domingo, 24 de novembro de 2013

A fibra que nos faz falta


Não se pense que o "post" anterior, dedicado a Mário Soares, rei dos chuchas, se deve a alguma simpatia da minha parte pelo actual presidente Cavaco Silva. Nada disso. Na verdade temos andado muito mal servidos em matéria de chefes de Estado, e entre Soares e o sr. Silva tivemos dez anos de vazio presidencial, e...ah não esperam lá, parece que estou enganado. Tivemos alguém ou qualquer coisa, aquele indivíduo com cabeça de lâmpada, aquela amostra de judeu, um tal Sem Paio ou lá o que é. Bom, os que ainda se lembram sabem tão bem como eu que esse não conta. Mas nem sempre foi assim. Antes de Soares tivemos um Presidente da República digno desse nome, um homem com H, alguém com a coragem, com a verticalidade e com a fibra que nos faz tanta falta agora neste momento de crise: o General António Ramalho Eanes.

Militar de carreira e grande patriota, combatente na Guerra do Ultramar, Eanes foi o homem certo no lugar certo e à hora certa durante o conturbado periodo que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Liderou o golpe de 25 de Novembro de 75, evitou que o país caísse numa Guerra civil, e colocou um ponto final no PREC, tirando Portugal do marasmo ideológico em que se encontrava mergulhado. Eleito presidente em 1976, é autor da célebre frase "Serei o presidente de todos os Portugueses" - máxima recorrentemente usada pelos que se seguiram a ele, muito menos dignos do cargo. Depois de cumprir um segundo mandato, liderou o Partido Renovador Democrático (PRD), mas depois do fracasso das legislativas de 1987, retirou-se da vida política. Em 2000 recusou a promoção à patente de marechal, por já se encontrar na reserva. Na altura alegou razões ético-políticas. Ética, consenso e humildade são os traços gerais que sempre caracterizaram este grande homem.

Enquanto Mário Soares aufere uma choruda reforma de 500 mil euros anuais, Eanes ganha 65 mil, sendo de todos os ex-presidentes o que menos custa ao erário público. Este é o homem que recentemente afirmou que "não se importa que lhe cortem as reformas se isso significar que não há pessoas a passar fome". O general descontou como militar ao longo de 36 anos mas nunca recebeu esta reforma, uma vez que a Lei n.o 26/84 dizia que as subvenções não eram cumuláveis com pensões de reforma do Estado. Houve um momento em que a Assembleia da República tentou alterar esta situação, juntando-lhe o aumento dos deputados, mas Ramalho Eanes não promulgou a lei, considerando que não poderia actuar em benefício próprio.Ramalho Eanes passou a acumular a subvenção com a reforma de militar. A lei foi alterada em 2008, e considerou que esta situação era excepcional entre os ex-chefes de Estado, e foi-lhe proposto que recebesse retroactivos no valor de 1,3 milhões de euros, que recusou na íntegra.

Ramalho Eanes vai amanhã ser homenageado na FIL, um evento organizado por um grupo da sociedade civil, no aniversário da data em que o ex-presidente salvou o nosso país de Yuma Guerra civil e uma possível anexação por parte de potências estrangeiras. Apesar da sua mulher Manuele a o seu filho Manuel terem confirmado que vão participar na condição de oradores, Eanes recusou inicialmente o convite, porque entende que tudo o que fez foi cumprir o seu "dever de cidadão e militar". De seguida repensou e decidiu aparecer na parte final da cerimónia, porque "não quer ser deselegante com as pessoas que estão envolvidas na preparação deste evento". Este é António Ramalho Eanes: humilde, sóbrio, racional, sempre em busca de um consenso. Se se voltasse a candidatar à presidência, teria com toda a certeza o meu voto.


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