quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sons da "silly season": Morning has Broken


"Morning has broken" é uma das canções mais lindas algumas vez escritas, e indiscutivelmente a ideal para escutar enquanto se assiste ao nascer do sol, anunciando mais um dia entre o círculo exclusivo dos vivos, a que devemos dar graças. O sol que agora desponta no horizonte para nos brindar com a sua luz é o mesmo que iluminou os que já partiram, e irá guiar os que estão para chegar ainda. A sua presença não é apenas o cumprir de um ciclo que diariamente se renova; é uma dádiva sua, a generosidade de quem sente pena de nós, meros mortais, breves passageiros daquele pequeno mundo que à sua volta orbita.

O autor desta inspiradora canção é Cat Stevens, um dos músicos mais geniais da sua geração, e apesar da sua simplicidade, estava muito à frente do seu tempo. O album "Tea for the Tillerman", o seu trabalho mais conhecido, foi idealizado na forma de um livro de histórias infantis, mas viria a revelar uma beleza quase sublime, que lhe garantiu um lugar nos anais da história da música ligeira popular. Ninguém diria que este homem encantador viria um dia a converter-se ao Islão e mudar o nome para Yussuf Islam, mudando ainda a sua orientação musical, que o levou a gravar temas religiosos e louvores à sua religião. Ficaram ainda célebres as suas declarações sobre Salman Rushdi, o escritor britânico de origem Indiana condenado à morte pelo Ayatollah Khomeini do Irão, que declarou contra ele uma "fatwa" - um decreto religioso que obriga qualquer muçulmano a matar Rushdi, se tiver oportunidade. Enquanto o autor de "Versículos Satânicos" vivia escondido debaixo da cama com guard-costas à porta de casa, Yussuf Islam prometeu que caso o encontrasse, cumpriria com a "fatwa". A mente humana tem razões que a razão desconhece...

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sol escaldante, cabeça quente, calor humano


1) Macau esteve hoje debaixo de um sol escaldante, e mesmo não tendo a confirmação oficial do facto, suspeito que terá sido o dia mais quente do ano. Foi um martírio circular pela rua durante as horas de maior calor, com o astro-rei a impôr a sua supremacia sobre a selva de cimento, fechada pelo cadeado dos edifícios que não permite a circulação do ar, e onde esbarra a mais leve brisa. Como se não bastasse andar pelo centro aos habituais “esses” a que obriga o mar de gente que encontramos pela frente, junta-se ao incómodo uma savana de guarda-chuvas, com que se protegem os mais sensíveis ao raios ultra-violeta. Quer turistas, quer residentes, usam o guarda-chuva de modo a improvisar uma sombra que resguarde a pele e a sua alva tez. Bem pensado, sim senhor, nada contra, mas agradecia que tivessem presente o conceito que este planeta é habitado por outras pessoas além deles? E que essas “outras pessoas” querem tratar da vidinha e não estão para se juntar à procissão dos guarda-chuvas que ocupam metade da via pública e marcham a passo de caracol? Pode ser que muita gente esteja de férias, mas os acessos da cidade por onde passam diariamente milhares de pessoas não são o Clube Med. Pode ser uma zona turística, claro, mas não é a praia. É desagradável ter que afastar da frente os chapéus com as mãos, comportando-me como um alarve, mas não fosse a extrema necessidade de cumprir horários e deslocar-me de um ponto ao outro e não cometeria tal deselegância. Não me levam a mal, isto nem é nada de pessoal. Pudesse eu ficar em casa debaixo do fresquinho artificial do ar-condicionado, e estava-me nas tintas para quem anda na rua a fritar ao calor. Por mim podiam até realizar uma parada de guarda-chuvas, milhares deles, de todas as cores, formas e feitios. Só que, helas, a vida obriga-me a ganhar o pão com o suor do meu rosto, por muito que isso me custe. E nunca como hoje isso do suor fez tanto sentido.

2) Quem não precisa de andar ao sol mas mesmo assim anda de cabeça quente é a deputada Angela Leong. Uma das “patroas” da SJM está furiosa com um artigo publicado na semana passada pelo Hoje Macau, que sugere a sua interferência no sentido de voto dos trabalhadores recenseados a seu cargo. Uma funcionária do casino Oceanus que preferiu não se identificar afirma que Angela Leong terá pedido a alguns subordinados seus que se inscrevam nos cadernos eleitorais e votem nela, em troca de algumas contrapartidas. A deputada considera mesmo processar o jornal por difamação, e desafia a que se apresentem provas desta sua alegada conduta. Pois, pois, provas. Registos em audio e video, som em “stereo-surround” e imagens em alta definição, denúncias por escrito de colaboradores arrependidos, confissões assinadas pela própria suspeita. Provas, estão a ver? O director do Hoje, Carlos Morais José, já reagiu, interrogando-se porque não são investigadas estas suspeitas pela comissão eleitoral, e assim ficavam esclarecidas as dúvidas? Ora, isto nem parece seu, kemosabe. Os rumores de compra de votos e outros expedientes nada condizentes com os frequentes apelos às eleições justas e limpas recaem sobretudo sobre candidatos ricos, poderosos e influentes, desde empresários e figuras públicas a indivíduos conotados com o crime organizado. Fossem uns badamecos ou pindéricos quaisquer ou os maluquinhos dos activistas pró-democratas e já o CCAC lhe tinha deitado as patas em cima. Como não são, desculpam-se com a falta de provas ou a ambiguidade de alguns actos, como o transporte de eleitores até às urnas, e assim se vai atirando areia para os olhos com a confusão entre corrupção eleitoral e meras acções de campanha – mesmo que a campanha propriamente ainda esteja a quase um mês do arranque, estando portanto desautorizadas todas as actividades nesse sentido. Com o presente estado de coisas, o melhor é assobiar para o lado, e continuar a apelar à transparência. Pode ser que alguém acredite.

3) Ainda no Hoje Macau, que na sua edição de hoje deu conta do caso de uma trabalhadora não-residente grávida a quem foi cobrada uma avultada quantia pela realização de testes de rotina no hospital público. Não sendo residente, a mulher não beneficia de subsídios governamentais, e por isso é-lhe cobrada a totalidade da despesa em cuidados de saúde, mesmo no serviço público. Segundo a reportagem do Hoje, a quantia excedeu mesmo o preço tabelado, cifrando-se em mais de sete mil patacas, em vez dos regulamentares quatro mil e pouco. Isto leva a que muitos não-residentes recorram a consultórios privados, normalmente menos dispendiosos, evitando assim a discriminação dos serviços de saúde. Neste caso particular, a despesa é incomportável para o vencimento auferido pela trabalhadora em questão, que não teve outra opção senão adiar os exames pré-natal até encontrar outra alternativa mais de acordo com as possibilidades. De facto torna-se complicado para um trabalhador não-residente ambicionar aa comodidades tão simples como a saúde e a educação, pois este estatuto impede-os de usufruir das mesmas vantagens dos residentes permanentes e temporários. Numa interpretação mais fria e rigorosa, os portadores de “blue-card” estão obrigados a trabalhar para a sua entidade empregadora, responsável por quase todas as suas parcas regalias. Constituir família ou educar os filhos não fazia parte da intenção inicial da importação de mão-de-obra estrangeira. Apesar de todas estas condicionantes, é preciso recordar que não estamos aqui a falar de um animal doméstico que temos em casa, e que se leva ao veterinário para ser esterilizado, ou um electrodoméstico que adquirimos para nos servir e que fica arrumado a um canto quando não precisamos dele. São pessoas que pensam, que sentem e que socializam, ou pensavam que as empregadas domésticas não engravidam, e que os bebés nos seus países de origem nascem das árvores? Negar o acesso à saúde a quem necessita, neste caso uma mulher grávida, apenas com base no seu estatuto laboral, é desumano. Este excesso de zelo não visa proteger os residentes de pleno direito, que continuam a gozar das mesmas regalias, e fica mal num território onde dinheiro é coisa que não falta. Quanto à discrepância entre quantia pedida à gestante pelos exames médicos e o preço real, cabe apenas ao hospital público esclarecer.

Educação Musical parte II: as encruzilhadas do gosto musical


Quando duas ou mais pessoas falam do tipo de música que preferem, a temperatura dos corpos tende a subir. Se a discussão sobe de tom, há quem recorra ao antídoto do consenso e atire com o famoso “gostos não se discutem”, e todos concordam em discordar. Mesmo que os limites impostos pelo bom senso nos impeça de agredir fisica ou verbalmente uma pessoa com base no seu gosto musical, este é um aspecto com mais importância do que normalmente atribuimos. Em muitos casos o gosto musical desvenda aspectos da personalidade de uma pessoa, que podem mesmo servir de factor de desempate, na eventualidade de dúvida quanto ao seu carácter, e se nos apetece socializar ou não com ela. De facto algumas preferências em termos musicais dão pistas que nos levam a perceber melhor o nível da pessoa que temos à nossa frente.

Para quem teve uma infância normal, muitos dos patamares do desenvolvimento físico e emocional passam pela música. Para a esmagadora maioria o primeiro contacto dá-se com a música infantil, que da nossa perspectiva actual de adultos, leva a concluír que tal só foi possível devido às reduzidas dimensões da massa cinzenta. Enquanto escutávamos inanidades relacionadas com um gato a que se atirou um pau, ou aos instrumentos comprados na loja de um tal André, cumpríamos um ritual de passagem, agindo conforme as nossas limitadas capacidades de raciocínio. Encantados com a banalidade da rima e o minimalismo da música, cumpríamos a recruta com um ar de parvinhos, e marcávamos o ritmo com palminhas. Apesar de não nos orgulharmos da experiência, submetemos os nossos filhos à mesma humilhação, que é tão normal na sua idade como cagar na fralda era há alguns anos atrás.

Uma vez perdida a inocência, somos lançados no mundo dos mil e um géneros musicais, ficando à mercê da indústria discográfica, e sujeitos ao julgamento de outros no que toca às nossas preferências. Vendo bem, não é nada simpático ouvir da boca de alguém insultos pelo facto de se gostar de um cantor, banda ou tendência musical. É como se chamassem a nossa namorada de “feia”. A tábua rasa que é o nosso gosto musical deixa-nos vulneráveis às influências, e as opções futuras podem ser determinadas pelos mais velhos, sejam irmãos, primos, amigos ou os irmãos e primos destes. Dificilmente se seguem as pisadas dos pais, que se fossem todos como os meus, partilhar os seus gostos tornaria artistas como Fausto, José Mário Branco, Gal Costa ou Roberto Carlos bilionários. Tal como se passou com eles, os nossos gostos são os da nossa geração.

