sábado, 9 de março de 2013

SOS SIDA


Os números de infecções pelo vírus da SIDA aumentaram em Macau, de 21 novos casos em 2011, para 33 em 2012. O aumento, superior a 50%, não preocupa as autoridades, que consideram que a situação está sob controlo. O mesmo fenómeno verificou-se em Hong Kong, onde também se deu um aumento no número de novos casos, e em ambas as regiões registam-se os números mais elevados da década. Para quem combate este flagelo não fica nada bem dizer que o aumento “não é preocupante”, uma vez que o investimento na prevenção e na educação deveria produzir o resultado oposto, ou seja, menos casos. Uma diminuição, não um aumento.

O virus reveste-se hoje de um carácter menos fatalista que há 20 anos, onde um diagnóstico positivo significava uma morte certa. Os progressos obtidos no campo da medicina que permitem hoje aos seropositivos viverem mais tempo e com qualidade tornaram uma eventual infecção muito menos assustadora. O diagnóstico de um carcinoma é hoje em dia muito mais devastador que uma infecção com HIV. É bem possível que esta tendência tenha levado a um “baixar da guarda”, e que se optem cada vez mais por comportamentos de risco. O medo é uma coisa do passado, e a mortalidade elevada por HIV é considerado um problema do terceiro mundo.

É uma ilusão pensar que a SIDA é hoje em dia “a mesma coisa que a diabetes”. Na realidade a diminuição da mortalidade deve-se mais ao menor número de infecções do que a outros factores. A SIDA traz complicações de saúde graves, e não é garantido que a medicação regular oblitere os efeitos do virus. E se esses progressos que levam a que os doentes com SIDA vivam “uma vida normal”, o estigma ainda está bem presente. Numa sociedade que se rege ainda por valores tradicionais como esta, é difícil que um seropositivo seja tratado como alguém “normal”, por muito boa aparência que tenha. Ninguém me convence que em Macau um diagnóstico deste tipo que seja do conhecimento geral não vá ter efeitos na vida social. Perdem-se amigos, alienam-se familiares, e pode mesmo ter impacto na vida profissional ou na carreira. Não conheço nenhum seropositivo declarado no território, mas desconfio que quem conhece algum tem mais tendência a referir-se a ele pela sua condição do que pelo seu nome.

Outro erro comum passa por acreditar que este é cada vez mais um problema de toxicodependentes e homossexuais, quando os números demonstram que nesta região é através do sexo heterossexual que acontece a maior parte das infecções. Não vale a pena chamar novamente a atenção para a indústria do sexo e da prostituição, uma das mais lucrativas em Macau. Não me gosto de repetir ao ponto de parecer catatónico. A realidade é que uma infecção pode estar à distância de uma decisão impensada, numa questão de minutos. Um contacto desprotegido realizado num momento de euforia, ou no calor da paixão, é suficiente para que seja necessário alterar toda uma rotina. E depois, se existem medicamentos que nos mantêm vivos, se depois vamos precisar de nos tornar dependentes deles para não morrer. É um facto que o sexo com preservativo é menos divertido, é como “comer um rebuçado embrulhado no papel”, dizem alguns, mas esta pode ser a diferença entre uma vida com qualidade e um estado ambulatório. Há decisões que tomamos todos os dias que nos podem salvar a vida, e esta é uma delas. Por exemplo, ninguém passa nos sinais vermelhos porque sabe que isto lhe pode sair caro, e isto é um dado adquirido. Portanto o que custa usar um preservativo numa relação casual? É uma medida de segurança como outra qualquer.

Os mais optimistas acreditam numa cura para breve, e felizmente para todos essa cura vai chegar. É apenas uma questão de tempo. Mas enquanto isto não acontece, é preciso continuar alerta, e evitar os comportamentos de risco – por muito boa ideia que isso pareça no momento. A melhor forma de combater esta epidemia que ainda hoje colhe milhares de vidas em todo o mundo é a prevenção. Quando for possível tratar a SIDA como se trata uma gripe comum (e a gripe também chegou a ser mortífera em tempos), vamos então dormir mais descansados, pois o pesadelo acabou. Por enquanto o melhor mesmo é ter juizinho. E sim, é errado considerar o aumento de casos uma situação “normal”.

Olha Kim são eles


O clima de tensão na peninsula coreana é crescente, e especula-se sobre um eventual reatamento do conflito armado entre norte e sul, que cessou em 1953 sem que nunca tivesse sido assinada a paz. Tecnicamente as duas Coreias encontram-se em guerra desde 1950, mas passados mais de 60 anos, as guerras já não são o que eram antes. A Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo e por isso mesmo uma incognita, ameaça com o seu arsenal nuclear, e a Coreia do Sul está em estado de alerta. As ameaças do país dos Kim nunca foram levadas muito a sério, tendo em conta o estado deplorável da sua economia e a erosão do seu tecido social. Do pouco que se sabe da Coreia do Norte o mais evidente é a pobreza aflitiva da sua população, a fome e a ruína estrutural.

Não será razão para entrar em pânico, mas é uma possibilidade real que não pode ser ignorada. Um conflito bélico a larga escala entre as duas Coreias seria prejudicial, especialmente para a região da Ásia Oriental, onde Macau está incluído. Apesar de garantir que possui mísseis de longe alcance que “podem reduzir Washington a chamas”, ninguém tem dúvidas que o confronto com os norte-americanos seria suicídio declarado. A questão é a posição da China. Pequim apoia o regime norte-coreano, que lhe serve como estado-tampão às democracias do Sul e do Japão, mas tem perdido a paciência com as provocações constantes do regime, que parece indifferente às sanções da ONU. Deixar cair a Coreia do Norte é uma opção que não agrada à China, e combater a seu lado não parece sensato. Com amigos destes, Pequim não precisa de inimigos.

Uma eventual guerra nuclear, que seria um desastre, teria sempre a Coreia do Norte como grande derrotada, mas as consequências para a região e quem sabe para o planeta seriam imprevisíveis. A via da diplomacia parece há muito esgotada, e mesmo os mais optimistas se devem sentir incomodados com a atitude do regime norte-coreano. Mas como se resolverá esta crise no paralelo 38, a linha que divide o norte estalinista do sul capitalista da peninsula coreana? A animosidade crescente entre os dois lados só nos dá uma garantia: a situação será resolvida a curto ou médio prazo, e a unificação, a bem ou a mal, será inevitável. Apresnetam-se três soluções: uma indesejável, uma improvável e outra ideal.

A indesejável é esta, que infelizmente não é improvável. Deixada entregue a si própria, a Coreia do Norte seria aniquilada pelos Estados Unidos em poucas horas, e dependendo da dimensão da resposta norte-americana a um eventual ataque, poderemos ter um buraco no planeta a norte do parelelo 38, e a perspectiva de longos invernos nucleares. Caso a China e eventualmente a Rússia intervenham em defesa da Coreia do Norte, este pode ser muito bem um pretexto para o início de uma Guerra Mundial, a terceira. Nesse caso já se sabe, não haverá uma quarta. Cabe às duas maiores potências militares depois dos Estados Unidos continuar a exercer um papel mediador, e tentar impedir que o jovem Kim Jong-un faça um disparate e carregue no botão.

A solução improvável passa pela continuidade do regime. Em circunstâncias normais, até não seria de todo descabido, uma vez que Kim Jong-un tem “cerca de 30 anos” de idade, e caso nada de anormal acontecesse poderia dar uma continuidade mais longínqua à dinastia dos Kim. O problema é que a situação interna não o permite, e o país está a rebentar pelas costuras. A ideia de auto-suficiência, ou “juche”, idealizada por Kim Il-sung, foi resultando enquanto contou com o apoio logistico da União Soviética. Com a queda da URSS em 1991 e a morte de Kim Il-sung em 1994, Kim Jong-il herdou um país orfão, e pior que isso, falido. Kim Jong-un, apesar da sua juventude, nunca poderá pensar em perpetuar-se no poder, como fizeram o seu pai e avô, pois arrisca-se a ser obliterado pelo sistema. Ou o regime toma uma atitude que dê aos norte-coreanos uma nova razão de ser, ou o povo encarrega-se de o derrubar, mais cedo ou mais tarde. E isto leva-nos à terceira “porta”.

O ideal, ou o desejável, é que o regime se fosse gradualmente deteriorando, acabando por ser derrubado num levantamento popular suave, levando a uma reunificação pacífica das duas Coreias. No fundo um pouco como aconteceu com as duas Alemanhas, sem consequências para os países vizinhos e para o mundo. O problema é que os tempos são outros, e nem os sul-coreanos vêem a integração do norte no seu sistema politico com muito bons olhos. No estado em que a Coreia do Norte se encontra actualmente, seria dispendioso para a Coreia do Sul reintegrá-la. Mesmo assim seria uma solução quase perfeita, e certamente que a integração pacífica seria bem vista pela comunidade internacional, e apoios a todos os níveis não faltariam, certamente.

A solução, seja qual for, é por enquanto uma incognita, e o mundo precisa de tudo menos de se preocupar com os delírios do jovem Kim e dos seus generais de pacotilha. Quem continua “entalado” no meio de tudo isto é o pobre povo da Coreia do Norte. Enquanto nos preocupamos com a situação geopolítica de barriga cheia, eles vão morrendo de fome, aguardando que o regime os mobilize, ou que dê lugar a quem consiga resolver a sua situaçãp miserável. Tudo indica que vai ser o “vai ou racha” na peninsula coreana. E mais cedo que muitos previam.

A múmia de Chávez


Ahmadinejad despede-se do companheiro Chávez.

Se dúvidas ainda restassem, ficam agora completamente dissipadas: Hugo Chávez morreu, mas os anos que levou à frente da Venezuela deixaram a sua marca naquele país da América do Sul. Existe a Venezuela antes de Chávez (que poucos conhecem e não chegava a ser notícia), e a Venezuela pós-Chávez. É talvez um exagero comparar o “comandante” a Jesus Cristo, mas essa comparação não é assim tão descabida para os “chavistas”. E continuarão a existir sempre “chavistas”. O homem que governou o segundo maior exportador de petróleo do mundo e desafiou a hegemonia dos Estados Unidos e o próprio capitalismo deixou a sua marca. O próprio Simão Bolívar, o herói da autonomia dos países outroras dominados pela coroa espanhola em que Chávez se inspirava encontrou finalmente um successor à sua altura. Chávez entra para a História e senta-se ao lado de Bolívar no panteão dos heróis latino-americanos.

Comparei no outro dia as manifestações de pesar pela morte de Chávez com a histeria que provocou o desaparecimento de Kim Il-Sung na Coreia do Norte, em 1994. A comparação pode ter pecado por um pouco de exagero, mas sabendo agora que o corpo do comandante vai ser embalsamado confirmou as minhas leves suspeitas: Chávez parte, fica o culto da personalidade. Chávez junta-se assim a Lenin, Mao, Ho Chi Minh e ao próprio Kim. Os vermes não se vão sacear com o defunto presidente venezuelano. Para muitos venezuelanos foi como se lhes tivesse morrido o pai. Chávez deixa orfãos entre os mais pobres, os que com ele usufruiram da riqueza natural daquele país, à custa dos interesses dos grandes grupos económicos e dos interesses da indústria petrolífera, para quem Chávez era um “bicho-papão”, um “comuna”.

