segunda-feira, 6 de abril de 2015

Os "Bonsais"


Boas, caros leitores! Continuação de boas férias para quem está de férias, e caso contrário deixe lá isso, que se foi trabalhar isso hoje em dia é "bom sinal" - é para que veja em que estado a deixar o mundo. Pelo menos tive uma surpresa quando passei hoje pelo Consulado Geral de Portugal e, pasme-se, estava aberto! Acho que é o único dia em que isto acontece, enfim, devia ter comprado o "Mark-Six". Posto isto deixo-vos com o artigo de quinta-feira do Hoje Macau, ainda na versão PDF (p. 21), e para quem gosta desta rubrica (?) saiba que quinta-feira sai outro fresquinho, fresquinho (ainda a ver qual, exactamente). Fiquem com os anjinhos.

A arte milenar do “Bonsai” está inevitavelmente associada ao Japão e aos japoneses, mas pouca gente sabe que foram os chineses os pioneiros da técnica de cultivar árvores anãs. A prática remonta ao século VI, e terá sido importada por monges budistas e diplomatas nipónicos que se deslocavam ao continente chinês com frequência, e das 17 missões enviadas pelo Japão à côrte dos Tang entre 603 e 839, provadas pela existência de documentação, as pequenas pernadas de árvore eram como que um “recuerdo” indispensável. O próprio nome “bonsai” tem origem no chinês “penjing” (), que quer dizer “cenário num tabuleiro”, referindo-se aos pequenos recipientes onde as árvores eram plantadas e que se podiam transportar facilmente, e mudadas de lugar conforme o gosto de cada um, contando que tivessem a sua quantidade indispensável de luz e de ar fresco. O cultivo deste arbusto, do qual existem muitas espécies idênticas às árvores comuns requer arte e persistência, mas o nunca se deve confundindo com qualquer tipo de constrição ao desenvolvimento natural da planta – o “bonsai” cresce conforme o tratamento que lhe é dado, sem que se apliquem técnicas que de alguma forma possam sugerir estrangulamento, ou outra crueldade. Conta-se que um dos segredos desta cultura passa por escolher um local onde os objectos que rodeam o “bonsai” sejam pequenos, eliminando assim a necessidade da planta de se elevar ao nível do meio, inibindo o seu crescimento.

Na era moderna o termo “bonsai” generalizou-se, e diz-se de tudo o que se pode criar em miniatura. Existem mesmo os controversos gatos “bonsai”, tidos pelo Ocidente como um exemplo de maus tratos a animais, e para quem não faça disso um “cavalo de batalha” (ou “gato de batalha”, neste caso), trata-se apenas de mais uma “maluquice” dos nipónicos, equiparada talvez às melancias quadradas ou outras extravagâncias. Há quem defenda que estas modas pouco consensuais são um sinal de inteligência, ou manifestações próprias de uma cultura sempre um patamar acima das restantes. Talvez em alguns casos seja melhor mesmo continuar “atrasado” do que aderir a certas modas, quem sabe? O que não é certamente uma demonstração de cultura de espécie alguma mas que também está na moda são as “pessoas bonsai”, e destas encontramos facilmente em Macau, mesmo que não lhes seja atribuída essa designação, e que eles próprios desconheçam que partilham com os famosos arbustos essas qualidades. Isto explica-se pelo facto de ter sido involuntário e completamente acidental, e terá sido o tal segredo que leva a que os “bonsais” não cresçam ao nível dos objectos que os rodeiam que os levou a adquirir as mesmas características.

Ao contrário das árvores, a maioria das “pessoas bonsai” que encontramos em Macau são originárias do Ocidente, e por motivos de ordem histórica, Portugal é o principal exportador de “bonsais” – nunca é demais repetir que se trata de uma exportação inconsciente e involuntária, pelo que não constará da balança comercial entre os dois países. Ao mesmo tempo é como se sentissem a necessidade de se “exportarem” para cá, ou para qualquer outro local onde a pequenez não seja factor dirimente de grandes feitos, ou que mate à nascença as suas pretensões em se tornarem famosos, e que mostrem aos pais que afinal “valeu a pena” não estudar para engenheiro ou para médico, e em vez disso ir atrás do sonho. Tal como “bonsai” original é em si uma arte, são normalmente os “artistas” a espécie de “pessoa bonsai” mais comum.

Primeiro gostava de excluír desta equação os jogadores de futebol, que escolhem Macau não tanto por motivos de pequenez, mas mais por pragmatismo; o futebol de Macau pode ser o que é (ou que “não é”), mas aqui os clubes pagam. Pagam melhor? Não sei, mas pagam, ponto final. É nas belas-artes que as “pessoas bonsai” atingem toda a sua glória anã. Os cineastas, por exemplo, que em Portugal vêem as  suas ambições esbarrarem de frente com o IPACA, encontram em Macau a terra do subsídio na sua forma mais cândida, a do “toma-lá-e-depois-não-digas-que-não-apoiamos-a-cultura”. Os artistas plásticos montam ou promovem uma exposição, que por mais desinteressante ou banal que seja tem sempre a cobertura dos média, e para os próprio média o conceito de “notícia” é tal e qual como os “bonsai”: aqui tem uma dimensão considerável, lá fora há quem a pise e nem dê por isso.

É assim que neste ambiente em miniatura que os rodeia as “pessoas bonsai” não sentem a necessidade de “crescer”, de evoluir, e passado pouco tempo chegam à conclusão que afinal o seu tamanho é o ideal, e aí acomodam-se: querer crescer mais que os outros é despeito, e a certo ponto é Macau que se torna pequeno, aventuram-se de novo no mundo dos gigantes, e são recordados da sua pequenez. Macau e o mundo são como uma loja de roupa onde só existem dois tamanhos: destinado-a-ser-pequeno e maior-do-que-a-encomenda. Para quem não pode aspirar a mais do que ser um “bonsai”, que os deuses protejam este pequeno jardim à beira-China plantado, onde podem livremente florescer. E quem é que lhes vai pedir mais do que isto?



UK football series: Lee McCulloch



Vaca de merda



...Porque também são criaturas de Deus, coitadinhas.

domingo, 5 de abril de 2015

Liga de Elite - 8ª jornada


Enquanto nos principais campeonatos europeus a temporada aproxima-se do seu término, em Macau a Liga de Elite vai andando aos soluços, e este fim-de-semana realizou-se a 8ª jornada, e penúltima da primeira volta. Na sexta-feira o primeiro jogo realizado no Estádio de Macau, que voltou a ser a sala de visitas do campeonato local, o Chuac Lun confirmou a excelente recuperação que tem vindo a efectuar, vencendo a Polícia por 2-0. Leonardo Abrantes e Chan Man Hou marcaram aos 4 e 23 minutos, respectivamente, resolvendo cedo a contenda a favor das "andorinhas", que depois de terem conseguido apenas 1 pontos nos primeiros quatro jogos da prova, venceram as equipas do "seu" campeonato, e já se encontram no primeiro lugar da segunda metade da tabela.

No Sábado mais duas partidas, e às 19:00 entraram em campo Benfica e Chao Pak Kei, primeiro e terceiro classificados, separados por cinco pontos. O Benfica era amplamente favorito, e a curiosidade residia em saber a que ponto o CPK, que vem realizando um bom campeonato, lhes poderia fazer frente. Os encarnados encontraram resistência por parte do seu adversário mormente no primeiro tempo, que terminou com o marcador em branco, mas logo no quinto minuto do segundo tempo Fabrício Lima abriu o cadeado da defensiva do CPK e fez o golo inaugural. Abertas que estavam as hostilidades, foi necessário esperar quinze minutos para ver o segundo golo, da autoria de Nicholas Torrão, que viria a ser o homem do jogo, ao marcar de novo aos 85 e 89 minutos, completando assim o "hat-trick", e fechando as contas em 4-0 para o Benfica - um resultado que se pode considerar pesado para o CPK, que ainda só tinha perdido uma vez na edição deste ano da liga por 1-2 para o Ka I. E seria exactamente o Ka I, o vice-líder, a equipa seguinte a entrar em campo, e frente aos jovens Sub-23 da AFM a dúvida residia apenas nos números da vitória da equipa de Josecler. Dois golos no primeiro tempo por Alison Brito e Marco Rodriguez, e mais quatro na etapa complementar, com os mesmos dois jogadores a bisarem e Christopher Nwaru e Ronieli também a marcarem um cada fizeram a história da goleada por 6-1, com Cheong Ka Chong a fazer o ponto de honra para os Sub-23.

No Domingo houve jogo entre duas formações de matriz portuguesa, o Sporting e a Casa de Portugal, e apesar das previsões apontarem para um final de tarde tranquilo para os leões, o equilíbrio foi a nota dominante, com os homens comandados por João Maria Pegado a conseguirem uma vitória tangencial por quatro bolas a três. E nada fazia prever as dificuldades por que o Sporting viria a passar, quando ao intervalo o marcador registava 3-0, com Bruno Brito a assinar dois golos, no primeiro minuto e depois aos 38, e Ho Man Hou, que fez aos 20 o 2-0 para os verde-e-brancos. No segundo tempo a equipa de Pelé reagiu, e logo aos 47 Miguel Botelho reduzia para 1-3, e aproveitando a tremideira do Sporting, Jean Peres fez o segundo nove minutos depois. A CPM acreditou que poderia conquistar um ponto inesperado até sete minutos do fim, altura que Alex Sampaio, que havia entrado nesta etapa complementar, fez o quarto o Sporting, de nada valendo o golo de Eric Peres três minutos depois, que estabeleceu o resultado final. A jornada encerrou com o Monte Carlo-Lai Chi, que marcou o regresso dos "canarinhos" às vitórias, e logo com uma goleada por 6-0. Os golos foram divididos irmãmente, três por cada parte, com Paulo Henrique a fazer dois, Everton Silva, Renato Santos, Thiago Lima e Leong Sio Meng a marcar um cada. O Monte Carlo recuperou o terceiro lugar por troca com o Chao Pak Kei, enquanto o Lai Chi permanece no oitavo e antepenúltimo lugar.


Classificação:

Benfica-22 (29-3)
Ka I-19 (32-5)
Monte Carlo-16 (17-4)
Chao Pak Kei-14 (26-15)
Sporting-13 (19-11)
Chuac Lun-10 (13-28)
Polícia-8 (9-15)
Lai Chi-6 (10-25)
Casa de Portugal-3 (10-38)
Sub-23-1 (4-23)

Curem-se!


