quinta-feira, 10 de julho de 2014

Holanda-0 Costa Rica-0


A Holanda foi a última selecção a garantir a presença nas meias-finais do Brasil 2014, merecidamente, mas sem gás. A equipa de Van Gaal deu uma prova de força na fase de grupos, onde marcou 10 golos em 3 jogos, mas eclipsou-se na fase seguinte da prova. Depois da "simpatia" de Pedro Proença, que "deu" um "penalty" no último minuto de descontos frente ao México, agora a "laranja mecânica" tinha pela frente a sensação do torneio, a Costa Rica. Os costa-riquenhos sabiam que tinham poucas hipóteses de levar a sua "gracinha" mais longe, e podem-se dar-se por satisfeitos por encontrarem pela frente uma Holanda tão condescendente, optando por levar a decisão para a lotaria das grandes penalidades. Só que Van Gaal tinha um trunfo na manga, e para os "penalties" fez entrar o guardião Tim Krul, que deteve os remates de Bryan Ruiz e Michael Umaña. A Holanda estava nas meias-finais, mas mostrou muito pouco para quem ambicionava ir mais além.

Argentina-1 Bélgica-0


A Argentina voltou a ser eficaz, e chegou às meias-finais do Brasil 2014 sem jogar bem - o único jogo em que os sul-americanos foram obrigados a arregaçar as mangas foi na fase de grupos frente à Nigéria, que acabariam por vencer por 3-2. Valeu desta feita a equipa de Alejandro Sabella o golo marcado logo aos 8 minutos por Gonzalo Higuaín, que beneficiou de um ressalto à entrada da área dos belgas e rematou "a sangue frio", não dando quaisquer hipóteses ao guardião Thibaut Courtois. Em vantagem, os argentinos voltaram a "mastigar" o jogo, e deram a iniciativa aos europeus; Marc Wilmots apostou numa dupla de avançados com Kevin Mirallas e o adolescente Divock Origi, mas a falta de produtividade ofensiva fê-lo mudar de ideias no segundo tempo, trocando a dupla por outra mais convencional, composta por Romulo Lukaku e Dries Martens. Mesmo Eden Hazard esteve num dia não, e daria o seu lugar a Nacer Chadli, a quinze minutos do fim. Os europeus só viriam a "apertar" nos minutos finais, mas foi pouco, e tarde demais.

Brasil-2 Colômbia-1


Muita crença, muita fé, David Luiz inspirado, e um Neymar q.b. foi o que chegou para o Brasil levar de vencida a sensacional selecção da Colômbia, que vinha jogando o melhor futebol deste mundial, mas estranhamente "enguiçou" na noite de Sábado em Fortaleza. Para os brasileiros ajudou marcar cedo, logo aos sete minutos, quando o defesa Thiago Silva apanha uma bola que sai dos pés de Neymar na área colombiana, e apenas precisa de empurrar para a baliza do impotente Ospina, que esteve em bom plano. O Brasil voltava a não deslumbrar, mas conseguiu controlar bem o jogo, dando a posse de bola ao adversário e resolvendo quando foi necessário, com David Luiz a marcar um livre inspiradíssimo aos 69 minutos, fazendo o 2-0 e resolvendo praticamente a eliminatória. Cinco minutos antes Thiago Silva viu um amarelo estupidamente, ao fazer uma obstrução a Ospina, que tentava colocar uma bola em jogo. O esférico encaminhou-se para dentro da baliza, mas o árbitro espanhol Carlos Velasco anulou bem o lance, admolestando o defesa brasileiro, que já tinha visto um amarelo contra o Chile e ficava de fora das meias-finais. A Colômbia reduziria aos 80, com James Rodríguez a converter um "panalty" assinalado após falta de Júlio César sobre Juan Cuadrado, mas o pior para o Brasil aconteceu aos 88 minutos, quando Neymar sai lesionado de um lance com Camilo Zuñiga. O defesa colombiano atinge o nº 10 brasileiro pelas costas, fracturando-lhe uma das vértebras, de deixando-o KO para o resto da competição. O Brasil passava mas perdia Neymar e Thiago Silva para as meias-finais contra a Alemanha - e que falta viriam eles a fazer...


Se há um jogador colombiano que não merecia esta eliminação esse é James Rodríguez. O extremo de 22 anos conseguiu o feito de marcar em todos os cinco jogos da sua selecção, somando 6 e colocando-se como grande favorito ao título de artilheiro deste mundial, e quase com toda a certeza o de melhor jogador jovem. Não sei porquê mas as suas lágrimas fizeram-me lembrar as lágrimas de Eusábio por Portugal no mundial de 66. Em termos de talento as comparações não sÒão de todo descabidas.

Alemanha-1 França-0


A Alemanha foi a primeira selecção a garantir a presença nas meias-finais do Brasil 2014 ao vencer no último Sábado a França, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Perante a melhor França deste século - certamente melhor que a imerecida finalista de 2006 - os alemães foram tácitos, e marcaram logo aos 12 minutos por Mats Hummels, um dos defesas com apetite para o golo neste torneio. O central formado nas escolas do Bayern mas há várias épocas ao serviço do Borussia Dortmund foi lá a cima e aproveitou a confusão na área na sequência de um canto batido por Toni Kroos para atirar a contar. Os alemães controlaram o jogo, com Joachim Löw a dar mais uma lição de posicionamento táctico, e a manter a "guerra" a meio-campo, guardando as "corridas" para o adversário que se seguiria, que sairia do Brasil-Colômbia algumas horas mais tarde. O único grande susto - e o último suspiro dos gauleses - surgiu no derradeiro lance do encontro, quando Karim Benzema aparece sozinho em frente a Manuel Neuer, faz um chapéu quase perfeito, e o guardião do Bayern defende com uma palmada. A França sai de cabeça erguida, e o melhor da Alemanha ainda estava para vir.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Em trânsito



Mais uma vez vou ter que vos deixar, com muita pena minha, e desta vez por uma semana. Portem-se bem e até quinta-feira. Jocas do Leo.

Merda é...


Enzo Perez, médio argentino do Benfica está debaixo de fogo cruzado, e não é para menos. No final do jogo entre a Argentina e a Grécia, um jornalista aproximou-se do jogador e identificou-se como sendo da televisão portuguesa, ao que Perez retorquiu de imediato: "es una mierda". Nas redes sociais isto foi interpretado como querendo dizer que "os portugueses são uma merda". Bom, esta é uma interpretação muito livre, se me permitem, e se acusaram o insulto, falem por vocês. O rapaz podia estar a referir-se à selecção portuguesa, e à prestação da mesma neste mundial - e quem o pode acusar de mentir? Ou então ouvindo "televisão portuguesa" completou de imediato com "...es una mierda". Podia estar a referir-se à televisão, ou em particular à Benfica TV, o que também faz dele um gajo honesto, e se permitem o desabafo, porreirinho até. Olha que vocês também...

quarta-feira, 2 de julho de 2014

No domínio dos condomínios


Logo que se levantou a lebre do salário mínimo em Macau, lei entretanto ontem aprovada, e se estabeleceu o valor da hora de trabalho em 30 patacas, foi um "ai Jesus" nas companhias de gestão de condomínios, que falaram logo de "aumentos brutais" nas respectivas mensalidades da segurança e limpeza dos edifícios. Sendo este valor mínimo estabelecido feito à medida do pessoal da segurança e da limpeza, tem escrito "condomínios" em cada entrelinha da lei, e pronto, saem estes gajos da toca aos pulos com o rabo a arder e aos urros "aqui d'el rei, que me estão a ir ao bolso" - ou a um sítio pior, enfim. É um daqueles fenómenos típicos de Macau, e se juntarmos a isso o facto dos gajos que gerem os condomínio serem da mesma estirpe dos das agências de fomento predial e afins, então mais fácil fica de entender a "gravidade" da situação. Não é difícil perceber, portanto, porque custou tanto esta lei a sair, e porque se andou a discutir pataca a pataca o valor a atribuír pela hora de trabalho, ao ponto do somitismo: "ai 27 está bem, 28 é muito, 29 nem pensar, etc, etc". Na rectaguarda deste miserabilismo estavam uns gajos que têm milhões no banco mas estão convencidos que trabalhar para eles "é uma honra", e que isso já é paga mais que suficiente.

Mas refeitos do alarido, vamos fazer contas: o que significa trinta patacas por hora? Portanto se o leitor, pessoa certamente com um nível de escolaridade na ordem do secundário completo ou incompleto, ou equivalente, estiver desesperado, e não se importar de se sujeitar a trabalho semi-escravo, trabalhar nove horas por dia todos os dias menos os quatro mensais obrigatórios para descanso, isto equivale a um salário de 6750 patacas por mês. Arrendondemos a coisa para seis mil patacas mensais, como fizeram as cabecinhas pensadoras que elaboraram a lei. Pronto, os tipos trabalham oito horas por dia, e não nove, o que dá exactamente seis mil rufas limpinhas ao fim de 25 dias de jorna. É caso para dizer que os tipos que nos guardam o edifício dos amigos do alheio nunca teriam possivelmente dinheiro para alugar um apartamento nesse mesmo edifício, mas atendendo a que se tratam normalmente de pessoas com uma certa idade, compraram casa própria há vários anos, quando os preços das casas eram "normais". Mas atendendo a que alguns deles têm filhos na universidade e outras despesas, é um aumento mais que bem-vindo, já para não falar do aspecto da dignidade. Sinceramente, quem é se dispõe a trabalhar por menos de seis mil patacas por mês? Excepção feita aos não-residentes, é lógico, para os quais as três ou quatro mil patacas que auferem fazem toda a diferença quando multiplicadas por pesos, rupias ou dongs.

Isto equivale por dizer que as companhias de gestão de condomínios pagam menos do que seis mil patacas mensais - mas não pagarão muito menos, pois quando digo acima semi-escravo, há aquele "semi" que impede que regressemos ao tempo do chicote, dos grilhões e das correntes. Pagarão 5 mil, talvez, ou 4500 quem sabe, e com este "brutal aumento" de que vão beneficiar estes pés-rapados, toca a aumentar também as mensalidades do condomínio aos inquilinos. Alguém vai ter que pagar esta diferença, e não vão ser eles, com toda a certeza. Era bom não era? Assim quem paga actualmente 500 patacas mensais de condomínio, arrisca-se agora a pagar 1000. Pois, isto é absurdo, atendendo a que os encarregados da manutenção e da limpeza do prédio onde o leitor mora não vão ser aumentados para o dobro, com toda a certeza, mas já que o Governo tem de quando em vez estas chico-espertices, porque não aproveitar e mudar de Mercedes? Fazem lembrar certos senhorios, que mal sabem que os inquilinos vão receber um subsídio de mil paus para habitação, aumentam-lhe e renda em 1200. Se lhes perguntamos porquê, eles começam a bufar "pff...pff..." e a agitar as mãos como se lhes estivessemos a pedir para contar como passam fome, e a vida está cara para todos, as tretas do costume. Todos esfolados, pendurados de cabeça para baixo e besuntados com sal era pouco, para estes parasitas de cócó.

