sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Pouco sexual, nada consensual


O Governo da RAEM, por intermédio da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) desempenha o seu papel de bom pai que ama os seus filhos (os residentes) e aposta na Educação Sexual, mas para isso convoca associações que trabalham de perto com crianças, adolescentes e jovens adultos para fazer esse trabalho “sujo”. Educar os jovens sobre a sexualidade tem uma importância fundamental quando chega a hora de optar por ter uma sociedade de gente civilizada ou um bando de trogloditas, mas não é fácil derrubar as barreiras que ainda existem. É um bolo que ainda leva uma farta cobertura de preconceito, mas é entendido como um mal necessário, uma “noblesse oblige”, uma daquelas coisas em que se é preso por ter cão e por não ter: se é feito um investimento sério na Educação Sexual dos jovens, “estamos a deixá-los na mão de tarados que os ensinam a ser prevertidos”, se não se investe os jovens fazem merda por culpa da ignorância, aponta-se o dedo por “não existir Educação Sexual”.

Portanto para garantir o balanço entre o sal e a água do mar de modo a evitar o degelo das calotas e prevenir os “tsunamis”, é preciso pensar muito bem como abordar o tema da sexualidade, e como no Governo eles percebem mais é de dinheiro, convém ir buscar psicólogos, agentes sociais e essa gente que não faz nada de útil e gosta muito de falar sem dizer nada. Metade destas associações - cinco de um total de dez – que vão fazer este “brainstorming” em busca da melhor forma de explicar aos jovens “aquilo” são de cariz religioso. Claro, não podia faltar o factor do pecado original. Para falar de sexo é preciso meter Deus, o casamento, o amor e os bebés ao barulho. Não vão deixar o assunto entregue a quem percebe alguma coisa de sexo e tem prática nesse ramo (isto assumindo que alguns elementos destas associações ligadas à Igreja não têm), e começam todos a falar de pénis e de vaginas e de orgasmos sem ter lá alguém que os recorde que o sexo tem como finalidade a procriação e a continuidade da espécie humana. Vejam este exemplo de uma abordagem interessante e que assenta como uma luva na realidade local: sem sexo não há “croupiers” locais, e vai ser necessário importar não-residentes. Tão simples como respirar.

Quando éramos novos, e falo da minha geração em particular, das pessoas nascidas nas décadas de 60 e 70 do século passado, aprendiamos a reprodução nas aulas de ciências. Entretanto na escola da vida, ou através da descoberta do próprio corpo, ficamos a saber que as pessoas fazem sexo por prazer. Mas como é isto possível – interroga-se um jovem pré-púbere que apenas tem noções do processo que leva a que nasçam mais bebés. A mecânica que implica a reprodução dificilmente terá alguma coisa a ver com prazer. Que prazer se pode retirar daquela violência, de um membro erecto e cilíndrico que penetra numa cavidade estreita e sensível, composta de chicha e tecido nervoso? É como enfiar um “bratwurst” por uma narina acima. Deve doer. A pior parte: como se explica a um jovem que começa a ficar dotado desta capacidade que a maior parte das pessoas faz sexo sem a finalidade de ter bebés? E que muitas tomam precauções para evitar que isto aconteça? E que é possível fazer sexo sem amor? E a maior das espinhas desta caldeirada, que há pessoas que têm sexo com outras do mesmo género?

A abordagem no sentido do sexo por prazer é essencial; ensinar a um jovem que já experimentou um orgasmo que isto é para fazer bebés e só se pode ter depois do casamento é tomá-lo por parvo. Por muito que custe aos púdicos e aos moralistas, fomos dotados com o dom do prazer sexual, e portanto o melhor é partir desse ponto e deixar de lado essa conversa dos bebés e da espécie humana. Se a contracepção e o planeamento existem, isso é prova mais que evidente que as pessoas não procuram o sexo com o fim de dar continuidade à espécie humana, que em número anda bem e recomenda-se, mas porque buscam o prazer como expressão máxima e última do amor – e não só. É preciso deixar claro, até aos jovens que ainda não se iniciaram na vida sexual, que não é preciso existir amor para haver sexo, e que nem sempre ambos obtêm do sexo gratificação. Há sexo por dinheiro, por interesse, sem o consentimento de uma das partes, casos onde um dos parceiros aceita ter relações com o outro para o fazer feliz, problemas como a disfunção eréctil ou a frigidez, enfim, mil e uma coisas que dariam para tratar num curso universitário completo e não num mero apêndice à escolaridade normal, apenas para constar na lista de países evoluídos onde existe Educação Sexual.