Isto não é um quadro de Picasso, mas uma vaca verdadeira, uma vaca que existe, uma vaca que não devia existir, uma vaca que nunca devia ter existido. Esta Mimosa/Cornélia/Clarabela nascida na Austrália deve ter dado muito leite estragado numa encarnação anterior, e nesta foi castigada pelo Deus bovino, que a fez nascer com duas caras - eu próprio fiquei de focinho à banda quando olhei para a criatura. Não sei se esta condição com que a vaca nasceu lhe causa dor, mas a mim dói só de olhar. No entanto o seu dono, que deve ter algum sentido estético, leiloou-a e ela foi comprada por uma quinta de produção de carne bovina, e já circula na net uma petição para impedir o abate desta bicéfala partida que a natureza resolveu pregar. Deixei aqui o link para assinarem a porcaria de petição, se tiverem dois minutos da vossa vida que não saibam o que fazer com eles, mas vou adiantando que nem dez milhões de assinaturas que se calhar o novo dono do animal nem vai ter conhecimento que estão a ser recolhidas vão impedir que ele faça o que entender com o aquela(s) cabeça(s) de gado que adquiriu de forma perfeitamente legítima. Aquilo que me deixa perplexo é a lógica desta gentinha; portanto, querem salvar esta criatura que nunca devia ter nascido de se transformar em bifes, mas estão-se nas tintas para as outras normais que marcham pela passadeira do matadouro todos os dias, é isso? Só porque tem duas cabeças? Não, não precisam de explicar, é daquelas coisas que prefiro que permaneçam um mistério.


Este caso tem muito que se lhe diga, e nem é pelas razões aparentemente mais óbvias. Esta gata na imagem, que provoca calafrios a qualquer pessoa NORMAL que olhe para ela teve o azar de sofrer um acidente quando ainda era pequena. Atropelada por um automóvel, perdeu o nariz, parte da face e uma perna, sendo socorrido por um jovem veterinário do Dakota, nos Estados Unidos, que apesar de inicialmente parecer um caso perdido, aceitou e desafio de reabilitar o animal. Gostava de fazer aqui um pequeno parêntesis para dizer que na minha opinião a alternativa mais humanista nestas circunstâncias é abater o animal. Podem trepar pelas paredes a arrancar os cabelos à vontade, que é a reacção-tipo destas pessoas desequilibradas que já não distinguem o ser humano das bestas, e possivelmente nem sabem que os métodos de eutanásia estão muito mais desenvolvidos na medicina veterinária do que na medicina convencional - o animal vai dormir, atenção, DORMIR, não é morto directamente, e depois não acorda e não sente nada. Agora, quem diz que os animais "não vão para o Céu" é a Igreja, por isso se quiserem vão lá chatear os cornos aos padrecos, e levem o Bóbi com vocês para mijar no altar, se vos der gozo. Peço desculpa às pessoas normais pelo tom agressivo, e permitam-me que termine a história. Portanto o tal veterinário fez desta gata o seu projecto pessoal, a que dedicou tempo, esforço e dinheiro, claro, e no final ficou assim, como vemos na imagem. Por mim está óptimo, pois o tipo diz que a bichinha não sofre dor, e que leva uma vida completamente normal, com excepção de não puder fechar os olhos devido à ausência de pálpebras, e por isso requer a aplicação regular de gotas para que os seus olhos não sequem. Sim senhor, um tipo dedicado e valoroso, apesar de ter baptizado o animal de "Chase no Face" (?), e de estar a usá-la com fins comerciais, como se pode ver pela imagem da direita. Tudo bem, ele é que sabe.

Encontrei esta notícia na página do grupo do Facebook "Direitos dos Animais", que como é já habitual estava repleta de comentários de gente que necessita urgentemente de auxílio, e falo de apoio psiquiátrico. A sério, isto preocupa-me de sobremodo, pois se ainda há quinze dias tivemos um gajo com dor de corno a espetar um avião contra uma montanha, o que me diz se um destes lunáticos não faz o mesmo depois de ter visto um cachorro atropelado a caminho do aeroporto? Desde sugestões no sentido de fazer a reconstrução facial da gata (só faltava a lista dos cirurgiões plásticos mais famosos da Coreia do Sul), brados de "ai meu Deus", e "Jesus" e "Deus ajude este animal, ai por favor", e no topo do bolo, mensagens de encorajamento para o animal, como se ele as fosse ler! Quando é que esta gente perdeu o toque com o mundo real? Ainda mais espantoso eram as críticas dirigidas aos próprios autores da página, que publicou a peça traduzida de uma notícia originalmente em inglês, e que fazia alguns comentários que dariam a entender que a gata parecia saída de um filme de terror. Não posso concordar mais, mas e depois? Isto é um animal irracional, não se vai sentir incomodado se as pessoas ficarem (justificadamente) perturbadas com a sua aparência, nem vai passar ao lado de uma carreira no "ballet". Isto é um desfasamento tal, que me leva a que faça aqui um apelo às pessoas normais que realmente lutam pelos direitos dos animais com os pés assentes na terra: distanciem-se o mais possível destes psicopatas, e evitem qualquer tipo de ligação com eles, que só levam a que as pessoas comuns percam a vontade de ajudar, por pensarem que toda a gente envolvida nesta nobre causa sofre das suas taras. Deixem bem marcada essa distância. Obrigado.

Expresso con panna


Robert John Lind (na imagem, o que não é uma chávena de café) foi julgado por exposição indecente e assédio sexual, crimes de que se confessou culpado, e eu diria que até teve orgulho nisso. Lind estava apaixonado por uma colega de trabalho, mas esta ignorava-o, e uma vez chegou a insultá-lo por ele ter aparecido à sua frente de braguilha aberta, e ameaçou fazer queixa! Ora essa, já viram a finória? O homem era tímido, e aquela era a maneira que ele encontrou para meter conversa - muitas amizades começam com um simples reparo do tipo "estás a vender vinagre ou a pôr periquito a apanhar ar?". Perante a indiferença da mulher amada, Lind deu um novo sentido ao conceito de "amor platónico", e fez o que qualquer um no seu lugar faria¹: masturbou-se junto da secretária dela, duas vezes para dentro do seu café. Só à quarta "investida" é que a mulher descobriu, e o que fez ela? Chamou a polícia! Delatora, queixinhas, traidora; está lá um homem a dar de si (literalmente) pela mulher amada, e esta vai chamar a polícia. Ainda por cima diz que "o café tinha um sabor estranho", e que tinha notado uma substância "esquisita" em cima da sua secretária. Só lhe falta vir dizer que "não sabe como se fazem os bebés". O mais lamentável é que Lind, cuja sentença será lida no dia 22 de Maio, arrisca-se uma pena de um ano de prisão.

¹ Quando digo "no lugar dele" quero dizer mesmo no lugar dele, com aquela carinha de trintão virgem com um "cheirinho" de trissomia.

CR3, CR5, CR7, CR9, CR tudo



Cristiano Ronaldo volta a estar na berra. E agora muita gente estará a pensar: "é verdade...já fazia quatro ou cinco dias que o C. Ronaldo não era o tema de todas as conversas na parcela do planeta compreendida entre as ilhas de Tonga e de Rapa Nui". Mas é assim mesmo, e para voltar ao "top" dos temas de conversa, basta bater mais um recorde, que pode ser o maior número de golos num ano civil, o 100º "hat-trick", ou o golo mais rápido marcado ao Sábado antes da hora de almoço. Hoje foi a vez de marcar o "hat-trick" mais rápido da sua carreira, na vitória do Real Madrid por 9-1 (nove-a-um) frente ao Granada, a contar para a 29ª jornada da Liga espanhola - e isto com o Real "em crise", pois em grande forma teria sido...20-1? Vá lá, 20-2, pronto. Os golos que constituem a nova marca para o internacional português foram apontados aos 30, 36 e 38 minutos, e depois não se ficou por aí, marcando mais dois aos 54 e 89, completando assim aquilo que os espanhóis chamam "manita", ou 5 golos numa única partida. Os "merengues" estão em 2º lugar e somam agora 67 pontos, menos um que o líder Barcelona, que só jogam esta madrugada em Vigo frente ao Celta.

O Sambú do Idrisa



Enquanto o plantel sénior do FC Porto começa a ver as contas complicarem-se no que toca à conquista de um título desta temporada, após a derrota no Funchal frente ao Marítimo para as meias finais da Taça da Liga, o sector de formação do clube vai de vento em popa na função de assegurar o futuro. Os juniores, ou Sub-19, lideram a "poule" do título, e foram ontem a Alcochete vencer o Sporting por 2-1, enquanto os Juvenis, ou Sub-17, obtiveram a passagem para a mesma fase nesse escalão ao golear no Centro de Treinos e Formação Desportiva do Porto/Gaia, no Olival, o V. Guimarães por quatro bolas a uma. Um jogador azul-e-branco em grande destaque, como podem comprovar pelas imagens, foi o avançado Idrisa Sambú, que apontou um "hat-trick". Coisa normal, para mais nestes escalões jovens, pensarão vocês, mas é notório observar que o jovem de 17 anos originário da Guiné-Bissau tem qualidade para singrar no futebol profissional, contando que não "salte etapas" - e já agora que tenha juízo. Curiosamente o seu empresário é Catió Baldé, o mesmo que protagonizou o "Brumagate" no Verão de 2013, quando o jogador do Sporting, então com 18 anos e grande revelação da época transacta e um dos melhores jogadores do mundial de Sub-20 desse ano, se recusou a apresentar-se em Alvalade, alegando uma interpretação diferente da data do termo do contrato com o clube. Repito: juízo precisa-se. Talentos há por aí ao pontapé (menos em Macau).


