quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma queixa (ou mais ou menos isso)


Como os seguidores do blogue devem ter reparado, ontem não tivemos Bairro do Oriente, e lamento desiludir os que pensavam que me "aconteceu qualquer coisa", desassoguem-se, que acontece-me sempre "qualquer coisa", mas a maior parte das vezes é uma coisa boa. Mas ontem o plano era não acontecer nada, e para o serão programei um "dolce far niente" que me fizesse recuperar as horas de sono que perco no blogue ou nas minhas actividades pós-laborais mais indiscretas, onde aprendo sempre qualquer coisa que depois gosto de partilhar com os leitores neste espaço. Só que ontem a ideia era mesmo hibernar: chegar a casa, fazer o jantar, ver as notícias para saber se existia algo digno de menção, e ajustar as contas com o travesseiro. Só que, ó sorte maldita, vida malvada, as "aventuras" parecem cair-me no colo sem que eu dê por isso. Esta foi tão peculiar que só hoje, já de cabeça fria, apeteceu-me contá-la.

Tudo começou no Domingo à noite, onde durante o sono escutei através da janela uma pequena algazarra a meio da noite, diálogos em "tagalog", língua oficial das Filipinas, alguma risota, um ou outro assobio aqui e ali. Achei normal, uma vez que ao fundo do patio onde vivo moram alguns filipinos, alguns deles trabalham nos casinos, por turnos, portanto pensei tartar-se de um daqueles dias em que regressaram do dever um pouco mais agitados. Não seria a primeira vez. No dia seguinte de manhã saio de casa para dar início a mais uma semana de trabalho, e tudo normal, mas quando regresso a casa à hora de almoço, noto uma bicicleta estacionada alguns metros à frente do meu portão, junto com dois ou três sacos, um deles volumoso. Menciono isto agora para dar sentido ao que vem a seguir, mas na altura não achei que fosse digno de reparos. No mesmo dia, volto a casa já passavam das 18:30, estava escuro, e no mesmo local estavam um jovem casal, montado cada um na sua bicicleta, junto dos sacos e da outra bicicleta que já lá estavam de manhã. Conversavam um com o outro enquanto mexiam nos respectivos telemóveis, e a rapariga falava em voz alta - provavelmente porque tinha "headphones" nos ouvidos, bem visíveis - e reconheci-lhe a voz ligeiramente rouca: era a mesma que ria e falava a viva voz na noite anterior.

Terça-feira. Saio de casa de manhã, e por curiosidade olho para a minha direita, o que não é habitual, pois o meu caminho é para a esquerda e normalmente estou com pressa. Tinha ficado apenas um dos sacos, o maior, e nem sinal das bicicletas. Continuava a achar tudo isto muito corriqueiro, e nunca imaginei que pudesse a ser um "problema". À hora de almoço, tudo na mesma, e por curiosidade aproximei-me do saco, que estava ingenuamente preso a um cano com correntes de bicicleta. Digo ingenuamente porque caso alguém estivesse interessado em levá-lo, bastava cortar as duas asas, tratando-se de um simples "china bag", daqueles azuis e vermelhos feitos de fibra de plástico e que vemos normalmente nas mãos das pessoas que andam naquele vaivém entre Macau e o Continente, através das Portas do Cerco. Dei um toque no saco com a biqueira do sapato, e senti um volume mole, daquilo que pareciam ser apenas roupas. Mais uma vez, fora do habitual, mas longe de causar estranheza.

Tudo mudou na noite de terça-feira, quando me apercebi que alguma coisa não estava bem. Chego a casa mais tarde que o habitual, já passavam das 20:00, e lá estava o casal e as suas bicicletas - deviam ser pelo menos quatro. Enquanto aquecia o jantar, oiço um discussão em voz alta, em chinês e inglês. Como estava escuro no me incomedei em espreitar, mas fiquei junto da janela do quarto a escutar o diálogo. Aparentemente o morador da casa em frente de onde o casal tinha assentado arraiais queixava-se da sua presença, e a rapariga vociferava contra ele em inglês, confrontando-o com recurso a ameaças. O meu vizinho falava apenas em cantonense, mas a única coisa que saia da boca daquela jovem no dialecto local eram obscenidades. A discussão terá demorado poucos minutos, ao que se seguiu um período de acalmia. Fui-me deitar pouco depois da meia-noite, e o meu sono foi interrompido por volta das três da manhã, com o som de risadas, acompanhadas do arremesso de objectos de metal contra a porta do meu vizinho que tinha ousado enfrentar os dois intrusos. Mais uma vez a única voz que se ouvia era da rapariga, mas os dois pareciam estar num estado de euforia que sugeria estarem alcoolizados, ou sob o efeito de drogas. Poucos minutos depois, cessava o burburinho.

Na quarta de manhã, o mesmo cenário que nas duas manhãs anteriores: o saco amarrado com correntes de bicicleta, mas dos jovens ou das bicicletas, nem sinal. Á hora de almoço o cenário era idêntico, mas ao fim da tarde, quando regresso do trabalho, estavam lá outra vez, mais os seus veículos de duas rodas, com um à vontade tal que pareciam estar em casa. Como não me apetecia cozinhar, pensei em ir buscar qualquer coisa que se comesse a um sítio mais ou menos distante, e enquanto isso ligaria para a polícia, para ver se aqueles dois se explicavam. Tomei um banho, vesti-me, e quando saio de casa já lá não estavam outra vez, mas o saco permanecia no mesmo sítio. Resolvi ligar para a polícia na mesma, e podia ser que fossem lá pelo menos inteirar-se da situação, recolher provas, fazer perguntas, sei lá, qualquer coisa, já que os vizinhos pareciam intimidados e os invasores estavam a "crescer". Pensei que naquela hora que eu estivesse fora a situação pudesse ficar resolvida, ou pelo menos registada. Não que me incomodasse ligar de casa e ficar a assistir à intervenção dos agentes, mas sei lá se aquilo acabava em tiros, e para rebentamenos já basta os que vamos ter daqui a duas semanas, com os panchões que anunciam o novo ano lunar.

