga sozinha, e nem precisa de treinador. Não entendo o alcance desta presunção, e reparem que eu ia dizendo "alcance político", mas fui a tempo de não dizer uma asneira. Qual é o objectivo final da governação de Chui Sai On? Que medidas tomou ele durante estes cinco anos que tivessem impacto para o presente ou eventualmente para o futuro de Macau. Pronto, digamos que fez bem em deixar as coisas em piloto automático, e assim também não se perdeu nada, e para que isto seja possível é preciso ignorar os problemas que só não foram resolvidos, como ainda pioraram, como os da habitação, da inflação ou do acesso a cuidados de saúde pública. Mas...e agora? Isto também não é nada? Será mesmo possível deixar as coisas se acalmarem e depois aprovar o diploma "suavemente"? Não seria isso menosprezar a população da RAEM?

Segundo ponto: este diploma não tem nexo no que diz respeito à salvaguarda dos interesses de seja quem for. Isto mais parece um daqueles contratos milionários que alguns jogadores de futebol a de topo assinam, e depois de sabermos dos termos exclamamos "o gajo está garantido, e não precisa de fazer mais nada na vida". Chega a assustar quando se vê tantas figuras a chamar a atenção para a importância de aprovar este diploma; fosse eu mal intencionado, e pensava que vinham aí núvens bem negras de temporal, e há por aí quem tendo acesso às imagens de satélite, comece já a arranjar um abrigo antes que chegue a primeira trovoada. Que desespero leva a que uma associação que tem no hemiciclo dois deputados eleitos pela via directa leve a cabo uma farsa como aquela de Domingo, onde recrutou um grupo de gente analfabeta para alegadamente "demonstrar o apoio" da população ao diploma agora suspenso? E já agora gostava de mandar um recado a um certo sr. deputado, elemento bem conhecido da nomenclatura: quem não estava na manifestação não significa necessariamente que apoie a lei; por amor de Deus, já não viu o resultado que dá tomar as pessoas por burras e débeis mentais? Não se atreva sequer, sr. deputado Tsui Wai Kwan. O argumento de que assim se estão a "atrair talentos" é risível; o que se está a atrair é gente acomodada, está-se a fomentar o clientelismo, e a incentivar o nepotismo. E afinal, quem escolhe os titulares dos cargos que vão depois usufruír destas regalias? Existem mecanismos que levem a avaliar se estão a fazer ou não um bom trabalho, se merecem uma "reforma dourada" ao fim de seis anos em funções? Alguém acredita que o CE, qualquer um dos secretários, dos comissários ou dos comandantes que cessem funções vão andar por aí a entregar currículos ou a bater às portas a pedir "ó tio, ó tio"? Querem mesmo fazer crer que estes titulares dos altos cargos após abandonarem funções andam por aí à míngua? Portanto, para salvaguardar o quê, exactamente? Qual é a urgência deste diploma, e qual é o seu impacto imediato - ou qualquer outro, para esse efeito - na população? Isto leva-me à última parte deste já extenso comentário completamente apolítico, mais em jeito de desabafo que outra coisa: o papel do sr. deputado Leonel Alves, pessoa que muito estimo, mas que me deixa completamente perplexo com a sua defesa deste diploma.

Primeiro concordo com tudo o que diz no que toca ao fundamento que leva a que se aprove uma proposta de lei desta natureza. Sim, existe em todos os países, os próprios ex-presidentes da República Portuguesa usufruiem de regalias que ainda hoje vigoram, advindas dos seus préstimos à nação, sim senhor, tudo bem. Mas agora permita-me que lhe diga apenas uma palavra para cada um dos inflamados argumentos que apresenta em defesa desta lei: "porquê?". 'É fundamental legislar neste sentido, tal como se fez noutras jurisdições, de modo a dotar os titulares dos altos cargos públicos de garantias quando cessem funções'. Sim, sim, mas porquê? 'Esta lei devia ter sido aprovada no momento da criação da própria RAEM, juntamente com a aprovação dos estatutos da Lei Básica'. Certo, mas não foi porquê? E só agora, porquê? 'Esta lei é essencial para salvaguardar os interesses tanto dos actuais como dos futuros diregentes da RAEM'. Essencial...porquê, exactamente? 'Não faz sentido nem convém que o Chefe do Executivo seja constituido arguido durante o exercício do seu mandato'. Pronto, já chega, mas neste caso, não sei se faz sentido ou não, mas sem dúvida que não seria lá muito conveniente ter o CE acusado de um crime enquanto desempenha funções, mas permita-me aqui o maior dos porquês: que razão nos leva a pensar que alguém que vá desempenhar o cargo de Chefe do Executivo, primeira figura da RAEM poderia ser acusado de um ilícito? Não seria ideal confiar que foi indigitado para o cargo uma pessoa com uma elevada probablidade de não deixar isso acontecer? Temer o quê? E se não podemos confiar no CE, confiamos em quem? E já agora, sr. deputado Leonel Alves, porquê? Porquê o quê? Você sabe o quê. Eu é que não entendo...porquê.





Desculpas de mau cobrador


Quem não está de parabéns, antes pelo contrário, é a Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM), que mais vez demonstra que pode, quer, manda põe e dispõe dos serviços de telecomunicações do território, e continua a demonstrar que é tudo menos independente, como devia ser, pelo menos na hora de colocar os interesses dos seus clientes em primeiro lugar. A companhia continua a demonstrar que se não é completamente instrumentalizada pelo poder político, obedecendo cegamente às suas directivas em troca de um monopólio, que por sua vez gera lucros que são repartidos por elementos da cúpula desse mesmo poder político (e a isto chama-se "conluio"), então é bastante suspeita.

A CTM foi um dos "bonecos" que ficou mal na fotografia aquando das manifestações do último Domingo, voltando a ter "problemas técnicos" que limitaram ou em alguns casos cessaram por completo o seu serviço móvel e internet. No mesmo dia a companhia desculpou-se com "a aglomeração de pessoas em certos pontos da cidade, nomeadamente na Praça do Tap Seac", que como se sabe, foi um ponto de passagem de milhares de pessoas que participaram do protesto contra a lei do regime de garantias dos detentores dos principais cargos públicos. Hoje um grupo de cidadãos foi à Direcção dos Serviços de Regulação de Telecomunicações (DSRT) apresentar queixa, e a justificação que lhes foi dada é exactamente a mesma: "gente a mais na rua". Desculpa de mau pagador, esta; ou melhor de mau cobrador, uma vez que somos nós quem paga por um serviço medíocre. Faz lembrar aquela rábula do actor António Silva no filme "A Menina da Rádio", explicando como funciona um aparelho de rádio, só que aqui é o sinal da rede móvel e de internet que "bate na multidão, e recua...daí o sinal quer sair e não pode". Isto é a CTM que anda "fria...frapé", e tem que "aquecer o carburador".

É que nós, não tendo nascido ontem e sabendo muito bem o que a casa gasta, temos a certeza absoluta que caso se tratasse da visita de um alto dirigente da R.P.C., e estivessem rua milhares de pessoas, velhinhas a fazer "tai-chi", meninas a dançar "ballet" em indumentária pedófila, meninos a recriar a ópera "Ode ao Rio Dragão" e todos a agitar bandeirinhas, a CTM colocava a rede a funcionar a galope, não fosse algum patriota perder algum instante da "harmonia". Assim, na presença de sinais de agitação popular, toca a cortar o sinal para ver se estes gajos vão para casa enfiar-se nos lençois a curtir a "ressaca" de ficar sem rede móvel durante mais de uma hora. Dispersar, dispersar, como fez a Junta Militar na Tailândia bloquando o acesso a vários "sites" logo que tomou o poder, e como fazem todos os regimes que tapam o sol com uma peneira, pensando que basta estalar o chicote no chão e os burros baixam todos as orelhas.