Mas falando do meu caso particular, do meu condomínio. Penso que pago 410 patacas mensais. Digo "penso" porque não sou eu que trato disso, mas da última vez que deparei com um recibo - e já lá vão uns bons dois aninhos - posso jurar que eram 410 patacas. Basicamente é isto que pago pela recolha do lixo e limpeza, e pela conta de electricidade, que inclui o uso do elevador. Não fossem estas 410 lecas mensais que a minha mulher deixa na contabilidade do rés-do-chão, e lá tinha eu que subir 18 andares às escuras, a tropeçar na porcaria dos outros e arriscando-me a ser mordido por uma ratazana. E por falar nisso, achei interessante que tivessem investido numa câmara de segurança do último grito para instalar no elevador, mas não façam o mesmo com o sistema de ventilação, que faz com que cada vez que lá entre me sinta numa espécie de forno de padeiro, especialmente agora, no Verão. Antena para a recepção de sinal de telemóvel, nem por sombras; ao entrar no elevador, abandone toda a esperança de prosseguir uma conversa telefónica que esteja a meio, mandar uma mensagem ou aceder à internet, pelo menos durante um ou dois minutos. Se estiver a seguir um dos jogos do mundial num desses canais gratuitos "online" e estiver para ser marcado um "penalty", o melhor é esperar pelo próximo elevador.

A "segurança" do meu prédio fica a cargo de uns tipos que, coitados - quando escrevo segurança entre aspas, quero dizer que nem um puto gordo de oito anos com a birra do sono seriam capazes de deter. São uns velhinhos tão esqueléticos que quando estão no seu posto sem camisa (o que é a maior parte do tempo) dá para lhes identificar e contar as costelas uma a uma. Os do turno da noite vêm sobretudo para dormir. Compreende-se, pois a ganhar menos de seis mil patacas por mês é normal que acumulem empregos, e ao contrário do que pensam os tipos que acham que as pessoas "ganham mais se trabalharem mais" mas não fazem a ponta de um corno e vivem dos redimentos, estes também precisam de dormir. Se isto é "segurança" vou ali e já venho, mas como não moro no Bronx nem na Cova da Moura, ainda vou dormindo mais ou menos descansado. O maestro de toda esta banda é uma maestra, uma senhora cujo nome desconheço por completo mas que trato(amos) por "ah-yí" (tiazinha), e que é facilmente identificável pelos seus traços físicos, nomeadamente pelo facto de ser anã. Não sei se é anã no sentido da pessoa que sofre de nanismo, mas é tão baixa que se lhe perguntarem o que pensa do mundial que está a decorrer no Brasil, ela responde que "gosta do nº 10 da Argentina, rapaz alto e espadaúdo". É tão baixa que quando a sua filha tinha seis anos já era da sua altura. Em suma, é baixa, e abelhuda. Detesto o raio da velha; sempre que me vê a voltar do serviço ao fim da tarde pergunta-me "saíste do emprego?" dá-me vontade de lhe responder "não, na verdade estou a ir trabalhar agora, são oito da manhã e tu pensas que é tardinha porque as tuas pílulas para a esclerose múltipla passaram do prazo". Quando me vê a chegar cansado com os bofes a sairem-me pela boca e a suar em bica comenta "está calor...". Ai sim? Obrigadinho pela informação. Penso que já não vai ser necessário ir à lavandaria buscar a samarra de pele de urso.

Esta "ah-yí" controla todos os aspectos do condomínio; é ela que recolhe o lixo, começando no 20º andar e depois de um em um, em ordem descendente, apanha os sacos deixados em cada andar pelos simpáticos residentes, qual anão que apanha os diamantes da mina, e canta "ai-oh, ai-oh". E a que horas se processa a recolha do lixo, que deixa um dos elevadores, e logo aquele que para em todos os andares, inoperacional? Não sei, mas acho que depende da hora que eu entro ou saio de casa, pois não há santo dia em que não encontre o elevador "fora de combate" pelo menos uma vez. Se lhe perguntar "a que horas é que V. Exa. em miniatura recolhe o lixo, por obséquio?", arrisco-me a ouvir "depende da hora que tu saires de casa, palerma". Mas teorias da conspiração à parte, a senhora até desempenha competentemente o trabalho de limpeza; por alguma razão que me ultrapassa, o corredor do meu andar cheira sempre a pêlo de cão - penso que sabem a que cheiro me refiro, e não, não é nada agradável. A minha mulher diz que este cheiro se deve à "lixívia". Ora, lixívia cheira a lixívia, e cão cheira a cão, bolas. Sei muito bem distinguir o odor da lixívia, que por muito desagradável que possa ser, não se compara ao cheiro rançoso a cão. Suspeito que a culpa é da esfregona, que ou muito me engano, testemunhou a transferência de soberania, e se falasse tinha certamente uma opinião formada entre o período do pré e do pós-1999. É um utensílio de limpeza secular, no fundo, milenar até. É "vintage", como se diz agora.

Mas nada contra a "ah-yí", coitadita, que só faz pela vida. Devia aprender a meter menos o nariz onde não é chamada, com do seu metro e quarenta de altura, ou algo que lhe valha, não deve conseguir farejar nada que eu recomendasse a alguém. Nem contra ela, nem contra todo o pessoal dos condomínios, que é gente que trabalha a valer - sim, isto chama-se trabalhar, ó manganada que passa metade do tempo útil de trabalho entre o café, o Facebook e o Candy Crush, ou a mandar e-mails não-relacionados com aquilo para que vos pagam. Eles merecem uma remuneração digna, coitados. Só é pena é terem uns patrões tão sacanas...

Eleição LOL


Um dia perguntaram-me se aceitava 50 mil patacas para acariciar com a língua um saco escrotal masculino. Respondi que "nem por 100 mil", aliás não há dinheiro que apague da memória uma experiência tão traumatizante como seria essa. Se me perguntarem se faria "cunnilingus" numa idosa de 70 anos de idade por 500 patacas, respondia que "sim, claro", e até era capaz de gostar tanto da experiência que me tornaria cliente - e dispensava o pagamento e tudo. É uma questão de género, enfim, e de inclinação sexual, no fundo. Sobretudo isso. Agora, isto tudo para falar do quê, mesmo? Ah, sim, já me lembro. Então vamos a isso.

No Domingo passado foi-se a votos na RAEM, com 4500 mangas-de-alpaca a irem escolher os 400 distintos membros do mui respeitoso Colégio Eleitoral que vai escolher o próximo Chefe do Executivo. Uhhh...isto parece sério pá. E excitante. Não estivesse eu a escrever estas linhas completamente nu (e depois, estou em casa, e não está aqui mais ninguém, bolas) e começavam-me a saltar as caltas de tanta excitação. Quem, meu Deus, mas quem vão estes 400 iluminados escolher para conduzir os destinos da RAEM durante os próximos cinco anos? Será...Chui Sai On? Ou talvez...Chui Sai On??? Aposto numa surpresa: Chui Sai On. E esta hein? Aposto que não estavam à espera.

Entre os 400 escolhidos estão 22 deputados da Assembleia Legislativa. Yupi! que fervo de excitação. Quem, quem? Quem são eles. Ora sendo que há 33 deputados, oito não participaram por incompatibilidades várias, e Ng Kwok Cheong e o seu colega Au Kam San como forma de protesto, restaram 23, de onde seriam escolhidos 22. Um jogo das cadeiras, portanto, e quem ficou de pé foi Leong Veng Chai, nº 2 de José Pereira Coutinho na lista da Nova Esperança. Soube de fonte segura que Leong Veng Chai ficou triste, chorou, chamou pela mãe, e disse que "assim não brinca mais", e que os outros meninos "são maus" - isto citando o próprio (a este ponto gostaria de deixar claro que estou a ser sarcástico, parvo, se quiserem, e que Leong Veng Chai não chorou realmente - pelo menos que nós vissemos; mas fez beicinho, ai isso fez, que eu vi). Querem uma prova? Ei-la:



Como já referi em cima, Ng Kwok Cheong e Au Kam San não se apresentaram a votos como sinal de protesto, e todos sabemos porquê: são os deputados da pró-democracia que agitam a bandeira do sufrágio directo e universal para a escolha do Chefe do Executivo. Gostaria de concordar que esta é uma alternativa plausível na eleição do dirigente máximo da RAEM, mas não consigo, infelizmente, por razões que a seu tempo explicarei melhor, mas admiro a força das convicções dos deputados do campo da pró-democracia. Quanto a Pereira Coutinho - que fará parte do Colégio Eleitoral, sinceramente não o entendo: vai lá para "não votar"? Para votar em branco? E com tantas opções por onde escolher? Ora...ficava-lhe melhor juntar-se aos democratas, ou melhor ainda, juntar-se e levar consigo Leong Veng Chai, que assim ficava a faltar um deputado para os 22 e denunciava-se esta palhaçada. Assim...bah. Insonso, sr. deputado Pereira Coutinho.

O que me deixa perfeitamente atónito é como 4500 alminhas vão escolher 400 que por sua vez vão escolher...nada. Há 1 (um) candidato, para quê esta pantomimice? E no processo gastam-se 32 milhões de patacas, e destas só 17,4 foram pró maneta no Domingo. No quê? Sei lá...arrisco que mais de metade deve ter sido no "catering", que aquilo para dar de comer a quatro mil e tal bocas não sai nada barato, não. E aquilo é gente que come bem, fiquem a saber. Nem vale a pena estar a aqui a enumerar a lista de quão suspeito e escandaloso é que se gaste tanto sabendo de antemão qual vai ser o resultado. Epá um bocado contrariado dou o braço a torcer: um ponto para o sufrágio universal, e mais uma Super Bock aqui prá mesa do canto, fáxavôr.