Judas


Este Domingo de Páscoa, e para variar, gostaria de prestar homenagem ao homem sem o qual esta celebração cristã do rito da passagem nunca seria possível: Judas Iscariotes, discípulo, braço-direito e confidente de Jesus Cristo, de quem era amigo íntimo, e que viria mais tarde a trair, em circunstâncias sempre muito mal interpretadas pela maioria dos fiéis. Dos fiéis e não só, pois o próprio nome de "Judas" ganhou uma conotação que nem sempre remete à sua pessoa. Dizer de alguém falso, fingido, traidor e sem escrúpulos, que se vende, muda de ideias, troca de partidos e prostitui as convicções e todo o resto em que acredita conforme aquilo que lhe convém que é um "judas", não traz à memória o próprio Judas Iscariotes. Só que nem esse desprendimento entre o adjectivo e a pessoa redimem o pobre Judas, a quem ficou reservado um papel ingrato na paixão do seu amigo e mestre, e outro ainda pior na forma como se reconta esse episódio cuja veracidade é suportada apenas pelos cânones. A interpretação correcta da traição de Judas só pode ser feita num contexto mais alargado, e é revestida de uma complexidade tal que fica mais fácil aceitar o dogma vigente: a Judas o papel do lobo e a Jesus o de cordeiro. No entanto este capítulo das escrituras, tão fascinante quanto apaixonante, convidam-nos a uma reflexão mais profunda, que nos leva a saber mais sobre nós próprios, sobre a humanidade em geral, e tudo graças a interacção não de dois, mas sim três personagens que compõem este intrigante enredo.

Possivelmente há quem já esteja de crucifixo em punho a lamentar-se da ausência de um Santo Ofício, cujo número tivesse no "auto-dial" do telemóvel prontinho para denunciar este herege que se atreve a encontrar na pessoa de Judas valências que sugerem que se tratava de um soldado ao serviço das forças do bem. Sem dúvida que a Igreja fez mais uma vez um belíssimo serviço de lavagem cerebral, que só me deixa ainda mais confuso quanto às suas verdadeiras intenções: porque carga de água se dão a tanto trabalho para demonizar um personagem quando ficava mais fácil (e era "family friendly", também) contar A VERDADE, que no fim não nos deixa com sentimentos de ódio por ninguém. Antes de passar à minha exposição sobre o que considero uma tremenda injustiça feita a Judas Iscariotes, vou deixar de forma avulsa algumas perguntas às quais talvez muita gente nunca tenha tido a curiosidade de ver respondidas, ou que já lhes ocorreu mas temeram que duvidando estivessem a questionar a força e a validade de fé - estratagema típico da Igreja, tal e qual, sem tirar nem pôr. Aqui estão:

- Se Cristo "morreu na cruz, sacrificando-se pelos pecados do mundo em nome de seu pai, Deus, que o enviou à terra como Seu cordeiro", e tudo isto só foi possível devido à traição de Judas, seria bom ou mau se Judas não tivesse cometido essa traição e Jesus não tivesse morrido "pelos pecados do mundo?".

- Mesma pergunta, mas de uma outra perspectiva. Se Judas NÃO tivesse traído Jesus, pelo contrário, o ajudasse a escapar aos Fariseus e aos romanos e a todas as pessoas que o odiavam e que nem seu sacrifício nos livrou delas, poderia ser CULPADO por Jesus não ter morrido pelos pecados do mundo, como estava destinado a fazer e como era o desejo de seu pai?

- Terceira pergunta, última da trilogia da culpa de Judas. Estaria destinado a Judas, independentemente do papel que tivesse ou das decisões que tomasse, o papel de "mau da fita"? Porquê ele, o mais próximo dos seguidores de Jesus, e em quem este mais confiava? Deve existir uma boa razão...e existe, já lá vamos.

- Porque é Judas condenado e objecto da ira dos fiéis, que vêem nele o "carrasco" do seu Salvador, mas a Pedro, que negou Jesus três vezes, como o último tinha previsto, traindo-o assim, também, mas a este cabe o papel de "porteiro dos Céus", segundo a versão mais tradicional e popular dos muitos prismas por onde se podem olhar os mistérios do divino. É uma espécie de nº 2 da hierarquia dos Céus, encabeçada por Jesus, um "CEO", com Deus a ficar no papel de "owner". Como se vilifica tanto uma traição, enquanto se premeia a outra, que mesmo sendo muito menos grave, não deixa de ser condenável?

- E finalmente, como que em jeito de revelação, acham que Judas QUIS ter este papel de vilão,esta maldição que perdura até hoje, passada de geração em geração? E o próprio Cristo, quereria ele acabar assim? Claro que não, pois estamos aqui a falar de duas pessoas como nós, e não do fantasma Gasparzinho e o seu amigo Brazinha, o capetinha. Quem teve a ideia de nos implicar neste vil enredo, alegando que tudo foi feito com o fim de nos salvar? Quem é o autor deste guião, que nem o mais perverso autor do género do "film noir" se lembraria? Quem pode ser assim tão cruel, afinal?

Começando por responder a esta última pergunta: Deus é quem elaborou esta comédia dos erros, esta tragédia de faca-e-alguidar. Não satisfeita com a crueldade que representa alguém - ou alguma divindade, que é mais grave - mandar o próprio filho ao mundo para se sacrificar seja lá pelo que for, a Igreja resolveu fazer "upgrade" do sofrimento do Messias e da crueldade a que foi sujeito durante o tal Calvário, e para a trama ficar completa arranjou ainda um culpado, como nos clássicos policiais, onde era o normalmente o mordomo, o caseiro, o "chaffeur" ou a servente. Pensando bem, até ficava melhor se tivesse vestido Judas de mordomo ou de "chaffeur", e em vez de Judas podia ser "Jarbas", ou "Alfredo", para quando Jesus dissesse o seu nome ele respondesse: "Sua excelência chamou, milord?". Mistério um bocadinho mal escrito, diga-se de passagem. Eu chamaria-lhe antes de "literatura de cordel", e da mais reles. O que seria uma discussão sobre esse dramático desenvolvimento?

- Então afinal quem é que tramou Jesus? Não tive tempo de acabar de ler o livro todo...
- Foi Judas Iscariotes, que revelou o paradeiro de Jesus em troca de dinheiro.
- De dinheiro? Inédito! Mas olha lá, Judas não é aquele que era como um assessor de Jesus, seu melhor amigo, confidente, e que não tinha qualquer interesse em que ele fosse apanhado e morto, que assim ficava...bem, "desempregado"?
- Esse mesmo, e vê lá tu que Jesus disse-lhe que ele ia fazer isso mesmo, e ele fez!
- Ohh...a ironia....
- Podes crer. E depois de receber o ouro das mãos dos carrascos, Judas...
- ...foi gastá-lo, certo?
- Não, enforcou-se, por não aguentar viver com os remorsos.
- Ah, pronto, era a minha segunda resposta. Um bocado tarde para sentir remorsos, não? Achas que devemos dar-lhe o epíteto de "traidor" e amaldiçoá-lo para toda a eternidade?
- Sim, e eu acrescentaria "pelo menos até o sol morrer e com ele todas as formas de vida na Terra", mas nem sei porque estou a dizer isto, quando toda a gente sabe que a Terra é o centro do universo e foi Deus que criou e o sol é o candeeiro da mesinha-de-cabeceira Dele.
- É mesmo. Então olha, fica assim, Judas maldito, pulha, traidor, cobarde. Ah, sabe bem ter um bode expiatório onde descarregar a raiva e a frustração de viver num tempo onde ninguém se lava, não há televisão e contraem-se doenças horríveis, em que a carne apodrece e cai do corpo.
- Epá nem quero imaginar o que seria se não fosse termos uma crucificação ou uma lapidação de quando em vez, para desviar a atenção das pessoas a defecar no meio da rua, que são todas.
E pronto, agora antes de me atirarem essas pedras que têm na mão ou essa cruz que levam aí para me crucificar, gostaria de recordar que sou agnóstico, e não penso que tenha faltado ao respeito a qualquer figura, ou parodiado qualquer situação descrita no evangelho. Como agnóstico e não pessoa de fé, olho para esta sucessão de eventos do ponto de vista de uma pessoa que regista os comportamentos de outras pessoas, nada mais. Com o meu agnosticismo como "joker" que não me deixa cair na casa negra e assim ser expulso do jogo, gostaria de recordar aos leitores e leitoras que não sendo eu uma pessoa de fé não posso afirmar como verdade absoluta os factos que V.Exas. têm por garantidos, o que se explica com a vossa crença, que eu respeito quer indivual, quer colectivamente. Por outro lado não posso também concordar com os atuns ateus, pois não existem provas que desmintam para lá de qualquer dúvida que os pressupostos tidos como verdade pelos crentes são falsos. Há dogmas que facilmente se desmontam, mas o maior de todos, infelizmente, carece de fundamentos que o desmintam: e existência deste Deus.


Se Deus existe, ou qualquer outra força de onde tudo deriva e continua a derivar, penso que não será nada como a humanidade imagina que seja, e cuja personificação mais consensual é da autoria de Miguel Ângelo - não o vocalista da extinta banda Delfins, mas o pintor italiano, que deixou no tecto da Capela Sistina uma obra a que deu o título de "A Criacção de Adão", onde se vê Deus (em cima) a criar o primeiro homem - um dos dogmas que a ciência conseguiu desmentir, mas que teimosamente muita gente ainda acredita. Mas não é para discutir se o Homem é feito de barro e as mulheres de costelas de novilho que deixei aqui acima este retrato-robô de Deus pintado por Miguel Ângelo de Florença (e não de Cascais, repito). Achei interessante a escolha do artista para representar uma entidade que nas escrituras só chega a ser vista por Moisés, e "pelas costas", numa demonstração de ultra-mega-humildade: "criei o Universo, mas prefiro manter-me no anonimato...mas se gostares de costas, pois olhar para as minhas, que eu deixo". Mas se Deus fosse mesmo assim, como Miguel Ângelo (de Florença, não Cascais) o retratou naquela forma primitiva de graffiti, as possibilidades são inúmeras. Senão, quem é que "Deus" vos faz lembrar?


