quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Comunistas comodistas


Deliciosa a reportagem de Sónia Nunes para o Ponto Final da última segunda-feira, Macau e os primeiros comunistas. Um artigo cheio de episódios deliciosos, e que conta ainda com a útil ajuda do historiador e presidente do Instituto Confúcio em Portugal, Moisés da Silva Fernandes, especalista em assuntos sínicos.

Em primeiro lugar gostava de deixar claro que não nutro qualquer simpatia pelo comunismo ou pelos Partidos ditos comunistas por esse mundo fora, mas contudo dou-lhes mérito pela sua capacidade organizativa, pela forma como faziam da clandestinidade um modo de vida, pela força das suas convicções. Uma ideologia feita do homem para o homem, e que no seu tempo serviu para chocalhar com o marasmo vigente imposto pelo grande capital e a hegemonia da Igreja. São absolutamente condenáveis os excessos praticados pelos estalinismo, o maoismo e outras escolas, que levaram à morte e à ruína de milhões de pessoas. Um equívoco trágico.

Macau só começou a sentir os ventos da revolução chinesa nos anos 60, especialmente depois do início da Revolução Cultural, a tal que subverteu todo o tipo de valores e que é um poço sem fundo de relatos e curiosidades, ainda hoje. O regime colonialista português estava enfraquecido e a braços com a Guerra Colonial, e os eventos do "1,2,3" - assim chamado por causa do início da data dos eventos, 3 de Dezembro (12/3, na datagem inglesa) de 1966. Foi o início do fim do domínio português em Macau. Os "patriotas" de Macau sabiam muito bem que uma eventual mudança do poder em Macau seria sempre a favor do PC chinês, e quem tinha interesses a defender deveria estar sempre do lado certo da barricada. Do lado do único vencedor possível.

O equilíbrio do poder em Macau foi sempre muito agridoce, partilhado por dois polos completamente divergentes. De um lado os comunistas, extremistas e radicais, do outro lado os portugueses, ou a elite macaense, então dedignada por "portugueses de Macau", ala católica e conservadora. A revolução de 25/4 de 1974 nunca se fez sentir em Macau. Aqui todos os verões são quentes, e já agora húmidos. Para quê trazer para o território o Gonçalvismo, se o maoismo já se fazia sentir em todo o seu esplendor? Duvido que Cunhal, entretido com os seus amiguinhos sovietes, alguma vez se tenha preocupado com Macau. Nem convinha meter a sua colherzinha comuna na China, que na altura estava de costas voltadas com os ursos da URSS.

O artigo do Ponto Final dá uma descrição cronológica dos acontecimentos e das cogitações da sociedade macaense. É interessante notar que estes "patriotas", com destaque para Ho Yin e Ma Man Kei, eram homens de negócios, tendo muito pouco a ver com os princípios marxistas de base. Foram, e são, bem como as suas famílias, pessoas com um vasto ramo de negócios que vão para além das fronteiras do continente. Um relato divertido é assinalado, e passa-se com o pai do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, que terá adquirido um porta-aviões e tentado vendê-lo por um preço astronómico ao regime chinês, e isto não terá caído nas boas graças de Pequim, o que abriu espaço para que O Cheng-peng, "muito mais patriota", se tornasse no líder de facto dos comunistas de Macau.

É mais que sabido que os empresários e homens de negócio de Macau são pessoas que têm interesses patrimoniais em países "capitalistas", como os Estados Unidos, Reino Unido, Canadá ou Austrália, o que nos leva a questionar a validade da sua ideologia. É também um facto que nos dias que correm, ter um cartão do partido na China é garantia de uma vida confortável, com muitas portas abertas para si e para os seus familiares. Os escândalos e os excessos sucedem-se, e no seu discurso de saída o presidente Hu Jintao chamou a atenção para o facto da corrupção poder significar num futuro próximo o próprio fim do regime. A ambição tornou-se desmedida, e os princípios socialistas foram praticamente esquecidos. Os Ferraris, as vivendas e as amantes não caem bem a quem tem que labutar de sol a sol para pôr o arroz na mesa da sua família. Os que batem o peito e juram fidelidade à República Popular e ao seu povo vão tendo cada vez menos credibilidade, e o povo - essa massa gigantesca - vai tendo cada vez mais consciência disso. Afinal, sois comunistas, ou comodistas?

