quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Corrupção, imolações, Mandela & Chávez


1) São cada vez mais os casos de escândalos envolvendo políticos e detentores de altos cargos públicos na China continental. Alguns destes chegam a ter contornos surrealistas, ou são revestidos de ridículo. São os filhos que batem com os Ferraris, ostentam altas fortunas e portam-se mal, são oficiais que abusam sexualmente de mulheres grávidas de sete meses, que têm irmãs gémeas como amantes, e ainda outros que se suicidam quando são apanhados com a boca na botija, quiçá com medo do que mais possa a vir a ser revelado. Há de tudo um pouco. Por um lado isto é grave, pois demonstra que o regime começa a perder controle sobre a corrupção que grassa no país, e que é cada vez mais difícil confiar plenamente em quem quer que seja. Por outro lado congratulo-me com esta leve brisa de ar fresco que nos permite que este tipo de informação seja divulgada. Sente-se que há uma tomada de consciência de que há algo errado, e que a publicidade e a denúncia são o primeiro passo para combater o mal. Quem não deve achar muita graça a este “passeio dos alegres” dos dirigentes do partido único da China é a sua população, uma massa colossal que vai ficando cada vez mais consciente e informada. É bom que o regime reflicta sobre a forma de lidar com o problema que tem em mãos – que não representa (ainda) um perigo à sua sólida hegemonia – mas que pode colocar em cheque a sua credibilidade. Esta situação até não espanta muito, são os vícios normais do novo-riquismo e de uma certa falta de preparação para lidar com uma nova realidade económica e social. Mas só por ser “normal” não significa que seja “inevitável”, e que não se possa mudar. É preciso outra vez reafirmar os princípios do tal socialismo de mercado, e de que os seus executantes estão ali para servir, e não para dele se servirem. Num país grande como a China, com uma história recente bastante complicada, a estabilidade é uma condição essencial, mesmo para nós aqui em Macau, que dependemos dessa estabilidade como ninguém. É só preciso limar algumas arestas, e fazer uma “limpeza” que parece ser inevitável e obrigatória.

2) Fico chocado com o que se passa recentemente no Tibete, essa província que continua a dar muita dores de cabeça a Pequim. Os independentistas (ou separatistas, se preferirem) tibetanos têm chamado a atenção do mundo para a sua causa com uma onda de imolações, como forma de protesto com a política chinesa para a região. A imolação não passa a mesma mensagem marcadamente simbólica das manifestações de rua, da retórica debitada no conforto do exílio ou das greves de fome – são pessoas que se suicidam de forma dolorosa e mediática, consumidas pelas chamas. E não são os disciplinados monges budistas que o fazem; são pessoas sem qualquer ligação aos mosteiros e templos religiosos. Como convencer o mundo de que no Tibete está tudo bem quando há gente perfeitamente funcional, e até jovens, a dar a vida pela causa? Uma bota que a China tem que descalçar.

3) Dois monstros da política mundial estão a lutar pela vida, e arriscam-se a ser em breve consumidos pelo tempo e fazer apenas parte da História. O líder histórico do ANC, Nélson Mandela, está novamente internado e com prognóstico reservado. Um homem que lutou grande parte da sua vida pela liberdade do seu povo, e que para tal sacrificou a sua própria liberdade, não deixa ninguém indiferente. É um dos últimos símbolos vivos da luta por ideais do bem e da paz, princípios com os quais somos todos capazes de nos identificar. Nem o facto de contar já com 94 anos e ser conhecido o seu débil estado de saúde impede que o mundo deseje vê-lo novamente a sorrir. Do outro lado temos Hugo Chávez, o ditador “softcore” venezuelano, que normalmente recolhe a simpatia de anti-americanistas militantes, mas cujas noções de democracia e pluralismo são antígonas às de Mandela. Chávez tem vindo há mais de dois anos a lutar contra um cancro, que se revela agora persistente, e grave, ao ponto de se especular já sobre uma eventual renúncia à presidência. Tenho uma certa nostalgia masoquista em vez este aprendiz de Castro em acção, mas acho sobretudo curiosa a forma como se tem agarrado à religião como panaceia. É só cruzinhas, santinhos e rezas a Deus. Bem, é como costumo dizer, quando mais nada resulta…As melhoras para ele na mesma.

3 comentários:

  1. "É só preciso limar algumas arestas, e fazer uma limpeza".

    Se fosse assim tão simples...
    Na minha opinião, a China é um autêntico barril de polvora que um dia explode. É a corrupção, são as gritantes desigualdades entre ricos e pobres (estes infelizmente ainda a grande maioria), é a inflação galopante, é a exploração generalizada da mão de obra barata (que roça a escravatura), são os níveis poluição assustadores, são as expropriações forçadas, são as injustiças generalizadas, é a falta de liberdade de expressão, liberdade de imprensa, internet, religião, deslocações para fora do país, etc etc etc...

    Basta ir à China e falar com o cidadão comum, ou ler os comentários dos forums online chineses para perceber como as pessoas estão insatisfeitas e até revoltadas (embora expressem-no com cautela).

    Isto é como uma panela de pressão. Nas sociedades ocidentais, a insatisfação é libertada através das eleições onde as pessoas têm a palavra e se não estão satisfeitas com o Governo, podem sempre optar por mudar elegendo outro.

    Mas no caso Chinês, não existe essa válvula de escape para as frustrações da população, pois infelizmente nunca tem voto na matéria. Portanto essa frustração vai acumulando, acumulando, acumulando... até que um dia rebenta. Não há outra hipótese, até porque os jovens desta geração estão cada vez mais informados e com níveis de educação muito superiores.

    Sinceramente não estou optimista quanto ao futuro deste regime...

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  2. Se se levar em linha de conta aquilo que a China era há 30 anos e aquilo que a Europa era... e aquilo que ambas são agora, apesar de tudo com uma progressão no nível de vida no caso chinês e uma nítida regressão no caso europeu... acho que a Europa rebenta muito antes da China.

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  3. O anónimo se comparar Portugal há 30 anos e agora, as diferenças também são abismais, não acha? Especialmente em termos de liberdades, estamos a milhas de distância.

    A China em termos económicos cresceu exponencialmente nos ultimos anos. Mas em tudo o resto, mantem-se na mesma senão muito pior.

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