Ainda entendo que serviços básicos como o abastecimento de água e o fornecimento de electricidade sejam monopolizados, pois não há lugar a "birras" que levem depois a população a ficar as escuras e a cheirar mal - basta ver o que aconteceu com os anteneiros. Agora um serviço como as telecomunicações, completamente opcional, deixado nas mãos de uma toda-poderosa companhia que pratica a censura (sim, tentem lá entrar neste "site", fáxavôr), e que ainda por cima providencia um serviço de caca, que haja ou não manifestações, é que não cabe na cabeça de ninguém. Aparentemente em Macau o mercado só é "livre" quando toca ao imobiliário, quanto ao resto...bem, viram um elefante, foi? Fechem olhos bem fechadinhos, e vão ver que afinal não está lá elefante nenhum. Viram? Ah, ah, então, ainda não entenderam? A resposta certa é "não, não vimos nada".



TDM, doce TDM


Reservei os desejos de parabéns pelo 30º aniversário da Teledifusão de Macau (TDM) para outro média, mas além da efeméride, a estação da Francisco Xavier Pereira está de parabéns por mais um motivo: vai transmitir em canal aberto os 64 jogos do mundial de futebol do Brasil, que arranca a 12 de Junho na arena de S. Paulo. Vai ser mais uma maratona de futebol, com o canal "de bandeira" da RAEM a transmitir 56 partidas em directo e oito em diferido - isto apenas porque os últimos jogos de cada grupo na primeira fase se realizam simultaneante. Mais uma vez temos que agradecer à TDM a generosidade, a disponibilidade, e o esforço em trazer ao povo o desporto do povo. É uma daquelas coisas que ainda dá para poder dizer: "que sorte viver em Macau".

A caminho do Brasil: a escola do "kick and rush"


Além da Inglaterra, existem outras selecções que praticam o chamado "futebol britânico", conhecido por "kick and rush", ou em bom português, "bola para a frente e fé em Deus". Enquanto os ingleses estiveram sempre na linha da frente em matéria de resultados e da própria evolução do estilo que celebrizaram, nem sempre apreciado pela generalidade dos adeptos do futebol, o resto das federações das ilhas britânicas foram-se mantendo fiel ao futebol aéreo, com a primazia da técnica da força sobre a força da técnica. Não se pode dizer que a estratégia tenha dado frutos nos últimos anos, mas tempos houve em que o marcava presença nesse grande certame do futebol mundial: o campeonato do mundo. Vamos fazer mais um retrospectiva.


Jimmy Murray, o autor do primeiro golo da Escócia em fases finais do mundial.

A Escócia é uma caso curioso; em oito participações em mundiais, nunca passaram da primeira fase. Em alguns casos não foi por falta de argumentos, mas inicialmente a selecção das "terras altas" da Grã-Bretanha não era levada muito a sério. Na estreia em mundias, em 1954 na Suíça, seriam afastados com derrotas por 1-0 com a Checoslováquia e 7-0 com o Uruguai, uma participação deveras humilhante. Quatro anos depois, na Suécia, os escoceses apareciam mais competitivos, empatando a uma bola com a Jugoslávia, e perdendo por 2-3 com Paraguai e 1-2 com a França, terminando novamente no último lugar do seu grupo, mas deixando uma boa impressão, e marcando em todas as partidas. Entre 1962 e 1974 ficariam a reflectir sobre estas participações à beira do Lago Ness, vestidos com um "kilt" e escutando o som da gaita de foles.


Em 1974 parte para a Alemanha uma equipa escocesa que toda a gente levava a sério - e não era uma equipa de "rugby", entenda-se. Capitaneados por Billy Bremner, uma das estrelas da super-equipa dos ingleses do Leeds United do início da década de 70, as escolhas do treinador Willie Ormind incluíam ainda o veterano Denis Law, o avançado e colega de Bremner no Leeds, Peter Lorimer, o trio do Manchester United composto por Jim Holton, Willie Morgan e Martin Buchan, Peter Cormack, titularíssimo no Liverpool de Bill Shankly, e uma jovem revelação que dava que falar no Celtic, um avançado de 23 anos que dava pelo nome de Kenny Dalglish. Em estaque estaria Joe Jordan, um médio-ofensivo de 22 anos, também ele colega de Bremner e Lorimer no Leeds. E seriam exactamente Lorimer e Jordan que marcariam os golos da vitória dos escoceses contra o Zaire por 2-0, e depois de um heróico empate frente ao Brasil, sem golos, seguia-se outro empate a um golo com a Jugoslávia, que valia a eliminação na diferença de golos.


Em 1978 na Argentina, o treinador é Ally McLeod, e a Jordan, Dalglish, Buchan e companhia juntam-se ainda Graeme Souness, bem conhecido dos adeptos benfiquistas, então a despontar no Liverpool, e Archie Gimmil, avançado que apesar dos seus 31 anos foi uma das figuras do único título de campeão de Inglaterra conquistado pelo modesto Nottingham Forest. Depois de uma estreia infeliz frente ao Perú, com derrota por 1-3, e empate com o Irão a um golo, os escoceses fazem um brilharete, batendo a Holanda em versão "laranja mecânica" por 3-2, com dois golos de Gimmil e um de Dalglish. Mais uma vez a diferença de golos elimina a Escócia, em detrimento dos holandeses.


Em 1982 em Espanha surge aquela que foi sem dúvida a melhor equipa da Escócia, orientada pelo carismático Jock Stein. Com Dalglish e Jordan na casa dos trinta anos, e Souness a capitão, juntam-se nomes como Gordon Strachan, Steve Archibald, Jim McLeish, Alan Brazil e o famoso guardião Jim Leighton. Mais uma vez a sorte não quer nada com os escoceses, e depois de uma convincente goleada frente à Nova Zelândia por 5-2, dá-se um desaire com o Brasil, que "sambou" frente aos britânicos com um expressivo 4-1, e depois de um emocionante empate a duas bolas com a União Soviética, dá-se novamente a eliminação, sim, pela diferença de golos. Parecia malapata.


Só que a partir daí tornou-se tudo mais simples na hora de contar as eliminações da Escócia. Em 1986 no México conseguem apenas um ponto graças um empate com o Uruguai, após derrotas com Dinamarca e Alemanha Ocidental, em 1990 perdem com Brasil e Costa Rica, vencendo a Suécia por 2-1, a última vitória em mundiais dos escoceses, e depois de uma ausência em 94 participam pela última vez em 98, e depois de empatarem com a Noruega e perderem com o Brasil, deixam esta última impressão, bastante má, com uma humilhante derrota frente a Marrocos por 3-0. A Escócia ainda está por marcar presença numa fase final de um mundial neste terceiro milénio.


Além de Inglaterra e Escócia, o País de Gales é a outra selecção da Grã-Bretanha, e apesar de nos últimos anos terem contado com jogadores do calibre de Gareth Bale - actualmente o mais caro da história - Ryan Giggs, Ian Rush ou Vinnie Jones (este foi só uma piada), participaram uma única vez em 1958, e tiveram uma presença bem digna no mundial da Suécia. Com uma equipa composta por jogadores a alinhar no campeonato inglês, mais alguns do Swansea e do Cardiff City - um pouco como acontece actualmente, no fundo - empataram todos os jogos do seu grupo, a uma bola com Hungria e México, e a zero com a equipa da casa, a Suécia. Aí foi necessário recorrer a um jogo de desempate frente aos húngaros, em Estocolmo, e ao contra todas as previsões, vencem poe 2-1, e seguem para os quartos-de-final. São eliminados com um único golo de Pelé aos 66 minutos, mas obrigam os futuros campeões do mundo a correr atrás da vitória.


