segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Diabo anda entre nós


As reservas cambiais em Macau subiram 29,8%, as receitas do jogo em 2010 ultrapassaram as receitas em 2009 em quase 60%, muito "por causa do bacará", e um grupo de jogadores da China continental foi detido por estar a fazer batota. Com o dinheiro do povo da RAEM (este, o do bacará), não se brinca. Outra notícia também me chamou a atenção, e está relacionado com a alegada fortuna que uma das empregadas de Angela Leong fez no Mark Six, aquela simpática lotaria semelhante ao nosso Totoloto ou Euromilhões. A empregada em questão, uma malaia, terá ganho qualquer coisa como 30 milhões de dólares de Hong Kong, mas quer manter-se ao serviço do clã de Stanley Ho, por afinidade à filha mais velha de Angela Leong, Sabrina Ho.

São pequenas histórias como estas que tornam Macau um sítio tão singular e especial no mundo. Quando se fala da tal diversificação da economia do território, será que é para levar a sério? O jogo paga tudo, deixa os cofres cheios, resiste a qualquer crise e parece ser uma fonte interminável de receitas - pelo menos enquanto a China deixar. E porque não havia de deixar? É difícil dizer se Macau é o inferno ou o paraíso do jogo; pode ser o inferno para uns e o paraíso para os outros. Para mim é o purgatório, mas um ameno purgatório.

Não sei como se joga bacará, nem sequer muitas das outras modalidades de jogo que os casinos oferecem. Já joguei nas slots, coisa que qualquer símio semi-treinado consegue, mas não se pode dizer que sei jogar nas slots, uma vez que perdi sempre que joguei. Felizmente foram duzentas patacas de cada vez, e pode-se dizer que já aprendi a lição. Mas falemos antes daqueles para quem o jogo é um inferno. Dívidas contraídas, propriedades alienadas, famílias completamente destruídas por esse demónio de néon que é o jogo. Se existe um demónio, se existe destruição, é certamente um inferno.

O meu amigo M., um macaense com trinta e muitos anos, é viciado no jogo. Por fora parece uma pessoa completamente normal, mas nas horas mais inusitadas é apoderado do tal demónio do jogo, que o chegou a fazer ficar no casino entre as onze da noite de um dia até às quatro da tarde do dia seguinte. M. é conhecedor dos truques do black-jack, da roleta, do big and small, mas desconhece o maior de todos os truques: o da casa. A casa ganha sempre. M. conta-me episódios em que chega a "estar a ganhar cem mil patacas", e depois em vez de ir embora, perde tudo, incluíndo as duas ou três mil patacas que levou consigo para o pântano do jogo.

O que no início parecia uma brincadeira (os pais de M. eram também jogadores por "diversão") começou a tornar-se um fardo demasiado pesado. Em pouco tempo a vida de M. desabou. Primeiro perdeu o emprego, pois chegava a tornar-se incomunicável durante vários dias, e pelos mesmos motivos foi perdendo os restantes empregos que ia encontrando graças à ajuda de amigos. Os amigos começaram a virar-lhe as costas, e perdeu a conta às dívidas que ia acumulando, sem retorno possível. Finalmente perdeu a família, também macaense do lado da mulher, e que se cansou da tremenda correria que a sua vida se tinha tornado. M. não podia ter mais de cem patacas no bolso, que os seus demónios o conduziam às salas de jogo.

O jogo é um flagelo tão mau ou pior do que a droga. Enquanto o toxicodependente pode ser medicado, detido ou controlado, o jogador reage por impulsos. M. contou-me um dia que "acordou, saíu da cama e foi jogar", sem saber sequer porquê, e quando deu por ele, "tinha perdido dez mil patacas". Não o tenho visto ultimamente, mas lembro-me como se fosse ontem do dia em que, cansado de lhe dar conselhos, disse-lhe que nunca lhe emprestaria um avo, pois sabia que seria para jogar. Sei como isto lhe doeu, mas talvez por isso se tenha mantido meu amigo, sabendo que a minha preocupação com o seu problema era sincero.

Existe um centro de aconselhamento do vício do jogo, que vi por aí publicitado no chassis de um autocarro, mas não se sabe bem o que faz ou que resultados apresenta. Não se sabe quantos residentes de Macau são viciados no jogo, se estão devidamente identificados ou se são perigosos. Se me perguntarem se sou a favor da proibição da entrada em salas de jogo aos residentes, como acontece já noutros países e territórios, eu digo que sim, sou. Não acredito que esta seja uma receita indispensável à reserva cambial, às mesas do bacará ou à imensa fortuna do clã Ho e das suas empregadas malaias mais sortudas que o meu amigo M..

6 comentários:

  1. Não estou a ver sinceramente como é que se pode impedir a entrada de residentes em casinos.
    Pedirem o BI a toda a gente, à entrada de cada casino de Macau???

    Pode ser viável noutros países, mas em Macau é completamente impossivel de implementar, dada a quantidade de gente que visita os casinos 24 horas por dia.

    O esquema de proibição funciona com os funcionários públicos devido ao medo de serem vistos por colegas ou amigos e serem denunciados e despedidos.

    Mas alargar isto para a toda a população de Macau??? Não estou mesmo a ver..

    ResponderEliminar
  2. "Se me perguntarem se sou a favor da proibição da entrada em salas de jogo aos residentes, como acontece já noutros países e territórios, eu digo que sim, sou." É apenas uma hipótese que estou a formular. Claro que isso não seria possível, mas seria sem dúvida muito benéfico em termos do bem estar da população.

    Cumprimentos.

    ResponderEliminar
  3. Discordo com essa medida quase ditatorial. A população de Macau está amadurecida suficientemente para compreender, desde pequenina, os riscos do jogo. Para os demónios há cura: a igreja, o psicólogo ou o psiquiatra.

    Contudo concordo quando o Leocardo pede números, e já agora responsabilidade, aos institutos do governo que têm obrigação em prevenir e evitar que o vicio se apodere sobre os cidadãos da terra.

    AA

    ResponderEliminar
  4. Para sua informacao, a tal ONG que apoia os viciados no jogo, tem como presidente a Angela Ho:)

    Existe na rua do Campo um departamento do IAS...mas....enfim....nao e coisa que se deva mexer muito....deixa-os jogar...responsible gaming dizem eles, mas nem isso esta a ser implementado em Macau. Uma amiga minha foi trabalhar para a area do responsible gaming do Venetian...hoje...faz avaliacoes dos pedidos de apoio financeiros feitos pelas ONGs!!!!

    ResponderEliminar
  5. PARA QUEM NÃO SABE QUALQUER RESIDENTE OU FUNCIONARIO PUBLICO DE MACAU PODE ENTRAR NOS CASINOS DE MACAU E JOGAR,MAS SE FOR APANHADO PODER PERDER LOGO O EMPREGO.HÁ CAMARAS DE VIDEO POR TODO O LADO NOS CASINOS DE MACAU.AQUI EM PORTUGAL QUALQUER PESSOA PODE JOGAR NOS CASINOS.SO JOGA NOS CASINOS QUEM QUER.HOJE EM DIA ATÉ SE PODE JOGAR ONLINE.

    ResponderEliminar
  6. Pois é,os habitantes de macau falam muito mal do jogo de Macau mas estão a esquecer que se não fosse por causa dos CASINOS,Macau seria sempre uma vila ou aldeia chinesa.Se Macau hoje em dia é aquilo que é,agradeçam a este grande homem que se chama STANLEY HO.E só joga quem quer,também há muita gente que todas semanas jogam lotarias e ai já não criticam.

    ResponderEliminar