quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Crescer em frente à televisão


Estava no outro dia a beber um café com uma amiga, que tal como eu tem filhos, e a certa altura diz-me que “não os deixa ver televisão nos dias de aulas”, e que só permite que se sentem em frente ao pequeno ecrã entre sexta à noite e Domingo. Não posso concordar com esta rígida disciplina, até porque hoje em dia a televisão é praticamente a banda sonora do nosso dia-a-dia familiar. A mim incomoda-me estar em casa com a televisão desligada, pois quando era miúdo era tradição não ligar o televisor quando morria um familiar próximo. Uma prática que hoje talvez já não se use, mas que se pode explicar pela ladaínha religiosa do respeito. Se calhar Deus ficava zangado se estivessemos distraídos a ver televisão em vez de nos rebolarmos no chão em prantos a bater o peito em memória dos mártires caídos. Mas isto é o meu ponto de vista, fruto da minha experiência em particular.

Contudo num dos pontos que debati com a minha amiga, não posso estar mais de acordo: o que é mais indicado para as crianças, e o que se deve evitar que vejam na TV? Aí concordámos em género e em espécie. Bem, eu próprio considero-me um sortudo. Perdoem-me o saudosismo bafiento, mas quando voltava da escola primária a melhor programação infantil passava depois das seis horas, no espaço que penso que já se chamava “Tempo dos mais novos”, que qualquer leitor com mais de 30 anos e menos de 45 se deve lembrar bem. Passavam então séries de animação tão educativas como ligeiras, adequadas à idade do receptor. Eram “As cidades do Ouro”, “Willy Fog e a volta ao mundo em 80 dias”, “Dartacão”, “Tom Sawyer”, “Dom Quixote”, e outros clássicos adaptados ao público mais jovem. Aos fins-de-semana passava a série “Era uma vez…”, que apesar de não ser uma das minhas preferidas, tinha o seu valor didático.

Não me foi imposta nenhuma censura, e eu próprio administrava o tempo para a televisão e para os deveres escolares, sempre com razoável sucesso. Cheguei a ficar de pé até tarde e assistir a programação pouco recomendável para a minha tenra idade. Lembro-me bem do detective “Colombo”, da “Balada de Hill Street”, do “Dallas” e da “Dinastia” (quando tinha pachorra), e do “Sim, senhor ministro”, que me fazia confusão, pois não dominando o inglês não conseguia perceber o refinado humor britânico nem o porquê das gargalhadas enlatadas de fundo. As bem intencionadas mas inúteis legendas em português não me davam qualquer pista. Não perdia pitada da “Galáctica” ou dos “Três Duques”, assistia amiúde ao “Barco do Amor”, cuja canção do genérico decorei depois de ouvir uma ou duas vezes, como o hino nacional, e mesmo séries aborrecidas para a minha idade, como “Casa na Pradaria” ou “O misterioso mundo de Arthur C. Clarke” entretinham-me numa tarde de fim-de-semana mais aborrecida. Até o capitão Jacques Costeau fazia parte do meu imaginário infantil, apesar de ter dele a imagem de “um velhote dentro de um barco”, em vez do respeitável oceanógrafo que foi.

Posso-me orgulhar ter visto programas que crianças da minha idade perderam. Em Julho de 1985 não perdi pitada do Live Aid, ficando de pé até de madrugada. E sabem com que idade assisti aos “Sete Samurais” de Kurosawa? Sete aninhos! No canal dois, numa sessão que acabou para além das três da manhã, e que teve pelo menos dez intervalos. Embrulhem! Tenho algumas memórias turvas da televisão da minha infância que hoje entendo melhor e tenho pena de não ser suficientemente desenvolvido na altura para me recordar com detalhe: o assassinato de John Lennon, a morte de Francisco Sá Carneiro, o mundial de futebol de 1982 em Espanha. Tenho a certeza que todas as gerações sofrem deste mal, que nem chega a ser um mal, mas apenas uma questão de “timing”. Uns tiveram a sorte de presenciar a chegada à Lua, outros viram a queda do muro de Berlim, outros ambas as coisas, outros nada, mas serão capazes de ver coisas que os primeiros já não vão ter oportunidade de assistir. Para nós o presente é sempre um dado adquirido, e a nostalgia fica reservada para o passado. É assim que sempre foi desde o evento da televisão, e é assim que sempre será. Ao contrário dos filmes, que podemos ver e rever a qualquer altura, a televisão é uma máquina que não pára e não olha para trás, e que nem a RTP Memória e quejandos consegue trazer de volta por completo. Há coisas que vimos, integradas no contexto do tempo, e que mais ninguém pode ver com a mesma emoção, mesmo que repetidas anos mais tarde.

Da produção nacional lembro-me mais ou menos bem do primeiro “Eu Show Nico”, do início dos anos 80, que assistia numa televisão com antena interna, com inteferências que hoje dariam cabo dos nervos de um monge trapista. Segui o “Sabadabadu”, um marco histórico na televisão portuguesa, que cumpria a tradição do entretenimento do Sábado à noite. Ivone Silva e Camilo de Oliveira faziam rir velhos e novos, e mesmo para mim, que era ainda pequeno, o humor deste duo que entrou para a história da comédia nacional era bastante acessível. Mas foi no “Tal Canal” que testemunhei a revolução, que punha fim à ditadura do humor revisteiro, e que os mais velhos ficavam sem perceber muito bem onde estava a graça, ainda pouco habituados ao humor brejeiro e pouco receptivos a algum do atrevimento a que Herman José hoje já nos habitou, e que fez escola. Ria-me com vontade de alguns dos sketchs do “Tal Canal”, que provocavam apenas um sorriso amarelo nos meus avós, ainda meio incrédulos, e que foi uma prova indesmentível da mudança de valores que se preparava para acontecer num país ainda muito pintado em tons de cinzento.

Curiosamente foi durante a pré-adolescência que os meus pais mais se preocupavam com o que passava na televisão. Lembro-me bem de me acordarem em clima de festa a altas horas da madrugada quando Carlos Lopes venceu a maratona olímpica em 1984, mas foi com mágoa que me recordo ir para a cama mais cedo durante o mundial de 1986 no México, muito por culpa dos fusos horários, essa coisa maluca que na altura não entendia muito bem. Vinguei-me em Dezembro de 1987, quando assisti ao vivo e a cores, com uma lágrima a tentar escapar dos olhos, ao FC Porto a tornar-se a primeira equipa portuguesa a vencer um mundial de clubes, no célebre jogo disputado na neve no Japão, e que terminou a horas indecentes. No ano seguinte estive com o meu pai e mais 120 mil pessoas no Estádio da Luz a assistir à vitória do Benfica por 2-0 sobre os romenos do Steaua que deu aos encarnados a passagem à primeira final da Taça dos Campeões em 25 anos. Voltei para casa às 4 da manhã em dia de aulas, um acto de rebeldia que nem chega a contar como exemplo de “desleixo parental”. Como estou agradecido ao meu pai por esta experiência única.

Mas voltando à televisão. É muito difícil estabelecer um padrão exacto sobre o que é bom ou mau para as crianças. Por exemplo, a animação é muito mais inofensiva que as séries com actores de carne e osso. Qualquer criança com dois anos de idade que não seja retardada apercebe-se que nos desenhos animados acontecem coisas impossíveis de acontecer na realidade. Dou um exemplo: um desenho que me irrita e que me faz mudar sempre de canal é o “Roadrunner”, uma avestruz irritante que passa a vida a ser perseguida por um coiote incompetente, a vergonha dos predadores da raça canídea. O tal coiote, em vez de se pôr a jeito de agarrar o passaroco pelo pescoço e arrancar-lhe a garganta à dentada, como seria de esperar da lei do mais forte do mundo animal, monta complicadas armadilhas onde acaba sempre por ser ele a cair, ora sendo esmagado por rochas, ora caíndo de precipícios, ou dinamitado. Na cena seguinte aparece sem um único arranhão, urdindo mais um plano que sabemos à partida que não vai resultar, e cujo desfecho quase sempre conseguimos adivinhar sem muito esforço. Nem consigo imaginar que tipo de público infantil considera isto interessante. Aliás os desenhos da Looney Tunes são em geral muito pouco educativos, e chegam a ser previsíveis e repetitivos. O próprio Bugs Bunny, ou “Pernalonga” na versão portuguesa, aborrece-me com a forma arrogante com que manipula aquele caçador careca. Às vezes gostava que algum “enfant terrible” da animação produzisse um episódio em que o caçador rebenta os miolos do Bugs Bunny e depois delicia-se com um coelho à caçadora. As crianças também não se iam importar muito.

Um desenho que gosto bastante, apesar da falta de criatividade, é o Speedy Gonzalez, um rato mexicano que corre mais que uma lebre enquanto grita “Arriba! Arriba! Andare!”, dotado de uma hiper-actividade suspeita. Para os mais atentos, este “cartoon” que já foi considerado racista pode ser entendido de uma forma adequada aos tempos que correm. Um mexicano viciado em cocaína e metanfetaminas salva os seus compatriotas alcoólicos e decadentes de um tal “señor gato”, que aqui representa um cartel de droga qualquer, daqueles que executa políticos honestos, polícias e elementos de cartéis rivais quase diariamente. O Speedy Gonzalez tem um grande potencial, e quem sabe se só bastava que o Robert Rodriguez e o Quentin Tarantino pegassem na história. Recentemente fiquei a saber que o desenho “Tom & Jerry”, sobre um gato e um rato que andam à porrada mas no fundo são amigos e não passam um sem o outro (é como na luta livre, e no fim vão juntos beber uns copos e depois vão às ratas) é o mais popular na Indonésia. Não sei se é por não existirem diálogos, e assim a censura da maior nação islâmica do mundo não tem muito trabalho. Talvez o conceito de um gato zangado a correr atrás de um rato sorridente e fanfarrão seja “halal”, e caso um dos personagens fosse um porco, o “Tom & Jerry” era proibido. Aposto que o “Porky Pig”, o porco gago famoso pelo “th-th-th-th that’s all folks!” não passa na Indonésia.

Nas séries com actores de carne e osso o caso muda de figura. Lembro-me de uma série que passou em Portugal em meados dos anos 80 e de que era ávido seguidor: “Jovens Heróis de Shaolin”, produzida em Hong Kong, falada em cantonense e com legendas em português, o que ao mesmo tempo preservava a sua essência e deixava-nos compreender o enredo. Nesta série que tinha o kung-fu como prato principal, viamos os tais “heróis” a vencerem sozinhos e desarmados dez inimigos munidos de sabres. Bem, isto é ficção, mas convém explicar isso aos jovens mais desatentos. Fosse isto possível, e quem sabe Fernão de Magalhães e os seus cinquenta homens tinham vencido a batalha de Mactan, nas Filipinas, contra os 1500 soldados do líder tribal indígena Lapu-Lapu, armados até aos dentes com facas e catanas. Alguns heróis das séries e dos filmes são capazes de derrotar sozinhos dezenas de inimigos, às vezes com recurso a proezas quase sobre-humanas, mesmo depois de ter perdido litros de sangue e tenham as tripas quase todas de fora. Não concordo que a violência seja traumatizante para as crianças. Eles habituam-se a assistir a cenas violentas um pouco por toda a parte, a violência está instituticionalizada, e o que chocava há 20 ou 30 anos hoje é considerado normal. É só preciso ter a certeza que eles convivem bem com esta realidade, que não correm nenhum risco, nem estão na iminência de ser vítimas de algum atentado terrorista, mas o mais importante é fazê-los ver que não vivem num mundo cor-de-rosa.

No início dos anos 90 passava ao fim da tarde na RTP a série “Super Boy”, sobre as aventuras do “Superman” quando era ainda um chavalinho. Uma professora minha chegou um dia a casa do trabalho e deparou com o filho de seis anos pendurado no muro da varanda do 6º andar com uma toalha atada ao pescoço, preparado para saltar e voar como o seu herói. A senhora, obviamente aterrorizada com o que via, conseguiu ter o sangue frio para se aproximar silenciosamente do rapaz e agarrá-lo, salvando-o de uma morte certa. Tivesse ela gritado e quem sabe o jovem caía, e não havia Clark Kent que lhe valesse. Claro que isto é um exemplo extremo, mas exemplifica bem o cuidado que alguns pais devem ter para ensinar os filhos a distinguir a ficção da realidade. Não se deve ter receio de se estar a insultar a inteligência dos jovens, explicando-lhes que não existe ninguém imortal, que as pessoas não voam como os pássaros, ou que se pode ser resistente às balas, como o tal super-homem. Ironicamente o actor que mais celebrizou o homem de aço ficou tetraplégico depois de uma queda de cavalo. Este exemplo pode servir para ilustrar bem a vulnerabilidade da vida humana, e que a ficção não passa disso mesmo, de uma não-realidade. Mesmo que os miúdos já percebam isto, não se canse de explicar. Mais valem mil lógicas da batata que uma informação a menos que possa custar uma vida. Como no lema dos nadadores-salvadores: “melhor dez alarmes falsos que uma vez tarde demais”.