Jack Charlton, o rosto da "nova" Irlanda.

Agora vamos até ao outro lado do "rio", à "ilha esmeralda", a Irlanda, terra de bardos e de bêbados. Os "paddies" era famosos por muita coisa, desde os leprechauns à cerveja Guiness, mas a sua selecção de futebol nunca tinha feito um brilharete em competições internacionais; isto até a Federação Irlandesa (FAI) resolver investir nos "verdes" e trazer em 1986 o técnico inglês Jack Charlton, que por sua vez, atendendo ou fraco e pouco competitivo campeonato irlandês, juntou um um grupo de rapazes nascidos na Irlanda mas saídos das escolas de futebol da Inglaterra e da Escócia, ou nascidos nesses países mas de ascendência irlandesa, e por isso elegíveis para jogar pela selecção - apesar de alguns deles nunca terem posto os pés na Irlanda. Em 1988 aparecem quase sem que se dê por isso no Euro 88, na Alemanha, e apesar de terem ficado pela primeira fase, deixam uma boa impressão, batendo a Inglaterra no jogo inaugural. Nasciam assim os Jack's Heroes", nome de uma canção tradicional irlandesa, e assim cantando e rindo foram dois anos depois à Itália disputar pela primeira vez o mundial.


No "crazy gang" de Charlton constavam nomes como o guarda-redes do Celtic, Pat Bonner, os defesas Mick McCarthy, um dos "rufias" de Millwall, o seguro Paul McGrath, do Aston Villa, ou o "velocista" Ronnie Whelan, da última formação do Liverpool campeã de Inglaterra, os médios David O'Leary, um veterano do Arsenal, Ray Houghton, também do Liverpool, e jovem talento como Andy Townsend ou John Sheridan, e na frente John Aldridge, que jogou no campeonato espanhol pela Real Sociedad, Tony Cascarino, do Chelsea ou a jovem promessa Nial Quinn, que chegou a ser dado como certo no Sporting anos mais tarde. Esta Rep. Irlanda conseguiu um feito raro: atingir os quartos-de-final sem vencer um único jogo, e marcando apenas dois golos. Na fase de grupos empataram todos os jogos, 1-1 c/Inglaterra, 0-0 c/Egipto e 1-1 c/Holanda, nos oitavos novo empate sem golos frente à Roménia e vitória nos "penalties", e finalmente derrota com a Itália por 0-1, com gol de Schillaci - à primeira tentativa já tinham conseguido chegar onde a Escócia não conseguiu em sete tentativas.


Depois de falhar a qualificação para o Euro 92, por muito pouco, Charlton e os seus "leprechauns" voltam ao mundial em 1994 nos Estados Unidos, e logo no primeiro jogo acontece a "Fairytale of New York" - no estádio dos Giants, na "big apple", um golo de Ray Houghton derrota a poderosa Itália, e tudo parecia um sonho. A Itália era uma das grandes favoritas à conquista do título mundial, e de facto chegaria até à final, apesar do precalço, e os irlandeses corriam
"por fora". O golo logo aos 11 minutos parecia apenas um acidente de percurso, mas a Itália não conseguiria dar a volta por cima, e para quem pensa que foi um "massacre" à baliza de Pat Bonner, é porque não viu o jogo, pois a Irlanda teve capacidade para gerir a vantagem com algum à vontade.


O despertar foi violento, com uma derrota por 1-2 frente ao México no segundo jogo, e após um empate sem golos frente à Noruega, a Irlanda termina em 2º lugar no grupo, atrás dos mexicanso e à frente dos italianos e dos nórdicos que acabariam eliminados. Dado que todos terminaram com quatro pontos, a decisão fez-se primeiro recorrendo ao critério de golos marcados e sofridos, e como os britânicos e os transalpinos estavam empatados nesse departamento, valeu a histórica vitória em Nova Iorque na ronda inaugural. Nos oitavos veio a Holanda, de má memória no Euro 88, quando afastou os irlandeses com um golo de Wim Kieft. Desta vez ficaria tudo mais fácil para os holandeses, com Bergkamp a marcar aos 11 minutos, e Jonk aos 41, com Bonner a dar um enorme frango. Para o Euro 96 a Irlanda é eliminada no "play-off" outra vez contra a Holanda, e Charlton deixa a selecção. Em 1998 o renovado Eire falha o mundial de França.


A "vingança" chegaria em 2002, quando os irlandeses se qualificam para o mundial da Coreia e do Japão no mesmo grupo de Portugal, deixando os holandeses em casa a regar as tulipas. Mick McCarthy, um dos discípulos de Jack Charlton, levava uma equipa completamente renovada, com jogadores todos a alinhar na Premier League inglesa: Jason McAteer, Damien Duff, Matt Holland, Kevin Kielbane, Ian Harte, Gary Kelly, entre outros, e a estrela da comapanhia, o avançado Robbie Keane, que mais tarde passaria pelo Inter de Milão. Do tempo de Jack Charlton só restavam Nial Quinn e o defesa Steve Staunton. Terceira presença, terceira passagem da fase de grupos - após empate a um golo com os Camarões, outro empate pelo mesmo resultado frente à Alemanha, num encontro dramático, onde Keane marca o golo irlandês dois minutos depois dos 90, de "penalty". Seria o único golo consentido pelos alemães até à final, onde perderiam por 2-0 com o Brasil. A vitória por 3-0 contra a Arábia Saudita valeu a passagem aos oitavos, onde perderiam com a Espanha de Camacho nos "penalties", e foi a última vez que vimos os "paddies" no mundial.


No território ocupado do norte, no Ulster, mora "a outra" Irlanda, a Irlanda do Norte, território ocupado pelo Reino Unido. Em 1958 no mundial da Suécia, ano em que as equipas do Reino Unido participaram todas, os norte-irlandeses qualificaram-se num grupo onde deixaram a Itália e Portugal para trás. No torneio final começaram com uma vitória por 1-0 com a Checoslováquia, perderam 3-1 frente à Argentina e empataram a dois golos com a Alemanha Ocidental. No "play-off" de apuramento voltariam a vencer os checos por 2-1, após prolongamento. Peter McParland, na época prolífico avançado ao serviço do Aston Villa, marcou cinco golos nesta fase - todos com a excepção do primeiro. Nos quartos-de-final seriam goleados pela França por 4-0.


Norman Whiteside bateu um recorde que pertencia a Pelé!

A Irlanda do Norte só voltaria em 1982, e levava consigo um jovem acabado de assinar pelo Manchester United que bateria um recorde que pertencia a Pelé, imagine-se. Norman Whiteside tornava-se o jogador mais jovem a alinhar numa fase final de um campeonato do mundo, aos 17 anos e 41 dias. Mais uma vez os norte-irlandeses passavam da primeira fase, empatando a zero com a Jugoslávia a um golo com as Honduras, e vencia surpreendentemente a equipa da casa, a Espanha, por 1-0. Já na segunda fase arrancava um empate a dois golos com a Áustria, mas seria eliminada pela França, após derrota por 4-1. Em 86, no México, tiveram o torneio menos conseguido dos três em que participaram, ficando pela fase de grupos, depois de empate a um golo com a Argélia, e derrotas por 1-2 com a Espanha e 0-3 com o Brasil. Pouca sorte, e menos sorte ainda para Whiteside, que teria que "pendurar as chuteiras" aos 26 anos, devido a lesão nos ligamentos do tornozelo.




