domingo, 27 de outubro de 2013

Quem somos, realmente? Parte II: defeitos


É um privilégio podermos fazer da nossa passagem por este mundo um momento agradável. Todos merecemos viver 70 ou 80 anos durante os quais rimos, choramos, sentimos dor e prazer, excitamos o sentido do paladar com o doce e o amargo, o salgado e o picante, apreciamos a música que nos entra nos ouvidos, contemplamos as belezas que os nossos olhos permitem ver, conhecemos outros passageiros desta viagem, que por coincidência connoscos conviveram, e no fim temos a esperança de perceber qual foi o sentido de tudo isto. Lindo, lindo. Durante este breve período, é ideal estar no pleno uso das nossas faculdades; ter dois braços, duas pernas, os sentidos apurados, manter uma aparência sã, e aceite pela restante humanidade.

Há quem tenha o infortúnio de não ter uma ou muitas destas faculdades essenciais para tornar esta travessia suportável, ora porque nasceu assim, ou foi vítima do infortúnio. São os deficientes, as vítimas de doenças endémicas, os que nasceram na mais profunda das misérias, sofreram acidentes que os deixaram incapacitados, doenças congénitas ou qualquer outra mazela que não foi encomendada, e de que não tiveram a culpa. Muitos destes ainda tentam levar uma vida feliz, apesar das limitações que os impedem ser iguais a todos nós, e esses são uns bravos. Uns verdadeiros heróis. Agora para quem nasceu perfeitamente normal, tem a capacidade de corrigir qualquer defeito ou alterar um aspecto menos agradável da sua aparência, não tem desculpa. É marginalizado, enxovalhado, deixado de fora do círculo da gente bonita, e podendo mudar o que está mal, persiste em deixar tudo na mesma, e por isso tem o que merece. Nada como ilustrar com alguns exemplos:

Higiene oral – Há por aí muita gente com a boca numa lástima, vai ao dentista apenas quando sofre de dores insuportáveis, mas troca de telemóvel de seis em seis meses. Não vai ao dentista porque no lhe apetece, porque acha o tempo e o dinheiro mal empregues, ou como acontece na maior parte das vezes, tem medo. Há matulões que andam à porrada por tudo e por nada, mas mijam-se todos na cadeira do dentista. Na eventualidade de alguém se queixar do cheiro a cadáver de cão que emanam da boca, muitos justificam-se com uma doença qualquer, sendo normalmente a halitose a mais utilizada. Desculpa muito esfarrapada, pois até a halitose tem cura. É só querer.

Odores corporais – A higiene corporal, a começar pelo banho diário, é essencial para que não seja repelido pelas outras pessoas como se fosse uma doninha fedorenta. Existe uma gama de cosméticos que combatem qualquer odor desagradável, e só não usa quem quer. Se não sabem como se usam ou se estão a usá-los mal, aprendam, ou peçam a alguém que vos ensine. Mesmo assim há pessoas que teimam em deixar o refugado de cebolas ao lume debaixo dos braços e o queijo da serra dentro dos sapatos. Os que têm consciência disso não se importam, e até já estão habituados ao próprio "musk", mas ficam ofendidos se alguém se sentir incomodado. Fazem disto uma filosofia de vida: eles têm razão em cheirar mal, e o resto do mundo é que está enganado. Aqui também há quem utilize o argumento da "doença" para justificar o desleixo. A única doença que têm aqui é alergia...á água, ao sabão e ao desodorizante!

Calvície - Por vezes não se consegue evitar a queda de cabelo, que deixa muitos homens deprimidos. Paciência, acontece, e o melhor é viver com alguma dignidade. Perucas e chinós são proibitivos, e mesmo os implantes capilares são uma opção discutível. Se for calvo apenas no meio da cabeça, evite deixar crescer demasiado o cabelo dos lados, pois fica a parecer um cientista louco, ou com um nariz vermelho imita o palhaço Batatinha. E faça o que fizer, nunca, mas nunca cubra a parte calva com o resto do cabelo. Se não sabia ainda porque é que as pessoas olham para si a rua com cara de espanto, as crianças choram e os cães ladram quando o vêem, é por isso mesmo.

Vestuário - Não há justificação nenhuma para andar por aí desmazelado, desfraldado, roto e com os sapatos a abrir a boca de fome. Há roupa para todas as bolsas, e quem não pode comprar roupa de marca, existe alternativas económicas. Mas opte pela discrição, e evite as falsificações do tipo "Abibas" ou aquelas camisolas que dizem disparates como "University of Nevada Tracking Mountain Club Since 1958", ou frases em inglês sem sentido ou com erros ortográficos. Por vezes vejo por aí tipos já com uma certa idade, baixotes e com uma pança de cerveja pendurada, vestidos de fato-de-treino - um paradoxo. Existe roupa que fica bem a gente elegante, a baixos, altos, gordos ou magros. Se quiser saber qual o estilo que mais se adequa a si pode consultar um especialista, mas não é preciso ser um Louis Vuitton para saber o que fica mal.

Saúde – Muito simples: se ignora as ordens do médico, persiste em fumar, beber ou abusar das gorduras depois de lhe terem dito que a insistência nesta conduta o levará a uma morte prematura, a culpa é sua. Se pensa que os enfartes do miocárdio e os AVC só acontecem aos outros, e por isso se recusa a cumprir a medicação que lhe foi indicada, você é que sabe. Se sobreviver longos anos e com qualidade de vida, parabéns, é o Super-Homem. Se lhe der uma coisinha e for fazer de almoço aos vermes, ninguém vai ter muita pena de si.

Alcoolismo - Bebe desde que acorda até que cai para o lado? Anda sujo, mal barbeado e tresanda a um misto de urina e adega cooperativa? Vomita pelos cantos e anda a fazer figuras tristas pelas ruas? É impotente e a sua mulher deixou-o? Perdeu o emprego e os seus amigos já não o conhecem? Está no limite da cirrose? Sim, estou a ver. Voltemos à primeira pergunta: bebe desde que acorda até que cai para o lado? Sim? Então NÃO BEBA MAIS, SEU PALERMA!

Modificações - Os brincos, "piercings" e tatuagens estão na moda, mas há pessoas que abusam. Atravessam a cara e as orelhas com alfinetes de um lado ao outro, e pintam a pele da cabeça aos pés, acabando com a cara transformada num passador e o corpo parecido com um mapa-mundo - e é preciso não esquecer que a maior parte destas "mutilações" são irreversíveis. Caso se arrependa um dia, a única solução é mudar de nome: Madalena ou Madaleno, conforme o género.

Isto não são recomendações, e muito menos segredos para se viver uma vida feliz e ser uma pessoa sociável. Lembre-se sempre: se qualquer coisa está mal e apenas depende de si mudá-la, do que está à espera?

Barça ganha primeiro clássico


Barcelona 2 Real Madrid 1 by acosart
O Barcelona derrotou ontem à noite o Real Madrid em Nou Camp, naquele que foi o primeiro grande clássico da temporada. Os catalães mostraram estar uns poucos furos acima do seu rival, dominaram a partida, e marcaram logo aos 18 minutos por Neymar, que se estreou em clássicos, e logo a marcar. Foi preciso esperar aos 78 minutos para ver outro golo,e que grande golo, com Alexis Sanchez a fazer um chapéu à medida do guardião Diego Lopez. O melhor que o Real conseguiu foi reduzir no ultimo minuto pelo suplente Jesé Rodriguez, assistido pelo português C. Ronaldo, que deta vez ficou em branco. Com este resultado os merengues ficam mais longe do primeiro lugar, encontrando-se a seis pontos do Barcelona.

Suárez calling


Luis Suarez está definitivamente reconciliado com os golos e com os adeptos do Liverpool. Depois de cumprir seis jogos de castigo no início da época por ter mordido o defesa Ivanovic, do Chelsea, em partida ainda relativa à temporada passada, o avançado uruguaio leva seis golos em apenas quatro partidas na Premier League, e metade destes foram apontados ontem em Anfield Road frente ao West Bromwich Albion, partida que o Liverpool venceu por 4-1.

O resultado leva os "reds" até ao 2º lugar a dois pontos do Arsenal, que foi vencer por 2-0 no reduto do modesto Crystal Palace. Southampton e Everton continuam a sua excelente campanha, e repartem o 3º lugar com 18 pontos. Os "saints" venceram em casa o Fulham por duas bolas a zero, enquanto os "toffees" foram a Birmingham vencer o Aston Villa pelo mesmo resultado. Com as vitórias dos seus perseguidores, o Chelsea caíu para o quinto lugar, mas joga apenas hoje em Stamford Bridge frente ao Manchester City, o jogo grande desta ronda. Quanto à outra equipa de Manchester, o United, continua a demonstrar dificuldades em se adaptar à saída do mítico treinador Alex Ferguson, mas ontem no deixou escapar os três pontos, batendo em casa o Stoke por 3-2.

sábado, 26 de outubro de 2013

Quem somos, realmente? Parte I: a cor do dinheiro


As aparências iludem, dizem. Nem tudo o que reluz é ouro, também se diz. A cavalo dado não se olha o dente, e a galinha da vizinha é mais gorda que a minha, quem tem telhados de vidro...bem, já chega. Há um sem número de provérbios, ditados e o camano para ilustrar que por muito espectacular que alguma coisa ou alguém sejam, às vezes acaba por ser uma bosta. É um conceito um tanto ou quanto fatalista, pois gostamos quando algo que tem bom aspecto seja igualmente delicioso. Entre uma maçã brilhando no seu vermelho-vivo, carnuda, rijinha e sumarenta e outra pequena, pálida e enrugada, escolhemos sempre a primeira, mesmo que nos tentem convencer que a outra é mais saborosa. E com as pessoas? É mais ou menos o mesmo, só que pior.

Um estudo recente revelou o que outros já nos tinham deixado saber: as pessoas confiam mais em quem tem boa aparência, e têm fortes reservas quanto às pessoas pouco atraentes. Bruxo. Por alguma razão os agentes de seguros têm aquela ar distinto, fato impecável, penteado esculpido, dentinho branco, irradiando charme e simpatia. Tal como a dioneia, a planta insectívora, atrai as suas vítimas com a sua cor viva e o seu perfume e de repente devora-a com um rápido fechar de lóbulos, o agente de seguros vende qualquer coisa a quem se deixar levar na sua cantiga. Olhamos para ele e pensamos: "um tipo com este aspecto não me pode estar a enganar". Já o Corcunda de Nôtre-Dame, por exemplo, podia oferecer um plano dental completamente gratuito a um comedor de vidros, mas ninguém se aproxima dele - com aquele aspecto só pode ser tarado e louco. Se descobrisse a cura para o cancro e saísse à rua acenando com a fórmula e anunciando a boa nova, chamavam a polícia. Ou o hospício.

Quem é bonito safa-se melhor do quem é feio, e apesar da sociedade ter evoluído até a um ponto em que a especialização ou o talento são características só por si suficientes para atingir o sucesso, ter uma carinha laroca e um corpinho jeitoso ainda ajuda bastante. Um empresário que tenha que decidir por contratar uma secretária bimba, burra, que não sabe a ordem das letras do alfabeto, mas com um belo par de tetas e uma cara sôfrega de quem trepa pelas paredes quando vai ao castigo, ou um trambolho de metro e meio, gorda, semi-careca e com uma verruga na ponta do nariz, mas que fala nove línguas e dactilografa 200 palavras por minuto sem um erro, opta por qual? Se a empresa for só dele e não tiver que prestar contas a ninguém, contrata a primeira para "assistente pessoal", e a segunda para fazer todo o trabalho.