Se esta distribuição de riqueza foi bem feita ou se os efeitos que provocou na economia do país foram positivos, é discutível. A forma como Chávez consolidou o seu poder, através de expedientes muito pouco democráticos, não lhe atribuem qualidades de politico pluralista, e muito menos de “santo”. Purgas, prisões políticas, alterações convenientes à constituição e censura dos media não são propriamente métodos que o equiparem a um Martin Luther King Jr. ou um Gandhi. O ódio visceral aos Estados Unidos e em especial ao presidente Bush davam a entender que no caso de um conflito bélico à escala mundial a Venezuela colocar-se-ia do lado “do mal”. A amizade íntima com o ditador cubano Fidel Castro, de que se orgulhava, davam a entender que estávamos na presença de um anti-americanista básico, daqueles que atribui todos os males – e mesmo os seus próprios erros – ao “imperialismo yankee”. Mesmo na hora da sua morte, o regime apressou-se a atribuir uma cota de culpa aos norte-americanos, uma teoria da conspiração que colhe cada vez menos adeptos, pelo menos entre quem tem o mínimo de bom senso.

Antes do seu encontro com o destino, Chávez nomeou Nicolás Maduro, o nº 2 do regime, como seu sucessor. Não sei se estamos aqui a assistir ao início de alguma dinastia – e outra vez, recordo o exemplo da Coreia do Norte – mas quero esperar bem que não. Com Chávez imóvel mas intacto num mausoléu em Caracas, a continuidade parece garantida, pelo menos durante uns bons anos. O caminho que a Venezuela deveria tomar era, obviamente, o da democracia pluralista, da opinião livre e do direito ao contraditório. Chávez houve só um, e é bom que o povo venezuelano não se deixe convencer pelos seus putativos “profetas”. O destino está, ou deveria estar, apenas nas suas mãos.

PS: Não foi nada bonito assistir aos venezuelanos opositores ao regime exilados nos Estados Unidos a celebrar a morte de Chávez. Felizmente um deles proferiu declarações sóbrias: “Não devemos festejar a morte de ninguém, mas sim a mudança”. Era bom que mais pensassem assim, em vez de optar por atitudes extremistas que em nada os dignificam.

Monte Carlo vence Ka I, Sporting arrasador


O Estádio da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) recebeu ontem ao final da tarde o encontro mais aguardado dos últimos tempos. Frente a frente estavam Monte Carlo e Ka I, que se apresentavam com sete vitórias nas sete partidas realizadas da Liga de Elite de Macau. Um tira-teimas entre as duas melhores equipas do futebol do território, que certamente terá levado às bancadas do campo da MUST mais público que o habitual. O Ka I era ligeiramente favorito, pois os tri-campeões de Macau tinham um "goal-average" significantemente superior ao do seu adversário, mas o Monte Carlo viria a contrariar esse favoritismo, venceram por 3-2 e isolaram-se na liderança da Liga, quando falta uma jornada para o término da primeira volta.

Os "canarinhos" adiantaram-se no marcador aos 19 minutos por Rafael Medeiros, um dos três brasileiros da equipa de Tam Iao San, e que viria a ser a figura do encontro. O Ka I empatou aos 33 pelo artilheiro da Liga, o português Nicolas Torrão, na transformação de uma grande penalidade. Rafael Medeiros viria a bisar ainda antes do intervalo, levando o Monte Carlo em vantagem para o intervalo. No segundo tempo o Ka I correu atrás do prejuízo, e chegaria ao empate aos 67 minutos por intermédio do nigeriano Christopher Nwaorou, mas quatro minutos depois o internacional macaense Paulo Cheang marcou o terceiro para o Monte Carlo, que não deixaria mais fugir a vantagem. Esta foi apenas a segunda derrota de Josecler à frente do Ka I - a primeira foi na época passada, e também contra o Monte Carlo. A equipa de Firmino Mendonça aproveita assim para se isolar na liderança com 24 pontos, mais três que o seu adversário de ontem.

Na segunda divisão o Sporting soma e segue, e a vítima desta vez foi o Hong Ngai, equipa que o ano passado desceu da Elite e que ainda se encontrava invicta antes do jogo com os leões. Os números da vitória são surpreendentemente expressivos: 6-0! Inesperado, se tivermos em conta que o Hong Ngai só tinha sofrido um golo nos primeiros seis jogos. Pascoal Júnior assinou um "hat-trick", Francisco Cunha marcou dois, e Bruno Anjos marcou o outro. O Sporting lidera com 18 pontos, mais um que o Lai Chi e mais cinco que o terceiro classificado, que é agora o Ponto 48, próximo adversário dos famintos leões. De recordar que sobem duas equipas, pelo que a vitória no próximo fim-de-semana colocará o Sporting numa posição privilegiada para se juntar à Elite na próxima época.

Porto cumpre frente ao Estoril


O FC Porto derrotou esta noite o Estoril no Estádio do Dragão por 2-0, no jogo inaugural da 22ª jornada da Liga Sagres. Os portistas resolveram cedo a partida, com golos de Maicon, logo aos 4 minutos, e de Jackson Martínez aos 14, este através de uma grande penalidade. Depois de uma primeira parte bem conseguida, o Porto limitou-se a gerir a vantagem no segundo tempo, já a pensar no compromisso europeu da próxima terça-feira em Málaga, onde vai decidir a passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. O Estoril, que tem sido uma das equipas sensação esta temporada, nunca chegou a ser uma ameaça para os campeões nacionais, e não apresentou argumentos que os levassem a discutir o resultado. Com esta vitória o Porto salta para o 1º lugar da liga, com mais um ponto que o Benfica. Os encarnados só acertam calendário no Domingo, quando receberem na Luz o aflito Gil Vicente.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Inverno vai ser tão bom, não foi?


Como já é hábito às sextas-feiras, aqui fica o artigo publicado na edição de ontem do Hoje Macau, para quem ainda não leu. Bom fim-de-semana!

Estamos em pleno mês de Março, a Primavera está prestes a chegar, e daí até ao Verão é um pequeno nada. Fica para trás a pausa que a natureza dá a si mesma, brotam as flores, depois delas os frutos, cumpre-se mais um ciclo e tudo se renova. Vale a pena estar vivo e assistir a tudo isto, sinceramente. Se é obra de um ente divino é um plano muito bem engrandrado. Se é apenas uma mera coincidência, é uma coincidência feliz. Um deleite, em suma. Mas o que dizer do Inverno que tivemos em Macau este ano? Uma delisusão. Um embuste. Sinto-me defraudado. Quero o meu dinheiro de volta!
Este ano faltou o frio. Não tivemos as temperaturas baixas que nos fizessem sentir que estávamos realmente no Inverno. O ano passado tivemos um dos Invernos mais rigorosos de que tenho memória, com um frio de rachar que persistiu até Abril. Passei as passas do Algarve, cheguei a pensar que ia morrer, enfim, fui um mariquinhas a tiritar de frio, com os dentes a bater, produzindo um som semelhante a maracas. Este ano comprei um aquecedor e um daqueles casacões que lembram um colete salva-vidas, convicto que os rigores da estação não me apanhavam desprevenido. E tudo isto em vão. O frio não veio. Foi como planear uma elaborada vingança contra o nosso pior inimigo, e ele não aparecer. Uma injustiça.
Não que o frio me dê algum gozo, fique isto bem claro. Detesto usar quilos de roupa, luvas, cachecóis e outros adereços. Não gosto de dormir vestido, e tal como o comum dos mortais, incomoda-me o choque térmico que se dá ao sair do calor da cama numa manhã gelada. Só que Inverno sem frio não é Inverno que se preze. A sucessão das estações é ainda uma das poucas coisas grátis nesta vida, e exijo o pacote completo. Duas semaninhas de frio algures em Dezembro sabem a pouco, e nem o Ano Novo Chinês nos valeu. As temperaturas amenas até podem dar algum jeito, mas a sensação que fica é que algo não está a funcionar lá muito bem. Temos o tempo avariado.
A população de Macau reage de forma pronta e atenta à chegada do frio. Basta uma ligeira queda de temperatura para que se puxem dos casacos e das botas, em alguns casos com uma certa dose de exagero. Perdoem-me o fetiche, mas as pernas das senhoras ficam muito mais bonitas cobertas de meias (de preferência pretas). E que meias tão bonitas que se podem comprar hoje em dia! A moda ficou a perder com a ausência do frio. O comércio especializado em agasalhos teve prejuízo. Pouco importa que nos tenha sido permitida a ousadia de andar de manga curta em pleno mês de Janeiro – o frio fez muita falta, e pecou pela ausência. Só os turcos daquela lojinha de gelados na Rua da Palha têm razões para sorrir.
Enquanto que a Europa ainda sofre com o frio, a chuva, neve e tudo mais, aqui no Oriente preparamo-nos já para a chegada do Verão das monções. Espera-nos o calor, a humidade, chuva a rodos trazida por um ou outro tufão que muitas vezes passa apenas ao lado. Meses a fio de purgatório climático, suportado pela dependência dos ares condicionados e contas de electricidade astronómicas. É então que mais fico a suspirar pelo Inverno que agora passou sem que tenhamos dado por dele. Pode ser que para o ano apareça em todo o seu esplendor, e justifique o meu investimento no aquecedor e no casaco. Está em dívida comigo, o velho Inverno.

Pobre menina rica


O vídeo de que toda a gente fala em Macau. Sabrina Ho (何超盈), primeira filha do magnata do jogo Stanley Ho e da sua quarta mulher, Angela Leong, foi surpreendida pelo "watchdog" do jornal Apple Daily numa situação embaraçosa. Sabrina, 23 anos, foi vista a vaguear pelas ruas de Hong Kong aparentemente sob a influência de estupefacientes, evidenciando falta de equilíbrio e um discurso arrastado. É ainda evidente a presença de uma espécie de pó na face da jovem, perto das narinas. A sua mãe foi à RAEHK o mais rapidamente que pode tentar "abafar" o escândalo, mas será difícil ocultar o óbvio. Pobre menina rica...

Dia Internacional da Mulher - apenas isso


Este ano não me apetece ser chato e falar do significado do Dia Internacional da Mulher, que hoje se assinala. Não vou insistir que o facto de se escolher um dia específico para celebrar a condição feminina é humilhante para essa condição (existe o dia do deficiente e o dia mundial da SIDA, a propósito), ou que as próprias mulheres muitas vezes não fazem muito pela sua afirmação num mundo predominantemente "dos homens". A imprensa hoje encarregou-se de esmiuçar esse fenómeno e muitos outros. Desejo apenas um feliz dia a todas as mulheres, pronto. E deixo-vos com esta espécie de homenagem politicamente correcta, "Woman", de John Lennon.