Se há algo que podiamos aprender com os palermas dos americanos era eleger por aclamação o único candidato, no caso de ocorrer essa situação, em vez de estarmos com este alarido todo, este circo que ninguém no seu perfeito juízo paga para ver. Já sei, já sei, a Lei Básica, ai a Lei Básica e não sei quê, que não contempla essa modalidade da aclamação, e tal. Só porque o Anexo I determina que a escolha do Chefe do Executivo deve passar por este processo - que seria a todos os títulos válido, fosse ele transparente e existisse mais que um candidato - que tal, sei lá, acrescentar uma emenda? Já pensaram nisso? Não estou a sugerir que se mude a Lei Básica, longe de mim tal coisa, insinuar que se deve mexer nessa luz que nos ilumina, arriscando a que se parta e lá vamos nós direitinhos para os campos de reeducação pelo trabalho. O que sugiro é que se faça uma adenda onde se estipule uma alternativa a esta situação perfeitamente ridícula, e que para mais representa uma despesa desnecessária para o erário público - e o "erário público" sou eu, é o leitor, somos todos nós.

Mas pronto, agora deixem os 400 sábios reflectir, e durante o processo suspendam todas as obtras públicas, quer de construção, quer de reparação, para que eles possam em Novembro escolher quem melhor conduzirá os destinos da RAEM até 2019. Será Chui Sai On? Será o candidato apoiado por Pereira Coutinho, o tal de "branco"? Ou será que o "nulo", sempre excluído da lista dos favoritos, apareça como uma surpresa? Quem já perdeu sei eu quem foi: o senso comum. Haja pai.

Os porquês de apoiar Sulu Sou


Venho aqui por este meio manifestar o meu apoio total, incondicional, e etcetera-e-tal a Sulu Sou para presidente da Associação do Novo Macau Democrático. Se sou membro da dita associação para ter legitimidade para divulgar quem apoio para a presidência? Bem, não, mas...Sou afiliado, participo ou participei de alguma actividade da referida associação. Não, só que...Sou simpatizante da associação em epígrafe, aderi a manifestações por ela organizada, ou contribui em dinheiro, trabalho ou géneros para a causa ou causas que defende. Epá vão levar na peida, c... . Não, não e não. Simpatizante, às vezes. Seguidor atento do fenómeno, certamente. José Pacheco Pereira (o tio Zé Pereira) é militante-base do PSD e ao mesmo tempo a maior autoridade quanto à vida e obra de Álvaro Cunhal, líder histórico do Partido Comunista Português e simpatizante de Estaline, o maior homicida do século XX. Portanto o cu não tem nada a ver com as calças.

Nas aulas de Jornalismo (e tive aulas de Jornalismo sim, posso provar e quem duvidar vai logo de carrinho com a prova espetada no focinho) tinhamos um exercício semanal que era de longe o meu predilecto. Mostravam-nos uma imagem qualquer, sem palavras, e pediam-nos para descrevê-la, elaborando uma teoria sobre o seu significado, o seu porquê, podendo mesmo entrar pelo campo da especulação, teorizando sobre causas e consequências, estados emocionais dos seus elementos, tudo o que quisessemos. E é isto que proponho fazer sobre a imagem acima, onde vemos Sulu Sou (em primeiro lugar proponho que o rapaz escolha outro "nome de guerra" que não o do tripulante da nave Enterprise da série Star Trek, interpretado por George Takei; é que "sulu sou" soa a "soluçou", o que em matéria de cacofonia vai onde nenhum homem antes chegou) numa acção de rua a protestar contra a eleição do Chefe do Executivo nos moldes em que actualmente se processa: através de um Colégio Eleitoral que pouco ou nada representa a população de Macau, e de onde participam apenas 0,14% dos eleitores inscritos - isto ainda consegue ser menos do que a afluência às eleições para o Parlamento Europeu.

Aqui Sulu Sou nem é o principal motivo de interesse. Quem o conhece mais ou menos bem está a par dos seus dotes de retórica, do seu discurso solto e sem rodeios, e que diabo, o moço até tem uma voz encantadora. Pertencesse ele a uma "boys band" e era o bonacheirão do grupo, a "fera ferida" - o Donnie dos New Kids on the Block. Tem pinta de rebelde e ao mesmo tempo um tom que denota que houve ali um amor não correspondido, sei lá, talvez aquilo que o tenha levado a virar as costas ao conformismo e enveredar pelo activismo. Já que não conseguiu tornar o seu mundo melhor, quer tornar o mundo melhor para os outros, e não tem medo de nada. Reparem no ar decidido por detrás do microfone, que revela o rosto imberbe, e o olhar posto no futuro, como quem avista no horizonte a realização do sonho de "uma pessoa, um voto" na eleição para o Chefe do Executivo. Aqui o Chefe do Executivo simboliza a meta, o destino final, a concretização de um amanhã anunciado por uma linda aurora em tons de laranja. Notem o corpo firme e hirto, como quem diz estar preparado para qualquer combate, e que à clarividência das convicções junta ainda a boa forma física: "mens sana in corporo sano".

O mais interessante nesta imagem é o pequenote que parece preso às palavras debitadas por Sulu Sou, e que saem do megafone que aparece no canto inferior esquerdo. É possível que aquela criança, que não deverá ter mais que dois anos e picos, não entenda nada do que diz o jovem activista, e que tudo o que sai da sua boca seja interpretado por "da da bu bu gu gu ca ca" e outras garatujas ideológicas (vendo bem aproximam-se mais da sonoridade do dialecto cantonense do que do português, ou outra língua ocidental), mas sem saber, as palavras de Sulu Sou estão subrrepticiamente a instalar-se no subconsciente daquele petiz, e quem sabe um dia mais tarde, na escola primária, interrompa uma aula com a frase "sufrágio universal" (em cantonense, lógico), reflexo da apreensão involuntária da mensagem deste agente da pan-democracia macaense. Atentem ao ar fascinado com que olha para Sulu Sou, reconhecendo nele um líder, ou mais do que isso, um "guru", ou quem sabe uma figura paternal. Notem como a mãe observa à distância, e não tem pressa de afastar o filho daquele cenário que até muito recentemente era considerado "pouco recomendável" - é a mudança de mentalidades em curso.

Aprofundemos o carácter místico de Sulu Sou, e a sua aura de liderança. Observem como a mãe segura num panfleto, provavelmente imbuído de retórica pró-democrática e anti-poder. Vejam ainda como é possível descortinar na indumentária do pequeno os sinais matemáticos de "menos" (-) e de "divisão" (÷). A forma hipnótica como o petiz segue o discurso de Sulu Sou pode ter um peso simbólico além do que esta simples fotografia pode dar a entender: rendido aos argumentos do activista, será talvez a altura de pedir "mais" (+), e de apelar à união, em alternativa à política vigente - e mais que provada como sendo um fracasso - da divisão. Chega de dividir para poder reinar, é o que esta imagem parece querer transmitir. A mãe, orgulhosa, observa a forma como o filho adquire, mesmo que subliminarmente, a sua primeira noção de consciência cívica - esta não vem no boletim de vacinas, nem é administrada no Centro de Saúde. Sulu Sou prossegue a sua missão, evitando abstrair-se com a presença do novo discípulo em miniatura, mas o seu ar de satisfação dá a entender que a presença de um potencial eleitor no futuro é notada.

E é por isso e por outras razões que dou o meu apoio a Sulu Sou. Não se via tanto entusiasmo em torno de uma figura política desde as eleições de 31 de Julho para o Reichstag alemão, e...esperem lá, que isto não é lá muito bom exemplo. Hmmm...desde a Longa Marcha de 1934? Também não...e não simpatizo lá muito com Gandhi...JFK muito menos...bah, olhem, deixem lá o rapaz ser quem ele é, que com toda a certeza encontrará o seu cantinho na História, mesmo que pequenino, como o menino que o contemplo com os olhos cheios de esperança. Chuif, chuif...



Eles estavam lá


E não podiam faltar. Nesta imagem vemos em primeio plano Sulu Sou, Jason Chao (a precisar de um "make-over", ur-gen-te, e já agora de um consultor de imagem, ou numa alternativa mais económica, de um espelho) e esta menina adorável que me vendeu a revista do Macau Concealers por 20 patacas no último 4 de Junho, a Winkie - hello Winkie *kiss* *kiss*. Esta não vão ver a gritar em nenhuma cerimónia de graduação, pois mal se ouve o que ela diz. Atrás deste trio eléctrico de verve contestatária e pele fresquinha vemos ainda Hiro Chan, a baixotinha de óculos escuros que segura um cartaz vermelho onde se lê "a nossa casa..." e depois falta o último caracter - Political message fail - e ainda Wong Kin Long, e não se deixem enganar pelos óculos e o ar de sonsinho, que este é um dos "pontas de lança" da Macau Conscience. Gostaram? Vamos ver outra imagem, e com isto já pareço uma avó a mostrar fotografias da netinha recém-nascida.


Aqui vemos Sulu Sou numa pose desafiante, já com ar de líder - ele que tem sido apontado como sucessor de Jason Chao na presidência da Associação Novo Macau Democrático. Reparem como o actual presidente surge atrás de Sulu, como quem aclama a nova liderança, e atrás vemos a nossa Miss Democracia, Kam Suet Leng, que está cada vez mais magra, um ho-rror! Andas a comer alguma coisa de jeito, miúda? Olha que não se faz activismo de barriga vazia (bem, na verdade, a possibilidade de fazer activismo de barriga cheia é ainda menor, mas deixem lá), e ao lado está Wong Kin Long, e estão a ver aquela pose muito "dread", muito "gangsta"? Eu disse que o moço tinha pelo na venta - isto apesar de ser visivelmente imberbe. Já vos disse que ele é meu vizinho, aqui em S. Lourenço, e que estudou no Instituto Salesiano? Não? Então leiam a antepenúltima frase sem "já vos disse", "que" e "?". Lá atrás, escondidinha, escondinha está Hiro Chan, outra vez muito discreta. Why so serious, girl?. A Hiro é um querubim, e entre as suas duas orelhinhas e um crânio coberto de escalpe e cabelinho está a massa cinzenta que produz os artigos que lemos (ou lêem, os que entendem chinês) no Macau Concealers. Isso mesmo, a Hiro é a redactora daquela publicação que tanto tem dado que falar. E quem foi o fotógrafo de serviço? Nada mais nada menos que Scott Chiang, regressado de mais um ano de aquisição de conhecimentos numa universidade de Taiwan, regressando mais tarde com o canudo, e ou muito me engano, mas este não acaba num casino a bater fichas ou a organizar eventos e cagadas do género.