Um tipo que seja bem parecido e tenha um bom paleio safa-se quase sempre, a não ser que o meio onde está inserido não o permita. Se Brad Pitt tivesse nascido nas favelas de Calcutá, provavelmente nunca tinhamos ouvido falar dele, e se tivesse sobrevivido à cólera e à dengue, estaria sem braços e sem pernas a pedir esmola na rua, com uma malga pendurada na boca. Mas e se for um tipo todo pintarolas que até parece que saíu de um anúncio da Gillete, mas não tem cheta? Ajudava se tivesse um carrinho, pelo menos, e já agora de grande cilindrada, ou uma profissão liberal que lhe permitisse passar mais tempo com a moça, e se o salário desse para ela não precisar de trabalhar, tanto melhor. E se tiver todas estas coisas mas for feio de meter dó? Aqui entra o lado materialista do problema.

Os ricos não precisam de ser bonitos para nada. Podem ser a escultura de um ogre: tronco com a forma de um barril, dentes apodrecidos, peles flácidas, pés cheirando a queijo da serra e um catarro que os faz cuspir de cinco em cinco minutos, que há sempre uma mulher jovem, bonita e limpinha que encontre nele "algo de especial": a conta bancária. Uma mulher jovem e atraente que se envolve romanticamente com um velho nojento alega sempre que ele "a compreende", e que "tem um bom coração". Mesmo que a realidade seja outra, e ele lhe bata, tenha um harém de odaliscas e seja mau como as cobras para tudo e todos. Quando conduz aponta para os cães e atropela-os, tapa o nariz quando entra um operário no mesmo elevador que ele, enxota os pobres que lhe pedem uma esmola, mas para ela "é um bom homem, que a trata bem". E diz isto enquanto molha com a língua o indicador com que conta as notas da mesada que ele lhe deu para "ela não chatear muito".

Imaginemos um caso da vida real tão semelhante a tantos outros que conhecemos: na fábrica de calçado, temos a menina Guidinha, uma moça de 19 anos, uma humilde empregada da cafetaria mas com umas ancas de fazer babar os anjinhos. A Guidinha gosta do Raúl, que trabalha na linha de montagem, um jovem de vinte e poucos, fato-macaco cobrindo o tronco nu, revelando os braços troncudos de quem passou os últimos três anos a puxar uma manivela pesada centenas de vezes por dia. Do outro lado está o Dr. Antunes, dono dessa fábrica e de outras, um empresário modelo que tem um defeito que compensa com uma grande virtude: é asqueroso, mas por outro lado é podre...de rico. A Guidinha e o Raúl gostam um do outro, e trocam olhares apaixonados enquanto ele almoça a sua sandes de mortadela, mas é o Dr. Antunes que enfia a língua fétida a saber a charuto na boquinha delicada da Guidinha. No fim do dia o Raúl volta à barraca e vai tomar um duche no quintal das traseiras com o cão, enquanto a Guidinha bebe champanhe no "Jacuzzi" do Dr. Antunes, antes de ir levar com os seus 100 quilos de banha em cima até que ele se canse e vá dormir e ressonar que nem um porco, com ela a seu lado, a pensar no Raúl, coitadito, que Deus lhe encontre uma mulher decente - sim, porque esta é uma putéfia, e já agora aproveita também para pedir a Deus que a perdoe.

Na cantina as outras funcionárias têm inveja da Guidinha, mas fingem ter pena, e perguntam-lhe: "olha lá, atão andas com o Dr. Antunes? Mas tu na gostas mazé do Raúli?". A pequena, perfeitamente ciente de que lhe estão a chamar de reles, desabafa "Pois...mas o Dr. Antunes ajuda-me...e à minha família...". Esta é a desculpa que a maior parte das mulheres encontra para justificar o facto de andarem com um tipo atroz, repugnante, com idade para ser seu pai ou até mesmo o seu avô: "ele ajuda a minha família", "ele pode-me ajudar nos estudos", "ele é generoso" e etcetera. Fala de "ajuda" como se fosse uma deficiente que precisa de depender do arrendamento do seu sexo para não morrer de fome, e quando diz que ele é "generoso" quer dizer realmente "desde que eu lhe abafe o palhacinho, ele arrota com o verdinho". Triste. Enquanto caminham juntos pela fábrica na direcção do escritório do Dr. Antunes para a costumeira rapidinha antes do almoço, cruzam-se com os operários que os cumprimentam sorrindo: "Bons olhos os vejam, Dr. Antunes e menina Guidinha", quando o que estão a pensar é "Sacana do velho, com aquela cara só mesmo a pagar". Quando fazem uma reserva num restaurante de luxo o cartão da mesa diz "Dr. Antunes e convidado", quando o que lhes dava vontade de escrever era "Velho porco e uma rameira qualquer".

Ficamos fascinados com a natureza, de como alguns animais, mesmo que não racionais, estabelecem relações pautadas pelo sentido de unidade familiar e fidelidade, que chegam a defender com a própria vida, se necessário. Interessam-nos também os cães, os macacos ou os porcos, que comem o que encontram pela frente e não pensam duas vezes em fornicar a irmã, a mãe ou as filhas. É com estes que somos mais parecidos, vendo bem. Mas do mesmo jeito que o destino borra tudo de estrume, passa com um pano por cima da porcaria, que continua a cheirar mal fica com uma aparência menos repulsiva. Um dia o Dr. Antunes casa com a Guidinha, não porque goste dela mas está a ficar velho e precisa de alguém que lhe mude a fralda e lhe leve o bife à boca, e eventualmente têm filhos. Os pequenos têm o apelido do Dr. Antunes, e a cara chapada do Raúl. E porque não pode o pobre rapaz participar também da brincadeira?

Nobel da asneira


Se há uma coisa que me agrada no Jornal Tribuna de Macau - e há muitas que me desagradam, como já sabem - é a secção que apelidei de "página do crime", onde se contam as tropelias da ladroagem em pequena escala de Macau. A ladroagem em grande escala está...oops! Ia fazendo merda. Vamos antes falar do que interessa. Bem, gosto daquela página porque nos deixa a par do melhor que se faz em termos de vilanagem no território, e deixa-nos dormir descansados sabendo que as autoridades andam-lhes aí a deitar as mãos em cima. Cheguei a discutir alguns daqueles artigos com colegas chineses, que por vezes me dizem que a notícia no Ou Mun está mais completa, e que a versão portuguesa peca por algumas imprecisões. Mas isto é apenas natural, pois certamente que a PSP se preocupa mais com a fidelidade da versão em chinês dos factos. O que vem no JTM é contudo mais que suficiente para que se entenda o essencial.

Na edição de ontem vinham dois casos relacionados com a minha sub-espécie de delito favorita: o conto do vigário. O primeiro falava de uma menina que conheceu "um inglês" no Facebook, e que completo desconhecido passou a amigo do peito, e daí ao abuso de confiança foi um pequeno passo. Desconheço o tipo de cunnilingus virtual que o fulano usou, mas pouco depois a jovem vítima estava a mandar-lhe 3200 patacas pela Western Union, que lhe seriam devolvidos "na quarta-feira seguinte". Quem manda 3200 manda também 68280, que foi o valor enviado ao "paciente inglês" em cinco transferências. A certo ponto a conta de Facebook do "amigo" desaparece, ela acha "tudo muito estranho" e faz queixa à polícia. Há burlões que criam contas fictícias nas redes sociais recorrendo a nomes falsos e fotos aleatórias que encontram na rede, e dão este golpe a gente ingénua como esta menina. Mas quando há por aí gente que não empresta 500 patacas a um amigo ou colega de trabalho que encontra todos os dias, esta manda quase 70 mil patacas a um desconhecido. Um caso que passa do âmbito da criminologia para o da psiquiatria.

Um outro caso conta-nos a história de uma velhinha de 81 anos, mirradinha e curta de vistas (isto deduzo eu), que podia ser a nossa avózinha, benza-nos Deus. E não é que uns malandrins do camano ligaram à senhora, e berraram (não "disseram", porque assumo também que é dura de ouvido) que lhe tinham raptado o filho por dívidas ao jogo, e se não pagasse 81 mil yuan, começavam a devolvê-lo peça a peça, e ela depois que fizesse o puzzle. A velhota pegou em tudo o que tinha, e mandou 80 mil yuan, e os atrevidotes ainda lhe exigiram os mil em falta, que acabou também por mandar. Só depois disto a velha ligou ao filho, que lhe disse que "nunca foi raptado", e que ela deveria estar a alucinar de uma sobredose daqueles opiáceos que a vão mantendo viva e funcional. Aqui está uma das regras de ouro do "Manual dos Sonsinhos": primeiro manda-se o dinheiro, jogando pelo seguro, e só depois se telefona, para saber se o menino chegou inteiro a casa ou se ainda vem uma orelha pelo correio. E sabe-se lá se os ladrões lhe guardaram o telemóvel, ficavam nervosos se a velha ligasse, e rebentavam os miolos ao refém? Nunca se sabe. Usem a vossa imaginação, porra!

Dois incidents que são sérios candidatos ao Nobel da asneira, caso existisse um, e qe provam que em Macau o "pato" é uma espécie longe de estar em vias de extinção - nasce pelo menos um todos os dias. É possível que o leitor esteja a pensar que nunca mandaria dinheiro a alguém que mal conhece e que vive do outro lado do mundo, ou que mandaria um SMS ao filho para saber se foi realmente sequestrado - mas não falem de boca cheia. Quem sabe se são acometidos por um ataque de demência aguda instantânea, ou tomam uma daquelas novas drogas sintéticas que apodrecem o cérebro? O que fazia eu no lugar do agente que atendeu estas duas vítimas? No caso da velhinha, que se calhar pensou que está no tempo da Guerra do Pacífico e que o filho foi feito refém pelo exército nipónico, chamava os filhos à parte e recomendava-lhes um bom asilo. Não precisa de ser muito bom, basta que a deixem sem contacto com a sociedade. Quanto à menina que transferiu as 70 mil lecas para o "inglês", bem, o que fazer? Olha, pedia-lhe dinheiro emprestado, e prometia pagar-lhe no Dia de S. Nunca à tarde. Mais depressa ligava ela para o Vaticano para perguntar "quando é afinal esse feriado consagrado a S. Nunca", do que me vir bater à porta.

Sê um GNR


Militar da GNR condenado a nove anos de prisão by f100005928785797
Façam esta pesquisa no vosso motor de busca: "militar da GNR condenado". Alguns resultados incluem condenações por infrações como "homicídio", "abandonar colega", "abandonar comandante", "prisão ilegal", "morte de assaltante", "agressão a um agressor", "desrespeitar período de descanso" e "dar pontapés num porco", entre outras. De facto a GNR é uma caixinha de surpresas, e quem não acredita nesta de dar pontapés num porco está aqui o link. O problema é que quando a guarda peca por ausência pergunta-se "onde está a GNR?", mas quando resolve intervir, decidir e actuar, todos se queixam "lá está a GNR outra vez!". São presos por ter cão no departamento cinotécnico e por não ter.

Hugo Hernano, um destes pitorescos militares da GNR, foi chamado num dia de Agosto a uma vacaria em Loures, onde decorria um assalto. Os assaltantes, Sandro Lourenço e o seu filho Paulo, de apenas 13 anos, conduziam uma carrinha, e após cometido o roubo colocavam-se em fuga. Hernano persegue-os e dispara na direcção do veículo, ignorando por completo quem lá ia dentro, não tendo sido dotado da visão Raio-X, e atinge mortalmente o Paulinho, que vinha sentado no banco de trás. O rapaz, que repito, tinha 13 anos, era foragido do centro de detenção juvenil de Alcoentre, onde estava detido por roubos, e ao vê-lo em casa o pai exclamou: "Filho! Voltaste! Queres ir assaltar uma vacaria?". Pode parecer desadequado mencionar isto, mas este pai e filho são de etnia cigana. Não é por nada, tirem as conclusões que quiserem, que eu fico aqui sentado a assobiar para o lado.

