sexta-feira, 20 de junho de 2014

A casa ganha sempre, mas faz batota



Quando cheguei a Macau trabalhava com uma colega que era para nascer czarina, mas errou na época e no local onde veio ao mundo. Era portuguesa, uma daquelas que tinha chegado em finais dos anos 80 com a intenção de fazer um "pé-de-meia" decente em dez anos, e depois voltar a Portugal e, enfim, viver um pouco menos mal que os que lá andam a trabalhar para o boneco, e passar a vida a esticar o ordenado até ao fim do mês. O seu projecto de vida era ambicioso e rigorosamente planificado, e passava por não perder um centavo entre os muitos que haviam a ganhar nessa recta final da Administração Portuguesa no território. Casada e mãe de filhos pequenos, levava todas as manhãs os pequenos à creche, e contava com a ajuda dos colegas para lhe picarem o cartão antes das nove horas, não fossem os atrasos ser descontados das horas extraordinárias, o que lhe podia custar algumas centenas de patacas, ou mesmo um milhar ou mais, no final do mês - sei que isto de picar o cartão alheio hoje pode parecer um crime de lesa-pátria, mas há vinte anos era assim, e era "normal". Não escondia a sua atração pelo vil metal, bufava quanto ouvia falar de quantias superiores a 50 mil patacas, e tinha uma lema interessante, que repetia vezes sem conta enquanto ria a bandeiras despregadas: "pagar e morrer, quanto mais tarde melhor". É preocupante quando alguém tem um filosofia de vida que implica pedir dinheiro emprestado aos outros e achar que não tem a obrigação de pagar, ou que ache que as obrigações fiscais são uma dor de cabeça para os parvos. No fundo esta senhora não era má pessoa. Não queria o dinheiro para comprar jóias, visons ou para ostentar. Era apenas uma daquelas pessoas que aprendeu que o dinheiro nunca era demais, e tinha dificuldade em interiorizar esse pensamento - ou seja, fingia mal.

Não sei porque me fui lembrar desta minha colega, e já lá vão uns bons aninhos que não sei nada dela, mas a sua máxima do "pagar e morrer, quanto mais tarde melhor" veio-me à memória quando soube da notícia de que o deputado José Pereira Coutinho e o seu colega Leong Veng Chai foram entregar uma petição exigindo mais fiscalização no pagamento dos prémios das "slot-machines" nos casinos. Só no último ano e meio foram reportadas 133 queixas de apostadores que venceram prémios nas "slots" que não lhes foram pagos, simplesmente porque o casino onde lhes saíu o "jackpot" alegou que a máquina "estava avariada". Isto é completamente ridículo, pois quando se passam horas a enfiar moedas na ranhura (ou actualmente através de cartão pré-pago, tanto faz) e encher a barriga do "bandido maneta", tudo bem, mas quando se ganha, ai não pode ser, é impossível, que a máquina deve estar avariada. Ganhou? Como é possível, se estamos aqui para roubar e não para dinheiro a ninguém? Oops, que já falei demais. Ganhar pode ganhar, claro, claro, vinde e esvaziai os bolsos no nosso "centro de entretenimento", mas caso ganhe, "a casa tem a última palavra em caso de conflito". O problema aqui é que estes apostadores ganham, a casa diz que não, que foi "uma avaria", e está dita a última palavra. Se fosse o contrário, e aparecesse lá um tipo a dizer que perdeu 100 mil paus durante uma tarde inteira "porque a máquima estava avariada", era pegado pelos dois braços e pelas duas pernas e atirado para o meio do passeio à saída do casino. Ainda ficava interditado de entrar e era apelidada de "vigarista" - olha a lata do gajo, já viram?

A iniciativa do deputado Pereira Coutinho pode parecer um pouco, digamos, inócua, mas estamos em Macau, o jogo é que faz mover a economia, e não fica bem passar a mensagem de que jogar é sinónimo de perder. Afinal chama-se a isto "jogos de fortuna e azar", ou "jogos de azar e azar, e se não gostas come menos"? Eu sempre achei esta coisa dos casinos muito pérfida, muito mesquinha, mas a ideia, o "selling point" da coisa é fazer acreditar ao desgraçado que vai ser depenado que existe uma possibilidade de ganhar "na ordem dos 50%", quando na verdade nem 1% de hipóteses tem. Cheguei a conhecer tipos que se gabavam de levar mil patacas ao casino e voltar de lá com vinte ou trinta mil, mas era nos dias que ganhavam que ocorria a bazófia - ninguém vinha dizer no dia seguinte que perdeu, e que precisa de 500 mil patacas urgentemente ou caso contrário lhe partem as pernas. Essa conversa de dizer que quando se ganha a máquina "estava avariada" é andar a brincar com a tropa. Nem toda a gente que frequenta os casinos precisa de injectar roletas e bacarás para a veia. Por exemplo, se nunda fiz uma aposta na minha vida, e tenho curiosidade em exprimentar, e me garantem que vou perder de certeza, e na eventualidade de ganhar dizem-me que perdi na mesma, bardamerda, mas vale deitar o dinheiro pela pia abaixo, que assim ninguém se fica a rir.

Conheço pessoas que têm o vício do jogo, e permitam-me acrescentar "infelizmente" antes de "conheço". Isto são indivíduos que estão completamente dissociados da realidade, e mesmo quelhesd tentemos chamar à razão, não se dão por vencidos. Chegam a gastar o que têm e o que não têm, endividam-se até aos ossos, arruinam-se a si mesmos e às suas famílias, e mesmo que lhes apontemos para esse facto, dizem que estão conscientes que "têm um problema", mas ao mesmo tempo esboçam um sorriso malandreco, como quem diz que os parvos somos nós e quando eles ganharaem o mundo um dia, vão-nos esfregar na cara esse facto. E não se pense que eles só perdem, nada disso. Mesmo quando estão a ganhar muito acima do que para nós seria razoável, continuam a apostar e acabam por perder tudo. Mas no fundo esta é a "ratoeira" do jogo, é preciso acreditar que existe a possibilidade de ganhar, mesmo que exista uma possibilidade muito remota, ou que seja simplesmente mentira. Dizer que se perdeu quando se ganhou é que parece ser mais do que simples roubalheira - é uma infantibilidade. O deputado Pereira Coutinho faz bem em apelar àquilo que é mais que justo: é também sensato.

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