sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A hora da Europa


Benfica, Sporting e FC Porto marcaram ontem no sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões, realizado no Mónaco. E é exactamente o AS Monaco, que regressa às competições este ano depois de uma travessia de deserto que os levou a duas épocas na Ligue 2, um dos adversários do Benfica no Grupo C. Além dos monegascos, os encarnados vão ter pela frente os russos do Zenit e os alemães do Bayer Leverkusen - um grupo dificílimo para os campeões nacionais, que recorde-se, eram cabeças de série no sorteio. Uma das curiosidades reside no facto de três das quatro equipas do grupo serem orientadas por treinadores portugueses; além de Jorge Jesus do Benfica, André Villas-Boas treina o Zenit, e Leonardo Jardim é desde esta temporada o técnico principal do Mónaco.

Também cabeças-de-série, o FC Porto ficou no Grupo H, onde tem teoricamente o grupo mais acessível das três equipas lusas. Os dragões, este ano treinados pelo espanhol Julen Lopetegui, vão ter pela frente os bascos do Athletic Bilbao, os ucranianos do Shaktar Donetsk e os bielorrussos do BATE Borisov. Os bascos do Athletic são um adversário duro de roer, especialmente jogando em casa, mas o novo técnico portista, também ele basco, deve conhecê-lo bem. A restante oposição de países do leste europeu, e se o BATE Borisov pode parecer aqui o elo mais fraco, o Shaktar é já um cliente habitual da "Champions", mas a situação conturbada na Ucrânia pode jogar a favor da equipa portuguesa.

Finalmente o Sporting, que se encontrava no terceiro pote, ficou no Grupo G, onde certamente teria oposição de respeito, mas podia ter sido pior: Chelsea, Schalke 04 e Maribor serão os adversários dos le­ões. A maior dor de cabeça será o Chelsea de José Mourinho, candidato natural à vitória no grupo, e na própria competição, enquanto os eslovenos do Maribor serão o adversário mais acessível , apesar de terem causado alguma supresa ao vencer o Celtic no "play-off". Os alemães do Schalke serão à partida o maior obstáculo à conquista de pelo menos o 2º lugar para o Sporting.


Na Liga Europa vão estar duas equipas portuguesas, o Estoril e o Rio Ave, com o Nacional a falhar a qualificação, ao perder na Madeira por 2-3 contra os bielorrussos do Dinamo Minsk, depois de outra derrota na primeira mão por 0-2. O Rio Ave estreou-se em grande nas competições europeias, e atinge a fase de grupos sempre à custa de equipas suecas. Depois do IFK Goteborg, foi agora a vez do Elfsborg, e os vila-condenses precisaram de sofrer. Após derrota por 1-2 na primeira mão, a equipa de Pedro Martins conseguiria o mínimo para passar: 1-0, mas com o golo a chegar apenas nos descontos por Esmael. Festa rija na cidade piscatória dos arredores do Porto, que vai encontrar os ucranianos do Dinamo Kiev, os romenos do Steaua Bucareste e os dinamarqueses do Aalborg no Grupo J. Quanto ao Estoril, qualificado automaticamente graças ao 4º lugar na Liga ZON Sagres na época passada, ficou no Grupo E, onde vai ter pela frente os holandeses do PSV Eindhoven, os gregos do Panathinaikos e os russos do Dinamo Moscovo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O estupendo estupor do estúpido


O tema forte deste blogue nos últimos dias tem sido o referendo civil, a iniciativa que as três associações que reúnem o "all-star team" dos activistas da pró-democracia em Macau levam a cabo desde o último Domingo e até dia 31, e que tem deixado o Executivo local à beira de um ataque de nervos. Sendo este um espaço de "variedades", com actualidade, vídeos, humor (já sei que não tenho piada, mas considero-me "camp"), desporto e principalmente opinião - a minha opinião - decido as prioridades, se não se importam. Obrigado. Em mais de vinte anos (21 desde 10 de Agosto) que vivo em Macau, nunca assisti a um momento de maior agitação política do que este que temos vindo a passar desde finais de Maio, altura em que a contestação a um diploma que dava poderes especiais ao Chefe do Executivo e benefícios chorudos ao seu séquito levou às ruas 10 mil pessoas, na maior manifestação de sempre da história do território, antes e depois da transferência de soberania. Se há quem insista que isto abala a frágil flora do segundo sistema, vigente desde 20 de Dezemnbro de 1999, é porque passou todo este tempo a acreditar num conto da fadas - se o sistema não tolera uma (1) manifestação de dez mil pessoas, então este sistema é um "tigre de papel", recorrendo a um chavão muito em voga nesta região do globo.


Não é segredo nenhum que este "tsunami" político que varreu Macau é consequência do terramoto que teve epicentro aqui ao lado em Hong Kong, onde existe uma economia sustentada que nasceu da força e da inteligência dos homens e das mulheres que ali nascem, vivem e morrem. Em Macau temos casinos. Pois, não se trata de nenhum ponto final prematuro, este, as coisas são o que são, e aos iluminados de algumas economias asiáticas, que olham para os números de Macau e encontram uma solução milagrosa, aconselhava que viessem até Macau ver o que isto é, e não apenas de férias; também não precisam de ficar aqui a viver, basta passarem 15 dias e vão ver o que custa ter à porta de casa a meca do jogo. Assim, e com a inflação, a especulação, a (não) distribuição de riqueza, a juntar ao desinvestimento e abandono das infra-estruturas, Macau é um oásis com o 6º maior PIB per capita do mundo segundo o banco mundial, à frente do Kuwait, mas enquanto ali andam de camelo até ao palácio, aqui os camelos somos nós, e como referiu muito oportunamente aquele funcionário de um casino durante a manifestação dos "croupiers" esta semana (uma das actividades de Verão aqui na terra), "trabalhamos num palácio e vivemos num buraco". Atentem ali em cima à fabulosa ilustração do cartoonista Rodrigo de Matos, e nem é necessário um esforço para produzir mentalmente esta imagem.