Assim de repente lembrei-me de outros personagens ficcionais...oops, eu disse "outros"? Queria dizer "mais realistas". Assim temos o avô da Heidi, o Capitão Iglo, o velhinho da marca de iogurtes da Longa Vida e last but not least, o Pai Natal da Coca-Cola (não o S. Nicolau da Lapónia, nem o Miguel Ângelo de Cascais). Agora digam lá se em vez de uma história onde o filho de Deus e Salvador da humanidade é brutalmente assassinado após uma tortura angustiante depois de ter sido traído pelo melhor amigo, que roído de remorsos suicida-se de seguida, era mais interessante (e menos violenta, sádica e doentia) uma onde se descobria que o Pai Natal da Coca-Cola era na verdade...DEUS?!?! Sim, o maior rival de Jesus na quadra natalícia era afinal seu pai, e podiam revelar o segredo durante uma confrontação entre ambos, e onde a certo ponto o Pai Natal da Coca-Cola confessa numa voz abafada e áspera: "Jesus...eu sou o teu pai". Aposto que isto nunca foi pensado na história do cinema para filmes cuja acção decorre no planeta Terra (ah! pensavam que me apanhavam, não era?). Isto tudo para dizer que basta ter uma barba branca e uma cara de poucos amigos para se assemelhar ao Deus do pintor italiano cujo nome me cansei de repetir, e destes quatro penso que o avô da Heidi ganha o primeiro pré mio -  e isto são apenas personagens fictícias, pois do lote de velhinhos com barba branca de carne e osso, o registo é pouco ou nada abonatório.


Sendo a barba a característica física mais evidente em Deus de...sabem quem, pode-se ainda dizer que qualquer um dos sete anões menos o Dunga (que penso tratar-se de uma referência pioneira aos hermafroditas) podia muito bem representar esse papel. E eu até sei qual deles o faria melhor: o Zangado, razões óbvias. Mas se o anão estava sempre "zangado", isso devia-se a alguma condição que o indispunha - uma unha encravada, uma dor de dentes, cólicas, pedras nos rins, ou então era apenas um palerma. No entanto não consta que no seu estado crónico de "zangado" se lembrasse um dia de envenenar a papinha dos restantes seis anões, ou de os decapitar durante o sono, ou ainda quiçá estrangular a Branca de Neve e de seguida violá-la, mal ela desse o último suspiro, concretizando a sua modalidade preferida, a necrofilia com vítimas acabadinhas de soltar a derradeira mijoca. Mas não, guardou o rancor apenas para si, enquanto que o "Deus zangado" da Bíblia tem na sua contabilidade uma respeitável dose de assassinatos em massa, e sempre recorrendo a métodos bastante originais, qual deles o mais criativo: desde destruir cidades inteiras com recurso a fogo, brasas e labaredas que manda "do Céu" (estranho, sempre pensei que as labaredas fossem departamento do outro...deixem para lá), transformar pessoas em sal, ou matar todos os primogénitos de uma nação inteira com febre hemorrágica, tudo porque andava chateado com o faraó, que é apenas 1 (um). E será que ele castigou o tipo com um ataque de diarreia e vómitos em simultâneo (acreditem, é HORRIVEL)? Na, isso não tinha piada nenhuma, o melhor e causar uma morte horrível e dolorosa a milhares de crianças, e assim o tal 1 (um) faraó fica a saber como elas mordem. Justo, este Deus. Ah sim, e "ama-nos", também. "Ama" mas gosta de necrofilia, paciência, e gostos são gostos.


De tão zangado que o tal Deus anda, dou comigo a pensar para quê se ter dado a tanto incómodo, de "criar" só para depois ter que deitar tudo abaixo outra vez. Se calhar é essa a ideia, não sei, mas para fazer aquela cara de enjoado com que aparece na "chapa" do Miguel-coiso quando criou o primeiro homem, mais valia não se ter incomodado - ninguém lhe pediu nada, até porque quem tinha a capacidade de "pedir" alguma coisa ainda não tinha sido criado. Reparem neste ciclo vicioso de sado-masoquismo: não tinha ninguém nem nada que o aborrecesse, e vivia lá nas nuvens rodeado de querubins - cenário para lá de idílico - e não contente com isso, resolveu criar o Homem, essa criatura "feita à sua imagem". E acredito, mas só quando comete barbaridades contra outros homens, outros seres vivos, o meio ambiente, e especialmente coisas que não se conseguem defender. Como criancinhas do Egipto, por exemplo, ou aqueles milhões sapos que fez cair do "Céu" (ali há de tudo: labaredas, sapos...) para se estatelarem no chão com as tripas de fora, e apenas porque...isso mesmo: queria chatear o faraó. Ah, valente.

Esta diatribe contra o Deus-papão que a Igreja inventou para intimidar e domesticar os crentes (que entretanto se foram tornando mais "vivos") serve para entender melhor o móbil da traição de Judas e do sacrifício de Cristo. Em termos leigos, tudo se resume desta forma: Deus mandou o seu filho à Terra, o que na altura foi considerado um sinal de...bem, era uma coisa boa, ou pelo menos convencionou-se que seria. O Seu filho entretanto cresceu, e transmitiu ideias que nada, mas nada tinham a ver com a conduta do seu suposto Pai, pois não passavam por arrasar com fogo, lava e pestes toda a gente que não fizesse o que Ele queria, e quem estivesse por perto levava também, "por via das dúvidas". Posto isto, e com uma espécie de intriga política pelo meio, chegava a altura de Jesus morrer, porque Ele queria assim. Agora peço-vos um pouco de atenção, e que me sigam neste raciocínio: um pai que mata o próprio filho, ou cria ele próprio um cenário do qual resulta a morte desse filho, é alguém que nós queremos ver pagar por essa monstruosidade, certo? Pouco ou nada adianta tentarem convencer-nos de que foi um acidente (se foi mesmo prova-se facilmente), ou que, como neste caso, tudo fazia parte de um "plano". Este plano passa por Deus, o modelo de virtudes e de perfeição que nos querem fazer passar, o único que é perfeito e ao qual devemos a mais incondicional das obediências, e a que devemos prestar a mais reverente das devoções, matar o seu próprio filho. E irónico como de um pai que mata um filho haja tanta gente que diga "que Deus o perdoe". Perdoar do quê? Só se for por não O ter convidado para participar da carnificina.


"What's my point"? Simples: um Deus misericordioso, e mais importante do que isso, omnipotente - que tudo pode - podia do alto da sua infinita misericórdia, e fazendo uso da sua omnipotência encontrar outra forma de demonstrar que gosta muito de nós, e que nos ama, e tal, tudo bem. Algo assim mais "light", como uma Aurora Boreal, por exemplo. Ou um arco-íris. Atendendo à beleza destes espectros de luz com que natureza nos prendou, se as medirmos à escala da dialéctica do bem e do mal, então só posso concluir que devem ser obra do Diabo. Não me levem a mal, mas cada vez que Deus se "manifesta", há sapos que caem do Céu e ficam com as tripas de fora, mulheres de patriarcas Seus transformadas em estátuas de sal, e como se não bastasse ter feito cabidela com os orgãos internos dos pequenotes no Egipto, ainda manda o seu próprio filho para morrer "pelos nossos pecados". Perdoem-me que eu corrija essa última parte: pelos VOSSOS pecados. Eu não fiz que justifique a sangria desatada que foi o calvário de Cristo, e mesmo quando tenho fome e me apetece um frango, recuso-me a aceitar que andem a fazer gato-sapato da ave antes de a matarem e cozinharem - e isso porque não existe uma forma de eu comer frango vivo e que depois de comê-lo permaneça ainda vivo. Isto é impossível, e até parece uma daquelas coisas que "só Deus consegue". Será mesmo assim, quando a única forma que encontra para nos passar uma mensagem é submetendo o Seu próprio a uma morte lenta, dolorosa, horrível e com contornos perfeitamente escusados. Ah, sim, e já me esquecia: para o efeito implica ainda um outro inocente, amigo próximo desse seu filho, e que em vez de o acarinhar, como qualquer pai faz com os amigos mais chegados dos filhos, obriga-o a cometer uma traição à qual ficará indelevelmente associado para a eternidade. Gostava já agora de garantir aos pais de todos os amigos do meu filho que não me passa pela cabeça fazer um infinitésimo daquilo que Deus fez a Judas: "- Com que então amigo do meu filho, ah? Espera só até eu arranjar um jeito que o teu nome fique associado à mais vil e reles das traições, e tornar-te na pessoa mais odiada de que há registo, e sem uma centelha de perdão que te redima. Mas só depois de veres como eu sou um pai daqueles 'à antiga', que não amolece os filhos com mimos e outras mariquices".


Agora falando mesmo a sério. É claro que Deus, a existir, e sendo mesmo o engenheiro desse milagre que é a vida, o maior de todos os pequenos milagres da natureza, NUNCA poderia ser o Deus que a Bíblia descreve e que a Igreja vem corroborando desde há séculos, numa cumplicidade que posso adjectivar de coerciva. Tudo o que escrevi ali em cima num tom que muitos podem considerar "leviano" é exactamente isso, "leviano". Só que a leviandade, o deboche ou a vulgaridade são "peanuts" se os compararmos com as manifestações próprias de um psicopata que o Deus que nos impingiram revela, ao esfolar o próprio filho como mandou os seus patriarcas fazer com os pobres cordeirinhos no Antigo Testamento, prática à qual até há não muito tempo os judeus rendiam homenagem, besuntando as paredes das suas com sangue de um cordeiro acabado de matar, porque foi esse o sinal de devoção que o "Deus zangado" pediu deles, caso não quisessem provar do arsenal de fogo e restantes armas de destruição maciça celestiais. Enigmático, este Deus que todos ama, mas que no caso desse amor não ser retribuído através de práticas macabras, Ele esmaga os não seguidores, e sempre com uma nova maneira, ainda mais cruel que a anterior. Nunca é demais recordar não é este Deus que existe no caso de existir mesmo um Deus - foi o que VOS (não "nos") impingiram. Eu não impinjo nada nem vos ameaço com infernos e outras patetices com o propósito de vos meter medo e roubar o vosso dinheiro com o pretexto que "foi Deus que mandou". O que vos quero mostrar um dos raros momentos nas escrituras em que através do que poderá ser muito bem uma metáfora de um lado muito singular da natureza humana. Outra vez, podem acreditar que foi tudo exactamente como está lá escrito, e como podem muito bem constatar do texto, não afirmo uma única vez que estou certo, ou que alguém está errado. É a minha opinião, apenas.