Conheço pessoas que, por falta de informação, confusão ou simplesmente ingenuidade acreditam que alguns personagens de ficção existiram mesmo, e que são mais que lendas: são “personagens históricos”. Tinha um amigo meu que insistia que Robin Hood existiu, e quando lhe dizia que era apenas um produto do folclore inglês, retorquia que “não senhor, e prova disso é que vivia em Notthingham, que é mesmo uma cidade inglesa”. Ora aí está uma prova irrefutável. Tão válida como afirmar que basta ir a Nova Iorque para conhecer o Homem-Aranha. Os nova-iorquinos já não lhe ligam nenhuma, de tão habituados que estão a vê-lo todos os dias, e ainda hoje não lhe perdoam que estivesse de lua-de-mel na Jamaica com a Mary Jane quando se deram os atentados de 11 de Setembro. E isto não fica por aqui; há quem pense que o lendário herói suíço Guilherme Tell existiu mesmo, porque era da Suíça, um país que “existe”, que D. Quixote de La Mancha era alguém que Miguel de Cervantes conhecia e sobre o qual um dia escreveu, ou que o “historiador” Alexandre Dumas relatou os feitos de um tal D’Artagnan e os seus três amigos Mosqueteiros. Por acaso o cardeal Richelieu (Armand Jean du Plessis) até existiu, e fosse o Dumas escrever hoje aquelas barbaridades que vilanizaram o clérico, e não se livrava de um processo judicial na certa.

Em jeito de conclusão, existem casos pontuais de programas televisivos que dão a esse pequeno mundo com que as crianças facilmente tomam contacto um mau nome. Assim de repente lembro-me de uma série de animação japonesa que provocava convulsões a quem assistia. Eu pessoalmente não gosto de animação japonesa. A única que assistia quando era jovem era o “Conan, o rapaz do futuro”, que era bastante criativa, uma realidade distópica adaptada aos mais novos. Não me agradam desenhos onde só se vêem máquinas e robôs futuristas e inconcebíveis a rebentar com tudo o que lhes aparece pela frente; não se aprende nada, não existe um conteúdo válido que nos deixe a pensar. Contudo pode-se dizer que podemos colocar os petizes em frente à televisão sem precisarmos de nos preocupar muito, basta não os deixar lá o dia todo e esperar que ela substitua os pais e a escola na função de educar e distinguir o mal do bem. E hoje eles são cada vez mais espertos e curiosos, e já não é tão fácil ludibriá-los, como no tempo quem um tal “McGyver” convenceu uma geração inteira de que se conseguia fabricar uma bomba utilizando apenas atacadores de sapatos, uma tampa de Pepsi e uma pastilha elástica. Eu preocupava-me antes com os vídeos que existem às dúzias no YouTube que ensinam como produzir drogas sintéticas utilizando produtos que qualquer um pode adquirir no supermercado da esquina. Ah pois, mas o YouTube não entra nestas contas.

Tantos dozes


Hoje é dia 12 de Dezembro de 2012, um dia que, independente da norma em que as datas são dispostas por todo o mundo, é 12/12/12. Esta é a última vez que eu e o querido leitor vamos testemunhar uma data assim tão engraçada; a próxima será 1 de Janeiro de 2101, ou 01/01/01 e caso a medicina conheça avanços espectaculares, já estaremos todos mortos. Quer dizer, não digo isto por mal, mas é apenas senso comum.

É nestas datas tão fora do comum que se realizam muitos casamentos, e muita gente tira fotos do ecrã do computador quando as horas coincidem com a data, no caso de hoje 12:12:12 de 12/12/12. Tantos dozes! Muitos casais escolhem esta data para casar, se bem que este ano o entusiasmo foi menor que há cerca de 13 meses, quando foi 11/11/11.

Alguns profetas da desgraça aproveitam estas datas para especular sobre os fim do mundo. Não faltaram nem faltarão datas para o tal Apocalipse, e isto não é de hoje. Há séculos que as datas redondas, ou as "capicuas", servem para que os mais supersticiosos tenham qualquer coisa para dizer. A próxima data é daqui a nove dias, no dia 21 de Dezembro, data em que alegadamente os Maias previram o fim dos dias. Eu pessoalmente não ligo muito a isto das datas, uma coisa dos homens, que pouco ou nada tem a ver com o tempo cósmico.

Acho engraçado que num planeta com 14 mil milhões de anos de existência haja uma espécie que só por aqui anda a algumas centenas de milhares que tenha alguma coisa para dizer sobre o seu fim. Pior ainda quando são as religiões vigentes que o fazem, essas que apareceram praticamente "ontem". A filosofia de vida deve ser a mais relaxada possível. Temos 70 ou 80 anos para aproveitar isto antes de voltarmos à velha cosmética "do pó viemos, ao pó voltamos", e é muita soberba pensarmos que vamos ter o privilégio de assistir ao fim do mundo. Quer dizer: queriam que o mundo acabasse com vocês, seus malandrecos?

R.I.P. Ravi Shankar

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Outra vez aquelas compras...


Agora que o Natal se aproxima, chegou a hora de comprar os presentes. Para mim esta é uma tarefa pouco complicada, que reservo sempre para os últimos dias antes da consoada. É que não me apetece ter sacos e caixas espalhadas pelo chão da casa durante semanas, e ainda me arrisco a tropeçar em qualquer coisa, cair e arruinar o meu belo perfil. Além disso em Macau a maior parte das lojas estão abertas até à véspera de Natal, e até no próprio dia, caso seja preciso comprar uma prenda de emergência para uma antiga namorada que nos quer ver e matar saudades, ou algo parecido. Em suma, aqui é tudo muito descontraído, muito “man man” e “mou man tai”.

Deixem-me que vos diga, não tenho saudades nenhumas da azáfama pré-natalícia em Portugal, que entretanto vão sendo amenizadas com a alternativa das lojas dos chineses, os tais que ninguém gosta mas depois servem para desenrascar quando a senhora da perfumaria da esquina foi passar o Natal “à terra”, tendo fechado a loja uma semana antes. Depois são as encomendas, que têm que ser feitas com semanas de antecedência, o trânsito infernal e os transportes públicos cheios, enfim, é uma época em que os únicos locais que estão às moscas são os empregos. E tudo temperado com muito frio e chuva.

Para os adultos é muito mais fácil comprar presentes de Natal; um livro, um disco, um filme, uma garrafa de whiskey, uma colónia, um cachecol, um after-shave, um faqueiro e o respectivo conjunto de facas japonesas para aquele casal que discute sempre muito e de que já estamos um pouco fartos, enfim, qualquer porcaria serve. Quem tem um orçamento mais reduzido pode optar por uma das lojas da Daiso, que tem uma variedade imensa de lembranças a preços bastante acessíveis. Olha, podem comprar lá as tais facas e tudo. O que importa “é a intenção”, que é uma coisa que aprendemos um dia durante a vida. Ficamos comovidos se um amigo esquecido nos manda um postal de boas-festas, mesmo que fique exposto na secretária alguns dias e vá parar ao caixote do lixo depois do Ano Novo. O que me irrita mesmo, e não me levem a mal, são aquelas pessoas que mandam mensagens de telemóvel padrão a toda a gente na lista, do tipo “votos de um Feliz Natal”. Epá, tenham dó! Se não têm tempo para ligar ou mandar a cada um uma mensagem personalizada, então não se incomodem.

Para as crianças é muito mais complicado. Os miúdos têm expectativas elevadas no Natal, e ficam especialmente irritados quando recebem uma camisola de lã – que “pica” e é foleira – ou um par de meias, normalmente prendas oferecidas pelos avós, pessoas friorentas que se preocupam muito com a gripe dos meninos. Mas camisolas e meias já eles têm aos pontapés, e os velhos levam sempre um seco “obrigado” com um beijinho de comiseração, como quem diz “coitados, que a demência já começa a tomar conta deles”. Se tivesse sobrado qualquer coisa da mesada até lhes compravam um pacote de fraldas para adultos, para os velhotes passarem um Natal sequinho. Como compreendo os putos, pá. Eu próprio queria cenas fixes no Natal. Andei o ano todo à espera, e a menoridade serve exactamente para recebermos prendas boas, para não nos tornarmos pessoas amargas e avarentas que mais tarde vão oferecer prendas de merda aos outros quando chegar a sua vez de ter estas dores de cabeças anuais.

Mas também entendo a angústia dos pais, onde me incluo, é claro. Como temos mais que fazer, é quase impossível andar a par das últimas modas dos jogos electrónicos e toda essa porra que esses cabeçudos das milionárias empresas de software nos impingem. Para os adolescentes, com mais de 13 anos, basta dar-lhes dinheiro e eles ficam contentes, e para os bebés com menos de um ano até pode não lhes dar nada, que eles não lhe vão guardar rancor. Para os mais pequenos e ingénuos que ainda acreditam no Pai Natal, há um truque que nunca falha: semanas antes do Natal pedimos-lhes para escrever uma carta ao barbudo a dizer que prendas querem no sapatinho, que depois “metemos no correio”. Depois é só ler a lista, e ter acesso a esta informação privilegiada. O pior é que às vezes a lista é tão extensiva que ultrapassa o próprio subsídio de Natal, mas aí é só comprar duas ou três prendas mais fáceis de encontrar e depois explicar-lhes que o resto “ficou retido na alfândega por excesso de peso do trenó”. Ou inventar uma greve qualquer dos trabalhadores do “handling”. Para aqueles miúdos mais parvos que pedem “um cãozinho” ou “um gatinho” ou outro ser vivo que depois só vai dar trabalho aos pais, basta dizer que não passaram na quarentena. Eles acreditam.

Os miúdos estão cada vez mais espertos e cada vez mais materialistas. Nenhum vai pedir para o Natal “paz no mundo” ou “uma anca nova para a tia que caíu das escadas”. O pior é que às vezes pedem-nos coisas de que nunca ouvimos falar, e ficamos com vergonha de perguntar do que se trata exactamente, para não passarmos por “cotas” ultrapassados. Se calhar devia existir alguma revista mensal do género “Pai Moderno”, onde fossem apresentadas em linguagem adulta as últimas novidades do mercado. E já agora podiam ser os cabrões dos gajos que nos vão à carteira quando inventam essas porcarias a compilar essa lista. Mas também não é preciso ser um génio para agradar aos miúdos, e às vezes basta oferecer-lhes qualquer coisa de útil que não seja muito “adulta”. Os miúdos querem que nos lembrem que ainda são crianças quando chega o Natal. Assim, e graças a uma técnica de meditação transcendetal tibetana que nunca aprendi, vou voltar aos 8 anos de idade e publicar uma pequena lista de 14 prendas que NÃO deve dar ao seu filho neste Natal, apesar de se sentir tentado a fazê-lo:

1) Roupa Interior. Isto deixa-os envergonhados em frente do resto da família.

2) Legos. Sim, é a marca de brinquedos mais vendida do mundo, mas curiosamente são os adultos quem mais brinca com eles.

3) Livros sem ilustrações ou literatura juvenil. É bom incentivar o gosto pela leitura, mas os miúdos depois têm tempo de ler a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada (que facturam sempre muito nesta quadra), se estiverem realmente interessados.

4) Colecções de selos e/ou moedas. Têm valor para si, mas a eles não lhes diz nada.

5) Discos do Avô Cantigas ou das Canções da Minha Escola. O Carlos Vidal e companhia que me desculpem, mas isto é o mesmo que oferecer discos do Tony Carreira ou do Toy a um adulto que não tenha revelado sintomas de retardação mental.

6) Pianinhos, guitarrinhas ou kits de bateria. Sejamos realistas: não vai ser com pianos ou guitarras ou baterias de plástico que o seu filho se vai tornar um virtuoso. Eles brincam com aquilo dois dias e depois atiram a um canto.