A caminho do Brasil: altos e loiros


Hoje vou falar da participação das selecções escandinavas nos mundiais. Por Escandinávia entendem-se os quatro países que compõem aquela península - Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia - e as ilhas adjacentes, Islândia e Ilhas Faroé. Suecos, dinamarqueses e noruegueses têm uma história mais ou menos respeitável em fases finais de campeonatos do mundo, enquanto Finlândia e Islândia, apesar de terem um rol de jogadores que alinharam em ligas competitivas um pouco pelo resto da Europa fora, ainda não se estrearam - os islandeses estiveram perto este ano, perdendo com a Croácia no "play-off" da zona europeia. As Ilhas Faroé, que politicamente são território noruguês, dificilmente podem ambicionar a tal feito, quer pela sua reduzida dimensão, quer pela sua população, de menos de 50 mil habitantes. Os jogadores nórdicos foram em tempos considerados pouco tecnicistas, muito dependentes do seu poderio físico, e apesar da evolução nos últimos, esse aspecto nunca os impediu de obterem resultados decentes. Vamos ver, então.


A primeira selecção sueca a participar num mundial, em 1934.

A Suécia é de longe a selecção escandinava com o melhor registo, com um 2º, dois terceiros e um quarto lugar, enquanto as suas vizinhas nunca chegariam sequer a umas meias-finais. A primeira participação deu-se em 1934, na Itália, onde venciam a Argentina na primeira ronda por 3-2, e seriam afastadas nos quartos-de-final pela Alemanha, por 2-1. Quatro anos depois, numa França à beira da guerra, chegavam mais longe, mas sem tanto mérito; na primeira fase jogariam com a Áustria, que nesse ano seria anexada pela Alemanha nazi, e nos quartos-de-final aplicaram uma goleada de 8-0 à frágil selecção de Cuba, mas nas meias-finais seriam "deitadas à terra" pela Hungria, com uma derrota por 1-5, e mais outra derrota frente ao Brasil no jogo de atribuição do 3º lugar, por 2-4.


A guerra não parece ter afectado os suecos, e em 1950 voltariam ainda mais fortes, e depois de conquistar o ouro olímpico no torneio de futebol dos jogos de Londres, surgiam no mundial do Brasil, onde chegariam à "poule" final. Determinante para essa brilhante campanha terá sido a vitória na primeira partida frente à favorita Itália, por 3-2, e a seguir bastou um empate a duas bolas frente ao Paraguai, uma vez que o grupo tinha apenas 3 selecções, por desistência da India. Na fase final veio uma pesada derrota frente ao Brasil por 7-1, novo desaire com o Uruguai, por 3-2, e o terceiro lugar ficaria garantido com uma vitória sobre a Espanha, por 3-1. Foi o último suspiro de geração de talentos nórdicos, pois em 1954 falhariam a qualificação para o mundial da Suíça.


A melhor Suécia de sempre, finalista em 1958 como país anfitrião.

Em 1958 a Suécia organizaria o torneio final pela primeira vez, e até agora única, e obtinha o seu melhor resultado, indo até à final, onde perderia com o Brasil. Na primeira fase venciam o grupo 3, com triunfos frente ao México por 3-0, Hungria por 2-1, e empate sem golos frente ao País de Gales. Na fase a eliminar mostraram fibra de campeões, vencendo a União Soviética por 2-0, e a campeã em título, a Alemanha Ocidental, por sólidos 3-1. Na final tiveram o azar de encontrar o jovem Pelé, então com 17 anos, o seu mentor Garrincha e a restante "canarinha" num dia "sim", e seriam derrotados sem apelo nem agravo por 2-5. Ficava o melhor registo de sempre da Suécia em mundiais, mas os nórdicos falhariam a qualificação para o mundial do Chile em 62, e para a Inglaterra em 66.


Os suecos regressariam em 1970 no mundial do México, e ficariam no Grupo 2, com Itália, Uruguai e Israel, e este ficaria tristemente célebre como um grupo onde pouco futebol se jogou, e muitas pernas foram pontapeadas. Depois de derrota por 1-0 com a Itália, seguiu-se um empate a um golo com Israel, num jogo em que a bola foi muito mal tratada, e a vitória frente ao Uruguai por 1-0 não chegou para anular a vantagem dos sul-americanos no "goal-average". A melhor Suécia antes do ressurgimento nos anos 90 foi a do mundial da Alemanha, em 1974, onde chegou à segunda fase. Inserida no Grupo 3, estreou-se com um comprometedor empate a zero com a Bulgária, mas aguentou frente à "laranja mecânica", a Holanda de Cruyff e companhia, e levou outro ponto resultante de outro nulo, e contra o Uruguai no último jogo deu um "baile", vencendo por 3-0, com o avançado dos holandeses do PSV, Ralf Edström, em grande destaque, ao apontar dois golos. Na segunda fase de grupos seriam afastados após derrotas nos primeiros dois jogos, contra a Polónia (0-1) e Alemanha Ocidental (2-4), despendido-se de forma honrosa com uma vitória por 2-1 frente à Jugoslávia. Em 1978, na Argentina, não começaram mal na primeira fase de grupos, impondo um empate a um golo frente ao Brasil, mas derrotas com a Áustria e com a Espanha, ambas por 1-0, valiam o último lugar do grupo e uma participação para esquecer.


Mas não seria a selecção sueca do mundial de 78 a ficar com a má fama da pior de sempre, pois após ausências em 82 e 86, eis que em 1990, na Itália, surge uma Suécia renovada, recheada de jogadores a alinhar em campeonatos europeus de grande nível. O primeiro jogo dos suecos seria contra o Brasil, um velho conhecido, e tinha o aliciante de estarem em campo vários jogadores a alinhar no campeonato português, especialmente no Benfica. Assim do lado do Brasil tinhamos Valdo e Ricardo Gomes, e do lado da Suécia Mats Magnusson e Jonas Thern, além de Stefan Schwarz, o lateral-esquerdo que assinaria pelos encarnados em 1991. Do lado do Brasil alinhou ainda o ex-benfiquista Mozer, então ao serviço do Marselha, e na Suécia o avançado Glenn Strömberg, que passou pela Luz na primeira metade dos anos 80, entraria a vinte minutos do fim. No Brasil o portista Branco alinhou no onze inicial, e o sportinguista Paulo Silas jogou os últimos dez minutos. Os brasileiros venceriam por 2-1, com dois golos de Careca contra um de Thomas Brolin, e ficaria a marcada a tendência para os nórdicos no torneio, pois a seguir perderiam com a Escócia e finalmente com a Costa Rica, também por duas bolas a uma.