Estes momentos foram registados durante a manifestação realizada ontem em Hong Kong, a que aderiram mais de meio milhão de pessoas! Toma! Ou quase meio milhão, não interessa, porque isto não se fala de "meio milhão de pessoas" com quem fala das quatro finalistas ao concurso Miss Universo. Imaginem o que era agora meio milhão de pessoas vos aparecerem à porta com uma garrafa de schnapps e dizerem que iam "crashar" na vossa casa esta noite? Fico contente que tenha estado lá malta de Macau, ainda que sendo os mesmos de sempre, para nos contar como foi. A Macau Conscience em colaboração com o ANMD, ou vice-versa, tanto faz, esteve lá a apoiar os seus camaradas de armas, e não estiveram sós - outra vez: meio milhão. Longe vão os tempos em que os activistas eram deixados a falar sozinhos, como se fossem maluquinhos. Lembram-se? Não foi assim há tanto tempo. Têm saudades? Eu também não. Ai têm? Fascizóides do c..., cúmplices da escória qu afundou o sonho da realização do segundo sistema. Ainda estão à espera que os gajos venham com soluções? Esperem sentados. Não vale na hora da morte pedir "só mais um instantinho, que está quase, quase".

O mais interessante aqui é a questão da mobilidade. Da quê? Mobilidade. Passo a explicar: as autoridades de Hong Kong estão certamente carecas de saber quem são Jason Chao, Sulu Sou, Kam Suet Leng et all, e em pleno dia 1 de Julho, data que assinala mais um aniversário da RAEHK e para a qual está programada a maior manifestação da história da mesma, eles valsam pela imigração e entram no território vizinho, quais bailarinos do elenco do "Quebra-Nozes", mesmo com as tais autoridades inteiramente a par das suas intenções - não iam fazer compras ao Marks & Spencer, certamente. Paradoxalmente, cada vez que se assinala um aniversário da nossa querida RAEM, é barrada a entrada a residentes de Hong Kong, alguns deles por razões que...bem, por razões que. O que querem que eu vos diga, quando um professor universitário que nunca foi multado em Macau por atirar um papel para o chão, não faz mal a uma mosca, e em alguns casos tem ar de lingrinhas, é impedido de entrar por constituir uma ameaça à segurança, apenas por expressar pontos de vista divergentes da nomenclatura?

O único fundamento escrito para justificar isto consta do nº 4 do artº 17º da Lei 9/2002, a lei de bases da segurança interna: "Impedimento de entrada na RAEM ou expulsão de não residentes que, nos termos da lei, sejam considerados inadmissíveis ou constituam ameaça para a estabilidade da segurança interna, ou sejam referenciados como suspeitos de conotações ao crime transnacional, incluindo o terrorismo internacional". Reparem do detalhe da letra da lei: nos termos da lei, ou seja, é vedada a entrada que "sejam considerados inadmissíveis (...) ou sejam referenciados (...)" nos termos da lei. Ou seja, alguém que já tenha sido referenciado ou cometido actos que o levem a ser considerado indesejável. Não são os badamecos dos polícias, que em muitos casos só têm o 9º ano tirado à pressão, que vão aplicar a lei, que tanto trabalho deu a gente que leu livros cheios de letras e sem bonecos do princípio ao fim a elaborar, e dizer a alguém completamente insuspeito e com o cadastro limpo que "não pode entrar" por ser "uma ameaça à segurança". Plamordedeus, pá, tenham dó.

Só se for com receio de transmitir a pieguice por contágio que estas traças do livro vindas de Hong Kong não podem entrar. Talvez faça parte do plano global de estupidificação da glebe, entretanto suspenso a 25 de Maio último por motivos de "tomada das pessoas como parvas", e quisessem evitar que viessem aí esses académicos ensinar alguma coisa a alguém, e se for jovem, isto pode ser interpretado como "corrupção da juventude". Uhhh...não sabiam? Está lá bem claro, escarrapachado no nº 1 e único do artº 1 e último do Código dos Totós que me fazem sentir vergonha de ir ali ao lado e dizer que sou de Macau. Tenho dito.



Acção cívica "in motion": foi mesmo aqui ao lado


Cerca de quinhentas mil pessoas sairam à rua ontem em Hong Kong por altura do 17º aniversário da criação da RAEHK, exigindo democracia, sufrágio directo e universal, e sobretudo para manifestar o seu descontentamento com o Executivo liderado por CY Leung. A organização fala em 510 mil manifestantes, enquanto as autoridades falam em 98600 - menos de cem mil, ou seja um quinto dos números avançados pela organização, e muito aquém dos números reais, mesmo que meio milhão peque por excesso - o que não parece ser aqui o caso. Esta discrepância foi ridicularizada nas redes sociais, mas também não era caso para tal. O que muita gente não está a levar em conta é o facto deste ser um povo que gosta de apostar, para quem o jogo é o princípio, o meio e o fim de tudo. Esta estimativa funciona como o "black jack" - sabendo que os manifestantes iam com toda a certeza exagerar nos números da adesão, a polícia joga pelo seguro, apostando num valor que não ia rebentar. Os organizadores da manifestação têm 20 pontos e pedem mais uma carta, a polícia tem um duque e fica-se. Parece-me sensato. Quem "rebentou" mesmo foram 500 elementos do maranhal - 511 mais precisamente, 351 homens e 160 mulheres, segundo fontes policiais - que não observaram a lei, manifestando-se onde não lhes era permitido, e acabaram o feriado na choldra. 511 em 510 mil parece insignificante em termos proporcionais. Faz lembrar um certo colégio eleitoral que escolhe o CE deste lado do Rio das Pérolas. Pode-se considerar então que esta manifestação, a maior da história da RAEHK, decorreu pacificamente, e parece que o essencial da mensagem ficou transmitida: a malta em Hong Kong não está satisfeita, e quando diz que quer ser ela a escolher o Chefe, está mesmo a falar a sério.

Isto vem levantar a velha questão da participação cívica e educação política dos residentes de Hong Kong comparada com a sua congénere de Macau, que neste ponto de discussão parece não ter muitos argumentos. Mais uma vez o contraste faz-se pela forma extrema como em Hong Kong se abordam os temas fracturantes, enquanto que deste lado existe uma perigosamente acomodada passividade - mesmo que gradualmente isso esteja a mudar. Já desisti dessa ladaínha do meio-termo, pois quem sou eu para entender o que vai nestas cabecinhas que de uma forma ou outra, só têm levado com a moca nos últimos cinco mil anos? Começo a pensar que é muita ousadia da minha parte começar a tentar racionalizar algo que não está nos limites das minhas capacidades. A questão da "consciência política" é uma árvore que nasceu torta. Enquanto as negociações para a transição de Hong Kong foram feitas "na marra", com as partes a puxarem a brasa à sua sardinha, muitos murros na mesa e muitas horas de sono perdidas até se chegar a consenso. Em Macau foi tudo feito com muita diplomacia, muitos paninhos quentes, tudo em nome de um ideal abstracto que hoje pouco ou nenhum valor tem, o da "amizade secular entre os dois países". No fim há quem diga que ficámos a ganhar com a nossa posição "conciliadora" (leia-se "de perna aberta"), e mais bem vistos ao olho de Pequim. Mas será mesmo assim? É que nesta coisa dos "bons alunos" e dos "filhos pródigos", especialmente quando se trata da China, é como um lindo dia de sol com céu limpo no Kansas: nunca se sabe quando pode chegar um tornado que arranque tudo do chão.

De um lado estavam uns gajos que roubaram o território aos chineses recorrendo a um expediente nada ortodoxo, viciando-os no ópio, e que não queriam abrir mão dessa posse nem à lei da bala, do outro estavam os "anjinhos" com o conto da carochinha dos comerciantes, do entreposto, conversa para boi dormir, que só queriam era açambarcar a maior quantidade de patacame possível para tornar a "barra dura" que é a vida no "rectângulo" lá nos confins da Eurásia menos insuportável. No essencial, do que ficou, os primeiros sairam de cabeça erguida, dotando a recém-criada Região Administrativa de valências que asseguravam a manutenção de um sistema pluralista, democrático, onde ficavam garantidas e imaculadas as mesmas liberdades e direitos que vigoravam antes da transferência de poderes; e ficou ainda o recado: "estejam atentos, certifiquem-se que são cumpridos os compromissos, não temam em caso de precisarem de demonstrar o vosso descontentamento, e sobretudo participem na vida social e política, sem inibições". Aqui foi "ok, 'tá bem, adeus ó vai-te embora, olha se quiserem ficar aprendam mandarim e tal, eu no vosso lugar bazava era daqui p'ra fora, fosga-se que estes gajos são lixados, chau-chau Penha, olá Quinta Patiño, aguenta que eu vou a caminho, e epá boa sorte, que vão precisar dela". De um lado tivemos lordes ingleses a tratar do trespasse, aqui tivemos chicos-espertos. Ainda perguntam porque é que os tipos lá em Hong Kong são "assim", como se isso fosse uma coisa má?

Depois há a questão da exigência. Quer dizer, Hong Kong é uma praça financeira mundial, e não há ali a galinha dos ovos de ouro do jogo e dos respectivos impostos sobre o mesmo, que enchem os cofres do erário público, faça chuva ou faça sol. Em Hong Kong há compromissos com outros mercados financeiros mundiais, com grandes multinacionais, investe-se, aplicam-se investimentos, especula-se mas apenas dentro dos limites do que é especulável (a habitação em Hong Kong é e sempre foi caríssima, e nenhum maluco se ia atrever a especular a esse nível; se o fizeram aqui foi porque deixámos, portanto fomos burros), e vive-se no fio da navalha das oscilações das bolsas, das subidas e descidas dos câmbios, dos ditames da geopolítica mundial; portanto é preciso ser vivo, esperto, e fazer as continhas bem feitas. Aqui fica-se deitado na rede, à sombra da bananeira à espera que as bananas nos caiam na mão de maduras, fazem-se contas de merceeiro com o lápis atrás da orelha, e se não bate certo é só tapar os buracos com o dinheiro dos casinos. Além disso ninguém se importa muito ou questiona onde vai parar todo o dinheiro, e as misteriosas empresas anónimas sediadas em "offshores" caribenhas são elefantes voadores que se teima em fingir que não existem, mesmo que nos acertem com uma póia de cinco quilos na tola. Isto tem todos os ingredientes da velha fábula da cigarra e da formiga, e só fico a cruzar os dedos paa que não tenha um desfecho igual. A propósito, a cigarra somos nós, Macau, caso isso não tenha ficado claro.