7) Parafernália relacionada com os Pokémon. Os miúdos de hoje já não sabem o que isso é, e partiram para outra.

8) Brinquedos de encaixe feitos em madeira, piões, berlindes, papagaios de papel e outros que faziam a alegria da pequenada em 1922. Não faça os seus filhos perderem o respeito que têm por si.

9) Carrinhos de brinquedo que não sejam telecomandados. E mesmo que opte por estes últimos, certifique-se que funcionam mesmo.

10) Canas de pesca, tacos de golfe e outras coisas que gostava que lhe oferecessem a si. Não se esqueça que o Natal é a festa da criançada por excelência.

11) Kits de magia ou de química, a não ser que os miúdos revelem alguma apetência especial. E mesmo nesse caso isto pode-lhes parecer muito básico. Não lhes imponha o gosto por algo que eles nunca demonstraram interesse.

12) DVD’s de filmes da Disney e afins que eles não viram. Se ainda não viram é porque se calhar não querem ver. Se por acaso pediram um filme que você não gosta, não finja interesse sentando-se ao lado dele uma hora e meia a fazer um frete. Os miúdos de hoje farejam a hipocrisia a milhas.

13) Pistolas de plástico e brinquedos de guerra em geral. Tenho um amigo que defende que se deixarmos os miúdos brincar com armas de fingir quando são pequenos, não vão querer usar armas de verdade quando forem adultos. Posso estar enganado, mas exerço o direito ao contraditório e penso que o o meu amigo está tragicamente equivocado.

14) Finalmente, no caso de ter um filha, evite oferecer-lhe aqueles ridículos conjuntos de cozinha com cenouras e tomates de plástico, ou aqueles bebés que são amamentados com uma teta falsa. Prefere que ela venha a ser uma mulher independente e de sucesso ou uma dona de casa que leva porrada do marido?

E estas são apenas algumas sugestões do que não deve fazer. Agora use a sua imaginação, e já agora boa sorte, e boas compras!

Benfica vence derby


O Benfica venceu esta noite em Alvalade por 3-1, e passou para o primeiro lugar da Liga Sagres em igualdade pontual com o FC Porto, com vatagem de mais um golo marcado. O Sporting até começou melhor, marcou na primeira parte por Van Wolfswinkel e chegou ao intervalo em vantagem, mas na segunda parte os leões voltaram a demonstrar fragilidades diversas e falta de concentração. Um autogolo de defesa Rojo deu o empate, e a 10 minutos do fim deu-se o lance decisivo do encontro: Boulharouz defendeu um remate de Sálvio em cima da linha de golo com a mão, e como não era o guarda-redes esta noite, foi expulso e assinalada a respectiva grande penalidade, que Cardozo não desperdiçou. Aproveitando a vantagem numérica, os encarnados marcaram ainda o terceiro outra vez por Cardozo a quatro minutos do fim, na transformação de um livre. O Sporting continua em crise, ocupando um modesto 11º lugar com 11 pontos, apenas dois acima da linha de água.

Nota: não consegui encontrar um resumo do jogo, situação que espero vir a actualizar mais tarde.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O apelo do apelido


Nota: este artigo não visa descriminar nenhuma família ou alguém em particular. O texto é uma mera dissertação derivada de simples observação, e não é suportado por qualquer investigação ou base científica. Caso alguém se sinta excluído, isto será devido a simples omissão, e nunca intencional.

O apelido, ou “sobrenome”, na norma brasileira, é algo de muito importante, que diz muito do que somos. Herdá-mo-lo dos nossos pais, vamos passá-lo aos nossos filhos, que por sua vez passarão aos seus. Na cultura chinesa atribui-se uma importância especial ao apelido, que leva a que todo o casal minimamente tradicional anseie por um filho varão, que preserve o nome da família para as gerações seguintes. Existem mesmo casos em que são dados os dois apelidos dos pais às crianças, ou que se adopte apenas o apelido da mãe, se esta for filha de alguém rico ou ilustre, mas que não tenha conseguido produzir um herdeiro macho.

Em Macau a esmagadora maioria da população é chinesa, portanto os apelidos predominantes são, logicamente, os chineses. Wong e Chan são os apelidos mais comuns, seguidos pelos Leong, Fong, Cheong, Ho, Lou, e o quase impronunciável Ng, não necessariamente por esta ordem – para uma contagem mais precisa, basta consultar a lista telefónica. Existem dois “wong” e dois “ng” diferentes, mas fiquemos pela romanização. Não existem muitos apelidos chineses, o que significa que pode existir um grupo de indivíduos com apelido “Chan”, sem que isso signifique que sejam familiares. É no fundo o que acontece com os nossos apelidos mais conhecidos: os Santos e os Silvas. Curiosamente o nosso actual Chefe do Executivo tem um apelido relativamente raro: Chui. Pode-se mesmo dizer que alguém com este apelido em Macau tem uma forte probabilidade de estar aparentado com esta familia, conhecida por ser uma das “tradicionais” do território.

Não é muito agradável ter um apelido feio ou que tenha um significado específico, daqueles que puxam pelo dicionário. Mesmo os chineses não se livram desta sina, e existem mesmo apelidos como “morte”, “zero” ou “vinagre” (ver este artigo)
Um dos nossos mais famosos futebolistas de sempre, o meu conterrâneo Paulo Futre, tem um apelido que significa “sovina, maltrapilho, homem desprezível”, se bem que pouca gente pensa nisto quando refere o nome do Paulo, que é um rapaz divertido, sem nenhuma das qualidades inerentes ao seu apelido. Existe ainda lá no Montijo a família “Patego” (simplório, pacóvio), e há apelidos que não lembram ao Diabo: Camelo, Gago, Frasquinho, Abelho, Picão, Bicudo, Regalado, Bugalho, Guedelha e muitos outros. Gente que deve ter vergonha de levar os filhos ao registo civil. Depois há apelidos que sofrem de uma carga histórica ou que ficam associados a pessoas que se destacaram por motivos diversos e nem sempre consensuais, como são os casos de Salazar ou Taveira.

Mesmo o meu apelido, Crespo, não é especialmente feliz, e só beneficia do facto de ser mais ou menos raro. Na escola não me livrei da risota dos colegas quando aparecia num livro de textos qualquer coisas como “cabelo crespo”, e quando oiço no Boletim Meteorológico “mar encrespado de pequena vaga”, sinto que tem qualquer coisa a ver comigo. Mesmo assim é melhor que ter apelidos dados a piadolas ou equívocos, como são Seabra ou Carvalho. Há alguns anos residia em Macau um senhor que era bastante conhecido entre a comunidade portuguesa que tinha “Pé-Curto” como um dos seus apelidos. O meu médico de família lá em Portugal era o dr. Braço-Forte. Isto são apelidos engraçados, com um toque muito nativo-americano, quem sabe de origem apache. Será que existe a família Orelhas-Grandes ou Nariz-Comprido? Qual é o nome completo do Júlio Isidro? Ainda em Macau trabalhou durante alguns anos um jornalista de apelido Barata-Feyo. Sem comentários.

As famílias macaenses, dos portugueses mestiços de Macau, têm uma particularidade curiosa. Sendo portugueses ou cristãos de origem, têm nomes portugueses, apelidos portugueses, e não só. Este assunto dá pano para mangas. Existem apelidos que devem ser praticamente exclusivos a Macau, e que nunca tinha ouvido falar enquanto vivi em Portugal. Pelo menos não se conhece nenhum político, artista, jogador de futebol ou outra personalidade em Portugal que tenha um destes apelidos. São os casos de Manhão, Pedruco, Cachinho, Marreiros, Lameiras, Lagariça ou Estorninho, além dos compostos, como os ilustres Senna Fernandes, os respeitáveis Nolasco da Silva ou ainda os sólidos Madeira de Carvalho, este último um caso curioso, pois especifica o tipo de madeira, e terá uma origem que me aguça a curiosidade.

Os portadores originais destes apelidos eram originários de Portugal, naturalmente, e talvez muitos dos seus descendentes desconheçam o ancestral que lhes deu o apelido. Eram normalmente militares ou marinheiros que se radicaram em Macau, e sendo esta uma sociedade marcadamente patriarcal, eram muito raros, para não dizer inexistentes, os casos de homens chineses casados com mulheres portuguesas – até porque em Macau as mulheres naturais de Portugal não eram assim tantas. Daí que os apelidos tenham passado de geração em geração, resultando em famílias relativamente numerosas, algumas que se ramificam já em primos dos mais variados graus, e em muitos casos espalhadas pelos quatro cantos do globo pela diáspora macaense. A originalidade dos apelidos deve-se possivelmente aos tais portugueses serem, quem sabe, filhos únicos, ou cuja descendência em Portugal se tenha dissipado através do casamento ou da emigração. Ou pode ser que não tenham tido mais descendência. Faria algum sentido se por acaso muitos desses portugueses que chegaram a Macau há várias décadas fossem originários do Alentejo, onde existem apelidos tão raros quanto pitorescos. Mas é claro que existem também famílias macaenses com apelidos bastante comuns em Portugal, e que têm lá ainda parentes, mesmo que distantes. Temos também as famílias Silva, Gonçalves, Ferreira, Pinto, Lopes, Marques ou Rodrigues, entre muitas outras.

Mas os apelidos da comunidade macaense não se cingem à matriz portuguesa. Existem outros de origem diversa, sul-americana, mexicana ou filipina e outras, como são os casos dos Boyol, Gracias, Perez, Carion, Bañares, Badaraco, Basaloco, Anok, Petrovich, Ritchie, Robarts ou Aconcci. Algumas famílias não têm sequer qualquer ligação com Portugal, e outras são descendentes de goeses, africanos e outros estrangeiros, ou cristãos-novos, chineses que adoptaram nome e apelidos portugueses através do baptismo. Uma especificidade curiosa prende-se com a qualidade absorvente da nomástica das famílias macaenses: os descendentes têm sempre nomes portugueses, mesmo nos casos das mulheres que casam com homens chineses, o que vai acontecendo cada vez mais. Mesmo assim têm um nome chinês, o que é sempre muito útil, e que coexiste com o nome português. A origem das famílias macaenses e dos seus apelidos seria sem dúvida um tema interessante de aprofundar. Há alguns anos foi feita uma compilação em dois volumes, intitulada exactamente “Famílias Macaenses”, que de facto enumera as famílias, ascendentes e descendentes, e dá várias pistas, mas não explica tudo.

A Ágata vem cá???


Estava ontem à noite a colocar a escrita em dia, aproveitando o feriado de hoje, com o televisor ligado, quando as minhas antenas se viraram para um programa do tipo especial de Natal do "Portugal no Coração" - não me perguntem como se chama exactamente. Estava lá a cantora Maria Fernanda Pereira de Sousa, mais conhecida pelo nome artístico de Ágata, a primeira-dama do pimba, a Madonna portuguesa, com todo o respeito pelo passado musical da Madonna. Comparo-as apenas em termos de oxigenação capilar, ou de uma certa aura angélica que serve de capa a certas atitudes morais duvidosas, mas pronto, quem sou eu para falar de moral? Penso que a minha comparação não é de todo descabida. Mas voltando ao tal programa. Ágata apresentou o seu single "Amor Italiano" e conversou com Serenella Andrade, que lhe perguntou sobre a sua agenda de espectáculos, e a cantora disse então que tinha muitos convites do estrangeiro, da França, e "da China", mas que não sabe se vai, porque gosta muito de passar tempo com a família e outras lamechices. Mas esperem lá, da China? Foi isto que me deixou com as orelhas espetadas qual cão que se apercebe da presença de outro na rua. Um convite "da China" não será de Xangai ou de Pequim, ou mesmo de Cantão, onde os discos da cantora não deverão ser propriamente um best-seller. Será que vamos ter a Ágata em Macau? É que pelo menos aqui há quem saiba quem ela é, se bem que pessoalmente não conheço nenhum fã assumido. Ou se calhar foi a Ágata que se enganou e disse um disparate, o que não seria a primeira vez. Alguém sabe de alguma coisa? Se souberem, digam-me, nomeadamente quando vai acontecer esse momento inédito e histórico que marca a chegada do pimba à RAEM, que é para ver se aproveito esses dias para fazer um retiro nas estepes geladas da Mongólia, onde os meus ricos ouvidos vão estar devidamente salvaguardados.

Messi recordista


Betis 0-2 Barcelona 发布人 simaotvgolo12
O golo que fez história.