Em 1994, nos Estados Unidos, a Suécia apaga a má impressão deixada em Itália, e alcança o seu terceiro pódio em mundiais. Com o guarda-redes e capitão Thomas Ravelli, o mais internacional de sempre dos nórdicos até Setembro de 2013, quando foi ultrapassado pelo médio Anders Svensson, a comandar uma equipa onde pontificavam Thern, Schwarz e Brolin, além da dupla de avançados Kenneth Andersson e Henrik Larsson, especialmente inspirada. Depois de um início tremido, com empate a duas bolas contra os Camarões, seguiu-se uma vitória frente à Rússia por 3-1 e novo empate frente ao Brasil a uma bola. Nos oitavos vitória frente à Arábia Saudita, novamente por 3-1, e passagem à meias-finais após desempate nos "penalties" contra a Roménia, depois de 2-2 ao fim de 120 minutos. Nas meias-finais, novamente o Brasil, e derrota por uma bola a zero - é preciso ter azar, pois a Suécia defrontou a "canarinha" nada mais nada menos do que seis vezes, e nunca ganhou. É obra. No jogo de consolação, vitória por 4-0 sobre a Bulgária, com golos de Brolin, Andersson, Larsson e Håkan Mild (não se esqueçam da bolinha em cima do "a", muito importante). O 3º lugar ficou a ser saboreado durante muito tempo, pois os suecos falhariam o mundial de 98 em França.


As participações em 2002 e 2006 ficaram a saber a pouco; na Coreia e Japão tiveram o mérito de vencer o Grupo F à frente da Inglaterra, e afastando a Argentina, mas nos oitavos seriam surpreendidos pelo Senegal, perdendo por 1-2 no prolongamento por morte súbita. Quatro anos depois na Alemanha, ficariam em 2º lugar no Grupo B, e desta feita atrás dos ingleses, e seriam afastados na fase seguinte pela equipa da casa, numa partida em que o defesa Teddy Lučić foi expulso logo aos 35 minutos, e terminaria com 2-0 para os alemães. E foi a última vez que vimos os suecos em mundiais, pois falhariam a qualificação em 2010, e para o mundial do Brasil deste ano perderiam com Portugal no "play-off", numa jornada de boa memória para as nossas cores.


A Dinamarca só participaria pela primeira vez em 1986 no México, vinda de um excelente campeonato europeu dois anos antes, onde chegou às meias-finais. A equipa orientada pelo alemão Sepp Piontek incluía estrelas como - e atenção aos preciosismos próprios do alfabeto nórdico, com os seus "å", "æ" e "ø" - Søren Lerby, Jan Mølby, Jesper Olsen ou o avançado Preben Elkjær Larsen, e na estreia venciam a Escócia por 1-0, exactamente com golo de Larsen. No segundo jogo frente ao Uruguai os "Danes" mostram que não estão no México só para apanhar sol e comer "frijoles fritos", e goleam o Uruguai por 6-1, com Larsen a apontar um "hat-trick". A fase de grupos terminaria 100% vitoriosa com 2-0 sobre à Alemanha Ocidental, mas nos oitavos frente à Espanha seriam apanhados pelo vendaval Butragueño, com o avançado do Real Madrid a apontar quatro golos na vitória de 5-1 da "roja". Mesmo assim uma estreia auspiciosa dos dinamarqueses.


Apesar de se terem sagrado campeões da europa em 1992, não seria até 1998 que veriamos os dinamarqueses novamente num mundial. Em França, com o guarda-redes Peter Schmeichel na baliza, e
com os irmãos Michael e Brian Laudrup na frente a criar pânico nas defesas adversárias, os nórdicos viriam a obter um honroso quinto lugar. Depois de uma primeira fase complicada, com vitória por 1-0 contra a Arábia Saudita, empate a um golo com a África do Sul e derrota por 1-2 com a anfitriã França, a equipa orientada pelo sueco Bo Johansson golearia a Nigéria por 4-1 nos oitavos, perdendo depois para o Brasil por 2-3 nos quartos-de-final, mas não sem dar luta. Martin Jørgensen marcava o primeiro logo aos dois minutos, e o "escrete" iria precisar de mostrar o que valia, operando a reviravolta com golos de Bebeto aos 11, e Rivaldo aos 27. No quinto minuto da segunda parte, um lance que ficaria célebre: Roberto Carlos tenta um corte na área do Brasil com pontapé de bicicleta, mas falha e deixa a bola disponível para Brian Laudrup, que empata a partida. Valeu a tarde inspirada de Rivaldo em Nantes, e aos 60 minutos o avançado do Barcelona faz o 3-2, mandando os dinamarqueses de volta à Escandinávia.


Em 2002, no mundial da Coreia e do Japão, a Dinamarca faz a sua terceira participação, e depois de uma fase de grupos promissora, onde vencem o Grupo A, vencendo o Uruguai e a França, são banalizados pela Inglaterra, que com golos Ferdinand, Owen e Heskey, todos na primeira parte, mandam os dinamarqueses de volta ao reino da Dinamarca com 3-0. Ausentes em 2006 na Alemanha, voltam em 2010 na África do Sul, mas sem argumentos, ficando pela fase de grupos após derrota com o Japão por 1-3, um episódio deveras humilhante para quem um dia fez o Brasil de Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Bebeto suar as estopinhas. Este ano ficam em casa, a repensar a estratégia para um regresso condigno aos grandes palcos do futebol mundial.


Finalmente falemos da Noruega, que participou pela primeira vez decorria o longíquo ano de 1938, ficando pela primeira ronda, após derrota com a Itália por 2-1, após prolongamento - nada mau, tendo em conta que os italianos se sagrariam campeões mundiais. Aliás a Itália apareceria sempre no caminho da Noruega mundialista; depois de uma longo período de hibernação, os nórdicos voltam em 1994, nos Estados Unidos, com uma equipa de pendor assumidamente defensivo, mas com o mérito de se qualificarem em detrimento da Inglaterra - mérito para Egil Olsen, autor da revolução que aproveitou a geração de jogadores noruegueses a jogar em equipas estrangeiras, especialmente da Premier League inglesa. Sem praticar um futebol atraente por aí além, estream-se com uma vitória por 1-0 em Washington frente ao México, com um golo de Kjetil Rekdal a seis minutos do fim. A seguir perdem por 0-1 com a Itália, e empatam a zero com a Rep. Irlanda, terminando o grupo em último lugar com quatro pontos - os mesmos que as restantes equipas, mas com desvantagem no "goal-average". Tinha valido pelo regresso.


Em 1998 regressava a Noruega e regressava também Egil Olsen, com uma equipa de estrelas: Henning Berg, Ronny Johnsen e Ole Gunnar Solskjær (Manchester United), Stig Inge Bjørnebye e Øyvind Leonhardsen (Liverpool), Tore Andre Flo (Chelsea), e alguns dos elementos da equipa do Rosenbrog que tinha dado nas vistas nas edições anteriores da Liga dos Campeões. A equipa prometia, especialmente depois da vitória por 4-2 frente ao Brasil no início desse ano, que seria a primeira derrota da "canarinha" em quase dois anos. Integrados no Grupo A do mundial de França precisamente com os brasileiros, além de Marrocos e da Escócia, os noruegueses estavam apostados em chegar longe, mas dois empates contra os africanos (2-2) e escoceses (1-1) complicavam as contas, e era obrigatório vencer o Brasil para seguir em frente. E foi isso mesmo que fizeram, derrotando a "canarinha" por 2-1, com golos de Flo e Rekdal nos últimos dez minutos, depois de Bebeto ter inaugurado o marcador aos 78 minutos. Nos oitavos os nórdicos voltariam a esbarrar com a Itália, com um único golo de Vieri aos 18 minutos. E mais não se viu da Noruega em mundiais, até hoje.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Um regime que não engorda - antes pelo contrário