Quando um militar da GNR persegue assaltantes em fuga, ignorando as autoridades, o que deve fazer? Disparar para o ar? O ar aguenta bem o tiro, e o carro continua a levar os assaltantes dali para fora. Dispara para os pneus? Bem, isto depende; se o carro da fuga já estiver a uns 50 metros vai ser preciso chamar o sargento Robin dos Bosques. E que tal mandar-lhes um postal a ordenar que parem, e dois dias depois eles recebem? Sim, o agente dispara, e dispara na direcção do carro. Atingiu um dos assaltantes? Pode ser, quem comete assaltos à mão armada arrisca-se a morrer à mão armada. Foi uma criança de 13 anos, filho do outro assaltante e impaciente pela sua iniciação na aprendizagem do negócio de família? Ora, da próxima vez deixem-no com a "baby-sitter".

Em Portugal, onde se chama ao criminoso tudo, desde "minoria", "excluídos", "família problemática", "vítima do sistema", menos o que ele é, criminoso - se preferirem podem usar "marginal" - o militar está errado. Hugo Hernano não devia ter usado a arma, pois "podia ter ferido alguém", e "tinha consciência disso". Devido à incúria do militar, morreu o pobre rapazinho filho daquele pai super-honesto e responsável, que o tinha levado numa visita de estudo para aprender como se comete um assalto à mão armada, e na fuga ainda se fica a uma unha negra de atropelar um militar, que o mandava parar. Isto é tão natural como levar o miúdo pela primeira vez à bola. Ou às putas. Nestes sítios ninguém está à espera de levar um tiro, por isso toca a castigar o agente. Nove anos de cadeia por homicídio simples, tendo sido agravado de homicídio por negligência.

Na leitura da sentença estavam outros GNRs solidário com o colega, enquanto à porta do Tribunal estava a ciganita, trajando de luto, assemelhando-se a uma freira demoníaca. A pobre mulher a quem estes malvados tinham tirado o filho, que só estava a cumprir um ritual religioso da sua cultura, queria "pelo menos 25 anos". Só? Porque não 50, ou perpétua? Isto foi mais que homicídio: foi um crime de ódio! Que país é este onde uma minoria que teima a se auto-marginalizar e se recusa cumprir as regras como todos os outros já não pode sair para assaltar uma vacaria sem se arriscar a levar um tiro? E agora sem o filho, quem acompanha o pai e os restantes elementos da família na tradição do saque e da roubalheira? Qualquer dia precisam de viver apenas do contrabando, do tráfico de droga e da subsídio-dependência. No estado em que o país está, qualquer dia não têm dinheiro para um Mercedes estacionado nas traseiras da construção ilegal que habitam.

Mas a senhora estaria a ser sarcástica. Por causa do sacrifício do filho, ganhou 60 mil euros de indemnização, e o marido ainda levou outros 20 mil. Sim, o marido, o tipo que teve a inicativa de cometer o assalto e levar com ele o filho, e que por isso vai cumprir dois anos de meio de prisão "por resistência e coação, desobediência e falsidade de declaração". Ah pois, 'tá bem, mas pelo menos não matou ninguém, ao contrário do malvado do guarda, né? E foram dois anos e meio porque o assalto foi a uma vacaria, que é uma coisa grande. Se fosse a um mini-mercado ou uma "roulette" de cachorros-quentes e ainda desse um tiro no comerciante, era absolvido e ainda mais recompensado pelo heroísmo. Isto é o que dá viver num país de espertalhões e vigaristas: os bandidos, coiotaditos, andam ali a fazer pela vida, e são "problemáticos", e "excluídos", e muita sorte temos nós de não sermos assim, como eles, obrigados a deitar as mãos ao dinheiro dos outros para poder comer. Quem ousa disparar sobre os meninos? E depois quem nos obriga a ser parvos?

Bárbara & Manuel


Eram a bela e o mestre. Ela tinha as curvas, e ele os miolos. A beleza e a inteligência juntavam-se as duas à esquina. Bárbara Guimarães, modelo e apresentadora, casava em finais dos anos 90 com Manuel Maria Carrilho, um dos "boys" do PS de António Guterres, e que ficou mais conhecido por se ter tornado o primeiro Ministro da Cultura. Gente fina, este casal. Ela alta, sorridente, dentinho branco, cabelo longo e solto, sempre na moda. Ele discreto, charmoso, ar distante e frio, uma espécie de vampiro, mas aparentando um vulcão prestes a entrar em erupção. Os seus "backgrounds" eram diametricamente opostos, mas diz-se que os opostos se atraem, eles lá sabem o que viam um no outro. E por isso mesmo, e também por causa das tosses, casaram-se em 2003. A menina e o sôtor. Que encantador.

Dez anos depois, os ricos continuam juntos. Não é pouco tempo para durar um casamento, dez anos. Especialmente num casa deste "pedigree", ainda mais nos tempos que correm. Certamente que existem muitos pretendentes ao lugar de cada um deles. Muitas mulheres gostavam de ser a Bárbara Guimarães, e muitos homens gostavam de...bem, estar com a Bárbara Guimarães. Os ecos que nos chegam agora da imprensa dão conta do naufrágio. Ele voltou de Paris e ela não lhe abriu a porta. Ele queixou-se à polícia e el acusa-o de "violência doméstica". Esperem lá...violência doméstica? O que foi, ele atirou-lhe com um livro? Ele defende-se que ela está "enlouquecida", e "sistematicamente alcoolizada". Isto é um homem de classe, que fala bem. Fosse outro e dizia "anda sempre bêbada, a maluca". Um conto de fadas, que tal como todos os outros, acaba na última página, com a palavra "Fim".

Vídeo da semana


Charles Trippy é baixista da banda We the Kings e vlogger (é como eu, mas com vídeos), com um canal no YouTube que conta com mais de um milhão de subscritores. Recentemente foi-lhe detectado um Oligodendroglioma, uma espécie de tumor cerebral, e a única solução era operar. E foi isso que Charles fez, e aproveitou para filmar a operação, recrutando a mulher Allie como "cameraman". Imagens impressionantes do interior da cachola, que os mais sensíveis (lingrinhas) podem achar chocantes. Vejam lá se não desmaiam ó suas florzinhas de estufa. No fim correu tudo bem, e Charles está aí para as voltas, só que com a cabeça cosida, o que lhe dá a aparência de um Frankenstein. Do mal o menos...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Portugal é a razão


Portugal é hoje, aos olhos de mundo e “de facto”, um país pequeno, atrasado e pobrezinho. É pena, mas é uma realidade. Não temos dinheiro para fazer cantar um cego, especialmente se o cego for o Stevie Wonder, somos uns tesos, e não no bom sentido do termo, e ninguém nos leva a sério. Se viajamos por um daqueles países onde o sistema de ensino considera “inútil” as aulas de História e os mapas mundo, apercebemo-nos que ninguém sabe o que é Portugal ou onde fica. Dizemos que somos de Portugal, olham para baixo a abanar a cabeça, não se sabe se por vergonha da própria ignorância ou por pena de nós, por virmos de um país insignificante, Depois dizemos que “fica ao lado de Espanha”, e eles dizem “ah!”, com um sorriso aberto, o que no fundo vai dar ao mesmo: continuam sem saber o que é Portugal, mas já ouviram falar da Espanha.

Mas nem sempre foi assim. Há 500 anos Portugal era uma das grandes potências mundiais. Uma das poucas, a par da Espanha e da Inglaterra. Existissem os Estados Unidos nesse tempo, e podíamos ser arrogantes com eles, da mesma forma que hoje eles nos tratam como se fossemos um povo de olivicultures e varinas. É pena que todos conheçam a Espanha, que está tão ou mais falida que nós, e poucos saibam o que é Portugal, ou o que foi, e das contribuição do nosso povo para o mundo moderno. As marcas que Portugal deixou no mundo nos séculos XV e XVI ainda são visíveis em pleno século XXI. Portugal deu ao mundo uma queca que ele nunca esqueceu. Portugal é como aquela nódoa de caneta num fato Armani que mal se nota, mas está lá, e por muito que se lave nunca sai. O que Portugal é pouco importa se olharmos para o que Portugal foi um dia. Enche-nos de orgulho o nosso passado. Chega-me a vir uma lágrima ao olho. Ah esperam, é apenas a ventoinha. Vou desligá-la antes que me voem as folhas.

Primeiro a “globalização” de que toda a gente tanto fala, o comércio à escala global, o “trade”, o “import/export”, nunca teria sido possível se Vasco da Gama, um português, não tivesse iniciado uma rota de comércio por mar entre o Ocidente e as Indias. Uma vénia ao Vasco. O primeiro navegador a dar a volta ao mundo, Fernão de Magalhães, era português, isto apesar de representar a coroa espanhola e não ter acabado a viagem. E o Brasil, aquele país do samba, da praia, do futebol e das gajas boas? Fomos nós que descobrimos aquilo, pá. E não me convencem que era a mesma coisa se fossem outros a descobrir. Se tivessem lá chegado os ingleses primeiro, era um tédio, como a Austrália ou a África do Sul, e em vez def utebol jogavam rugby e cricket. Se fossem os espanhóis, não existia Brasil. Era parte da Argentina, e os brasileiros seriam uns tipos atarracados sem pescoço, vestidos de mantas coloridas a tocar gaita de beiços. De nada, não precisam de agradecer.

Mais do que a vertente expansionista, há ainda a linguística, a cultural e a étnica. O português fala-se em todos os continentes, desde o Brasil a Timor-Leste, passando pelas áfricas, residualmente na Ásia, e na Europa, naquele cantinho onde estão hoje os tais 10 milhões de coitadinhos. A nossa língua deve ser a mais etnicamente diversa do mundo depois do inglês: índios do Brasil, negros, malaios, indianos, chineses, timorenses, todos a falar a língua de Camões, mais ou menos bem, com mais ou menos sotaque. É comovente ver um tipo de toga ou outro com o lábio discado e setas atravessadas na cabeça a falar a nossa língua. Chuif...chuif...desculpem...é a maldita ventoinha outra vez. Perdão.

Em termos étnicos, somos pioneiros da hibridez genética. Criámos o mulato, misturámo-nos com os chineses, e em locais remotos da Malásia, Tailândia ou Birmânia. De quando em vez alguém descobre uma aldeia qualquer no meio de nenhures onde os homens têm um bigode atípico e as mulheres pêlos nas pernas porque lá em mil quinhentos-e-troca-o-passo houve um grupo de marinheiros tugas que por ali foi ficando, e resolveu o problema da comunicação com os indígenas através de “linguagem gestual”. Há quem lhe tenha chamado “miscigenação”, uma palavra cara, mas na verdade tudo aquilo foi sem querer. Nunca nos passou pela cabeça criar novas raças e o camano. Somos danados para a brincadeira, isso sim. Quando chegámos ao Brasil, se em vez de índias houvessem só vacas, eram as vacas que marchavam. Por causa desta pouca vergonha, hoje temos indivíduos em Goa e no Sri Lanka com o apelido Fernandes e nem sabem bem porquê.

E aquelas curiosidades deliciosas dignas de constar daquelas páginas do “você sabia...”? E você sabia que foram os portugueses que introduziram o cristianismo na Indonésia, e que em Medan, onde existe a maior comunidade cristã do maior país muçulmano do mundo, andavam por lá portugueses? Sabia que Taiwan é também conhecido por Formosa, pois era assim que os portugueses chamavam esta ilha? Sabia que foi um aventureiro português, Duarte Barbosa, que deu a conhecer o nome “China” ao Ocidente? O Tempura japonês deriva em nome da palavra portuguesa “tempero”, e em género assemelha-se aos nossos peixinhos da horta? E especula-se que “Arigatô” é um “primo” do nosso “Obigado”? Fazia ideia que o “vindaloo” indiano é uma corrupção do português “vinha d’alho”? Numa conferência há alguns meses ouvi a dra. Anabela Ritchie contar que o piri-piri foi o nome que os indianos deram à malagueta depois dos navegadores portugueses o terem provado e exclamado “puta que pariu!”. Não sei se isto está devidamente documentado, mas é bem possível que seja verdade. Quem diz “vindaloo” em vez de vinha d’alho...