Existe um conceito um tanto ou quanto estrambólico de que os honconguenses "têm inveja de Macau". Inveja do quê, exactamente, não sei, mas esta mirabolante teoria vem suportada por algumas "campanhas negras" alegadamente orquestradas do lado de lá contra o lado de cá, nomeadamente através da imprensa, que pega em tudo o que seja notícia negativa a nosso respeito, e por vezes "exagera". Bem, concordo nisto, mas apenas em parte. É um facto que a imprensa de Hong Kong não nutre muita simpatia por Macau, isso já ficou provado em mais que muitas ocasiões, mas essa de "pegarem em notícias negativas" tem muita piada. Sei que aqui a malta gosta do sabor da rolha que lhe obstrui o buraco por onde canta "karaoke", mas daí a pedir que os outros provem do mesmo xarope, só pode ser mesmo uma piada de mau gosto. Os cheques, pois os cheques, como os gajos se roem de inveja, ao ponto de muitos deles se terem metido no "jetfoil" e virem até cá inventar histórias do arco-da-velha que provem a sua ligação com o território, e com isso adquiririm o BIR que lhes dê direito a que caia um chequezinho na conta uma vez por ano sem mexer um dedo. A dolce far niente, versão Made in Macau. É um facto que isto aconteceu, e eu próprio lidei com algumas destas pessoas no âmbito das minhas funções profissionais, mas gente somítica há em toda a parte, e não vão ser dois mil e tal ou três mil desocupados que me convencem que aqui ao lado há sete milhões de "cravas". Além do mais os poucos com que lidei eram gente educadíssima, que não veio exigir nada nem fazer barulho, e todos eles vinham com ambições legítimas - mesquinhas, mas nem por isso menos legítimas.

Quando faço estas comparações lembro-me sempre do saudoso tio avô da minha mulher, o irmão do seu avô do lado materno, que viveu toda a vida em Hong Kong e depois de se aposentar mudou-se para Macau, para ficar junto da família e para ter um pouco daquilo que ele considerava "sossego" - entretanto muita coisa mudou desde que ele faleceu, vai para sete anos. Na hora do jantar, com a família toda reunida à volta da mesa e com o canal chinês da Pearl como som de fundo, era vê-lo a barafustar por tudo e por nada na hora das notícias, e isto com mais intensidade durante o consulado de Tong Chee-Wa, o primeiro líder do Executivo da RAEHK, de quem o senhor era bastante crítico. Este era um homem que chegou a viver dos juros mensais que lhes rendiam as economias depositadas no banco - ele lá precisava de um pífio cheque uma vez por ano. Depois do evento da RAEHK, acabou-se o que era doce, e ele não se inibia em expressar os seus pontos de vista alto e bom som; podia não perceber nada de economia, mas das suas contas sabia ele, e das linhas por onde se cosia. Como eu adorava dominar a língua, só para poder ficar horas e horas e ouvi-lo e trocar impressões com ele, com o sr. Lok. Enquanto ele protestava, visivelmente irritado, esbracejava e preguejava, a sua "família de Macau" preferia preencher as vias de comunicação com arroz e massa. Isto diz quase tudo quanto à diferença entre os nativos dos dois lados do Rio das Pérolas em termos de verticalidade.

Claro que perante toda esta insatisfação, Pequim fica a torcer o nariz. Duvido que torça o nariz aos manifestantes, que se não estão contentes, devem ter as suas razões. Podem acusar os honconguenses de tudo menos de falta de patriotismo; ficariam quietinhos se estivessem satisfeitos, e certamente que arranjavam algo mais interessante para fazer numa tarde de calor de um dia feriado do que andar a marchar pela rua. Pequim olha antes com desdém para os artistas, e faz uma auto-análise, e de seguida uma auto-crítica - e se não faz, devia fazer. Quer dizer, não é de bom tom que um empreendimento da responsabilidade que é este das RAEs, que visava conciliar a soberania da R.P. China, um estado autocrático e comunista, e um sistema de economia liberal sustendado em princípios comuns a democracias ocidentais - o chamado segundo sistema - ficasse a cargo de homens de negócios, cuja maioria deles já havia feito fortuna durante a administração colonialista, ora em conluio, ora paralela a esta, mas sempre com a sua anuência. O que sabem os homens de negócios fazer senão fazer dinheiro para eles e para os que protegem os seus intersses? Neste aspecto Hong Kong ainda teve mais azar com o que lhes saíu na rifa do que Macau; os CE da ex-colónia britânica deviam ter aprendido com o nosso actual: "look busy, do nothing". Quanto menos se faz, menos se erra, e essa parece ser uma máxima que colhe por estas bandas. A verdade é que se ainda fosse Deng Xiaoping, o "pai" do princípio idealizado para as duas regiões a dirigir a banda, os "chefes" com mais olhos que barriga que perverteram o seu ideal tinham sido corridos à vassourada logo à primeira tonteria.

Se a China tivesse optado por pessoas inteligentes com os conhecimentos mínimos de política - e não, não me refiro aos tecnocratas do Politburo, mas gente de Hong Kong e de Macau, e se não os formou, falhou também nesse ponto - que soubessem aplicar a Lei Básica e tivessem a elasticidade mental para saber interpretá-la, tudo seria com toda a certeza diferente. Reparem como se passaram 17 e quase 15 anos, respectivamente, e nem uma emenda às leis básicas foi feita; e já era altura. Ter uma constituição com a qualidade da Lei Básica, e isto é inquestionável, e não adaptá-la à realidade presente, é como um hospital adquirir um equipamento sofisticado, topo da gama, e deixá-lo dentro da caixa sem usá-lo com receio de o partir. Era colocar estes "cérebros" a tomar conta do segundo sistema, procurando sempre pontos de equilíbrio com o primeiro, evitando interferências e choques com o mesmo, e pagar-lhes um ordenado generoso pelo seu desempenho - e talvez aqui fizesse sentido a tal lei das Garantias para os altos-cargos, que na forma actual tem contornos de delírio. Em vez disso temos uma corporocracia levada a cabo por gente que não entende nada de política, não tem tacto para lidar com as classes baixas porque as únicas com que teve contacto são os seus subordinados, enfim, um erro crasso que agora é tarde para corrigir.

Portanto se perguntarem "o que querem estes tipos de Hong Kong", a resposta é muito simples: querem aquilo a que têm direito, e que lhes foi prometido. Com a malta aqui do lado não se faz "caixinha". Atrevesse-se um Stillwell qualquer a lançar fogo em palha seca como fez deste lado, colocando em cheque tudo aquilo para que se trabalhou no sentido de vigorar um sistema onde as populações das RAEs aceitaram viver - e não me digam que aceitavam incondicionalmente ficar aqui na mesma se Macau e Hong Kong tivessem sido completamente absorvidos pela RPC desde o início - e tinhamos o caldo entornado, e até a barba do padreco ficava a prémio. Foram 510 mil vozes, ou 500 mil vá lá, não foram noventa e tal mil como diz a lírica polícia honconguense, nem "meia dúzia de malucos", como eram apelidados os "bate-pé" do costume aqui em Macau durante anos. Se há algo que deviamos apreender olhando para o que aconteceu aqui ao lado ontem, era que talvez devíamos elaborar uma lista de "presentes", e antecipar o Natal cinco dias, para 20 de Dezembro. Não apelo (nem recomendo) que se faça o mesmo, que se tomem as ruas de assalto, mas que se pondere fazer aquele gesto que fazemos normalmente quando é hora de qualquer coisa, batendo com o indicador no pulso, e perguntar: "então meus meninos, e nós, no que ficamos?".

Imagens da semana






Do mundial do Brasil, claro, onde a criatividade não tem limites, dentro e fora de campo.


Ladies and gentleman: Mr. Carlos do Carmo


Esta é uma daquelas notícias que dá gosto dar: Carlos do Carmo venceu um Grammy, o prémio que está para a música como os Oscares estão para o cinema. O fadista, que assinala este ano 50 anos de carreira, foi distinguido pelo Latin Academy of Recording Arts and Sciences [LARAS] que decidiu por unanimidade atribuir-lhe "Lifetime Achievement Grammy", que distingue carreiras de referência no panorama internacional, sendo o primeiro artista português a receber o prémio. Agora antes de continuar, permitam-me um pequeno desabafo: CHUPA, MANOEL DE OLIVEIRA! PODES ANDAR MAIS 100 ANOS A FAZER FILMES QUE DA ACADEMIA NÃO LEVAS NADA! FICA LÁ COM AS TUAS MENÇÕES HORROROSAS HONROSAS DO FESTIVAL DE CANNES QUE SÓ TU É QUE AINDA NÃO PERCEBESTE QUE ELES SÓ TE DÃO AQUILO PARA VER SE TU NÃO CHATEIAS MAIS, Ó GIMBRA TEIMOSO! Pronto, já está. Obrigado.

Carlos do Carmo tem um vastíssimo reportório queinclui temas que toda a gente conhece - mesmo quem não gosta de fado - casos de "Canoas do Tejo", "Estrela da Tarde", "Os Putos" (censurado no Brasil, eh, eh), "Lisboa Menina e Moça", "O Cacilheiro", "Homem das Castanhas", "Um Homem na Cidade", "Por Morrer uma Andorinha", entre outras. Cantou os maiores poetas contemporâneos portugueses, como Manuel Alegre, Frederico de Brito, Ary dos Santos e muitos mais, e é considerado um dos maiores contribuidores para que o fado, a canção nacional, fosse elevada a património intangível da humanidade pela UNESCO. Em 1976 venceu o festival RTP da canção com "Uma Flor de Verde Pinho", e foi representar Portugal a Haia no Festival da Eurovisão. A mãe de Carlos do Carmo, Lucília do Carmo, era também ela uma conhecida fadista.

O prémio será entregue durante a cerimónia dos Latin Grammy Awards a 19 de Novembro no MGM Grand Garden Arena em Las Vegas, e já agora permitam-me uma maldadezinha; estou muito contente pelo Carlos do Carmo, e fosse eu outro tipo de pessoa, estaria até orgulhoso, mas o que vão dizer o Enrique Iglesias, a Shakira ou a Jennifer Lopez quando o fadista subir ao palco? "Deve ser um artista que não pode vir e mandou o avô vir receber o prémio". Ah! Desculpem...um grande abraço, Carlos do Carmo, e parabéns! Você merece!