Benfica suficiente contra Bordéus


O Benfica venceu ontem à noite o Bordéus na Luz por uma bola a zero, em jogo dos oitavos da Liga Europa. Um resultado bem melhor que a exibição, mas que mesmo assim sabe a pouco, tendo em conta que o clube francês atravessa um momento de crise, tendo perdido o's últimos quatro jogos do seu campeonato domeéstico. O único golo do encontro foi apontado por Rodrigo aos 21 minutos, um remate fantástico que embateu no poste, tabelou no guardião Carrasso e beijou as redes. O Benfica joga na próxima quinta em Bordéus, e basta marcar primeiro para decidir a eliminatória a seu favor. Noutras partidas destaque para a goleada do Tottenham de André Villas-Boas sobre o Inter por 3-0, ou da vitória fora da Lazio em Estugarda por 2-0. O Chelsea perdeu pela margem mínima em Bucareste frente ao Steaua, enquanto os russos do Zenit, com um contigente português, comprometeu as suas aspirações na prova ao perder por 0-2 na Suíça frente ao Basel.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Macau Maquista


Armando Santos é um cantor, autor e compositor macaense radicado nos Estados Unidos, com um reportório respeitável de canções em patuá. Do seu disco "Memórias di Macau", produzido pelo próprio e por Herculano Airosa (Thunders) e editado com o patrocínio do Conselho das Comunidades Macaenses, gostava de destacar este "Macau Maquista". Uma canção que descreve Macau, a sua cultura e sua génese de uma forma melodiosa e apaixonada, e que encontra apenas paralelo em "Macau, terra minha", dos Thunders. Delicie-se a ouvir este lindo tema, e se está fora do território, feche os olhos e sonhe com este acolhedor porto do Oriente distante.

A má sorte ditou a morte


Se acha que a situação da saúde em Macau está pela hora da morte, o que dizer deste caso que ocorreu no Japão em Janeiro último? Um homem de 75 anos faleceu depois de ter sido rejeitado em 36 salas de emergência de 25 hospitais da perfeitura de Tóquio. O homem em questão começou a sentir dores no peito e dificuldades de respiração na sua casa, no norte da capital nipónica, e ligou para os paramédicos, que chegaram num tempo competentemente rápido. O pior foi depois, com a ambulância a correr 25 hospitais sem encontrar alguém que socorresse o idoso, alegando todos "falta de camas" ou "falta de pessoal". O homem viria a falecer duas horas depois, sem que ninguém lhe valesse, para desespero dos paramédicos. Um deles disse nunca ter visto um doente ser recusado em tantos hospitais. Os serviços hospitalares no Japão são considerados de topo ao nível mundial, mas o envelhecimento da população e a falta de jovens que queiram ingressar na medicina ou na enfermagem têm causado problemas, sendo este caso um bem ilustrativo. Se calhar o senhor escolheu um dia mau para se sentir mal, coitado.

O factor Leonel Fernandes


Carlos Leonel Góis Fernandes, um nome a fixar no futebol de Macau. O avançado madeirense de 25 anos fez a sua formação nos escalões jovens do Marítimo, Pontassolense e Nacional, tendo depois jogado pela equipa da sua terra natal, o Ribeira Brava. Seguiram-se o Pampilhosa e o Vigor da Mocidade, no continente, e actualmente a equipa da Casa de Portugal, na II divisão de Macau. Leonel Fernandes, como é conhecido no futebol macaense, esteve ontem em destaque na goleada da equipa de Pelé sobre a equipa da Alfândega, marcando os cinco golos (!) da vitória por 5-2 da agremiação lusitana. Actualmente a trabalhar e a viver no território, adivinha-se um futuro brilhante para o jovem Leonel, bastando para tal fazer uso da sua formação, coisa que falta aos jovens aspirantes do pontapé da bola no território. A equipa da Casa de Portugal ocupa ainda os últimos lugares da tabela, com apenas duas vitórias em sete jogos disputados, mas com esta aquisição espera-se um novo alento para a formação de matriz lusitana. E bem vindo a Macau, Leonel. Dá-li di bem!

PSG nos quartos 18 anos depois


Os franceses do Paris SG chegaram aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, ao empatar em casa a uma bola frente ao Valência. A equipa "ché" chegou ao Parque dos Príncipes com uma desvantagem de 1-2 trazida do Mescalla, e procurou dar a volta a eliminatória, ficando no bom caminho graças a um golo do brasileiro Jonas aos 55 minutos. Faltava ainda um golo, os franceses complicaram ainda mais as coisas quando o argentino Lavezzi empatou aos 66, deixando a equipa da casa mais tranquila. O PSG segue para os quartos 18 anos depois, justificando o enorme investimento que o consórcio árabe proprietário do clube fez na equipa de futebol. Noutra partida a Juventus confirmou a sua superioridade frente aos escoceses do Celtic, vencendo no Estádio Dell'Alpi por 2-0, depois de já ter vencido por 3-0 em Glasgow. (Peço desculpa pela qualidade das imagens, foi o melhor que se pode arranjar).

quarta-feira, 6 de março de 2013

Uma Venezuela, nenhum Chávez


Morreu o presidente venezuelano Hugo Chávez, um desfecho previsível depois de quase dois anos de luta contra o cancro da próstata por parte do general que em 1998 se tornou presidente de um dos mais ricos países latino-americanos, e que desafiou a hegemonia dos Estados Unidos no "novo mundo". O estado de saúde de Chávez foi alvo de muita especulação nos últimos tempos, e apesar das tentativas (patéticas) do regime venezuelano em minimizar a gravidade da sua doença, os mais informados estariam conscientes da fragilidade da condição do general. Só um daqueles milagres em que o socialisa bolivariano não acreditava o poderia salvar.

Chávez foi uma figura que ficou longe de gerar consenso. Colhia a simpatia dos mais básicos anti-americanistas e revolucionários sonhadores, e de outros demagogos e inimigos do capitalismo, e era olhado com desconfiança por outros. Não foi nada salutar para a relação entre a Venezuela e os Estados Unidos que estes últimos tenham apoiado em 2002 uma revolta para derrubar Chávez, mas isto foi também pretexto para o general levar a cabo uma série de extravagâncias que em muitos casos podem ser considerado tudo menos "reformas democráticas".

Há quem elogie o seu esforço em redistribuir a riqueza no país que é o segundo maior exportador de petróleo, há quem tenha considerado as nacionalizações e expropriações desatrosas para a economia venezuelana. A pintura terá ficado borrada com as alterações à constituição (até à própria bandeira do país) que lhe permitiram consolidar o poder e ser reeleito para um número ilimitado de mandatos, e com o estilo semi-ditatorial com que governou, chegando ao ponto de silenciar opositores, fechar jornais e canais de televisão incómodos, e outros expedientes que tornaram a sua antipatia pelos "yankees" menos refrescante.

Pelo menos Chávez cumpriu o seu desígnio de governar até à morte, que o deteve aos 58 anos - certamente antes do que o próprio estaria à espera. Na hora da sua morte chegaram condolências de toda a parte, as mais sentidas dos líderes socialistas que viam em Chávez uma espécie de Che Guevara dos tempos modernos. Foi caricato ver a forma como o próprio regime anunciou a morte do seu líder, numa voz arrastada, e reacções perigosamente próximas das que se viram após a morte de Kim Il-Sung na Coreia do Norte em 1994. Resta saber que direcção tomará agora a Venezuela, um país onde vivem muitos milhares de emigrantes portugueses. Fiquei sem perceber a insistência do "pivot" da RTP João Fernando Ramos em perguntar se os portugueses "iam deixar o país". Porque carga de água? A Venezuela não é Chávez, nunca foi, e agora é ainda menos.

Pernas para que te quero


You ain't heavy, you're my brother

Uma história de levar às lágrimas. Bi Mingzhe e Wang Li têm ambos 20 anos, e são amigos desde os doze. Wang é paraplégico, e o seu amigo tem-no acompanhado desde sempre, transportando-o na sua cadeira de rodas e carregando-o às costas sempre que necessário. Bi desistiu mesmo do seu bacharelado para acompanhar Wang na sua escola vocacional. Amigos desde a infância, tudo mudou quando Wang foi diagnosticado com uma deficiência neuro-muscular em 2004, altura em que o seu melhor amigo prometeu aos pais do inválido que estaria sempre do meu lado - tinham então 12 anos. Desde então Bi acordou todos os dias às 5:30 da manhã, levou Wang para o Liceu que ambos frequentavam na província da Hunan, e fez questão de ser as suas "pernas". A amizade e a dedicação compensam, e Bi foi condecorado como jovem de elite da província de Hunan, e Wang membro de excelência da juventude comunista da China. O regime toma conta dos seus menos afortunados, pelos vistos.

Vídeo da semana


O vídeo da pouca vergonha


O deputado Rivera, uma espécie de JR boliviano

Um deputado boliviano foi apanhado em câmara a violar uma colega em plena sala de sessões em Dezembro último. Tudo aconteceu quando a deputada não identificada desmaiou depois de uma festa de Natal "bem regada", e foi então que Domingo Alcibia Rivera, deputado do partido no Governo, o Movimento para o Socialismo, se aproveitou da sua fragilidade. O caso foi encoberto pelas autoridades, até que este vídeo surgiu na internet. Os guardas de serviço nessa noite foram despedidos, Rivera foi expulso do partido e encontra-se "ausente em parte incerta". As autoridades bolivianas estão a ponderar tomar acção judicial a quem divulgou o vídeo! Como se atrevem? Os senhores deputados da Bolívia estavam apenas a divertir-se...

Um pesadelo Real no Teatro dos Sonhos


O Real Madrid confirmou o grande momento de forma que atravessa ao vencer ontem à noite em Old Trafford o Manchester United por duas bolas a uma, carimbando assim a passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, depois de um empate a um golo no jogo da primeira mão em Madrid. Os ingleses ainda estiveram em vantagem graças a um autogolo de Sérgio Ramos, mas tudo de complicaria com a expulsão de Nani - muito contestada pela equipa técnica do ManU, que considera o pé-em-riste do jogador português casual. A jogar contra 10 o Real cresceu, e obteve o empate graças a um golaço de Modric, um tiro de fora da área que só parou no fundo das redes de De Gea. Três minutos depois completava-se a reviravolta, com um golo do inevitável C. Ronaldo. Mourinho com razões para sorrir, Alex Ferguson furioso com a arbitragem. O treinador escocês nem apareceu na conferência de imprensa no final da partida. Noutro jogo realizado ontem à noite o Borussia Dortmund bateu o Shaktar Donetsk por 3-0, confirmando o favoritismo atribuído depois de um empate a duas bolas na primeira mão, na Ucrânia.

terça-feira, 5 de março de 2013

Os salteadores do porco balichão tamarinho perdido


O Porco Balichão Tamarinho "da Manuela". Not too shabby.


Dona Aida de Jesus, a cavaleira dos templários que mantém o segredo do Porco Balichão Tamarinho perfeito.