E aí está, a corda esticou, esticou e esticou, e não só o nosso benemérito Executivo percebeu que já não esticava mais, como a rebentou, e levou com ela na tromba. Portanto a modos que, coisa e tal, devido à manifestação do último Domingo, a maior desde 1959 - isto significa que nem o azedume do "1,2,3" se compara - a AL adiou a votação na especialidade da lei que estabelece o regime de garantias dos titulares do cargo de Chefe do Executivo e principais cargos públicos. Sim, quando digo "na especialidade", isto significa que já foi aprovada na generalidade, como se pode ver na imagem, a 17 de Dezembro último, e como podem ainda constatar, com excepção dos "suspeitos do costume" (e ainda Chan Meng Kam, que nesse dia deve ter faltado para participar da festa de Natal dos conterrâneos de Fujian), foi aprovada por 28 dos 32 deputados. Portanto, o que está feito, feito está, e foi só na hora da verdade que a população finalmente percebeu que isto era, bem, sei lá, irrelevante para as suas vidas e para o seu dia-a-dia? Que não só não lhes diz respeito, como ainda fortalece a posição de quem já é suficientemente bem remunerado para desempenhar as funções que desempenha, e para as quais nem foi eleito, ou sendo eleito foi sem se submeter ao sufrágio universal e directo? E que não sendo para isto que lhes pagam, ainda querem ser mais bem pagos? Sei lá, chamem-me de maluco, mais aos 20 mil tipos que barafustaram contra esta propesta de lei no Domingo, mais aos outros que estiveram hoje nas imediações da Assembleia Legislativa, e em quem estranhamente as autoridades não se atreveram a encostar um dedo? Isto noutro dia dava pelo menos para deter o Jason Chao, mais o maluco do Lee Kin Yun e os seus amiguinhos, e deixá-los a "secar" duas ou três horas na esquadra.

O problema é que a proposta de lei é, de um ponto de vista meramente técnico, uma cagada. Desculpem lá se vos estou a roubar tempo, mas convido a que leiam na integra o conteúdo daquilo que ia ser hoje votado, e que foi "abençoado" por 28 alminhas em finais de Dezembro passado. Podem fazê-lo aqui, clicando no "aqui", em negrito, e não custa nada, pois são apenas 20 artigos. Já leram? Gostaram? Eu também não, mas valeu a pena, não valeu? É uma proposta que, ao contrário do que dizem os "especialistas em Direito torto", não é comum a outras jurisdições. Bem, talvez até seja, mas não sei se poderíamos chamar a isso "jurisdições", pelo menos conforme o significado específico de "juris". Esta é uma proposta que dota os titulares dos principais cargos públicos de regalias equiparadas apenas ao sultão do Brunei. Se é "atractiva para os novos talentos", como defendem alguns? Eu diria mais: é atractiva para qualquer um. Quer dizer, quem é que recusaria um sem número de mordomias em troca de meia dúzia de anos de serviço público, que como o nome indica, deveria ser efectuado com o propósito de servir a população, e não tirar um "jackpot" da roleta do erário público?

Alarmante é sem qualquer margem para dúvidas o artigo 4º, que isenta o Chefe do Executivo de qualquer ilícito, seja ele qual for, seja ele em que circunstâncias ou de que natureza. A maioria da malta pode não ter formação jurídica, mas não é analfabeta de todo - algo como "O procedimento penal não se aplica ao Chefe do Executivo durante o seu mandato" significa em qualquer dos casos que o CE está acima da lei. Ou seja, durante o seu mandato, o CE pode muito bem chegar ao pé de alguém no meio da rua, rebentar-lhe com os miolos, e ainda recebe uma vénia de quaisquer eventuais testemunhas, que lhe dirão qualquer coisa como: "bons olhos o vejam, sua excelência, volte sempre e rebente com os meus miolos, também". Estou a ser parvo? Não há nada naquele diploma que refute ou redima aquilo que acabei de dizer. Quando o sr. deputado Leonel Alves diz que esta medida serve para prevenir que o CE "seja nomeado arguido ao mesmo tempo que exerce funções". Pois, isso já percebemos, agora fica por explicar o porquê o facto de se ser CE isenta alguém de cumprir a lei como qualquer outro cidadão. Confesso, estou um pouco baralhado. Ainda quanto à defesa que o sr. deputado Leonel Alves faz do diploma, alegando que "é comum a outros países e territórios" ou que "devia ter sido aprovado na altura da implantação da RAEM". Bom, pode ser que o causídico tenha razão, e que deveria existir uma lei que salvaguardasse os interesses dos detentores de cargos públicos, mas nestes termos, e atendendo ao caso particular de Macau, parece desadequado, pelo menos em forma e em número. Se há algo em que concordamos é sem dúvida o "timing", pois aprovar uma lei destas quando faltam seis meses para alguns dos tais detentores dos cargos públicos cessarem funções, parece estranho - já era difícil de engolir, mas assim torna-se absolutamente intragável.

Não é preciso ter formação jurídica para entender que há algo de muito errado neste diploma cuja votação final foi hoje adiada, uma decisão que deixou em estado de alerta as altas esferas da RAEM, e deixou a gaguejar alguns dos que inicialmente apoiavam a proposta, e outros a fazer tristes figuras, imediatamente condenadas pela mole agora desperta - e atenta. Agora não há forma de adiar o que não tem data que a torne aceitável, ou alterar o que de raíz está mal feito: é preciso deixar cair, admitir que se errou, e olhar em frente, e quem sabe no futuro "emendar" o erro, e esperar por uma oportunidade melhor para preencher esse vácuo legislativo de outra forma que não esta, tão brutal e declaradamente tendenciosa. É que aqui não há o cordel do patriotismo que ajudou a passar a legislação do artº 23 da Lei Básica; aqui trata-se do dinheiro que é de todos, e se estão a pensar em deitar-lhe a mão, façam-no com jeitinho, sem barulho e sem estragar nada, ok? Ninguém leva a mal se admitirem o erro, e só os burros é que são assim tão teimosos. Só uma curiosidade: agora que este caso transbordou e chegou à imprensa estrangeira, o que pensará Pequim de tudo isto? A rir de gozo é que não devem estar, com toda a certeza.





O Lam é cá dos meus


Num momento em que Lam Heong Sang, deputado e vice-presidente da Assembleia Legislativa, é o centro de todas as críticas, decidi "bater devagarinho" (até porque o senhor tem uma certa idade), e escolhi esta fotografia onde ele não está a morder, atacar ou ameaçar um jornalista. O sr. Lam Heong Sang protagonizou no última Sábado uma cena caricata, ao confrontar um repórter do canal chinês da TDM por este lhe ter feito uma pergunta "incómoda". Phoenix Un, que apesar do nome é um homem, perguntou ao vice-presidente da AL se a votação da lei do regime de garantia dos titulares dos principais cargos públicos seria "uma situação em que se sacrifica a opinião pública em nome do procedimento", e se os deputados iriam votar a favor da lei "apesar da maioria da opinião pública estar contra". Lam não gostou da pergunta, apontou com o dedo para o jornalista (ou acenou-lhe com a mão, tanto faz, mandar-lhe beijocas é que ele não fez) e disse-lhe "Estás-me a tramar! Já me tramaste!". Quando o jornalista, provavelmente surpreso com a reacção do dirigente lhe perguntou "porque o estava a tramar", este retorquiu que Un "tinha baixo nível", enquanto de saída do local, afastando os restantes profissionais da imprensa.