Lionel Messi fez ontem história ao tornar-se no jogador que mais golos marcou em jogos oficiais num ano civil, batendo um recorde de 40 anos (!) que pertencia ao alemão Gerd Müller. Messi, inevitável como a morte, apontou os dois golos da vitória do Barcelona em Sevilha frente ao Real Betis a contar para a liga espanhola, aumentando para 86 o número de golos marcados em 2012, mais um que o mítico avançado teutónico, e quando há ainda alguns jogos para disputar até ao final do ano. Um recorde que merece destaque, uma vez que os tempoa são outros, e que as defesas são bem mais compactas e difícieis de penetrar do que nos longínquos anos 70. Resta saber o que mais vai o mágico argentino tirar da cartola.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Cheira a Natal


Faltam menos de três semanas para o Natal, e como não podia deixar de ser, estão aí as decorações natalícias, um pouco por todo o lado. No Largo do Senado já temos a gigantesca árvore, as iluminações, o palco decorado com o Pai Natal e as renas, e mesmo o edifício do IACM já pendurou o estaminé natalício. É pena que o edifício dos correios esteja actualmente em obras, não nos deixando usufruír das suas decorações de Natal, sempre simples e dentro do bom gosto. Já estão montados os presépios da Sé e da Praia Grande, e nem o anúncio do Papa Bento XVI demoveu o burro e a vaca. Estão os dois lá, marcando a sua habitual presença, alheios ao veto do Vaticano. A obliteração destes dois animais do Presépio só encontra paralelo no afastamento do planeta Plutão do sistema solar. Pode-se mesmo dizer que é uma forma de discriminação. ..e deixem-me perder a cabeça, racismo!

Eu próprio já montei as minhas decorações de Natal: dois sininhos verdes na porta da casa, que surrupiei do jantar de Natal do serviço o ano passado. Não tenho lá muita paciência para árvores, luzes, presépios ou sapatinhos vermelhos forrados de lã. Dá trabalho desarrumar e montar aquilo tudo, e depois dá trabalho desmontar e arrumar, e além disso os motivos natalícios vão contra o meu agnosticismo crónico. Vou passar o Natal a casa da minha mãe, que de certeza tem lá todo o arsenal necessário para dar cor à consoada. Isso, e mais o bacalhau, o perú, as azevias e tudo mais, e aquele bolo tipo torta tão patusco que dá pelo nome de “tronco de natal”. Ah sim, e o bolo-rei, do qual sobra sempre imenso.

Quando era miúdo era uma festa louca montar as decorações natalícias, com destaque para a árvore. Como bom tuga que era, o meu pai ia ao pinhal de Pegões cortar um pinheiro de tamanho médio, indiferente ao facto de estar a cometer uma infracção, nomeadamente invasão de propriedade privada. Mas não era o único, deixem lá. Mesmo em Lisboa vendiam-se pinheiros que serviam de árvore de Natal durante mais ou menos um mês, e depois dos reis eram jogados no lixo. A consciência ambiental e o bom senso substituiram os pinheiros por imitações de plástico, que sempre dão para guardar para o ano seguinte, para toda a eternidade mesmo, passando de geração para geração. Os Verdes e a Quercus já podem parar com a choradeira.

Montar a árvore é um exercício interessante, uma cerimónia com o seu quê de zen, que requeria muita paciência. As bolas e as fitas de Natal, que então saíam da hibernação de quase um ano num caixote dentro da despensa, eram dispostas de modo a não deixar muitos espaços em branco (ou neste caso, “em verde”), e o mais irritante era desatar as luzes de Natal, que têm uma tendência caricata para se enrolarem em complicados nós. Era quase preciso chamar um escuteiro para resolver aquele imbróglio. Haviam sempre umas luzinhas que se fundiam de um ano para o outro, mas como o pai era electricista, não havia problema. Colocar a estrela no topo da árvore e depois os presentes à volta da dita davam a sensação do dever cumprido. A árvore ficava perto da janela da sala, e assim os vizinhos podiam ver as luzes a piscar, não fossem eles esquecer que era Natal.

Acho piada a alguns presépios, que insinuam que caía neve em Jerusalém quando nasceu o salvador – que ainda por cima está completamente nu, coitado. Admiro a criatividade das pessoas que colocam outra bonecada no presépio, como soldadinhos de chumbo, X-men ou Power Rangers. Não sei porquê, mas acho que o Pinóquio ficava ali bem, passo a provocaçãozinha maldosa. Um problema que urge resolver é o das músicas de Natal. É preciso criar músicas novas. A sério, o “Jingle Bells”, o “I saw mommy kissing Santa Claus”, o “Silent Night” ou o “A todos um Bom Natal” do Coro de Sto. Amaro de Oeiras já enjoam. Curiosamente a canção “White Christmas”, de Bing Crosby, o single mais vendido de todos os tempos, é menos popular na época natalícia que as outras que referi. Mas percebo a falta de voluntários para renovar o reportório musical natalício. Deve ser frustrante escrever música que só faz sentido durante duas ou três semanas por ano. Só um maluquinho vai escutar um disco de Natal em Junho.

E pronto, assim temos a cidade preparada para o Natal, esse conceito que é ainda estranho para muitos nesta região. É engraçado como esta época começa a ter mais penetração na comunidade não-cristã, nomeadamente a chinesa, muito por culpa do potencial comercial do evento, e não tanto pelo seu significado religioso. Na China o dia de Natal ainda não é feriado; é um dia como outro qualquer, e os chineses vão trabalhar e vão à escola. Creio que será uma questão de tempo para que se rendam ao Natal, até porque as luzes, as árvores e os pais natais estão ali para os lembrar. O Menino Jesus é que não, que tem muito pouco de revolucionário.




sábado, 8 de dezembro de 2012

Vídeo do ano


O leitor vai pensar que enlouqueci, mas na verdade ainda não tinha publicado aqui este vídeo que foi o mais visto de sempre no Youtube. O mundo ocidental e o restante civilizado não ficou indiferente ao rapper sul-coreano PSY e ao seu "Gangnam Style", que conta já com 910 milhões de visualizações. PSY esteve em Macau na semana passada na discoteca Cubic, recebendo um milhãozito por uma actuação de 5 minutos. O coreano tem viajado pelo mundo inteiro executando aquela dançazinha ridícula ao lado de personalidades de todos os sectores. É caso para dizer que descobriu uma mina de ouro. Bem pelo menos enquanto a coisa dura, o rapaz vai facturando.

Soneto da amada gabada (ainda outro poema de Bocage)


Se tu visses, Josino, a minha amada
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto
Às mais formosas não inveja nada:

Na sua boca Vénus faz morada:
Nos olhos tem Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela, enfim, tudo encanta, tudo agrada:

Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"

Chicha da boa! Não percam!


Atenção pessoal! Como é habitual, a TDM vai passar um filme português na próxima quarta-feira, e desta vez é "98 Octanas", uma fita de 2006, realizada por Fernando Lopes. Já vi este filme (e penso que foi também na TDM), e garanto que é uma bela merda, tal como 99% dos restantes filmes tugas: argumento cagativo, mal escrito, mal representado, uma cura para a insónia mais resistente. Só que o filme conta com Rogério Samora e Carla Chambel, e meus amigos, a Carla Chambel aparece nua! Mamocas e muito mais! Chicha da boa! A Carlinha é de longe a actriz portuguesa que eu mais gostava de levar ao castigo. É linda e sexy. E aparece como veio ao mundo! Portanto se aguentarem a componente artística da treta e os diálogos de embalar sem cairem para o lado de sono e de tédio, serão justamente recompensados. Recomendo especialmente.

Uma China, dois Pachecos


O treinador de futebol Jaime Pacheco esteve no "Cinco para a meia-noite" na última quinta-feira, programa transmitido hoje pela RTPi. O técnico regressou de Portugal depois de dois anos a treinar o Beijing Guo'an, na liga chinesa, tendo conseguido um segundo e terceiro lugar, e ficado no coração dos adeptos pequinenses, que lhe pediram para ficar, debalde. Gostei do programa, animado como sempre, e sou grande fã do apresentador Pedro Fernandes, também ele conhecido por "Pacheco" (o seu apelido do meio), mas hoje fiquei um pouco decepcionado com o teor da conversa.

Pedro Fernandes tentou fazer humor usando o preconceito que ainda existe em Portugal com a China e com os chineses. Preconceito esse derivado de uma gritante ignorância que infelizmente persiste. Quando perguntou a Jaime Pacheco como era a vida na China, Pedro Fernandes usou praticamente todos os clichés possíveis e imaginários: que a língua é impossível de entender, que os chineses comem cães, assam cães na rua, ou que os produtos chineses são defeituosos. O apresentador começou por perguntar "se os árbitros chineses são diferentes dos outros". Eu respondia-lhe logo que sim; que em vez de trajarem de preto como qualquer árbitro em todo o mundo, vestem um roupão amarelo com desenhos de dragões, chapéu em bico, bigode de fu-man-chu e em vez de um apito usam um gongo. Enfim, divirtia-me um bocado com as perguntas parvas.

Uma pergunta que me causou particular estranheza: "Aqui nós temos as lojas dos chineses. Eles lá têm qualquer coisa parecida? Tipo loja dos mexicanos ou isso? Qualquer coisa que já não conseguem ver à frente?". O que é que isto quer dizer exactamente? Se estão "fartos" das lojas dos chineses, e "já não as conseguem ver à frente, deixem de fazer lá compras. É assim tão complicado? Ou são apenas masoquistas e gostam de sofrer fazendo algo que "já não aguentam mais"? Ora essa, não gostam, não comam. Se estão fartos dos chineses boicotem-nos, e se ninguém lá puser os pés nos restaurantes ou nas lojas, eles fecham a porta e se calhar vão embora. Mas isto agora sou eu a ser ingénuo.

Felizmente o treinador manteve a compostura, elogiando os chineses, que sempre o trataram bem, enquanto Pedro Fernandes olhava para ele como se tivesse acabado de voltar de uma longa temporada a habitar entre os esquimós no Pólo Norte. Para ajudar à festa estava lá um humorista brasileiro, um tal Fernando Caruzo, que disse que os chineses eram os melhores do mundo no pingue-pongue e no badminton "porque eram os únicos que jogavam". Que grande cromo. A única coisa que tenho a apontar a Jaime Pacheco foi ter passado dois anos na China sem ter provado a comida chinesa, mostrando-se até pouco receptivo à ideia. Diz que só comia "quando tinha a certeza do que estava a comer", e frequentava um restaurante português da capital chinesa. Paciência, assim aprendeu menos.Mas do Jaime Pacheco, que sempre foi um pouco obtuso, não se podia esperar muito mais.

Ainda estou para perceber porque é que os portugueses continuam a olhar para os chineses como se fossem alguns seres estranhos de um lugar estranho onde tudo "deve ser o contrário de Portugal". Se os chineses se importassem com as graçolas e não nos remetessem à nossa insignificância, ficavam a interrogar-se qual seria a próxima empresa pública semi-falida que tinham que adquirir em Portugal para que se percebesse que não são nenhumas criaturas de outro planeta. Felizmente os portugueses que já visitaram ou viveram na China não devem achar muita piada a este tipo de humor rasteiro e fácil. Para estes é o Pedro Fernandes que se comporta como se fosse um ser estranho de uma realidade distante.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Odeio moscas!


Já que estamos aqui a falar de animais, em defesa dos domésticos, gostava agora falar de outros que não fazem falta nenhuma: as moscas. Se existe um grande equívoco nisto da criação, da evolução, ou que raio de razão pela qual estamos todos aqui hoje, esse são as moscas. Não me dou muito bem com insectos, francamente. São bastante feios, têm um aspecto ameaçador, lâminas e ferrões e coisas microscópicas com uma aparência revoltante. Já algum vez viram uma aranha ampliada no microscópio? Se existe mesmo um Deus, o que estaria a pensar? Por exemplo, morro de medo das louva-a-deus (trauma de infância), e apesar de reconhecer a utilidade das abelhas, borboletas e afins para a polinização e tudo mais, penso que passávamos bem sem a esmagadora maioria dos insectos.