Quim jã falâ, nôs Maquista sabe gozâ
Divera sã gostâ, comê até bariga inchâ
Nôs non tem culpa, tudo hora sã tem passâ
Tanto comizaina, que nôs senti tã rebentâ


Armando Santos, Comizaina

Sân deveras. A comida macaense é um verdadeiro mimo, e para quem conhece é um mundo interminável de surpresas. Gostei da reportagem do JTM de hoje sobre o Restaurante Riquexó, que reabriu há quase dois meses depois de ter encerrado no local onde funcionou durante 35 anos, no antigo Park'n'Shop em frente ao Edifício Hoi Fu, no fim da Av. Sidónio Pais (perto do Colégio D. Bosco). O Riquexó recomeçou quase ao lado, num beco anexo ao antigo BCM, e apesar do espaço mais exíguo, conta agora com uma agradável esplanada com cinco ou seis mesas. O tempo ameno e o sol convidam a que se sente lá fora e aprecie os sabores desta gastronomia única no mundo.

Fui lá hoje almoçar, com faço pelo menos uma vez por semana, e optei pelo minchi. A semana passada foi o Bafassá, e antes disso o Porco Balichão Tamarinho, esse triunfo da culinária macaense, do encontro das culturas euro-asiáticas. O Porco Balichão Tamarinho consiste de costelas de suíno cortadas de forma miudinha, temperadas com balichão (pasta de camarão) e tamarinho (uma fruta típica do sudeste asiático, popular na Tailândia, Indonésia e Filipinas, com um sabor agri-doce, açucarado e salgado). O segredo de um bom Porco Balichão Tamarinho é um dos segredos mais bem guardados do mundo.

E quem faz o melhor Porco Balichão Tamarinho do mundo? A dona Aida de Jesus, do Riquexó. Sim, a mãe da Sónia, a sogra do Palmer, o casal de vendeu o antiho Park'n'Shop e manteve o Riquexó naquele beco ali ao lado, muito por culpa dos aficionados da genuína comida macaense. A Manuela do Litoral faz um Porco Balichão Tamarinho decente, a ADM faz um sofrível, e desconheço se algures numa casa maquista ou na diáspora macaense espalhada por esse mundo fora alguém consiga fazer um que compita com o da dona Aida, mas duvido muito. O problema (que ao mesmo tempo é uma virtude) é que a dona Aida tem quase um século de idade, e não dá a receita a ninguém. O tempo urge, e o melhor Porco Balichão Tamarinho do mundo está em risco de extinção.

Não vou implorar à dona Aida que revele o seu segredo. Para o seu e para o meu bem espero que continue por muitos e bons anos a ir comer o seu Porco Balichão Tamarinho no Riquexó da Sidónio Pais. Mas será um dia triste quando isto deixar de acontecer. Será o fim da História. Ah sim, e não se pense que só de Porco Balichão Tamarinho vive o Riquexó. Recomendo ainda a Capela, o Minchi ("just right", sem ser muito seco), o caril de galinha, a adé cabidela e o Chai di Bonzo, todos triunfos da culinária local, tudo "ui di sabroso". Que o porco e os seus acompanhantes, sejam eles bafassás, balichÃo tamarinhos ou minchis perdurem entre nós por muito tempo. Comê até bariga inchâ!

Será...edifício?


Bem, as letras estão lá todas, deve ser "edifício". O que vale mesmo é a intenção. E quem lá mora também não e deve importar muito. Macau sã assi...

"Slam dunk" em Pyongyang


Dennis Rodman, antiga estrela da NBA, passou um fim-de-semana diferente. O excêntrico Rodman, conhecido pela sua aparência exótica e comportamento excessivo fora dos pavilhões, esteve em Pyongyang, onde assistiu a um jogo de basquetebol entre jogadores norte-coreanos e americanos na companhia do presidente Kim Jong-Un. O "diplomata" acidental diz que Kim "é um miúdo porreiro", e que o líder do país mais isolado do mundo está à espera de "um telefonema de Obama", aparentemente para discutirem...basquetebol. O Departamento de Estado norte-americano não comentou a visita de Rodman, e na realidade o que seria um sinal de aproximação entre os dois países foi visto como mais um desvario do ex-atleta. Não surpreende que Obama não telefone a Kim. Se andassem a circular vídeos com a minha imagem a arder, eu também não lhe telefonava.

Aqui há fantasmas


Este é o vídeo que tem corrido mundo, e causado calafrios às pessoas mais sensíveis. Nele vemos Elisa Lam, uma canadiana de ascendência chinesa, num hotel da Califórnia, comportando-se de forma estranha no elevador. Lam entra e sai, carrega em todos os botões, e parece estar a falar com alguém (ou algo) no corredor. A turista desapareceu e foi encontrada no último dia 19 sem vida dentro de um dos tanques de água no telhado do edifício, altura em que a polícia de Los Angeles divulgou estas imagens. Não acredito em fantasmas, portante existirá uma explicação científica para o que aconteceu. A ideia que me fica é que a menina comeu qualquer coisa que lhe fez mal nesse dia, um deu um risco a mais. Mistério...

segunda-feira, 4 de março de 2013

Afinal, o que se come ali?


Já dediquei vários posts neste blogue à cadeia multi-nacional de “fast-food” da McDonald’s, e na maior parte dos casos não fui nada simpático. A implantação que tem no território, com vários restaurantes em todas as freguesias (não sei se já existe algum na Vila de Coloane) e a sua aceitação por parte da população é mais que uma questão de mau gosto: é um problema de saúde pública. A comodidade, a rapidez e o preço (Macau tem o McDonald’s mais barato do mundo) tornam o gigante americano numa opção convidativa para quem não tem muito tempo para tomar as refeições, e a sua estratégia de cativar os consumidores mais jovens são uma aposta no futuro. Quem come habitualmente McDonald’s na infância, vai continuar a fazê-lo na adolescência e na idade adulta, e de forma quase reflexiva. Num território onde a restauração sofre da falta de espaço e do preço proibitivo das rendas, o McDonald’s está um pouco por toda a parte, todos são servidos e há lugar sentado para a gente. Nem os mais velhos resistem ao seu “calor humano”. Por vezes encontramos lá cidadãos idosos que até há poucos anos nunca tinham comido um hamburguer na vida – nem imaginariam vir a comer. É esta a vantagem do McDonald’s: facilita-nos a vida, oferece “refeições” completas a preços acessíveis e adapta-se a todos os gostos. Nem os críticos como eu consideram a comida “intragável” de todo.

Falo da minha experiência pessoal. Quando deixei Portugal em 1993 não existia um único restaurante McDonald’s. Não precisam de puxar pela cabeça e tentarem lembrar-se da chegada dos “arcos dourados” a Portugal, pois garanto que até 1993 não existiam. Mesmo o único Pizza Hut que existia ficava em Picoas, em Lisboa (ou seria no Saldanha?), e apesar de nunca ter lá entrado ouvi dizer que havia uma lista de espera de semanas! Claro que existiam hamburgarias e pizzarias em Portugal, mas com um carácter mais privado e menos “industrial”. Lembro-me do Maxi Burguer dos Restauradores, onde quem pedia um hamburguer tinha que esperar que este fosse especialmente preparado; não exisitiam hamburgueres pré-fabricados e embrulhados em papel vegetal. Mesmo qualquer cidade ou vila mais ou menos cosmopolita tinha casas onde se faziam hamburgueres, cachorros e pizzas. Mas nada de McDonald’s, isto posso garantir.

A primeira vez que entrei no McDonald’s foi em Macau. Uma amiga minha que chegou alguns anos antes de mim contou-me que ainda assim a chegada da multinacional ao território tinha sido mais ou menos recente, no início dos anos 90, e que antes disso os miúdos “faziam a festa” durante as idas a Hong Kong, onde a passagem pelo McDonald’s era obrigatória. Confesso que fiquei impressionado com a variedade, e como sou curioso, não descansei enquanto não provei tudo o que o McDonald’s oferecia no menu. Comia “set meals” entre as refeições lá de casa, e em poucos meses fiquei completamente esclarecido. Depois de ter provado o último pequeno-almoço, concluí o meu curso intensivo sobre o McDonald’s. O “american dream” escorregou-me pela goela abaixo empurrado pelas colas e “milkshakes”. Era finalmente um cidadão do mundo. O que me valeu na altura (além da elegância, claro) foi a minha juventude – quando se tem 18 ou 19 anos quase tudo é permitido, e o metabolismo encarrega-se de rectificar os excessos.

Actualmente contam-se pelos dedos as vezes que como no McDonald’s num ano civil. Se quero fazer uma bucha rápida, prefiro uma sandes da Maxim’s ou alguns iogurtes, qualquer coisa que engane o estômago até à próxima refeição decente. Não que me considere superior ao comum dos mortais e imune ao apelo do McDonald’s, mas a idade não perdoa, e mesmo uma “happy-meal” mais modesta deixa-me com uma azia que faz com que logo me arrependa, apesar de muitas vezes me sentir tentado, como toda a gente. O problema é apenas meu, portanto. Quando levo lá o meu filho não me inibo de dar uma dentada num hamburguer mais apetecível ou “roubar” um nugget, mas evito sempre a “ida à loucura” que representa um “set” completo. Deve ser mentira que juntam à comida algum aditivo que “vicie” os clientes, algum parente afastado da nicotina, mas não garanto. Mesmo não sendo um consumidor habitual, tenho uma opinião formada. Há coisas de que gosto mais que outras. Até no menu do McDonald’s.

Então e o que se come afinal neste McDonald’s? Para quem não consegue mesmo resistir, o que lhe recomendo? Em primeiro lugar deixemos de parte os ingredientes e a componente higiénica – o melhor mesmo é não pensar nisso, e o McDonald’s não será o único “pecador”. Vamos ficar pelo sabor, pelo que nos diz o sentido do gosto. O que primeiro me chamou a atenção foi a qualidade das batatas fritas. Em Macau é impossível fritar em casa batatas fritas tão boas como as que encontramos no McDonald’s – mesmo as congeladas, e as mais caras. O problema é a expectativa de vida destas batatas. Se não forem comidas em dez minutos começam a transformar-se em borracha. Se decidirmos acompanhar um frango grelhado ou um bife feito em casa com batatas fritas do McDonald’s, estas arriscam-se a passar de validade durante o caminho de regresso. Nesse caso o melhor é comprar batatas acabadas de fritar, e de preferência ainda impregnadas de óleo a ferver.

Das opções mais simplistas e baratas do menu temos o clássico “hamburguer” e o “cheeseburguer”. A diferença entre ambos consiste numa mera fatia de queijo quadrimétrico. São ambos comestíveis, enchem mais que a cova de um dente por menos de dez patacas, mas dificilmente chamaria a isto de “hamburguer”. O pão é aquilo que os americanos chamam “bun”, um primo redondo do nosso pão-de-leite. Pelo menos para mim hamburguer que se preze vem num pão viçoso e consistente, que exija a utilização dos dentes. O “hamburguer” clássico e o “cheeseburguer” oferecidos pelo McDonald’s vêm já semi mastigados e semi digeridos. Não têm piada nenhuma. Das opções mais económicas destaco o Egg McMuffin, que consiste num ovo frito numa forma arrendondada mais volumosa que o próprio pão e uma fatia de uma espécie de paio, entalados num “bun” branco bem mais apetecível que o do hamburguer. Há ainda a versão “Sausage McMuffin with Egg”, a mesma coisa, mas com um “burguer” alegadamente de carne porco (sausage) com uma consistência semelhante ao haxixe e um sabor herbáceo, meio picante. O “egg” sem o “sausage” come-se bastante bem.