Caíndo na real


E aí está, terminaram ontem os oitavos-de-final do mundial Brasil 2014, e depois de uma fase de grupos onde vimos futebol bonito e de ataque, muitos golos (apenas menos nove que o total do mundial anterior), eis que a competição entra na fase a eliminar, e "caímos na real", como se diz lá por terras do samba. Cinco das oito partidas destes oitavos necessitaram de prolongamento, e duas delas foram até à sempre ingrata decisão através dos pontapés da marca de grande penalidade. Três delas terminaram empatadas a zero ao fim dos noventa minutos, mas essas foram decididas no tempo-extra. O Argentina-Suíça ia juntando o pior dos dois mundos, não fosse por Dí Maria "desempatar" a dois dos 120. Valha-nos isso.

Numa fase da prova em que o mínimo erro pode significar a morte do artista, é normal que as equipas exerçam outro tipo de cautelas, mas no lado positivo, todas as oito selecções presentes nestes quartos-de-final venceram pelo menos dois jogos nos 90 minutos regulamentares. A impressionante Colômbia, a única a obter uma vitória convincente nos oitavos, e a Holanda, que somou a décima vitória em onze partidas de mundiais, continuam totalistas, com 4 triunfos. A França somou frente à Nigéria a terceira vitória, igualando Argentina e Bélgica, que foram obrigadas a "trabalho extraordinário" para bater Suíça e Estados Unidos, respectivamente. Brasil, Alemanha e Costa Rica somaram também duas vitórias no tempo regulamentar, e todas obtidas na fase de grupos.

Continuando pelas estatísticas, a Europa evitou um desastre maior do que o verificado na fase de grupos, onde "perdeu" sete das 13 selecções que representaram o velho continente, e das seis que restaram, apenas Grécia e Suíça ficaram pelo caminho, restando quatro entre os oito finalistas - metade, o que não é nada mau. Da América do Sul cinco das seis em prova sobreviveram à fase de grupos, ficando agora mais duas pelo caminho: Chile e Uruguai - teriam sempre que ficar pelo menos duas, pois defrontavam outras do mesmo continente. A CONCACAF viu três das quatro selecções passaram aos 16 finalistas, mas México e Estados Unidos ficaram pelo caminho, sendo agora a Costa Rica a única sobrevivente daquela Confederação. A África vê novamente adiado o sonho de chegar finalmente a uma meia-final, pois os seus dois únicos representantes que lhe restavam nestes oitavos - Nigéria e Argélia - ficaram pelo caminho.

A competição prossegue durante o fim-de-semana, como Brasil-Colômbia e Alemanha-França esta sexta-feira, decidindo-se já dois semi-finalistas, que depois discutirão entre eles um lugar nas final. No Sábado temos o Holanda-Costa Rica e o Argentina-Bélgica, de onde sairão os outros dois semi-finalistas, e consequentemente destes, o outro finalista. Começa-se a decidir tudo já nos próximos dias, no Brasil 2014. No dia 13 saberemos quem levantará no Maracanã a Copa do Mundo.

Bélgica-2 EUA-1


E este podia ter sido o nosso jogo dos oitavos-de-final, tivessem aparecido os três golos que faltaram contra o Gana na fase de grupos. Mas fora de brincadeiras, na Arena Fonte Nova em Salvador da Bahia, onde Portugal foi goleado pela Alemanha no jogo de abertura do Grupo G, estiveram Bélgica e Estados Unidos. "Estiveram" é uma força de expressão, pois durante os noventa minutos do tempo regulamentar, não "estiveram" de todo, ou melhor, viu-se uma Bélgica mais afoita e com mais vontade de ganhar, mas foi preciso esperar pelo prolongamento para se ver algum futebol - e talvez este tenha sido um dos mais emocionantes 30 minutos extra da história. Foi aí que os belgas conseguiram finalmente expressar a sua maior qualidade, quer técnica, quer em termos de valores individuais, e neste particular há um nome a reter: Kevin de Bruyne, médio de 23 anos ao serviço dos alemães do Wolfsburg, e a quem os belgas ficam a dever a passagem aos quartos-de-final. De Bruyne marcou o primeiro e assistiu Romelu Lukaku para o segundo, e tudo isto na primeira metade do prolongamento. Os norte-americanos acreditaram que ainda era possível reagir a estes dois golpes aparentemente fatais nas suas aspirações, e dois minutos depois da troca de campo reduziram por Julian Green, e partir daqui foi um corropio de oportunidades para ambos os lados, com a indecisão sobre se a partida iria para "penalties" a durar até ao apito final. A Bélgica está merecidamente nos quartos-de-final pela primeira vez desde 1986, onde por acaso também chegariam às meias-finais, onde perderiam para a Argentina de Maradona, que se sagraria campeã mundial. Agora o adversário é outra vez a Argentina, desta feita sem Maradona mas com um substituto sofrível, que dá pelo nome de Messi, e vamos ver se os "diabos vermelhos" se vingam. Seja como for, é um encontro entre duas equipas que nos estão a dever mais do que prometeram.

Argentina-1 Suíça-0


A Argentina seguiu para os quartos-de-final do mundial Brasil 2014 - o mínimo que se exigia deles - ao bater a aguerrida Suíça por uma bola a zero na Arena Corinthians em S. Paulo. Os argentinos ainda não se "mostraram" nesta competição, e continuam a ser uma equipa muito "partida", sem profundidade, e muito dependende de Messi, que nem sempre está nos seus dias, como foi exemplo este jogo. Talvez temendo outra goleada como aquela sofrida frente à França, os suíços temeram sabe-se lá o quê, e mesmo quando o treinador alemão Ottmar Hitzfeld arriscou, mexeu apenas no "tridente" ofensivo, refrescando-o com as entradas de Gelson Fernandes para o lugar de Granit Xhaqa, Haris Seferović para o lugar de Josip Drmic, e já no prolongamento Blerim Džemaili para o lugar de Admir Mehmedi, mantendo a confiança nos creativos Xerdan Shaqiri, Gokhan Inler e Valon Behrami (tudo nomes super-suíços), que mesmo assim esbarravam na bem organizada defensiva argentina. O jogo foi, para descrevê-lo apenas numa palavra, aborrecido, e seria graças ao génio de Angel Dí Maria, que foi sempre o mais incoformado dos 22 que pontificaram em campo, que não sei decidiu a equipa que passava aos quartos-de-final nos "penalties" - o que seria um prémio para os suíços e um castigo para os sul-americanos. O ex-jogador do Benfica, que tem tido os seus altos e baixos em termos de protagonismo no Real Madrid, encontrou o caminho para as redes de Diego Benaglio aos 118 minutos, a dois do fim do tempo extra, o que obrigou os europeus a despertar, mas apenas tarde demais. A Argentina tem tido um caminho alcatifado até esta altura da prova, e quem sabe se na fase seguinte frente aos belgas serão obrigados a renunciar ao paletó e a vestir o fato-macaco. O mesmo se aplica aos seus vizinhos brasileiros, isto para quem anseia por uma final Brasil-Argentina, que a esta altura seria claramente uma injustiça.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Santo Niño de Cebu


Nesta minha primeira saída de Macau em quase dois anos (dava para qualquer um ficar maluco) dei um pulo até Cebu, ilha da província de Vissayas, nas Filipinas. Em primeiro lugar peço desculpa pelo ar desmazelado, mas com algum exagero à mistura, posso quase dizer que passei tanto tempo em trânsito como nos locais que visitei, tais são as distâncias e a forma deficitária como se processam as deslocações, que requerem várias horas ora de avião, de autocarro ou de barco, coisa típica de países terceiro-mundistas - mas isso são contas de outro rosário. E é de rosários, de fé e de devoção, neste caso particular da denominação cristã que vos queria falar. Sim, fui testemunhar um pedaço importante da nossa história relacionada com os descobrimentos: a adoração do Santo Niño de Cebu.


Cheguei na sexta-feira a Mactan, ilha separada de Cebu pelo canal com o mesmo nome e onde se situa o aeroporto internacional que dista da capital Manila a uma hora e vinte minutos de vôo. Mactan é uma municipalidade dividida por Lapu-Lapu City e Cordova, dois distritos que entre si abrangem uma área de 6615 km2, com 430 mil habitantes. Para quem se encontra no centro de Mactan e quer chegar à Catedral do Santo Niño de Cebu deve apanhar um táxi e pedir que o levem a "Magellan Cross" - cruzamento de Magalhães. Este Magalhães não é mais que o "nosso" Fernão de Magalhães, aqui conhecido por Ferdinand Magellan, o navegador português cuja frota completou a primeira viagem de circum-navegação à volta do mundo. O edifício na imagem é o da Câmara Municipal, situado mesmo em frente à dita catedral, humildemente designada por "capela".


Depois de chegar ao "Magellan Cross" e "fintar" os inúmeros pedintes e vendedores de recordações que estrategicamente se colocam entre o cruzamento e a capela, chegamos à praça onde se localiza o edifício municipal, e em frente a este um pequeno memorial onde podemos ver a "cruz de Magalhães" - nem mais que a cruz de madeira que o navegador português implantou à chegada a estas terras do fim do mundo, onde encontrou a morte às mãos de um nativo de seu nome Lapu-Lapu. Nos nossos livros de História Lapu-Lapu é referido como sendo um "pirata", quando na verdade era apenas um nativo de Cebu que se recusou a ajoelhar-se perante a cruz cristã, e como tal foi confrontado por Magalhães e seus homens (na maioria espanhóis), que em inferioridade numérica (cerca de 50 para mais de 3 mil) foram chacinados pelos nativos.


No interior da capela, cuja entrada pouco ou nada diz da sua sumptuosidade (a fotografia não ficou em condições de ser publicada, mas não tem motivos de interesse por aí além) é possível testemunhar a devoção dos fiéis de Cebu e de outros pontos das Filipinas ao Santo Niño. Tal como em Fátima, temos os vendedores de velas avulso, e dessas velas milhares são queimadas diariamente, num cerimonial onde impera sobretudo o silêncio e a rendição ao divino, que nos deixa quase sem palavras. É difícil permanecer indiferente ao cenário, e tratá-lo como uma mera curiosidade turística. Confesso que este foi o momento mais deslumbrante de demonstração de fé cristã que vi desde do 13 de Maio em Fátima. Arrependo-me agora de não ter recolhido alguns segundos de imagens em vídeo, que ilustrariam com mais fidelidade o momento que presenciei ali, numa ilha do centro das Filipinas, no sudeste Asiático.