De facto passa tanto dinheiro por Macau, dinheiro a rodos. Voltando aos tais números "per capita", isto traduz-se em 90 mil dólares anuais, ou seja, cada residente de Macau ganha em média 720 mil patacas por ano. Dividindo isto por 14 meses, usando o meu exemplo, dá qualquer coisa como 51,428 patacas por mês. Reparem que nem vou ao ponto de dividir por 12 meses, o que certamente será o normal entre a maioria da população, pois assim teria 60 mil patacas mensais "redondas". Em Macau duvido que mais de 5% da população ganhe metade desse valor, ou mais. Macau chegou ao ponto em que um casal com rendimentos líquidos de 20 mil patacas vive melhor que outro com o dobro dos rendimentos, desde que tenha casa própria, com as prestações da hipoteca completamente liquidadas. É que por um fabuloso apartamento num edifício "vintage", cheio de potencial histórico (no sentido de "passar à história brevemente") custa actualmente qualquer coisa como 3 ou 4 milhões de patacas - entre 300 mil euros e pouco menos de 400 mil. Escusado será dizer que por qualquer coisinha mais decente, paga-se muito mais, às vezes o dobro, e no caso do segundo casal, que ganha 40 mil patacas mensais, irá precisar de dispender 70% do seu orçamento mensal para acabar de pagar a casa em 30 anos. Com a qualidade da construção em Macau, terá sorte se não lhe cair o prédio em cima ainda antes de liquidar a hipoteca. Olhando as coisas pelo lado positivo, não precisará mais de andar a apertar o cinto, e passar uma vida de emoções, fazendo diariamente o percurso casa-trabalho e trabalho-casa.


Reparem no ar de felicidade daquela residente de Macau, igual a muitas outras, o retrato do cidadão médio - atendendo ao exemplo que dei no parágrafo anterior. A exiguidade da sua habitação garante-lhe calor humano, caso viva com a família, o marido e os dois filhos. A vizinhança deve ser abundante em número, e pode-se dizer que ali se encontra um exemplo perfeito da vida em comunhão, uma comunidade da acepção do termo: um monte de gente feliz com lágrimas, na cidade dos patetas alegres. Sim, porque ainda aqui há alguns anos, entre 2008 e 2009, foi um ver-se-te-avias imobiliário, com as famílias de Macau que tinham mais que uma habitação, fruto de um investimento nos tempos idos em que se compravam casas pelo preço que elas realmente valiam, a lucrarem com a venda da mesma no mercado. Yupi, olha o lucro aí, aquela casa mais-ou-menos que se comprou por 300 mil patacas em 1998 é vendida dez anos mais tarde por dez vezes o seu preço. Mas as casas não são como as flores, que voltam na Primavera, e actualmente o mercado imobiliário está apenas acessível a dois tipos de comprador: os "estupidamente ricos" e os "que ricos estúpidos". Isto não querendo chamar de "estúpidos" ao pobrezinhos que não gastam dez patacas de uma vez sem pensar que têm que pagar a casa todos os meses, sempre com medo que o dinheiro não chegue. A situação levou-nos a um ponto em que perder o emprego tornou-se proibitivo, e na eventualidade disso acontecer, é uma tragédia.


É neste local ermo e triste, onde os locais dizem existir fantasmas (não acredito em fantasmas, agora em esqueletos no armário...) que vive o Chefe do Executivo - qualquer Chefe do Executivo, uma vez que esta faustosa habitação na imagem é o Palácio de Santa Sancha, residência oficial do dirigente máximo de Macau, já desde os tempos da administração colonial portuguesa. Situada na zona da Colina da Penha, é rodeada de outras moradias que não lhe ficam muito atrás, e onde vive a fina-flor do entulho de Macau, entre eles os restantes elementos do Executivo, os seus amigos e a classe empresarial dominante, que dita as regras do mercado em todos os aspectos. O referendo civil a que fiz referência no primeiro parágrafo, e que tem sido o "fantasma" que antes não existia mas agora paira por Santa Sancha e arredores, propõe à população que responda a duas perguntas, ou moções: se deverá o Chefe do Executivo ser eleito por sufrágio directo em 2019, e se o actual, que se prepara ser reeleito para um segundo mandato, merece a confiança da população. É assim, muito simples, não manda ninguém a nenhum sítio feio, existem três opções de resposta (sim, não, não sei), e não produz qualquer efeito jurídico. É uma mera consulta, e para mais sem carácter oficial, ou seja, não muda nada, servindo apenas de referência.


E perante estes factos e muitos outros, não me resta senão entrar em estado de absoluto estupor: o que teme o Governo que leva a que abra uma guerra sem quartel aos organizadores do referendo civil, a maioria deles que mal tem idade para tirar a carta, e nem barba tem? Desde o anúncio da realização do referendo que é evidente o desconforto da parte do Executivo e seus pares, e foi um pequeno passo até se avançar para a tese da ilegalidade. Para o efeito recorreu-se a um vício perigoso, que pode abrir um precedente inédito em qualquer jurisdição onde o primado da lei está acima de tudo: o que não é legal, só pode ser ilegal. Claro que este "contorcionismo" foi feito à medida da ocasião, mas nada me diz que não possa ser usado futuramente para efectuar detenções arbitrárias, sem que legislação alguma a sustente: - "Está preso, venha comigo para a esquadra". - "Porquê?" - "Porque sim". Tão simples quanto isto, pois não há lei nenhuma que diga que eu posso ir ao supermercado, estalar os dedos na rua, sair da casa de banho nu depois de tomar banho, etc.. E agora estarão a pensar que estou a levar isto para o disparate, e que não há nada que me proíba fazer todas essas coisas e muitas outras, assim como também não há nada que proíba uma consulta popular não-oficial. Basicamente é como votar para o vosso artista "pop" preferido, e faz-se igualmente através de recurso a meios electrónicos. Posto isto, pegou-se na lei da protecção dos dados pessoais, deu-se um estatuto sacrossanto ao número do BIR, o bilhete de identidade de residente de Macau, e prenderam-se alguns organizadores do referendo, acusou-se o seu promotor de "desobediência qualificada", e Macau foi notícia na imprensa internacional, não pelos bons motivos, como o seu PIB per capita, não pelos maus, como a as dificuldades da aquisição de habitação própria, mas pelos piores: atentado à liberdade de expressão.