O capítulo 22 do livro de Lucas, do Novo Testamento, contém os elementos que estão na base da celebração da morte e da ressurreição de Cristo que os cristãos hoje assinalam: a última Ceia, o monólogo do Jardim das Oliveiras, a detenção de Jesus e a negação de Pedro, terminando na apresentação de Cristo ao Tribunal Judaico, e a partir daí segue-se o episódio da Paixão, que me vou abster de analisar - ficará para outra altura. Este capítulo inicia-se com a traição de facto, com o momento em que Judas revela o paradeiro de Jesus nessa sexta-feira onde ceia com os discípulos para comemorar a Páscoa. Sim, Jesus não está na origem da Páscoa, pois esta já era comemorada desde tempos imemoriais como um "ritual de passagem". Remonta aos tempos pagãos e assinalava, lá está, a passagem de um ciclo que marcava o fim do Inverno e o início da Primavera, da renovação, da transformação da terra fria, árida e estéril para uma fértil e frutífera, sempre com a esperança renovada de que os frutos que dela brotarem trarão vida à própria vida. É um milagre que antes do próprio ideal do Deus único era já celebrado pelas religiões politeístas, desde os celtas aos germanos, e mesmo alguns povos bárbaros, e pasme-se: os chineses. O Ano Lunar representa para os chineses tudo o que as celebrações cristãs do Natal ou da Páscoa representam para nós. É ingenuidade pensar, como muita gente está convencida e ainda bate com o pé se lhes disserem o contrário, que a vinda de Jesus ao mundo inaugurou todas estas celebrações e festivais. A única coisa que Jesus trouxe de novo ao mundo - e já foi muito - foi a sua filosofia, que ficaria conhecida por "cristianismo". Nunca, mas nunca em instância nenhuma confundam "cristianismo" e "catolicismo" -  o segundo é a corrupção do primeiro.


Logo no início lê-se que Judas foi trair Cristo porque ficou temporariamente "possuído por Satanás". Ora bem, é realmente muito útil encontrar mais um bode expiatório, quando tanto a traição de Judas como a própria morte de Cristo têm apenas um arquitecto, que planeou ambas com uma antecedência tal que nem no caso de Satanás realmente insistir se lembraria de tal coisa. A palavra hebraica "satan" (שטן) era inicialmente (e ainda é) um verbo que significa "discordar, obstar", ou seja, ir contra a norma previamente estabelecida, optando por assumir uma posição de rebeldia, contradição. Como devem saber existem inúmeras traduções das escrituras, e muito ficou perdido na tradução, e em alguns casos mal interpretado. A figura de "satanás" que nos incutiram, de uma criatura vermelha, chifruda, com cauda, e que ostenta uma indumentária semelhante ao do conde Drácula, e completa com um tridente não é tão antiga quanto isso, e se querem que vos diga, fica muito bem nos rótulos colados nos frascos das marcas de piri-piri, mas fica por aí. A mim transmite-me uma sensação de calor e de língua a arder, e por associação, cervejinha, que vem servir para apagar aquele "fogo infernal" - e aqui está, "infernal" no bom sentido, que é o que importa porque não existe um "mau sentido". Pode-se apontar o dedo à Tora judaica por ter lançado esta pequena confusão, pois tratando-se de um compêndio de textos com uma elevada carga de misticismo e difíceis de interpretar (os tipos andavam eram todos a dar na "nargila" mais do que deviam), onde era comum atribuir características humanas a conceitos abstractos, tal como pensamentos, gestos e lá está, sentimentos, como este de conflito interior, que é nada mais que uma característica perfeitamente normal da natureza humana, que se pode racionalizar perfeitamente: não concordamos com algo, ficamos chateados, e fazemos barulho, partimos a loiça, fazemos queixinhas, etc. Não foi Satanás que levou Judas a dizer onde podiam os oficiais de justiça encontrar Jesus naquela noite; foi lá por vontade própria. Ou será mesmo assim? 


A última ceia, de todos sabem do que se trata, pelo menos no seu essencial, é o momento em que Jesus deixa a sua última mensagem aos homens que o seguiram durante aquele período que, e variando conforme as traduções, teria sido de dois ou três anos. Outra vez, há uma ideia feita de que Jesus ostentava o  estatuto de milagreiro e filho de Deus, e quando não andava pelas ruas a curar leprosos ou a fazer magia, deitava-se num cadeirão onde era abanado por eunucos que agitavam uma folha de palmeira enquanto odaliscas lhe levavam uvas à boca. Antes da sua missão, Jesus era carpinteiro, e mais nada. Fazia mesas, cadeiras, e outras peças de mobília, a trabalhava no duro, aliás como judeu que era, nem se importava de trabalhar, e muito menos de ganhar umas massas, que seriam mais caso ele trabalhasse também mais - é uma das lições que ele nos ensinou, e esta foi um "brinde". Os discípulos, os doze homens que se fizeram acompanhar de Jesus, eram não mais do que rebeldes, que se opunham à ocupação romana do seu território, e que viram nele alguém capaz de atrair multidões com os seus dotes de oratória. A ideia não era fundar uma religião, evangelizar, abrir uma clínica de leprosos ou um espectáculo itinerante de ilusionismo, mas sim juntar um batalhão para fazer frente ao invasor.  Jesus não era tanto visto como um "general", mas mais como um líder espiritual, um "guru", se quiserem, e não há nada que nos diga que Pedro, Simão, Tomé e todos os outros estavam mesmo convencidos que ali estava o filho de Deus. Se tivessem essa percepção, penso que iam redefinir as prioridades: 

- "Epá já viste? Afinal o nosso "mister" é filho de Deus, criador de tudo o que há nos céus e na Terra, todo poderoso e infinitamente misericordioso, omnipotente e omnipresente!- "E depois? Ouve lá...importas-te de te concentrar na resistência aos invasores romanos? Não é a adorar filhos de Deus que vamos formar um exército. Querem lá ver este...
É possível que este diálogo nunca tenha tido lugar. O que teve lugar foi a discussão que se seguiu à denúncia de Jesus, de que um dos seus doze seguidores ia trai-lo, e outro o negaria três vezes, e aqui existe outra confusão que envolve o canto de um galo. Não vou desenvolver essa questão, mas posso ir adiantando que ali era Jerusalém, e não o Sítio do Picapau Amarelo. Perante a revelação de Jesus que sabia da traição que lhe tinha feito, Judas confrontou-o, e esse momento de conflito entre os dois homens, e ao mesmo tempo resignação à tarefa que tinha sido atribuída a cada um deles define toda a razão de ser e explica a motivação por detrás da traição de Judas, da paixão de Cristo, e da sua ressurreição. Na mesma noite, enquanto todos dormiam Jesus foi até Gethsemane, um jardim também conhecido por "Jardim das Oliveiras", por ficar situado no sopé do monte com o mesmo nome. Aí as traduções das escrituras dividem-se quanto às intenções de Jesus em isolar-se naquele local onde ia frequentemente com os discípulos; umas falam em oração em tom de introspecção, outras em monólogo (de despedida, em algumas versões) e outras das quais eu me inclino mais em acreditar, uma acesa discussão com o seu Pai. Sim, esse mesmo. Jesus deixa transparecer aqui as suas fragilidades como homem, confessa os seus receios, e o maior de todos seria aquele se preparava para acontecer. 


Esta passagem, onde a um certo ponto se dá a entender que Jesus pondera virar as costas ao sacrifício que lhe tinha sido destinado, foi a inspiração para o escritor grego Nikos Kazantzakis   idealizar a sua obra "A última tentação de Cristo", que aborda os últimos dias do cordeiro de Deus da sua perspectiva pessoal, e onde o autor faz um exercício de especulação sobre o que sentia Cristo perante a proximidade da hora em que lhe ia acontecer o que nós, deste prisma, consideramos abominável (vocês por devoção, eu por oposição) e ele sabia de antemão exactamente quão horrível ia ser. Pensem bem nisto. Num acesso de ira, Jesus chega a desafiar o Pai, questionando as suas intenções, e dizendo-se "incapaz" de terminar o tal "plano" que incluía um doloroso martírio - o seu. Acaba por aceitar o seu fado, depois de ser visitado por um anjo que lhe garantiu a validade do sofrimento pelo qual viria depois a passar. Até aqui a solenidade do momento ou a relevância dos anseios de Jesus não foram motivo para o que o seu Pai e idealista do sacrifício viesse pessoalmente transmitir-lhe confiança, e em vez disso preferiu mandar um emissário. Não me surpreende, pois até na concepção do próprio filho delegou poderes através de uma procuração passada a um tal de Espírito Santo. Ui, hoje nem Ele assinaria nada que contivesse esse nome. Na novela de Kazantzakis parte-se de um cenário alternativo, onde Jesus escapa ao sacrifício e vai viver a vida de um homem, como tinha feito até lhe ser anunciada a razão da sua vinda. Isto foi um escândalo, e pouco importa que tudo o que o autor grego tenha escrito fosse rigorosamente fiel aos evangelhos, pois as pessoas não lêem os evangelhos: acreditam no tal Jesus Cristo Superstar. Ah sim, essa denominação também não é aceite. Claro que eles não admitem, mas quem se identifica com a ideia de que uma morte lenta e cruel foi feita como sacrifício em sua prol preferia talvez Jesus Tábua de Tiro ao Alvo, ou quiçá Jesus Folha de Rascunho. Que tal, uma vez que assim como esses dois objectos inanimados que referi, Jesus não pode ter tentações ou ser "Superstar". 


Mas prosseguindo na tentativa de entender Judas e as razões que o levaram a cometer o crime imperdoável, e de que ainda hoje é tido como culpado. Mas não é, de todo. Inocente e vítima, isso sim, apanhado no lugar errado e no momento errado, não foi senão mais um dos muitos cordeiros dados ao holocausto pelo Deus caprichoso e ditador a que a religião se encarregou de atribuir outras qualidades que o tornam ainda menos recomendável. Judas era o homem de confiança de Jesus, pois ao contrário dos restantes 11 discípulos, era um homem culto, inteligente e dotado de uma humanidade que o seu mestre rapidamente identificou nele, chamando-o para junto de si e fazendo dele o seu favorito. A abnegação de Judas à causa dos pobres foi ironicamente a razão encontrada para que se deixasse seduzir pela oferta dos Fariseus, que lhe sugeriram que fizesse algo pelos pobres com o dinheiro que recebeu por ter denunciado Jesus. Judas tinha por Jesus uma estima que o levou a confrontá-lo em várias situações onde temia que a projecção que o mestre começava a ter fizesse dele o centro das atenções e o levassem a ser considerado "inimigo público", e que com isso ganhasse inimigos poderosos - e foi o que acabou por acontecer. Há quem tenha interpretado a traição de Judas como um acto de "inveja". Nada mais errado. Tanto Jesus como Judas sabiam do papel que lhes estava destinado, e a Judas coube a parte mais ingrata, que cumpriu despedindo-se do mestre com um beijo na face. Jesus exultou, exclamando "trais-me assim, com um beijo?". Interpreto a reacção de Jesus como de surpresa, mas não de indignação, pois afinal o homem que foi obrigado a trai-lo concluiu a sua missão com um gesto muito mais subtil do que aquilo que o seu Pai tinha programado para ele.


