segunda-feira, 14 de abril de 2014

Por detrás de um Jesus, há sempre um Judas


Ainda a propósito de textos assinados por outros autores, gostei bastante da dissertação feita por Rui Rocha na edição de hoje do Ponto Final, sob o título Judas e Jesus, uma perigosa cumplicidade, que recomendo desde já que leiam, se ainda não o fizeram. Fico ainda entusiasmado com o facto de esta ser apenas a primeira parte de uma série de artigos dedicados a este tema, e o seu autor teve um "timing" perfeito, uma vez que nos encontramos na semana santa, a três dias da sexta-feira de Páscoa. A série de eventos que agora assinalamos, e que através das escrituras nos são relatados, que nos falam da prisão, condenação, morte e alegada ressurreição de Cristo têm muito mais que se lhe diga do que aquilo que nos é apresentado de forma superficial, na maior parte das vezes em forma de dogmas insofismáveis. Na realidade o que não falta é vontade de sofismar, de questionar e de duvidar, quando se fala da relação entre Jesus Cristo e o homem que supostamente o traíu "por trinta dinheiros", Judas Iscariotes.

Nas sociedades cristãs, ou cuja cultura é marcadamente influenciada pela doutrina cristã, como é o caso de Portugal, aprendemos que "Judas" é sinónimo de traidor. A imagem que nos é dada daquele discípulo que viria a precipitar a morte do seu mestre, e que consumido pelos remorsos acaba por se enforcar, é a de um homem vil, invejoso e cruel, que tomado frustrado pela pouca atenção que Jesus lhe dispensa ou pela influência quase nula que exerce sobre ele, acaba por o vender, como que por vingança. A forma como nos apresentam este Judas sugere que estaria possivelmente a soldo das forças do mal, e que pelo mal foi levado a cair em tentação, e ultimamente perdoado - sim, até ele, infinita que é a misericórdia divina. Perguntem a qualquer criança que frequente a catequese "onde está Judas?", e com quase toda a certeza ela responde "no Inferno". Aqui levanto uma primeira questão: o que teria acontecido se Judas não tivesse traído Jesus? Será que alguém pensa que o filho de Deus se eternizaria, tornando-se nosso rei, e viveríamos todos como irmãos? Não fosse pela acção deste "traidor", e não teriamos a paixão, a morte, e a ressurreição de Cristo, a trave-mestra onde assenta toda a cristandade. Judas, como elemento preponderante desta sucessão de pressupostos divinos, torna-se indispensável à estrutura da própria fé cristã. Condená-lo seria o mesmo que condenar as bactérias que entram na fermentação do mais requintado dos queijos, ou do vinho mais fino.

Rui Rocha cita o pensador, escritor e filósofo esloveno Slavoj Žižek, que ousa questionar se Judas não é de facto o supremo herói do Novo Testamento: o homem que se dispõe a cometer uma traição suprema que o condena para toda a eternidade, para que possa realizar um plano divino, tudo em nome de um bem maior. Entrando pelos atalhos da conjectura e da dúvida, podemos mesmo considerar que a maior traição que Judas podia ter cometido seria...não trair Cristo. O próprio Cristo questiona o plano de seu Pai, na passagem bíblica que tem como cenário o Jardim das Oliveiras, e que decorre na véspera do início do seu calvário. Seria mesmo necessário que o Criador elaborasse esta estratégia ao ponto de precisar de incluír o sacrifício doloroso do Seu próprio filho, e que manchasse a reputação de um dos que lhe eram próximos, muito além do raz que é razoável. Até o mais comum dos mortais tem dentro a si a capacidade de perdoar seja quem for, seja por aquilo que for; Deus, por outro lado, desafia-nos com Judas, o imperdoável - e é Ele que se diz "infinitamente misericordioso". O papel de Judas não difere em muito do próprio papel do Mal como contraponto ao Bem: que referência teríamos para distinguir o certo do errado, se não existisse o erro? Que necessidade teríamos de dar um nome ao amor se não existisse o ódio, ou à luz se não existissem as trevas, ou ao prazer se não houvesse dor? É aquilo que as civilizações orientais condensaram no "ying" e no "yang": para cada acção positiva existe sempre uma acção negativa.

É uma ingenuidade pensar que as razões da traição de Judas se prendiam com sentimentos de inveja, mesquinhez ou desprezo. Basta ler o evangelho para entender que discípulo e mestre tinham uma relação de grande empatia, cumplicidade até, e que dos 14 personagens presentes nas últimas horas que precederam o Calvário, apenas Jesus e o próprio Judas entendiam a motivação deste último. Enquanto os restantes onze discípulos tinham uma agenda paralela, a resistência ao invasor de Roma, e viam em Cristo um líder natural com o carisma necessário para apelar às massas, e Maria Madalena era movida pelo amor e pelo arrependimento, Judas estava consciente da missão de Jesus, e ultimamente da sua. Judas era o verdadeiro crente, possivelmente o único. Era a voz da consciência do seu mestre, e ao mesmo tempo o cordeiro cerimonial que se sacrificiaria em nome do sacrifício de outro cordeiro maior que ele. Quando Jesus diz na última noite com os seus seguidores "um de vocês o trairá", e Judas responde "e esse alguém serei eu", segue-se uma discussão entre ambos sobre o porquê da ingrata missão que foi incumbida a Judas. Do triângulo que compõe este enredo, Judas, Jesus e o seu etéreo pai, o primeiro é a verdadeira vítima, o bode expiatório. É Deus o autor do plano, e Jesus, que chega hesitar várias vezes em levá-lo adiante, tem a capacidade de se salvar, de voltar atrás, muito para além do momento em que é traído por Judas. E porque é que se interpreta o beijo com que Judas se despede do seu mentor e amigo como um gesto maldoso ou cínico, o "beijo do traidor"? Porque não entender isto como um beijo de despedida, como o que damos a um pai, um irmão ou um amigo quando vai de viagem, ou parte numa missão, e muitas vezes no fundo do nosso subconsciente existe sempre algo que nos diz que esta pode ser a última vez que nos vemos - e nada nos garante com toda a certeza que não será.

O drama de Judas, o lugar que ocupa na história, não é mais do que o somatório dos nossos erros, receios e fraquezas. Quantas vezes sentimos que fomos injustos com alguém, ou tomamos uma decisão impopular em nome daquilo que achamos ser o correcto, ou de modo a atingir um fim que consideramos o único que se apresenta como aceitável, e tememos estar a errar, e a vir denunciados, castigados, e que pode haver alguém que nunca nos perdoará o deslize. E que mal ficou Judas na fotografia, e no fim de contas, do que serviu borrar a pintura do seu retrato? No fim de contas continuamos sem entender a mensagem que subjaz na morte de Cristo, que oficialmente se sacrificou "em nome dos nossos pecados", e continuamos a pecar, a reconstituir o seu penoso calvário, a renovar o pesar, quando tudo o que nos era pedido era exactamente o oposto: aprender com este exemplo, começar de novo, e no fazer do sacrifício de Jesus, e já agora de Judas, uma coisa vaga, uma mera comemoração como é esta Páscoa cristã. O mistério que se encerra nesta relação entre Jesus e Judas é apenas mais um, entre os muitos a que não nos é dada a capacidade de encontrar a resposta. Porque somos assim, humanos, demasiado humanos, nas palavras de Nietzsche: todos com um pouco de Jesus, e um pouco de Judas.

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