Encontrada a tendência mais compatível com o nosso ouvido musical, chega o momento de preferir determinados cantores e bandas em deterimento de outros. É difícil explicar a que critérios obedecem estas escolhas, mas depois da já referida influência dos terceiros que rompem o nosso hímen musical (peço desculpa…), outros como o ambiente familiar, a classe social, o nível literário, a área residencial que se está inserido e a diversidade étnica da mesma, o consumo de substâncias, tudo isso e muito mais, podem ser decisivos. É seguro afirmar que o filho de um toureiro que cresça numa ganadaria rodeado de campinos venha a gostar dos fados da família Câmara Pereira. Recorrendo a um exemplo mais amplo (e mais sério), quem vive num bairro pobre, virá muito provavelmente a gostar de um género musical mais marginal, como o “hip-hop”, enquanto os mais abastados e com mais acesso às últimas novidades são propensos a seguir as tendências da moda.

Quando nos deparamos com alguém com um gosto musical que nem nos passa pela cabeça partilhar, especialmente se for alguém da mesma geração, estamos na presença de um processo de aculturação diferente do nosso. Isto é não só uma curiosidade interessante, como também diz muito da importância da música nas nossas vidas. Dificilmente encontramos a nossa “alma gémea” musical, alguém que partilhe o nosso gosto com 100% de fidelidade. O gosto é como uma impressão digital. Posto isto, amanhã vou dedicar mais um capítulo desta série dedicada à música a alguns dos géneros e artistas do passado e do presente, o que representaram na sua época, e o que se pode aprender dos seus seguidores e que sentimentos podem despertar a sua música, mensagem e atitude. Fiquem atentos.

As aparências iludem (os rabetas)


Este anúncio de um sutiã que realça os seios, dando firmeza onde outrora havia flacidez, relevo onde existia planície, tesão no lugar de rejeição, etc., etc., é bem engraçado. O mundo da publicidade sabe melhor que ninguém que não há homem que resista uma sessão de "strip" doméstico executado por uma jovem sensual, e que não ousa pestanejar até ver a atenção recompensada com a exibição de alguma parte pudibunda. Só que neste caso, oops! Vejam só...seus bi-curiosos. Quem diria, ahn? Há quem tenha começado assim e acabado na cama da hospital a convalescer de uma vaginoplastia. Vejam o anúncio e perçebam porquê.

50 centavos? Nem isso vale...


Este tipo na foto com um ar super-saudável e nada ameaçador é Curtis Jackson, mais conhecido no mei artístico como 50 Cent. Este cinco tostões, que aos 38 anos já devia ter juízo, leva uma vida abastada graças à fortuna que fez apelando à violência e ao ódio com recurso a obscenidades e ao mais elementar racismo. Ah esperem lá, eu disse racismo? Peço desculpa, queria dizer "hip-hop", aquela forma de poluição sonora carregada de mensagens idiotas que o politicamente correcto obriga a que se chame de "música".

Ora o nosso 50 Cent, que é um menino de coro que nunca comeu um bombom de licor, quanto mais consumir drogas, continua muito aborrecido com a escravatura e a segregação racial, coitadinho, e pouco importa que tenha nascido muito depois dos seus ancestrais terem sido vítimas destas injustiças, tenha uma conta bancária bem recheada, viva numa mansão com piscina ou um carro desportivo de último modelo.

Para descarregar essa raiva contida nos genes, o rapaz resolveu no dia 23 de Junho último agredir a namorada e destruir-lhe o apartamento, de nada valendo à moça que teve o desplante de se deitar com o gajo se ter trancado no quarto - Curtis arrombou a porta ao pontapé, e de seguida deu à companheira o mesmo tratamento. De saída resolveu armar-se em decorador de interiores, e "remodelou" a habitação da pequena, causando prejuízos na ordem dos 7000 dólares.

Agora o nosso herói apresentou-se ao juíz num tribunal em Los Angeles, e arrisca uma pena de cinco anos de prisão e uma multa de 5 mil dólares. Nada que o preocupe, pois o seu estatuto de celebridade e de "voz dos oprimidos", mais os advogados caros a que pode requisitar os serviços são meio caminho para a impunidade. Menos sorte têm os seus "brothers" mais pobres quando têm comportamentos idênticos e vão parar à choldra, sendo recompensados com uma "música" do artista sobre a "injustiça" a que foram sujeitos pela "América branca e racista".

Para que não subsistam dúvidas que se trata apenas de um caso de psicose violenta e não um acto de racismo, falta referir que a vítima da violência de 50 Cent é igualmente afro-americana. Que pena, pois assim perdeu a oportunidade de lhe dar um tiro e acabar com a pessonha. Se fosse branca não teria o privilégio, ou arriscava a fúria dos paladinos dos direitos civis, sempre prontos a abrir a arca dos fantasmas que assombraram a América.

Gemendo em nome da ciência


É daqueles que pensa que resolver puzzles como o Sudoku são benéficos para a mente, e ajudam a adquirir maior elasticidade cerebral? Saiba que existe uma receita mais eficaz, e ainda por cima mais divertida: orgasmos. Isso mesmo, e quem o garante é o professor Barry Komisaruk, da Universidade de New Jersey, que se dedicou ao assunto durante grande parte da sua carreira científica. O académico de 72 anos estuda desde os anos 60 o efeito do clímax sexual no córtex cerebral feminino. Pode parecer uma boa desculpa para o sacana do velhote andar a mexer nas meninas, mas se foi essa a intenção, teve um longo caminho pela frente; as primeiras experiências foram feitas com ratos, e Komisaruk só passou às mulheres propriamente ditas nos anos 80. Provavelmente quando estas tiveram a certeza de que era tudo em nome da ciência, e não uma desculpa esfarrapada para a pouca-vergonha. Assim o doutro concluíu que um orgasmo provoca um fluxo intenso de corrente sanguínea ao cérebro, levando a si todos os nutrientes. Enquanto os exercícios mentais aumentam a actividade cerebral em regiões localizadas, o prazer sexual chega à totalidade do orgão. É uma festa com foguetes e tudo! Contudo Komisaruk diz ter muito ainda que aprender quanto aos efeitos do prazer sexual: "Sabemos muito pouco sobre o assunto. Que partes do cérebro produzem o prazer mais intenso? E como o podemos usar em nosso benefício? Poderão ajudar a tartar problemas como a depressão, a dependência de drogas ou a dor crónica?". O doutor promote continuar a investigar, enquanto mede a intensidade do prazer feminino com o seu orgasmómetro. Voluntárias?

Sargento Palonço e os seus macaquinhos amestrados


Este vídeo já tem alguns meses, mas fez-me sorrir de novo quando o vi a ser partilhado ontem no Facebook. Nele vemos um assalto a um banco em Detroit, no estado norte-americano de Michigan, onde o que parecia ser mais caso de crime e castigo sofre um inesperado "twist", graças à incompetência das autoridades. Alias chamar a isto "incompetência" é estar a ser demasiado generoso. E estes polícias não eram alentejanos nem loiras, mas comportaram-se quase como nos clichés das anedotas sobre estes dois grupos. Estas imagens seriam hilariantes ao ponto da apoplexia se fossem editadas em câmara rápida e com aquela música da série "Benny Hill" como pano de fundo. Quem ainda não viu, do que está à espera?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O país que gritou lobo


Muitos devem estar familiarizados com a fábula do “rapaz que gritava lobo”, que nos ensina uma lição de vida bem válida. Um jovem muito traquinas gostava de deixar a sua aldeia em estado de alerta anunciando um lobo que acabava de sair da floresta. Os homens da aldeia saíam de casa armados até aos dentes, só para mais tarde descobrir que o rapazola lhes mentira, e ficava rindo do que considerava ser uma divertida bricadeira, que repetiu um bom par de vezes. Cansados de ser enganados, os aldeões deixaram de acreditar no rapaz, até ao dia em que o lobo veio mesmo, e devorou-o, de nada valendo os seus apelos ao auxílio da comunidade que tanto se divertiu a ludibriar pelo medo. Este conto lembra-nos da importância da honestidade e da credibilidade necessárias para que seja possível contar com a solidariedade alheia em caso de aflição. Ensina-nos sobretudo que existem limites para a bondade, e que ninguém gosta de dar o melhor de si em vão, por alguém que não merece o tempo e o esforço dispensados.

Tudo isto a propósito de uma notícia que li na edição de hoje do Jornal Tribuna de Macau, que dava conta da protecção legal que o município de Shenzhen, na China, vai dar a quem não se recuse a fazer uma boa acção, e não hesite socorrer alguém que se encontre em dificuldades. Mas esperem lá, isto fora de contexto não faz muito sentido. Porque haveria alguém de se recusar a socorrer outro em caso de necessidade? E porque precisa de protecção? Será este mais um daqueles casos bizarros em que tantas vezes a China é fértil em nos brindar nos noticiários? Sim, é, de facto, e infelizmente não é dos mais engraçados. É tão triste que dá pena.
A China dos dias de hoje vem-se tornando cada vez mais uma sociedade tão apegada ao dinheiro, ao lucro fácil e a qualquer custo, que se arrisca a ficar cada vez mais desumanizada, com cada um por si e Deus por todos, sob o lema do “salve-se quem puder”.

Muitos burlões a outros oportunistas fingem encontrar-se necessitados de auxílio, e assim que um estranho oferece ajuda, acusam-no da autoria dos maus tratos que os deixaram com as mazelas que apresentavam antes da chegada do bom samaritano. A vítima faz assim uma vítima, e quem se disponibilizou a ajudar, pensando estar a fazer o que é humanamente exigido a cada um, percebe que caíu no conto do vigário. Em alguns dos casos o burlão encontra-se mesmo necessitado de ajuda, mas nem por isso deixa de aproveitar a oportunidade para atribuir a culpa do seu estado a quem se prestou a ajudá-lo. Doentio, é o mínimo que se pode dizer. Muitas das vezes as disputas são resolvidas em tribunal, e não são raros os casos em que o burlão convence os juízes. Isto leva-me a questionar a eficácia da justiça chinesa, ou neste caso a falta dela. Que mensagem é esta que estão a passar? Que o crime afinal compensa?

A nossa mentalidade de ocidentais leva-nos a nunca recusar dar a mão a quem precisa, sob pena de ficarmos com um peso na consciência. Mesmo quando a situação representa perigo e não se recomenda uma interferência directa, como num assalto ou numa rixa violenta, há pelo menos quem se digne a chamar as autoridades. Na China os mais bem intencionados cidadãos começam a virar as costas a quem encarecidamente lhes pede ajuda, ou a quem está visivelmente correndo perigo. O melhor é cada um tratar da sua vida e evitar dissabores, e no fim ainda passar por ingénuo. Quem sofre com este desprezo são aqueles que necessitam genuinamente de uma mão caridosa, que em muitos casos pode representar a diferença entre a vida e a morte. Tudo porque outros menos escrupulosos gritaram “lobo” tantas vezes que os aldeões deixaram de acreditar na vinda da fera, mesmo que esta esteja a devorar a vítima mesmo à frente dos seus olhos.