Braga eliminado, Benfica tremido, Porto confirmado


Decorreu ontem e na terça-feira mais uma jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões, com sortes diversas para as equipas portuguesas. No Grupo H deu-se a eliminação do Sp. Braga, depois de uma derrota por 1-3 em Cluj, na Roménia. Os guerreiros do Minho nao podem sequer aspirar à Liga Europa, uma vez que ocupam o último lugar do Grupo, com menos quatro pontos que Cluj e Galatasaray, quando só uma falta apenas um jogo. Já no Grupo G o Benfica bateu o Celtic por duas bolas a uma, subiu ao 2º lugar e depende apenas de si para passar. Mas para garantir os "oitavos" sem depender do que passa no jogo de Glasgow entre o Celtic e o Spartak é preciso vencer...em Barcelona. Os catalães já estão apurados, mas isso não significa que dacilitem a tarefa aos encarnados. No Grupo A o Porto confirmou o apuramento com uma vitória desafogada frente aos croatas do Dinamo de Zagreb, por três bolas a zero. O Paris SG também venceu em Kiev, por 2-0, e segue no segundo lugar a um ponto dos dragões. O FC Porto precisa apenas de um empate no Parque dos Príncipes para garantir a vitória no grupo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os filhos do Sado


Ontem abordei a Margem Sul, e para a encomenda não ficar pela metade, hoje gostava de falar do resto do distrito de Setúbal. Este distrito, o meu distrito, estende-se do sul de Lisboa até ao Baixo Alentejo. Chega mais a sul que os distritos de Évora e Portalegre, Alentejo propriamente dito. Se aquela coisa da regionalização fosse mesmo para frente, no limite da loucura gostava de ver criada a República Popular do Alentejo, que englobasse os distritos de Setúbal, Évora, Portalegre e Beja, e governada pelo PCP, obviamente. Seria interessante. Uma área de 28000 km2 – mais de mil vezes a área de Macau – e pouco mais de um milhão de habitantes – apenas o dobro da RAEM. Espaço era coisa que não ia faltar. Dava para um montão de aeroportos, aérodromos e heliportos, ó Mário Lino, seu ignorante.

Quem deixa o meu Montijo e se dirige para sueste, dá com o concelho de Palmela, introduzido pela refrescante freguesia do Pinhal Novo, cujo nome faz lembrar uma marca de desodorizante ou um sabor dos rebuçados Halls. Apesar de ter apenas 25 mil habitantes, o Pinhal Novo tem cinco jornais, uma rádio, três ranchos folclóricos, três grupos corais, seis clubes desportivos, um grupo carnavalesco, um moto-clube e até um centro de paraquedismo e uma sociedade columbófila! É um pequeno mundo, que deve envolver todos os habitantes daquela pequena freguesia palmelense. De tédio é que eles não se devem queixar. Depois chegamos à histórica vila de Palmela, com o seu castelo altaneiro. O que não falta em Palmela é o que se coma, e à fartazana: sopa de favas, sopa caramela (uma “prima” da sopa da pedra), coelho à moda de Palmela, fogaças de Palmela, palmelenses, santiagos e lá está, o ilustre queijo de Azeitão, fabricado em série na Quinta do Anjo, outra das freguesias do concelho. E tudo regado com Moscatel do bom. Existe ainda a vila da Marateca, que rima com “queca” (“dei uma queca na Marateca”) . A origem deste nome é curiosa. Diz uma lenda que um príncipe lusitano se apaixonou por uma princesa mourisca, e trouxe-a até Palmela através do Rio Sado, levada por homens da sua confiança. Quando perguntaram à moça como tinha ali chegado, ela respondeu “pelo mar até cá”. Daí o nome Marateca. Leiam isto ao estilo do saudoso Prof. José Hermano Saraiva, e vão ver como fica mais charmoso.

Já aqui falámos do queijo de Azeitão, que levou o nome de uma região que compreende várias localidades: Vila Nogueira de Azeitão, Brejos de Azeitão, o célebre Portinho da Arrábida, entre outros. Em Vila Fresca de Azeitão fica a célebre Quinta da Bacalhoa, e o palácio com o mesmo nome. Diz-se que esta quinta foi baptizada em homenagem a D. Maria Mendonça de Albuquerque, filha de D. Afonso de Albuquerque, proprietária do palácio e da quinta e casada com um tal D. Jerónimo Manuel, que tinha a alcunha de “bacalhau”. Humor medieval, portanto. Hoje esta região ficou integrada no concelho de Setúbal, depois de se ter separado de forma litigiosa do concelho de Sesimbra no século XIV. Quase acabava em guerra!

