sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sair do armário


Durante a recente discussão sobre o diploma que garantia aos casais homossexuais os mesmos direitos civis que os casais tradicionais foram muitos os deputados que justificaram a sua reprovação usando a mais diversa argumentação. Uma das intervenções mais peculiares chegou do deputado Fong Chi Keong, empresário ligado ao sector da construção, que disse que "a homossexualidade não é tolerada há mais de 1000 anos". Duvido que o sr. deputado tenha noções da História no que toca às perseguições movidas contra os homossexuais, ou da forma como era mais ou menos tolerada (e banal) durante a antiguidade clássica, mas 1000 anos pareceram-lhe bem. É um número redondo, e um milénio é tempo mais que suficiente para que lhe venha alguém desmentir categoricamente. E já agora, por "não ser tolerada", por inerência não se lhe deve ser atribuída uma equidade com as relações "naturais". Se querem direitos de sucessão e tudo isso que é garantido à maioria das pessoas que juntam os trapinhos e vivem uma vida em comum, não sejam tão "gay", ora. Têm um bom remédio.

Mas apesar da abrangência temporal referida por Fong, que levou a que os homossexuais fossem perseguidos e ostracizados durante muitos séculos, os tempos vão mudando. O cristianismo e o Islão condenam as relações homossexuais, e das religiões "mainstream" apenas o Budismo parece relegar a natureza pecaminosa do acto para segundo plano. No entanto os últimos 40 anos, periodo que se seguiu aos anos 60 e à chamada "revolução sexual" Americana, o "flower power" que dizia para "fazer amor e não guerra", surgiu o "lobby gay", um grupo de pessoas - muitas delas educadas e influentes - com uma orientação sexual alternativa, que exigiu que a sua voz começasse a ser ouvida, quebrando tabus e pondo um ponto final no silêncio. Aos homossexuais que se têm assumido como tal diz-se que "saíram do armário".

"Sair do armário", do inglês "getting out of the closet", significa assumir a orientação sexual. Este "armário" é uma analogia ao secretismo a que muitos "gays" vetaram a sua preferência amorosa, satisfazendo os seus caprichos amorosos às escondidas. Dentro do armário, às escuras, sob a capa do anonimato e com receio da reprovação de familiares, amigos e sociedade em geral. A "saída do armário" de muitas figuras públicas e cidadãos anónimos assustou os mais púdicos, e não foi bem vista por homossexuais que preferem manter secreta a sua sexualidade. São os tais que não querem sair do armário, por muito que o tal "lobby gay" os encoraje a fazê-lo.

Foi ainda nos anos de 1970 que foi cunhado o conceito de "orgulho gay", um bater de pé às normas e às instituições, e São Francisco, na Califórnia, tornou-se a capital "gay" do mundo. Um pequeno Paraíso na Terra para quem sempre se sentiu diminuído pelo preconceito. O "orgulho gay" foi um vento de libertação para milhões de homens e mulheres que chegaram a pensar que eram seres "anormais", doentes, que levavam a cabo práticas não naturais. A epidemia da SIDA, no início dos anos 80, foi um revés na conquista da emancipação, pois foi nos casais homossexuais que se detectaram os primeiros casos, e a prática da sodomia foi indicada como principal causa. Não bastou que os puritanos lhes apontassem o dedo e denunciassem o seu comportamento. O "lobby gaÿ" sobreviveu, continua sólido e avançou para o próximo passo: o reconhecimento das uniões.

É muito mais fácil assumir a homossexualidade num país democrático, liberal e laico. Nos Estados Unidos e em muitos países da Europa tornou-se um estilo de vida alternativo bem aceite em geral, e nos países nórdicos, conhecidos pelo caráter progressista da sua sociedade, há politicos assumidamente "gay". A actual primeira-ministra islandesa é homossexual assumida, e vive numa união civil com uma conhecida escritora daquela ilha escandinava. Em quase todos os países do hemisfério ocidental existem personalidades, entre, actores, músicos, politicos e outros artistas que se assumem como homossexuais, sem que disso lhes venha qualquer prejuízo.