Isto são as marcas indeléveis da nossa presença, meus amigos. Podemos não valer nada hoje em dia, mas tempois houve em que fomos como o WC Pato: chegámos onde os outros não chegam. Faltam-nos muitas das conquistas da era moderna; nunca ganhámos um campeonato do mundo de futebol, um óscar, e os Nobel contam-se pelos dedos de uma mão. Mas essas coisas são canja, algumas até se fazem sentadas e em casa, quando comparadas com os nossos feitos gloriosos. Nunca tememos nada nem ninguém. Não havia rochedo demasiado tenebroso, mar demasiado revolto ou povo demasiado exótico que nos parasse. Suspirai, lusitanas gentes. Algures debaixo desta caparaça de miseráveis trapaceiros, pantomimeiros e espertalhões, estão os genes daqueles barbudos de ceroulas que limparam esta merda toda. Viva Portugal!

Critico, logo existo (parte II)


Em Macau existe um défice de críticos e de crítica, talvez porque a produção artística seja escassa, ou a um nível amador que não justifique ser apreciado pelos padrões da crítica. Um espectáculo de teatro organizado por um jardim de infância é concorrido por pais babados de câmara de filmar na mão apontada ao seu filho ou filha, e pouco lhe importa que a peça esteja bem ou mal escrita, ou representação seja competente. O pouco que se faz na música – e perdoem-me a sinceridade, que nem chega a ser uma crítica – é medíocre, mas há casos em que o artista é o filho de alguém importante, de um respeitável elemento da comunidade, e estudou lá fora, e cada vez que dá um espectáculo vão lá os amigalhaços do pai e os ex-colegas de liceu do artista aplaudir. Pode ir lá com uma ceroula enfiada na cabeça e arranhar um prato com um garfo, enquanto deita a língua de fora, que é “um génio”. Se está lá alguém que não tem qualquer relação com o artista ou com o paizinho, e foi apenas assistir ao espectáculo, e ousa fazer um comentário honesto do tipo “mas que merda é esta?”, é mandado calar. O mais provável é ouvir de algum porta-voz da tribo qualquer coisa como “alguém te perguntou a opinião? ‘tá mas é caladinho ”. E depois continuam a apreciar a sinfonia do prato arranhado.

Macau peca pela escassez de artistas e pelo excesso de artolas, e dos seus amigalhaços. Incrível como não existe uma companhia de teatro, por exemplo, e de como a única orquestra é financiada com fundos públicos e composta parcialmente por músicos estrangeiros. Temos companhia de bailado? Não, mas temos meninas de 5 e 6 anos que frequentam aulas de ballet uma vez por semana e dão um espectáculo para os paizinhos uma vez por ano, o que é “a mesma coisa”. Os artistas plásticos são um fenómeno interessante; após uma exposição merdosa onde os objectos são demasiado rasos para servir de cesta do lixo, ou muito ásperos para se limpar o rabo com eles, queixam-se da falta de financiamento, de condições para trabalhar, dificuldade em encontrar material, problemas desde o primeiro dia, etc., etc. Dá vontade de lhes perguntar: “Se o problema era esse, porque não disse antes e a gente dava um jeito? Agora que nos mostra esta merda já é um pouco tarde, não acha?”.

Finalmente há o caso do desporto, que em Macau é o que a dimensão do território permite que seja. Temos 500 mil habitantes, falta de cultura desportiva, e as poucas infra-estruturas de qualidade são recentes, e em alguns casos mal aproveitadas. Eu diria antes que são mal geridas, fruto da falta de gente que perceba o mínimo de gestão e de desporto. O futebol está entre os piores do mundo, as goleadas são constantes, e quando parece haver algua evolução, acaba por voltar tudo à estaca zero. É melhor assim, que já estamos habituados. Imaginem que as selecções de Macau começam a evidenciar alguma melhoria. Era mais difícil aceitar o regresso ao estatuto de saco de pancada. Nos restantes desportos, temos o judo e o karate com alguns resultados que são motivo de orgulho – mais uma questão de preferência regional que outra coisa. Os atletas de Macau que vão conquistar medalhas em competições secundárias, como no caso recente dos Jogos da Ásia Oriental, são normalmente atletas medianos da China continental, a quem foi atribuído o estatuto de residente. É preciso ganhar umas medalhinhas de qualquer jeito, enfim, e para Macau é o melhor que se pode fazer. Criticar é gastar saliva para nada.

Não podia deixar de referir o exemplo do hóquei em patins, uma modalidade que no território é considerada um exclusivo da comunidade portuguesa. Estranhamente, até a comunidade portuguesa se mostra crítica, principalmente na hora das derrotas expressivas contra potências de outros continentes que não a Ásia, onde o hóquei em patins tem uma expressão residual e Macau é a melhor selecção. No entanto muitos se passaram "para o outro lado" quando a equipa de Alberto Lisboa foi (finalmente) agraciada em 2012 com uma medalha de mérito desportivo pelo governo da RAEM, enquanto outros abriram os olhos e descobriram que existe uma modalidade onde Macau é - pasme-se - campeão asiático, e participa em campeonatos do mundo.

E por falar em campeonatos do mundo de hóquei, o recente mundial de sub-20 na Colômbia permitiu-me observar algumas reacções curiosas. Como os leitores mais assíduos repararam, fui comentando a participação dos jovens macaenses, bem como actualizando os resultados no mesmo dia. É lógico que a juventude, a inexperiência e as condições em que treinam os jovens da formação não lhes permitia chegar muito longe, e só mesmo alguém com muita fé poderia pensar que se bateriam de igual para igual contra formações como a Espanha, campeã mundial, ou a Colômbia, a equipa da casa. Contudo alguns dos meus comentários, e penso que até a simples divulgação dos resultados - que foram, como se esperava, negativos - foram mal recebidos por alguns leitores, especialmente aqueles com laços familiares ou afectivos com elementos da delegação que foi ao mundial. O que tenho eu a dizer sobre isto?

Primeiro sou completamente insuspeito; gosto de hóquei em patins, o meu filho é praticante nesta mesma escola, e não me venham com conversas de ressabiamento ou inveja por ele não ter sido chamado, pois tem apenas 12 anos. Este blogue apoiou o hóquei em patins de Macau desde a primeira hora, vibra com os feitos que lhe são permitidos dadas as limitações de que sofre, e lamenta que não lhe seja dado mais apoio, ou seja mais divulgado na comunidade chinesa. Mesmo que possa ter tratado esta ou aquela derrota com alguma ligeireza ou algum humor, nunca foi no sentido de menosprezar o esforço de atletas e técnicos. O que querem que eu diga quando Macau perde 14-0 com a Espanha? Que devia ter ganho? Devo chorar? Sou agoirento e má rês se previ que ia perder de goleada? Devo falar só quando ganha? É preciso não misturar as coisas, e esta é uma das funções da crítica: apontar os defeitos para que se possa fazer melhor da próxima vez. Sem a crítica é que nem se ouvia falar de muita gente...

Bolas quentes


O sorteio da 4ª eliminatória da Taça de Portugal, realizado ontem na sede da FPF, colocou frente-a-frente as quatro equipas mais cotadas ainda em prova. O V. Guimarães, actual detentor do troféu, recebe o campeão nacional FC Porto, enquanto noutra partida há um clássico Sporting-Benfica. Podiam ser os jogos das meias-finais, e qualquer um deles podia ser a final, mas ainda há 28 outras equipas em prova. Um capricho do sorteio, certamente, e até daria para desconfiar que haviam "bolas quentes" na redoma. O Olhanense-Sp. Braga é a outra partida entre primodivisionários, e a festa da Taça segue já a 9 de Novembro.

Europafobia para equipas portuguesas


Mais uma jornada europeia desastrosa para as equipas portuguesas, que conseguiram apenas dois pontos em cinco jogos. Depois da derrota do Porto e do empate do Benfica, foi a vez das equipas da Liga Europa não conseguirem somar pontos para Portugal no ranking da UEFA. A excepção nesta noite de quinta-feira foi o Estoril, que foi à Alemanha empatar a uma bola com o Friburgo - o primeiro ponto dos "canarinhos" no grupo H, onde mantêm o último lugar. Vladimir Darida marcou para os da casa aos 11 minutos, e Sebá empatou para os portugueses aos 56, e desta vez a equipa de Marco Silva conseguiu evitar o azar das primeiras duas partidas, e voltaram para Lisboa com um ponto na bagagem. No outro jogo do grupo o Sevilha foi à Rep. Checa fazer o mesmo resultado contra o Slovan Liberec, 1-1, e continua a liderar com sete pontos, mais dois pontos que os checos, enquanto Friburgo e Estoril somam dois e um pontos, respectivamente.


O V. Guimarães, que partia para esta ronda na liderança do grupo I, perdeu em Sevilha frente ao Bétis pela margem mínima. Álvaro Vadillo foi o autor do único golo, aos 50 minutos, que relega os vimarenenses para o terceiro posto, pois o Lyon venceu também em casa os croatas do Rijeka, igualmente por 1-0. Bétis e Lyon têm 5 pontos, Guimarães 4, Rijeka 0.

O P. Ferreira continua uma sombra da brilhante equipa que terminou em terceiro lugar na liga portuguesa, e comprometeu a continuidade na Liga Europa ao perder em casa por 0-2 frente aos ucranianos do Dniepr. Os golos chegaram nos últimos dez minutos, por Rotan aos 83, e Konoplyanka três minutos depois. A Fiorentina goleou em casa os romenos do Pandurii por 3-0, e continua 100% vitoriosa, liderando com nove pontos. Segue-se o Dniepr com seis, Pandurii a P. Ferreira com um, estes dois já com poucas hipóteses de seguir para a segunda fase.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Jason Chao abre o livro


A entrevista de Jason Chao ontem ao Ponto Final foi a prova que faltava da rotura que muitos especulavam existir na Associação do Novo Macau. O presidente reeleito dos democratas - depois de uma moção de desconfiança que apresentou contra si mesmo, rejeitada pela maioria dos restantes membros - falou do fracasso eleitoral de 15 de Setembro, das divisões no seio da associação, das suas diferenças com Au Kam San, e dos seus planos para o futuro, entre outros temas. Uma entrevista interessante e esclarecedora.

O Novo Macau sofreu nestas legislativas a sua maior derrota eleitoral de sempre, e pela primeira vez desde que concorre, desce no número de votos expressos e de mandatos, passando dos três em 2009 para apenas dois nesta legislatura. A estratégia de concorrer com duas listas em 2009, uma encabeçada por Ng Kwok Cheong e outra por Au Kam San resultou em pleno, "fintando" o método de conversão de votos em mandatos e permitindo a eleição de um terceiro deputado pela primeira vez. Este ano a fasquia foi elevada para três listas, na tentativa de "espremer" o eleitorado pró-democrata até a um quarto, ou quem sabe mesmo um quinto deputado. O resultado foi desastroso, e o chavão "um é bom, dois é óptimo, três é demais" aplica-se na perfeição a este exemplo.