Mas apesar dos esforços no sentido de dissuadir os organizadores de um referendo, consulta, pesquisa, sondagem ou o que lhe quiserem chamar (deviam ter baptizado a iniciativa de "perguntas carinhosas", um nome ao estilo desses que se vêem por aí nas repartições públicas) não foram suficientes, e apesar de se ter dito 385542 vezes que o referendo era "ilegal", não foi possível impedi-lo. Estranho, pois se eu for comprar droga, violar a minha vizinha no elevador ou atravessar fora da passadeira, e for supreendido pelas autoridades em qualquer um destes actos, tenho que responder perante a justiça, mas contudo, caso assuma que votei no referendo e dei os meus dados pessoais de livre vontade à organização, nada me acontece. A estratégia tem sido a da intimidação para os organizadores, e o apelo quase em jeito de súplica aos residentes, uma falta de coerência que deixa exposta a falta de bases legais para proibir a iniciativa, ou vetá-la ap fracasso. E de facto até ao momento, quando faltam três para terminar a votação, participaram já 7500 residentes. O promotor do referendo, Jason Chao, disse inicialmente que esperava uma participação com números "entre os oito e os vinte mil". Parece que os mínimos estão praticamente garantidos, apesar da participação ser cada vez menor - normal, uma vez que já não é novidade, quem queria participar já o fez, e agora restam os retardatários e os "tímidos", que vão ganhando coragem. Interessante que continuem a existir participantes, uma vez que o Governo arranjou forma de proibir qualquer promoção, publicidade ou divulgação do referendo. E não é tudo.


Olha, olha o que temos aqui, a página do Facebook intitulada de "anti-referendo civil", e bem ao estilo da Revolução Cultural, o símbolo consiste do mesmo do referendo, mas com uma cruz vermelha por cima - que original. Não vou cair na tentação de falar mal por falar, e prefiro apenas analisar os factos, o conteúdo e a argumentação. E já que daqui a pouco vamos analisar também a credibilidade do próprio referendo, posta em causa por esta contra-iniciativa (lógico), olhemos para o "pedigree" dos seus autores. Trata-se de uma "joint-venture" entre duas associações próximas do Governo: a Associação de Moradores, vulgo "kai-fong", e a Associação dos Naturais de Jianmen, de onde saíu a lista que ficou em 2º lugar nas últimas eleições legislativas, em 2013. Ena, gente fina é outra coisa, mas deixem-me fazer uma observação: estes últimos, os de Jianmen, estiveram em destaque no mesmo dia em que se deu a tal manifestação onde participaram 10 mil pessoas, em Maio. Assim estes senhores juntaram 3 mil pessoas (ou menos, acho eu) que marcharam a favor de um diploma que atribuiria regalias luxuosas a quem já era consideravelmente rico. Convicção estranha esta, e secreta também, pois entrevistados pela televisão - enquanto os organizadores da contra-manifestação "democraticamente" permitiram - alguns manifestantes diziam "não saberem" o que estavam ali a fazer. Portanto em termos de credibilidade, estamos conversados. Vamos aos argumentos.


Os argumentos não diferem muito dos que têm sido utilizados, e que apostam na ignorância da população, além do medo. Na falta de acusações sérias, acusam-nos de ser "desleais", "desonestos", de "quererem enganar a população", ou de "estarem ao serviço de interesses estrangeiros" (um argumento muito na berra durante o maoísmo). Agora preparem-se para rir (ou chorar, depende): os idiotas idealistas desta página dizem que "acreditam nos valores da justiça" e numa sociedade "harmoniosa", que este referendo vem perturbar com "aspirações ilegítimas", e que ao contrário desses malvados democratas, aqui demonizados até ao tutano "não procuram proveitos materiais, fama ou riqueza". Tudo muito zen, e o objectivo desde que a página foi criada na última terça-feira é de "recolher o apoio de 1000 residentes", e depois "entregar uma petição ao Governo". Uma petição para quê é a pergunta que me deixou com aquela cara que vêem ali em cima. Depois de terem subvertido a lei, usado e abusado dos tribunais, interpretado falaciosamente a lei dos dados pessoais, feito detenções consideradas em quase todo o mundo livre de arbitrárias, tentado sabotar a página electrónica do referendo pelo menos sete vezes, imagino a cara de surpresa quando receberem esta petição: "O que é isto? É para quê? O que é um referendo civil?". Pelo menos não cometem a ousadia de chamar o referendo de "ilegal", pois quem acredita nisso normalmente não usa o Facebook, porque ouviu dizer que salta um rato lá de dentro e morde-os. Esta página é para gente menos estúpida, com um QI acima dos 60.


Este é um vídeo patético que ilustra bem aquilo que eu quero dizer. Pouco menos de um minuto e meio de prolongada palhaçada, onde vemos um grupo de jovens de Macau a jogar basquetebol num recinto na zona da Barra, onde por trás podemos ver um lindo cenário de prédios devolutos e uma estrada por onde passam viaturas ligeiras particulares e transportes públicos - mérito para o "engenheiro" de som, pelo menos. Do lado direito vemos um estaleiro com um telhado de zinco enferrujado e uma carrinha azul de carga daquelas que andam por aí com gajos da China lá dentro. Este é o cenário ídilico que os organizadores do referendo civil quer destruir, e depois de mais de um minuto a assistir a uns gajos a jogar basquetebol intervalado de imagens da série de animação japonesa "Slum Dunk", uma menina diz ao avô, que segura uma bola, que "ele não pode marcar um cesto, porque não está a jogar". De facto o velho mal consegue andar, e até está com má cara, coitado, mas aqui o sentido de "marcar um cesto" ou "encestar", que contém o caracter "投" (tou), é também o de "votar", palavra onde anda o mesmo caracter! Ufa, ainda bem que "votar" e "f..." não têm o mesmo caracter. Não que eu não preferisse, mas neste caso, vindo de onde vem , dispenso. Portanto aqui é lição é: os outros votam e vocês chucham no dedo, sendo "outros" o colégio eleitoral, e "vocês" o resto da população. Ai não é nada que estúpido, que maldade. O que este vídeo espectacular e super-bem representado escrito, realizado e pago com o nosso dinheiro quer dizer é: não acreditem nessas coisas do referendo, porque vos vai iludir pensando que estão a participar de uma eleição genuína, e na verdade estão a ser enganados por uns tipos maus como as cobras que querem tirar daí proveitos políticos.


Ahh...depois de ver cinco vezes, percebi mais ou menos. Portanto, aqueles gajos maus que não ganham um avo com isto (se for preciso a polícia, o IACM ou o GPDP ainda lhes leva a carteira), e pagam todo o material de campanha do próprio bolso, querem que eu vote em duas perguntas, dando-me três escolhas para cada, não pedindo nada em troca a não ser o nº do BIR, estão-me a enganar??? Ai que me vai dar outra crise, e lá vai a minha professora do ensino especial ter trabalho suplementar comigo, e receitar-me uma sessão suplementar de electro-choques. Ah pois, os malandros querem-me ficar com a alma, que retirarão das informações confidenciais que eu lhes vou entragar estupida e voluntariamente. Que grande tanso que eu sou. Querem ver?