E já que falamos de Sesimbra, eis aí um concelho bastante bonito, arejado e agradável. Em primeiro lugar um grande abraço aos cagalêtes, como são carinhosamente chamados os sesimbrenses. Conhecido sobretudo pelas suas praias, este concelho engloba as freguesias da Quinta do Conde (onde fica o Pinhal do General) , Santiago e Castelo. É nesta última que ficam localizados os maiores motivos de interesse, desde o castelo de Sesimbra, a Lagoa de Albufeira, o Cabo Espichel, a Gruta do Zambujal e a celebérrima Praia do Moinho de Baixo, mais conhecida por “Praia do Meco”, famosa pela prática legalizada do naturismo. Moinho de baixo…pois, pois. Quando era miúdo ouvia dizer que no Meco “era obrigatório andar nú”. Tudo ao léu. Fui lá pela primeira vez quando tinha 13 anos e na realidade não era nada assim. O nudismo só é permitido na parte da duna sul, e é facultativo. Confesso que nunca pratiquei. Gosto de ir à praia nadar e tenho receio que os peixinhos confundam com isco alguma parte que depois me venha fazer falta. De resto em Sesimbra (ou “Chesimbra” como dizem os cagalêtes) come-se bastante bem. Um deleite para quem gosta de marisco e peixe grelhado. Mesmo em épocas de crise como a actual, as marisqueiras estão sempre a rebentar pelas costuras no Verão.

E finalmente chegamos a Setúbal, cidade maravilhosa. Berço da cantora lírica Luísa Todi, do poeta Bocage, dos cantores “pimba” Toy e Clemente e do treinador José Mourinho. Terra do “carrapau” e do choco “frrito”, carralho! “Vames emborra Vitórria!”. À beira-Sado plantada, cosmopolita e única, sempre um prazer em visitar. É em Setúbal que fica o famoso hospital ortopédico conhecido por “Hospital do Outão”, localizado no Forte de Santiago de Outão, na barra norte do Sado. Quando éramos miúdos e alguém dizia “Então?”, respondíamos na brincadeira que “o Outão é em Setúbal”. E é mesmo. Existe na freguesia do Sado um local que se chama “Faralhão”. Isto tem que se lhe diga. Imaginem que alguém se engana e troca o “F” por um “C”? E as duas letras estão perigosamente próximas no teclado. Mas voltando a Setúbal, e já que aqui estamos, porque não ir à praia? Depois de passar a cimenteira da Secil, chegamos à Figueirinha, linda praia com as suas gélidas águas. Quem quer mais sossego (ou não…) pode optar por um piquenique no Parque das Merendas, onde se realizam faustosas sardinhadas e faz-se a apanha do caranguejo. Foi lá que vi em carne o osso o cantor António Variações, a bordo de uma pequena lancha. Há em Setúbal mais praia, e da boa. Podemos apanhar uma espécie de “jetfoil” e chegamos à Península de Tróia, e já estamos fora do concelho da sede de distrito. Muita gente não sabe isto, mas Tróia fica já no concelho de Grândola. Fiquei a saber isto quando acampei lá uma vez e li nas latas do lixo “Câmara Municipal de Grândola”.

E assim chegamos à vila morena, à beira do estuário do Sado, e entramos na parte alentejana do distrito. Grândola não deixa os seus créditos abrilescos por mãos alheias. Existe ali um monumento a José Afonso, outro à Liberdade, outro aos poetas populares a ainda outro ao 25 de Abril. Não tenho bem a certeza, mas acho que em todas as sedes de concelho do distrito de Setúbal existe pelo menos uma rua, largo ou praceta José Afonso e 25 de Abril. Quanto à origem do nome da vila, conta a lenda que existia ali denso mato onde se escondiam vários animais de caça grossa. Era ponto de encontro de príncipes e nobres, e D. Jorge de Lencastre terá mandado ali edificar uma casa, ao que se seguiram outros caçadores, formando uma pequena aldeia. Um certo dia, depois de mais uma caçada, cozinhava-se um robusto javali num caldeirão, e um dos caçadores terá exclamado em espanto: “Que grande, olha!”. O local ficou a ser conhecido então por “Grandolha”, mais tarde “Grandolla” até à forma actual. Descendo por Grândola e junto àquela auto-estrada infinita que liga o Alentejo ao Algarve encontramos o Canal Caveira, que apesar do nome tenebroso é famoso pelo cozido à portuguesa. Nada como encher a barriga no Canal Caveira antes de seguir a longa viagem até ao sol Algarvio.