Os analistas estranharam a opção de uma terceira lista do Novo Macau, que muito provavelmente dividiria o seu eleitorado e aumentaria o número de votos "inúteis". Ng Kwok Cheong mostrava-se apreensivo, e pouco antes do sufrágio desabafava que "um terceiro deputado seria muito bom". O cabeça-de-lista desta terceira frente era o próprio Jason Chao, que havia sido nº 2 de Au Kam San quatro anos antes. Nesta entrevista Chao deixa saber que tem com Au "diferenças irreconciliáveis", e que "preferia ser o nº 3 de Ng Kwok Cheong a número dois de Au Kam San". Estavam confirmados os rumores de divisão no Novo Macau, que a juntar à coesão do sector empresarial, levaram ao naufrágio do campo da pró-democracia, e a uma reviravolta no mapa politico do território.

Atendendo à composição e à natureza das três listas do Novo Macau que concorreram às eleições, é de estranhar este diferendo entre Jason Chao e Au Kam San. A lista de Ng Kwok Cheong é formada pela núcleo mais conservador do Novo Macau, com o seu líder histórico e Paul Chan Wai Chi, ambos com ligações à Igreja Católica, algo evidente sobretudo no discurso do segundo. Au Kam San lidera a facção contestatária, da acção de rua, do protesto, da ousadia. Jason Chao aparece com um discurso semelhante, mas à frente de um elenco mais jovem, onde junta ainda a bandeira do arco-íris, dos direitos LGBT. Seria mais lógico que as "diferenças" de que Jason Chao fala fossem com Ng Kwok Cheong. O que dá a entender é que existe um choque de egos com Au Kam San, e uma luta interna pela ocupação do mesmo território ideológico do Novo Macau.

Olhando para a composição dos habituais elementos, nota-se um fosso de gerações interessante. Os "monstros sagrados" - Ng Kwok Cheong, Au Kam San e Paul Chan Wai Chi - estão na casa dos 50 anos, e o próprio Ng terá 60 no final desta legislatura. Jason Chao tem 28, o seu nº 2 neste sufrágio, Scott Chiang, tem 33, e mesmo Sulu Sou, nº 2 de Au Kam San, tem 23. Os restantes elementos do Novo Macau estão todos acima dos 50 ou abaixo dos 30. Falta uma ligação que una estes dois polos. Onde andam os pró-democratas com trinta e muitos ou quarenta e poucos anos? Muitos destes são eleitores, ou antes, eram, pois uma boa parte deles decidiu voltar as costas aos "putos" do Novo Macau e aos seus "tios".

E é exactamente esta disaparidade generacional que Jason Chao deixa passar nesta entrevista; em Junho do próximo ano, altura em que termina o seu mandato, Jason Chao fará um ultimato aos mais "velhos": iu há renovação, ou os jovens vão embora. O Novo Macau arrisca a desgregar-se graças a uma mistura explosiva de veterania e ideias novas. Ng Kwok Cheong e Au Kam San vão agora cumprir sozinhos esta legislatura, como já tinham feito em 2001 e 2005, mas com uma ferida aberta deixada com a saída de Paul Chan Wai Chi e o evidente mal-estar interno dentro da associação. Resta saber que impacto vai isto ter na credibilidade do Novo Macau, que continua a ser praticamente a única voz dissonante no hemiciclo.

Seria uma pena que Jason Chao e o Novo Macau não se entendessem, ou se a associação se fracturasse em dois grupos. Não existe espaço em Macau para dois grupos com esta matriz, e o resultado pode ser desastroso: o desinteresse pela política dos que ainda têm alguma esperança, deixando à vontade os que fazem do voto uma feira, onde ganha quem dá mais. Era bom que Jason Chao continuasse a sua obra, e de preferência apoiado pela estrutura mais forte da oposição ao regime. A propósito da ligação com os grupos LGBT, que deixei para o fim, Jason Chao diz que poderá ter resultado na perda de alguns eleitores, mas "fez a coisa certa". Em Macau nem sempre a "coisa certa" é bem acolhida, e então quando se fala de política, o melhor mesmo é optar pela "coisa esperta".

Critico, logo existo (parte I)


Críticos. Ninguém gosta de um crítico, esse personagem que se especializou em chatear os outros. Existem críticas positivas e negativas, mas a palavra “crítica” tem quase sempre uma conotação negativa. Estar a criticar é o oposto de estar a elogiar. A crítica é o antípoda do elogio. No dia a seguir a um espectáculo, os artistas abrem os jornais “para ver o que diz a crítica”, e nunca esperam nada de bom, ou de tão bom quanto pensam que merecem. Quando se acusa alguém de ser “um crítico”, quer-se na verdade dizer que é um má-língua, um ressabiado e invejoso; “é mesmo um crítico de merda”, dizem. Ninguém diz “bestial, aceitamos as tuas críticas e vamos procurar melhorar”. Mesmo os que dizem aceitar as críticas, “desde que sejam construtivas” – ou seja, verdades que doem mas suportadas por análises de cariz técnico ou vindas de quem consegue fazer muito melhor – não aceitam coisa nenhuma. A história da crítica está manchada de sangue. Basta recordar a “Campanha das cem flores”, levada a cabo por Mao na China, e que lhe permitiu identificar os críticos e limpar-lhes o sarampo. Qualquer artista, escritor ou músico devia ter um pequeno santuário com uma imagem de Mao, e acender-lhe uma velinha cada vez que sai uma crítica.

Há um episódio dos Simpsons em que o personagem principal, Homer Simpson, se torna um crítico de culinária. Como é um comilão insaciável, acha tudo bom, e dá nota máxima a todos os restaurantes por onde passa. Aí os restantes críticos dos mais diversos quadrantes chamam-lhe a atenção para o dever do crítico: criticar, ou noutras palavras, falar mal de vez em quando, mesmo de algo bem feito. A sátira dos Simpsons peca por um pouco de exagero, mas toca na ferida: não pode ser tudo bom. Sabemos de críticas negativas que são injustas, outras de que discordamos, outras que dividem as opiniões, e outras que são unânimes. Temos críticos que confundem o dever de avaliar o trabalho de outrém com uma caça aos erros, e caem na tendência de apontar os defeitos e ignorar os aspectos positivos. Outros aproveitam-se da sua posição para acertar contas com inimigos de estimação, e outros que após duas ou três experiências negativas com um artista, cineasta ou escritor, não conseguem identificar o que quer que seja de positivo no seu trabalho. Nem todos os críticos são perfeitos; eles próprios são criticáveis, e também erram. Se não concordamos com uma certa crítica, criticamo-la nós também. Todos somos críticos, e portanto todos somos falaciosos, tendenciosos e imprecisos.

Depois há que ter em conta um detalhe importantíssimo. Ser crítico requer especialização na matéria que se vai criticar. Quem nunca leu um livro na vida não é com toda a certeza convidado a pronunciar-se sobre a última obra de Miguel Sousa Tavares, um anti-crítico militante, que manda os críticos a tal sítio, se for caso disso. O melhor crítico de cinema de todos os tempos, na minha opinião e na opinião da generalidade da crítica (eheh) foi o saudoso Roger Ebert, falecido no ano passado. Ebert tinha formação superior em cinema, e apesar de ser mais conhecido na área da crítica, produziu e escreveu algumas películas, sendo a mais famosa o clássico erótico “Valley of the dolls”, nos anos 70. Acompanhei este crítico durante vários anos, e seguia religiosamente as sua “reviews” das sextas-feiras. Escrevia bem, tinha sentido de humor e apoiava algumas das suas críticas com os seus conhecimentos técnicos sobre o assunto, especialmente quando tratava de aspectos como a cinematografia, o som ou a realização. Houve tempos em que lia a sua crítica sobre este ou aquele filme antes de ir ver, mas nunca uma crítica sua me demoveu de ir ver um filme que aguardava com expectativa, e nem sempre concordei com as suas avaliações. No fundo o que o crítico faz é isto. Pode dizer bem mas não obriga ninguém a comprar o produto,e pode dizer mal de um livro, de um filme, de um disco ou de uma exibição de arte, e aconselhar-nos a não ir, mas não nos anda a seguir para ter a certeza que lhe demos ouvidos.

Recordo-me daquela programa dos finais de tarde da RTP nos anos 80, “P’ra variar”, que consistia em pouco mais de meia-hora de variedades, com apresentação de Vítor Espadinha. Uma das rubricas desse programa chamava-se “O Justiceiro”, onde um mascarado fazia a crítica de um restaurante que tinha visitado, e conforme o grau de satisfação atribuia-lhe colher de ouro, de prata ou de pau, por ordem descrescente de qualidade. Os proprietários dos restaurantes eram convidados a receber o prémio em directo no programa. Os contemplados com a colher de ouro iam com todo o gosto, os que levavam a prata aproveitavam para justificar as falhas que impediram que recebessem o ouro, os relegados à colher de pau declinavam o convite, com a excepção de um deles, de que me recordo bem. O empresário da restauração em causa surgiu no programa visivelmente alterado, disposto a repôr a verdade, desmentindo o “justiceiro” e chegando mesmo a acusá-lo de má vontade. Esta atitude defensiva, o tom acusatório, o contra-ataque, são reacções típicas de quem sente que lhe estão a ir à carteira. Quem vive do que faz não tolera que o critiquem, e acusa-o de tudo e mais alguma coisa, desde desonestidade e incompetência, até má-vontade e cumplicidade com algum rival ou inimigo.

Um músico profissional que tenha recebido uma crítica negativa do seu último trabalho discográfico pode defender-se com argumentos de todo o tipo, mas tem a tendência de disparar contra a própria crítica, e normalmente com comentários do tipo “não percebem nada de música”, ou “não sabem tocar um instrumento”. O mesmo se passa com os cineastas ou com os artistas plásticos, que chegam a desafiar os críticos a “fazer melhor, se forem capazes”. Ora nada disto faz sentido. O músico faz a sua música, o público ouve o seu trabalho, o realizador faz um filme, as pessoas vão ver, o pintor pinta, os visitantes da exposição vão apreciar o resultado. Eu não preciso de saber tocar instrumentos, fazer filmes ou pintar para poder dizer se gosto ou não gosto. Se fossemos todos artistas, não sobrava ninguém para ir às exposições. Quando eu não gosto mas existe uma esclarecedora maioria de pessoas que gostam, pode ser que eu esteja enganado, mas se os polegares virados para baixo são muito mais do que os apontados para cima, o melhor é o artista ficar caladinho e tentar fazer melhor da próxima vez. Se persiste em desiludir, se calhar devia mudar de profissão.

O apocalipse segundo Chan


Jackie Chan, o actor que encanta miúdos e graúdos com as suas macacadas remotamente inspiradas no "kung-fu", voltou a demonstrar que a retórica não é a sua especialidade. Durante a promoção do seu novo filme "Chinese Zodiac", o actor de 59 anos falou das relações entre a China, o seu país natal, os Estados Unidos, o seu país de acolhimento. Chan disse que "gostava de ver uma catástrofe natural acontecer a alguns países, como um terramoto ou um tsunami". Depois disto já toda a gente que o ouvia estava de queixo caído, mas o actor prosseguiu: "depois de uma tragédia, vemos o mundo a ajudar, todos querem ajudar aquele país, fico tão feliz". Assim está bem, mas porque carga de água é preciso um terramoto ou um tsunami, e milhares de mortos? "Porque sem terramotos e sem tsunamis, entra a política; todos brigam, e não me agrada nada". Ah está bem, pronto, basta socorrermo-nos do dicionário "Jackie Chan/outra língua" para entender o que ele queria dizer. A política é uma coisa suja, enquanto que durante uma catástrofe humana, as pessoas mostram o melhor que há em si. Grande Jackie Chan, que não tem a culpa de ter convertido a massa cerebral em músculo.