Como o único número que conheço é o das emergências, o 999, fui até à página da PSP antes de sair de casa, e ver para onde podia ligar nesta situação. "Denúncias": 28577577, pareceu-me a opção acertada. Já na rua, organizo mentalmente o que vou dizer, e ligo para o número. Começo por escutar uma gravação que me diz que "por motivos de segurança, a conversa vai ser gravada". Porreiro, e depois do que se seguiu, até pode ser que entre para algum compêndio de humor, do tipo "Apanhados". E foi mais ou menos isto:

- Sim? Boa tarde. Fala português? Do you speak English?
- Yes? Can I help you?

A este ponto vou transcrever o conteúdo da conversa inteiramente em português, mesmo que tenha decorrido toda em inglês - ou pelo menos tentei...

- Sim...fala do departamento de denúncias da PSP?
- Quem é você?!?! - numa voz seca e num tom ameaçador, como se eu tivesse acabado de o insultar mais à família inteira. De sobrolho levantado, estranhando aquela reacção tão seca, prossigo.
- Er...bem, que queria fazer uma denúncia...acho.
- O que foi? - Persistia o tom desconfiado e pouco amigável.
- Eu vivo no (nome da rua em português), em chinês diz-se (nome da rua em chinês)
- Quem é esse?
- Esse o quê? É onde eu moro! - repito o nome da rua em português e em chinês - acontece que de alguns dias para cá há dois indivíduos estranhos à vizinhança a circular no local, e...
- Espera! Fala mais devagar, que tu falas muito depressa e eu não entendo nada.
- Uff...não têm aí ninguém que fale português?
- Não, só eu. O que foi, então?
- Epá, é assim, os dois indivíduos são um casal estranho, e estão a morar na rua, e têm lá dois sacos...
- Eu acho que ligaste para o sítio errado!
- Mas aí não é a "hotline" de denúncias da PSP?
- Sim. Vamos lá a uma coisa de cada vez: onde é que tu moras?
- Já disse: moro na (nome da rua em português), em chinês (nome da rua em chinês).
- Quem é esse?

Faço um curto silêncio, e com a esperança que o competentíssimo agente da autoridade do outro lado entendesse pelo menos isto, despeço-me:

- Muito obrigado pela sua ajuda, mas vou antes ligar para o 999. Adeuzinho.

Ligo para o 999, atendem-me em chinês, e peço para falar com alguém que domine o português. Pedem-me para aguardar, e oiço ao fundo chamarem um tal "Beto" (?). Seja como for, fiz-me entender, portanto abençoado Beto, se é que ouvi bem o nome. O jovem entendeu tudo o que lhe disse, e isto posso afirmar com um elevado grau de certeza, mas de pouco adiantou. Perguntou-me se "os intrusos estavam no local naquele momento", respondi-lhe que "não, pelo menos quando saí de casa não estavam", e então disse-me que "então não valia a pena mandar lá ninguém, pois eles não estavam". Sem qualquer desrespeito com o "Beto", cujo trabalho deve consistir apenas em atender as chamadas, se calhar o melhor era esperar que eles ficassem ali sentados com um letreiro luminoso apontado e onde se lesse "estamos aqui, srs. polícias". Caso contrário, nada feito.

Voltei a casa, jantei, e perto das 22:00 escutei o barulho das bicicletas, que anunciavam a chegada do misterioso casal. Como ainda estava vestido, resolvi tomar conta do assunto, pegar o touro pelos cornos. Saí e fechei a porta, aproximei-me dos dois e perguntei-lhes quem era, e se moravam ali, ou se tinham familiares ou amigos ali a residir. Perguntaram-me a razão da minha curiosidade, e aí apliquei uma "mentirinha branca", dizendo que a polícia tinha estado ali momentos antes, bateu a umas portas e fez perguntas. Olharam um para o outro com um ar grave, e disseram-me que "iam sair dali nessa noite", e que só estavam à espera não-sei-do-quê, sei lá, depois de terem dito que iam dar de frosques, não ouvi mais nada. E de facto na manhã seguinte e depois disso, voltou tudo ao normal: nem jovens, nem bicicletas, nem sacos, nada.

Não considero que a minha intervenção tenha sido decisiva para expulsar estas pessoas cujas intenções eram dúbias, pois é bem possível que já estivessem fartos de tanta "atenção", e fossem procurar outro sítio onde pudessem instalar o seu sindicato do crime, entreposto de bicicletas roubadas, ou seja ou que for que faziam ali, sem que ninguém tivesse os tomates para os enxotar de lá para fora - e locais para o efeito não devem faltar por aí, com toda a certeza. Não só não me considero um herói, como posso dizer que tive sorte em sair disto vivo. Caso resolvessem atacar-me à facada, pedia-lhes que parassem antes de me disferir o golpe fatal; ligava às emergências e dizia: já podem vir, eles estão no ponto.

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