Ora bem, analisando esta reação tão pitoresca de Lam Heong Sang, podemos fazer duas interpretações: uma "zen", adequada para o princípio da harmonia que os nossos dirigentes tanto apregoam como sendo a forma mais adequada de fazer política; e uma interpretação mais maldosa, do tipo "Shanghai Triad". É assim:

- Na versão "zen", muito típica da região onde nos inserimos, Lam queria dizer com este "Já me tramaste" e "Tens baixo nível" que o jornalista em questão precisa de fazer uma auto-crítica, uma reflexão profunda na busca da paz interior, com uma dieta vegetariana durante trinta dias acompanhada de muito chá. Se possível, Phoenix Un deverá fazer uso do seu tempo de férias para fazer uma peregrinação a Bodh Gaya, na India, e no templo no Mahabodhi, meditar debaixo da figueira onde o grande Buda atingiu a suprema iluminação, e encontrou finalmente o seu equilíbrio espiritual.

- Na segunda versão, Lam atira com este verbotim como quem diz: "Já me tramaste, e sei onde tu moras, bem como toda a tua família". Ao dizer "Tens baixo nível", cuspiria no chão e mediria o jornalista de alto a baixo, como quem insinua: "Metes-me nojo, és pior que o vómito do mais sarnento dos cães, e a humanidade agradeceria se eu te limpasse da face da Terra". Não fosse pela quantidade de testemunhas, e fazia-lhe um corte do queixo até à testa com a sua "naifa" de bolso, como forma de aviso. Fosse como fosse, Phoenix Un acordaria com uma cabeça de garanhão preto na cama no dia seguinte.

A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau, uma das setecentas e trinta e seis associações de jornalistas existentes em Macau, segundo um certo senhor cá do burgo, está indignada com a atitude do vice-presidente da AL, que "não dignifica a instituição que representa". Ora, ora, tanta indignação só pode fazer mal ao fígado, portanto deixem-se de merdas, pázinhos. Aqui o Lam é dos meus, só que como não está habituado ao contacto com os restantes exemplares da raça humana, tem uma certa dificuldade em passar a mensagem. Eu no lugar dele era mais directo: "Olá, srs. jornalistas, pessoal da imprensa, sou o Leocardo, e estou aqui para responder às vossas perguntas - contando que sejam do meu agrado. Caso contrário, convido-vos a se servirem do "buffet" nas traseiras do recinto, cuja especialidade é salada dos cinco dedos, e com sobremesas tão tentadoras que com toda a certeza irão para casa sem vários dentes. Primeira pergunta?".

Chan Chak Mo, olhó sonoro!


Não existe nada mais deprimente do que assistir a um atrasadinho mental com a mania das grandezas, e que pensa que toda a gente é burra porque tem menos dinheiro que ele - dinheiro esse que conseguiu através de métodos questionáveis, para não usar uma palavra pior. Neste vídeo vemos Chan Chak Mo, deputado da Assembleia Legislativa eleito pela obscura via indirecta e em nome dos "interesses desportivos e culturais", a demonstrar que não leva nada "na desportiva", e "cultura" é algo que também não abunda. Interpelado por uma jornalista sobre a polémica votação do diploma do "Regime de garantia dos titulares do cargo de Chefe do Executivo e dos principais cargos a aguardar posse, em efectividade e após cessação de funções" (isto não só é uma grande merda como também é uma merda grande, e por isso em vez de gastar bites de memória a decorar isto, por isso vou optar pelo "copy paste"), Chan trata a profissional da imprensa como se fosse neta dela, e apesar de não duvidar de que tenha a idade para tal, em termos de idade mental deve-lhe ficar bem atrás. O vídeo está a deixar a opinião pública chinesa indignada, pela forma arrogante e pantomimeira com que o deputado se dirige à jornalista, respondendo às questões de forma vaga, difusa, e até trocista. "As pessoas não estão contentes? O que quer que eu faça?", "Ah sim? Ah, ah, e quer que eu lhe diga o quê", "Olhe a lei tem que sair...é o meu trabalho. Você está a fazer o seu trabalho, eu estou a fazer o meu". Nem é preciso entender cantonense para perceber que Chan Chak Mo ou está completamente bêbado, ou é uma besta - e Chan Chak Mo não bebe. Em 2003 o deputado ganhou uma medalha de "Mérito Turístico"; talvez fosse uma boa altura de ganhar outra, fazendo "turismo" daqui p'ra fora.

Morreu Ma Man Kei


Faleceu ontem em Pequim Ma Man Kei, antigo presidente da Associação Comercial de Macau e líder da comunidade chinesa do território, e uma das suas maiores figuras do século XX, a par do comendador Ho Yin, pai do primeiro Chefe do Executivo, Edmund Ho Hau Wah. Nascido em 1919 em Nanhai, província de Cantão, veio ainda jovem para Macau, onde durante os difíceis tempos da agressão japonesa à China se notabilizou como comerciante, fazendo entrar no território bens que eram escassos devido à guerra, nomeadamente o arroz. Nos anos 60, já na direcção da Associação Comercial de Macau, teve um papel determinante nas negociações que levaram a bom termo o conflito que ficaria conhecido por "1,2,3", que opunha a comunidade chinesa local aos portugueses, durante os conturbados tempos da Revolução Cultural na R.P.C.. Considerado um "patriota", era membro notável do Partido Comunista, tendo exercido o cargo de vice-presidente do 8º, 9º, 10º e 11º Comité Nacional do Conselho Consultivo do Povo Chinês, cargo que deixou apenas o ano passado, apesar de se encontrar internado num hospital da capital chinesa há vários anos, num estado de saúde bastante debilitado. Foi ainda vice-presidente do Comité para a Elaboração da Lei Básica, criado em 1988, e ficaram célebres as suas afirmações em vésperas da transferência de soberania de Macau para a R.P. China, quando disse que "a China ia finalmente livrar-se da humilhação de séculos de ocupação do seu território por uma potência estrangeira". Presidiu à Associação Comercial desde 2000.

A caminho do Brasil: uma laranja amarga e doce (mais amarga)


A selecção holandesa é normalmente uma das maiores atrações dos campeonatos do mundo, devido ao futebol atraente que pratica - ou nem sempre. Em nove participações (vão para décima este ano) os holandeses contam no currículo com três finais perdidas, um 4º lugar e uma mão cheia de desilusões. Primeiro é preciso explicar a diferença entre Holanda e Países Baixos, outro nome que escutamos com frequência quando se fala deste país. De facto o nome correcto desta nação no centro-norte da Europa, mesmo à beira da Escandinávia, é "Países Baixos", e "Holanda" é apenas uma das províncias que o compõe - a maior de todas, e onde se situa a capital Amesterdão. Contudo o mundo habituou-se a chamar à equipa com camisola cor-de-laranja Holanda, e dizer "Países Baixos", ou em inglês "Netherlands", é um preciosismo normalmente reservado para o Festival da Eurovisão: "Netherlands...three points/Le Pays Bas...trois points". Estão a ver onde quero chegar. Por isso e para não ficar aqui a discutir o sexo dos anjos, chamamos "Holanda" à equipa de futebol. Vamos então olhar para esta "laranja mecânica", nome que explicarei durante o processo, e as suas "performances" nos palcos do desporto-rei durante os últimos oitenta anos, um pouco por esse mundo fora.


Holanda e Suíça entram em campo no mundial de 1934, em Itália.

Ausentes do controverso "mundial por convites" organizado pelo Uruguai em 1930, a Holanda participaria pela primeira vez em 1934, na Itália, e ficaria pela primeira ronda, perdendo por 3-2 frente à Suíça. Quatro anos depois regressariam em França, e voltavam a ficar pela ronda inaugural, sendo derrotados desta feita pela Checoslováquia por 0-3, mas apenas após prolongamento. Um dos países que mais sofreu com a agressão nazi, a Holanda não participaria nos dois primeiros mundiais do pós-guerra, em 1950 e 1954, e não se conseguia qualificar até 1974, mas foi aí que...


