terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sprechen Sie Portugiesisch?


Um destes dias, enquanto realizava os meus compromissos profissionais, chegou-me às mãos um pedido que me levantou dúvidas de vária ordem, e que urgia esclarecer em promenor. Sendo que 99% dos requerentes são de etnia chinesa e dominam apenas o idioma local, preparava-me para pedir a ajuda de um colega, que pudesse através de um telefonema a dissipar as minhas dúvidas sem lugar para mal-entendidos resultantes do meu deficiente domínio do cantonense – e antes de mais nada faço questão de assumir um “mea culpa” neste sentido. Foi então que me apercebi que o requerente em causa era uma senhora com um nome próprio e apelido portugueses, e levando em conta de ter entrado já no mercado de trabalho, estaria pelo menos na casa dos 20 anos, ou até mais, e falaria português, pelo menos o mínimo necessário para o efeito pretendido. Como me enganei, Deus meu. Começo a perder toda a esperança.

A facilidade com que preencheu em chinês o campo reservado ao domicílio profissional não me demoveu da certeza de que falaria pelo menos um pouco de português, tal era a confiança que depositava no facto de que tanto nome próprio como apelido eram claramente portugueses. Marquei o número de contacto, e depois de ter sido mandado de Herodes para Pilatos, como é hábito em muitas repartições, tanto públicas como privadas, cheguei finalmente à fala com a pessoa em questão. Pela voz deu-me a entender que se tratava de alguém bastante jovem, e de imediato me apercebi que não falava português de todo. Sem fazer sequer uma pequena pausa para digerir o desapontamento, mudei para a língua inglesa, um mal menor. Depois de duas frases introdutórias, escutei uma risadinha inocente, e a jovem perguntou-me em cantonense se eu “sabia falar cantonense”. Passei o telefone ao colega do lado, um bilingue, e em poucos segundos expliquei-lhe a razão do telefonema.
Enquanto aguardava que o meu colega me fizesse mais um favor, procurava entender o motivo pelo qual alguém que se identifica por um nome completamente ocidental não se consegue expressar pelo menos na língua franca dos povos do planeta: o inglês.

Desconhecendo por completo a menina e a respectiva família, imaginava que ao seu nome e apelido correspondiam pelo menos alguns traços ocidentais, e assume que não terá sido feito qualquer investimento da parte dos seus ascendentes em que juntasse à sua herança genética umas luzes sobre o idioma que a acompanha. No extremo, tratar-se-ia de uma jovem 100% chinesa que contraíu núpcias com um homem macaense, e juntou ao seu “nome de guerra” o apelido do marido. Isto para lhe dar o benefício da dúvida. Nada disto se deve à minha frustração de não dominar o idioma falado pela maioria dos locais, mesmo vinte anos depois de ter aqui chegado. A minha surpresa é tão justificada como a de um chinês que se deparasse com outro chinês com um nome completamente chinês, e não soubesse falar o mínimo de chinês. Simplesmente isto.

Com o risco de parecer arrogante e caprichoso, não consigo aceitar que um portador de um nome claramente ocidental não se consiga expressar pelo menos num idioma que o ajude a estabelecer contacto com outro ocidental. Mesmo que seja o filho de um chinês e uma sueca, se não falar sueco devia pelo menos ter noções de inglês que lhe permitissem o contacto com uma das metades das suas raízes. A obsessão com o domínio do chinês por parte de quem faz planos de se estabelecer em Macau e espera que as gerações seguintes sigam os seus passos é sintomático de um certo egocentrismo. Quem garante a estes pais que as futuras gerações se vão contentar em ficar por Macau? Mesmo que isto caiba apenas a essas gerações decidir, deve-se manter uma margem de erro, que permita aos seus filhos comunicar noutra língua que não a “competitiva” língua chinesa. E já agora, desde quando a maior ou menor eloquência num idioma é garantia de futuro para alguém? Antes fosse assim tão simples.

É inadmissível que em pleno século XXI em Macau, cidade que se quer internacional, existam tantos jovens que não conseguem estabelecer um diálogo noutro idioma que não o local. É vergonhoso que apesar do inglês se lecionar em todas as escolas do território pelo menos como segunda língua, hajam jovens que não conseguem construír sequer uma frase simples. Deve ser embaraçoso para os emrpegados da cadeia McDonald’s não serem sequer capazes de pronunciar os nomes dos hamburgers que estão ali a vender. Não se pede que conversem com os clientes, até porque são muito mal pagos para isso, mas pelo menos deviam saber o que é um Big Mac. E o que serve para Macau aplica-se ao resto do mundo. Como podemos levar a cabo essa empreitada da aldeia global, do mundo sem estranhos, se não conseguimos estabelecer pelo menos um elo de ligação, algo que nos permita comunicar entre nós? Virados para dentro e centrados nestes assomos de nacionalismo e amor-próprio, arriscamo-nos a ficar cada vez mais isolados.

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