Salada russa e tragédia grega


Não está a correr bem a Liga dos Campeões para as equipas portuguesas esta época. Porto e Benfica complicaram a questão do apuramento nos seus grupos, com os campeões a perder pela segunda vez consecutiva em casa, e os encarnados a consentirem um empate na Luz perante o adversário directo na luta pelo 2º lugar. No Dragão o Porto ficou condicionado logo no sexto minuto da partida frente aos russos do Zenit. Hector Herrera fez falta sobre Hulk perto da area azul-e-branca e foi admolestado com cartão amarelo, e na marcação livre saíu da barreira antes da marcação do respectivo livre, e recebeu ordem de expulsão. Um dia de azar para o médio mexicano, na sua estreia a titular na prova. Reduzida a dez elementos, a equipa de Paulo Fonseca fez o que pode, tentando chamar a si a iniciativa do jogo, e foi aguentado pelo menos o empate. Só que a cinco minutos do fim o endiabrado Hulk, num regresso feliz ao estádio onde deu tantas alegrias aos adeptos da Invicta, fez um passé a Kerzhakov, que atirou a contar e deu os três pontos ao Zenit. Entretanto em Viena o Atlético de Madrid venceu com facilidade o Austria Wien por 3-0, com Diego Costa a regressar à equipa marcando dois dos golos. Os espanhóis lideram o grupo G com nove pontos, o Zenit tem 4, Porto 3 e Austria 1. Os dragões estão praticamente obrigados a ir recuperar na Rússia os três pontos perdidos em casa para aspirar à qualificação.


No grupo C os gregos voltaram a ser a "besta negra" das equipas portuguesas, mas poderia ter sido ainda pior. O Olympiakos lançou aos 29 minutosum balde de água fria, com o golo de Alejandro Dominguez, como que antecipando a chuva diluviana que caíu durante o intervalo, deixando o relvado alagado. O Benfica correu atrás do prejuízo na etapa complementar, mas viu a vida muito dificultada pelas condições do terreno e pela astúcia dos gregos, que amiúde tentavam o contra-ataque, e por pouco não chegavam ao segundo golo em dois ou três lances em que a equipa de Jorge Jesus voltou a acusar alguma falta de coesão. O golo do empate que fez com que os adeptos do Benfica respirassem de alívio chegou a quatro muinutos dos 90, pelo sempre oportuno Oscar Cardozo, que parece ter feito esquecer o incidente com o técnico no final da temporada passada. Em Bruxelas os franceses do PSG mostraram ser de longe a equipa mais forte do grupo, goleando o frágil Anderlecht por 5-0. O sueco Zlatan Ibrahimovic apontou 4 golos, provando atravessar um grande momento de forma, a a 3 semanas do duplo embate entre a Suécia e Portugal, a contar para o "play-off" de qualificação para o mundial de 2014. PSG lidera com 9 pontos, Olympiakos e Benfica têm 4, Anderlecht tem 0.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Os nossos pobres deputados, coitados


Há deputados que nem um tecto têm para morar

A notícia que está a marcar a actualidade em Macau no início desta semana é a divulgação "online" dos bens patrimoniais de detentores de altos cargos públicos, nomeadamente os deputados da Assembleia Legislativa. Olhando para os números, percebemos que os quatro ou cinco deputados mais abastados têm mais bens imóveis e outro património do que dois terços da população do território. Curioso como se faz referência ao número de anos de deputado, como se toda esta riqueza tivesse sido adquirida com a remuneração deste cargo. Fosse isto mesmo assim, e significava que os vencimentos lá no hemiciclo andam pela ordem dos cem milhões de patacas mensais. Epá, assim vale mesmo a pena concorrer ao sufrágio, e a compra de votos e a oferta de jantaradas paga-se com o primeiro cheque.

Já sei que a maioria dos deputados são empresários, e que o seu património é sobretudo resultado dos seus negócios, da participação em sociedades, empresas, etc., etc.. Só que divulgar isto assim, sem anestesia, é violento. Chega a ser pornográfico. O que vai dizer um jovem casal que não junta os trapinhos porque não tem meia dúzia de milhões de patacas para adquirir uma habitação decente, quando olha para esta lista? O que vão dizer as famílias que aguardaram anos pela famigerada habitação económica, e foram finalmente contemplados com um buraco pelo qual ainda vão ter que andar a pagar a vida inteira? O que vão dizer os ratos, obrigados a habitar o esgoto húmido e as latas do lixo, pois pedem-lhes um preço astronómico por uma toca em condições? É revoltante, caro leitor.

Chan Meng Kam é o deputado que mais património tem em seu nome: 53 apartamentos, 239 lojas, 28 escritórios, 87 lugares de estacionamento, sabe-se lá o que mais. No fim ficamos a saber que entre os cargos que ocupa está a vice-presidência das Associações de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Tong Sin Tong (olha que duas). Uma mera curiosidade, certamente. Nada a ver com o património adquirido pelo empresário. Quer dizer, o homem, coitado, não tem praticamente onde cair morto. Olhem bem para ele, que até arrancou o cabelo todo em desespero. Ainda bem que a nossa mui caridosa população foi votar nele em massa nas últimas eleições, pobrezinho. Temos os eleitores mais caridosos do mundo. Interessante como no Domingo a TDM transmitiu uma reportagem sobre Chan Meng Kam, que fala das suas origens humildes, da sua infância na China maoista, onde nem sapatos tinha para calçar, e de como chegou a Macau em 1980, 17 anos, cabeleira farta, e sem um tostão no bolso. Um verdadeiro "self-made man", sem dúvida. Se eu me comovesse com finais felizes, deixava uma lágrima rolar pelo rosto, mas eu não me cu-movo (eheh).

Angela Leong é um exemplo de como às vezes as pessoas falam mal só por falar. Além de mais uns bagulhos que comprou com as suas parcas economias, a sra. deputada, que ainda por cima tem o marido doente, coitada, tem 1 (um) prédio. Quer dizer, há por aí gente que tem dois televisores em casa, e famílias com três motociclos na via pública, apertados contra centenas de outros tantos, e vão censurá-la por ter 1 (um) prediozinho? Tenham dó. E vendo bem deve ser um prédio daqueles assim pequenitos, com 40 andares, 1200 fracções com mais de 100 metros quadrados cada, 800 parques de estacionamento e atirado ali para os lados do NAPE, onde nem sequer vivem naturais de Macau, e predominam chineses do continente. É preciso ter mau coração para quem vive da sua prole, e ainda tem a dignidade de declarer na internet, mostrando ao mundo quão sofrida é a sua batalha, uma mulher só neste mundo, com filhos para sustentar. Malvados. Deviam ter vergonha.

Uma curiosidade interessante desta lista é o número de cargos ocupados por alguns deputados em organizações. Chui Sai Peng, primo do nosso Chefe do Executivo, sem ter culpa disso, coitado, ocupa "cento e quarenta cargos". Isto é um trabalhador a sério, um homem do povo. Vinte e quarto horas num dia não lhe chegam para tomar conta disto tudo, pá. E já pensaram cada vez que perguntam ao homem: "ó senhor Cheong, exactamente em quais organizações ocupa V. Exa. cargos?". O homem precisa de puxar de uma cábula maior que os boletins de voto das últimas legislativas e fica quinze minutos a ler tudo aquilo. Alguém lhe traga uma cadeira, faz favor. Outro exemplo de abnegação e entrega, de sacrifício pelo bem da população de Macau é Chan Chak Mo. O homem está aqui a trabalhar para nós, longe da sua Hong Kong natal, responsável por cargos em 80 organizações, o que mal lhe deixa tempo para pregar olho. E ainda lhe apontam o dedo por querer correr com o Lvsitanvs da casa amarela, que nem sequer é dele, mas de uma tal "Future Bright", que é apenas uma das 80 organizações para que ele trabalha. Que descaramento.

E assim os senhores divulgam isto assim, sem mais nem menos, como quem não tem nada a esconder. Quem não deve, não teme. Sim, temos meia dúzia de casitas, uma lojita aqui e ali, participações em empresas, acções, investimentos no exterior...porquê? Vocês não têm? Não? A sério? E o que fazem com os salários que as nossas empresas vos pagam? Olhem que as dez mil patacas mensais que recebem saem-nos do couro. Vamos lá a ser poupadinhos, que o dinheiro não cai do céu (sim, não cai, e alguém tem dúvidas?). E não se esqueçam da transparência, que é muito importante. Como podem ver, abrimos o jogo, e isto é tudo o que nos resta depois de perdermos a juventude a trabalhar para o bem de Macau. Tudinho, tudinho, nem um pintelho nos esquecemos de declarar. Ilhas Virgens Britânicas? Não sabemos onde fica. Mas...virgens britânicas? Não têm antes umas russas ou umas brasileiras?

Uma referência final ao deputado Fong Chi Keong, o "faz tudo" do elenco desta comédia, um autêntico "Passpartout". O empresário que arregaçou as mangas e construíu a Macau moderna não tem uma casinha que seja em seu nome, vejam só. Paga uma renda absurda e ainda é mal tratado pelo senhorio. Mas não esperem, isto não pode ser verdade, e de facto não é. Segundo o próprio, trata-se de "um engano", que "é normal", pois "é a primeira vez que este tipo de relação sai na internet". Ora pois, aí está, uma saída airosa. A internet está muito verdinha, e o sr. deputado é uma velha raposa. Quem parece andar a faltar às aulas é o seu braço direito, Mak Soi Kun, que meteu os pés pelas mãos a hora de explicar porque não divulgou o seu património. Ainda tem muito que aprender com o seu mestre, mas um dia chega lá.

Ponha aqui o seu pézinho


O que foi? Nunca viram pés monstruosos antes, é?

Xu Anyou de Fuzhou, no leste da província chinesa de Jiangxi, nunca usou sapatos até aos 27 anos. Ao contrário de muitas outras crianças e jovens na China, a razão no foi a pobreza extrema, ou pelo menos esta não foi a principal razão. Xu nasceu com uma espécie de elefantíase que se manifesta sobretudo pelo gigantismo nas extremidades do corpo, e no seu caso foi nos pés. O facto de não poder usar sapatos fez com que contraísse filariose linfática, uma doença causada pela penetração de vermes parasitas transmitidos por vermes de mosquitos e outros insectos, que chegam a atingir quatro centímetros de comprimento, bloqueando os vasos linfáticos. Os seus pés adquiriram um tamanho grotesco e uma aparência demoníaca, e juntando a isso o facto de se tornar o hóspede de um sem número de parasitas horrendos, Xu preferiria a eutanásia a um par de sapatos. Pelo menos eu optava pela primeira. Não havia sapato que coubesse nos pés do pobre Xu, e durante os dias frios do rigoroso Inverno de Jiangxi, cobria as patarronas com um protector improvisado pelo seu irmão. Uma saca de batatas forrada a algodão? Não sei, mas não devo andar muito longe.


Não sei...posso dar uma voltinha para ver como ficam?

Pés enormes e disformes, parasitas, uma vida de cão sem sapatos que o sustentassem. Mesmo que Salvador Dalí, o mestre do abstracto, se tivesse um dia lembrado de criar um modelo que se adaptasse aos pés de Xu, os empregados da sapataria iam tirar à sorte para ver quem seria o infeliz que o atendia. Mas tudo mudou quando o gerente de uma empresa local ouviu falar do caso, e mandou fazer um par de sapatos à sua medida: 28,5 centímetros de comprimento e 22,5 centímetros de largura, duas "traineiras" à prova de qualquer curva, mossa ou deformidade. Até os pés do Yeti, o abominável homem das neves, caberiam nestes sapatos. O benemérito empresário não cobrou um centavo pelos sapatos, e comprometeu-se a fornecer um novo par sempre que necessário. Resta saber se toda esta generosidade é por pena do pobre rapaz, ou dos habitantes de Fuzhou, que são obrigados a olhar para os seus pés. Agora o Xiao chega ao pé da malta do bairro, que o corria à pedrada quando o viam ao longe, e diz orgulhoso: "já viram os meus sapatinhos?".