Aquele demónio só com a cabeça que vemos na imagem é um dos organizadores desta demoníaca charada, e vejam só como ele se orgulha da sua maldade, ao ponto de admitir sem recurso a tortura que "o server que usam para recolher os dados dos participantes está sediado na América!". Horrível, a América, os Estados Unidos, malditos imperialistas. Ainda bem que o nosso Chefe do Executivo foi para lá estudar para depois nos contar como aquilo é mau e pérfido, e um dia ele conta mesmo. Os filhos dos nossos generosos dirigentes vão para lá estudar também, para aprenderem o que é sofrer, e assim ficarem mais perto do povo, sentir o que ele sente, e, e...


Desculpem...é que não aguentei, e precisei de chorar. O amor e o carinho que os nossos dirigentes nutrem por nós é simplesmente demais. E como eles se preocupam com a nossa segurança também, en nos protegem desses criminosos. Querem ver?


Pronto aí está, e desculpem eu ter borrado a pintura, mas não se esqueçam que sou atrasadinho mental. Com que então ainda pensam que a lei da protecção dos dados pessoais é uma brincadeira, uh? Andam para aí a mandar para o outro lado do mundo o nº do BIR, que segundo o GPDP "é importante para comprovar a identidade dos residentes de Macau". Agora não se admirem se um dia destes acordarem sem nome, data de nascimento e ainda qualquer coisa que vos faça falta. Mas esperem lá, o que é isto?


O quê? VISA? Eu tenho cartão VISA! Mas...isso quer dizer que...Sim, quer dizer que ao contrário dos números do BIR que não valem o peido de uma velha quando põe as patas fora de Macau, o nº do cartão VISA, que usam naquelas lojas onde o passam avidamente para as mãos de estranhos com pressa de satisfazer a vossa sede de consumo, vale dinheiro. Dinheirinho, upa, upa! E agora, onde fica sediado este VISA? Foster City? Onde é que essa merda fica? "Ah mas ó Leocardo, VISA é VISA, não vais comparar uma companhia mundialmente conhecida com os democratas pois não?". Porque não? Os dois usam servidores que ambos garantem ser de confiança, e nenhum deles tem o controlo absoluto sobre esse servidor, querem que eu diga o quê? Olha, VISA é VISA, e um parvalhão é um parvalhão, que acredita em tudo o que lhe impingem. "Olha agora foste tu o parvalhão: eu tenho MasterCard!".


Ai tens? Então vai a Purchase, Nova Iorque, ver se eu lá estou. Aparentemente a legislação relativa à protecção de dados pessoais que estes inteligentes vos atiraram para a cara não se aplica nestas situações de transferência de informação para um "server" fora de Macau, pois não? É mais uma sacanice, enfim, mas parece que há quem goste de ser sacaneado por estes gajos. Para vosso bem, espero que eles não gostem de rabinho. O quê? Tem American Express, o/a menino/a?


Pronto, e para premiar a teimosia, vai com uma prenda suculenta e tudo. Olha, isto começa a ficar tarde e eu começo-me a aborrecer com tanta fanchonice. Têm alguma coisa para mostrar que me convença que não passam de uma cambada de mariconços?


E o que temos nós aqui? Ah ah! Prova de que o referendo é um engodo! A mãe do ou da PauPauApple não pode votar, coitada. Porquê? Porque "alguém votou por ela", e isto prova "além de qualquer dúvida" que o referendo é um bacanal de votos, com os pais de uns a votarem na cara das filhas dos outros, e as mães de alguns a levarem com a boletim dos filhos de outros na sua urna apertada e húmida. Ora bem, como expliquei aqui no outro dia, depois de se fornecerem aqueles números do BIR e o nº de telemóvel, recebe-se uma mensagem por SMS com um código que depois de inserido no campo reservado ao efeito leva até ao boletim de voto. Escusado será dizer que cada número de telemóvel só pode ser usado uma vez. Como explicar isto, assumindo que o ou a PauPauApple não é um mentiroso ou mentirosa de merda? Para já vamos colocar no ar a possibilidade de ter acontecido algum problema relacionado com as imperfeições próprias de qualquer sistema electrónico. Sinceramente, acreditam mesmo que até nas maiores democracias e as mais perfeitas, quando o partido A tem 323857 votos quer dizer que exactamente 323857 pessoas votaram nele? Mas é suspeito que uma vez que o número do código só aparece no telemóvel cujo número foi deixado no campo dos dados pessoais, só a mãe do ou da PauPauApple podia ter acesso a ele. Mistério. Tenho uma teoria, mas para apresentá-la vou ser obrigado a cometer umas pequenas ordineirices. Posso? Obrigado, aqui vai. Portanto a mãe deste personagem que tresanda a cocó por tudo o que é sítio disse ao marido que ia a farmácia comprar calicida, mas na realidade foi ter com o amante, um crioulo portador de um mangalho de meio metro. Depois da limpeza da chaminé, a senhora voltou para casa com um andar novo, e esqueceu-se do telefone na casa do tripé, que sendo natural da Zâmbia mas grande adepto de sufrágios universais, aproveitou o esquecimento para votar no referendo. Masi tarde, depois de duas horas a arrefecer sentada no balde do gelo, a mãezinha do PauPauCaralho foi lá buscar o aparelho, deu uma "rapidinha" entalada na porta, e quando quis votar, ainda meio a ver estrelas da bandeira dos Camarões, não conseguiu. Tão credível como estes argumentos da treta.


Esta página do Facebook dedicada a denegrir uma iniciativa privada de participação perfeitamente voluntária, que desde o início é tida como "ilegal" e esclarecidamente não altera nada, pois não produz qualquer efeito jurídico, é da responsabilidade de um tal David Wong. Apesar dos ferverosos apelos que faz à navegação para que evite o Adamastor do referendo, este David Wong prefere manter-se num quasi-anonimato, sendo esta a única imagem sua na conta que tem no Facebook. Aprendi com um grande homem que isto (e até muito mais) é indicativo de que este "anónimo" pode ser qualquer pessoa, ou 10 pessoas, ou 50, ou até as mil que vão assinar a petição que vai entregar ao Governo. É chato ser vítima do seu próprio jogo sujo não é? Mas não se aborreça, que não é você que tem a polícia à perna, para aproveitar a mínima oportunidade para o levar a uma visita de estudo pela esquadra durante um dia inteiro, sem acusação formada, ou com uma muito, mas mesmo muito forçada. Assim como este "auto-intitulado" David Wong, coitadito, forçado a fazer este frete. Mas não fiques triste, ó David, anima-te homem/mulher/bot: tenho aqui uma prenda para ti, e de certeza que vais gostar. Toma:

Referendo civil: o que pensam os outros? 民間公投: 其他意見



Nota introdutória: isto é apenas uma brincadeira que resolvi fazer com algumas das personalidades do território, e às quais juntei uns amigos e conhecidos das redes sociais. Como pode ser facilmente perceptível, nenhuma destas pessoas produziu as declarações aqui expressas. Desculpem se ficaram melindrados, mas penso que não há razão para tal. A questão do referendo civil deve também ser abordada do seu lado mais ligeiro - não se trata aqui de nenhum crime. Espero que gostem.