Sendo que os insectos são a espécie mais numerosa no nosso planeta, não teriam qualquer problema em nos dominar, caso fossem dotados de inteligência. Mas não, são bastante estúpidos e previsíveis, e as moscas são um exemplo disso. Acho interessante que em locais onde praticamnente não existem moscas estas apareçam sempre que há um cadáver. Basta morrer um cão na rua para aparecerem logo dúzias de moscas onde nunca antes se tinha visto uma. As moscas têm a particularidade de ser atraídas pela porcaria: comida estragada, lixo, fezes, durians, todo o tipo de podridão. Observando uma mosca em cima de um cagalhão, vemos como ela se delicia, esfrega as patinhas e depois passa-as pela cabeça. A merda deve ser o gel de cabelo das moscas.

Por isso mesmo tenho imenso nojo das moscas. Não consigo comer nada onde tenha pousado uma mosca, e prefiro não pensar que tenha comido algo onde esteve uma mosca. A coisa mais irritante que existe é ter uma mosca a zumbir-nos à volta dos ouvidos, e pior que isso, uma mosca a entrar-nos no nariz enquanto estamos a dormir. O ditado "Em boca fechada não entra mosca" aterroriza-me. Porque é que uma mosca havia de entrar quando abrimos a boca? A piadola "Garçon, há uma mosca na minha sopa" é absolutamente atroz, nojenta. Devia existir uma lei que proibisse falar de moscas ou ilustrar exemplos com moscas. As moscas deviam ser banidas da televisão, cinema, animação, literatura e piqueniques. Existem pessoas com o apelido "Mosca", que deviam imediatamente mudar de nome. Tinha um amigo de infância que usava uns óculos muito graduados e que tinha a alcunha de "mösca", coitado. Isto devia ser considerado uma violação dos direitos humanos.

Existe um filme de terror de 1958, com Vincent Price, mestre do susto, chamado "The Fly" ("A Mosca"), refeito em 1986 com Jeff Goldblum e Geena Davis. Só podia ser mesmo um filme de terror; a ideia de transformar-se em mosca é pior que morrer do mais doloroso dos cancros. Reencarnar numa mosca é um castigo provavelmente reservado a violadores, pedófilos e profanadores de túmulos. Stalin terá reencarnado numa mosca russa. Os U2 tinham uma canção do álbum "Achtung Baby" intitulada "The Fly". Só o bronco do Bono para baptizar uma canção com nome de mosca. Em Portugal eliminava facilmente qualquer mosca que aparecia em casa com a ajuda de um objecto chamado "mata-moscas", a melhor invenção da humanidade depois do fogo, da roda e da internet. As moscas foram feitas para serem mortas. Abaixo as moscas!

Holocausto canino


A ANIMA, Sociedade Protectora dos Animais de Macau, entregou uma carta ao Governo apontando várias lacunas na legislação, que levam a que os bichinhos no território sejam autêntica carne para canhão. O IACM abate anualmente, em média, cerca de 800 cães. Isto são pelo menos dois cães por dia, quinze por semana, mais de 60 por mês. Isto é um verdadeiro Holocausto que está a acontecer bem debaixo dos nossos narizes. E nem os gatinhos, muito mais espertos, escapam ao sabor da injecção letal, sendo abatidos perto de 200 por ano. Isto não é digno de uma sociedade desenvovlida. Isto é uma chacina.

Já nem falo do Canídromo, onde os galgos de corrida são "despachados" quando já não servem para correr. Esta é uma situação que se vai perpetuando e muito boa gente encolhe os ombros. O caso dos galgos do Canídromo só é equiparável à crueldade que são as lutas de galos, e pior que as touradas. É que o boi pelo menos ainda se come. O que mais me choca é que o canil municipal só mantém os animais durante um (1) dia. Alguém que perca o cão de um dia para o outro e por acaso chega lá atrasado fica a saber que o Bóbi já foi parar à inceneradora. Mas porquê só um dia, e não três ou quatro? Não há dinheiro? Não há capacidade? O que se passa aqui? A ANIMA socorre muitas vezes cães zarolhos, pernetas ou portadores de outro tipo de deficiência, os mais vulneráveis ao abandono, toma conta deles e eventualmente coloca-os para adopção. Isto é muito nobre, mas não é suficiente. Por cada cão que é salvo deve haver pela menos meia dúzia que vai servir de adubo.

Já disse aqui o que penso disto. Quem não tem capacidade para tomar conta de um animal de estimação, nunca devia ter um. Os cães são sem dúvida o maior problema, uma vez que os gatos são um bichano desenrascado, que pode dormir debaixo da cama ou dentro do cesto da roupa suja, e tem a tal caixinha onde pode ir fazer as necessidades. Algumas famílias têm um cão em apartamentos de 50 m2 ou menos, e onde vivem três ou quatro pessoas. Há gente - normalmente algumas senhoras de meia idade - que trata os cães como se fossem pessoas. Vestem-lhes roupinha, sapatinhos, um chapéuzinho, dormem com ele e dão-lhes beijinhos, e levam-no ao cabeleireiro ao fim-de-semana. Mas isto são casos pontuais. Muitos outros fartam-se do bicho, ou porque dá muito trabalho, está velho, ladra a meio da noite ou mordeu o puto que lhe puxou a cauda. Depois abandonam o animal, assim sem mais nem menos.

Um espectáculo lamentável com que deparo todos os dias são pessoas a levar o cão à rua para fazer os cocós e xixis. Levam um jornal, metendo debaixo do rabiosque do canino quando este tem vontade de se aliviar, e uma garrafinha de água para salpicar no rio de urina que o bicho deixa no passeio, como se isso fosse uma medida muito sanitária. Se outras civilizações numa galáxia distante estiverem a observar isto, vão pensar que são os cães que estão no comando. Depois há os casos dos cães nos elevadores, que interfere com a liberdade individual de quem não quer partilhar um elevador com um cão, e aqueles mastins que ocupam o passeio inteiro, assustando as pessoas mais sensíveis e as crianças. Macau não é uma cidade muito propícia para que se tenha um cão. Não é "dog-friendly".

Não me entandam mal, adoro cães e gatos. Dou sempre uma festinha a um canito mais engraçado, convivo bem com eles, até porque cresci com cães, e não tenho medo ou nojo deles. O problema é que um cão é um animal que precisa de espaço, um quintal ou uma varanda grande e verdusca onde possa fazer as sua coisas de cão. Constringir um cão a um apartamento é quase como torturá-lo. Não consegue correr, pular ou abanar a cauda sem bater numa mesa ou num armário. E já agora, onde dão banho ao cão? Na mesma banheira onde se lavam as pessoas? Em Macau os únicos sítios ideiais para se ter um cão será em algumas vivendas em Coloane ou na Penha, onde ainda há espaço, e pouco mais.

A solução para que se acabe com este holocausto seria que existissem menos cães. Menos cães, menos mortes. E é claro, que se puna quem abandone os animais, e não assuma a responsabilidade de ter um ser vivo dentro de casa. Um cão não é um animal de sangue frio, não é um peixinho de aquário, não é uma peste como os ratos ou as baratas. Neste aspecto ainda é preciso sair do neolítico e entrar na modernidade. E não digam que não é importante, ou prioritário. Os senhores legisladores andam muito ocupados com o quê, exactamente? Chegou a hora de sermos mais humanos.

Macau, que te querem feia


Artigo publicado na edição de ontem do Hoje Macau.

O Hotel Grand Lisboa, em Macau, foi eleito no último mês de Agosto um dos dez edifícios mais feios do mundo por um conhecido website de viagens. É claro que isto é tudo uma questão de gosto, mas eleger um dos maiores e mais conhecidos investimentos “casineiros” do território um edifício “feio” tem muito que se lhe diga. Isto leva-nos a perguntar: é Macau uma cidade feia e desarrumada? Terá existido um erro de “casting” que levou à construção desenfreada e mal planeada? Será que a nossa querida terra, que tanto amamos, tem edifícios que ferem a vista a quem tenha o mínimo de bom gosto? Grand Lisboa à parte, penso que sim.

É certo que Macau é uma cidade próspera, com uma economia que se recomenda e um exemplo de sucesso, mas os turistas que nos visitam não o fazem pela mesma razão que visitam Barcelona, Paris ou Veneza. Macau não é uma cidade bonita. É uma cachopa que não ficou rica graças aos seus lindos olhos. Mas já foi mais formosa, e a cidade velha – se tal conceito se pode aplicar à sua pequenez – é bem prova disso. Aliás a aposta na preservação dos edifícios históricos e do património foi muito bem feita, e até nos valeu o reconhecimento da UNESCO. Valha-nos isso, pelo menos.

Mesmo assim basta dar uma olhadela do terraço de um prédio mais alto para verificar uma série de equívocos, casos de desleixo gritantes, autêntico terrorismo urbano praticado por patos-bravos e gente incompetente. São edifícios novos e altos encaixados ao lado de outros rasteiros e decadentes, caixas de fósforos improvisadas com o único intuito de vender e enfiar gente lá dentro. Outros envelhecidos e castigados pelo clima quente e húmido, que há muito precisavam de restauração, e cuja degradação se nota mais durante os dias cinzentos. É cinzento sobre cinzento, com grades enferrujadas nas janelas a lembrar gaiolas. Como alguém uma vez disse, Macau vista de alguns pontos parece uma favela. Ninguém se preocupa muito com a estética, e onde existe um terreno o que importa é construir, vender, e lá vão sempre os mesmos a sorrir a caminho do banco. E às vezes constrói-se depressa e mal, sem qualidade, e assim vão aparecendo casos como o do edifício Sin Fung, e quem sabe outros idênticos no futuro.

O mais curioso e até engraçado é a designação que se atribui a muitos destes projectos, tantos deles feios que até dão pena. Alguns edifícios são designados por “jardim” (花园), sem que ali exista uma florzinha que se cheire, e baptizados com nomes apetecíveis, como “Mar Dourado”, “Nova Cidade” ou “Mares do Sul”. O próprio Sin Fung significa “Caridade Abundante”, que se explica pelo facto de um dia o terreno ter pertencido à Associação de Beneficência Tung Sin Tong. Que bonito, só é pena esta história linda ter acabado tão mal. Não sei se é alguma piada, ou se é alguma tradição com “feng-shui” à mistura, mas a verdade é que muita da gente que vive nestes locais com nomes tão bonitos só o faz porque não tem outra alternativa. Na zona do Terminal Marítimo existe um complexo habitacional, o “Centro Internacional de Macau”, nome firme, que inspira confiança, dotado de moradias espaçosas onde residir chegou a ser considerado um luxo. Actualmente é o retrato do degredo e do abandono, serve de morada a todo o tipo de marginais, onde floresce o alojamento ilegal – as tais “pensões ilegais”. É um local muito pouco recomendável. Este é um caso grave de desleixo e que ilustra bem o que se vai passando em Macau. O Centro Internacional foi-se tornando decadente à vista de todos, e ninguém fez nada para o impedir.

É triste olhar para o verdadeiro atentado que tem sido cometido nos últimos anos na zona histórica da cidade, onde o comércio tradicional tem sido obliterado por lojas caras, envidraçadas, com reclames luminosos pirosos e gritantes, e que muito pouco têm a ver com a matriz de Macau. São as joalharias, as relojoarias, as ourivesarias, os cosméticos, as lojas de roupa e calçado de marca. Tudo destinado aos turistas da China continental, que guiados pela sede consumista pouco se importam que ali se esteja a atentar contra um património qualquer. E que venham muitos turistas, que venham mais, que aquelas rendas são bastante caras. Ali não cabe nada de original, indústrias criativas locais e outras brincadeiras.

Mesmo os casinos não destoam desta grande farsa. Falei há pouco de Veneza, e existe mesmo no território uma Veneza em ponto pequeno, e penso que não preciso de nomeá-la – todos a conhecemos. É uma Veneza de papel e plástico, com canais de imitação por onde deslizam sobre água de piscina Gôndolas tristonhas conduzidas por gondoleiros risíveis. Só quem nunca visitou aquela pitoresca cidade italiana pode achar uma ponta de piada a esta quase insultuosa cópia. Mesmo os restantes empreendimentos “casineiros” no COTAI não são propriamente bonitos ou interessantes. Construções de luxo sem um pingo de originalidade ou interesse, cheios de lojas e mais lojas inacessíveis ao residente local médio, e que apenas servem a população de Macau com pontuais locais de entretenimento, mesmo assim caros. Os aterros e os seus casinos serviram o seu propósito original: gerar receitas e criar empregos, mas em termos de beleza e de estética deixam muito a desejar.