Após o local onde se procede à queima das velas, temos esta espécie de santuário que faz em tudo lembrar o joelhódromo de Fátima, mas onde não se via vivalma, nem indicação de um possível acesso à capela localizada na torre cimeira. Sem guia turístico ou qualquer outro tipo de orientação, fiquei sem saber se existe alguma ocasião onde esta pequena praça (um pouco maior que o Largo do Lilau, em comparação) se enche de fiéis, e para que fim. Após consulta na internet, fiquei a saber que a Páscoa é a época alta da devoção ao Santo Niño - nem outra coisa seria de esperar.


À entrada da capela, e do lado direito, temos um corredor onde podemos contemplar uma série de frescos, o primeiro dos quais ilustrando a chegada de Fernão de Magalhães a Cebu, em 1521, ao serviço do rei Carlos V, de Espanha. Segundo o cronista italiano Antonio Pigafetta, que acompanhou o navegador português nesta viagem, Magalhães teve sucesso na conversão do chefe tribal Humabon, o rajá de Cebu, e sua mulher Humaway, à fé cristã, e depois do baptismo estes adoptaram respectivamente os nomes de Carlos, tal como o rei espanhol, e Joana, mãe deste, e juraram ainda fidelidade à coroa de Castela, dando-se assim um importante passo na anexação do arquipélago das Filipinas, chegando a uma das regiões consideradas mais "selvagens".


Como recordação do momento em que converteu o rajá de Cebu à fé cristã, Magalhães ofereceu aos recém-convertidos a imagem de Cristo como criança, que ficou conhecida como a relíquia do Santo Niño de Cebu. Recolhi esta imagem pouco clara, ao fundo da capela do Santo Niño, vedada e reservada apenas aos crentes, mas tive a oportunidade de passar em frente a ela, numa sala onde pode ser contemplada e o vidro da redoma onde se encontra enclausurada pode ser tocado pelos fiéis. Confesso que fiquei espantado com o que vi. Os leitores que já me conhecem sabem que sou agnóstico, mas quando cheguei à sala onde estava a imagem - e desconheço se é a original - estava um transsexual lavado em lágrimas a afagar o vidro, e seguiram-se outros devotos igualmente comovidos, e de absorto que estava perante aquele cenário, esqueci-me por completo de registar o momento. Desconfio mesmo que a imponência da presença daquela relíquia me deixou sem reação para poder racionalizar aquele momento.


Algo comum que os crentes filipinos partilham com os espanhóis é adoração do Cristo mártir. A Paixão sobrepõe-se ao nosso lado materno da adoração da virgem, do culto mariano, e tal como "nuestros hermanos", os filipinos prostam-se à imagem do salvador martirizado, ensanguentado, morto em nome da salvação da espécie humana dos seus pecados. Este figurino era um dos mais concorridos, mas não faltavam outros onde se podia ver Jesus pregado na cruz, coroado com os espinhos, chagado, e em último recurso...


...morto. E nem um caixão onde se podia ver o corpo de Cristo faltava. Eram vários os fiéis que se aproximavam deste sarcófago, batiam no vidro, como que esperando uma reacção da figura artificial inanimada feita em madeira. Outros falavam com ele, outros ainda sussuravam-lhe. Para um agnóstico como eu isto é um fenómeno espantoso, e por momentos recorri à suspensão do descrédito como mecanismo de defesa a algo que nunca pensei, em pleno século XXI, testemunhar ao vivo e a cores, e com tamanha intensidade.


À saída da capela, e entre as incontáveis tendinhas onde se podem comprar recordações, comida e outros tipos de pasalubong (palavra em "tagalog" para "souvenir") não faltam os "santeiros", que vendem réplicas de tudo o que se pode encontrar na capela do Santo Niño, e muito mais. Uma visita que recomendo não só aos devotos da fé católica, que assim a assinalam com um "tick" na lista de "locais de devoção a visitar", mas a todos os apaixonados da história, e da sua vertente da evangelização. Prometo que não se arrependem. E já agora, Mactan é uma cidade acolhedora, agradável e segura, e para quem gosta de ir a banhos, recomendo a ilha de Bohol - mas vou avisando: são duas horas de barco, e uma vez lá chegados pelo menos mais um "esticão" de táxi até ao hotel ou "resort" mais próximos. E os caçadores de "tours" e até os próprios taxistas são chatos como a putaça.


Em jeito de epílogo, vou-vos falar de Lapu-Lapu, que originalmente era um "datu" (uma espécie de príncipe, neste caso líder tribal) da ilha de Mactan, arquipélago de Cebu, e actualmente considerado um dos heróis nacionais das Filipinas. Inicialmente tido como um resistente à colonização espanhola e ao esclavagismo, caíu das boas graças do rajá de Cebu aquando da conversão deste ao cristianismo, e pior ficou quando o sangue de Fernão de Magalhães sujou as suas mãos. Posto isto, isolou-se nas ilhas adjacentes a Mactan e para sobreviver recorreu à pirataria, atacando os navios cristãos que se acercavam das águas das regiões que controlava com os seus homens. Eventualmente viria a fazer as pazes com Humabon, e terminaria os seus dias numa das ilhas do arquipélago do Bornéu, com onze dos seus filhos, três das suas mulheres, e dezassete dos seus homens. Variedade não lhe teria faltado, com toda a certeza.

James Rodríguez: nós vimos uma estrela nascer


Não é todos os dias que nos damos ao luxo de ver em primeira mão, ao vivo e a cores uma estrela nascer. Futebolisticamente falando, os mais velhos - e muitos que já cá não estão, onde se inclui o meu saudoso pai - viram o despontar de Eusébio, o "pantera negra", para mim um dos melhores avançados de sempre, com lugar em qualquer 11 ideal da história do futebol, ou pelo menos nos 16, sendo sempre primeira opção entre os que ficariam no banco. Depois tivemos Paulo Futre, um génio irreverente que pagou essa mesma irreverência com uma lesão no joelho que o afastou prematuramente, e que das escolas do Sporting passou ainda pelo FC Porto, onde conheceu a glória de um título europeu, e depois de vários como figura de proa de um atribulado Atletico de Madrid, ainda teve uma breve passagem pelo Benfica, onde conquistou uma Taça de Portugal, antes da transferência para Itália onde uma lesão grave colocou fim à sua carreira. Luís Figo, que os adeptos sportinguistas acarinharam na sua juventude, viria a encantar em pólos opostos do futebol espanhol, com passagens pelo Barcelona e pelo Real Madrid, onde adquiriu em ambos o estatuto de estrela maior das constelações catalã e merengue, sendo que por estes últimos conquistou a Bola de Ouro em 2001, prémio para melhor jogador do mundo. Depois Cristiano Ronaldo, que deixando aos 19 anos o Sporting que o fez nascer para o futebol, conquistou a Inglaterra com a camisola do Manchester United, e a Espanha com as cores do Real Madrid, angariando títulos que seria por demais exaustivo estar aqui a mencionar.


Mas e estrangeiros? Será que nos podemos orgulhar de ser um ninho para estrelas internacionais do calibre de um Diego Maradona, de um Lionel Messi ou de um Neymar? Agora sim: o melhor jogador deste mundial do Brasil ganhou em Portugal maturidade para o futebol. O seu nome é James David Rodríguez Rubio, tem 22 anos, e entre os 18 e os 21 vestiu a camisola do FC Porto, com a qual venceu três campeonatos nacionais, uma Taça de Portugal e uma Liga Europa. Nas primeiras duas épocas este jovem astro colombiano, actualmente melhor marcador do mundial do Brasil, contou com a companhia do seu compatriota Radamel Falcao na frente de ataque dos Dragões, e depois da saída deste para o Atletico Madrid fez dupla com Jackson Martínez, também ele colombiano. Apesar do seu papel de municiador, James Rodríguez marcou com a camisola do FC Porto 32 golos em 105 jogos, somando a esse desempenho 21 assistências para golo. No final da época de 2012/2013, quando a sua qualidade estava acima de qualquer dúvida, foi vendido aos milionários franceses do AS Monaco por 45 milhões de euros, tornando-se a segunda maior transferência do futebol português, depois da venda do brasileiro Hulk para os russos do Zenit S. Petersburgo, que tinha saído um ano antes por 60 milhões de euros. Com ele sairia também o médio João Moutinho, que não se tendo afirmado nos monegascos, era pedra-chave do meio-campo azul e branco/ Componente financeira à parte, o que seria se o FC Porto pudesse contar ainda com Rodríguez, Hulk, Falcão e Moutinho no seu plantel?


Mas voltando a James Rodríguez. O pequeno génio nasceu a 12 de Julho de 1991 na cidade de Ibagué, capital do departamento de Tolima, um dos 32 que compõe a República da Colômbia, localizada no meio da região dos Andes. Filho de Wilson James Rodriguez Bedolla e Maria Del Pilar Rubio, começou a dar os primeiros toques na bola no Envigado Fútbol Club, da cidade vizinha de Ibagué onde os seus pais residiam, e chegou a profissional ainda com 15 anos, tendo feito parte da equipa que ascendeu à primeira liga colombiana em 2006/2007. Na época seguinte apontou 9 golos em 30 jogos, o que despertou o interesse dos argentinos do Club Atletico Banfield, onde ficaria durante ano e meio, entre 2008 e 2010. Pelo Banfield marcou no torneio de Apertura em 2009, e aos 17 anos tornava-se no jogador estrangeiro mais jovem a apontar um golo no campeonato argentino, . E esse foi apenas um de cinco com que contribuía para o título da sua equipa, o primeiro de sempre na Argentina, e na Copa Libertadores do ano seguinte dava nas vistas, nomeadamente numa vitória robusta no Equador frente ao Deportivo Cuenca por 4-1, onde marcaria também um golo. Pretendido em Itália pela Udinese, a oferta de 5 milhões de euros pelo emblema italiano foi considerada "curta", e por apenas mais cem mil euros (golpe de génio, diga-se de passagem), James vai no Verão de 2010 para a invicta.


A notícia que dava conta da transferência de James para o FC Porto foi dada desta forma pelo Hoje Macau na sua edição de 29 de Junho de 2010, onde a malta lampiã do maior jornal em língua portuguesa de Macau aproveita para lançar umas farpas ao rival, pois aparentemente o Benfica estava também na corrida pela jovem promessa colombiana - invejosos, é que eles são. Na altura acusei o "lapso" que de inocente nada teve referindo-me ao astro nestes moldes: "vale a pena insultar os leitores adeptos do FC Porto por causa da eventual contratação de um adolescente colombiano que ninguém conhece?". Pois se ninguém conhecia então, hoje todos conhecem muito bem, e razão tinham os encornados jornalistas na sua indignação, e enganado estava eu em pensar que James era "só mais um". Sem saber, fazia-se ali história. Até eu me engano, e quem me dera todas as vezes que me engano fossem com estes resultados.