Judas não aceitou o peso da traição que Deus lhe encarregou de levar consigo até ao fim dos dias, e pôs termo a esses mesmos dias, não deixando que os remorsos levassem a melhor - esta é uma interpretação diferente da conceptual, que defende que o suicídio se deveu a esses mesmos remorsos. Pensem bem, acham mesmo que sim? Quem é afinal o responsável por toda esta decepção, sofrimento, dor a arrependimento, que destes dois homens resultou na morte, um em definitivo, e outro para mais tarde ressuscitar e "ir para o lado do seu Pai, no reino dos  Céus". Penso que não é necessário dizer que esta ladainha é feita à medida para as Catequeses e outras academias onde se molda a crença no divino com queda para o sobrenatural e o fantástico. A ascensão vem descrita no final do capítulo 24 do livro de Lucas, e existem várias versões, a maior parte delas falando do encontro de Jesus no Domingo em que o sepulcro onde jazia estava vazio, o que causou (naturalmente) grande agitação entre os seus seguidores. Diz-se depois que toma uma refeição com eles, abençoa-os, e depois "estando ainda a abençoá-los, deixou-os, a caminho dos céus". Muito vago, para que se interpreto isto como uma ascensão, se bem que noutras versões (se estão a pensar "brasileiras?", acertaram) lê-se "....e foi elevado para os céus". Relativo e irrelevante, e agora em jeito de conclusão falo apenas por mim. Pode ser que aceitem essa responsabilidade de ter o sangue de Cristo nas mãos, e que renovem a paixão todos os anos por esta data, trazendo de volta o sofrimento e a morte de Cristo, e tirando da traição de Judas uma lição que não está lá. A verdadeira responsabilidade da natureza do mal cabe apenas ao seu arquitecto. Judas não merece perdão? Também não precisa dele. Já agora...


Ontem, no Quénia, um massacre causou a morte a dezenas de estudantes. Pouco importa a autoria deste crime horrendo, ou a sua motivação, mas fica no ar a pergunta: Deus sacrificou o Seu filho para nos salvar do quê, exactamente? Penso que só Ele tem a perversidade para imaginar algo pior do que os males de que nem o sacrifício do seu único filho nos valeu.


sábado, 4 de abril de 2015

O profeta da desgraça anunciada


O empresário David Chow é um personagem que surge referido ocasionalmente neste espaço por motivos normalmente "divertidos", muito à medida da sua "persona", um "dínamo" com pouco mais de metro e meio, mas muito pêlo na venta (e um pequeno bigode, também). A última referência que fiz ao ex-deputado foi no ano passado, aquando da campanha de Chui Sai On para a eleição do Chefe do Executivo, onde durante um jantar fez uma intervenção ao seu estilo, apelando ao CE que "se faça ouvir", dando a entender que Chui era um pouco "mole" demais para impor autoridade. O que eu penso de David Chow é que por um lado me diverte, com a boa disposição que irradia, mas por outro lado não confiava nele para me dizer as horas do dia. Não tenho queda para os negócios, nem para o mundo da alta finança e do investimento, e cheira-me que se tivesse, este seria um concorrente em que eu teria de ficar constantemente a olhar por cima dos ombros. Não é o que se pode descrever por sentimento de "amor-ódio", mas a dar-lhe um nome, seria "um olho no burro, outro no cigano cómico". Foi na condição de empresário que voltou hoje a ser destaque, ao fazer uma previsão algo tenebrosa do futuro de Macau em matéria de finanças: se as receitas do jogo continuam a cair, o céu desaba em cima das nossas cabeças.

Para o homem que está por detrás de projectos da área do entretenimento, tal como o Landmark ou a Doca dos Pescadores, vulgo "Elefante Branco do Porto Exterior", estamos actualmente numa situação de "alerta amarelo", depois de terem saído os últimos números das receitas dos casinos que indicavam um saldo de 17,5 mil milhões de patacas de saldo. Para Chow, se este número baixar para 15 mil milhões, o Governo será obrigado a recorrer à reserva financeira, e é inevitável que se desinvista, com as concessionárias de jogo a reduzirem o contingente de mão-de-obra e a suspenderem a construção de projectos em curso, além de se acabar com o plano de comparticipação pecuniária aos residentes permanentes, ou trocando em miúdos: cheques, "moah". O empresário disse isto com a maior calma do mundo, quando para alguns esta imagem é tudo menos o que se desejaria para uma economia que depende na sua totalidade das receitas do jogo - e acho que é altura de cortar o "quase", pois parece que ninguém quer saber desses "trocos" para nada: as receitas do jogo são o base, o tronco, a cabeça e os membros da economia de Macau, e só com esse dinheiro para "tapar os buracos" da balança comercial (que deve ser a mais díspar do mundo) Macau não se transforma numa aldeia perdida nas montanhas do interior do Nenhuristão, em Longequesefarta, perto da fronteira com o Kudejudas. Nem David Chow nem nenhum de nós pode prever quanto vai ser a queda das receitas no próximo trimestre, sabendo de antemão que com toda a certeza que haverá novamente queda, neste, no próximo, e nos seguintes, pelo menos até final de 2016. Contudo não é preciso ser bruxo para adivinhar que a "red zone" delineada por ele, os tais 15 mil milhões, são uma inevitabilidade - com quedas na ordem dos 40%, o anormal seria não acontecer.

Não sei se os restantes analistas concordam com a previsão de Chow, não quanto aos números, mas quanto ao cenário pouco animador que desenhou do futuro próximo. Se há uma coisa que Macau nos ensinou foi a "esperar o inesperado", mas até agora as "surpresas" têm sido todas boas, se bem que o aproveitamento que se faz de tanta bonomia deixa muito a desejar. A reserva financeira, ou seja, o superavit de cada exercício fiscal anual, é algo que possivelmente ninguém se deu ao trabalho de calcular com exactidão, mas depois de vários anos a ouvir que em Março as receitas já superaram as previsões, que são sempre feitas em alta, deverá ser um número astronómico, com dígitos que não cabem numa linha de uma folha de cálculo. Agora, esta "almofada" imbuída em éter tem deixado os mais cépticos a dormir todas as noites o sono dos justos, confiantes que este "pé de meia" chega e sobra para fazer frente a uma crise, mesmo das mais prolongadas. Recordo-me de Francis Tam ter dito numa ocasião que a reserva "chegava para cobrir a eventualidade de um ano e meio sem qualquer receita", ou seja, Macau ficaria 18 meses a gastar sem entrar um avo nos cofres, e não ficava a dever a ninguém. E isto foi muito antes desta recente recessão, numa altura em que a subida das receitas era (ainda) superior às actuais quedas.

Mas tudo isto é um exemplo acabado da velha máxima "nem tudo o que luz é ouro", e de facto a autonomia financeira de que Macau goza é tudo menos independente. Achei sempre que andamos a pagar a demasiada gente para mandar "bitaites", mais uma prova de que o dinheiro é tanto que dá para pagar altos vencimentos a quem só fala e ainda por cima não diz nada de jeito. Quantos "face-palms" fiz eu, Deus meu, que ainda não sei como não tenho a testa em carne viva, ao ouvir esses analistas da treta com um ar muito sério a alertar para os perigos dos casinos no Japão, Filipinas, Singapura e não-sei-que-mais. Podia haver um casino em cada cidade asiática, que em circunstâncias normais Macau não perdia um centavo. Aquilo de que o jogo depende, e por inerência toda a economia, e até a própria existência de Macau é simples, e resume-se numa palavra apenas : China. Nem a China deixaria os seus "jogadores" irem jogar na Singapura ou no raio que os parta, nem Macau tem qualquer voto na matéria se Pequim decidir "fechar a torneira". Isto deixa-nos numa situação de segurança e risco de morte ao mesmo tempo, e nunca seria possível ter a primeira sem aceitar graciosamente a possibilidade da segunda. Se por um lado temos a consciência de que o Governo Central nunca deixaria Macau ao "deus-dará", por outro lado o mesmo "deus-dará" não coloca de parte a hipótese de tomar conta da China. Passo a elaborar.

O grosso das receitas, e ao mesmo tempo a "parte de leão" sem a qual o resto nem sequer serviria para assoar a ranhoca vem dos jogadores VIP. Estes "jogadores VIP" não são o Rei das Berlengas, o Conde de Talmourol nem a madrasta da Branca de Neve - não são sequer pessoas apaixonadas pelo risco, adeptas da jogatina "per si", mas sim altos funcionários e empresários corruptos, que usam a RAEM como a sua "máquina de lavar" privada, e aqui temos a fama de "lavar mais branco", como o detergente Omo. Desde que o presidente Xi Jingping deu início à "caça" aos mais abusadores, que chegaram ao ponto de nem sequer disfarçar a sua natureza de salteadores do erário público e espremedores dos centavos de orfãos e viúvas, que Macau vem acarretando com as consequências. Em retrospectiva, aquilo que agora olhamos para trás e chamamos "os belos tempos" implicavam obrigatoriamente que alguém com poderes para o efeito subtraísse de forma ilegítima vários milhões de dólares, dos quais uma parcela viria parar as mesas de jogo de Macau: ele comia, nós comíamos, todos iam para casa de barriga cheia e ainda a emitir sonoros arrotos para atestar a opulência da refeição. Mas helas, perante o risco de falência do regime, com a população cada vez mais consciente e menos satisfeita com o conceito de "equidade" do partido único e a intensificação das lutas internas no seio do próprio partido, Xi Jingping precisou de fazer apenas o que tinha que fazer: era fazer, ou ficar "feito". A agitação que teve lugar o Verão passado na RAEM, com a insatisfação a sair à rua e a fazer-se ouvir com eco no continente é um factor não despiciendo da falta de confiança do Governo Central em abrir livremente a torneira ao capital vindo do continente, mas aí está, esses foram ecos da própria situação delicada que se viveu (e ainda vive, a certo ponto) na China; sem descontentamento, não há protesto, e ninguém protesta de barriga cheia.