O menu principal de hamburgueres de carne de vaca (e dizem que um simples hamburguer chega a conter carne de mil vacas diferentes) tem pelo menos o mérito de ser bastante consistente. O “Quarter pounder with cheese” e o “Big & Tasty” têm o condão de encher a barriga através de uma injecção massiva de bife, e o célebre “Big Mac” nunca desilude o cliente mais pretencioso: dois hamburgueres entalados em pão (outra vez o “bun”) com sésamo, alface e tomate para dar colorido e um molho que só por si chega para que não se coma mais nada nesse dia. Apesar de inegavelmente deliciosos, estes hamburgueres são ao mesmo tempo um desafio à etiqueta. É quase impossível não lhes dar um dentada sem que se começem a desmontar e a pingar molhanga. Comer um Big Mac é regressar por instantes ao estado natural mais bruto, e uma imagem captada por alguma câmara mais indiscreta pode muito bem servir a uma campanha contra a obesidade e a hipertensão.

Nem só de bife se faz a ementa do McDonald’s. A galinha diz presente em algumas variantes, sendo a mais conhecida o “Chicken McNuggets”. Gosto do molho que acompanha os nuggets, mas não consigo sentir que estou a comer carne de galinha. Ninguém sabe muito bem de onde vêm os nuggets, e se calhar é melhor que permaneça um mistério. As asas de galinha, ou “chicken wings” são um dos meus favoritos, e pouco ao nada ficam a dever às suas congéneres do rival KFC. Sabem ainda melhor com o molho picante que é servido separadamente. Existem três sanduíches de galinha: o McChicken, que é bastante fraquinho, o Chicken Fillet Burguer, que é sofrível, e o McCrispy Chicken Fillet, que é delicioso: estaladiço, saboroso e com a dose ideal de picante. Um dos poucos triunfos da cadeia norte-americana.

Quem desconfia do tratamento que a empresa dá aos animais, não come carne de vaca ou sofre de algum tipo de consciência ambiental e afins mas mesmo assim quer frequentar o McDonald’s, tem um leque reduzido de opções, mas não se arrisca a passar fome. Assim o Filet-O-Fish é um dos mais requisitados, um sanduíche de filete de peixe com um molho branco que divide opiniões (eu pessoalmente gosto). Aqui há uns anos investigou-se a origem do peixe que compõe o Filet-O-Fish, e mais uma vez é um daqueles tópicos que ficam melhor de fora desta “prova de sabor”, e aí o Filet-O-Fish até merece nota positiva. Há também uma salada, meio crua e sensaborona, milho em copo, que pode ser misturado com manteiga, e em alguns países (às vezes em Macau) há sopa de vegetais. Uma refeição completa sem que coma bife ou frango. Quem disse que o McDonald’s não pensa em todos?

Deixei o pequeno-almoço quase para o fim. Tenho uma filosofia de vida muito simples: para comer pequeno-almoço do McDonald’s, mais vale aguentar até ao almoço para quebrar o jejum. Um simples copo de leite é preferível. O Deluxe Breakfast, conhecido por conter valores de gorduras saturadas acima da média diária recomendada, consiste num dos tais “sausage” que lembram haxixe, uma tentative de ovos mexidos, um pão do “Egg McMuffin” sem nada lá dentro, um pacote de geleia de uva e um “hashbrow”, uma espécie de bolinho de batata frito tão oleoso que se pode espremer. Além da componente do “faça você mesmo”, deixa pouco lugar à imaginação e parece incomplete: o pão sem nada serve para quê? Entalar o hamburguer? Besuntar de geleia? Pode-se optar por um pequeno-almoço de sopa de macarrão com “sausage” ou filete de galinha. Escusado será dizer que para comer macarrão não é preciso ir ao McDonald’s. Existe ao pequeno-almoço um “set” que consiste num “hashbrow” e um hamburguer que dá pelo nome de “McSausage”. Ao contrário dos outros “sausage” (que relembro, lembram haxixe), este é mais suculento, sumarento, e apresenta-se numa cor avermelhada. Não sei quanto mal faz, mas pelo menos sabe bem. Do que servem ao pequeno-almoço, é a única coisa que se come bem.

O açucar em quantidades industriais não podia faltar numa ementa de “fast-food” que se preze. A começar pelas bebidas acompanham a maior parte das “meals”: Coca-Cola, Fanta e Sprite. Não é preciso dizer mais nada. Quase tão doces quanto estas temos os “milkshakes”, ou “batidos”, com sabores de chocolate, baunilha e morango. Se estes “batidos” contêm algum leite é bastante discutível, mas a sua consistência inicial assemelha-se a gelado. Só se começa a beber bem depois de deixados durante alguns minutos a temperatura ambiente. Para quem quiser existe chá, café e até água para acompanhar a refeição (e leite da marca McDonald’s, pasme-se). Há um chá gelado de limão (“Lemon Ice tea”) completamente insipido se não for misturado com o açucar liquido que acompanha o pedido. É água gelada com açucar e uma rodela de limão, basicamente. Para a sobremesa existe a “apple-pie”, cujo interior é tão quente que provocaria queimaduras de segundo grau na lingua se fossem consumidas de imediato, e os gelados. Além da recente introdução dos McFlurry, gelados com Oreos, Smarties e etc. temos os clássicos “Sundaes”, simples gelados de baunilha em copo de plástico com calda de morango ou chocolate e algumas amêndoas. Existe ainda um simples gelado de baunilha em cone que custa a módica quantia de 5 patacas, muito requisitado por quem quer simplesmente…comer um gelado. Sabe bem nos dias de mais calor.

Além do menu fixo, aparecem algumas ofertas temporárias, promoções sasonais ou variantes do produto original. Em Macau priviligia-se o gosto local, e apesar do McDonald’s (ainda) não servir sopa de fitas ou “chow mein”, existe “pie” que em vez de maçã tem feijão vermelho ou inhame, e sacrilégio! “Sundaes” com sabor a durian! Certamente há quem goste, ou quem tenha provado, mas a minha audácia não me leva tão longe. Que se alterne os habituais chocolate morango som outros sabores, laranja, limão ou ananás ainda vá lá, mas tinham que ir estragar tudo e levar o aroma da fruta-doninha até aos inocentes gelados. Dos hamburgueres “temporários” que fazem parte do menu de tempos em tempos, destaco dois: o McPepper, uma versão do hamburguer normal com cebola extra e temperado com molho de pimenta preta, e o Shogun Burguer, de inspiração japonesa, outra vez um “pattie” de vaca com um molho agridoce (desconfio que se trata de mostarda que foi deixada muito tempo ao sol). Ambos deliciosos, e que justificariam fazer parte do menu fixo.

Espero que tenham gostado deste pequeno “tour” pela ementa do McDonald’s. Lembro que estas são apenas considerações pessoais com base no meu próprio gosto, e o facto de não gostar da comida do McDonald’s e não a recomendar a ninguém não significa que existe hipocrisia da minha parte. Como podia eu falar mal se não soubesse exactamente do que se trata?

As boas vidas de Villas-Boas


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O treinador português André Villas-Boas parece começar a afirmar-se finalmente no futebol inglês. O "seu" Tottenham bateu ontem o Arsenal no "derby" londrino por 2-1, mantev o terceiro lugar da Premier League e bateu um recorde para os Spursa - 12 jogos sem perder. Não sendo decisivo, o jogo era importante, pois a derrota dos "gunners" deixá-los-ia mais longe dos quatro primeiros, consequentemente de um lugar na Champions League da próxima época. O Tottenham marcou dois golos de rajada no primeiro tempo, por Bale e Lennon, e o Arsenal reduziria no início da etapa complementar por Mertesacker. Depois o jogo perdeu qualidade, e foi sofrer, sofrer e sofrer, com os locais a segurarem a magra vantagem que os permite agora ter oito pontos de vantagem sobre o seu rival de ontem. O Arsenal vai precisar de se reinventar para chegar à Champions, e caso não consiga esse objectivo, fica afastado da mais importante competição de clubes a nível europeu pela primeira vez em 17 anos.

Benfica isola-se na Liga Sagres


O Benfica isolou-se ontem na liderança da Liga Sagres ao bater e Aveiro o Beira Mar por uma bola a zero. O único golo do encontro foi obtifo mais uma vez de grande penalidade, por Oscar Cardozo, aos 16 minutos do primeiro tempo. O Benfica tem assim mais dois pontos que o seu rival na luta pelo título, o FC Porto, que no Sábado tinham perdido dois dpontos em Alvalade. O calendário interno é mais favorável à equipa de Jorge Jesus, que recebe na próxima jornada o aflito Gil Vicente, enquanto os dragões jogam em casa com o sensacional Estoril.

domingo, 3 de março de 2013

Liga de Elite - 7ª jornada


A sétima ronda da Liga de Elite de Macau realizou-se este fim-de-semana em Macau, produziu algumas surpresas e esteve quase a produzir muitas mais. A jornada arrancou na sexta-feira com a goleada do Benfica sobre osSub-23 por cinco bolas a zero, com o jovem macaense Iuri Capelo em destaque ao apontar dois golos. Os encarnados sobem assim ao terceiro lugar com 15 pontos, enquanto os jovens patrocinados pela AFM mantêm-se no último posto apenas com derrotas em todos os jogos realizados.

A tarde de Sábado ficou resevrado a jogos entre equipas da parte inferior da tabela, primeiro com o Chau Pak Kei a derrotar o Kei Lun por 3-1, partida entre os dois promovidos da época passada. Lin Lei Yi apontou dois golos pelo CPK, confirmando a recuperação da equipa que até à quinta ronda se mantinha em último lugar sem qualquer golo apontado, e 18 golos sofridos. A seguir uma meia-surpresa, com a derrota do Kuan Tai frente ao Lam Ieng por 0-1. A equipa de João Rosa era amplamente favorita perante a filial doLam Pak, a pior defesa do campeonato, mas um golo de 鄭銳 logo aos 9 minutos.

Esta tarde entraram em campo os dois candidatos ao título, que se desenvencilharam da sua oposição com alguma dificuldade. O Monte Carlo via-se a perder ao intervalo com a Polícia, mas deu a volta no segundo tempo com golos de Rafael Medeiros e Paulo Cheong, este no último minuto do encontro. O Ka i teve igualmente dificuldades perante o Lam Pak, com os azuis e brancos a chegarem ao intervalo em vantagem por 1-2, com Willam Gomes a marcar duas vezes de penalty. Os tri-campeões contaram com a inspiração do artilheiro do campeonato, Nicholas Torrão que apontou um "hat-trick".