A norte de Grândola temos o concelho de Alcácer do Sal, com a sua linda ponte ferroviária, e a sul temos o concelho de Santiago do Cacém, onde fica a estação arqueológica de Miróbriga, onde se encontram umas das mais significantes ruínas romanas do país. Neste concelho existe uma aldeia da freguesia de Vila Nova de Santo André com um nome que até parece brincadeira: Deixa-o-Resto, localizada perto do famoso (?) “Badoca Safari Park”, e onde habitam os…deixarrestenses? Será isso? Por detrás da origem deste castiço nome, conta-se que terá chegado a uma povoação um homem pobre a quem os aldeões ajudavam, trazendo alimentos e outros bens, e diziam-lhe quando sobrava qualquer coisa: “deixa o resto”. Faz todo o sentido. Fico esclarecido. Existe outra aldeia no Cercal que se chama “Teimosas de Cima”, e a sua correspondente “Teimosas de Baixo”. Ora estas não requerem qualquer explicação. Todos sabemos quem elas são, e normalmente são as sogras. O dsitrito encerra-se na costa Vicentina, em Sines e na sua famosa freguesia de Porto Côvo, e a partir dali temos Odemira, e o Alentejo profundo, a cortiça e a bolota. Vale a pena conhecer o distrito de Setúbal, quem sabe o mais rico e diverso de Portugal.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Falhas


Falhas, todos temos. Dedicado à organização do Grande Prémio de Macau. Mas pronto, se agiram mal, cortem essa, e tentem pensar melhor da próxima vez. O importante é que não se deixem cair em tentações melancólicas, porque rebolar no lodo só serve para se sujarem. Um abraço especial ao Engº Costa Antunes.

O vídeo da bronca


Deu pano para mangas, a "bronca" de ontem durante a cerimónia do pódio da corrida de Fórmula 3 do GP de Macau. Neste vídeo tão gentilmente enviado por um leitor podemos ver o ar de estranheza do jovem piloto António Félix da Costa quando começa a escutar o hino sueco em vez do português, e ouvir os apupos de desagrado dos nossos compatriotas com toda a situação. A organização ficou "às aranhas" e lá desencatou o hino do YouTube, ligando-o ao equipamento de som, apenas oito minutos depois. Antes disso os portugueses cantaram o hino em uníssono - e a afinação foi o que menos importou - foi um momento inédito na história do Grande Prémio. E tudo graças a uma azelhice onde a culpa parece ir morrer solteira. Não acredito que a responsabilidade seja exclusivamente do Dr. Costa Antunes. Fará parte das suas funções garantir que o hino português esteja disponível e não falhe? Já agora todas as noites tem que se certificar que todos os elementos da equipa que lidera vão para a caminha cedo.

Um incidente lamentável, e hoje comentado tanto por portugueses, como chineses. Houve quem tivesse ficado mui indignado com tal afronta ao nosso símbolo nacional, houve quem tivesse achado graça, mas mesmo assim não encontrei ninguém que achasse isto "normal". Vou deixar bem claro: como português não fiquei ofendido nem magoado. Ficaria sim se por acaso encontrassem alguma forma de retirar o mérito ao Félix da Costa, que fica na história recente do certame como um dos vencedores mais espectaculares. Quero acreditar que foi um caso de incompetência e laxismo, e não uma provocação, como tantas a que já tive oportunidade de assistir da parte de alguns agentes desde a transferência de soberania. São maçãs podres que encontramos sempre num cesto de maçãs sãs.

A nossa margem


- Epá ‘tás porreiro ou vais pró Barreiro?
- Não pá, vou p’ra Almada, não pagas nada?