Pare, escute, e morra (ou não?)


Uma mulher em Suzhou, na província chinesa de Jiangsu, arriscou um dos actos mais perigosos que se podem fazer na China: atravessar a estrada. Pior do que isso, atravessou fora da passadeira, e numa Estrada movimentada. Arrependeu-se, pois primeiro foi atingida por um carro, que não abrandou e colheu-a, atirando-a pelos ares. Das duas uma: ou não a viu, e é mesmo míope, coitado, ou pensou "que se lixe, quem a mandou estar aqui?", e lá vai alho. O condutor apercebeu-se que bateu "em qualquer coisa", parou, abriu a porta e ainda foi a tempo de assistir à sinistrada ser passada a ferro por outro carro que vinha na direcção oposta. Este deve ter pensado que era um saco do lixo deixado por alguém no meio da estrada, ou que era uma mulher, sim, mas "como de morta já não passava", não faz diferença passar-lhe por cima. Agora o mais incrível: a desgraçada sobreviveu a tudo isto! Desconheço a sua condição clínica após este "banho" de metal, mas se no for muito teimosa, vai começar a atravessar na passadeira, só com o sinal verde, e ainda assim muito à cautela. Se não estiver tetraplégica, claro.

A foto mais cara


Os amantes da fotografia, foto-amadores e todos aqueles que andam na rua atentos a algo que valha a pena registar, quer para divulger ou para mais tarde recorder, vão ficar desiludidos. Esta imagem em cima é, pasme-se, a fotografia mais cara do mundo. Isso mesmo. O seu título é "Rhein II", e foi tirada nas margens do Reno, o rio mais famoso da Alemanha. Podia ter sido recolhida nas margens do Trancão, que ninguém dava pela diferença, e não há perito em fotografia que prove o contrário do que acabei de dizer. O autor da imagem é Andreas Gursky, um fotógrafo paisagista conhecido pelas seus registos "com grande qualidade, cor e detalhe". Esta foi tirada num dia menos bom, mas rendeu-lhe 4,4 milhões de dólares! 35 milhões de pataquinhas, por algo que não devia constar sequer de um catálogo de cores de uma loja de alcatifas. Os especialistas consideram este valor "um exagero". A sério? Ainda bem que temos especialistas para nos dizerem isto; e eu que pensava que se tratava de uma obra de arte sumptuosa adquirida por um valor considerado normal neste tipo de mercado? Afinal não sou ninguém para falar de arte. A venda foi mediada pela famosa empresa de leilões britânicas Christie's, e do comprador só se sabe que é "um colecionador". Ora este colecionador não percebe nada de arte (tal como eu), ou tem um sentido de humor muito especial. E caro!

No aproveitar é que estão os nuggets


Gosta de Chicken McNuggets mas não sabe do que são feitos? Não lhe interessa do que são feitos porque são deliciosos e isso é o que conta? Faz mal. Mesmo que sejam feitos de cócó come na mesma, porque gosta, sabem-lhe bem e só se vive uma vez? Depois do que tenho para lhe dizer, duvido muito. Pois é, depois daquela pertinente questão "de que parte da galinha vêm os nuggets", a resposta é a que todos os adeptos daquela especialidade da "fast food" temiam: nenhuma. Um estudo da Universidade do Mississipi descobriu que este alimento, inofensivo a olho nu, é composto de um emaranhado de vasos sanguíneos, gordura e cartilagens, e que carne de frango propriamente dita, foi o que menos encontraram. Mesmo a carne identificada neste estudo é sobretudo aquela de segunda categoria, que se encontra junto aos ossos nas zonas mais lipidosas da ave. Em termos de valor nutritivo, os "nuggets" são 56% gordura, 25% carbo-hidratos e apenas 19% de proteínas, concluíndo, uma massa de restos de frango que normalmente acabariam no lixo, formando uma massa salgada que depois é frita e devorada pelos aficionados do género, que se lambusam todos e no fim ainda chupam os dedos. Yum, yum. Refira-se que para este estudo foram utilizadas amostras cozinhadasa adquiridas num restaurante da cadeia McDonald's, e depois escrupulosamente analisadas. Podia ser pior; eu sempre pensei que este tipo de alimentos onde é difícil adivinhar a origem anatonómica do animal eram lixo que depois de varrido do chão da fábrica no final do dia era condensado e vendido como salsichas e afins. Agora que sabe, mas prefere continuar a comer, acrescente um comentário oportuno da próxima vez que se deliciar com o seu Chicken McNuggets: "Que belas varizes tinha esta galinha!"

Isto só vídeo


Um casal do Tennessee, nos Estados Unidos, alugou suas quatro filhas para participarem de vídeos pornográficos. Ronnie Lee McCall, 61 anos, e Connie McCall, 40 anos (esta tem 40 anos? ponham os olhos nisto juventude: a metanfetamina e o "crack" matam) forçaram as filhas, com idades compreendidas entre os 5 (!) e os 16 anos, a ter relações sexuais com adultos, que depois filmaram, e planeavam distribuir como "filmes domésticos". As autoridades federais descobriram o caso quando o casal levou uma das vítimas a Johnson City, à procura de homens para ter relações sexuais, e a jovem suicidou-se depois de ter sido repetidamente abusada. As restantes foram encontradas fechadas numa "roulette" imunda, vivendo em condições desumanas. A mais pequena, actualmente com seis anos, foi encontrada com os dentes apodrecidos, picadas de pulgas, piolhos e micose. O casal foi presente a tribunal e diz-se "inocente". Pois é, e se calhar até estão convencidos da sua inocência. A América rural é um mistério, uma massa humana entre Nova Iorque e Los Angeles que pouca gente conhece.

Quando ele era ela, e ela era ele


Hoje estou com uma queda para os títulos compridos a atirar para o "trava-línguas", mas não consegui pensar num título melhor para esta bizarra história. Este casal na imagem aparenta ser um casal como outro qualquer, certo? Errado. Ele chama-se Arin Andrews, e tem 19 anos, e ela Kate Hill, com 17. Arin nasceu uma bonita menina de nome Emerald, e Kate nasceu um rapaz chamado Luke. Os dois conheceram-se num grupo de apoio psicológico a transsexuais pós-operados, e apaixonaram-se. Estranho, fora do comum, esquisito, tudo o que lhe quiserem chamar, mas "o amor é louco não façam pouco", já dizia a cantiga. E pelo menos assim nenhum deles fica com qualquer tipo de complexos quanto à sua identidade face ao companheiro, e de certeza que têm imensos motivos de conversa. Se hoje já faz sentido existir nos boletins de inscrição ou outros documentos a opção "Masculino/Feminino/Outro. Qual?" na parte do género, qualquer dia é só deixar uma linha e branco e cada um que preencha o que quiser. Já faltou mais.

A Suécia que é, e o que poderia ter sido


Portugal vai defrontar a Suécia no "play-off" de apuramento para o mundial do próximo ano no Brasil. O sorteio realizado ontem ditou os nórdicos como o ultimo obstáculo da equipa de Paulo Bento rumo ao quarto mundial consecutivo, e a primeira coisa que muitos pensaram foi na ausência de uma de duas grandes estrelas da constelação do futebol mundial na sua prova máxima: C. Ronaldo ou Ibrahimovic, um deles vai ver o mundial da bancada, ou pela televisão. E de facto o avançado sueco de origem Kosovar é o nome a ter em conta nesta selecção sueca; rápido, criativo, forte no um-a-um, imprevisível, pode rematar de qualquer lado quando menos se espera e resolver uma partida. Mas a Suécia vale também pelo seu colectivo, com uma defesa sólida e uma organização exemplar, são "clientes habituais" em mundiais, e terão as mesmas ambições que Portugal. Um adverário contra o qual temos um balanço ligeiro positivo, se bem nas duas últimas partidas, a contar para a qualificação do mundial de 2010, ambas as partidas terminaram empatadas sem golos. Os dois jogos realizam-se a 11 e 15 de Novembro, com Portugal a jogar primeiro em casa. Há quem considere isto mau, mas pessoalmente ficaria mais apreensivo se a nossa selecção precisasse de decidir a qualificação em casa. Portugal tem alguma dificuldade em lidar com a pressão das grandes decisões perante o seu público, especialmente se precisar de recuperar de uma desvantagem. Uma eliminatória de 50-50 para cada lado, mas com um por cento extra para nós, que queremos acreditar na ida ao Brasil.

Antes deste sorteio muito se especulou sobre a possibilidade de nos sair a França, que era de longe o adversário mais indesejável. E os receios eram plenamente justificados. Deixando de parte o aspect da qualidade dos jogadores ou das equipas, existe da parte de quem organiza a competição mais interesse na participação da França do que em qualquer das outras sete selecções do "play-off". Esta "fava" francesa calhou à Ucrânia, que vai precisar de ser muito melhor que os gauleses para chegar ao mundial. Apenas "melhor" pode não chegar. A Suécia é em teoria a segunda formação mais difícil que nos podia ter saído, sendo as mais "apetecíveis" a Roménia e a Islândia, que vão defrontar respectivamente a Grécia e a Croácia. Penso que nunca seria fácil, pois nenhuma das quatro selecções estenderia a passadeira vermelha a Portugal. A Roménia, apesar de estar a anos-luz da grande selecçã que foi nos anos 90, sob a batuta de Hagi, tem um futebol que se "encaixa" no nosso, e a eliminatória seria decidida por não mais que um ou dois golos de diferença. Os islandeses, apesar de teoricamente mais fáceis e sem experiência em mundiais (ou sequer "play-offs") são fisicamente poderosos, e uma deslocação à ilha do Mar do Norte em pleno Novembro pode acarretar uma dificuldade suplementar. Além disso Portugal já teve dissabores com opositores teoricamente inferiores, e o excess de confiança nunca foi bom conselheiro. Veremos no dia 15 de Novembro quão capazes fomos, e se merecemos ir à redescoberta do Brasil.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Os velhos que trabalhem, ora


No seu último artigo para a revista Visão, reproduzido na edição de hoje do Hoje macau, o humorista Ricardo Araújo Pereira faz uma série de sugestões de como resolver o problema das pensões e das reformas. O "Gato Fedorento" recorre à sua habitual ironia para sugerir formas de nos "livrarmos" desse peso fiscal que são os aposentados, que teimam em continuar vivos, muito além do prazo de validade, e, imaginem, têm o desplante de exigir o dinheiro que descontaram durante uma vida inteira de trabalho. Com as baixas taxas de natalidade, o envelhecimento da população, e o aumento da esperança média de vida, o que fazer para que exista liquidez nas contas do Estado quando chega a hora de pagar as reformas? Simples: os velhos que trabalhem. Eles e só eles. Trabalhem até à morte, caraças!

A este ponto já estão alguns leitores a pensar: "Olha, o Leocardo passou-se de vez, ou está armado em parvo como é costume". Nada disso. Escutai, ó vis ignóbeis, e interpretai cada pérola de sabedoria deste vosso mais que tudo qual verbu divinu. Temos feito tudo ao contrário. Chegámos ao "buffet", enchemos a barriga com os pudins e não deixámos espaço para o resto. O que eu quero dizer é: goza-se primeiro, trabalha-se depois. Simples, estuda-se até aos 18 anos, ou até aos 25, no limite, caso se opte pela formação universitária - o que é sempre uma boa ideia, pois o saber não ocupa lugar. Depois curte-se a vida até aos 50 e tal ou 60, e depois trabalha-se até aos 80 e muitos, descontando para as gerações seguintes que estão ocupadas a curtir a juventude e a gozar a vida. A sucessão é garantida pelos adultos ociosos na casa dos vinte, trinta e quarenta, e quem paga tudo são os velhos, que depois de uma vida de curtição, devassa e luxúria, pagam a dívida até serem cobertos com umas pazadas de terra.