Agora podíamos começar a chorar sobre a diversificação da economia derramada, ou perguntar "afinal onde está o problema, que certamente há dinheiro que chegue para esta vida e metade da outra". Sim, era uma boa ideia passar esta batata quente para os filhos e para os netos, e essa conversa da "diversificação", quer dizer, não pensavam que era a sério, pois não? Quem é que ia largar a árvore das patacas, deixando lá os outros a comer à farta, e ir plantar outra coisa, para depois ficar sentado à espera que cresça? Era bom, era. Além disso é o que há: Macau é pequeno, isso toda a gente sabe, e quando cresceu foi para alargar a esfera do negócio do jogo e da sua prima direita, a especulação imobiliária. E não vale a pena perguntar onde está o porquinho de barro com as economias do jogo, o tal excendentário, o que ficou dos exercícios fiscais onde no fim não se gastou e ainda se ficou com mais dinheiro. "Porquê, acabou? Não há?" - pergunta o leitor fingindo-se de distraído. Lá haver há, mas não está disponível por "dá cá aquela crise", o dinheiro tem dono, e é todo dele. Isto do jogo não é o mesmo em matéria de negócio que uma padaria ou uma casa de ferragens: não existe a noção de "longo prazo". O dinheiro que se joga nem sempre é limpo, e no caso de Macau quase nunca é - ninguém vai pegar no dinheiro que é produto do seu esforço e apostá-lo, atirando-o ao abismo da incerteza e esperando que se multiplique "por magia". As receitas - e aqui a casa faz o que pode e o que não pode para sair por cima - são depois canalizadas para outros negócios ou aplicado de várias formas, e nem preciso de dizer que não é em leitinho para os orfanatos ou em remédios para os velhinhos. O melhor nem pensar nisso. Onde se faz dinheiro com o jogo, investe-se para fazer mais, e mais, e mais, quando a fonte "seca", arruma-se a trouxa e vai-se "espremer o sumo" numa outra paragem, onde exista gente com dinheiro, de preferência sujo, que queira, e aí está, "lavá-lo". Uma vez que o lucro atinge proporções desmesuradas, com aconteceu em Macau, não há como voltar para trás, e a paciência acaba por se esgotar, mesmo que para o comum dos mortais 1% daquele lucro seja mais dinheiro do que alguma vez conseguiria com trabalho honesto.

Aqui o jogo funciona um pouco como a droga, e nesse aspecto ambos justificam a fama de "viciante" que granjearam; assim como um traficante não vai dar descontos ou ofertas a um cliente antigo quando este se encontra "nas lonas", nem as concessionárias do Nevada vão manter a barraca aberta a lucrar "apenas" bastante só por "consideração, quando podiam pegar na trouxa e ir para outro sítio lucrar muito mais - mais que "bastante", entenda-se. É aquilo que eles chamam de "pragmatismo", que para as pessoas normais leva a seguinte interpretação: "têm tanto pragmatismo, estes filhos da puta" - "pragmatismo" aqui é eufemismo. Mas o Governo de Macau sabe disto - sabe de muita coisa, mas da sabedoria à acção parece existir um "bloqueio" que se estende para além disto do jogo - e vai por enquanto desfazendo-se em salamaleques para Pequim, e este ano pela primeira vez nos 15 anos de RAEM tomou medidas políticas, renovando o Executivo na tentativa de mostrar que leva a governação e o interesse público a sério. E ninguém diz que não leva, mas em tempos de vacas magras, e quando antes estas eram morbidamente obesas, a tendência é para para tirar delas o mais que se puder, e chupar-lhes o tutano nem se coloca como uma "possibilidade" - é tido como parvo que mnão o fizer. Não se pensa, não planifica, não há "backup plan": se as receitas baixaram por causa da China, toca a implorar à China que repense essa conduta. E nesse momento são todos mui patriotas, sim senhor. É transparente como a água da nascente que Macau não está pensado para vir, ver e viver, mas sim para vencer e desopilar daqui para fora. O que aqui falta e a forma como alguns problemas persistem, sem parece que haja vontade de os combater de raíz e assim os tentar resolver, revela a verdadeira concepção da RAEM (não de Macau) da parte de quem a governa: é uma máquina de fazer dinheiro.

Mas não é razão para entrar em pânico, colocar uma máscara de gás e de seguida soltar no ar antraz ou outro agente biológico nocivo, para depois sacar todo o dinheiro que se puder de todas instituições de crédito que encontrar pela frente. Nada disso, calma, que daqui a 50 anos estamos todos mortos e podres, quase com toda a certeza. David Chow pode estar enganado, e não seria a primeira, nem a segunda, nem a 46ª vez. Mesmo que esteja certo, não deve ser o único a ponderar a possibilidade deste cenário negro que agora nos vem pintar, e tal como toda a gente, não me resta senão acreditar que a China não nos vai deixar cair só por despeito, e ficar a fazer figas para que eles próprios se "aguentem à bronca". Sim, meus caros, se por algum motivo o regime cai (batendo na madeira três vezes), quem vier a seguir vai fazer tudo exactamente ao contrário do que faziam os seus predecessores, entretanto por eles decapitados (os que não conseguirem fugir, claro), e não vai haver vistos individuais para ninguém. E também não valia a pena, pois antes dos putativos golpistas sentarem o rabiosque no grande palácio do povo em Pequim, já estavam os "yankees" com a casa às costas a meio caminho do Nevada. E aqui por "casa" estou a incluir todo o património que aqui têm e a que possam deitar a mão, sendo o capital a prioridade, claro. É por estas e por outras que me dói o cabelo quando vejo pessoas que estão bem na vida, ganham um salário mais que decente e providenciam do bom e do melhor para os seus aderirem a movimentos do tipo "Occupy Central" com a mesma facilidade que as moscas aderem ao papel apanha-moscas. Será que não param um bocadinho para pensar que estão ali a berrar contra o seu próprio conforto, a morder a mão que lhes dá que comer? Se os movimentos têm ou não razão de ser é outra coisa, mas a não ser que tenha sido em vão que os milhares de caracteres que debitei até aqui neste "post", que juntos formam palavras, que juntas formam frases que por sua vez compõem ideias que no seu todo formam um raciocínio, apoiar qualquer tentativa de derrubar o regime, directa ou indirectamente, é o mesmo que dizer: "estou farto desta vida de contribuinte, empregado, com liquidez q.b. para cumprir com as minhas obrigações, ainda sobrar o suficiente para comprar o que gosto e viver numa casa; a indigência ou a morte - eis o meu lema".

No caso da previsão de David Chow estar correcta, não há dúvida que os grandes projectos que ficam suspensos podem tornar-se num problema, pois se Macau já é parecido com a Coreia do Norte em tantas coisas, juntam-se a essas os mamarrachos que ficam a meio da construção por falta de verba. Não menos grave será o fim dos paliativos cheques, que já são como chover no molhado, apesar de tudo. Sem os cheques-chucha para calar os bebés-chorões que se vendem por uma teta murcha vai haver...tchan tchan tchan....INSTABILIDADE SOCIAL, e isto como se sabe está para a apregoada "harmonia" do "comam e calem-se" como o oídio está para as videiras ou o calcário para as resistências das máquinas de lavar. Agora quanto à eliminação dos postos de trabalho criados pela indústria do jogo, que noutras palavras significa "despedimentos" não é preocupante, pelo menos para já. Para os residentes só vai ter impacto se chegar ao extremo dos extremos, e isso é que me preocupa, pois a corda vai partir do lado dos mais fracos: os trabalhadores não-residentes (TNR). Sem estes, quem é que vai "fazer o trabalho", que neste contexto é diferente de "trabalhar"? Sem os TNR no há ninguém para fazer dois turnos de 12 horas seguidos com um intervalo de seis nos dias de tufão, ou trabalhar aos domingos e feriados durante as semanas douradas sem receber o extra que a lei obriga o empregador a pagar. Os residentes não vão nessa conversa, nem na outra que os proíbe de ficar com as gorjetas e os obriga a despirem-se em frente ao supervisor caso este suspeite que enfiarem uma nota na cueca ou no sutimamas. Em suma: não são qualificados, não têm iniciativa, e pior que isso, não se deixam manipular. O pior é se o "lay out" chega os "croupiers", que ainda é terreno sagrado dos residentes, pois aí vão ser obrigados a optar pela única alternativa aos casinos: a administração pública - aí é que vai dar uma coisinha má ao Au Kam San. Por outro lado não fica muita gente para criticar os funcionários públicos, que no intervalo de mais uma greve em protesto pelos salários em atraso vão até ao "coffee shop" do Hotel Lisboa tomar um "ice tea", servido pela própria Angela Leong, na falta de quem mais os sirva. Aí sim, podem aproveitar para dizer mal e bater "forte e feio" no David Chow, que parecendo que não, tem culpa no cartório: sim, não disse nenhuma mentira, mas desde quando é que a verdade se troca em fichas?

Digam chau ao au-au

Uma "Auschwitz of sorts" para os galgos em Macau.

A ANIMA, associação de protecção dos animais inspirada na Greenpeace, mas sem o extremismo e as iniciativas de pendor terrorista, ou na Quercus, mas sem a corrupção, veio dar ao Canídromo de Macau a extrema-unção: "não organizarais mais corridas de cães, e se o fizerdes, o Senhor enviará pestes terríveis sobre vocês e sobre vossos descendentes, desgraças horríveis e prolongadas, doenças graves e persistentes" (não liguem, estou só a citar o livro bíblico de Deuterónimo, numa daquelas passagens que prova de Deus nos ama muito, e se for necessário - e é - esmaga-nos com carinho). Albano Martins, que tem dado a cara pelas criaturas de focinho, vaticinou o fim das apostas nas corridas de galgos, pois "não é lucrativo", e claro, cruel para com os bicharocos, que quando não podem correr mais vão fazer de sabão - ou de borrego, se estiver frio e convidar ao ta-pin-lou num dos muitos restaurantes da especialidade na Areia Preta e arredores.