O clima de suspeição que leva a tanto egoismo produziu notícias chocantes num passado recente. Há dois anos um estudante universitário atingiu uma camponesa com o seu carro, deixando-a ferida na estrada. Em vez de a transportar para o hospital mais próximo, tirou uma faca do porta-luvas e matou-a, sendo mais tarde julgado e condenado à morte. Na eventualidade de a ter morto com o impacto do carro, bastaria pagar as despesas do funeral e nada mais. Deixando-a viva poderia ficar sujeito a anos de extorsão, com a vítima a alegar incapacidade e um sem número de outros problemas derivados do acidente, nem que para isso fosse necessário produzir relatórios médicos falsificados. Em alguns casos um motociclo que toque de raspão na perna de um peão pode ser o suficiente para que este “esprema” o autor da “grave ofensa física” bem além dos limites do razoável.

Para compôr este vergonhoso ramalhete falta mencionar os profissionais de saúde, se bem que chamá-los de “profissionais” é um insulto aos profissionais de verdade. Quando se chama uma ambulância em caso de acidente, os paramédicos exigem que os seus serviços sejam pagos antecipadamente, caso contrário recusam-se a assistir o sinistrado. Um acidentado que esteja inconsciente e a esvair-se em sangue fica dependente de alguém que peça socorro e se disponibilize a suportar as despesas, normalmente bem caras, por sinal. É lógico que poucos se dispõem a entrar com o dinheiro, que dificilmente lhes será devolvido, e viram a cara, como se não fosse nada. Mas que raio de médicos são estes que se recusam a socorrer uma vida humana sem que antes sejam pagos por um serviço que deviam prestar sem hesitações de espécie alguma? Se a China é um país “comunista”, como se explica este tipo de comportamento que nem o mais voraz dos capitalismos toleraria? E o povo pá? E assim o lobo vai engordando à custa de aldeões inocentes, perante o olhar indiferente dos restantes, que por causa do rapaz que antes lhes mentira, se recusam a acreditar no predador.

Educação Musical parte I: Introdução


Música…toda a gente gosta de música. Se há alguém que diz que não gosta está a mentir. Pode ser um indivíduo mau como as cobras, cruel para as crianças e para as velhinhas, mas gosta de música com toda a certeza. Há quem não esteja por dentro das últimas tendências ou não siga os tops, tenha ficado parado no tempo ou tenha um gosto musical atroz, mas todos gostam de música. Os nossos antepassados hominídios reconheciam melodias nos sons da natureza, no canto dos pássaros e no assobio do vento mesmo antes de começarem a fazer as formas mais rudimentares de música. Uma conversa sobre música no tempo do Peleolítico seria qualquer coisa do género: - “Epá, curtes Trovoada Seguida de Chuva?” – “Não tás com nada, quasi-man. O que tá a dar é Riacho a Correr Entre as Pedras”. Naquele tempo os Beatles eram mesmo besouros, os Rolling Stones eram pedras rolantes, e a Edith Piaf era mesmo um pardal.

A música está connosco praticamente desde que existimos. Há quem diga que uma criança consegue identificar tons musicais ainda no ventre materno, e alguns pedagogos defendem que fazer um bebé escutar música clássica o torna “mais inteligente”. Será? Outros mitos relacionados dizem-nos que cantar faz não só bem ao espírito como torna o corpo mais são, e que “a música amansa as feras”. Se for mesmo verdade, gostava de saber o que se deve cantar na eventualidade de cair na toca dos leões, mas creio que seja o que for, cantar mal só pode tornar a situação pior. O mais discutível de todos: a música começa a parecer mais alta à medida que se vai envelhecendo. É possível que em alguns casos a falência progressiva ao aparelho auditivo seja mais sensível a certos sons mais agressivos, mas não terá a ver com o gosto musical. Prova viva é Mick Jagger, que aos 70 pula, berra e leva com elevadas emissões de rock nas orelhas, ou ainda Ozzy Osbourne, que depois dos 60 ainda vai acordando a vizinhança com os seus cânticos a Belzebu. Se por acaso sofre deste problema, consulte o otorrino.

É um facto que desde que existe música, existem gostos variados, e tudo por causa do ouvido musical. Dependendo de factores diversos, como a educação, o meio ambiente ou a sanidade mental, há de tudo, desde os que gostam de sonoridades mais suaves aos que preferem uma orgia de metais capaz de rebentar a escala dos decibéis. Pelo meio encontramos mais géneros, e os que gostam de uns rejeitam liminarmente outros. Voltarei mais tarde a esta temática dos gostos musicais, mas antes gostava de referir uma frase feita muito comum quando se propõe uma discussão desta natureza: “gostos não se discutem”. Ora, e porque não? Esta atitude apaziguadora leva a que se matem à nascença discusses que podiam ser bem interessantes. Pode-se discutir tudo e mais alguma coisa, e os gostos não são excepção, desde que não se ofenda a cidadania do outro, insultando a sua progenitora ou questionando a sua orientação sexual.

A variedade da combinação de notas que durante os tempos produziu milhares de sonoridades que provocaram todo o tipo de sensações e geraram movimentos que contribuiram para tantas mudanças na face do mundo onde vivemos é um tema nada consensual. Nesta série de posts que vou dedicar à música, prometo abordar alguns aspectos mais delicados, derrubar preconceitos, desvendar tabus, e chatear muito boa gente, bem ao estilo leocardiano. Do muito que vai ficar gravado neste registo, muito mais ficará por dizer. Aguardem mais do mesmo (e pior) durante o resto da semana.

Na Arábia Sodomita


Na Arábia Sodomita o tempo passa devagar. Quando os seus habitantes (os sodomitas) não estão entretidos a desposar virgens pré-púberes ou a decepar a mão direita aos ladrões, assistem a loucas corridas de carros em pistas cobertas de areia. Um dos pilotos destes bólides que tanta ponta dão aos camelos do deserto acelarou mais do que devia, e foi bater num camião, reduzindo o seu veículo a destroços. Os sodomitas foram a correr por entre o trânsito para se certificarem que o Borrego estava mesmo morto, e assim se cumpria mais um preceito do mês do Ramadão.

O pão que o Diabo amassou


O proprietário de uma loja de comida rápida em Latchford, Cheshire, na Inglaterra, criou a sanduíche mais picante do mundo. Simon Nash, 32 anos, juntou ao recheio de bife, cebolas e queijo duas das malaguetas mais picantes do mundo, a Trinidad Scorpion e a Bhut Jolokia, e baptizou o resultado de “Flaming Hell” – Inferno em chamas. A sanduíche mede 2,3 milhões na escala de Scoville, que mede a intensidade do picante, e só pode ser manuseada com a ajuda de luvas de latex. Inicialmente a ideia era criar uma cura para a ressaca, e sem qualquer dúvida que uma dentada neste petisco faz passar qualquer maleita, substituindo-a pela necessidade de saltar para dentro do poço mais próximo. Gaby, uma estudante de 18 anos (na imagem), ofereceu-se como cobaia para provar a picante iguaria, mas rendeu-se após a primeira dentada. Teve sorte em escapar com vida, enfim. Mas Simon Nash tem olho para o marketing, e oferece uma semana de sanduíches gratis a quem consiga comer a sua criação na totalidade em menos de 10 minutos. Espertalhão…mesmo que alguém se atrevesse, não sobreviveria para consumir o prémio. Aqui está uma curiosidade engraçada, sem dúvida, mas qual é a piada de inventar uma sandes que ninguém consegue comer?

Despachem lá essa queca, eu quero ir para casa


Um casal de Xi’an, na província chinesa de Shaanxi, foi com o filho menor até a um parque, no que parecia ser apenas mais um dia normal em família. Enquanto o pequeno ia brincando, esgotando as energias próprias da juventude, os pais aproveitavam para trocar entre eles alguns carinhos, inspirados pelo verde do ambiente que os rodeava. Só que a dado momento, o casal entusiasmou-se, levando longe demais os afectos, a tal ponto que resolveram ter relações sexuais. Isto em plena luz do dia, em público, e na presença do próprio filho e dos estranhos que ali passavam. O jovem, já cansado de bricar, fica com vontade de mudar de cenário, mas os pais estavam demasiado entretidos para atender aos seus caprichos. A criança bem tenta captar a atenção dos pais, mas o fogo da paixão que os mantiha colados como dois cães no cio resistia às suas investidas. Um caso sério de tesão, este, que levou a que os amantes se abstraíssem por completo do mundo, dos olhares indiscretos, e do video-amador que registou estes momentos acalorados.

Os perigos da privada mais cara


Ainda na temática das retretes, mas num paralelo e dimensão diferentes, e um problema bem mais sério. Os japoneses, um dos povos mais limpinhos do mundo, juntaram à sua preocupação com a higiene com a sua avançada tecnologia para criar uma retrete inteligente. A companhia LIXIL criou a Satis, uma sanita completamente automatizada, desde o assento aos jactos de água e às escovas de limpeza, que incorpora um potente desinfectante e até um leitor de mp3, para distrair o utente enquanto se alivia, tudo controlado por um computador. A quantidade de funções depende do modelo, e os preços variam entre as 32 e as 45 mil patacas. Tudo depende do valor que se dá ao conforto, portanto. Mas agora vem o grande senão: o computador que controla a sanita é vulnerável ao ataque de "hackers". Isso mesmo, os malandrecos que se divertem a entrar nos computadores alheios podem aceder à sanita do futuro, e para isso basta-lhes um Smartphone. Tão simples quanto isso. Para quem sabe, parece fácil, para quem investe uma nota para maximizar a experiência que é a actividade excrementária, pode tornar-se num pesadelo. Não é difícil imaginar o que pode acontecer a quem tenha o azar de se sentar numa sanita tão apetrechada e com tantas funções, mas controlada sabe-se lá por quem. O pior é que graças à notícia, os "hackers" que ainda não sabiam que isto era possível, vão a correr testar as possibilidades de pregar uma partida de mau gosto. Agora quem pensava em investir na Satis, vai pensar duas vezes, e aos que já compraram...bem, talvez um "software" que os proteja? Pode ser que a WC Pato tenha um que sirva no mercado.