Na península de Macau temos na zona do NAPE uma “strip” que muitos comparam à de Las Vegas. Os que nunca foram a Las Vegas, claro. Existe ali um mastodonte baptizado com o nome de um célebre monumento parisiense que vai contra todas as regras de bom senso e que chega mesmo a exceder a altimetria recomendável para aquela zona da cidade, que até está regulada por lei. É mais uma prova do princípio do “posso, quero e mando” que por aqui impera quando se trata de fazer dinheiro. Existe perto do centro um hotel-casino cuja temática é inspirada nas casas reais europeias. Uma macedónia indigesta de motivos, onde convivem lado a lado guardas do palácio de Buckingham e Marias Antonietas de peitos robustos. Perante tudo isto o Grand Lisboa até não fica muito mal na fotografia. Tudo para turista chinês ver, claro, enquanto se encaminha indiferente para aquilo que realmente interessa: o casino.

Não podia deixar aqui de mencionar outros casos lamentáveis de edifícios que estão vetados ao abandono, que ocupam um espaço significativo, à vista de todos, e que se encontram completamente desaproveitados. São exemplo disso o edifício do antigo Tribunal, na Praia Grande, que demora a encontrar uma solução definitiva para o seu uso; o Centro Católico, na Rua do Campo, que a Diocese podia reabilitar e tornar num espaço funcional, depois de pelo menos 15 anos sem servir nenhum propósito; o Hotel Estoril, outrora um dos mais belos de Macau, e actualmente uma ruína decadente; o casino flutuante, outrora uma referência, actualmente a naufragar na zona do Fai Chi Kei, qual barco fantasma; e o caso mais grave de todos, o Hotel Internacional, na Av. Almeida Ribeiro, com um passado respeitável, e que hoje parece ter sido rebentado por um ataque terrorista. Assim como estes devem existir outros na mesma situação, um pouco por todo o território. Não haverá uma forma de obrigar que os seus proprietários resolvam estes atentados urbanísticos com que todos os dias nos deparamos?

Se existe realmente um plano de ordenamento, seja ele para bairros antigos, novos ou seja para o que for que nos querem meter à frente dos olhos, está a ser eternamente adiado ou grosseiramente ignorado. Para os turistas que chegam, mastigam, deitam fora e depois vão embora, pouco importa. Mas e para nós que somos obrigados a viver aqui e vemos a nossa cidade a tornar-se cada vez mais velha, feia e abusada?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer (1907-2012)


O arquitecto Oscar Niemeyer, de 104 anos, morreu hoje no Rio de Janeiro, Brasil. Reconhecido internacionalmente pelas suas obras, completaria 105 anos em 15 de dezembro.

A informação da Globo refere que, esta quarta-feira, um boletim médico informava que o estado de saúde de Niemeyer era considerado grave.

Oscar Niemeyer deu entrada no hospital no dia 2 de novembro, dias depois de ter recebido alta após permanecer quase duas semanas internado por causa de uma desidratação.

Um dos mestres da arquitectura brasileira e responsável pelo desenho da cidade de Brasília, junto com o urbanista Lucio Costa em 1960, Niemeyer também esteve hospitalizado durante três semanas em maio em razão de uma pneumonia e uma desidratação, segundo a AFP.

Vencedor do prémio Pritzker 1988, o equivalente ao Nobel da Arquitectura, o arquiteto assinou mais de 600 obras no mundo e tinha cerca de 20 projetos em andamentos em vários países.

Ecoterrorismo?



Um vídeo que vai fazer as delícias dos cépticos nestas coisas do ambientalismo. Não recomendável aos "verdes".

Olhem para mim, roubei!


Uma adolescente norte-americana publicou um vídeo no YouTube a gabar-se de ter roubado um carro e de assaltado um banco...e foi presa no mesmo dia.

Nem é preciso ser grande fã dos programas 'CSI' para perceber que, depois de cometer um crime, não é muito boa ideia confessá-lo ao mundo. Mas foi isso que Hannah Sabata, uma adolescente norte-americana de 19 anos, fez - e logo no YouTube.

No passado dia 28 de novembro, Hannah Sabata publicou um vídeo, intitulado 'Chick Bank robber' (qualquer coisa como 'miúda ladra de bancos'), no qual contava, através de vários papéis e legendas, que teria roubado um carro e um banco.

Depois de mostrar um saco com drogas, a adolescente de Stromsburg, no Nebraska, exibiu as chaves de um Pontiac Grand Am, que dizia ter roubado, depois de lhe tirar as matrículas.

Apenas com "uma arma, uma fronha de uma almofada e um papel", a adolescente também alegava ter roubado um banco, naquilo que tinha sido "o melhor dia" da sua vida.

Enquanto mostrava diversas notas, a adolescente explicava que tinha mais de 4 mil euros para gastar "nos estudos" e "em compras".

Infelizmente para Sabata, as autoridades locais tiveram acesso ao vídeo e concluíram que a adolescente tinha parecenças com a mulher que tinha assaltado um banco na cidade no dia anterior, pelo que foi presa, de acordo com o "York News Times".

In Expresso

A obrigação do Corão


Uma mãe foi esta quarta-feira considerada culpada da morte do seu filho, de sete anos, por lhe bater a pretexto de a criança ser incapaz de memorizar o Corão, noticia a agência AFP. Licenciada em Matemáticas na Índia, Sara Ege, de 33 anos, tratava o filho como "um cão", batendo-lhe com um pau quando não conseguia memorizar os versos do Corão, segundo as actas do tribunal de Cardiff, no país de Gales.

Considerada hoje culpada de assassínio e obstrução à justiça, vai ter a pena decidida no início de 2013. A polícia pensava inicialmente que a morte do rapaz se devia a um incêndio na casa da família, em julho de 2010, em Cardiff, mas as análises revelaram que a criança estava morta antes do início do fogo. ~

Sara Ege negou ter morto o filho, atribuindo a culpa ao seu marido. Depois de ter admitido a autoria do assassínio, retratou-se, afirmando que tinha sido obrigada a confessar o crime por pressão da família e do marido.

Na sua confissão, a mãe pormenorizou que o filho morreu a murmurar versículos do Corão. Decidiu então queimar o corpo, porque "estava muito nervosa". Afirmou ainda que não conseguia deixar de parar de bater no filho, alegando que era encorajada pelo diabo. Depois de ter sido acusada, esteve internada vários meses numa unidade psiquiátrica.

In Agências

De pequenino se torce o fiscal-de-linha


Um árbitro assistente de um jogo de futebol juvenil, disputado no domingo em Almere, na Holanda, morreu depois de ter sido violentamente agredido por vários jogadores.

Embora a causa da morte não tenha sido anunciada, o "The Guardian" explica que Richard Nieuwenhuizen, de 41 anos, que desempenhava as funções de fiscal de linha, desmaiou na sequência das agressões e foi levado para o hospital após ter sido esmurrado e pontapeado com extrema violência por alguns elementos do Nieuw Sloten, a equipa visitante.

Segundo um comunicado da SC Buitenboys, a equipa anfitriã, Nieuwenhuizen morreu já na segunda-feira. As autoridades abriram entretanto uma investigação e três jovens, entre os 15 e pos 16 anos, foram detidos.

Por seu turno, o Nieuw Sloten anunciou a expulsão desses três jogadores e a intenção de retirar a equipa das competições, sublinhando que "incidentes deste género não podem acontecer num campo de futebol"

Edith Schippers, ministra do Desporto da Holanda, também se revelou "chocada" com o que considera um episódio "absolutamente horrível", a que a "federação holandesa e a Justiça" terão de reagir de forma "muito dura".

In Expresso

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Macautona


1) Depois da “bronca” do hino no Grande Prémio duas semanas antes, foi agora a vez da Maratona Internacional de Macau ser vítima de uma certa dificuldade que tem existido em organizar eventos desportivos em Macau. Os altletas viraram à esquerda em vez de virar à direita à saída do estádio, e acabaram por correr mais 3 quilómetros, além dos 42 previstos. Para quem é muito optimista, isto até não é assim muito mau.: Macau acaba de inventar uma distância nova. Podiam baptizá-la de “Macautona”, ficava bem. Falando mais a sério, isto é bastante mau para uma cidade que se quer uma referência em termos internacionais. Os maratonistas não devem ter achado piada mesmo nenhuma. Imaginem que se batia um recorde do mundo ou algo assim dentro da distância regulamentar? E afinal muitos viajaram de longe para disputar uma prova que até tem alguma história, e que se quer uma referência no calendário internacional. Talvez fosse altura para quem organiza este tipo de eventos tomar um pouco mais de atenção, e certificar-se que é gente competente quem sinaliza, toma conta dos hinos, bandeiras e tudo mais. Isto sob o risco de qualquer dia sermos conhecidos como uma “anedota”.

2) A selecção de hóquei em patins de Macau regressa hoje ao território depois do 6º lugar obtido no mundial “B”da modalidade, disputado no longínquo Uruguai. Foi preparada uma recepção calorosa aos atletas, que no dia 20 vão ser distinguidos pelo governo da RAEM. Até que enfim, digo eu! Parece que finalmente alguém se apercebeu que existe um desporto em que Macau não é insignificante ou simplesmente humilhado. Se calhar estavam só à espera que a equipa de Alberto Lisboa conquistasse sete títulos asiáticos. Em 2005 disputaram o mundial “A” – o único mundial que Macau alguma vez disputou em qualquer modalidade – e na altura estavam-se todos nas tintas. Se calhar um 6º lugar num mundial “B” vale mais. Ouro sobre azul seria juntar à tal medalhazinha de mérito um local para treinar mais assiduamente, de modo a que modalidade continue a evoluir e a fazer bons resultados lá fora. Além do hóquei em patins, em que outro desporto colectivo conseguimos bater Israel, México ou Egipto, e discutir taco-a-taco resultados com Áustria, Holanda ou Inglaterra?

3) Escutei hoje a entrevista de Gilberto Lopes ao director dos Serviços de Polícia Unitários (SPU), José Proença Branco, no âmbito do programa Parelelo 22, da Rádio Macau, hoje dedicado às seitas e à libertação de Pang Nga Koi. Admiro e respeito bastante Proença Bramco. Um verdadeiro “duro”, o homem certo no lugar certo, que fala pouco mas fala bem, e quando deve falar. Fosse ele um manga-de-alpaca e certamente seria um excelente candidato ao posto de secretário da sua área. Mas Proença Branco é um homem que arregaça as mangas e faz o trabalho sujo de zelar pela nossa segurança, e todos nos sentimos seguros por o ter no lugar em que está. Seguro a entrevista, o chefe dos SPU diz que aqueles serviços estão atentos a todas as movimentações do mundo do crime, a cooperação e a partilha de informações a nível regional e internacional é substancial, e que dificilmente se repetirão situações como os terríveis meses de 1998, onde o crime violento acontecia em plena luz do dia. Dormimos todos muito mais descansados.

Mangar com a tropa


1) O Telejornal da TDM noticiou no Domingo que um centro privado na Taipa que dá apoio a crianças deficientes vai encerrar, devido ao preço incomportável das rendas. O tal centro, dirigido por uma conhecida senhora sul-americana residente em Macau há vários anos, vai dar lugar a um restaurante. A renda inicial era de 4000 patacas, depressa passou para 14 mil, e depois para 21 mil, acima das possibilidades da instituição. Não sei quando chegámos ao ponto de que até uma instituição que auxilia crianças inadaptadas serve para fazer dinheiro. Isto enoja-me, dá-me a volta ao estômago. Ai sim, mais um restaurante, que é mesmo o que faz mais falta na Taipa, muito provavelmente mais um casa de sopa de fitas ou um entreposto de chu-pa-paos. Esta gente não tem consciência, porque isso ainda é uma das poucas coisas que não se compram. Isto é mangar com a tropa.

2) Wan Kuok Koi foi libertado na madrugada do útlimo Sábado, e foi seguido por uma horda de jornalistas que queriam saber os seus próximos passos. O ex-líder da seita 14 quilates só disse que queria “que o deixassem em paz”, e que não tencionava voltar à vida do crime. Isto é que é sinceridade: o crime é uma coisa que já não lhe assiste. Nada de especial, pois afinal a sua família ainda controla algumas salas VIP do jogo em Macau, e dinheiro é coisa que não vai faltar. Gostei de ver o senhor, que mantém um óptimo aspecto, apesar dos seus mais de 50 anos de idade, e 14 dos últimos passados atrás das grades. Aparentemente o nervoso miudinho que se apoderou das autoridades não se justifica, e a marcação cerrada ao “Dente” não faz sentido. Wan Kuok Koi não quer mangar com a tropa.