Johann Cruyff, o "Alexander the Large" do futebol holandês.

...surgiu a "laranja mecânica". O filme de Stanley Kubrick com o mesmo nome, baseado no romance distópico de 1962 da autoria de Anthony Burgess, tinha saído dois anos antes, e o facto das camisolas dos holandeses serem num laranja vivo, e o futebol que praticavam ser a todo o terreno - o famoso "futebol total" - fez com que ficassem conhecidos por "laranja mecânica". O conceito de futebol total, uma táctica onde todos os jogadores defendem e atacam, sendo substituído sna sua posição por um colega, e o único fixo é o gaurda-redes, foi idealizado por Rinus Michels, e o sucesso da estratégia seria materializado com a conquista da Taça dos Campeões pelo Ajax em 1971, e continuada pelo romeno Stefan Kovacs nos dois anos seguintes. O "maestro" do futebol a todo o terreno era Johann Cruyff, o maior jogador holandês de todos os tempos. A participação no mundial da Alemanha em 1974 foi memorável, e com Cruyff brilhavam também Arie Hann, Rob Rensenbrink, Johan Neeskens, Johnny Rep, Ruud Krol, e os gémeos Willy e Rene van der Kerkhoff - e estes não seriam os únicos gémeos que fariam história pela Holanda.


Na primeira fase final em 36 anos, os holandeses passariam a primeira fase com vitórias por 2-0 contra o Uruguai, empate a zero com a Suécia, e goleada por 4-1 frente à Bulgária. Na segunda fase arrancam para a final com uma goleada e memorável exibição frente à Argentina, com dois golos de Cruyff, um de Krol e outro de Rep. Seguiram-se vitórias por 2-0 contra Alemanha Democrática e Brasil, e a "laranja mecânica" só seria travada na final contra a equipa da casa, a Alemanha Ocidental, que venceria por 2-1 apesar de Neeskens ter colocado os holandeses em vantagem logo aos 2 minutos, de "penalty".


Em 1978 a Holanda quase boicota o mundial da Argentina por razões políticas, devido ao golpe de estado que dois anos antes tinha colocado o ditador Jorge Videla no poder. A "laranja mecânica" vai, mas Cruyff recusa-se a viajar até à América do Sul, mas anos mais tarde revelaria que a verdadeira razão prendeu-se ameaças de rapto contra a sua família na Catalunha, onde residia na altura, como jogador ao serviço do Barcelona. Sem Cruyff e com o treinador austríaco Ernst Happel, vencedor da Taça dos Campeões em 1970 pelo Feyenoord, no lugar de Rinus Michels, a "laranha mecânica" vai com praticamente a mesma equipa de 74, com algumas novidades como Johan Boskamp e Dick Nanninga. Depois de uma primeira fase de grupos tremida, com vitória frente ao Irão por 3-0, empate a zero com o Perú e derrota por 2-3 com a Escócia, passam à frente dos escoceses na diferença de golos marcados. Mas na segunda fase a "laranja" mecaniza-se, goleia a Áustria por 5-1, empata a dois golos com a Alemanha Ocidental e chega à final após vencer a Itália por 2-1, com Ernie Brandts a marcar duas vezes, primeiro na baliza errada, e depois na certa, e Haan a marcar o golo decisivo. Na segunda final consecutiva voltam a perder com a equipa da casa por 3-1, após prolongamento.


A Holanda falha a qualificação para os mundiais de 1982 e 1986, mas sempre por muito pouco, e sempre por culpa da vizinha Bélgica. Só que em 86 Rinus Michels volta "a fazer das suas", levando uma nova geração de talentos a vencer o Euro 1988. Foi a era do trio que brilharia mais tarde no AC Milão, Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten, o defesa do Barcelona, Ronald Koeman, o guardião do PSV, Hans van Breukelen, campeão europeu em 1987/88, e a "escola" do Ajax, representada por jogadores como Danny Blind, Aaron Winter, Jan Wouters ou Richard Witschge. Foi com esta nova "laranja mecânica" que Leo Beenhakker sucede a Michels, e vai ao mundial de Itália em 1990, cotado como um dos potenciais vencedores. Mas as coisas correm mal, e depois de empates com Egipto, Inglaterra e Rep. Irlanda na fase de grupos, perdem nos oitavos por 2-1 com a Alemanha Ocidental, numa partida que fica manchada pela expulsão de Rijkaard e o alemão Rudi Völler, que se envolvem numa rixa que termina com o holandês a cuspir no seu adversário.


Em 1994 a "laranja" vai até aos Estados Unidos sob o comando de Dick Advocaat, determinado a apagar a má imagem deixada em Itália quatro anos antes, e "armado" com um "arsenal" de novo talento, casos de Marc Overmars, Dennis Bergkamp, Wim Jonk e mais um par de gémeos - Ronald e Frank de Boer. Van Basten e Gullit já estavam "no estaleiro", Rijkaard e Koeman regressavam mais maduros, e Witschge, Winter, Wouters e Blind eram também repetentes. A primeira fase corre bem, apesar da derrota frente aos eternos rivais belgas, e depois de eliminarem a Rep. Irlanda por 2-0 nos oitavos, enfrentam o Brasil nos quartos-de-final. Romário e companhia, que seriam campeões mundiais, venceriam por 3-2 aquele que foi provavelmente o melhor jogo do torneio. Mereciaa melhor sorte, a "laranja" de Advocaat.


Em 1998 na França seria Guus Hiddink a levar a Holanda às meias-finais, mesmo sem um futebol tão impressionante como o de Advocaat ou Michels, e daria a conhecer uma nova fornada de "laranjas" apetecíveis ao gosto dos grandes clubes europeus: Edgar Davids, Philip Cocu, Boudewijn Zenden, Winston Bogarde, Michael Reiziger e Jaap Stam. Os gémeos de Boer também lá estavam, e a dupla Bergkamp/Overmars acabava de ganhar a Premier League frente ao Arsenal. Os holandeses passariam a fase de grupos sem problemas, e tiveram testes duros contra Jugoslávia e Argentina na fase a eliminar, que passaram com vitórias por 2-1, mas esbarrariam novamente no Brasil, desta feita nas meias-finais, perdendo apenas nos "penalties". Já desmotivados perderiam o 3º lugar no jogo de consolação com a Croácia, por 1-2.


Marco van Bastard, perdão, van Basten.

E em 2002 acontece o improvável: a Holanda falha o mundial, após terminar em 3º lugar no grupo de qualificação, atrás de Portugal e da Rep. Irlanda. Determinante terá sido a vitória portuguesa em Roterdão por 2-0, de que os holandeses nunca recuperariam. No Euro 2004 são afastados nas meias-finais outra vez por Portugal, e em 2006 no mundial da Alemanha, orientados por Van Basten, terminam em segundo no grupo da Argentina, e nos oitavos-de-final...Portugal. Sem saberem muito bem o que fazer perante a sua "besta negra", optam por uma táctica de confrontação e guerra psicológica, que culminaria na famosa "batalha de Nuremberga" (v. peça sobre Portugal), mas sairiam derrotados por 0-1. Em 2010, com o técnico Bert van Marwijk, chegam à terceira final da sua história, um tanto ou quanto surpreendentemente - os resumos dos jogos da Holanda em 2010 estão nas peças sobre o Brasil, Uruguai e Espanha. Este ano é Louis van Gaal a tentar "espremer" a laranja, desta feita em terras brasileiras.