Pelo direito à retrete


Lin Patterson, uma idosa de 67 anos de Larkhall, Bath, no Reino Unido, terminou na noite de Sábado um protesto de cinco dias, tempo que passou sentada numa retrete pública. Esta forma de protesto original visava protestar contra o encerramento de 13 retretes públicas pelo município de Bath, com vista a reduzir as despesas. De facto a decisão economizará aos cofres públicos 120 mil libras por ano, mas quem não concorda com os cortes é a senhora Patterson, que acusa a edilidade de privar os cidadãos "de um direito humano básico". Bem visto, até porque na idade da senhora é possível que os rigores da incontinência não lhe dêm tempo para chegar a casa a tempo de evitar uma precipitação indesejada. Apesar do facto de ficar cinco dias sentada numa latrina dar a entender que a idosa atravessa um dos estágios da demência, os residentes de Bath foram solidários, a mais de 2000 assinaram a petição que a sra. Patterson entregaria ao escritório do "mayor". Do município chegou um comunicado sobre este caso, elogiando a firmeza da velhota, mas pedindo compreensão pelos sacrifícios que a gestão dos dinheiros públicos implica. No fim sugeriram que caso os residents insistam na necessidade da retrete, podem financiar o seu funcionamento do seu próprio bolso. Ora aqui está uma boa ideia, em vez de ficar a depender dos impostos de pessoas que se calhar até concordam com o encerramento das retretes. E nem foi preciso ficar cinco dias com o rabinho sentado na sanita para pensar nesta solução.

Sons da "silly season": Barbie Girl


Os dinamarqueses Aqua, uma banda de dance-pop então completamente desconhecida, saltaram para o estrelato no Verão de 1997 com este "Barbie Girl", que muitos se lembram concerteza. A mensagem da canção é supostamente uma crítica ao comportamento de algumas jovens senhoras, que dão primazia à aparência em vez da inteligência para alcançar os seus fins, mas o que mais a identificava era a batida dançável. As opiniões sobre a qualidade musical dividiam-se, e os mais puristas criticavam o minimalismo da composição, bem como o video que suportava o tema e até a aparência da banda, e rapidamente incluíram os Aqua na categoria de música "foleira". Foleira ou não, "Barbie Girl" vendeu 8 milhões de cópias em todo o mundo, chegou ao nº 1 dos tops em quase toda a Europa, e é actualmente o 13º single mais vendido de todos os tempos no Reino Unido. Mesmo este vídeo que aqui partilho tem mais de 90 milhões de visualizações no YouTube, um media que surgiu muito depois deste "Barbie Girl" ficar "esquecido". Os Aqua mantiveram-se fiéis à mesma fórmula durante a sua curta carreira, mas sem o mesmo sucesso.

domingo, 4 de agosto de 2013

Os pós e contras do FIMM


O Instituto Cultural de Macau divulgou na semana passada o programa do XXVII Festival Internacional de Música (FIMM), e preferi guardar para hoje, dia em que os ingressos foram colocados à venda na rede Kong Seng, para dizer de minha justiça. Primeiro gostava de salientar a qualidade de alguns dos pontos do programa, que chegam mesmo a revelar algum esforço em dar primazia à qualidade. Sauda-se ainda o regresso dos musicais da Broadway, com a apresentação de "Miss Saigon", que não sendo um dos mais aclamados, é um dos que mais facilmente se reconhece pelo nome - esteve em exibição aqui ao lado em Hong Kong há alguns anos. Posto isto gostava de manifestar uma certa desilusão, primeiro pelo facto do Instituto Cultural não ter conseguido surpreender, trazendo qualquer coisa de sublime e imperdível. Talvez o problema seja meu, que gusto de surpresas. Depois há o lamentável facto de alguns dos espectáculos mais interessantes ficarem vedados a quem esteja realmente interessado em assistir, por culpa da forma anárquica com que se realiza a venda dos bilhetes. Por fim, "last but not least", considero que começa a haver um desinvestimento nos actos trazidos de Portugal, que nos últimos anos chegaram a levar ao território alguns artistas de renome.

Falando do que o FIMM tem de bom este ano, destaca-se a vinda da Filarmónica de Dresden, as orquestras de câmara da Lituânia e da Coreia do Sul, o Instituto de Opera Mozart, da Austria, e igualmente desse país os Pequenos Cantores de Viena, presença já habitual neste certame. O canto lírico em grande escala ficará a cargo da Opera Nacional da Letónia, que interpretará "Das Rheingold", de Wagner, e "Aida", de Verdi, que não sendo inédito no historial do FIMM, é sempre bem vinda. Inédita (pelo menos que me lembre) é a vinda da Orquestra da Gulbenkian, que se apresentará no dia 18 de Outubro no Grande Auditório do Centro Cultural. Os que preferem um som mais alternativo vão poder escutar a música jazz dos noruegueses Silje Negaard, ou os Iberian Jazz Stars e a Macau Big Band, que darão um concerto na Fortaleza do Monte, com entrada livre.

Diz-se que não há bela sem senão, e destas "belas" que referi acima, há uma que omiti intencionalmente, por ser um "senão". Não porque o acto sofre de algum defeito em termos de qualidade, antes pelo contrário, mas a impossibilidade de poder assistir dependendo apenas da vontade é dirimente de qualquer forma de entusiasmo. Falo de um dos espectáculos que mais interesse me desperta, "A alma do Canto Ortodoxo", do grupo sérvio Divna e Melódi, que terá lugar dia 29 de Outubro na Igreja de S. Domingos. Os bilhetes são gratuitos, como é habitual nos espectáculos realizados naquela catedral, mas limitados em termos de lugares. Isto leva a que os caça-ingressos madrugadores que açambarcam os melhores lugares façam esgotar num ápice os bilhetes para os concertos gratuitos, e depois os revendam. Um problema que o Instituto Cultural devia resolver, para bem dos amantes das artes. Não me importaria de pagar por um espectáculo destes, contando que pudesse assistir sem depender desta candonga que se está a cagar para a música e vê no FIMM mais uma oportunidade de ganhar uns trocos.

Finalmente a vertente lusófona do FIMM. Este ano temos os habituais concertos gratuitos ao ar livre na Fortaleza do Monte, que alé dos já referidos Iberian Jazz Stars acompanhados da Macau Big Band, traz ao território uns tais Aduf e o Quinteto Lisboa. Não entendo porque não se optou por uma banda mais conhecida, ou um acto mais ousado, do tipo "pop" ou "rock". Penso que seria um ingrediente que traria ao festival um outro sabor, e cativaria um público mais jovem. Não existe qualquer directiva que obrigue o FIMM a ser 100% erudito, ou que estabeleça a informalidade do evento, onde não cabem guitarras eléctricas ou baterias. Se por acaso os senhores do Instituto Cultural ignoram esse facto, deixem que vos diga que a comunidade portuguesa em Macau não é inteiramente composta por doutores e velhotes. A malta gostava de poder pelo menos uma chance de "abanar o capacete", e dar ao FIMM um pouco mais de sal.

Toucinhos em fuga


Dúzias de leitões causaram o caos numa auto-estrada de Guizhou, na China, quando a carrinha que os transportava capotou ontem à tarde. As autoridades não tiveram mãos a medir para capturar os suínos em fuga e restabelecer a ordem. Isto é o que se pode chamar de trabalho sujo...

Cortem-lhe os tomates!


Um caso que está a chocar a Malásia, e não é para menos. Riduan Masmud, de 40 anos, este indivíduo asqueroso na imagem, violou uma adolescente de 13 anos de idade, e livrou-se da prisão, recorrendo a um expediente que leva agora a um debate nacional sobre a legitimidade da sua aplicação. O pedófilo foi detido e julgado, acusado de abuso de menores, mas perante a sentença nada simpática a que se arriscava, aceitou casar com a vítima. Riduan já é casado, e tem quarto filhos, mas a sharia, lei islâmica que vigora no país, permite que um homem tenha mais que uma esposa simultaneamente.

A jovem contou aos pais que foi violentada por um homem muito mais velho, e estes reportaram o caso às autoridades. O violador negou inicialmente, mas viria a confessar após uma recolha de sémen da vagina da vítima e um teste de ADN o ter denunciado. A acrescentar à série de contornos doentios desta história, Riduan terá aproveitado o facto da família da jovem vítima ser pobre, e convenceu-os a autorizar o casamento em troca de 5000 ringit - menos de 8000 patacas. Os que estiveram em tribunal e viram a vítima descrevem-na como uma criança pequena e franzina, cabelo entrançado e maquilhagem discreta, vestida de calças de ganga e uma camisola modesta, não disfarçando a sua frágil estrutura. Nada que sugira estar em condições de contrair matrimónio. Riduan tem quatro filhos, todos mais ou menos da mesma idade daquela que vai agora desposar para não ter de pagar pelo crime hediondo que cometeu.

A opinião pública divide-se, e entre os que reconhecem que o arguido errou mas "a lei é a lei", há os que não escondem a indignação pelo sucedido, e defendem que caso a vítima fosse de uma família abastada, o desfecho tinha sido outro. Os mais revoltados defendem que além de uma pena de prisão exemplar, o violador devia ainda receber um castigo físico. Asha Gill, uma mãe de família de 41 anos, vai mais longe ao sugerir que Riduan "devia ser castrado". Um ponto comum a todas as opiniões recolhidas é quanto à idade em que uma mulher deve contraír matrimónio, que nunca deveria ser antes de completar 18 anos. O próprio estatuto da mulher na Malásia, bem como em muitos outros países muçulmanos, deixam-na exposta a abusos vários, e casos semelhantes a este no passado viram os autores dos abusos sem castigo, ou apenas com uma mera advertência ou multa.

Um census realizado em 2000 na Malásia revelou que 6800 jovens menores de 15 anos eram já casadas, com o estado de Selangor a liderar as estatísticas. Ficou-se a saber que ainda que 235 crianças entre os 10 e os 14 anos eram já viúvas (!), e 77 eram já separadas ou divorciadas. Os casos de abandono de jovens que contraem matrimónio em tenra idade deixa-as mais expostas à pobreza, pois o casamento obriga-as a abandonar os estudos e depender do apoio dos pais. O risco de morte durante a gravidez ou o parto em jovens menores de 15 anos é cinco vezes maior do que as mulheres na casa dos 20, mas actualmente são bastante comuns os casos de maternidade em jovens no início da idade fértil. Um caso sério, que as autoridades malaias deveriam pensar numa forma de encarar do ponto de vista humanitário, e abandonar o pensamento caduco dos canônes maometanos.