3) O Chefe do Executivo anunciou durante o jantar de Natal da ATFPM que os funcionários públicos serão aumentados em 6% em 2013. Uma boa notícia para os FP, onde me incluo: se o chefe disse que vão haver aumentos, vão mesmo haver aumentos. Contudo os 6% provocam-me um sorriso vertical. Quando um café aumenta de 10 para 12 patacas, isto é um aumento de 20%. Quando um prato num restaurante aumenta de 40 para 45 patacas, é um aumento de mais de 10%. Desculpem mas não percebo nada de economia, mas sinceramente considero isto da inflação muito relativo. Mesmo sabendo que vamos ter aumento, agora resta saber os detalhes: quando vai ser? Vamos ter retroactivos a contar do mês de Janeiro? Será a promessa do CE uma forma de pressão e uma vitória antecipada para os FP? Como se sabe entre a Administração e a ATFPM existe uma certa má vontade, uma guerra silenciosa. E as rajadas de bosta atiradas dos canhões de ambos os lados pingam sobre 28 mil funcionários que têm contas para pagar e vêm tudo cada vez mais caro. Isto é que é realmente mangar com a tropa.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Macau do adeus até "logos"


Tenho um colega e amigo macaense que se orgulha de nunca ter lido um livro em toda a sua vida. Orgulha-se sobretudo porque isto nunca foi uma exigência para que se sentisse realizado. Nunca leu um livro, ou sequer lhe passou pela cabeça pegar num livro e ler, porque ler “dá sono”, e além disso os clássicos estão “desactualizados”, e “não se enquadram na realidade actual”. Talvez isto faça sentido…no tempo de Dickens e do Marquês de Sade não existiam telemóveis e internet. Socorre-se ainda de um provérbio chinês que diz que “aprende-se mais viajando do que lendo livros”, ou qualquer coisa assim. Também não interessa porque é um provérbio parvo. Quer dizer que melhor que ler a “Volta ao mundo em 80 dias” de Júlio Verne é…dar a volta ao mundo em 80 dias? E desde quando é que ler é incompatível com viajar? Qualquer turista que se preze leva consigo qualquer coisinha para ler durante as viagens, e mesmo além disso.

O meu colega defende-se com as estatísticas, e diz que em Macau é muito fácil encontrar quem nunca tenha lido um livro na vida. Aí ele é bem capaz de ter alguma razão. Há livros e há livros, e atendendo que a esmagadora maioria da comunidade chinesa não domina uma língua estrangeira, fica dependente dos livros na sua língua materna. Não sei bem o que se passa nas livrarias chinesas, mas tenho a certeza que a maioria deixa de fora as traduções para chinês dos clássicos (que existem), ora porque desconhecem o autor ou porque versam sobre uma realidade ocidental, venha o Diabo e escolha. Para o chinês comum o interior do Brasil que tão bem descreve Jorge Amado em “Gabriela cravo e canela” ou a França revolucionária de “Les Misérables”, de Victor Hugo são realidades distantes e dizem-lhes muito pouco. Desconfio que se inclinem para novelas ou romances chineses, onde pouco se aprende, obviamente. O leitor chinês é em geral muito pouco globalizado, é fechado no seu mundo. E para isto nem é preciso inquiri-lo sobre os seus hábitos de leitura. É algo que se percebe facilmente, da sua vivência no dia-a-dia.

Se os hábitos de leitura forem uma herança da presença portuguesa, então o caso está muito mal parado. Os portugueses são, de um modo geral, uns grunhos que acham que ler é uma “perda de tempo”. Lembro-me quando era jovem nas férias de Verão escutar uns indígenas que ficavam estupefactos com a imagem de turistas alemães e ingleses a ler na praia: “Olha pra estes gajos, gastam massa para vir até cá e ficam ali a ler, fosga-se!”. Pois é, não se andavam a embebedar ou a dar quecas nas camones fêmeas…estavam a ler livros, os palermas. Existe ainda em Portugal o preconceito de que quem lê muito “é culto”, ou “intelectual”. Nada mais errado. Mesmo uma grande cavalgadura pode gostar de ler, e até entende o que lê. Basta-lhe ter adquirido esse hábito.

Tinha um professor, que ainda hoje contacto e venero como se fosse um semi-deus, que nos obrigava a ler pelo menos um livro por mês e apresentar um resumo. Isto pode parecer uma ideia um bocado fascista (por exemplo, detestei “Viagens na minha terra”, de Garrett), mas resulta. Ser obrigado a ler e a perceber um livro, é como perder a virgindade. Se for um livro bom que nos cative, é como um amante competente. Se for um livro que não gostamos, tentamos outra vez. Depois de rompido o hímen literário, que é como quem diz, cultivado o gosto pela leitura, procuram-se livros bons para ler. “Os Maias”, por exemplo, leitura obrigatória no 11º ano, lio-o de uma assentada, num fim-de-semana. Foi como fazer amor com a Dita Von Teese – nunca podia ser mau. Quem nunca leu um livro porque nunca foi obrigado não entende isto. Não sabe o que é bom.

Voltando aos hábitos de leitura regionais, não sei o que se passa no continente chinês, até porque as opções são condicionadas pela existência da censura, mas sei que em Taiwan, por exemplo, existem bons hábitos de leitura. Cada taiwanês com o secundário completo lê em média sete ou oito livros por ano. Isto vale por dizer que por cada taiwanês que nunca leu um livro, existem outros que os devoram. Isto é excelente. Por cada néscio deviam existir sempre dois ou três literados. Olhando aqui para o lado, em Hong Kong, a situação torna-se ainda mais aguda: Macau é um deserto cultural comparado com a ex-colónia vizinha.

Para isso basta comparar as livrarias de Macau com as de Hong Kong para se ficar completamente esclarecido. Não é a toa que muitos honconguenses dominam o inglês e orgulham-se disso. Foram obrigados a ler! A aprender! Se os residentes de Macau desprezam os de Hong Kong por achar que eles “têm a mania que são espertos”, têm nesse desprezo um fundamento válido, mas fatalista. É que a malta de Hong Kong lê mais, e melhor, e por isso tem a cabecinha cheia de coisas úteis, que sempre pode usar quando chega a hora de fazer a diferença. Não podemos censurar os nossos vizinhos por se terem dotado de maior elasticidade cerebral. Também tivemos essa oportunidade mas desperdiçá-mo-la, porque não quisemos “perder tempo” a ler.

Em Macau a Livraria Portuguesa tem uma oferta fantástica para a dimensão do território e para a sua restrita clientela, mas com o óbice de ser quase toda (toda, mesmo?) em português. Isto serve a comunidade lusófona, sem dúvida, mas faz muito pouco pela média global. Por acaso a maioria dos portugueses da metrópole que vivem actualmente em Macau têm não só uma educação superior mas também bons hábitos de leitura, e por isso a Livraria prospera. Antes de 1999 tinhamos por aí alguns compatriotas que se limitavam a garimpar a colónia, mesmo os menos qualificados, e felizmente hoje apenas os mais intelectualmente apetrechados sobrevivem. Não tirem segundas leituras disto, mas as coisas são o que são, e o tempo dos generais que não liam já acabou.

O ideal seria que Macau, para bem da massa cinzenta que existe na cabeça de cada um adquirisse mais hábitos de leitura. Que em vez dos romances chineses ou os manga japoneses os estudantes enfiassem nas malas autores como Mark Twain, Tolstoi, Jean-Paul Sartre, George Orwell (é uma vergonha que pouca gente tenha ouvido falar do autor de “1984” ou “Animal Farm”) ou mesmo José Saramago, já com traduções disponíveis em chinês. Era saudável que suspirassem com a poesia de Lord Byron, Percy Shelley ou James Joyce – era interessante traduzir Bocage e Pessoa para a língua chinesa, certamente derrubavam muitas barreiras literárias. É triste que conheçam Sherlock Holmes dos enlatados hollywoodescos mas não saibam que há mais de cem anos um tal Arthur Conan Doyle criou este herói e que existe uma vasta literatura muito mais excitante que os músculos e a cara bonita de Robert Downey Jr. E sobretudo é importante que leiam. E se não lerem, que pelo menos não se orgulhem disso, como o meu amigo. Assim Macau passava a ser também a cidade do conhecimento, do “logos”, em vez de ser apenas a cidade do “adeus, até logo”.



Resenha futebolística


O FC Porto perdeu pela primeira vez na presente época futebolística, tornando-se a última equipa europeia dos principais campeonatos a conhecer o sabor da derrota. Foi em Braga, em jogo a contar para a Taça de Portugal. Os bracarenses vingaram-se da derrota na semana anterior para o campeonato, e levaram a melhor no Estádio AXA, por duas bolas a uma. Os dragões ainda estiveram em vantagem, graças a um golo de Mangala ainda na primeira parte. Contudo a expulsão do médio Henrique Castro baralhou o esquema da equipa de Vítor Pereira, e o Braga deu a volta ao resultado, graças a um autogolo de Danilo e outro do avançado internacional Éder. Noutros jogos da Taça destaque para o Arouca, que depois de ter eliminado o Rio Ave na eliminatória anterior, voltou a ser tomba-gigantes, ao eliminar o Beira Mar por 2-1.

Em Espanha o Real Madrid bateu o Atlético por 2-0 no derby da capital espanhola. O português Cristiano Ronaldo inaugurou o marcador “à bomba”, e Ozil acrescentou para a equipa da casa. Quem beneficiou com isto foi o Barcelona, que ampliou para seis pontos a vantagem para os colchoneros e mantem 11 pontos sobre os merengues. Os catalães golearam o Athletic Bilbao por 5-1, com o inevitável Messi a marcar mais dois golos.

Em Inglaterra o Manchester United ampliou para três pontos a vantagem sobre o rival City, ao vencer por 4-3 em Reading, num jogo em que todos os golos foram marcados no primeiro tempo. O City não foi além de um empate a uma bola em casa frente ao Everton, enquanto o Chelsea foi derrotado no reduto do West Ham por 1-3. Os “blues” ainda não ganharam qualquer jogo desde a chegada do treinador espanhol Rafa Benítez.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Dente solto


O ex-líder da seita 14 quilates (14K), Wan Kwok Koi, mais conhecido por Pan Nga Koi (ou dente partido), saíu ontem em liberdade depois de cumprir uma pena de 13 anos e 10 meses de prisão por tentativa de homicídio e associação criminosa. Ou qualquer coisa do tipo. O Dente – chamemos-lhe assim para simplificar – foi detido em 1998 depois de um período de terror em Macau em que praticamente todos os dias haviam tiroteios ou eram cometidos assassinatos selectivos. Ufa, aquilo era um tempo complicado para se sair de casa sem levar um tiro. Um belo dia, o director da Polícia Judiciária, um tal Marques Baptista, foi fazer jogging no circuito da Guia. Coisa provavelmente rara, dada a moldura bastante larga do sr. Baptista. Um cão-polícia alertou para uma bomba plantada no carro do director, e o resto já se sabe. No mesmo dia o alegado líder da seita que controlava o jogo em Macau foi detido num restaurante do Hotel Lisboa, e para quem era ignorante dos meandros destas coisas da máfia macaense – como era eu próprio – o “dente partido” passou a ser uma referência na imprensa e na opinião pública.

No ano seguinte, poucos meses antes da transferência de soberania, o Dente foi julgado em dois meses por um juíz encomendado especialmente de Portugal e condenado a mais de uma década “à sombra”. Houve quem tivesse entendido isto como uma “limpeza da casa” antes de a entregar para os novos senhorios. É um facto que este Dente não era nenhum santo; produziu um filme sobre ele próprio que levou a que as autoridades fechassem o acesso à ponte Nobre de Carvalho durante várias horas durante as filmagens, ostentava jóias e carros caros, sem o mínimo de pudor. Contudo a forma com que se manipulou o elemento da prova gerou discussão entre os operadores do direito em Macau.

Os primeiros tempos da RAEM foram bastante tranquilos, e as seitas andavam com a crista baixa. O próprio responsável pelos Serviços de Polícia Unitários (SPU), o comandante José Proença Branco, afirmava com orgulho que as seitas “já não operavam em plena luz do dia”. Era mais um tipo de problema encontrado por quem não ia para a caminha cedo. O único sobressalto deu-se com o rapto do advogado Jorge Neto Valente, em 2001, no entanto rapidamente resolvido pelo Grupo de Operações Especiais (GOES), que matou os maus e salvou o herói.