A classificação é liderada por Ka I e Monte Carlo com 21 pontos, seguidos de Benfica e Lam Pak com 15, Kuan Tai com 9, Polícia e Lam Ieng com 7, Chau Pak Kei com 6, Kei Lun com 3 e Sub-23 com zero pontos. Realiza-se na próxima sexta às 19 horas o encontro entre os dois líderes que poderá ser decisivo, apesar de faltar mais de matade do campeonato.

Mourinho malha no Barça


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O Real Marid bateu ontem à noite o Barcelona por duas bolas a uma no Santiago Bernabéu, o quinto jogo consecutivo sem vencer dos catalães contra os arqui-rivais castelhanos. A partida começou a um ritmo alucinante, com Benzema a inaugurar o marcador logo aos cinco minutos, mas aos 18 o génio de Messi produziu o empate, numa daquelas jogadas em que o argentino provou porque é o melhor do mundo. O jogo entrou então numa fase mais disputada a meio do terreno, e só quando Mourinho apostou na entrada de Cristiano Ronaldo o Real ganhou um novo alento, e chegaria ao golo da vitória a dez minutos do fim por Sérgio Ramos, o defesa goleador. O treinador português tem razões para sorrir, apesar dos 13 pontos que ainda o separam do primeiro lugar na Liga; a superioridade dos merengues sobre os blaugrana tem sido por demais evidente no confronto directo entre os dois clubes.

Derby de Alvalade sem golos, Benfica à coca


Sporting e FC Porto empataram ontem em Alvalade sem golos, um resultado considerado positivo para os leões e que pode deixar o Benfica isolado na liderança hoje, depois da visita ao Beira-Mar, em Aveiro. O Porto lidera à condição com mais um ponto e mais um jogo que os encarnados, com a curiosidade destas serem as únicas equipas dos principais campeonatos europeus ainda sem derrotas.

sábado, 2 de março de 2013

Ensino pré-primário: a batalha final


O dia 1 de Março marcou a abertura das inscrições no ensino pré-escolar do território. A partir das 3 da madrugada de quinta-feira, pais, encarregados de ecucação e outros familiares já faziam fila à porta de Jardins de Infância para tentar garantir uma vaga para o seu benjamim. É um cenário que se repete todos os anos, não é novidade nenhuma. O futuro destes jovens entre os 3 e os 6 anos começa a ser definido agora, e um lugar numa das instituições de ensino mais afamadas é considerado uma vantagem. As escolas Pui Cheng e o Colégio Santa Rosa de Lima são normalmente as mais concorridas.

Este é uma dos aspectos mais singulares da cultura chinesa. Para nós, ocidentais, não faz muito sentido que o infantário possa ter uma importância decisiva a longo prazo. Afinal tratam-se de crianças com menos de 5 anos, com um longo caminho pela frente, e não é o facto de iniciar a escolaridade num estabelecimento com “pedigree” que os vai tornar em adultos geniais. A luta pelas vagas chega a ser resolvida nos bastidores, e vigora mesmo um sistema de “cunhas”. Quem tem um familiar, amigo ou outro tipo de influência garante sem dificuldade colocação numa das escolas mais requisitadas. Se me permitem a ousadia, até penso que esta não é uma lição de vida que os pequenotes deviam aprender. É um mau exemplo.

Mesmo os pais que se contentam com pouco não se livram de uma grande dor de cabeça: existe uma evidente falta de vagas no ensino pré-primário. O problema tem uma tendência a agravar-se num futuro próximo: existem normalmente cinco mil vagas por ano nos jardins de infância em Macau, e o número de nascimentos em 2012 foi superior a sete mil. Muitos casais aproveitaram o Ano do Dragão para produzir “dragõezinhos”, e caso não aumentem o número de vagas nas escolas, vai ser o caos daqui a dois anos. Vamos ter os pais a acampar à porta dos infantários pelo menos uma semana antes do período de inscrições.
Mais do que garantir uma educação propriamente dita, o jardim de infância serve sobretudo para os jovens terem um lugar para ficar enquanto os pais trabalham. As famílias chinesas contam normalmente com a ajuda dos mais velhos, normalmente os avós, ou contratam uma empregada, enquanto as crianças têm apenas um ou dois anos. Mas quando chega a hora da alfabetização, torna-se necessário recorrer aos profissionais. O facto da grande maioria das escolas serem privadas torna as coisas mais complicadas e caras. Em Macau a educação é sobretudo um negócio, quando devia ser um direito. O ensino público é aqui muito mal visto. É uma opção reservada aos mais pobres ou às famílias disfuncionais.

A forma como o ensino é estruturado nas escolas chinesas é considerado “pragmático”, mas eu chamar-lhe-ia simplesmente cruel. Existem “rankings” de alunos determinado pelo desempenho, e os piores classificados arriscam-se a ser despromovidos – é um pouco como no futebol. Não surpreende portanto que os pais se empenhem tanto na educação dos filhos, e no período de exames os jovens entram numa espécie de “estágio”. Alguns dos meus colegas tiram férias para acompanhar a preparação dos filhos, e são suspensas todas as actividades que não tenham a ver com os estudos. É uma competição feroz, e naturalmente que nem todos podem entrar nos “top-5” ou nos “top-10” da sua turma. Os que persistem na cauda da tabela são encorajados a sair para uma escola considerada “inferior”, e um eventual regresso fica-lhes vedado. O sistema é implacável, e impera a lei do mais forte.

Um pouco à margem de tudo isto está o ensino de matriz portuguesa. Para a nossa cultura a escolaridade é entendida de uma forma mais descontraída, e na prática apenas os resultados a partir do ensino secundário complementar é determinante para uma eventual colocação no ensino superior; até ao final do 9º ano não se pede mais que a simples aprovação. Não passa pela cabeça de ninguém que um aluno seja impedido de se inscrever na Escola Portuguesa simplesmente porque reprovou no ano lectivo anterior, ou obteve apenas resultados sofríveis. Mesmo a cerimónia que anualmente premeia os melhores alunos da EPM é suspeita para alguns – menos para os pais dos alunos meritórios, claro. É uma daquelas coisas “à moda de Macau”.

Mas voltando ao problema das vagas nos jardins de infância, são exactamente os estabelecimentos de matriz portuguesa que podem beneficiar com toda esta loucura. Há pais de etnia chinesa que começam mesmo a considerar inscrever os filhos no Costa Nunes ou na Flora, onde é menos complicado conseguir uma vaga. Além disso, o ensino em português é considerado de qualidade, sendo o único senão a vertente cultural. Mesmo entre os pais macaenses, portugueses de Macau, existe ainda o preconceito de que apenas a via de ensino em chinês ou as escolas internacionais que privilegiam o ensino do Mandarim são opções com futuro. Quanto a isto vou recorrer a um chavão: “o futuro a Deus pertence”. Não vai ser o domínio de uma língua que vai garantir um emprego ou uma carreira de sucesso. Isso depende de uma série de factores, muitos deles abstractos, e todos sabemos muito bem que nem sempre uma educação de topo garante um bom emprego. É um pouco como obter uma vaga num jardim de infância de topo: às vezes é preciso ser vivaço e “espertalhão”. E quem disse que este mundo é justo?



Agnes e a classe média


O ano é de eleições para a Assembleia Legislativa, e tal como se previa Agnes Lam vai voltar a concorrer a um assento, contando para tal com a sua plataforma “Observatório Cívico”, que obteve pouco mais de 5 mil votos em 2009. Agnes Lam acreditou na altura que viria a captar um segmento de eleitores que lhe garantiria a eleição, e o fracasso deixou-lhe certamente um amargo de boca. A dose de lirismo com que a académica encarou o sufrágio pouco ou nada valeu dentro de um sistema tradicional, onde o que mais conta não é “ter voz”. A obtenção de um lugar no hemiciclo pela via directa passa sobretudo pelo realizável, pelo apoio das forças tradicionais e um certo “background”. É ingenuidade pensar que se pode lá chegar porque se é inteligente ou cursado. Não vou ao ponto de dizer que o lugar pode simplesmente ser “comprador”, mas ter dinheiro ajuda muito. Pelo menos é necessário ter uma plataforma que se mexa entre os interesses económicos do território, mesmo que as intenções sejam as melhores. É preciso ter amigos no Céu e no Inferno.

A candidatura do tal Observatório Cívico em 2009 foi entendida por alguns como uma estratégia para subtraír votos de um tipo de eleitorado que vota normalmente no Novo Macau Democrático. A “classe média” a que Agnes Lam pisca o olho não está orfã e à espera de uma luz que a guie. Quem não vota nos sectores tradicionais e goza de alguma independência na hora de colocar o voto na urna escolhe Ng Kwok Cheong e os seus pares, que apesar dos defeitos ainda constituem a coisa mais semelhante a um partido politico, em vez de um aglomerado de associações e interesses comerciais. É difícil educar o eleitorado no sentido de votar “em consciência” no que é melhor para Macau. Basicamente a maioria tem tendência a votar no que é melhor para si ou para os seus, e aqui Agnes Lam não tem nada para oferecer. Nem é garantido que os seus próprios alunos votem nela.

Ao apelar à tal “classe média” que a própria não consegue identificar muito bem, Agnes Lam comete dois erros: o primeiro é o de excluir o eleitorado dos estratos sociais inferiores. A sua mensagem dá a entender que não tem nada para oferecer aos eleitores com um nível de educação mais baixo. Uma eventual franja de eleitores com origem no operariado que não se identifique com as associações que os representam nunca entenderia a mensagem de uma lista que se diz “virada para a classe média, sector cultural e profissões liberais”. O segundo erro é exactamente esse. Agnes Lam não representa nada de novo, ou pelo menos nada que o NMD não represente. Os democratas têm a vantagem da experiência, dos resultados e sobretudo de muito trabalho de campo. Agnes Lam engana-se quando pensa que há por aí milhares de intelectuais e pensadores livres que anseiam por uma alternativa que ela se propõe a oferecer.

Caso a professora avance com a candidatura, tudo indica que o resultado seja o mesmo de há quatro anos. O Observatório não deverá beneficiar com o alargamento de dois lugares no sufrágio directo, que deverão ser disputados por eventuais números dois de listas com representação garantida. Quem sabe se em vez de apelar à tal classe média, Agnes Lam devia antes apelar ao elevado número de abstencionistas – só em 2009 foram mais de 100 mil. Uma dízima destes já seria suficiente para garantir a eleição. Como politóloga assumida e boa investigadora que é, deveria procurar qual é realmente o espaço que ainda falta ocupar no panorama politico de Macau. Só com classe média e interesses culturais não chega lá, pelo menos através da via directa.