Durante os três anos que passou de azul-e-branco vestido, foi o que se sabe, e depois da sua milionária transferência para o futebol francês, onde reencontrou o compatriota Falcao, ganhou mais protagonismo depois da lesão deste, terminando com um pecúlio de 10 golos em 38 jogos, com o Monaco a terminar em 2º lugar na Ligue 1, no ano em que regressou à divisão principal. Na selecção colombiana passou de esperança a certeza em 2011, no torneio de Toulon, onde apontou dois golos e marcou um dos "penalties" com que a Colômbia derrotou a França na final. Na campanha para o mundial de 2014, apontou 3 golos na zona de qualificação sul-americana, dois dos quais fundamentais para que o seu país terminasse em 2º lugar a apenas dois pontos da Argentina: na quinta ronda em Lima, na vitória por 1-0 frente ao Peru, e na 15ª ronda em Barranquilla frente ao Equador, também esse o único golo dessa partida, que valia a qualificação à Colômbia para uma fase final de um mundial pela primeira vez desde 1998.


A lesão do "matador" Falcao seria para alguns um golpe para as aspirações da selecção colombiana neste mundial, mas foi apenas uma oportunidade para James Rodríguez chamar a si o protagonismo que vinha há muito reclamando. Com Carlos Bacca, avançado do Sevilha, também a braços com uma lesão, e Teofilo Gutierrez, homem-golo dos argentinos do River Plate desinspirado, James tem sido o "abono de família" dos "cafeteros", sendo até ao momento o único jogador a marcar em todos os jogos do mundial. Primeiro assinou o terceiro na goleada por 3-0 contra a Grécia no jogo inaugural do Grupo C, depois abriu o marcador na vitória por 2-1 contra a Costa do Marfim, e deixou a sua marca contra o Japão na goleada por 4-1 com que a Colômbia selou a vitória no grupo. Na noite que Jackson Martínez deu um ar de sua graça ao apontar dois golos, James troca as voltas ao defesa japonês Maya Yoshida, que ainda está para perceber o que foi aquilo que passou por ele e o deixou ligado a uma máquina de hemodiálise, e preso a uma camisa de forças. Mas isso seria apenas o começo...


Seria a 28 de Junho que James marcaria no Estádio do Maracanã um dos golos mais lindos que aquele mítico palco do futebol mundial jamais assistiria. Um golo de fazer levantar qualquer estádio, e de fazer o mais céptico dos detractores desse espectáculo que é o futebol bater continência. A recepção, o remate colocado e com a força necessária antes da bola bater no chão, tudo pensado e executado em dois segundos, isto é arte digna de figurar nos anais do desporto-rei - noutras palavras, é futebol que dá tesão. Os defesas brasileiros devem estar a perder o sono a pensar como parar este fenómeno colombiano, os adeptos "cafeteros" perguntam "quem é Falcao?", e os amantes do bom futebol mal podem esperar pelo próximo capítulo desta história que começou a ser escrita em terras dos Andes, com muitas páginas a passarem pelo Dragão. Salvé o novo rei, salvé James Rodríguez.

Alemanha-2 Argélia-1


Depois da vitória da França eram muitos os que vaticinavam (ou temiam) uma reedição da guerra da independência argelina de 1954-62 entre gauleses e magrebinos, mas a Alemanha não deixou os seus créditos por mãos alheias, e venceu por 2-1 após prolongamento em Porto Alegre. Os comandados de Joachim Löw, que até agora só tiveram a vida facilitada contra Portugal, depararam com uma barreira defensiva argelina, e adiantaram-se no marcador no segundo minuto do tempo extra, quando Andre Schürrle correspondeu a um passe de Thomas Müller para fazer o primeiro. A Argélia, que se remeteu a uma postura mais sua, depois do deslumbramento da fase de grupos, onde marcou seis golos, tentou vir para cima, mas sofreria o segundo já em cima do minuto 120, por Mesut Özil. Quando já todos "arrumavam a loja", os argelinos apontavam o tento de honra, por intermédio de Abdelmoumene Djabou. Acabou o sonho argelino, e vamos ter uma apetecível Alemanha-França nos quartos-de-final.

França-2 Nigéria-0


A França demorou mas não falhou em provar a sua superioridade sobre a selecção nigeriana, que teve poucos argumentos para contrariar os franceses, que se colocam como sérios candidatos a chegar pelo menos à final deste mundial do Brasil. Paul Pogba, a jovem estrela da Juventus, deu expressão ao domínio dos gauleses apenas aos 79 minutos, e quando os africanos esboçaram finalmente uma reação, viram o seu defesa Joseph Yobo trair o guardião Vincent Enyeama, deixando o resultado em 2-0, que se afigura mesmo assim lisonjeiro para os africanos. Participação positiva para os nigerianos, que não atingiam esta fase da prova desde 1998.

Costa Rica-1 Grécia-1


Depois de Pedro Proença, outro português em acção no Domingo, desta feita Fernando Santos, treinador da Grécia, que teve a estrelinha a sorte a brilhar em Recife, para esta mais tarde o abandonar. Costa Rica e Grécia jogavam uma passagem aos quartos-de-final de um mundial que seria inédita para ambos, e os centro-americanos mostraram desde início as credenciais que os levaram a sair vencedores do "grupo da morte", onde tinham a oposição de três ex-campeões mundiais: Uruguai, Itália e Inglaterra. Bryan Ruiz, a estrela da equipa a par de Joel Campbell, adiantou os centro-americanos no marcador aos 52 minutos, e foi nos descontos que a Grécia chegaria ao empate - sem o merecer, realmente - por Sokratis Papastathopoulos. Nos "penalties" o único a falhar o remate foi Theofanis Gekas, furando as previsões de quem pensava que os gregos podiam fazer uma "gracinha", como no Euro 2004. Os costa-riquenhos vão encontrar a Holanda na sexta-feira em Salvador, na tentativa de levar mais longe o feito heróico neste mundial do Brasil.

Holanda-2 México-1


O México ficou perto de fazer história, quebrando assim um ciclo de cinco mundiais consecutivos a ficar-se pelos oitavos-de-final, mas "esbarrou" com Arjen Robben, o "cérebro" da selecção holandesa, e Pedro Proença, um árbitro português preponderante nestes "adeus mexicano". O latino-americanos contrariaram o favoritismo dos europeus e adiantaram-se no marcador no início do segundo tempo por Giovanni dos Santos - um grande golo, a apanhar em contrapé a defesa holandesa, e ainda neste momento o guardião Jasper Cillessen deve estar a pensar de onde veio aquele remate. O México partiu para a gestão do resultado, uma aposta arriscada que se viria a revelar letal, pois quem tem na frente jogadores como Wesley Sneijder, Dick Kuijt, Memphis Depay, Klas Inge-Huntelaar e especialmente Robben, consegue dar a volta a um resultado sem grande dificuldade. Assim aos 88 minutos na sequência de um canto, depois de confusão na área mexicana, Huntelaar deixa a bola à disposição de Sneijder, que "fuzila" a baliza de Ochoa, que fica imóvel perante a potência do remate do nº 10 "laranja". Quando tudo apontava para o prolongamento, eis que Robben "resolve", e com a ajuda de Pedro Proença. Mérito contudo para o extremo holandês, que faz um "slalom" pela esquerda, e podia muito bem fazer-se ao "penalty" no corte de carrinho de Diego Reyes, mas não o faz, e opta pela simulação na segunda tentativa de corte por Rafael Marquez. Proença vai na conversa, e Huntelaar converte o castigo máximo - a Holanda está nos quartos e o México continua com a malapata de não conseguir sair dos dezasseis finalistas.

Colômbia-2 Uruguai-0


Ou deveria dizer antes: James Rodríguez-2 Uruguai-0 - e nem a ausência de Luis Suárez, das vampire justifica a eliminação dos uruguaios aos pés daquele que é, sem sombra de dúvidas, o melhor jogador do mundo. Esqueçam os Ronaldos, os Messis e o diabo a sete: James Rodríguez, com a sua técnica, o seu sentido de oportunidade, a sua veia de "matador", é o melhor do mundo e arredores. E o resto são estórias da carochinha. Scolari deve estar a ter pesadelos com o nº 10 da Colômbia, e tem boas razões para isso.

Brasil-1 Chile-1


Brasil e Chile resolveram a passagem aos quartos-de-final do mundial no desempate pelos pontapés da marca de grande penalidade, depois de um empate a um golo no tempo regulamentar e após os 30 minutos de prolongamento. A história estava a favor do "escrete", que em dois outros confrontos com os chilenos nesta fase tinha saído vencedora com alguma facilidade: 4-1 em 1998, e 3-0 em 2010, e em ambas as competições os brasileiros não se sagravam campeões mundiais. Mas o peso da história era mais incomodativo para o Chile, que começou a sentir "dejá vu" aos 8 minutos quando David Luiz faz o 1-0 no Mineirão. Canto de Neymar na direita, desvio de Thiago Silva, e no segundo poste o central ex-Benfica e ex-Chelsea, agora ao serviço dos franceses do Paris SG, fez o golo inaugural, levando ao delírio os 58 mil espectadores presentes no Mineirão, em Belo Horizonte. Aos 32 minutos os chilenos chegavam ao empate, num lance em que fica evidente a displicência da defesa brasileira; Marcelo faz um lançamento de linha lateral, deixa a bola ao alcance de Eduardo Vargas, que passa para o centro da área, onde Alexis Sánchez surge completamente livre de marcação e remata para o fundo da baliza de Júlio César. A partir daí o Chile nunca foi inferior ao Brasil, levou o encontro para prolongamento, e eventualmente para "penalties". E aí Júlio César foi decisivo ao defender os remates de Mauricio Pinilla e Alexis Sánchez, mas quer Willian, que Hulk, revelavam eles próprios pontaria pouco afinada, falhando também da distância dos 11 metros. Tudo ficou decidido no último remate, onde Gonzalo Jara teve "pontaria a mais", rematando ao poste e deixando o resultado em 3-2 a favor do Brasil. A equipa de Scolari livrou-se de uma humilhação, e continua sem convencer.