Em Portugal, país de brandos costumes, do macho latino e do amor "caliente" foi legalizado há alguns anos o casamento "gay", a expressão máxima da luta levada a cabo pelo "lobby". Onze países, nove deles na Europa, reconhecem a união civil entre pessoas do mesmo sexo. É mais que provável que outros sigam esta tendência, que ao contrário dos receios manifestados pelos senhores deputados do hemiciclo de Macau. Não houve impacto negativo na sociedade e as instituições continuam intactas. As teorias do caos e da desordem social carecem de fundamentação. Ninguém se vai tornar homossexual pelo simples facto desse tipo de união civil ser reconhecido. Quem é homossexual vai continuar a sê-lo, com ou sem união civil.

Isto de assumir a orientação sexual de modo voluntário tem que se lhe diga. Eu não preciso de me assumir como heterossexual. A minha vida amorosa só a mim e à minha parceira ou parceiras nos dizem respeito. Houve quem saísse do armário sem que mais ninguém soubesse que lá estava trancado. Como não digo a ninguém que sou heterosexual, o que posso responder a alguém que me diga que é homosexual? "Parabéns mas não estou interessado, e boa sorte"? Pode-se entender esta divulgação da preferência sexual como uma forma de dissipar dúvidas e não dar lugar a rumores ou especulações. O que não falta são exemplos.

Em Portugal, por exemplo, a abertura foi tímida, lenta e recente. O pós-25 de Abril e o evento da Liberdade deram a oportunidade a um certo grupo tido como marginal de lançar as primeiras sementes. Apareçeram clubes nocturnos alternativos, transformistas famosos, uma nova atitude perante uma prática que até pouco tempo antes era censurada e remetida à clandestinidade. Tivemos figuras públicas que se assumiam abertamente sem precisar sequer de se declarar; tivemos o caso de António Variações, o homossexual mais flamejante de que há memória - pena o fim ter sido tão trágico. O jornalista Guilherme de Melo foi um dos primeiros a falar abertamente da sua homossexualidade, um dos pioneiro da saída do armário. A actriz Ana Zanatti e a cantora Lara Li protagonizaram um conhecido episódio nos anos 80, quando tornaram pública a sua relação amorosa.

O apresentador Manuel Luís Goucha assumiu a sua homossexualidade, depois de anos "dentro do armário", tempo que levou a construír uma carreira sólida na televisão. Mais recentemente José Carlos Malato, outro conhecido apresentador, saíu do armário após ser surpreendido numa discoteca "gay" em Madrid. Mário Viegas, Vítor de Sousa, Fernando Pessoa, João Villaret, Ary dos Santos, Maluda e muitos outros do passado e do presente são homossexuais referenciados, sem que isso tenha sequer uma importância decisiva na opinião pública em geral sobre o seu desempenho ou profissionalismo. O "dealer" de arte e "socialite" José Castelo-Branco é o expoente maximo da ostentação "gay". Se for insultado com um dos muitos impropérios que alguns homossexuais se sente magoado a ouvir, o José Castelo-Branco até agradece.

Em Macau, cidade que já foi ainda mais pequena do que é hoje, os homossexuais nunca sofreram muitas das represálias que tornam a vida difícil a camaradas seus de outros países da região. Jason Chao e as centenas (!) que a ele se juntaram na primeira manifestação do género no território em Dezembro último
terão sido os primeiros a "sair do armário", mas não foram uma surpresa. Ninguém ficou com a boca aberta de pasmo perante o facto, que não é nenhuma novidade. É mais que sabido que existem e sempre existiram homossexuais em Macau, muitos dos quais nunca fizeram qualquer esforço em ocultar essa orientação. A união civil pode não ter chegado agora, mas é tão inevitável como as mudanças das estações, a sucessão das gerações ou a abertura das mentalidades. Só porque a reprovação de alguns tem já "mais de 1000 anos", a Guerra está longe de ficar perdida. E o armário vai ficando cada vez mais vazio.

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei do que li.Obrigada pelos esclarecimentos dados.

Anónimo disse...

desde quando há provas que o Pessoa era gay?