domingo, 16 de agosto de 2015

Receita mal aviada



Na terça-feira passada rebentou a "bomba": o Macau Hoje noticiava que uma médica de Macau de ascendência portuguesa havia sido recusada pelos Serviços de Saúde de Macau (SS) por "motivos obscuros", e que já tinha recorrido aos tribunais da RAEM, onde aparentemente o processo decorre. Inicialmente não foi dado muito mais a saber a não ser que em causa estaria um exame e uma série de equívocos que parecem ter deixado muitos egos "tocados". O que cá que fora se especulou foi que a razão da não-admissão da médica em questão teria a ver com motivos relacionados com a componente étnica da candidata, o que foi motivo mais que suficiente para se soltar a lebre da xenofobia, do ressentimento, do trauma colonial, blá, blá, blá, blá, palha, palha, palha, palha. Será que nem este calor tira a vontade a esta gente de fazer uma peixeirada destas? E calma aí com as pedras, apaguem a pira inquisitorial, pois não me refiro a V. Exas., cuja mola da indignação fez imediatamente soltar a tampa:


Estes são apenas alguns dos comentários deixados na página electrónica do HM, onde se vão buscar argumentos escabrosos, com teorias da conspiração à mistura. O de cima fala de como uns são bonzinhos porque deixam fazer, os outros "taossekagando" e não deixam nada, e o melhor é a médica "voltar a Portugal onde o seu mérito é reconhecido" - uma boa pergunta seria o que a levou a vir bater a esta porta em primeiro lugar, ainda mais sabendo o que a casa gasta. Quanto a essa do país "reconhecer méritos", só pode ser uma piada, e este Fernando Graça (lá está...) dever ser o Patch Adams português, ou algo que lhe valha. Eu até me ria, mas não estou quase a morrer, portanto peço desculpa. . O comentário de baixo fala de como isto é uma chatice, precisar urgentemente de médicos, com a carência que se sabe, e aparecer aí um "a dar a sopa" e ainda se fazerem de finórios. Ora lá pode isto ser, meus senhores? Depois toca na ferida, mas por não devia tocar: a questão da legalidade. Não sei se estou a interpretar mal, mas sr. Manuel Pinto Almeida sugere portanto que se admita a médica "porque sim", e que se meta na rua os tipos que lhe "pisaram a cauda", é isso? Mas do que é "certo e errado", falamos depois, primeiro o que "é legal".

Pois, é um bocado deprimente, eu sei. Mas no fundo o que esperar de quem opta por um logótipo que  só podia ser de cor vermelha, mas por causa das cores da bandeira da RAEM é...verde? La, la, la, um coração verde, la, la, la, sangue verde, la, la, la, deve ser vegetariano, la, la, la, mas ao mesmo tempo parece que vemos quatro pessoas juntas em círculo formando uma cruz branca, todas vestidas de verde, la, la, la. Pronto vou dispensar a piada que tinha sobre aquela associação humanitária de ajuda médica que foi vencedora do primeiro Nobel da Paz do pós-guerra, em 1945, a Cruz VERDE internacional. E a outra, que se eu fosse suíço e ecológico ia adorar o logo. Ou ainda de como o pessoal médico, quer no hospital público, quer no "negócio de família e amigos" com sede na Estrada do Repouso, devia usar bata verde - para evitar qualquer confusão, entenda-se. Sim senhor, isto tudo para dizer que sim senhor, os SSM são um bocadinho a atirar para o desleixado e incompetente (para ser simpático), mas quem o roto que diz a este nu "porque não te vestes tu". Não deve existir um único serviço público imaculado na RAEM, e estes só dão mais nas vistas porque quando erram as pessoas morrem. Sim, a sério, morrem, falecem, batem a bota, dão o traque final, etc. E quando se morre há sempre muita gente que fica pior que estragada, e tudo porque é impossível remediar o mal ou atenuar a angústia causada por uma eventual fatalidade que podia ser evitada, os SSM são isso tudo e muito mais, estamos carecas de saber. A propósito, pareceu-me que esta notícia teve muito maior eco do que outras falhas dos responsáveis da saúde, como quando morre um bebé, por exemplo. Não me levem a mal, eu só acho é que um bebé morto é muito mais trágico do que patetices que vão atirar para os "ressentimentos coloniais" e quejandos, coisas que não ajudam nada, antes pelo contrário, e no fim é tudo da boca para fora  - em suma: hipocrisia. As pessoas que se degladiam nestas questínculas da treta teriam mais a ganhar praticando entre eles a cúpula. Isso mesmo, leram bem: em vez de atirar com um "estes não gostam dos outros", e "ninguém gosta de nós", despiam-se e tinha relações sexuais uns com os outros, e iam ver como era muito mais divertido (as modalidades ficam ao critério do gosto de cada um). Posto isto...