A esperança é a última a morrer


Perder a carteira é uma experiência pela qual ninguém gosta de passar. Mesmo que a quantia em dinheiro que se perca seja insignificante, há sempre o aborrecimento de ter que renovar documentos, ligar para o banco para comunicar o desaparecimento dos cartões de crédito ou de débito, e em alguns casos a mácula sentimental de perder a foto dos entes queridos. É mesmo muito chato. Mas se por acaso alguma vez isto lhe aconteceu, e foi há tanto tempo que já tinha perdido a esperança em rever a carteira, aqui está uma notícia que é a prova acabada de que nunca se deve perder a esperança. Um utilizador da rede social Reddit ficou tão emocionado com o facto de ter recuperado a carteira que partilhou a notícia com os restantes utilizadores. Que bom para ele, terão pensado alguns, mas o mais extraordinário é que a tal carteira tinha sumido em...1989! O cliente da Reddit em questão, que usa o nome "Shrivel", tinha ido fazer esqui aquático durante as férias escolares na Carolina do Norte, num ano em que George Bush pai ainda era presidente dos Estados Unidos, os telemóveis eram uma realidade distante e a internet mantinha-se restrita ao uso dos militares. Shrivel cometeu o lapso de levar a carteira consigo enquanto deslizava com os esquis no mar, e bastou uma queda para que os documentos, cartões e outros pertences fossem parar ao fundo do oceano, perdidos para sempre. Mas foi com grande surpresa que há alguns dias Shrivel recebeu o telefonema de um desconhecido, que lhe fez uma série e perguntas sobre a sua identidade. Estranhou o questionário, mas depois de confirmados os dados, a voz do outro lado anunciou que tinha encontrado a sua carteira na praia. A carteira foi encontrada no estado que a fotografia demonstra, mas os documentos plastificados encontravam-se intactos, como o cartão de estudante ou o da biblioteca. O sortudo que partilhou esta história com o mundo terá pouco uso para a carteira ou para os documentos da sua juventude, mas terá concerteza sentido uma nostalgia que nunca esperaria. Por vezes o que a maré leva, a maré traz de volta.

Horror em directo


Imagens impressionantes recolhidas de uma câmara no interior de um autocarro de passageiros na China. Foi na última quinta-feira pelas 10 da manhã em Lishui, a caminho de Jinhua. O motorista do autocarro enganou-se e falhou uma saída, e quando fazia marcha a ré para corrigir o erro foi atingido de trás com violência por uma carrinha de carga, sendo projectado pelo vidro da frente, assim como dez dos 22 turistas a bordo do veículo. Chamo a atenção para o conteúdo gráfico das imagens.

sábado, 3 de agosto de 2013

O último a cair


Hoje deu-me para alternar a pornografia com o escatologia, mas com períodos de sentimentalismo. Como não acredito na andropausa e ainda por cima sou muito novo, deve ser apenas o facto de não ter nada melhor que fazer que me leva a estas oscilações de estado de espírito. Assim gostava de partilhar com o leitor este video, um anúncio publicitário romeno do ano passado que agora vai sendo visto um pouco por todo o mundo, e de facto é comovente. Um veterano da II Guerra vai deixar flores num monumento dedicado aos mártires de uma batalha de que ele é o único sobrevivente. Pelo caminho que faz a muito custo devido à idade avançada, é molestado por um grupo de adolescentes, que ainda fazem pouco da sua velhice. Um dos jovens segue o velho, e ao deparar com o mausoléu, procura o seu significado na rede através do telemóvel, e compreende a razão daquele velho estar ali sozinho, deixando flores. No regress a casa o veterano passa pelos jovens, que se colocam em sentido e fazem-lhe continência. Ah, e este é uma anúncio a uma companhia de rede móvel da Roménia. Agora vou buscar os Kleenex, se não se importam.

Porno para elas (boring!)


A pornografia é uma forma de arte normalmente associada aos homens e à sua natureza mais perversa, e a julgar pelos lucros gerados todos os anos pela indústria, a tendência é para piorar. Mas atenção senhoras, que a vossa vez está a chegar! Suas badalhocas! Em Taiwan a Comissão Nacional de Comunicações licenciou o canal Pandora, o primeiro com conteúdos adultos destinado a mulheres. O canal terá acesso limitado e será transmitido em alta definição. Ao contrário da pornografia comum, orientada para o público masculino, a orientação seguida é inovadora. Uma pesquisa realizada em mulheres casadas e solteiras revela que o público feminino prefere o erotismo ao "hardcore", filmes que contenham enredo (!) e dêem mais ênfase aos preliminares. Os resultados revelam ainda que as mulheres têm tendência para se afastar da pornografia mais comercial porque esta se resume "ao acto sexual e pouco mais". Só mesmo as mulheres e os seus baixos níveis de testosterona para estragar a pornografia. Típico delas, que preferem falatório e rodeios em vez de irem directas ao assunto.

Bem, de acordo com a direcção do canal Pandora, os maridos podem assistir à programação, e desta forma "perceber melhor a necessidade da sua parceira, e aprender mais sobre a distribuição justa do prazer sexual". Um para ti, um para mim, portanto. A maior parte dos filmes serão importados do Japão, que além de ser uma das maiores indústrias da especialidade, tem uma oferta para todos os gostos, até para os que preferem conversa da treta a uma boa sessão de canzana, administrada à bruta enquanto se puxam os cabelos da, ahem, "actriz", ao ponto de lhe virem as lágrimas aos olhos. Compreende-se que as mulheres de Taiwan se identifiquem mais com as japonesas, quer pelos peitos atrofiados, quer pelos gemidos encantadores que dão a impressão de que estão a sofrer, mas que vão sofrer ainda mais se pararem. E não é tudo em termos de programação, pois além dos filmes onde as mulheres aprendem a fazerem-se de difíceis, existe uma programação variada, que inclui "talk-shows" (estão a ver onde quero chegar?) sobre sexo e programas de variedades. Se por "variedades" querem dizer "culinária", excelente. Assim pode ser que o canal Pandora lhes ensine qualquer coisa de útil.

Dia Mundial da Sanita


A sanita é o lugar
Onde toda a vaidade acaba
Onde todo o fraco faz força
E todo o valente se caga


Anónimo

Uma notícia difícil de levar a sério, mas que começa a fazer mais sentido à medida que se explica melhor. Um representante da cidade-estado de Singapura foi até à sede das Nações Unidas em Nova Iorque apresentar uma proposta original: a criação do Dia Mundial da Sanita. Mark Neo, o diplomata em questão, deixou claro que tanto a imprensa como a opinião pública "iam rir quando ficassem a saber que a ONU ia votar um Dia Mundial da Sanita, mas isso não é o mais importante", salientou. Para o enviado em nome do reconhecimento daquele objecto que todos usamos sem que isso constitua motivo de orgulho, as piadas sobre a sanita "demonstram um tabu pouco saudável que impede que se abra uma discussão séria sobre os problemas do saneamento à escala global". Sim, de facto nunca tinha pensado nisso, e da próxima vez que estiver a almoçar com familiares ou colegas vou-me lembrar de debater esse tema. A seguir Neo apresentou os números, que dão menos vontade de rir: 2,5 mil milhões de pessoas no mundo não têm saneamento em condições, e mais de mil milhões "defecam no chão"! Grave, mas nada quando comparado com este dado referido por Neo: "Mais de 200 mil crianças morrem todos os anos por falta de saneamento"!

Perante as evidências, nenhum dos 193 representantes dos estados membros da ONU de todo o mundo presentes na sala tinha vontade de rir. O vice-secretário geral, o sueco Jan Eliasson, limitou-se a dizer que "o saneamento básico é uma questão de dignidade humana", e apoiou a proposta, que foi aprovada por unanimidade. Assim em 19 19 de Novembro próximo assinala-se o Dia Mundial da Sanita pela primeira vez. A escolha desta data não foi à toa, pois desde 2001 que a Organização Mundial de Sanitas (WTO na sua sigla inglesa, e existe mesmo) assinala a 19 de Novembro o dia dedicado à sanita. Porquê esse dia em particular, desconheço, e suspeito que é melhor continuar sem saber. A razão que levou Singapura a tomar esta iniciativa em vez de outro estado qualquer tem uma explicação generosa; foi em homenagem a Jack Sim, conhecido por "Sr. Sanita", um singaporeano que se dedicou a melhorar as condições de saneamento em todo o mundo. Há uma piada recorrente que nos diz que o inventor mais frustrado do mundo é o inventor da sanita: toda a gente caga na sua obra. Bem, aparentemente não é toda a gente, e o mundo seria melhor se fosse mesmo assim. Agora na proposta de Singapura, apresentada pelo corajoso Mark Neo, ninguém se atreveu a cagar.

A última valsa


Agora uma história de fazer chorar as pedras da calçada. Rachel Wolf é uma jovem californiana de 25 anos, e como qualquer mulher da sua idade, sonha com o dia do seu casamento. Nesse sonho imagina-se a dar ao seu pai a honra de uma dança, o que é perfeitamente compreensível para qualquer menina que ama o seu pai. O problema é que essa imagem podia nunca se realizar, uma vez que nem Rachel tem namorado, como o pai está na fase terminal de um cancro no pâncreas. Como enquanto há vida há esperança, e muitas vezes um pouco de improvisação é quanto baste, Rachel resolveu encenar um casamento falso para poder dançar com o pai. Não faltou o vestido de noiva, a cerimónia, os convidados, o bolo e um padre a finger. Quanto ao noivo, foi um voluntário, um bom rapaz que não se importou com o aspecto tétrico da ideia. Depois foi só ir buscar o pai ao hospital, vestir-lhe o fraque e dançar com ele pela última vez. Pode não ter sido exactamente como no sonho de Rachel, mas sempre foi melhor que nada.

Um telemóvel que conhece o dono


As autoridades da Malásia preparam-se para introduzir uma tecnologia que permite inutilizar telemóveis que sejam roubados, e caso o ladrão não seja cuidadoso, pode também ser identificado e capturado. A novidade que vai ser introduzida em Outubro, e consiste na atribuição de um número de 15 dígitos único para cada aparelho, uma espécie de "bilhete de identidade". Uma vez que o telemóvel seja roubado, o seu proprietário apresenta queixa, e a operadora bloqueia o código de identidade, tornando-o completamente inútil. Caso o ladrão pense que o problema é do cartão SIM, é identificado quando comprar um novo, pois na Malásia o registo é obrigatório no acto de aquisição desses cartões. As autoridades esperam que os utilizadores da rede móvel adiram gradualmente ao novo sistema, de forma a combater a cada vez maior venda de aparelhos no mercado negro. Uma vez que o sistema conte com uma adesão significativa, a polícia espere que os larápios não se sintam tão motivados para praticar o crime, nem os consumidores a optar pelo mercado paralelo.

A diferença era Neymar?


Barcelona 8-0 Santos (All Goals) ourmatch.net 发布人 ourmatch
O Barcelona apresentou-se a noite passada aos seus adeptos com uma goleada sobre os brasileiros Santos, antiga equipa de Neymar, a contratação mais sonante do catalães para a nova época. Isto até nem seria notícia, pois o Barcelona era favorito, não fosse pelos numeros da vitória "blaugrana": 8-0! Um resultado de que poucos estariam à espera, uma vez que os santistas são um dos clubes brasileiros com mais tradições. Neymar não marcou, mas outra estrela sul-americana, Messi, assinou o primeiro, e Fabregas foi o único a fazer o gosto ao pé mais de uma vez, marcando dois golos. Os dois clubes já se tinham encontrado em Dezembro de 2010 na final do campeonato do mundo de clubes, e o Barcelona tinha vencido facilmente por quatro golos sem resposta um Santos que já contava com Neymar, na altura um jovem em ascensão. Parece que o craque brasileiro será apenas mais uma estrela na constelação do Nou Camp, mas no Santos vai fazer muita falta.

