segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sou vaca e com orgulho


Um facto que passa despercebido a muitos portugueses em Macau, especialmente os que desconhecem o dialecto cantonense, é a simpática designação com que nos tratam alguns dos locais: para eles somos “vacas”. Para os homens “ngau chai” e para as mulheres “ngau mui”. Há quem traduza isto para “cowboy”, mas o que eles querem mesmo dizer é que somos vacas. Vacas, não vaqueiros. Bovídeos ruminantes com chifres, tetas pingonas e leiteiras e respectivo badalo pendurado ao pescoço. Muuuu!

A origem desta apelidação deve-se provavelmente à presença do contingente militar português que se manteve em Macau até inícios dos anos 70. Alguns dos nossos soldados tinham problemas em adaptar-se ao calor e à humidade e suavam profusamente. Bastava que se descurasse um pouco a higiene para que o corpo adquirisse um odor desagradável, semelhante ao cheiro forte emanado pela carne de vaca, que os chineses designam por “ngau sok”, ou seja, “cheiro característico da carne de vaca”. Esta é uma teoria que carece de fundamentação assertiva, mas já me foi enunciada por mais de uma vez por várias pessoas.

Já me chamaram várias vezes de vaca, e há quem não se iniba de o fazer na minha cara. Alguns locais que dominam o nosso idioma e recorrem por vezes a uma tradução directa do dialecto local referem-se aos portugueses como “vacas”, ou na minha presença tratam os meus compatriotas por “as outras vacas”. Há quem seja mais reservado e não ouse usar esta adjectivação por a considerar “vulgar”, mas às vezes nem eu próprio resisto a uma provocaçãozinha. Um dia estavam uma jovem mãe e o seu filho a olhar para uma montra onde se via uma pequena vaca de peluche. Detive-me por alguns segundos e meti-me com o pequeno, apontando para o boneco dizendo-lhe que “era eu”, e até deixei sair um pequeno mugido para ilustrar a chalaça. Enquanto o pequeno – quem sabe ainda ignorante da “tradição” – ficou confuso, a mãe não conteve o riso, entendendo perfeitamente o meu “teatro”.

A vida em sociedade obriga-nos a cumprir um conjunto de regras que por vezes nos levam a uma “ditadura” do politicamente correcto. Há coisas que se podiam dizer há cinquenta ou cem anos que hoje são consideradas uma barbaridade; alguns países árabes são considerados “primitivos” devido ao tratamento das suas mulheres, mas é preciso recordar que até à primeira década do século XX o voto era um privilégio exclusivo dos homens. A escravatura é hoje considerada uma barbaridade, mas foi praticada até recentemente, chegou a ser uma forma regulada de comércio praticada em entrepostos próprios para o efeito, e existia mesmo a profissão de mercador de escravos, ou “negreiro”.

Por falar em “negreiro”, e como pela boca também morre o peixe: porque é que “preto” passou a insulto racista impraticável? Dizer “negro” é menos racista? Será correcto dizer “africano”, mesmo que o indivíduo em questão não seja natural de África? Já sei…”indivíduo de tez escura”, para não dizer simplesmente “preto” e não ferir sensibilidades. O obscuro “etnia roma” passou a ser a designação correcta para designar os indivíduos que nos habituámos a conhecer e tratar por “ciganos”. Quem é que se vai lembrar de mudar o ditado popular para “um olho no burro, outro no indivíduo de etnia roma?”. Chamar “mongolóide” a um indivíduo que sofre do Síndrome de Down é entendido como crueldade, mas quem vai optar por sete palavras quando pode usar apenas uma que toda a gente entende? Qualquer dia falamos como nos significados do dicionário.

Não me ofende que me chamem de “vaca”, nem considero isto uma forma de racismo. Consigo pensar em animais menos dignos, e chamar alguém de “porco”, “cão” ou “macaco” tem uma conotação bem mais negativa e até xenófoba. Se tivesse que escolher de entre as inúmeras criaturas do reino animal, preferia ser vaca do que outro qualquer bicho asqueroso. Odiava ser um rato, por exemplo. Ou um réptil. Pelo menos as vacas são um animal vertebrado – o que não se pode dizer de muito boa gente, alegoricamente falando . E as vacas têm quatro estômagos. Às vezes é preciso ter estômago, e quatro ajudam mais que apenas um. E quem não simpatiza com a dócil vaquinha? Quando penso em vacas lembro-me do leite Mimosa e da leiteira que aparece no pacote, que nos inspira confiança e é garantia de qualidade. Quem dera a muitos leites suspeitos que por aí andam. Com que então sou vaca? Olha, podia ser pior. Obrigado. Quer dizer…muuuu!

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