quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bhumidol Adulyadej (1927-2016)



Profundamente chocado com a notícia da morte de S.M. o Rei da Tailândia, certamente um dos maiores homens do nosso tempo e uma das poucas pessoas que aprendi a amar e respeitar. Um exemplo de serviço, entrega, bondade e humildade. O mundo está mais pobre.

O Rei da Tailândia, que subiu as escadas do trono em 1946, foi um verdadeiro prodígio político. Quando assumiu funções, a monarquia havia sido confiscada por ditadores-regentes, uns fascizantes com sonhos presidencialistas, outros deslumbrados pela ideia de uma "República Popular" à imagem dos tristes satélites e peões da URSS e da China maoísta. Rama IX foi-se impondo ao respeito do povo e desmontou, um a um, os argumentos da clique politiqueira que desde 1932 transformara o país numa fruste cópia dos regimes autoritários que fizeram história no entre-guerras, ou no imediato pós-guerra.

O Rei promoveu a reforma agrária, fomentou e dignificou a agricultura, decretou o ensino obrigatório para todas as crianças - a Tailândia só tem 1% de analfabetos - e lançou uma rede de grandes planos de fomento social e contenção dos estragos causados por uma imparável industrialização. SM foi idolatrado e os tailandeses sabem que lhe devem a vitória militar sobre o comunismo - o PC da Tailândia desencadeou guerrilhas a partir de 1966 - e a promoção da sociedade civil.

Deveu-se-lhe, também, a protecção e promoção dos direitos das mulheres, a luta contra a tóxico-dependência, a solidariedade para com as vítimas do SIDA, a protecção às crianças orfãs e um interminável esforço na luta contra a corrupção e o autoritarismo, velhas doenças do Estado. Vi-o por diversas vezes. As pessoas ajoelhavam-se, choravam de emoção e chamavam pelo seu nome.

Um coro tremendo saudava-o com um Song Phra Jaroen, o que na língua real - os reis possuem, como no Japão, uma língua exclusiva - se pode traduzir em "tenha uma vida longa e cheia de saúde". Pela segunda vez comovi-me. Quem me dera ter um chefe de Estado assim ! Hoje, voltei a emocionar-me. Morreu um grande homem e um grande Rei.

Miguel Castelo-Branco


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