Deputados nomeados, empresários e outras personalidades próximas do Executivo manifestaram o seu repúdio pela realização da consulta popular organizada por associações do campo da pró-democracia, e que ficou conhecido por "referendo civil". E quem ainda não se pronunciou? O Bairro do Oriente foi saber o que pensam as figuras públicas que têm andado a "fugir com o rabo à seringa". Este foi o resultado.



Rita Santos (Coordenadora do Fórum Macau): Referendo? Olhe, eu agora respondia-lhe mas estou atrasada para um encontro com o Ministro das Palancas angolano. Amanhã marco consigo entre a reunião da Associação dos Apanhadores de Caramujos da Roça de S. Tomé e Príncipe, e a cimeira dos exportadores de Paçoca, e então deixo-lhe saber. Obrigado e até amanhã.



Fong Soi Kun (director dos Serviços de Meteorologia e Geofísica): É muito improvável que vai ter aquele referendo. Aqui vemos a alta pressão do referendo a caminho da costa de Cantão a 25 quilómetros por hora, e amanhã estará a caminho de Hainão, onde lhe vão tirar o sarampo.



Angela Leong (gerente da SJM): Isso dos referendos é coisa dos americanos não é? Não gosto. Não gosto de nenhum deles. Agora se não se importa tenho uma reunião com os "croupiers", que eles estão para ali a falar de uma grave qualquer, e eu quero perguntar-lhes se por acaso ainda estão interessados no bónus deste ano.



Fong Chi Keong: 瘋狂青年...

(Vozes em coro): 收聲!!!



Santos Pinto: (empresário da restauração): Referendo? Ah na sê mas ache que na temes. É comida macaeansi? Na faz mali, vossemecê tráz a recêta, e a genti vê o qu'é que se pode arranjari. Ora essa na custa nada, na custa nada...obrigado eu.



Hugo Gaspar (blogger): Referendos é coisa da esquerdalhada, como as execuções sumárias do Ché Guevara. E quando é esquerdalhada contra comunas pior ainda, e é preciso não esquecer que o promotor é aquele tipo que sofre de um transtorno egodistónico. Se estão mal, mudem-se, e deviam era viver num país dos muslos que acabavam a "referendar" na ponta de uma corda.



Iong Weng Ian (Associação das Mulheres de Macau): Como podem eles pensar nisso do referendo? Já se esqueceram das invasões nipónicas? Das crianças mortas e das mulheres violadas? Maus patriotas, muito maus!



Rocha Vieira (ex-governador de Macau): Sobre esse assunto só tenho a dizer que apoio o Executivo de Macau e o actual Chefe do Executivo, em nome da amizade secular entre Portugal e a China. Aprendam Mandarim.



Fong Chi Keong: 喇...我地要支持...

(Vozes em coro): 收聲!!! 八公!



Rui Cardoso (treinador de futebol): Referendo? Para quê? E deitar este trabalho todo fora? Agora que já nos conheciamos e tinham um método, vai começar tudo outra vez? E depois, quando tivermos trabalho feito, outra vez referendo, e é sempre assim. É por isso que andamos sempre atrás do Bangladesh. Somos os eternos Bangla-onze.



António Cambeta (aposentado PMF/poeta):

Já ouvi falar deste referendo,
E que não é grande espada
Se me perguntam como eu entendo,
Isto vai acabar à porrada.




José Lai (Bispo de Macau): Reverendo??? Qual Reverendo? Reverendo Stillwell? Já lhe disse mil vezes, não tive nada a ver com isso!



Fong Chi Keong: ☺%$?£!



Gilberto Lopes (jornalista): Axo que além da eleixão para Xefe do Ejecutivo também deviam incluir a Axembleia Legislativa.



José Drummond (artista plástico): Vejam lá, que isso dos referendos é uma má ideia. Uma vez numa exposição na China tinha uma instalação a que dei o nome de "Referendo", e uma hora antes de abrir a exibição eles levaram aquilo e confiscaram os catálogos.



Casimiro Pinto (tradutor-intérprete): Nós não queremos o referendo. Não procuramos o confronto. O nosso objectivo é sentar à mesma mesa com o Governo, e dialogar. Para bem da nossa comunidade, e para bem de Macau.



Fong Chi Keong: 聽叔叔講...

(Vozes em coro): 屎忽鬼!



Maria Amélia António (advogada, presidente da Casa de Portugal em Macau): Pois é, já estava mesmo à espera. Quando quisemos fazer um referendo, não pode ser, vieram os fiscais do IACM, meteram-nos na rua, uma vergonha. Agora com estes mandam a "tropa" toda, e ainda vão em frente com o referendo. Ai mas de uma queixa não se livram eles, não senhora!



Vitório do Rosário Cardoso (jovem empresário, nobre patriota): Não é através de referendos que se conquista a liberdade. É no campo de batalha, na guerra, morrendo de espada ou pistolas na mão, jorrando o sangue quente na arena, lutando até à última gota.



José Rodrigues (advogado, presidente da APIM): Essa coisa de referendo é para votar não é? Então chamem-me quando for hora de votar.



Germano Guilherme (cantor): Referendo? Ouvi falar 啦...começou no Domingo, não foi? Porque é que não me convidaram para cantar na inauguração 先? 麻煩...



Susana Chao (empresária, via blogosfera): LOL



Fong Chi Keong: 屌...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Eleição do CE & referendo civil: é só desgraças!


Em primeiro lugar gostava de dizer que quando li este editorial de José Rocha Dinis nas páginas do JTM de hoje, julguei tratar-se de alguma marotice sua. Com que então "pôr-se a jeito" ah? Foi assim que os alemães perderam a guerra, e tal, né? Mas não, era sobre a concorrida eleição do Chefe do Executivo, que se realiza no Domingo, e JRD lança algumas críticas à actuação do Governo nestes últimos cinco anos. Bem, é mais ou menos isso, e partindo dele, é até mais "crítico" que o habitual.