Entre o menos mau e o péssimo


Gostava de chamar a atenção para este artigo de opinião da autoria de Henrique Raposo no Expresso de quinta-feira, intitulado "Gays, Papa e o Islão homofóbico". Nem sempre concordo com o autor em questão, mas neste caso assino por baixo. E insisto em deixar isto claro, uma vez que algumas das minhas opiniões podem dar aso a mal-entendidos. É um facto que critico amiúde as posições da Igreja Católica, mas isto não signfica necessariamente que é a culpada por todos os males do mundo, nem invalida que existam outras confissões que defendem conceitos bem mais retrógrados. Na realidade a minha apetência para abordar a Igreja Católica em deterimento de outras é a minha familiaridade que leva a que a conheça melhor, e que tenha crescido no seio de uma família e comunidades católicas.

Posto isto, penso que Henrique Raposo levanta uma questão pertinente, apontando o dedo aos críticos do Vaticano e das suas posições perante a homossexualidade, mas assobiando para o lado quando se trata do Islão, onde vigora uma homofobia homicida. Se o Vaticano e a sua rígida doutrina poderá no limite ostracizar um homossexual, enquanto em países como o Irão ou o Uganda são condenados à morte. Sim, estas são realidades diferentes onde é mais complicado penetrar, mas como Raposo refere e bem, os islâmicos europeus, normalmente imigrantes naturalizados ou os filhos destes, exercem coação verbal e física e até violência extrema contra homossexuais.

Alguns dos alvos de Henrique Raposo podem escudar-se nos mesmos argumentos que eu, ressalvando que a Igreja Católica "é a sua realidade", mas não os vejo deixar qualquer pista que esse aspecto da doutrina da igreja é o único obstáculo que os separa da conversão. Se o problema é o tratamento reservado aos homossexuais, é mais coerente atacar quem usa a violência do que quem simplesmente se recusa a aceitar. Pelo menos a Igreja Católica está aberta ao diálogo com todos e os católicos são quase na totalidade gente pacífica. O clero islâmico está praticamente inacessível, e o risco de provocar a ira de um muçulmano fanático é francamente maior. Sendo as leis de um país iguais perante todos, independente da sua nacionalidade, etnia ou fé, pedir contas aos que têm a fama de dialogantes e não representam perigo é cobardia, sim.

Na testa está a virtude


A BBC apresentou um pedido de desculpas ao príncipe William e à família real após ter deixado ir para o ar uma fotografia "temperada" do príncipe. A imagem em questão mostra William e a sua esposa Kate Middleton, que recentemente se tornaram pais, com um pénis desenhado a marcador preto na testa. O pénis foi o suficiente para chocar as audiências, que nem notaram que além do falo, tinham ainda desenhado no rosto de William um bigode de sátirom uma barbicha, um par de óculos e um dente podre. A BBC explicou que a fotografia estava incluída num "clip" que anunciava a banda humorística Barbershopera, um dos convidados do programa, que trouxe consigo esse material que não havia sido previamente verificado. A culpa foi então do tal grupo de tecto vocal, que mais tarde interpretou o tema "I Could Have Married Kate" - "Podia ter-me casado com a Kate", com uma letra bastante sugestiva. A BBC pede desculpa, e os "terroristas" ficam a rir.

Sons da "silly season": Heart of Glass


Quando ouvi este “Heart of Glass” pela primeira vez, pensei ter percebido mal a primeira estrofe: “Once I had a love/And he was a gas”. “A gas”? Um gás? Chamar a alguém um “gás” não sugere uma conotação muito positiva, ainda mais tratando-se da pessoa amada. Devia ser outra coisa, mas as letras impressas no LP em vinil “Parallel Lines”, onde o tema aparecia como penúltima faixa do lado B, confirmavam: era mesmo “gas”. Foi apenas muitos anos mais tarde que descobri que esta era uma expressão muito na voga nos anos 70, e dizer que algo era um “gas” equivale a dizer em português que “é o máximo”. Tive um amor/e era o máximo. Parece-me bem. Os Blondie apareceram em 1974 em Nova Iorque, e o seu apogeu poucos anos mais tarde coincidiu com o movimento “punk”, o que os levou a ser confundidos com o género. Muito menos irreverentes que os Sex Pistols e com uma mensagem menos politizada que os Clash, levaram então as etiquetas de “dance-rock”, “pós-punk” ou “new-wave”. Eram um pouco de tudo isso, e de “punk” também, porque não? Eram os Blondie, com o seu som inconfundível, e a voz da não menos inconfundível Debbie Harry. Prova disso é que “Heart of Glass”, um dos seus maiores êxitos, é ainda um tema que vai resistindo aos tempos, e desde 1979 vai passando de boca em boca, de geração em geração. Os Blondie terminaram em 1982, voltaram a juntar-se em 1997 e agora fala-se de uma nova separação. Pouco sei do trabalho mais recente da banda, mas dá para perceber que Debbie Harry continua em grande forma apesar dos seus 68 anos. Pode já ter entrado na terceira idade – e ninguém diria – mas continua a ser um “gas”.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Agosto para todos os gostos


É sexta-feira (yeah!), a primeira do mês de Agosto, e para terminar mais esta semana com chave de ouro, aqui fica o artigo da edição de ontem do Hoje Macau. Para quem vai de férias, boas férias e aproveite bem, que depois só há mais para o próximo ano. Para quem fica, bom fim-de-semana, que não sendo bem a mesma coisa, sempre é melhor que nada.

Entrámos agora no mês de Agosto, o Verão está a meio, e para quem ainda tem férias, é o tempo de viajar, o que depois de mais um ano de clausura em Macau, é ideal para mudar de ares. Trabalhar em Macau, ter férias pagas e não viajar é quase visto como um sinal exterior de pobreza. É como que proibitivo, uma “vergonha”. Meter-se num avião e sair daqui para fora está para as férias como picar o ponto está para um dia normal de trabalho. É uma prova de vida. Mesmo os mais acomodados, a quem não apetece passar por esse elaborado cerimonial das reservas, da marcação dos hotéis, dos enfadonhos “tours” e tudo mais vê-se “empurrado” a tirar proveito dos dias de folga fora do território, especialmente se tiver família. A perspectiva de aproveitar as férias para descansar, ficar em casa de papo para o ar, sem horas para ir dormir ou para acordar, pode parecer atractiva, mas para os padrões locais, é tido como um “desperdício”. É irritante quando se regressa de férias e os colegas perguntam onde fomos, e se respondemos que ficámos em Macau, olham para nós como se fossemos algum leproso. É como se viver e trabalhar aqui fosse um privilégio, mas com uma cláusula de “fuga” anual obrigatória.

Quem nasceu em Macau e tem cá a família, opta por fazer férias nas vizinhanças, e neste aspecto o território beneficia do factor geográfico, com vários destinos idílicos para gozar disfrutar de uma semana de lazer à distância de duas horas de avião. A Tailândia é o destino de eleição do residente local médio, e muitas famílias já perderam a conta das vezes que passaram as férias naquele país. Conheço casos de pessoas a quem pergunto onde vão de férias, e respondem com um encolher de ombros: “na Tailândia, onde mais?”. Esta insistência na sempre-mesmice do mais-que-visto tem uma explicação simples. Nos anos 80, quando muitos países asiáticos eram ainda pouco recomendáveis para quem procurava um local seguro para viajar com a família em busca de praia, sol e diversão, a Tailândia oferecia condições ideais, impermeável a dissabores e surpresas desagradáveis. Apesar de existir actualmente um leque bastante variado de opções, em alguns casos mais económicos e esmerados em termos de serviço, a Tailândia está para o turista local como o Algarve está para os veraneantes portugueses. É mais prático e cómodo, e além disso já se sabe o que esperar.

Para a esmagadora maioria dos expatriados portugueses, ir a Portugal de férias é quase uma obrigação. Nem a distância que implica pelo menos doze horas de vôo até uma cidade europeia e mais duas ou três até Lisboa, sem contar com o tempo de espera durante a escala, impede que os nossos compatriotas aliviem essa comichão provocada pela saudade, esse sentimento tão característico do nossa matriz lusitana. Quem fica um ano ou dois sem lá ir, seja por motivos económicos ou outros, fica a sonhar com a próxima vez que vai abraçar os familiares, beber uns copos com os amigos, dar festinhas ao cão, rever os locais que lhe compõem o imaginário de infância. Mesmo aqueles que já passaram a maior parte das suas vidas em Macau e não perspectivam o regresso às origens se recusam a abandonar as raízes. Continuar a considerar Portugal “o seu lar” apesar de fazer a vida do outro lado do mundo e da sensação de distanciamento da realidade actual do país é mais do que simples nostalgia. É teimosia, pura e simplesmente.

Ir de férias a Portugal com uma frequência anual é uma “brincadeira” que sai cara. Para um casal com dois filhos, por exemplo, são cerca de 40 mil patacas só em passagens. Os mais endinheirados (ou devotos) chegam a fazer questão de juntar o Natal às férias de Verão. Há quem sofra quando fica mais de seis meses longe de Portugal; aqueles que não conseguem assentar os dois pés em Macau e encarar a nova realidade, ficam a “ressacar” quando lhes falta um “caldo” de Portugal para “chutar” na veia. Para muitas famílias portuguesas do território, a motivação para juntar umas poupanças durante onze meses de ano é apenas uma: passar um mês de férias em Portugal. Os que não podem por razões de liquidez ou por falta de férias que justifiquem o investimento (normalmente quinze dias “não dão para nada”), ficam com o coração nas mãos quando assistem através da RTPi aos outros emigrantes a fazer a festa durante o mês de Agosto. Como gostavam de poder também participar nesse Woodstock da sardinhada, do tintol e da música pimba.

Esta insistência em manter uma ligação umbilical a Portugal, mesmo que o regresso não esteja nos planos a curto ou médio prazo, pode fazer maravilhas ao ego, mas passa uma mensagem errada aos mais pequenos. Muitos dos filhos destes expatriados de Macau que aqui nasceram acompanham os pais na sua peregrinação anual às origens, e para eles as férias escolares são sinónimo de pelo menos trinta dias em Portugal. É difícil incutir numa criança que nasceu e cresceu numa realidade totalmente diferente dos pais a noção de que aquele sítio divertido onde passa um mês por ano é o seu país, o seu lar, e é ali que muito provavelmente vai ingressar no ensino superior. Aquele lugar distante onde vão a banhos, convivem com os avós, tios e primos com que têm pouca ou nenhuma intimidade, e as crianças da sua idade têm uma mentalidade e atitude diferentes da sua é-lhes apresentado como uma perspectiva de futuro. Para isso basta a ilusão que Macau lhes dá que são melhores que os outros que por lá andam, pois são filhos do “sotôr” e desconhecem o significado da palavra “austeridade”. Para eles Portugal “é canja”.

