quinta-feira, 23 de abril de 2009

Estudar além-mar


No último Sábado de manhã chovia bem, pelo que, como sempre faço quando chove, saí de autocarro. Sentei-me no banco de trás da carreira que liga o Chunambeiro ao Grand Lisboa, onde fui almoçar. Sentada ao meu lado estava uma senhora com o filho, que não tinha mais de seis ou sete anos. Vinham a conversar em inglês, apesar de serem obviamente chineses. Melhor, o rapaz vinha a conversar, e a mãe e desconversar, tão má que era a pronúncia e a gramática. O jovem também falava – apesar de correctamente com a pronúncia e os maneirismos americanóides, cheio de “geez” e “wow”. Não sei se era para nos impressionar, mas duvido que fosse. Devia ser hábito.

Tem sido isso mesmo aqui em Macau nos últimos anos. Os jovens filhos de pais com algumas posses e armados do preconceito de que “quem não fala bem inglês não é cidadão do mundo”. Já durante este mês de Abril foi um corropio nas instituições privadas do território que providenciam a entrada dos jovens estudantes que terminam agora o ensino secundário em universidades da Inglaterra, Estados Unidos ou Austrália. Mas não se pense que aqui se fala de Cambridge, Harvard ou Melbourne. Normalmente são universidades tipo Nowheresville ou Nonametown. A maioria delas completamente desconhecidas. Em todo o caso, o investimento é feito a pensar no futuro dos filhos. Quem sabe se estas centenas de jovens que saem todos os anos para estas prestigiadíssimas universidades serão os futuros dirigentes de Macau! Nunca se sabe...

Alguns destes pais decidem pelos filhos. Não confiam na UMAC – vá lá saber-se porquê – e alguns preparam os jovens desde tenra idade, e mandam-nos para o outro lado do mundo já aos 10 ou 11 anos, para que se possam “adaptar”. Nenhum criança dessa idade chega ao pé dos pais e diz-lhes “olha pai, quero ir para Inglaterra, para começa a preparar o meu futuro”. Não censuro estes pais, que têm a liberdade de planificar o futuro dos filhos, mas eu não teria coragem de mandar nenhum dos meus para longe daqui, por muito atraente que isso pareça. Só se eles quiserem.

Alguns pais defendem-se com a exiguidade de Macau, e alegam que mandam os filhos para fora para que “aprendam qualquer coisa”, ou conheçam o mundo. No lugar deles ficava mesmo era por lá, e não voltava. O “mundo” é capaz de ser mesmo mais interessante, para quem ainda não o conhece. Um esforço e um investimento desta grandeza para depois acabar a trabalhar nos casinos? O dinheiro pode ser bom, mas onde anda a realização profissional? Não há nada pior do que não se poder aplicar o que se aprendeu. Nos corredores dos casinos temos licenciados em coisas como psicologia, criminologia, bioquímica e outras coisas que nada têm a ver com a roleta ou o bacará.

Os mais humildes ficam por Macau a estudar, ora na UMAC, no Politécnico ou noutra instituição de ensino superior do território. Estas instituições têm formado muito dos jovens profissionais que se encontram nos mais diversos sectores de serviços do território, e que não se têm dado nada mal. Ensina-os em Macau, sobre Macau e prepara-os para o mercado de trabalho de Macau. A qualidade é algo bastante relativo. Quem é inteligente, aplicado e trabalhador vai ter sempre muitas portas abertas. Para quem não é, não há universidade americana, inglesa ou dos cangurus que faça diferença. Esta é a ideia que deve ficar patente. Não é fácil arranjar um bom emprego, e a sorte muitas vezes tem um papel mais preponderante que um qualquer canudo numa universidade de além-mar. E o simples facto de saber falar bem uma língua, não é por si suficiente.

10 comentários:

  1. No último Sábado de manhã chovia bem, pelo que, como sempre faço quando chove, saí de autocarro. Sentei-me no banco de trás da carreira que liga o Chunmabeiro ao Grand Lisboa, onde fui almoçar. "Sentada" ao meu lado estava uma senhora com o filho, que não tinha mais de seis ou sete anos.

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  2. Sim, posso garantir que estava sentada. Se estivesse de pé lembrava-me bem.

    Cumprimentos.

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  3. não é chunmabeiro mas sim chunambeiro.
    papagaio perfeito, até no erro é igual

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  4. Claro, claro. É o que acontece quando se escreve directamente para o blogger, sozinho, sem revisores nem orçamento. Agora qual é a desculpa dos outros?

    Cumprimentos.

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  5. Pois é Leocardo! Quem sabe se essses pais não têm razão? Infelizmente parece que os Serviços Públicos de Macau gostam mais de títulos (estrangeiros?)do que aproveitarem os que se formam em Macau. Imagine que no ano passado, dois serviços públicos de Macau meteram um anúncio a pedir tradutores. Dois jovens chineses meus conhecidos e licenciados em "Estudos Portugueses" pela UMAC, entregaram as suas candidaturas com os respectivos comprovativos. Sabe porque não foram aceites"? Porque o diploma não dizia "Licenciados em TRADUÇÃO"!!!! Ora se têm uma licenciatura em língua e cultura portuguesa de quatro anos, será que estes licenciados não têm competência para traduzir qualquer papelucho de chinês para português ou vice-versa, na prestigiada função pública de Macau?
    É o título senhores! E é por causa do título, que um dos estudantes está agora a servir suchi num restaurante japonês da Taipa para ajudar a família...

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  6. Diga-me qual é o restaurante, para eu ir lá falar com ele.

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  7. ainda bem que estava sentada e nao sentado, pelo menos ficamos a saber que o Leocardo pode ser uma leocarda....ou entao existem dois leocardos que emitem opinioes....foi apenas uma observacao ao misterio de quem e o Leocardo

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  8. Este anónimo delira! Sentada era a senhora ao lado do Leocardo. SentadA porque era uma mulher. Ela, não o Leocardo.

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  9. Obrigado ao último anónimo. Pelos vistos tenho que ir aprender patuá ou mirandês para me fazer perceber por certas pessoas.

    Cumprimentos.

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  10. As minhas desculpas ao mal entendido da minha parte. Pode continuar a falar em Portugues...

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