É difícil mudar tudo agora, assim de repente, e demoraria várias gerações até levar a cabo o plano na sua totalidade. Mas pensem nas vantagens. Aproveitava-se o esplendor da vida no ócio e na paródia, e logo que a artrite, o reumatismo e a disfunção eréctil ditassem as regras, toca a trabalhar para pagar a dívida, e proporcionar as mesmas vantagens aos que nos seguem. Imaginem que bom que era: os (poucos) jovens a curtir a vida na sua plenitude, e os (muitos) velhos a pagar-lhes as contas através do trabalho. E depois sucediam-se; velhos quinan, novos tornam-se velhos e filhos vivem da taxação dos pais. Lindo, lindo. Um homem chega aos 50 e poucos, e em vez de dar uma festa de despedida depois de anos de trabalho, pele encarquilhada e cabelo branco depois de desperdiçar a juventude às mãos do sacana do chefe e sujeito à filha-da-putice dos colegas, anuncia a sua empregabilidade: "a partir de hoje a festa acabou, toca a trabalhar". Dos fins-de-semana em Ibiza e dos verões em Punta Cana pagos pelos velhotes que bateram a bota e que agora ele substitui, ficam as memórias, e valeu mesmo a pena.

Claro que vamos encontrar problemas, os mesmos de agora, mas ao contrário. Os velhos vão-se queixar dos jovens na mesma, mas do lado do cima: "é uma chatice; vamos para o trabalho muito devagarinho, alguns de bengala e canadianas, e quase somos atropelados por esses jovens inúteis e as suas aceleras!". Os idosos mais abastados, proprietários de condomínios de luxo, não vão querer universidades nas redondezas, pois os jovens "desvalorizam o seu investimento". Os jovens vão protestar pela falta de "pubs" e discotecas, perante a hegemonia dos centros de dia: "Mais concertos "rock" e festivais de Verão, menos bailaricos!", gritarão eles. Enquanto actualmente muitos funcionários de aposentam por motivo de invalidez, nesta nova ordem vamos ter jovens na casa dos trinta a deixar a boa vida, fartos das noitadas e do sexo casual, e a prentender entrar no mercado de trabalho, ainda bronzeados do sol do sul França: é o emprego por motivo de tédio.

O impacto vai-se sentir nas relações humanas; duas colegas sexagenárias trocam mexericos no escritório, e uma delas confessa que "está a sair com um rapaz de vinte-e-tal anos", a outra, em choque, aconselha-a: "vê lá o que estás a fazer; esses rapazes só se querem aproveitar da tua experiência, e só pensam em sexo! fazem-no três vezes por dia!" - "Tens razão", diz a outra, envergonhada - "sou mesmo estúpida". E se ainda dizem que são os ricos que pagam a crise, porque não os velhos também? Vivam primeiro, aproveitem a Primavera da vida para fazer as vossas maluquices, e depois terminem em beleza trabalhando, uma actividade ideal para gente acabada, engelhada e descaída. A única excepção pode ser feita aos desportistas, que dependem da agilidade e da frescura física, dos músicos, actors e outros artistas, que fazem o que lhes apetece e ganham rios de dinheiro, e por isso a crise passa-lhes ao lado. Ah sim, ia-me esquecendo da mais velha profissão do mundo. Quer dizer, haja um pouco de bom senso, não é? Alé disso estas não descontam para a caixa...

Meu churrasco, minha paixão


Uma vez de férias em Portugal, quem não mata as saudades de um bom frango no churrasco? A pele estaladiça que se come toda, a carne nem muito seca nem muito sumarenta, mas “au point”, as batatas às rodelas da Pala-Pala, só de pensar começa a dar-nos água na boca. As churrasqueiras são a nossa morgue de eleição, onde cadáveres de frangos vão rodando lentamente no forno, cozendo no próprio sumo e adquirindo a uma tez bronzeada de pele. Depois do forno crematório, são cortados, embrulhados, enfiados num saco e levados para casa, onde chegam sempre com uma frescura a toda a prova, nem que a viagem tenha sido de três horas. Toma lá e embrulha, McDonald’s, que vende porcarias que não sobrevivem meia-hora aos rigores do pacote.

Os proprietários destas churrasqueiras, que são normalmente um tipo de comércio familiar, são personagens únicos. Nasceram para aquilo, são uns predestinados. Quando Deus criou o mundo, dotou cada animal de um propósito: “tu és a galinha, e os teus ovos, as tuas miudezas e a tua carne servirá de alimento ao homem, tal como da tua gordura será feita a nutritiva canja”. Logo a seguir veio o homem da churrasqueira: “...e tu encarregas-te da forma mais deliciosa de massacrar o animal anterior”. Eles podem não ter nascido para assar frangos na brasa, pode ser que nunca tenham dito na escola que queriam ser isso quando fossem crescidos, mas estavam cunhados para essa função. Foi o destino.

É Sábado e já passa do meio-dia, e não sabemos o que fazer para o almoço. Vamos até à churrasqueira mais próxima, e há sempre alguma a dez minutos a pé de casa, em busca de uma solução rápida, económica e deliciosa, e que ainda por cima enche sempre a barriga, até aos mais comilões. Quando lá chegamos deparamos com um destes dois cenários: 1) Estão lá dois ou três fregueses a ser atendidos, e o homem da churrascaria diz-nos: “É um franguinho, é, amigo? Só um minuto e eu já o atendo” ou 2) Encontramos a loja vazia, dizemos “fáxâvôr” em voz alta, e das entranhas da cozinha sai o homem dos frangos, a limpar as mãos besuntadas de gordura com um pano, e que com um ar de compaixão nos diz: “Olhe só agora é que comecei a assar os frangos...se quiser pode voltar daqui a meia horinha ‘tá bem?”

Aqui percebemos como o homem da churrasqueira, o “Rei dos Frangos” daquela freguesia, é um profissional de verdade. Ora nos deixa na expectativa com aquele “já o atendo”, e mesmo que em vez de um minuto sejam cinco ou dez, ficamos com água na boca, e até começamos a sentimos o sabor do frango na boca. Na pior das hipóteses, diz-nos para voltar “daqui a meia-hora”, pois acabou de fazer a autópsia aos frangos, dar-lhes a extrema unção com molho secreto, e deixou-os no crematório, de onde sairão para satisfazer o nosso paladar. Dá-nos uma garantia de qualidade – chegámos a más horas, no início do ritual de sacrifício das aves, mas fiquemos tranquilos, que em meia-hora acaba tudo, e já não há mais dor nem fome. É um médico-legista e um psicólogo ao mesmo tempo. É o dr. Pinto da Costa dos frangos.

Na hora de nos calhar em sorte um dos frangos tombados em combate na grande guerra do churrasco, o carrasco pergunta-nos “como quer que corte?”, e nós respondemos “tanto faz”. O que dá vontade de dizer é “...e como quer que eu lhe responda?”. Depois pergunta-nos se queremos piri-piri. Agora dá para levar o picante num saquinho, mas antes era o tudo ou nada: ou levávamos o frango virgem, ou desflorado com uma pincelada de molho vermelho. Os homens dizem “pode ser mas só um bocadinho, que a minha mulher nāo gosta”. Típico do macho tuga, que para ter uma desculpa para mamar mais uma Super Bock, sujeita a esposa a passar um dia inteiro cheia de cólicas. O homem da churrasqueira abana a cabeça com uma cara séria, enquanto passa o pincel com piri-piri no frango. Apesar de parecer saber o que faz, a quantidade de piri-piri é sempre a mesma, quer tenhamos pedido “só um bocadinho”, ou que lhe dê “um banho de picante”.

A churrasqueira é o expoente máximo da confecção dos galináceos. Quem gosta de carne de galinha – e desconfiem de quem não gosta – adora frango no churrasco, com toda a certeza. A localidade algarvia da Guia, de onde dizem ser originário, deu sem querer um contributo de monta à humanidade, e não sei como ainda não foi lá a UNESCO declarar aquilo património. Em Macau há tentativas de frango no churrasco, que por muito bem intencionadas que sejam, não chegam aos calcanhares de um Rei dos Frangos de Alcabideche, ou da Marateca. Talvez porque lhes falte o mais importante: o único, o autêntico, o gordurento...homem do churrasco!

Conta-me outra


A TDM começou a transmitir aos Domingos a série "Conta-me História", uma produção da RTP com a participação do humorista José Luís Borges e um tal de Fernando Casqueira. Nunca tinha ouvido falar deste Fernando Casqueira, e uma pesquisa na net também não me ajudou a saber muito mais, a não ser que se trata aparentemente de um professor universitário, da área da História, arrisco um palpite, e que leciona na Universiade Lusíada. A sua aparência de vaqueiro veterano, aquele casaco, aquele chapéu, lembram-me alguém, mas quem? Deixa-me pensar, deixa-me pensar...ah, já sei! "Vamos brindar/com verde vinho que é do meu Portugal/e o vinho verde me fará recordar/aquela aldeia que deixei, ao pé do mar". Isso mesmo!

A série tem um carácter educativo, e isso sauda-se, pois fazem falta programas sobre História, e o desaparecimento do grande prof. José Hermano Saraiva deixou um enorme vazio, que muito dificilmente se preencherá. E não vai ser com programas deste calibre que vão lá, deixem-me dizer. A ideia é boa, o conteúdo é razoável - é História, tem um pendor de oficial - mas o que estraga tudo são os dois personagens: um velho sábio (Casqueira), e um jovem com idade para ser seu filho (Borges), que viajam pelo país e discutem os factos da História de Portugal, cujos episódios são recriados para o programa. Vendo bem essa até é melhor parte, e a mais bem conseguida.

O problema é que o personagem do professor é arrogante, e a do seu jovem companheiro é idiota. Casqueira fala de História como se tivesse todos os factos dos últimos mil anos na ponta da língua, e Borges responde com comentários despropositados ou piadolas sem graça. O mestre explica um evento da nossa História, e Borges manda bocas ridículas. Um bom exemplo é aquele que vimos no clip da TDM: Casqueira explica o mito do sebastianismo, e Borges comenta "olha, eu acho que o D. Sebastião está vivo, o Elvis também, e se calhar são amigos", e o professor reage com um risinho mordaz e diz "se calhar até são eh, eh", quando o mais indicado seria "cala a boca, palerma!" Desconfio que esta interação entre o homem maduro e literado e o pateta com boina preta ao contrário e barbicha de D. Quixote é algum comentário irónico ao desinteresse dos jovens pela ciência que estuda o passado e explica as nossas origens. Não vai ser com esta oratória do "escuta lá e não sejas parvinho" que se vão passar a interessar.

Fernando Casqueira é, como já disse, um complete desconhecido, pelo menos para mim. Confesso a minha ignorância se por acaso se trata de alguma figura ilustre e respeitada, mas naquela indumentária e com aqueles modos duvido muito que seja. José Luís Borges é um humorista reconhecido, que conhecemos principalmente do programa "Cinco para a meia-noite", onde é o apresentador das segundas-feiras, e não precisava de se sujeitar a isto. Compreendia-se se fosse um aspirante a comediante, mas se o José Luís Borges é uma pessoa remotamente inteligente, deve custar-lhe fazer aquele personagem e dizer aqueles disparates. Se já tinhamos saudades do grande José Hermano Saraiva, depois disto ficamos com ainda mais. Pessoalmente este "Conta-me História" é um insulto à sua memória. Ou se calhar "é mesmo assim", não sei, que o programa é um suceso e eu é que estou desactualizado. E prefiro continuar assim, obrigado.