quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ai malvado, que me morreste


Em tempos de crise como a que temos agora na Europa e em Portugal nos países do sul é normal que alguns cidadãos mais vivaços recorram a certos expedientes para que a travessia da tormenta seja menos penosa, ou em alguns casos a necessidade fala mais alto, e por vezes o instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao orgulho próprio, e em casos extremos à dignidade da pessoa humana. Enquanto se discute estes dias se os gregos são uns coitados, vítimas dos mercados predadores que se alimentam de mão-de-obra semi-escrava, ou se na verdade são uns mandriões que agora se deitam na cama que fizeram, há quem continue atento às manobras dos espertalhões que não perdem uma oportunidade para lucrar das brechas do sistema: as agências de seguros.

Se a Grécia merece outra oportunidade ou se deverá ficar à mercê dos delírios (ou não...) populistas do seu novo Governo, tanto faz, para as seguradoras o mais importante é que o povo não vá morrer de propósito só para lhes estragar o dia - é preciso não esquecer que na hora de burlar, foram elas tiveram a ideia e vocês cairam que nem patinhos, e portanto assim não vale. Ele há seguros e seguros, seguradoras e seguradoras, agentes e agentes. Não podemos afirmar que existe neste negócio gente sinceramente preocupada com o nosso bem estar, que nos queiram deixar tranquilos, mas existem apólices que são obrigatórias, portanto não é por falta de trabalho que se justifica a agressividade de agentes de seguros.

Qualquer seguradora que se preza oferece no mínimo seguros por acidente que possam resultar na morte ou incapacidade parcial ou total e permanente do seu cliente, e nos casos mais flagrantes, como são acidentes aéreos, ataques terroristas ou algo que tenha impacto mediático, não colocam obstáculos na hora de acionar o prémio. Outras agências menos escrupulosas vendem feijões mágicos, incluíndo planos que prevêm desde unhas encravadas até queda de cabelo - o importante é que o palerma compre - e na hora de pagar são capazes de alegar que fulano morreu, ficou tetraplégico, cego ou marreco de forma premeditada, ou fraudulenta.

É o que diz agora o director dos Serviços de Sinistros da Mapfre Portugal, José Armínio, acrescentando que "as técnicas de fraude andam sempre um passo à frente", pelo que se tornam cada vez mais difíceis de detectar. Não que isso faça qualquer diferença para as seguradoras, para quem tanto faz se estão na presença de uma tragédia ou de um esquema fraudulento, pois é norma fazerem o possível para não accionarem a apólice. É uma mudança radical de discurso do momento em que dizem maravilhas do plano que tentam impingir aos potenciais segurados, passando de um tranquilizante "não precisa de se preocupar com nada" para um desconfiado "o que é você pensa que leva daqui?".

Este senhor José Armínio, gato que já deve saber o que é ficar "escaldado", fala-nos de situações em que os benificiários recorrem a baixas fraudulentas para evitar despedimentos, e que nos casos mais extremos há quem corte os dedos da mão para receber o prémio do seguro. O olho clínico para detectar a fraude deve ter feito deste profissional uma pessoa muito desconfiada e amarga, alguém que deve ser visto como um ogre - como é que se chega perto de uma família onde um dos seus membros sofreu um acidente que o deixou debilitado ou diminuído e se insinua que ele pode estar a mentir? E quem é que se lembra de cortar um dedo ou parte dele a para pagar uma conta ou atender a uma emergência de última hora? Sei lá, já nem digo nada, tal é a maneira como este mundo louco não cessa de me surpreender - e já diz o velho ditado: "é preciso um patife para apanhar outro patife".

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