sábado, 15 de junho de 2013

O grande Verão lusitano (que se lixem as aulas!)


Sim, virem as costas...não há nada para ver.

Vi no Telejornal da RTPi de ontem uma reportagem sobre o fim das aulas, e fiquei aterrado com a pouca estima que a nova geração de jovens tugas tem pelo ensino, que enfim, é a única coisa que lhes ocupa o tempo. Perguntavam-lhes o que iam fazer nas férias, e as respostas variavam entre brincar, ir à praia, nadar, andar de bicicleta e outras actividades lúdicas. A certa altura a jornalista pergunta-lhes se não vão aproveitar os meses de fétias para estudar, e a resposta era “na, já fiz isso o ano todo”, assumindo uma expressão de repulsa , um ar de quem lhes oferece uma visita ao dentista para levar a cabo uma série de obturações sem anestesia. Nenhum deles disse que vai pegar num livrinho, visitar um museu ou preparar o ano lectivo que arranca em Setembro. Ler? Estudar? Fosga-se está tudo parvo ou quê? Está um calor do camano e os meus amigos estão todos em casa a coçar os berlindes à espera que a malta se junte e vá por aí “curtiro Verão”. Afinal foram dez meses a dar no duro, pá, a “aturar os ‘ stôres”, esses cromos.

Mesmo os que se preparam para os exames nacionais estão-se absolutamente nas tintas; um deles que vai realizar o exame do 6º ano dava pulinhos de alegria feito parvinho enquanto berrava “Estou de férias! Estou de férias!” A este vaticino uma longa vida de ferias e folgas. Não remuneradas, claro, e se por acaso frequentou as aulas de Educação Moral e Religiosa (o que duvido, ia lá ele aturar aquele frete uma hora por semana?) espero que tenha aprendido a rezar aos santinhos para que não acabem com a maminha do rendimento mínimo. Se calhar até tem o seu quê de razão, pois com a ameaça dos professores em fazer greve aos exames, contribuíndo para a grande paródia nacional, o puto não vai lá fazer nada, e o melhor é ficar em casa a jogar na PlayStation que o pai lhe comprou no Natal à custa de mais uma modalidade de endividamento. Um investimento genial, que assim o filho betinho do gajo do 3º esquerdo que é engenheiro e por acaso até se mexe para fazer pela vida não se fica a rir.

Não entendo o que se passa com os jovens de hoje, e chego a pensar que os paizinhos não lhes andam a transmitir a mensagem que a vida custa a ganhar, e ultimamente há razões de sobra para levar essa realidade a sério. Não se lhes pede mais que vão às aulas e aprendam qualquer coisinha, e podem-se dar por agradecidos que aos 13 ou 14 anos não andem a coser solas de sapato ou a virar tornos como faziam os seus avós e bisavós, que tantas vezes insistem em recordá-los da sorte que têm. Desde que tenham juizinho e vão passando os doze anos do ensino público não se habilitam a uma mão cheia de calos e uma respeitável dose de dores nas cruzes ao fim de um dia de enxada na mão ou a carregar baldes de massa nas obras. Um dia vão tranalhar – se conseguirem arranjar um emprego que não lhes faça vergar a mola ou pague em amendoins – e aí vão ver o que é bom para a tosse. Férias? Epá que bom, deixa-me ir acender uma velinha à Nossa Senhora. Férias grandes? Ó tempo volta p’ ra trás. Que triste ser-se crescido, como rezava a canção do Rui Veloso.

Este é um ciclo vicioso que se vai acentuando, adquire-se praticamente desde o berço e vai-se revelando em todo o seu esplendor à medida que se aproxima a idade adulta. Quem trabalha é parvo, quem estuda é marrão e caixa de óculos, e o melhor é ir atrás das gajas – que correspondem adequadamente à massificação do estupor nacional que as novas gerações prometem preservar e até elevar a um novo estatuto que se coadune com a idade moderna. O pai é que tem razão, quando chega a casa a queixar-se do patrão e do governo, bradando “Chulos! Chulos!”, já meio grogue das duas ou três superboques que mamou à saída do escritório depois de mais um dia a trabalhar para pagar a dívida que não se cansa de lembrar, "não é sua", apesar de lhe faltarem umas tantas prestações do robô de cozinha e do Ford Fiesta estacionado na praceta ao lado dos veículos semi-pagos dos restantes envergonhados com a grande comichão lusitana. A mãe vai fritando os pastéis de bacalhau que vão acompanhar o arroz de tomate e a salada de alface e cebola que vão fazer de jantar, e “é o melhor que se pode arranjar”. Depois do repasto pedem ao pai cinco euros para sair com os amigos, e este, ainda meio a grunhir depois de mais um massacre de notícias das 8, pergunta-lhe "onde estão os 20 euros da semanada que te dei na sexta-feira?". Só depois é que se apercebe que é outra vez sexta-feira, e ainda o mês vai a meio. Que grande porra.

Os jovens alemães, holandeses e suíços, além da generalidade dos escandinavos, aproveitam as pausas escolares para somar créditos e adquirir conhecimentos com vista a obter resultados no ano escolar que se aproxima, arredando o loiro rabiosque da cama às sete da matina e enfrentando os desafios com um sorriso germânico no rosto, como homenzinhos de verdade. Os jovens lusos rejeitam os estudos com um imperial “O kékefoi pá? Na me chatem, que estou de férias!”, virando as costas e regressando ao choco quando se apercebem que ainda não é meio-dia. E depois ainda chamamos os tipos de Nazis, desenhamos bigodes hitlerianos na senhora chanceler e orgulhamo-nos da nossa boa vida. Boa? Bem, pelo menos mais descontraída. Aproveitem as férias, meninos, e já agora tirem fotografias. Um dia não serão mais que uma vaga recordação. Os anos que se avizinham começam em Setembro e acabam em Maio. Mas e depois? Não valeu a pena?

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