Um leão de raça


O Sporting Clube de Macau, filial do Sporting Clube de Portugal fundada no território em 1926 e reabilitada há quatro anos está bem e recomenda-se. O clube disputa actualmente o campeonato da 2ª divisão do futebol de onze da RAEM e lidera isolado a classificação com 15 pontos em 6 jogos realizados. Depois de uma derrota por 0-1 na ronda inicial frente ao Lai Chi, seguiram-se cinco vitórias consecutivas por resultados esclarecedores, a última delas na quinta frente aos Sub-18 por 3-1. O golo dos jovens apoiados pela Associação de Futebol local foi apenas o segundo que o Sporting consentiu, depois do tal que lhe valeu a derrota inicial. Cinco vitórias, uma derrota, 17 golos marcados e apenas dois consentidos. É caso para dizer que o leão está à solta! Respira saúde! O mesmo não se pode dizer do seu “pai leão” lá do outro lado do mundo, que se encontra doentinho e moribundo, à espera de melhor dias. Quem sabe se o emblema de Alvalade não devia pôr os olhos neste leãozinho do Oriente, que tão bem tem dignificado o nome comum da instituição.

Muitos duvidavam da capacidade da equipa que ainda em 2012 disputou a 3ª divisão, e que mantém praticamente a mesma espinha dorsal. Nem os mais optimistas pensaram que o clube estaria actualmente em primeiro, juntando a isso uma surpreendente grande forma que lhes tem permitido vencer a convencer semana após semana a oposição. Ainda faltam 14 jornadas, mas pode-se dizer com alguma segurança que o Sporting é pelo menos um forte candidato à subida. Tudo se encaminha para que na próxima época tenhamos um “clássico” Sporting-Benfica na I Divisão (os encarnados golearam ontem os Sub-21 por cinco bolas a zero no arranque da 7ª jornada), uma ideia que encanta a comunidade portuguesa residente do território em particular, e os amantes do desporto-rei em geral. Sé é pena que o FC Porto local tenha desistido este ano, senão tinhamos os “três grandes” na divisão maior do futebol de Macau. Seria uma festa, com toda a certeza.

A equipa do Sporting é constituída na sua maioria por portugueses de origem residentes em Macau há vários anos, essencialmente amadores que têm dado provas cabais de amor à camisola. Jornalistas, juristas e profissionais de outros sectores que no seu tempo livre vestem a camisola às riscas verdes e brancas e vão mostrar de que é feito o Sporting. Tem corrido bem. O leão mostra toda a sua raça. Além dos jogadores portugueses, que dão ao futebol do Sporting a característica latina, o plantel conta ainda com brasileiros, angolanos e até um camaronês. É uma equipa a sério, ambiciosa, e a imagem que acompanha comprova isso mesmo. Reparem no aspecto de equipa de elite, o sorriso de orgulho estampado no rosto. Sem dúvida que a sede lá em Lisboa podia-se inspirar neste exemplo vindo de Macau.

O grande responsável pelo ressurgimento do Sporting é o conhecido estilista macaense António da Conceição Júnior, uma espécie de “visconde de Alvalade” à escala do território. Um sportinguista orgulhoso que deve neste momento estar muito orgulhoso de mais esta sua “criação”. A equipa técnica tem realizado um excelente trabalho, e a esse respeito gostaria de deixar aqui uma palavra de apreço ao jogador e técnico Armando Queirós, mais conhecido por Mandinho. O atleta angolano residente no território há mais de vinte anos tem uma carreira respeitável, tendo passado por vários clubes e conquistado muitos títulos, juntando a isso várias internacionalizações pela selecção de Macau. Mandinho encontra-se actualmente a atravessar um momento complicado em termos de saúde, tendo inclusivamente sido obrigado a terminar a sua carreira como jogador. Não me vou alongar em detalhes sobre este assunto, e os leitores podem ficar a saber tudo aqui no blogue do Sporting. Para o Mandinho uma grande abraço, e para a malta do Sporting os meus sinceros parabéns.

Afinal é terminal


Tudo indica que o presidente venezuelano Hugo Chávez esteja a dar as últimas. O jornal espanhol ABC noticia que Chávez foi transferido do hospital onde estava a ser tratado em Cuba para a sua residência oficial na ilha de La Orchila para passar os seu últimos dias na companhia da família. A última tomografia realizada a Chávez revelou que um terço do seu pulmão esquerdo encontra-se afectado pelo cancro, o que é mau sinal, claro. O regime de Caracas persiste na teoria da conspiração, insistindo que tudo são "rumores", mas começa a ser difícil negar as evidências, até porque Chávez não é visto há mais de duas semanas. A Venezuela pós-Ch;avez segue dentro de momentos.

Jorge Palma é quem mais "Grandula"


Silêncio, ó "Grandoleiros" de ocasião, que vai cantar o mestre. Jorge Palma, o melhor músico português, publicou ontem na sua página do Facebook uma versão de "Grândola Vila Morena" de Zeca Afonso, apelando à participação dos portugueses nas diversas manifestações programadas para amanhã (Domingo). Tudo em nome da luta contra o miserável estado de austeridade em que o país se encontra actualmente. É certo que protestar não vai pôr o pão na mesa de ninguém, mas ficar calado também não ajuda. Já agora que as manifestações sejam ordeiras e que não se cometam os mesmos excessos que tanto têm dado que falar. Não é preciso queimar ou destruír nada ou esfolar coelhos inocentes para expressar o descontentamento. Vamos lá mostrar que nem a crise nos reduz à selvajaria. E apareçam...

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cavalo, porque não?


A Europa, ou pelo menos parte dela, está em pânico por causa do escândalo da carne de cavalo. Já abordei o tema no passado dia 11, altura em que foi descoberta a fraude na lasanha da Findus. Como não há fumo sem fogo, foi detectada carne de cavalo noutros produtos que eram vendidos ao consumidor como sendo carne de vaca. Não surpreende: alguém acredita que carne que entra na lasanha é diferente da que entra nas almôndegas, nos hamburgueres ou no empadão de carne congelados? É aquilo que se designa por “all-purpose meat”, ou “carne para todos os fins”. É um pouco como acontece nos restaurantes indianos ou chineses: basta mudar o acompanhamento e o tempero.

Sinceramente não vejo como isto possa ser visto como um problema de saúde pública. Fraude sim, claro, o consumidor tem direito a adquirir aquilo por que paga, e ninguém deve ser obrigado a comer um tipo de carne pela qual não optaria em circunstâncias normais. Em suma, os autores desta brincadeira devem ser responsabilizados por uma fraude que se reveste com contornos de criminalidade organizada. É óbvio que a ideia de substituir carne de vaca por outra inferior, neste caso de cavalo, foi de obter lucro por meios desonestos. Mas daí ao pânico generalizado e ao medo de comer carne de cavalo vai uma grande distância – ninguém deve temer a carne de cavalo. Não é menos saudável que a carne de vaca ou de porco, e não é intragável. Longe disso.

Estive em Cantão em finais de 1999 num restaurante dos arredores onde a especialidade era carne de burro. Para ilustrar bem o que me esperava, estavam mesmo dois simpáticos burrinhos à porta do restaurante, possivelmente alheios ao facto de que se candidatavam a servir de almoço e jantar no dia seguinte. O restaurante assemelhava-se a um prédio semi-acabado, completamente em pedra, composto por dois andares. No térreo, onde estavam “estacionados” os tais burros, existiriam duas ou três mesas em frente a um bar improvisado, onde além do balcão existia apenas uma arca que acomodava as bebidas. No primeiro andar, onde fiquei, existiriam entre oito e dez mesas, todas ocupadas. A iluminação consistia de lâmpadas fluorescentes colocadas visivelmente à pressa, o que dava a entender que esta tasca onde se servia burro funcionava sasonalmente – o que viria a confirmar mais tarde. Não vi a cozinha, mas suponho que ficava nas traseiras, perto de um matagal.

Perfeitamente consciente de que era burro e apenas burro que eu ia ali comer, deixei a minha companheira e respectiva família pedirem a comida à vontade, sabendo que seja qual fosse o pedido, o que vinha seria sempre carne de burro. Não me lembro exactamente em que modos foi servido o asno que nos serviu de manjar, mas lembro-me de ter gostado. Foi até bastante agradável, senão delicioso. A meio do jantar tivemos a honra de conhecer o proprietário, que sorria de orelha a orelha, possivelmente entusiasmado com a presença de um ocidental. Apressou-se a enumerar as qualidades da carne de burro, mais orgulhoso com o negócio que geria do que com algum tipo receio ou preconceito que eu pudesse ter. Eu estava bastante à vontade, a saborear a experiência (e o burro), e nem precisava que me convencessem de nada. Pagámos, e nem foi caro de todo, voltei para o hotel e nem pensei mais no assunto. Dormi bem essa noite, e não me lembro de ter zurrado nem nada.

Quando era miúdo os talhos do Montijo vendiam um tipo de mistura conhecida por “bofes”, imprópria para o consumo humano (o cheiro não deixava qualquer dúvida a esse respeito) e destinada aos cães de maior envergadura que necessitam de mais proteínas. Consistia sobretudo de vísceras, gordura e carne de segunda, que diziam, era de cavalo. Não tenho bem a certeza, mas penso ter comido pelo menos uma vez ao jantar carne de cavalo quando era jovem. E tinhamos consciência disso. Não foi mau, pelo menos da única vez que me lembro. É uma carne que não difere muito em cor, textura e sabor da carne de vaca (daí a confusão), se é que se pode falar de sabores distintos: toda a carne sabe, ora, a carne. É difícil distinguir carne de vaca de carne de veado ou de rena, a não ser que se apresente junto com o prato a cabeça do bicho. Tenho a certeza que muito boa gente terá comido carne de cavalo durante anos acreditando que era vaca, e se o deixam de fazer agora é simplesmente por preconceito, e não porque “não gostam”.

Para alguns o tal preconceito prende-se com o facto de se tratar de cavalo, considerado um animal “nobre”. É lógico que a carne usada nesta fraude não é originária de cavalos de raça puro-sangue árabe, lusitano ou de póneis queriduchos. Vem de cavalos de quinta, aqueles meios rafeiros que puxam charruas e depois de ter utilidade são vendidos à fábrica da cola. E a propósito, sabiam que além da cola também a gelatina é feita com ossos de vaca e de cavalo? Para mim um simples cavalo não é mais nobre que uma vaca, a tal que nos dá o bife. A discussão sobre comer ou não cavalo é semelhante à divisão que existe com outros tipos de carne, como o coelho, a avestruz ou o veado: ou se gosta, ou se “tem pena”. Eu não tenho mais pena do cavalo do que qualquer um destes que referi, que também como sem cerimónia.

Agora que a própria Europa atravessa esta crise que todos sabemos, porque não considerar a carne de cavalo como uma opção mais barata à carne de vaca. Tanto medicos como nutricionistas não reprovam, e em termos de sabor não fica nada a dever aos clássicos bifes bovinos. Os franceses, que têm uma cozinha reconhecida mundialmente, comem carne de cavalo como se não fosse nada, e existem até talhos especializados neste produto. Então os franceses estão sempre certos na arte de bem comer menos quando toca ao cavalo? Quem não quer, não coma, mas quem já comeu “enganado” não deve sentir qualquer espécie de remorso. E digam lá se sentiram a diferença?

...E muitos mais caberão


Mais uma vez, para quem ainda não leu, aqui fica o artigo de ontem do Hoje Macau.