O editorial começa por fazer referência às inúmeras críticas feitas a Chui Sai On, algumas que o director do JTM considera "injustas", pelo que me é dado a entender pela "todas possíveis e imaginárias" e mais a farpazinha do costume contra a Associação Novo Macau. Eu vou mais longe, e considero que qualquer crítica que se possa fazer ao desempenho do Chefe do Executivo durante o último mandato é injusta! Chui Sai On não fez nada para merecer estas críticas! Insisto: nada! Nada de nada! Mas apesar dessas aves de mau agoiro, a sua reeleição parece "consensual entre a sociedade", ou caso contrário "aparecia(m) outro(s) candidato(s)". Podem vir agora os engraçadinhos insinuar que para convencer o Chefe do Executivo a recandidatar-se já foi complicado, quanto mais aparecer outro para fazer em cinco anos o trabalho de dez, mas até concordo que seria difícil vencer Chui Sai On; isto ficaria imediatamente perceptível aquando da entrada dos elementos do Colégio Eleitoral no Macau Dome este Domingo, ao som de "Todos os patinhos acabam de nadar", e para quem não sabe o resto, "depois em grande fila, no mesmo vão votar".

Agora concordo com Rocha Dinis numa coisa: o Governo de facto tem-se "posto a jeito" para que mereça algumas críticas. Ora ouve de manhã um grupo de interesses e diz-lhes que "vai estudar o caso", e estes saem convencidos que fica o problema resolvido, ora ouve de tarde um outro grupo com interesses simetricamente opostos, e diz-lhes a mesma coisa, e lá saem eles a pensar que são favas contadas. Uma imagem que tem sido comum, sem dúvida, mas permitam-me que acrescente mais alguma coisa ao raciocínio de JRD: 1) o Governo ouve, ou escuta as partes, mas será que entende? e 2) para sairem de um encontro com o Governo convencidos de que este vai fazer seja o que for, ou são muito crentes, ou então são parvinhos.

E finalmente o Governo tem sido muito autoritário recentemente, muito autoritário. Nós que estávamos habituados a dormir a sesta descansados, e vieram aí uns "mosquitos" organizar um referendo, e nas últimas duas semanas os elementos da nomenclatura mexeram-se mais do que nos últimos cinco anos. Tem sido um desasossego. Mas não interessa, pois conforme o estipulado no artº 47 da Lei Básica (suprema e intocável, com um "hidden track" no fim que proíbe referendos e outras coisas que dêem chatices), um dia destes o Governo Central vai indigitar o próximo Chefe do Executivo, e acaba-se o chinfrim. Com dum-dum não escapa um. Agora resta saber quem é o felizardo contemplado com uma estadia com tudo pago e depois ainda mais pago, e por aí fora. Se eu tivesse unhas, roía-as de tanta que é ansiedade e dúvida.


Mas atenção, atenção! Segurem-se bem, senhores leitores, e apertem o cinto que o espectáculo vai começar. Mais uma volta, mais uma viagem no JTM! Agora o prof. Oliveira Dias (que não me canso de referir, foi meu professor) vem dizer umas verdades bem ditas, e bolas, tenho que comprar um chapéu, que isto merece que lhe tire o chapéu, e literalmente. Num tom sarcástico que já tinha ficado evidenciado aquando da lamentável passagem do panda Sam Sam para o paraíso dos ursídeos, Luiz Oliveira Dias manda uns recados a Vong Hin Fai, mandatário da campanha de Chui Sai On. Mais do que isso: Vong Hin Fai é o grande guardião do Buda Dourado, e todos os pivetes que tiverem para queimar e com isso obter sorte, dinheiro, amor e saúde, podem entregar ao mandatário que ele encarrega-se de os queimar por vocês. Não esperem é nenhum dos pedidos realizados, que eles "vão estudar o caso".

A opinião de Luiz Oliveira Dias é a opinião do cidadão-tipo de Macau, aquele que anda na rua, que vai às compras, que fica entalado no trânsito, em "full-contact" com o sovaco alheio nos autocarros, e que entra no supermercado com cem paus a pensar que sai de lá com o almoço e com o jantar, e ainda os respectivos gaurdanapos para limpar a boca e os palitos para desentalar a chicha dos dentes, e quando no fim volta para casa com uma lata de sardinhas, uma "tota-tola" e e uma couve embrulhada em Ziploc pergunta: "f...-se, os meus cem paus, c...?". Mas é melhor o professor despachar-se e fazer o seu pedido o mais resumidamente possível, que o mandatário tem que voltar depressa para o palácio, não vá uma mariposa entrar por uma fresta da janela e lançar o pânico.


Mas vá lá, já chega de malhar no Governo, falemos de outras coisas. And now for something completely different, os números de hoje do referendo civil! Hoje foram 354 as pessoas que conseguiram enganar a PIDE, perdão o GPDP (Gabinete de Protecção dos Dados Pessoais), e entrar às escondidas na página do Referendo Civil, que agora conta com um total de 7239 opiniões (7266 agora) quanto às duas moções propostas pelas associaç­ões do campo pró-democrata que organizam esta consulta. Ainda é possível participar até ao próximo Domingo, e gostava de deixar bem claro que não faço publicidade do referendo. Repito: não faço publicidade do referendo. Escrevo sobre Macau, sobre a actualidade do território, e se há mais actualidade do que isto, então não sei o que é. Deste total de mais de sete mil opiniões, mais de metade foram recolhidas no primeiro dia, no Domingo, e tem sido evidente a diminuição do número diário de participantes. Isto é apenas normal, pois há quem tenha preferido deixar a sua opinião logo no primeiro dia, enquanto outros vão ganhando coragem, e há ainda quem tenha sentido apenas curiosidade. E o resto?

Tal como faço com muitos dos grandes temas da actualidade local, vou recolhendo opiniões um pouco por toda a parte, e as que mais valorizo são as dos residentes naturais de Macau, os "oumunyan" - valorizo todas, mas estes estiveram cá durante a "refeição completa", com aperitivo, sopa, prato principal, sobremesa e café, todos incluídos, e é interessante saber o que pensam. Entre aqueles com que falei, há os que votaram, um número considerável, e os que não votaram, e de entre estes os motivos são variados. Há os que não têm interesse no referendo ou na política em geral, há que não sabem como participar ou conhecem mal os contornos do caso, e há os cobardes. Desculpem-me mas é mesmo assim, e não a estou a chamar "cobardes" ao que se estão nas tintas para estas questões em geral ou não querem participar por genuína convicção - ninguém é obrigado a tal. Falo sim dos que gostariam de expressar a sua opinião, mas têm medo, e como se isso não bastasse, em vez de assumir esse medo ou procurarem informar-se sobre as suas opções, entoam as cantilenas da parvoíce, como se tirassem prazer em ser enganados.