É interessante observar como nas restantes comunidades portuguesas um pouco por esse mundo fora os nossos emigrantes façam os possíveis por integrar os filhos no seu país de acolhimento, para que se tornem cidadãos de pleno direito, e não apenas “filhos de emigrantes”. Tenho dois primos nascidos em França que se consideram franceses, não falam português e para eles a nação dos seus pais serve de mera referência, e explica o facto de não terem um apelido francês. Isto apesar da proximidade geográfica com Portugal, além das semelhanças étnicas e culturais, que tornariam menos complicada uma eventual integração na terra dos seus antepassados. A forma como encaramos a nossa vivência em Macau é outra, e mesmo sendo fácil entender as razões, não posso concordar com elas, peço desculpa. Preparar os nossos filhos para um futuro num país que desconhecem quando o nosso próprio comodismo nos leva a ir ficando por Macau não faz sentido. Será falta de confiança no futuro desta terra que nos acolheu e onde somos bem tratados? Medo daquele “papão” que ia chegar em 1999 e de que ainda estamos à espera? Não me digam que a explicação reside no arcaico sebastianismo que nos leva a acreditar naquele Portugal próspero que vem sendo eternamente adiado ao ponto do desespero. Dava jeito ter uma bola de cristal que ajudasse a tomar as opções correctas, mas uma coisa é certa: o nosso historial em matéria de futurologia não nos permite ter certezas absolutas.

Acudam, que a China está a derreter!


Vai rindo, que quando a água começar a ferver por ti acima vais ver...

A China está a braços com uma onda de calor de proporções épicas, a pior em 140 anos - é caso para dizer que "ninguém se lembra de tanto calor assim" sem ser acusado de algum exagero. Está tanto calor que a temperatura do asfalto em algumas áreas chega aos 60º Celsius, e é possivel usá-lo para cozinhar e tudo. Literalmente, pois ainda ontem o China Daily publicou uma fotografia onde se vê uma criança a fritar camarões e ovos numa frigideira colocada num buraco no chão. As temperaturas acima dos 40 graus registadas em pelo menos quarenta cidades do país já provocaram dezenas de mortes, e levaram as autoridades a declarar o grau 2 de emergência de catástrofe natural, um procedimento normalmente usado apenas em caso de cheias ou tufões.

Xangai foi a primeira cidade a sofrer com os rigores do Verão mais quente desde meados do século XIX, e no dia 26 de Julho o termómetros subiram até uns inéditos 40,6º. Dois dias antes a cidade de Fenghua, no leste da China, registou 42,7º, estabelecendo o indesejável máximo em todo o país até ao momento. Alguns cidadãos queixam-se que "mal se consegue respirar" debaixo das temperaturas escaldantes, e quem precisa de realizar as suas tarefas ao ar livre, demora-se o maior tempo possível em locais onde se pode refrescar debaixo dos ares-condicionados. Pode não parecer muito, tendo em conta que em Portugal registam-se temperaturas semelhantes em algumas cidades alentejanas sem que os seus habitants entrem em desespero. Mas a humidade elevada nesta zona do globo a que se junta ainda o problema da poluição em muitas cidades tornam a combinação explosiva.

Os idosos e os doentes crónicos são os maiores grupos de risco, e que mais cuidados devem observar neste cenário pouco habitual, mas ninguém está livre dos "efeitos secundários" provocados pelo calor. Em Ningbo, província de Zhejiang, por exemplo, as temperaturas chegam a estalar os vidros das janelas, em alguns veículos a gasolina entrou em auto-combustão, causando que explodissem, e um painel de publicidade numa auto-estrada ficou em chamas, apenas por se encontrar exposto às radiações solares. Há mesmo quem tenha medo de usar o telemóvel, temendo que a bateria não resista ao calor e o aparelho rebente na cara. O mais bizarro aconteceu em Henan, quando uma mulher foi buscar uns ovos que tinha guardados num armário em casa, e ficou surpreendida ao verificar que estavam...chocados. Ah pintainhos do demo.

Não será tanto o fim do mundo ou algum castigo divino semelhante ao das pragas do Egipto, mas certamente que não faltarão teorias que expliquem este fenómeno, e nem todas inseridas numa lógica científica. Mas pelo menos enquanto os deuses do clima não apagarem o lume, o melhor mesmo é que os chineses vão para dentro, e se ponham a fresco. E se quiserem aproveitar esta forma de energia renovável em toda a sua plenitude, podem aproveitar enquanto o Verão está para durar. Pode-se obter água fervida para o chá bastando para tal colocar o fervedor à porta de casa, e fazer umas torradas deixando o pão à janela. E porque não, já agora. Nem todas as desgraças têm apenas um lado mau...

Chá das cinco...com cheirinho


Uma notícia na última página do JTM de hoje despertou-me a curiosidade. Um tribunal de Oliveira de Azeméis deu razão a um funcionário de uma empresa de recolha de lixo, que havia sido despedido por se apresentar ao trabalho em estado de embriaguez. O despacho favorável ao lixeiro infractor é no mínimo curioso. O juíz daquela comarca portuguesa sugere que o consumo de álcool por parte do trabalhador poderá trazer benefícios no desempenho da sua profissão, que neste caso não é "nada agradável", citando o magistrado. De facto não é com um sorriso nos lábios que os homens do lixo enfrentam o cheiro nauseabundo emanado pela porcaria dos outros, e quem sabe se um copinho a mais pode ajudar a encarar a tarefa com um pouco mais de alegria. Mesmo que no caso em questão a "alegria" corresponda a 2,3 gramas de álcool por litro de sangue, mas se um ou dois copinhos ajudam, nove ou dez dão uma ajuda ainda maior. O acórdão deixou ainda claro que "não existe uma lei que proíba consumir bebidas alcoólicas durante o horário de trabalho". Pode ser, mas esta é uma questão que está longe de reunir consenso.

De facto não há nada que em rigor impeça um trabalhador de consumir álcool antes ou durante a jornada diária de trabalho, ou parte dela. No entanto esta é uma prática cuja aceitação depende de uma série diversa de factores, desde a quantidade consumida e em que circunstâncias, a tolerância do indivíduo, a natureza do trabalho, bem como a sua localização, e as próprias regras de conduta estabelecidas. Pode ser permitido perante a lei, mas nada impede que em alguns casos as normas o condenem, e que cheguem mesmo a existir penalidades para quem as infrinja. Se não existe legislação que proíba alguém de beber quando bem lhe apetecer, também não há nada que impeça uma entidade laboral que exija aos seus assalariados a abstinência como condição "sine qua non".

Se beber durante o horário de trabalho não é proibido, pode ser pelo menos inadequado, ou pouco ético. Em alguns casos pode ser perigoso, como é o caso de profissões que requeiram operar maquinaria pesada, veículos, materiais perigosos, ou em que seja necessária minúcia e precisão que possa ser decisiva na segurança de terceiros. Estas situações exijem tolerância zero, e se consumir álcool é permitido, não deveria ser. Mesmo que não se recomende ou seja desencorajado o seu consumo de um modo geral, há lugar a algumas excepções graciosas. Uma empresa que festeje o sucesso de um projecto pode fazê-lo com champanhe, e numa comemoração especial (festa de Natal, aniversário da companhia,despedida de um colega, etc.) realizada fora do horário de trabalho seria demasiado rígido não permitir uns copos de vinho, umas cervejinhas ou uns digestivos. Afinal festa é festa.

Dependendo da tolerância à bebida, não é censurável acompanhar uma refeição mais temperada com uma bebida alcoólica que a ajude a "fazer descer". A este respeito tenho uma história engraçada que se passou comigo. Um dia fui almoçar à Caravela com três colegas chineses, que há muito queriam provar a famosa "Francesinha", esse mais que nutritivo prato da nossa gastronomia. Quando chegou a hora de escolher as bebidas, optei por uma cerveja nacional, tamanho media, o que de imediato causou o espanto de uma colega que me acompanhava: "Você vai beber mesmo tendo ainda que ir trabalhar à tarde???", vociferou a angélica menina com os olhos abertos, em choque perante a minha opção, que a seu entender seria completamente proibitiva, e que da minha parte demosntrava tanto de irresponsabilidade como de indisciplina. De facto para quem raramente ou nunca bebe, os consumidores regulares de bebidas alcoólicas são "bêbados", seja em que circunstâncias for. É um pouco como acontece com os consumidores das ditas drogas leves: para quem nunca provou droga nenhuma, são uns "drogados", coitados.

Esta é uma discussão difícil de produzir um meio-termo, ou sequer uma conclusão que agrade a todas as perspectivas. Há quem considere incorrecto beber durante o trabalho, e não há desculpas que o justifiquem, há quem seja menos inflexível e considere uma ou outra excepção, e há ainda quem pense que cada um sabe de si, desde que não chateie ou ande por aí a vomitar em cima dele. As opiniões são diversas, as respostas variam conforme as circunstâncias ou as ocasiões, e muitas das vezes as posições extremam-se. Será que álcool e trabalho combinam? Bebida e profissionalismo podem andar de mãos dadas? Existem horas para trabalhar e horas para beber? E o que penso eu de tudo isto?

Primeiro considero que se há uma razão para que foram inventados os fins-de-semana, feriados, férias e outras folgas foi para podermos fazer o que muito bem nos apetece sem precisar de dar satisfações. Durante o tempo destinado ao trabalho, deve-se optar pela correcção e pela neutralidade, e ninguém é obrigado a partilhar dos hábitos particulares do outro. Beber é um pouco como as restantes actividades que se inserem na esfera do particular. Há quem goste de "jogging", há quem prefira ficar em casa a jogar "videogames" ou a ver pornografia, e há quem opte por afogar as mágoas na bebida. São tudo escolhas perfeitamente aceitáveis, mas não é para isso que nos pagam. Quem não aguenta esperar até cumprir com os deveres profissionais, o que normalmente apenas são oito ou nove horas, até começar a beber, poderá estar a braços com um problema. E depois é preciso respeitar o espaço dos outros, e se nesse espaço não cabe o álcool, que assim seja. E quem tolera o bafo a "whiskey" ou as parvoíces de um colega que bebeu uns copos a mais ao almoço?

Pode ser que discordem, ou que tenham alguns reparos a fazer à minha posição, mas é aqui que me situo. E quanto ao tribunal de Oliveira de Azeméis que produziu aquela decisão judicial...bem...talvez tenham deliberado após um momento de fraqueza, e sentiram-se solidárias como o "colega" do carro do lixo.