Quem conheceu Macau ou vive no território pelo menos desde antes do recente “boom” económico deve-se lembrar bem como era muito mais fácil andar na rua, de como havia mais espaço. A proporção de passeio por cada habitante era maior. Actualmente a nossa querida cidade está sobrelotada, esgotada, estrangulada. Está mais apertada, não no bom sentido, e a muitas horas do dia em nos locais onde passamos diariamente é quase impossível abrir os braços sem dar um safanão em dois ou três outros transeuntes. O lado mais negativo de tudo isto é que apesar de nos ter sido retirado espaço, o que sobra está cada vez mais sobrevalorizado. Temos menos, pior, e ainda por cima mais caro.

Falei com algumas pessoas que viveram no território há vários anos e que recentemente regressaram, em trabalho ou apenas de passagem, e a opinião é generalizada: “Isto está muito diferente!”. Alguns dizem-no em tom de desabafo, outros dizem-no com incrédulo espanto. Não tenho dúvidas que todos concordam que é muito mais difícil movimentar-se pela cidade, e chega a ser mesmo cansativo e desgastante. Muitas vezes é quase impossível chegar-se de um ponto ao outro sem ficar à beira de um ataque de nervos. Os feriados do Ano Novo em meados deste mês foram bem prova disso, com multidões apinhadas nas principais artérias do centro comercial e histórico do território, um cenário que há alguns anos poucos imaginavam. Mas ali estava – era virtualmente impossível largar um alfinete sem espetar ninguém.

Não tenho qualquer problema com o progresso ou com o desenvolvimento, nem me incomoda ter perdido o conforto de poder chegar rapidamente a pé a qualquer ponto da cidade, como antigamente. Mas se por um lado o comércio e a economia beneficiaram com esta mudança, a qualidade de vida ressentiu-se. Macau não acompanhou o seu crescimento com estruturas e serviços que mais facilmente nos adaptassem à nova realidade. Quem pensa que os períodos festivos de maior afluência de turistas são “uma excepção” e não determinam a capacidade do território em receber visitantes, engana-se: é no limite que se testam as capacidades.

Não serei o único que se queixa deste problema, que afecta a população em geral, e esta gente de Macau tem dificuldade em lidar com este aperto e com a azáfama de uma grande cidade que até há alguns anos era vista pela malta aqui ao lado em Hong Kong como um “simpático e sossegado arrabalde”. Os residentes queixam-se sobretudo de uma presença excessiva de turistas da grande China, mas não será apenas por culpa destes que as coisas estão como estão. Não alinho nesse diapasão de considerar os visitantes do continente responsáveis, mesmo que em parte, pelo prejuízo da qualidade de vida da população de Macau. Antes pelo contrário: são eles quem produz a maior parte das receitas e deveríamos estar preparados para os receber. E quantos mais, melhor.

Quem vive em Macau e faz por aqui a sua vida tem também uma quota de responsabilidade no estado de caos em que muitas vezes o território se encontra. Muitos naturais de Macau estão a ter dificuldades de adaptação ao facto de viver numa cidade diferente daquela que os viu crescer. Alguns comportamentos persistem teimosamente apesar da nova realidade nos exigir que nos tornemos mais disciplinados, organizados, e acima de tudo mais civilizados. Já não é possível conviver com milhares de outras alminhas que ocupam este espaço já por si tão escasso da mesma forma que há dez ou vinte anos. É preciso mudar de atitude e encarar a nova realidade.

Não são poucas as vezes que nos deparamos com situações de bradar aos céus, resultantes de hábitos já enraizados mas que contudo podiam ser, digamos, “reformados”. Falar ao telemóvel ou mandar mensagens sem tomar atenção por onde se anda, parar o veículo à porta das casas de pasto para comprar o pequeno almoço, provocando engarrafamentos e as sempre desagradáveis buzinadelas, atravessar nos sinais vermelhos ou fora das passadeiras, são apenas alguns dos “vícios” de uma extensiva lista de comportamentos que se podiam muito bem evitar. Com o mínimo esforço podia-se assim facilitar a vida ao “outro”, um conceito que é ainda para muitos desconhecido.

Não podemos esperar que o Governo resolva o problema do “esgotamento” da cidade por artes mágicas, alargando a via pública ou dispondo o pavimento em camadas, de forma a que todos coubessem. Passa também, ou sobretudo, pela civilidade da própria população local, e se for mesmo necessário, devia-se começar por investir mais na Educação Cívica, a começar pelas escolas, e desde a mais tenra idade. A única solução para que possamos usufruir com qualidade do espaço cada vez mais exíguo que nos é dado passa por adquirir um comportamento mais civilizado. E assim todos caberão…

Não temos Papa (e está tudo bem)


O Vaticano está desde ontem em estado de “sede vacantis”. O Papa Bento XVI renunciou e abandonou o cargo no dia 27, e o concílio vai agora escolher um novo líder, tarefa que deverá ficar complete até antes da Páscoa. A Igreja Católica assegura que a escolha do novo Papa será célere, e na verdade candidatos não faltam. A dúvida recai sobre a origem do novo sumo-pontífice, e há quem preveja que pela primeira vez a escolha recaía sobre um não-europeu. Faria todo o sentido, uma vez que é nos países em desenvolvimento que a Igreja Católica vai resistindo à crise que se vem acentuando nos últimos anos no Ocidente.

Muito se especula sobre as razões da renúncia de Bento XVI, que volta agora a ser conhecido apenas por Cardeal Ratzinger. Depois da justificação inicial do “cansaço”, apesar de quase inédita, ter sido mais ou menos bem recebida pelos fiéis, fala-se de jogos de poder dentro do próprio Vaticano e de outras razões menos “católicas”. Durante o seu pontificado Ratzinger foi o porta-voz do perdão às vítimas dos crimes de pedofilia cometidos pela Igreja, e durante tantos anos silenciados. Um acto de contrição que nenhum Papa gostaria de sujeitar, apesar da nobreza e coragem do acto. O problema é que se sucedem os escândalos esta natureza, que segundo o próprio Ratzinger “envergonham a Igreja”, e aparentemente é preciso fazer muito mais do que um simples pedido de desculpas.

Desde que Bento XVI anunciou a renúncia, em meados de Fevereiro, tenho visto uma série de responsáveis do clero a remar contra a maré, considerando a decisão do Papa alemão “um acto de coragem”. Ora “coragem”, a bem dizer, não é desistir, mas ficar até ao fim, dê por onde der. Os próprios católicos ficaram sem entender muito bem como um Papa aparentemente consciente e válido desce do trono de Pedro, enquanto o seu antecessor permaneceu até ao fim, mesmo que visivelmente diminuído, numa agonia crescente. Papa que é Papa, morre Papa. As verdadeiras motivações de Ratzinger nunca nos serão dadas a conhecer. É um daqueles segredos cuja resposta será guardada e calada por poucos. Podemos especular, mas nunca vamos saber ao certo.

O que mais me impressionou das imagens da última homilia de Bento XVI na última quinta-feira foi o amor incondicional dos fiéis presentes na Praça de S. Pedro. Ratzinger deixa o Vaticano da mesma forma quando chegou: acarinhado e venerado. Não há dúvidas ou omissões que abalem a fé dos crentes. Como vi um clérico dizer num programa da RTPi sobre a História dos santos da Igreja Católica: “Os milagres não carecem de explicação científica: são uma questão de fé. Ou se acredita, ou não se acredita”. O mesmo se pode aplicar ao caso do Papa que desceu da cruz de Cristo. Quem não acredita, que fique a questionar. Só não espere é encontrar respostas.

A guerra é para os machões


Morrisey é um músico inglês que ficou conhecido pela minha geração como vocalista da banda The Smiths, um dos conjuntos mais populares dos anos 80, um dos pioneiros da chamada “música independente”, ou no seu diminutivo “indie”. Seguiu-se uma respeitável carreira a solo, e o músico permanece no activo aos 53 anos. Vegetariano desde a infância e defensor dos direitos dos animais, usa botas de imitação de cabedal feitas especialmente para si, “por uma questão de coerência”. Isto é, desde que tenha dinheiro para combinar elegância e convicções, claro. Figura controversa, chegou a ser acusado de racismo por mais de uma vez devido à sua posição quanto à imigração no Reino Unido – ama os animais e é contra estrangeiros, portanto isto faz dele a Briggite Bardot inglesa (ou inglês).

E por falar nisso, Morrisey é também conhecido pela sua sexualidade ambígua: não se sabe muito bem em que equipa joga. Deu esta semana uma entrevista à revista online norte-americana Rookie, e desta destaco uma afirmação interessante: “O ser humano é essencialmente solitário”, acrescentando que a instituição do casamento “acentua a solidão, porque permite ao Estado determinar as tuas obrigações para com outra pessoa, como se tu não pudesses confiar e gerir tu próprio os teus sentimentos”. Não há como discordar. Mais curiosa é a sua opinião sobre a Guerra, que considera “um dos maiores defeitos da heterossexualidade”: “Se mais homens fossem homossexuais, não haveria guerras, pois os homens homossexuais nunca se matariam uns aos outros, mas os homens heterossexuais adoram matar outros homens. Até ganham medalhas por isso”. Morrisey considera que “guerras, exércitos e armas nucleares são hóbis heterossexuais”. Pois é, até é possível que tenha razão neste aspecto. Nos homossexuais as invasões e os bombardeamentos são de outra natureza. Eh eh. Continua a ser quem és, Morrisey.

Vídeo da semana


O Executivo do Governo PSD está a atravessar uma crise de popularidade muito séria em Portugal, a que não são alheias as medidas de austeridade que têm afectado a maioria dos portugueses. Os ministros têm sido ultimamente vítimas de formas de protesto organizadas, das quais sobressai o virus “Grândola”, com os manifestantes a revelarem sintomas que passam por cantar alto e bom som o “Grândola Vila Morena” por cima das declarações dos politicos. O “Grândola” não é mortal, e cura-se com uma simples noite de sono, mas o que fizeram os estudantes da Faculdade de Direito na quarta-feira quando da visita do próprio primeiro-ministro é grave. Tão grave que não consta de nenhuma lista de doenças conhecidas. Os futuros juristas do país (tragédia…) chamavam “gatuno” a Passos Coelho, entre outros impropérios, e enquanto o faziam exibiam um coelho morto espetado numa vara. Um coelho a sério! Não sei que culpa tem o pobre bichinho por pertencer à espécie que dá nome ao apelido do primeiro-ministro, mas esta é uma forma de contestação que vai para além de radical: ultrapassa os limites do bom gosto. Gostava de acreditar que o roedor em questão morreu de solidão, mas tudo leva a crer que tenha servido de sacrifício nesta forma maluca de protesto. Quem foi o idiota insensível que teve a coragem de matar o animal e espetá-lo num pau para chatear o PM? Os sacrifícios são da natureza dos selvagens e remontam aos tempos do Antigo Testamento. Assim perdem toda a razão, e duvido que alguém no seu perfeito juízo apoie esta iniciativa, ou encontre nela algum sentido. Dêem voz à insatisfação, ninguém os impede, mas façam-no dentro do limite do razoável. E comportem-se como pessoas, e não Neandertáis.