Vamos lá ver: esta consulta, ou "referendo civil" não é um palavrão nem um insulto à mãe, nem é o equivalente a mandar alguém importante para um sítio desagradável. Quem deseja participar e receia represálias ou estar a cometer uma ilegalidade, saiba que isso é completamente falso. Os promotores do referendo nunca pressionaram ninguém a participar, nem os opositores à iniciativa ameaçaram qualquer residente que quisesse participar - valha-lhes isso, entre tanta asneira. O que tem acontecido é chincana política: de um lado os que querem a participação para acenar com os resultados que sirvam a sua causa anti-sistema, e do outro lado o sistema, que vai pedindo caridosamente à população que não os coloquem numa situação de vulnerabilidade com o Governo Central, que certamente não estará a achar piada nenhuma a tudo isto. Agora quem quiser mesmo participar e responder às duas moções, não vai sofrer quaisquer consequências legais, nem vão castigá-lo por isso, e pode fazê-lo secretamente. E isso leva-nos a outra questão.

O GPDP, que ficou muito mal visto nesta novela do referendo (e ainda não acabou), contrariou a natureza que levou a que fosse criado em 2007, com as funções de supervisionar o tratamento dos dados pessoais, funções essas atribuídas pela Lei nº 8/2005 (podem clicar e ver). O GPDP é um departamento criado por despacho do Chefe do Executivo (outra vez, podem ver ali a publicação no B.O.) e não autoridade para dizer o que o titular dos dados pessoais pode ou não fazer com eles - com excepção da divulgação e difusão a título pessoal, ou seja, caso os senhores queiram chatear com os vossos dados pessoais, sujeitam-se a regras, mas se não for esse o caso, podem dá-los a quem muito bem vos apetecer - isto conforme o nº 2 do artº 3º da tal lei. O GPDP tem a função de autorizar o tratamento dos dados por parte de terceiros, quem pode ou não pode tratá-los e para que efeito, e não proibir seja quem for de fornecer os dados a outrém. Portanto bem ou mal, este é um problema entre o GPDP e os organizadores do referendo. Nada a ver convosco, entenderam?

Outra questão com que deparei foi com a segurança do servidor onde se processa o recolha dos dados de quem quer participar no referendo. Ora mais uma vez isto é entre o GPDP e a organização do referendo, mas vou adiantando que tudo o que se pede são três secções do número do BIR - não se pede qualquer outra informação que possa ser considerada sensível. As pessoas vão a qualquer repartição e entregam o BIR a desconhecidos confiando cegamente na sua capacidade do tratamento desses dados e não questionam seja o que for, dão os dados constantes do BIR para promoções de produtos de beleza e outros bens de consumo sem pensar duas vezes, e mesmo quando visitam alguém no hospital passam o BIR para um segurança de uma empresa que nunca ouviram falar que escreve os dados num bloco de papel que mais parece aquele de embrulhar o borrego no talho, e não se lembram de ligar ao GPDP para vos garantir a "segurança do tratamento dos dados". O GPDP, já que se preocupa tanto com o BIR e tem jeito para se armar em "polícia", devia era estar atento à compra de votos durante as eleições legislativas, onde estranhos chegam a ficar na posse do documento de identificação dos eleitores por vezes durante um ou mais dias. Isso é que chamaria um trabalho bem feito, meus senhores.


Eis o editorial desta quinta-feira de José Rocha Dinis, onde é feita uma interessante comparação entre dos dois fenómenos: a eleição do Chefe do Executivo, e o referendo civil. Ora bem, temos portanto o director do JTM a dizer-nos que um dos pontos em comum é a "falta de unamidade". Por muito mal que as coisas estejam, e não estão assim tão mal mas podiam estar muito melhor, não estamos na Coreia do Norte nem no Iraque dos tempos de Saddam Hussein para que se ganhem eleições com 100% ou 99,9% dos votos. Agora não sei se JRD está a brincar, e até pode ser que me esteja a dedicar parte deste editorial (eu que sou grande fã), mas se por um lado temos uma eleição onde as opções são um candidato ou nada, do outro lado temos um referendo com duas moções e três opções de resposta para cada uma delas. É preciso perguntar onde existe a maior possibilidade de não haver unanimidade, ou tenho que explicar? Não tenho seguido este tipo de consulta oficial para me inteirar da taxa de aprovação do Chefe do Executivo, mas acredito plenamente que tem ficado sempre acima dos 50% (é curioso como JRD questiona quem participa no referendo mas confia incondicionalmente numa pesquisa de que nada se sabe), mas isto em comparação com quem?

Outro ponto interessante tem a ver com as opções da moção nº 1 proposta pelo referendo, e Rocha Dinis diz que "há quem vote no não". E há mesmo, meu caro! Eu, por exemplo, que desde a primeira hora manifestei interesse em expressar a minha opinião sobre a matéria e considero que não há condições para eleger o Chefe do Executivo pelo sufrágio universal, o velhinho "uma pessoa, um voto". Eu penso assim, muita gente pensa assim, e ninguém obrigou ninguém a votar no "sim" ou desaconselhou o voto no "não". Há ainda a opção de "abstenção" para quem só tenha opinião quanto à moção nº 2, e vice-versa. Quem tem feito anti-campanha, dissuasão e desencorajamento à participação não tem sido a organização do referendo. E se o resultado der a vitória do "não"? O que eles querem saber (e nunca deram outra indicação que não essa), é a vontade da população em relação ao sufrágio universal, e não vejo como é que isto se pode voltar contra eles. Não são eles que andam por aí desesperados, quase enlouquecidos, a dizer às pessoas o que devem ou não fazer, e a atirar com tudo o que têm contra a iniciativa alheia. Pense nisso.

