quinta-feira, 17 de outubro de 2013

No meu tempo...


Quando era ainda um puto imberbe, descobri que tinha alergia aos chavões com que se começam certas frases, discursos ou sermões. Esta alergia não se manifesta através de erupções cutâneas, inchaços, vómitos ou diarreia, mas por um revirar dos olhos e uma vontade imensa de virar as costas e ir embora. Por exemplo: quando me davam uma repreensão que começava com “já te disse mil vezes...” apetecia-me interromper e dizer “se já me disse mil vezes e foi em português, então já sei; não sofro de Alzheimer, e se persisto em não cumprir o que me disse mil vezes, é porque discordo ou não me interessa”. É uma resposta com estilo, sem dúvida, mas as consequências podem ser desastrosas. A pior de todas é contudo “No meu tempo...”. Se alguém começa uma frase com estas três palavras juntas, vem aí uma estória da carochinha, um registo caduco que não interessa a ninguém. Se um surdo que subitamente voltasse a ficar dotado do sentido da audição e as primeira coisa que ouvia fosse “No meu tempo...”, perfurava os tímpanos com o primeiro objecto aguçado que encontrasse.

Quem começa uma frase com “no meu tempo” é um derrotista, um acabado, ultrapassado, pronto para ir para a cova. Desconfio que aqueles grunhidos que os porcos dão quando se encaminham para a matança traduzem-se directamente do suinês para “no meu tempo”. Dizer “no meu tempo” é dar uma aula de História que ninguém pediu. Quando comecei a trabalhar, já se usavam terminais de computador, pelo menos os mais básicos, com memória e impressoras. Um colega mais velho, uma daquelas jarras que sobrou dos anos 70, disse-me “no meu tempo, faziamos tudo à mão”. Respondi-lhe “ai sim, bem...”, mas o que me deu vontade de dizer foi “bem vindo ao século XX, avôzinho”, ou “a sério? e gravavam nas paredes da caverna?” ou ainda “e depois? quer uma medalha de cavaleiro da ordem do lápis e do mata-borrão?”. Quem se orgulha do atraso muitos anos depois do Homem ter pisado a Lua, só pode ser parvinho.

São as pessoas com uma certa idade que usam e abusam deste “no meu tempo”, como quem diz “isto hoje é tudo uma merda, antes é que era bom”. Dá vontade de acrescentar “...antes do reumatismo, da ciática, da disfunção eréctil...”. Não há nada pior do que expressar saudosismo através deste “no meu tempo”. É um insulto aos outros, os deste tempo, os de agora. Na minha infância, escutava muitas vezes os velhotes resmungar “no meu tempo...” e depois é só inserir algo do tipo “...respeitávamos os mais velhos”, “...é que se comia bem”, ou o pior de todos “...não era assim”. Claro que tudo isto tem uma explicação lógica. Respeitavam os mais velhos, pois caso contrário levavam uma surra de caixão à cova. Comia-se bem porque agora não pode abusar do sal e do açúcar por causa dos diabetes, nem dos sólidos por causa da dentadura, portanto o problema é seu, e não da comida. Pois não era assim, não senhor. Era pior! Glorificar um passado onde ninguém no seu perfeito juízo aceitaria viver é normalmente um sinal de demência.

Os portugueses que têm hoje 70 ou mais anos, que nasceram, cresceram, foram à escola, começaram a trabalhar, casaram e foram pela primeira vez pais durante o Estado Novo, no auge da ditadura, começam com “no meu tempo...”, ao que se segue um paradoxo atroz, uma coisa horrível que nos faz dar graças por termos nascido “fora de tempo”. Fora daquele tempo, pelo menos. Dizem com orgulho que “começaram a trabalhar aos doze anos”, pensando que assim fica provado que as novas gerações “são acomodadas e preguiçosas”, e que foram arranjar emprego “depois de tirar o diploma da 4ª classe”, e que “no meu tempo com a 4ª classe sabia-se tudo”. Não, mentira, falso, calem-se já ou puxo-vos a bengala. Quem tem apenas a 4ª classe é praticamente analfabeto, sabe ler (mal), com alguma sorte escreve sem dar dois erros em cada três palavras, conta com os dedos e só efectua cálculos cujo produto não exceda os dois dígitos. A minha avó usava um lápis e um papel para somar 16+10 e ainda fazia a prova dos nove ao lado. Trabalhar aos 12 anos hoje chama-se “trabalho infantil”, e custa-me a acreditar que ainda há 30 ou 40 anos isto fosse considerado “normal”. As novas gerações não são “preguiçosas”. Estão protegidas por lei. E ainda bem.

É curioso observar o choque que a modernidade causou nestas pessoas. Se vêem na televisão uma cena de nudez ou erotismo, ou um humorista a dizer um palavrão, resmungam “no meu tempo havia respeito pelas pessoas”. Não, meus amigos, nada disso. Esqueceram-te de tomar o remédio outra vez não foi? O que havia era censura, as pessoas eram oprimidas, uma mulher que fumasse era puta, era horrível. Engraçada a reacção ao impacto tecnológico. Quando apareceu a internet diziam “no meu tempo havia lá estas coisas, ‘intremete’ ou que é”, usando o desprezo como capa para a vergonha de não fazer ideia de como se usava um computador. A última grande invenção tinha sido a televisão, que para eles ainda era “recente”, e que no início estava só ao alcance dos ricos. O meu pai, por exemplo, assistiu com o meu avô aos jogos do mundial de 1966 no café do cinema lá da terra, juntamente com outras dezenas de pessoas. Quando chegaram os telemóveis ficaram deslumbrados, como crianças cpm um brinquedo novo. Pois é, “no tempo deles” não havia nada disso. Alguns não tinham sequer telefone. Vá lá admitam. O vosso tempo era uma treta.

Apesar da alergia, convivo bem com a bactéria “nomeutemposa”. Por vezes, em jeito de ironia, começo uma frase com “no meu tempo”, fazendo uma voz de velho. Quando era jovem isto provocava uma risada, dependendo do contexto, mas hoje, curiosamente, é recebido com naturalidade. Se digo “no meu tempo” em frente a alguém mais novo que eu, ele presta atenção, como quem está realmente interessado no que vou dizer. É aí que apago o sorriso parvinho do rosto, faço cara séria e digo “no meu tempo nada...estava só a gozar”. Vou envelhecendo graciosamente, gosto de coisas que os mais novos podem considerar “caretas”, e se me encontro com os amigos de infância e recordamos os velhos tempos, isso não diz respeito a mais ninguém, não interessa a quem não tenha lá estado, visto e vivido. E porque havia de interessar? É apenas uma “cosanostra”. Não tenho ainda quarenta anos e já tenho um “meu tempo” para contar à malta mais nova. Este é um mal que só a suave carícia da morte alivia.

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