A Juventude Salazariana.

O Canídromo de Macau, ou em chinês 逸園賽狗場 (literalmente "Praça de Corridas de Cães) era até há cerca um século apenas mar, e depois do respectivo aterro, a administração colonial construiu em 1940 o "Estádio 28 de Maio", baptizado com a data da implantação do Estado Novo e da ditadura em Portugal, no ano de 1928 - que homenagem tão comovente, pá! Para os chineses era conhecido por "Campo Lin Fung", este "lin fung" (蓮峰) significa "monte das flores de lótus", e assim era conhecido por se localizar perto do templo budista com o mesmo nome, que de um modo geral é o nome daquele bairro na zona norte da cidade, que compreende a área entre a Av. Tamagnini Barbosa e os bairros da Ilha Verde, Iao Hon e T'oi San - ninguém sabe muito bem onde acaba um e começam os outros, sinceramente, e só o edifício Wan Son é referido como fazendo parte integrante da Ilha Verde, Fai Chi Kei e Lam Mau. É a versão local do "four corners" norte-americano, o ponto onde se cruzam quatro estados federais distintos.

A visita dos "cães vermelhos".

Por detrás da construção do Estádio 28 de Maio estava um ideal olímpico. Talvez inspirados pelo sucesso que foi a organização dos Jogos de Berlim quatro anos antes, os cães-de-fila do regime pensaram num espaço para a população local concretizar a máxima do corpo são em mente sã, mas o "timing" não foi o mais indicado, pois com a Guerra do Pacífico em curso, o único desporto que se praticava na região era a corrida...à frente dos soldados japoneses. Passada a tormenta, foi ali que se passaram realizar competições de atletismo e de futebol, e o local seria a sala de visitas dos jogos internacionais disputados por Macau, chegando a receber por duas vezes a equipa do Benfica - primeiro a de Eusébio e companhia, em início dos anos 70, e mais tarde em 1996, durante a pré-época sob o comando do brasileiro Paulo Autuori, e onde faltavam João Pinto, Hélder Cristóvão e Dimas, que tinham regressado pouco antes do Europeu de Inglaterra e estavam ainda de férias. Foi interessante, mas nada de espectacular, um pouco como um queca paga: produz o mesmo efeito mas falta a componente emocional. Depois da inauguração do Estádio de Macau (que fica na Taipa, o que dá origem a uma certa confusão) em 1997, ficou ainda mais acentuado o isolamento do Canídromo, localizado na parte da cidade que não crescia para receber os grandes projectos, e mais tarde os novos casinos, trazidos pela liberalização dos jogos de fortuna e azar.

Que bem que se está na Taipa, sem o fedor a mijo de cão...

Antes da edificação do estádio, por volta de 1932, data de que há documentação comprovando esse facto, já se realizavam corridas de cães junto à praia onde foi levantado mais tarde o Canídromo. Assim, e a bem dos usos e costumes, o espaço tornou-se a "catedral" da modalidade, e a partir dos anos 60 e com a legalização do jogo, a STDM encarregou-se de criar uma bolsa de apostas - como fez com todo o resto, aliás. Tenho um colega, especialista em apostas e probabilidades e quejandos, que me diz que "não vale a pena" apostar nestas corridas, pois o retorno é mínimo, ao ponto de não justificar o tempo que se podia gastar noutra batota qualquer mais substancial. Há ainda uma percepção de que este é um tipo de passatempo antiquado, mais ao gosto de uma facção mais tradicional e menos educada de apostadores, e a julgar pelo cheiro que fica entranhado na terra e que se pode sentir quando se ia assistir aos jogos de futebol, isto é gente para quem um odor fétido e podre que induz o vómito é "uma coisinha de nada" - quem sabe se ainda sorriem quando lhes chega às narinas, e pensam nas 30 patacas de lucro que podem obter numa noite de cães a dar à perna atrás de uma lebre de pano. E é por isso que Albano Martins tem tanta certeza deste eclipse, que só peca por tardio. Mas fosse o Canídromo um espaço que gerasse um lucro considerável, não adiantava piar, quanto mais ladrar: ficava ali e acabou a conversa, e ninguém ia querer saber desse Auschwitz em que se tornou para os cachorros, coitados.

Fujam, meus lindos! Vem aí a camião da fábrica de cola!

Esta questiúncula entre a ANIMA e a direcção do Canídromo vem durando a algum tempo, praticamente tanto quanto a existência da própria ANIMA. Antes parecia que ninguém se interrogava sobre para onde iam os cães depois da sua (curta) carreira nas corridas, ou melhor, se calhar até faziam uma ideia, mas preferiam não pensar muito nisso - de facto não é um pensamento agradável. Chegaram a decorrer negociações entre as duas partes no sentido de (reportagem Ponto Final) promover a adopção dos galgos retirados da competição, mas sem efeito. E de facto que sentido fazia isto? Quem é que no seu perfeito juízo ia meter em casa um quadrúpede anoréxico encharcado em "doping" e amassado da competição com outros da sua espécie? O galgo é um cão pernudo e esguio, que necessita de um espaço amplo, e não é para meter uma fitinha na cabeça a brincar às casinhas com o bebé dentro de um apartamento. Nem Macau é Campo Maior, nem aqui há sequer um campo em condições para que existam galgos. Se o objectivo é poupar os animais à morte-macaca, tudo bem, mas espero que não hajam ilusões a este respeito: acabar com as corridas de galgos em Macau inviabiliza qualquer possibilidade de virem para cá esses animais, que só serviam para este fim. E "fim" aqui assume um significado arrepiante, diga-se em abono da verdade.

O Don Juan de Hunan - 湖南情聖


Aqui está mais uma prova de que os chineses começam a adoptar muitos dos hábitos decadentes e práticas promíscuas próprias dos ocidentais (desculpem a linguagem, mas instalei há pouco a aplicação para "smartphone" lançada por Xi Jingping, e que contém o seu pensamento político). A verdade é que no tempo de Mao este jovem na imagem teria à sua espera uma vala comum, que repartiria com outros da sua laia. Mas Mao já não está entre nós e a epidemia da sífilis foi controlada, só que mesmo assim fica-se curioso com a "ginástica" que foi necessário em termos de agenda para dar conta de tanta...tanto...hmmm...passemos à história. O jovem de Changsha, província de Hunan, e que se sabe apenas ter o apelido Yuan, esteve envolvido num acidente de automóvel no último dia 24 de Março, do qual resultaram ferimentos ligeiros, que mesmo assim lhe valeram um dia e meio de internamento hospitalar - deve ter dinheiro, portanto. Como é habitual em situações desta natureza, o hospital contactou a "família", e aqui fico sem saber o que os médicos na China entendem por "família", pois ao saberem do acidente, apareceram logo e sem demora as 17 (dezassete) namoradas do sinistrado. Isso mesmo, este Yuan é o Casanova, Don Juan, Romeo, Rodolfo Valentino, só que heterossexual, da China moderna, e estas foram apenas as que foram ao hospital, pois é possível que existam outras.

Ao saberem que do acidente não resultaram danos maiores (quase aposto que quiseram inteirar-se da integridade do...pois, isso), a atenção das jovens passou para...as outras, e se na estrada não houve consequências de maior para Yuan, ali deu-se um choque em cadeia, com muitos orgulhos deixados muito mal tratados. Uma das mulheres diz que "não fazia ideia" de que o namorado tinha outras - a expressão correcta seria "que o namorado fazia colecção" - e a relação de ambos "já tem um ano e meio". Eu diria antes que "tinha", e que em termos de relação deixa muito a desejar: ou ela tem uma vida profissional muito intensa, ou é muito burrinha. Inclino-me para a segunda possibilidade. Outra diz que depois de saber que detinha apenas o marmanjo em regime de co-propriedade com outras 16 diz que "já não está apaixonada". Ah mulher de armas, que não aceita ser tratada como um objecto, ou uma comodidade. MAS, e agora o "mas", fica sem saber "o que fazer com o filho de ambos", que diz "ser o seu maior tesouro". Ora essa, não dá para o devolver ao remetente, portanto em vez de te armares em cara, acena com o puto para obter o exclusivo do pedaço - e não finjas que não isso que queres, ó tonta. Nas redes sociais do continente choveram comentários, alguns elogiando a virilidade do "artista", e outros mais críticos, com destaque para os que diziam que as mulheres "deviam ter sido mais espertas". Sim, isso também me ocorre, mas não seria estar a pedir muito? Sem ofensa, minhas senhoras, contra factos, não há argumentos.

Perigo: hora da ponta



E ainda dizem que os chineses são um povo com "sangue de barata". Dois estudantes em Hong Kong foram notícia depois de terem sido detidos pela polícia enquanto tinham relações sexuais na via pública. Tudo aconteceu na noite de terça-feira, quando o jovem comemorava o seu 19º aniversário num "pub" em Kowloon Tong, juntamente com um grupo de colegas, entre eles uma jovem do continente, que tinha sido convidada, apesar de só se terem encontrado por uma vez - isto segundo testemunhas que tinham estado na festa, interrogadas mais tarde pelas autoridades. Ao que parece ambos beberam bastante, e como a moça não deve ter tido oportunidade de lhe comprar uma prenda, improvisou quando saíram juntos do bar, passava das três da manhã. Estas imagens foram recolhidas na paragem de autocarros de Fat Kwong Street, perto do Polytechnic Instite de HK, por um vídeo-amador, talvez incrédulo por estar a assistir a uma cena nas primeiras horas do dia 1 de Abril. Mas foi assim tal e qual, e como se pode ver pelo entusiasmo da jovem, a coisa descambou para vias de facto, e quando a polícia lá chegou, passavam dez minutos das quatro da manhã, os dois estavam no auge do acasalamento (afinal é Primavera, não?). Os dois seriam indiciados por atentado ao pudor e comportamento indecente em público, mas fala-se de que a menina estará agora em Pequim a gozar as férias da Páscoa. Um veterano da polícia de Hong Kong confidenciou que este deve ser o primeiro caso semelhante em muitos anos: "temos apanhado alguns casais em escadarias, jardins, mas assim no meio da rua, não me recordo de nenhuma situação recente", declarou o agente. Sinais dos tempos, pois com o preço do alojamento pela hora da morte, não há outra alternativa senão improvisar, quando ocorre uma emergência deste tipo.