Para acabar gostaria de recomendar a quem fala da falta de credibilidade ou do amadorismo do referendo civil que experimentasse ir lá e ver como funciona, em vez de falar do que não sabe. Aqui não me dirigo especificamente ao grande José Rocha Dinis (admiro a sua verve, a sério), mas à generalidade, e especialmente a quem tem o dever de informar com isenção, ou que pelo menos se orienta por um código de ética inerente à sua profissão. Outra vez, sem especificar, ficam aqui dois ou três pontos essenciais que têm suscitado alguma dúvida, e cuja detorpação só me leva a acreditar que existe alguma agenda oculta:

- O referendo civil está a aberto a maiores de 16 anos e a residentes não-permanentes, portanto sem capacidade eleitoral, pois na eventualidade muito remota do Chefe do Executivo ser eleito por sufrágio directo em 2019, todos os primeiros e muitos dos segundos terão já a possibilidade participar desse sufrágio.

- O promotor e os organizadores do referendo não pediram para ser perseguidos nem detidos com a finalidade de obter protagonismo - não consigo conceber como alguém pode sequer considerar que outra pessoa "goste" de ser detida e levada pela polícia. Deve ter experimentado e gostou muito. Se chegar um dia a minha vez, dou-lhe o lugar.

- O GPDP conseguiu por meios bastante duvidosos e até preocupantes para a confiança no segundo sistema que o referendo, ou melhor, a recolha dos dados pessoais para esse efeito fosse considerada ilegal, mas não um crime. O único crime foi o de desobediência qualificada de que o promotor do referendo foi acusado, e que mesmo assim assenta numa base pouco sólida. Deixar no ar que seja a ideia de que o referendo é "um crime" é desonesto e não se entende de outra forma senão com a pressecução de fins pouco transparentes, branqueando essa intenção com o pretexto de uma "opinião meramente pessoal". Repito: código de ética, algo a que eu, que assino semanalmente uma página de opinião na imprensa não estou sujeito, mas por uma questão de verticalidade, evito assumir posições tão rasteiras como esta.

Posto isto, se quiserem participar do referendo civil são livres de o fazer, e se não quiserem, essa é outra opção que vos é dada. Já quanto ao evento do próximo Domingo, se quiserem ir ao Macau Dome, recomendo que se inscrevam o mais depressa possível na lista do pessoal de "catering" ou de limpeza, e tenham em mente que vão apenas lá assistir a uma "emocionante e imprevisível" eleição, e ainda "sem unanimidade", o que é "bom para Macau". É bom é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé.


Ovelhas negras (e amarelas)


Imagem: Macau Taxi Driver Shame (Grupo do Facebook)

Agora falando a sério (yeah, right!), aparentemente não foi uma concessão mas sim uma concussão que o taxista deixou na cabecinha do fiscal da DSAT na segunda-feira, juntamente com a respectiva fractura...no maxilar. Tudo isto depois do fiscal ter inquirido o taxista sobre um alegado caso de recusa de transporte de passageiro e cobrança abusiva de tarifa. Como nunca, em tempo nenhum, jamais, um taxista em Macau cometeu tais actos, este profissional sentiu-se ferido na honra e travou-se de razões com o autor de tamanho ultraje. Na falta de florete ou de pistola, foi-lhe aos queixos.

"Mau, muito mau isto, podia ter morto o homem", disse Wong Wan, depois de ter recuperado o fôlego e gasto duas caixas de Kleenex a limpar o suor quando chegou ao hospital para visitar o fiscal combalido. O director vinha acompanhado de outros elementos da DSAT, a quem o fiscal perguntou "quem são vocês, e já agora quem sou eu?", enquanto a mioleira ainda lhe tentava fugir da cratera que o taxista lhe ia abrindo na cachola. Os homens responsáveis pela merda do trânsito que temos, juravam vingança, de olhos cerrados de raiva e punhos fechados, prometendo "limpar as ovelhas negras", e tornar Macau novamente uma "cidade internacional de turismo", conforme se escuta habitualmente naquela cassete que esses responsáveis engolem e de vez quando rebobinam, e voltam a tocar.

Dava jeito era que em vez de andarem por aí a limpar ovelhas, os fiscais da DSAT apanhassem antes os taxistas infractores. Já sei que o gado ovino tem esse problema, cheira muito a "bedum" e deixa sempre o cocó preso na lã, e depois como são "ovelhas negras" é mais difícil de limpar, e os turistas não gostam do cheiro. Só que a DSAT é responsável pelo trânsito, e não pelos animais de quinta, e devia era autuar os taxistas que se recusassem a apanhar clientes, ou cobrem tarifas 1700 vezes superiores ao normal, e caso estes reclamem ou façam caretas, é só partir-lhes o focinho, que parece que é uma linguagem que eles entendem bem.

É que já chega de palhaçada, com os táxis negros e amarelos a gozarem com toda a gente, desde o consumidor, que nunca chega a consumir, com os fiscais, com quem fazem judoca, e com o Wong Wan, porque é gorducho e parece um chorão. Vejam se lá se depois de terem ido lá ver o fiscal que vai andar agora a caldinhos durante uns bons tempos enquanto se tenta lembrar quem é e onde está, não se esquecem depois de ir lá apertar com os taxistas, valeu? Senão os turistas são obrigados a andar por Macau montados nas tais ovelhas, e nesse caso se calhar é melhor que as limpem, mesmo.

Uma concessão cerebral


Num dos seus famosos (e raros, e por isso preciosos) discursos, o nosso Chefe do Executivo, actualmente num "limbo" entre o primeiro e o segundo mandato, apelou à criação de talentos. O chefe pede, a população ouve, os taxistas concedem. Esperam lá, os taxistas? Aqueles tipos de quem toda a gente se queixa, que cobram mil patacas para levar uma velhinha que caíu na rua perto do Jardim de S. Francisco e ficou a esvair-se em sangue até ao Hospital Conde S. Januário, sacou-lhe mais uma "quinhentola" para a "limpeza do veículo", e depois atirou-a como se fosse uma saca de batatas para "mais ou menos perto" para porta das urgências? Esses mesmos, vêem como sabem? Os tipos até não são assim tão maus, e vejam só que um deles, de tanto conviver com um fiscal da Direcção de Serviços de Assuntos de Tráfego (DSAT), criou com ele uma amizade tal que lhe deu uma "concessão cerebral"! Deu salvo seja, pois segundo a notícia da capa do JTM, parece que vendeu a "concessão cerebral" e deixou "a factura no maxilar" - suponho que é isso, e ali "fractura" é apenas um pequeno lapso, um "erre" a mais, acontece aos melhores. Portanto, cuidado, sr. director Wang Wan, que alguém na DSAT tem finalmente uma "concessão cerebral". E veja se larga as "ovelhas negras" por uns instantes, que é preciso "limpá-las". Ai, ai, querem lá ver, o bucha...