O último grito de Tarzan


Uma mulher na China salvou o marido de morte certa, quando este se tentou suicidar saltando da varanda do seu apartamento no sexto andar em Changchung, província de Jilin. Pode-se dizer que foi mesmo por um triz, pois Ling Su, a heroína desta história conseguiu segurar o marido pelas cuecas, deixando-o suspenso pelas vestimentas que cobriam as suas jóias de família. Os transeuntes que testemunharam a cena tentaram ajudar a mulher, mas não conseguiram arrombar a porta do edifício, onde não existe porteiro, e foi preciso esperar pelos bombeiros para aliviar Ling Su do fardo. O suicida, Wang Li, de 45 anos, teria decidido pôr termo à vida por se encontrar desempregado, e se está vivo deve-o ao heroismo da esposa e à resistência da sua roupa interior. Se calhar está arrependido, e pode ser que agora receba dos familiares e amigos a ajuda necessária para enfrentar os seus problemas, mas não se livrou de um tremendo embaraço: não é todos os dias que se vê a "Jane" a segurar o "Tarzan"...pelos tomates.

Quatro dias de pranto, quatro milhões no banco


Outro caso da justiça Americana, este com contornos menos chocantes, mas que nem por isso deixa de ser curioso. Daniel Chong, um jovem de 25 anos de ascendência chinesa, foi detido o ano passado durante uma rusga policial na posse de marijuana, e acabaria por ser “esquecido” numa cela pelas autoridades. Quando finalmente se lembraram dele, encontraram-no faminto, desidratado, coberto pelas próprias fezes e com sintomas de insuficiência renal. Chong diz ter sido obrigado a beber a própria urina para poder sobreviver, e que durante o cativeiro foi assombrado por pesadelos e alucinações. Agora quantos dias esteve o pobre suspeito olvidado pelas autoridades numa cela, que o levaram a esta humilhante degradação? Quatro dias! Isso mesmo, apenas quatro dias, 96 horas, menos tempo que o montanhista Aaron Ralston passou num desfiladeiro com o braço preso debaixo de uma rocha, e este não só não se borrou todo, como ainda teve o discernimento de se auto-amputar e escapar. Enquanto isso este rapaz na imagem, caso tivesse ficado detido sem que ninguém soubesse por mais de uma semana, e quando o fossem soltar só encontrariam as ossadas. Se um dia fizer uma escala de doze horas num aeroporto à espera da sua ligação, precisará que o arrastem inconsciente até ao terminal. Não se pode dizer muito de Daniel Chong em termos de resistência física e psicológica, mas os quatro dias mais longos da sua vida valeram-lhe a simpatia dos tribunais, que lhe atribuiram uma indemnização de 4,1 milhões de dólares – mais que um milhão de dólares por cada dia de “inferno”. O rapaz até se pode dar por muito satisfeito, pois caso acontecesse algo semelhante no país dos seus ancestrais, a China, e a música seria outra. Recebia um pedido de desculpas, no máximo, e se reclamasse mais que uma vez habilitava-se a uma temporada num campo de reeducação pelo trabalho, acusado de “destabilizar a ordem social”. Que Deus abençoe a América!

Infinito mais mil


Ariel Castro, o motorista de autocarro do Ohio que foi capturado em Maio ultimo depois de ter mantido três jovens mulheres em cativeiro durante dez anos, foi julgado condenado a uma pena de prisão perpétua e mais mil anos. O julgamento foi bastante mediatizado, e outra coisa não seria de esperar, pois tratou-se de um caso de sequestro pleno de detalhes sórdidos que chocaram a América e o mundo. As mulheres foram repetidamente abusadas sexualmente por Castro, que fez uma delas abortar várias vezes recorrendo à brutalidade física. A pena pode parecer uma redundância, perpétua e ainda mil anos, o que é, logicamente, inconcretizável. Mas é assim nos Estados Unidos, onde não se estabelece uma pena máxima e aplica-se o cumulativo jurídico na sua totalidade, garantindo que todos os crimes são punidos de acordo com a lei. O arguido só se livrou da pena capital, que o deixaria no corredor da morte, porque negociou um veredicto de “culpado” por antecipação. Mesmo assim Castro disse em sua defesa que não é um monstro – e de facto nem um monstro seria capaz das atrocidades que ele cometeu – e que as relações sexuais com as vítimas foram “consentidas”! Um caso grave de desafazamento da realidade, e que torna este Ariel Castro um “case study” para psiquiatras e estudiosos da criminologia. Pode ser que tenham acesso ao seu cérebro e o possam analisar, uma vez cumprida a parte “perpétua” da pena. O que mais se saúda é a celeridade da justiça Americana, que julgou o caso em menos de três meses, poupando as vítimas e os seus familiares a uma angústia ainda maior através de litigios, recolha de elementos, adiamentos e outros subterfúgios típicos em situações deste tipo. Um desfecho com punição exemplar, e só espero que os Ariel Castros desta vida tenham captado a mensagem. Se estão realmente “doentes”, procurem ajuda professional, em vez de arruinar com a vida de inocentes.

Vídeo da semana


Um transformista alemão conhecido por "Barbie" encontra uma forma estranha de protestar contra a discriminação dos homossexuais na Rússia. A julgar pelo resultado, o seu...sacrifício, chamemos-lhe assim, não terá sido ensaiado previamente. Imagens não aconselháveis a menores e pessoas sensíveis (bebés e lingrinhas).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Dois crimes, um castigo


Uma notícia da edição de ontem do Jornal Tribuna de Macau, da sempre sumarenta página do “crime”, deixou-me a pensar sobre a forma como são imputadas certas responsabilidades, e de como tantas vezes a justiça fica mal servida à conta da confusão entre o conceito de vítima e de infractor. Tudo aconteceu num casino, onde um jogador contraíu um empréstimo de 300 mil patacas a um agiota com o intuito de as gastar numa mesa de Bacará. Ambos combinaram a forma como o mutuário iria liquidar a dívida, e chegaram a um acordo. Depois de perder tudo, o jogador pediu mais um empréstimo, e mais uma vez concordou com a modalidade de pagamento. Mais uma vez a casa saíu a ganhar, e sem liquidez para recuperar as perdas ou restituir o dinheiro ao seu credor, foi convidado pela “banca” a passar algumas horas num apartamento da Taipa, até pensar numa forma de cumprir com os seus compromissos. O devedor ligou a um amigo pedindo que o ajudasse, e este chamou a polícia, entendendo que seria a forma mais eficaz de “ajuda” nestes casos. Alguém com um pouco de sensatez nesta história. As autoridades detiveram o agiota e outro indivíduo, alegadamente o seu cúmplice, e resgataram o jogador sequestrado. O desfecho de mais esta rábula casineira deixa-me com um amargo de boca. Os agiotas vão parar ao xadrez enquanto o agente provocador vai à sua vida, e se calhar directamente para uma sala de jogo, onde é bem capaz de se meter outra vez em sarilhos? Contraíu o empréstimo por iniciativa própria, concordou com os juros fixados, e quando lhe pediram contas acobardou-se? Ai mãezinha acudam que os maus me querem bater? E a polícia não terá mais que fazer que andar a socorrer este tipo de gente, verdadeiros cancros da sociedade? Precisamos da tal lei que criminaliza tanto os usurários como aqueles requisitam os seus serviços, e depressa. Chamar de “vítimas” a estes pulhas é um insulto às vítimas propriamente ditas.

Um volley curto e um bagaço


Tem hoje início em Macau mais uma etapa do Grande Prémio Mundial de Voleibol Feminino, que há vários anos traz ao território a elite daquele desporto na variante de senhoras. A RAEM recebe todos os anos uma das etapas deste circuito mundial, que serve para dar rotatividade às selecções que normalmente disputam os mundiais e torneios olímpicos. O território já acolheu por duas vezesa “final-four”, se não estou em erro, e a China é uma presença assídua, não fosse a etapa de Macau uma boa oportunidade para jogar “em casa”. Este ano a selecção chinesa tem pela frente as suas congéneres da Holanda, Cuba e Bulgária. Isso leva-me a falar da publicidade que passa diariamente no canal 1 da TDM, onde o locutor Jorge Vale anuncia o evento, convidando o público a assistir às melhores selecções a nível mundial, mais coisa menos coisa, ou então “vir apoiar a selecção chinesa”. Mas esperem lá, se este anúncio é destinado aos espectadores do canal português da TDM, qual é o motivo desta exortação nacionalista? E se me apetecer apoiar uma das outras selecções, uma vez que não sou chinês? Correm comigo daqui para fora? É óbvio que isto não tem nada a ver com o Jorge Vale, e desconfio que se trata de uma tradução da mesma publicidade do canal chinês. Faço questão de usar o mesmo argumento da outra senhora para manifestar o meu repúdio: “Mais de 90% dos espectadores do canal 1 da TDM são portugueses, e só dominam a língua portuguesa”. Mas já que se incomodoram com a sugestão do país que devo apoiar, gostava de anunciar que não faço planos de assistir aos jogos, nem ao vivo, nem pela televisão. Mas agradeço na mesma.

Ainda a este propósito, o presidente-interino do Instituto de Desporto, José Tavares, foi receber as quatro equipas, que chegaram na terça-feira ao território. Ao comentar a importância do evento, Tavares proferiu uma declaração hilariante. Sublinhando a regularidade da sua passagem por Macau, o responsável disse na brincadeira que caso o torneio não se realizasse na RAEM, “seria como um almoço sem o café”. Portanto é assim, Macau é um grande almoço, e o Grande Prémio Mundial de Voleibol Feminino é o café que tira o mau gosto. Como no fim chega sempre a conta, suponho que esta seja o Grande Prémio de Macau? Será o Festival de Artes a sopa ou o queijo? As regatas dos Barcos Dragão serão a água mineral, certamente. E onde se inserem o Festival de Música e da Lusofonia? Fruta ou sobemesa? Já não vai é mais vinho para a mesa da presidência interina do IDM.

Booligans


Os adeptos de futebol ingleses mais exaltados, vulgo “hooligans”, têm uma fama que os precede. Cada vez que uma equipa inglesa visita uma cidade do continente europeu, os cuidados com a segurança são redobrados, o que normalmente é considerado uma chatice para as autoridades, que ficam a dizer cobras e lagartos dos invasores britânicos. Mas se todos fossem como estes neste video recolhido na noite de terça-feira numa rua de Manchester, o risco seria muito mais reduzido, e uma eventual cena de luta seria até bastante divertida. Os jovens que se envolveram nesta luta podiam muito bem ter ido parar ao hospital como escoriações múltiplas, narizes partidos e uns dentes a menos…tivessem acertado nos murros e nos pontapés que teimavam a disferir no ar. Pode ser que estivessem tão bêbados ao ponto de nem lhes apetecer realmente lutar, mas não quiseram quebrar a tradição.