sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não pagamos (ou pagamos menos)


Artigo publicado na edição de ontem do Hoje Macau.

Macau é uma cidade onde o pecado mora ao lado. Já lhe chamaram em tempos “Sodoma e Gomorra” do Oriente, e apesar da crueldade implícita nessa comparação (é preciso recordar que fim tiveram essas duas cidades bíblicas) não consigo deixar de concordar com ela, pelo menos em parte. Quem conhece bem o território, o seu mecanismo e as suas “instituições” sabe que por aqui temos muitos lobos vestidos com pele de cordeiro, ouvimos histórias de fazer os mais puritanos corar de vergonha, e é tudo regado com uma enorme dose de hipocrisia. Temos um pouco de tudo, menos anjinhos. Os santos que adornam os altares das inúmeras igrejas um pouco por toda a cidade são feitos de pau, mas as pessoas são de carne e osso.

Congratulo-me por viver numa cidade onde o acesso ao sexo, mesmo que pago, é facilitado. Em Macau só é agressor sexual quem quer, ou quem sofre efectivamente de algum tipo de psicose ou desvio. Existem opções para todos os gostos e carteiras, e um cardápio variado que serve todos os delírios, até os mais bizarros. É só pagar um pouco mais e realiza-se (quase) qualquer capricho. Quem chega ao território fica rapidamente a conhecer os locais onde pode cometer aquilo que a educação religiosa convencionou chamar de “sexo extra-marital”. Quem afirma não conhecer é porque anda mesmo distraído – ou está a mentir. De noite todos os gatos são pardos, e não é raro encontrar nesses locais personalidades que de dia são tidas como “respeitáveis”. Nem o facto de se ser casado é relevante. O ónus do casamento não é impeditivo para que se provem as iguarias do banquete do pecado da carne. Carne é mesmo o que não falta por aqui.

O português, o macho-latino, é por natureza um romântico. O fenómeno da prostituição em Portugal é ainda visto como vergonhoso, marginal e censurável. Associado a gente decadente e sem classe. A prostituição de rua é um mundo sujo, onde reina a promiscuidade, e controlado por gente muito pouco recomendável, desde o proxeneta de bairro às máfias do leste europeu. A prostituição de luxo, as jovens bonitas e sãs que se encontram nas casas de alterne da moda, estão ao acesso de poucos. Chegando a Macau encontramos um mundo completamente diferente, que em termos comparativos chega até a ser encantador. Um serviço completo, bem feito, seguro e efectuado com o mínimo de higiene e bom gosto não está apenas ao acesso de empresários, dirigentes desportivos e árbitros de futebol. Uma ida à sauna é de longe mais sofisticado que uma “ida às meninas” no prostíbulo lá da terra. E não é vergonha nenhuma.

Os hábitos dos portugueses de Macau no que toca ao relacionamento íntimo com o sexo oposto, mesmo que fora da santidade do matrimónio, diferem da atitude mais pragmática dos locais. Enquanto alguns não se importam de pagar o que for necessário, o português gosta de “engatar”. A arte do engate é própria da nossa natureza de povo conquistador, que em tempos idos promoveu a miscigenação com os povos indígenas das paragens distantes onde o imenso mar os levava. Além do padrão e da bandeira, faziamos questão de enterrar mais qualquer coisinha. A nossa costela marialva de animal de sangue quente prefere sempre o engate à frieza do sexo pago; é mais gratificante e mais pessoal. Não tem piada nenhuma estar com alguém apenas porque se pagou pela companhia. É desagradável ter a sensação que se alugou uma pessoa para nos “aturar”. Não queremos ser aturados nem gostamos de fingimento. Queremos ser amados a sério. Queremos que gostem de nós, pá!

Essa perspectiva romântica do amor e do prazer carnal leva a que os portugueses sejam conhecidos por algumas profissionais do ramo como “aqueles tipos chatos que não gostam de pagar”. Esta fama é facilmente verificável com uma rápida visita aos corredores do velhinho Hotel Lisboa, onde se podem encontrar várias prostitutas oriundas da China continental. Para estas jovens, bastante atraentes e impecavelmente bem vestidas, somos aqueles gajos que “pagam mal e só querem brincadeira”. Como tempo é dinheiro, o alvo preferencial destas mulheres são os jogadores de etnia chinesa, que conhecendo as regras do jogo, limitam-se a cumprir o essencial, pagar e ir embora, sem que sequer olhem nos olhos a pessoa com quem acabaram de partilhar um momento íntimo. Para nós parece demasiado frio, um acto mecânico e desapaixonado.

Contam-se mil e uma histórias de elementos da nossa comunidade que se recusaram a pagar por serviços sexuais, muitas vezes com o pretexto de que o encontro “foi consentido”, ou de que a outra parte “também gostou”, ou ainda, e este o mais comum “não gostaram do serviço”. Alguns destes incidentes acabam mesmo na polícia, e não são assim tão raros. A nossa apetência pela aventura, pelo sexo casual e grátis, pela gratificação mútua e todos os restantes expedientes que nos alimentam o ego e a convicção de que somos “bons na cama” leva a mal-entendidos. Na realidade não somos forretas ou velhacos que se aproveitam da ingenuidade de algumas meninas. Somos uma malta que gosta de festa rija, de foguetes e de bailarico, de convívio e conversa fiada.

Temos uma tradição contestatária derivada do desejo incontrolável que nos amem. Da mesma forma que os estudantes que se recusam a pagar propinas à Universidade que lhes dá o canudo, ou dos utentes das pontes que se recusam a pagar portagens, gostamos de gritar alto e bom som: “Não pagamos!”. Não nos importamos de pagar pelo sexo, se for necessário, mas queremos pelo menos um tratamento especial, e já agora um desconto pela nossa “simpatia”. A personagem do Zézé Camarinha, que é tido por muitos como um tipo machista e desprezível, não é mais do que o expoente máximo do homem português, do latino lusitano em todo o seu esplendor. Soltemos o Zézé Camarinha que há dentro de cada um de nós. Mesmo que em pequenas doses.

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