Aí está: quase uma semana depois de terem escrito o "Mein Kempf" em versão adaptada aos médicos portugueses e macaenses, eis que os SSM respondem ao caso da semana anterior, e afinal parece que já não é necessário pegar no lança-chamas e praticar genocídio "em legítima defesa", pois não? Estes tipos só podem ser mesmo sádicos e sacanas, e do piorio. Então deixa-se o tribunal popular dar a sentença, que foi xenofobia, e tal, e só depois é que se diz alguma coisa? Pior: esclarece-se a coisa!  Ainda por cima o próprio Alexis Tam secretário da tutela, ficou tão preocupado com o caso que garantiu ir pessoalmente ver o que se passa! Agora pode tudo não ter passado de mais uma das suas fúrias do açúcar, afinal. Pois, afinal parece assim como a tal médica teve "a ideia pioneira de vir trabalhar em Macau" (ahem, o desfasamento...), também os SSM seriam para muitos pioneiros na função de deixar trabalhar lá quem quiser com o pretexto de que está qualificada para o fazer. Não, não me interpretem mal, mas ou foi do "barulho das luzes", ou na notícia da semana passada a médica começa com qualquer coisa deste género:


E como podemos ver, a valorosa rapariga foi estudar medicina com os interesses da RAEM em perspectiva, sim senhor, ganha uma medalha. Resta saber é se os SSM tiveram conhecimento desse facto, e em caso afirmativo porque não lhe reservaram logo a vaga, assim que terminasse a sua formação. E por isso achou estranho, que dissessem que precisavam e iam contratar, e ela a oferecer os seus serviços, qual fruto caído da macieira direitinho em cima da cachola de Newton, e os tipos, prrrr...cortam-se. Era só garganta afinal - tribunal com eles todos, porra! Eu não entendo letra de médico, confesso, mas há por aí algum que tenha passado esta receita, por acaso? Uma médica com 13 anos de formação fala disto que se tivesse acabado de recolher da montra de uma boutique o cartaz onde se lê "balconista precisa-se", e fica logo contratada? Eu quando li a notícia fiquei um bocado ofuscado com tanto desplante, de como quem detém o monopólio da aspirina durante uma epidemia de dor-de-cabeça. Afinal parece que a questão é "inter-pares", pois os SSM vêem agora dizer que afinal não estavam a contratar ninguém, e parece que afinal as coisas não eram tão claras assim, e há requisitos, papelada para preencher, reuniões e o camano, e é assim que funciona: bem vindos ao mundo da administração pública - isto para quem pensa que ainda não chegámos à Madeira e um dia é possível exigir um emprego bastando para tal provar que se está habilitado a fazê-lo. Olha se os advogados em Portugal se lembram desta? 

O meu problema com isto, se ainda não o detectaram é muito simples e basta reler a notícia do dia 11 agora, sabendo o que se sabe, e nota-se um forte choque de egos, com uns a exigirem o tratamento que lhes é dado em casa (mais ou menos isso, se pensarem um bocadinho encaixam esta no enredo de uma forma ou outra). A certo ponto a médica fala de que olhavam para ela com "cara de gozo", durante a tal prova em que foi reprovada, o que ficámos também a saber ser "impossível", uma vez que a candidata "tinha uma média de 19,6 valores em Coimbra", o que é como ter um...qual é mesmo a mão mais alta num jogo de "poker"? O resto, se uns admitem assim aqui e outros admitem assado acoli, isso é lá entre os médicos, não nos diz respeito, comuns mortais que somos. Finalmente o grande mistério prende-se com o facto da médica ter pedido o anonimato. A sério, para quê, se os SSM saberão sempre de quem se trata? É para se proteger de nós, durante de um acesso de ódio a médicos? Será isto ódio..."profissional", paralelo ao "racial"? Portanto ela está no seu direito quando quer salvaguardar a identidade, e eu não estarei no meu quando prefiro não acreditar fielmente numa história contada por quem eu não conheço de parte alguma? Já estou é imaginar muita coisa, e deve ser força do hábito. Vejam lá que até imaginam "apartheids" à pala de uma questão que tem ar de ser nada mais do que pessoal. Agora os tribunais que os aturem. Mais papéis, menos receitas médicas.

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