segunda-feira, 26 de abril de 2010

Provedor do leitor


Em relação ao post "25 de Abril contra o mono-pensamento", termino com a seguinte declaração: "O 25 de Abril e o 10 de Junho são os únicos dias do ano em que me sinto verdadeiramente português". Isto foi mal entendido por alguns leitores, que deixaram os seguintes comentários:

Eu sinto-me português todos os dias. Não sou daqueles que só se sente patriota dois dias por ano.

e,

Eu também sou português todos os dias...Ao contrário de certas pessoas, como o Leocardo, que só se sente português quando lhe dá jeito...será que foi também uma atitude que ganhou dos chineses aqui de Macau, que só são patriotas quando lhes dá jeito??

e ainda,

O Leocardo pode viver num bairro chinês, mesmo no meio deles, mas nasceu em Portugal, cresceu português e deveria ter um pouquinho de mais orgulho da pátria que o abençoou. Dixit.

E penso que há mais um ou outro. Ora bem, ao contrário do primeiro anónimo, eu não sou patriota, porque isso é uma parvoíce. Eu sou, mesmo quando estou em Portugal, um cidadão do mundo. Não acredito que alguém possa ser melhor ou pior por causa da nacionalidade, e sinceramente não vejo como o facto de ser português me pode trazer alguma vantagem ou tratamento especial em qualquer parte do mundo. É claro que sempre posso recorrer à embaixada, se não estiver fechada/com o embaixador em férias/em greve, como já aconteceu, mas não sou melhor que qualquer japonês, alemão ou russo pelo facto de ser português.

Quanto a segundo anónimo, permita-me uma pequena correcção: não me dá jeito nenhum, uma vez que tudo o que obtive e obtenho de Macau vem apenas do meu trabalho, e posso-me orgulhar de nunca ter precisado de fazer vénias a portugueses ou chineses para "subir na vida". Cuidado com as comparações.

O leitor anónimo que assina por "AA" fala de orgulho. Eu tenho orgulho de Portugal, que é um país lindo, com um clima óptimo, com uma comida espectacular, mas não bato o peito ilustre lusitano. Repare, a razão porque vim para Macau prendia-se com um "não dá" e um outro "não me apetece". Primeiro não dava para continuar a estudar, pois não tinha forma de fazer face às despesas. E segundo não me apetecia nada, mas mesmo nada cumprir o serviço militar. Um país que se diz verdadeiramente democrático não obriga os seus jovens a ir para uma espécie de prisão durante meses, em tempo de paz, e sem qualquer proveito ou interesse. Agora já acabou, mas um dia vou contar aos meus filhos que em Portugal os jovens eram obrigados a fazer a tropa. Mas se o que o preocupa é se continuo a torcer pela selecção, comer tremoços e beber Super Bocks, pode crer que sim. Estamos lá.



Obrigado a todos e cumprimentos.

4 comentários:

  1. É mais português do que eu, por exemplo, que já prefiro a Tsingtao à Super-Bock. Ah, e as chinesas (e outras asiáticas), no geral, já me atraem mais do que as portuguesas. Será isto lusofobia, ou apenas apreciar o que acho bom, independentemente da nacionalidade? Espera-se reacções dos patriotas.

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  2. Ora ainda bem. Cá temos o protótipo de uma certa camada de portuga cá do burgo: fuga à tropa e vidinha orientada no que à cidadania portuguesa respeita por "torcer pela selecção, comer tremoços e beber Super Bocks". Depois choram pela falta de apoio e consideração que recebem lá da pátria. E já agora, na linda educação que lhes dá, ensine lá aos seus putos que o passaporte da parvónia é só pra serem "europeus", e que mais vale serem macaios na China que voltar à pocilga onde vc. nasceu. Macau está cheio disso há muitos séculos.

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  3. Fuga? Nem sequer fui à inspecção! Se V. Exa. acha bem que OBRIGUEM os jovens a cumprir o serviço militar, então é fascistazinho. Mas Macau está cheio disso há muito séculos...

    E não preciso de dar educação patriótica aos meus filhos. Eles aprendem-na sozinhos, porque sabem que são e sempre serão portugueses. Pelo menos não sou como alguns que põem os filhos nas escolas inglesas e em casa desatam a falar inglês com eles - às vezes com uma pronúncia verdadeiramente patética.

    Cumprimentos.

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  4. Ainda não consegui perceber muito bem o problema desta gente. Eu sou português por um simples motivo: nasci em Portugal e o meu passaporte é português. E depois? Tenho de usar uma camisola da selecção que me identifique como português ou andar a cantar o hino nacional ou loas à pátria?

    Como disse alguém célebre, creio que o Sócrates (não este idiota de agora, mas o outro, o filósofo), "não sou ateniense nem espartano, sou cidadão do mundo" (se não foi assim, foi parecido). Não espero nada do país onde nasci, isso fiz eu durante muitos anos e ele sempre me falhou, não foi sequer capaz de me dar o único que lhe pedia: oportunidades. Tive-as fora, e é a quem mas deu que devo estar grato.

    Aos meus filhos, ensiná-los-ei a serem também cidadãos do mundo, sem desprezarem a sua origem, mas sempre preparados para ir para onde mais lhes convier, não tendo de estar enclausurados num país que não lhes daria oportunidades. A única coisa que faço questão é em ensinar-lhes português porque a língua é o meu único factor identitário (que não me une só aos portugueses, mas a todo o mundo lusófono). De resto, gosto de tudo o que acho bom e detesto tudo o que acho mau, seja português ou de outra nacionalidade qualquer.

    Considero-me um indivíduo livre, e isso não me permite estar agarrado a patriotismos sem sentido. E é precisamente isto que tenho de agradecer a Portugal: o não ter estado à altura das minhas aspirações. Tenho de lho agradecer porque se me tivesse tratado bem, se calhar hoje estaria por lá acomodado e, mesmo que a minha situação piorasse, talvez nem me passasse pela cabeça de lá sair, como vejo acontecer com muitos que, mesmo nas situações mais difíceis que aconselhariam uma fuga, dizem "que se há-de fazer? É este o meu país e é aqui que tenho de morrer". Obrigado, Portugal, por me teres feito perceber que o que interessa não é o lugar onde se morre, mas sim o lugar onde se vive (bem, de preferência, que países há muitos, mas vida só temos uma).

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