Chegou a atribuição de licenças de jogo a concessionárias estrangeiras em 2004, o fim do monopólio da STDM (entretanto rebaptizada SJM) e foi aquilo que se sabe: receitas espectaculares à prova de qualquer crise, e apesar de continuar a existir agiotagem e outro tipo de criminalidade relacionada com os casinos, nunca mais se falou de seitas. Até ontem! Semanas antes da saída do Dente entrou-se numa contagem descrescente até ao juízo final. Dias antes da sua libertação foi detido o seu nº 2, braço direito, chamem-lhe o que quiserem, Arturo Calderon, considerado o cérebro das operações do Dente durante os dias dourados da máfia macaense. Detido aliás em circunstâncias estranhas, que levam a duvidar da versão da “coincidência”. O homem andou em liberdade durante três anos sem que ninguém desse por nada, e subitamente teve uma recaída e foram encontradas armas na sua casa, e foi indiciado como suspeito de um homicídio encomendado.

A saída de Dente da cadeia deixou as autoridades borradas de medo. É difícil perceber porquê, uma vez que o senhor passou quase década e meia atrás das grades, e estará completamente alheado da nova realidade do território. Eu até digo na brincadeira que quando ele visitar o Venetian ou o Wynn vai ficar de boca aberta. Ou será mesmo assim? Terá este Dente mantido uma ligação com os meandros do jogo? Estará actualizado? Terão as autoridadades acesso a inteligência que dê o Dente como um elemente potencialmente perigoso? Será isto apenas excesso de zelo? A resposta será dada em breve. Não percam os próximos capítulos.

Macau acaba em 6º lugar


A selecção de Macau terminou a participação no mundial B de hóquei em patins no sexto lugar, depois e ter vencido Israel no último dia por 7-1. O cinco de Alberto Lisboa dispotou a poule para apurar o 5º classificado, tendo vencido Egipto, México e Israel, e perdido apenas com a Holanda (1-3), que terminou na quinta posição. A participação macaense saldou-se em quatro vitórias e três derrotas. A África do Sul foi campeã ao derrotar a Inglaterra na final por 4-3, enquanto a Áustria venceu o Uruguai por 3-1 no jogo de apuramento do 3º classificado. Sul-africanos, ingleses e austríacos vão disputar o mundial A que se realiza no próximo ano em Angola.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Parabéns à malta!


O grupo do Facebook “Conversas entre a malta” comemorou ontem com pompa e circunstância no Clube Militar o seu 1º aniversário. O grupo, que conta com quase 900 membros, foi fundado no início de Novembro de 2011, realizou dois jantares-convívio antes deste, que assinalou um ano desde que um grupo de amigos macaenses decidiu fundar na rede social um espaço de discussão sobre temas de Macau. Uma espécie de fórum onde se debatem temas locais, e que contam com gente que conhece o território como ninguém, e que garantem uma discussão com sentido e objectividade.

A festa contou com (bem) mais de uma centena de convidados, e estiveram presentes, ou fizeram-se representar, praticamente todas as figuras de proa da comunidade macaense. A “malta” já não deixa ninguém indiferente. Conversei cá fora durante alguns minutos com o meu amigo Miguel da Rosa Duque, ele próprio descendente de uma ilustre família macaense, e ambos concordámos que estas são iniciativas que trazem de volta a antiga e salutar tradição das tertúlias entre elementos da comunidade portuguesa. Pouco importa que sejam eles macaenses, ou “filhos da terra”, portugueses da metrópole ou outros lusófonos radicados em Macau, ou chineses “aportuguesados”.

Ninguém se sentiu isolado, houve convívio do bom e do genuíno, música portuguesa e macaense, e não faltou o “nosso” Elvis, o macaense Rudy Souza, que mais do que apresentar o seu habitual reportório conviveu também com a “malta”, onde só tem amigos. E não foi só ele quem sentiu o calor e a amizade da “malta”. É da “malta” quem convive com a “malta”, e não existem requisitos de origem, estrato social ou etnicidade. As associações de matriz portuguesa estiveram presentes, tanto na figura do presidente da Associação dos Macaenses (ADM), Miguel de Senna Fernandes, a presidente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os países de Língua Portuguesa (Macau), Rita Santos, que muito gentilmente distribuíu recordações entre todos os convidados, o presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM), o deputado José Pereira Coutinho, e até o presidente da Santa Casa da Misericórdia, António José de Freitas. Todos se confundiram com a “malta”, e com ela conviveram.

O que mais me comoveu foi a própria valia do evento: portugueses de Macau e outros de origens diversas, juntos no Clube Militar, um dos espaços por excelência da lusitanidade de Macau, e sem elitismos ou diferenciações que muitas vezes existem quando a comunidade se encontra. Na “malta” não existem rótulos. Ou são todos da “malta”, ou não estão ali a fazer nada. Numa sala ao lado estava um grupo de sócios ilustres daquele grémio que usufruíam do espaço caro que pagam todos os meses e espreitavam com curiosidade o jantar da “malta”, e estranhavam o “cheiro do povo”; fazia-lhes confusão a simplicidade e a espontaneidade da “malta”. Também se estes senhores que se consideram elites um dia queiram dar o braço à “malta”, e cantalorar juntos o “Macau sã Assi”, são bem vindos. Só lhes falta o espírito da “malta”.

Mais do que o grupo de amigos que fundou a “malta” – não conheço todos e nem me interessa quem são – a “malta” é o produto de uma massa anónima e silenciosa que existe em Macau desde a transferência de soberania. São pessoas que nasceram e viveram sempre em Macau, ou passaram aqui a maior parte das suas vidas (como eu próprio) que optaram por permanecer na RAEM mas ficaram sem saber muito bem o papel que desempenhavam. Ora agora estão aí para ficar. É impossível ignorar o valor da “malta”, e só lhes resta manterem-se fiéis à ideia original, que é muito boa. Nada de adulterações, se faz favor.

Parabéns à “malta”, e que contem muitos e bons anos. Sobretudo que encontrem gente jovem que queira levar a “malta” aos ombros para todo o sempre, mesmo depois de 2049, aquela data que tantos vaticinam para o “fim de Macau”. Olhem que já tinham feito o mesmo para 1999, e enganaram-se. Enquanto houver “malta”, continuará a existir Macau. E não há prazo.

PS: O “pisidente” do grupo é um tal Hugo Silva Jr., um boémio por natureza que representa o espírito da “malta” melhor que ninguém. Para se juntar à “malta” basta ir ao Facebook e procurar “Conversas entre a malta”, e fazer o pedido. É bem vindo quem vier por bem, para fazer parte da “malta”.

Bairro do Oriente - 5 anos


Passam hoje cinco anos desde a criação deste espaço, o Bairro do Oriente. É engraçado como já passou todo este tempo desde que sofri as dores de parto para dar à luz este filho. Este petiz que apesar da sua tenra idade – só para o ano vai para a escola primária – é bastante crescido, bastante calejado. São quase 8000 artigos, mais de 30 mil comentários, quase 600 mil visitas e perto de um milhão de visionamentos. As estatísticas para mim são apenas números, e o que mais me importa é a forma como, nas horas mortas, me entretenho a ler postagens antigas, e pensar “o que teria tomado eu nesse dia?”. Mesmo assim, e modéstia à parte, algumas são de puro génio, e reflectem o que este autor sente sobre a terra que tanto ama, Macau.

Que me desculpe a concorrência, mas mais nenhum blogue no mundo esmiuçou esta terra como eu o fiz nestes cinco anos, nem em toda a eternidade existirá outro igual. Outra vez, desculpem-me a vaidade, mas isto não é uma mera opinião – é um facto indesmentível. Desde notícias da actualidade local, muitas em primeira mão, passando por opiniões sobre as mais diversas vivências, acabando em descrições detalhadas e meticulosas, acompanhadas de imagens recolhidas in loco, no Bairro do Oriente há um pouco de tudo sobre Macau. Tenho quase a certeza que se o hospedeiro deste blogue, o Blogger, nunca se extinguir, mesmo daqui a milhares de anos o Bairro do Oriente será um documento indispensável para perceber o que foram os primeiros anos da RAEM, ou do Macau pós-colonial.

Tenho pena de não ter começado antes de Março de 2006, altura em que criei o “Leocardo”, o antecessor deste blogue, do qual restou apenas o pseudónimo do seu autor. Ideias não me faltavam, e muito menos vontade, mas por uma ou outra razão o projecto foi sendo adiado. Em 2003 ou 2004, não me recordo bem, iniciei um blogue em inglês, tão pobrezinho que a sua existência não passou de um post introdutório parvo e sem sentido. Contudo estava lançada a semente, e era inevitável o aparecimento do espaço que em tempos mais deu que falar entre a comunidade lusófona do território.

Macau é uma cidade diferente do que era antes de 1999, e muita gente não tinha bem a certeza se era sensato usar a internet como media para divulgar a actualidade desta cidade. Sinto que, e mais uma vez passando por arrogante, derrubei barreiras e arrepiei caminho para a opinião livre, e hoje outros espaços no ciberespaço imitam, ou inspiram-se, no Bairro do Oriente. Há alguns meses resolvi sair do anonimato, porque achei que já não fazia sentido. Não ia ser uma média de mais de 600 leitores diários, nos tempos áureos, que justificava uma enorme manobra de diversão e uma farsa que lutava para manter todos os dias, sendo obrigado a mentir, algo que me desagrada. Ninguém ganha um tostão que seja por visita, e há blogues que têm milhares de visitas diárias e nem por isso os seus autores se escondem debaixo da capa do anonimato. Alguns têm um currículo que os precede, e basta-lhes escrever meia dúzia de linhas ou postar um ou dois links para serem lidos por milhares. Nada como isto que estou aqui a fazer.

Hoje quase toda a gente sabe que sou o Luís Crespo, aquele gajo jeitoso na fotografia. E é como Luís Crespo, o honesto cidadão e pai de família, que vos agradeço pela preferência e pela paciência. Mesmo que a tanto custo tenha tolerado mil e uma coisas – mesmo insultos dirigidos aos meus mais queridos – para manter um espaço de discussão onde a comunidade dissesse de sua justiça, uns mais bem intencionados, outros apenas com o intuito de mexer cócó com uma colher de pau, para cheirar mais mal, como diz aquela expressão inglesa aqui rudemente traduzida. Mesmo para esses o meu pedido de desculpas por não ter partilhado da vossa visão do mundo. No Bairro do Oriente todos tinham e têm o direito ao contraditório, por mais descabido que este seja.

O blogue vai continuar enquanto eu continuar a vestir esta pele, e fiel ao princípio que sempre defendi: mesmo que escrevesse para apenas um leitor, continuaria a escrever. Escrever até que a gota derivada do ácido úrico consuma os dedos das minhas mãos, e mesmo assim escreverei com um pauzinho na boca ou contratarei alguém (de preferência uma gaja boa) que escreva o que eu dito. Ou então até me fartar disto, e caso seja esse o motivo, os leitores vão ser os primeiros a saber. Feliz aniversário, amigos. E digam lá…cinco anos é obra, não é? É do caralho.

Luís Crespo

A SIDA que tem sido



Hoje, dia 1 de Dezembro, é dia mundial da SIDA. Um flagelo que cada vez tem menos impacto nos países ricos, onde os avanços na medicina permitem que os infectados com este vírus que até há 20 anos significava morte certa vivam com qualidade. Ser seropositivo em países como os Estados Unidos, Reino Unido, França ou até Portugal, é quase a mesma coisa que ser diabético. Basta alguma disciplina para que um diagnóstico que outrora seria uma sentença de morte passe a uma simples "condição médica". Contudo o vírus VIH continua a matar na África e na Ásia, onde tem hoje mais incidência e os doentes não usufruem das mesmas benesses. Mesmo em Macau os doentes com SIDA continuam a encarar, a juntar à doença, o preconceito, essa coisa que torna algo praticamente indolor numa dor sem alívio. Nesta data que se assinala, e que queremos que passe à história qualquer dia, é preciso relembrar que a prevenção é ainda a única alternativa à cura, que não existe. Sobretudo lembre-se disto: nos dias que correm a discriminação e a ignorância chegam a ser muitas vezes piores que qualquer infecção.

PS: gostava de vos deixar com um dos primeiros temas musicais que falou abertamente da doença: "Sign O'the Times" de Prince. Ano de 1986, quando o terror era uma realidade.