A questão da homossexualidade é um dos temas mais difíceis de abordar, de uma natureza especialmente sensível, e não vai ser com a Associação dos Jovens Cristãos de Macau ou com as Irmãs de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor que o vamos ter incluído no currículo de uma eventual disciplina de Educação Sexual. Não sei se a Igreja Metodista tem uma aproximação diferente a este tema, mas permitam-me duvidar. No entanto posso garantir que é muito melhor para um jovem ter este conceito apresentado em teoria antes de o encarar no mundo real sem qualquer preparação ou noção da sua prática. Pode ser até perigoso. Por muito que custe a muita gente, é impossível ocultar a existência da homossexualidade, varrer os homossexuais para debaixo do tapete, e não é com a sexualidade a ser restringida ao âmbito da família, do papá, da mamã, do esperma e do óvulo e depois do bebé que se leva o seu ensino a sério. É tapar o sol com uma peneira.

Tenho a certeza que existem em Macau casais inteligentes que encaram a sexualidade como uma coisa normal, e que desejam que os seus filhos possam aprender e disfrutar de um prazer natural sem limitações de ordem moral ou social, até mais do que eles próprios, que não tiveram essa oportunidade. Só que infelizmente por cada um destes existem uns dez que ainda consideram o sexo uma coisa suja, uma moeda de troca, que a virgindade é uma pedra preciosa e uma mulher que tenha relações com um homem sem depois casar com ele é uma “perdida”. Paira uma núvem negra retrógrada e machista de que os homens procuram o sexo e as mulheres são as vítimas, e que tudo não passa de um jogo onde os primeiros tentar enganar as segundas. Um homem que tenha várias parceiras é um devasso, um tarado, e uma mulher que tenha mais de dois ou três homens é uma vadia, e se ousa assumir que sente desejo ou retira prazer do sexo, é uma ninfomaníaca. Um homem que durma com uma mulher no primeiro dia que se conhecem, aquilo que nós chamamos de "sexo casual", precisa pagar.
- Porquê?
- Porque é melhor assim.
- Mas ela pediu dinheiro? Combinaram algum preço?
- Não, mas é mais seguro pagar.
- Mas ela pode tê-lo feito porque sentia desejo, e tirou igualmente prazer...
- Impossível.
- E se ela te procurar outra vez?
- Já paguei...portanto não vai chatear mais.

Alguns pais ainda pensam que Educação Sexual significa “ensinar os jovens a ter relações sexuais, e incentivá-los para essa prática”, e que esta função é “um dever da família”, só que depois “esquecem-se” de os educar, e assim continua este ciclo de ignorância e cegueira, por vezes com consequências desastrosas. O mês passado um chefe de família chegou a casa e surpreendeu a filha de 16 anos e o namorado de 17 a vestirem-se à pressa, aparentemente depois de terem tido relações sexuais. O homem chamou a polícia, apesar da insistência do casal que o sexo foi consentido, e o rapaz foi acusado de "abuso sexual de menores" - apesar de ser ele próprio um menor. O que queria este pai da sua filha jovem-adulta e sexualmente active? Que lhe pedisse autorização expressa para fazer o uso que quiser da sua própria vagina? Queria que o rapaz pagasse portagem, ou que lhe desse um dote? Se calhar estava mesmo convencido que aquele malandro agrediu a menina, ameaçando-a depois caso negasse o consentimento Não foi aquilo que ensinou à sua pequena, sangue do seu sangue, indefesa nas mãos daquele vampiro. Na verdade nunca lhe ensinou coisa nenhuma.

O Governo entende a necessidade da Educação Sexual, mas não querendo ferir sensibilidades, passa a batata quente para essas instituições que vão garantir que se continua aos solavancos por essa estrada com um calhambeque de rodas quadradas. Vai-se manter a retórica do sexo como aquela coisa mui privada e intimíssima que os meninos e as meninas vão conhecer depois de casarem com alguém que amam muito, muito, muito, e que depois de muito diálogo, entre-ajuda e compreensão, passam ao acto de fazer bebés, de preferência às escuras, na posição de missionário, sem gemer muito ou deitar saliva em cima do parceiro. Depois não se esqueçam de rezar muito pois acabaram de pecar, e lavem-se bem, porque isto é uma coisa muito suja. Quanto custa, a continuidade da espécie...

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