Os leitores que me conhecem pessoalmente, especialmente os amigos e conhecidos mais próximos, sabem que sou originário da margem sul de Lisboa, distrito de Setúbal, onde sempre vivi antes de vir para Macau. Resumindo, sou um “manes” do Montijo, onde cresci, mas, e com alguma pena, não adquiri aquele sotaque giríssimo. O meu pai tinha uma musiquinha, a minha irmã que ainda lá vive também, e tinha uma tia que tinha um “montijense” tão carregado que ainda hoje me divirto a imitá-la. Curiosamente cresci a pensar que o nome “Gertrudes” era na realidade “Estrudes”, que era como se pronunciava no Montijo. Temos uma palavra própria para definir uma pessoa suja, asquerosa ou leviana: um “mandongo”, ou na sua versão feminina, uma “mandonga”. Uma porca, portanto. Nunca ouvi mais ninguém em sítio nenhum usar esta palavra. A um indivíduo indigente, vadio ou com tendências criminosas chamávamos de “gandim”. Existem ainda outras especificidades do ser montijense, mas não é disso que quero tratar neste post. É claro que como aldeano convicto (o Montijo chamava-se até aos anos 40 do século passado Aldeia Galega do Ribatejo), os meus heróis são os meus conterrâneos: os futebolistas Paulo Futre e Ricardo “Labreca”, o guardião herói das balizas lusitanas no Euro 2004 e mundial de 2006, a cantora Dulce Pontes, o compositor clássico Jorge Peixinho, o apresentador José Fialho Gouveia, estes dois últimos já falecidos, e epá, e mesmo aquele gajo dos D’ZRT, o Paulo Vintém, tem a aura de ter nascido naquela terra maravilhosa, que fica apenas a meia-hora de barco de Lisboa.

Mas do eu queria mesmo falar era da Margem Sul propriamente dita. Fiquei comovido com esta homenagem do Rui Unas aqui há uns anos, pois esta região, que conheço como a palma da minha mão, tem muito que se lhe diga. É um encanto. Isto são mais do que dormitórios de Lisboa; são terras com um orgulho e uma cultura muito próprios. Todas as localidades da Margem Sul têm os seus “índios”, malta que deixa a pele para defender a sua zona. É conhecida a rivalidade entre o Montijo e Alcochete, concelhos vizinhos que distam apenas 7 quilómetros um do outro. Vastas vezes assisti a cenas de porrada no parque do Montijo entre “aldeanos” e betinhos alcochetanos. Até ao início dos anos 90 a Escola Secundária de Alcochete não tinha o ensino complementar (ia só até ao 9º ano), e os alcochetanos sub-18 vinham estudar no Montijo. Era um autêntico regime de apertheid. Um dos maiores motivos da rivalidade era o facto de que em tempos longínquos a linha de comboio (entretanto já extinta) ter passado pelo Montijo, em vez de Alcochete. Até aos anos 80, uma simples referência ao “comboio de Alcochete” era suficiente para levar o mais pacato alcochetano aos arames, arrancando da cabeça o seu famoso barrete verde. Ir a Alcochete e perguntar onde ficava o comboio era quase suicídio. Eles levavam aquilo muito a peito. Hoje Alcochete é uma vila (ah ah o Montijo é cidade desde 1985) desenvolvida, pacata, e que tem mesmo uma praia onde a família real portuguesa ia a banhos, antes de se tornar numa porcaria.

O que é mesmo giro são os nomes, especialmente as freguesias dos concelhos. O concelho do Montijo, por exemplo, tem lá uns Sarilhos Grandes, um local onde pouca gente gostaria de viver – fica mal escrever na morada “Sarilhos Grandes”, ou em inglês “Big Trouble”. Existe ainda um Sarilhos Pequenos (“little trouble”?), que fica já no concelho da Moita. Ironicamente Sarilhos Pequenos (onde os seus nativos e residentes são conhecidos como “xarecos”, e de onde é originário o ex-avançado e ex-treinador do Sporting, Manuel Fernandes) é maior que Sarilhos Grandes. Sabiam disto? Ah! Mas voltemos a Alcochete, que simpaticamente designávamos por “Alcoshit”. Este patético concelho engloba o Samouco, um sítio deprimente onde se diz que se vai “meter água”. Nunca percebi a origem desse bordão, “ir meter água ao Samouco”. Samouco (ou “sámoque”, como se diz no Montijo) deve ter sido baptizado em homenagem a algum indivíduo de apelido Sá que era duro de ouvido. Sá+mouco. É um lugarejo que não interessa nem ao menino Jesus. A outra freguesia do concelho de Alcoshit é S. Francisco, que fica entre o Montijo e a vilinha dos bois. Posso dizer com algum orgulho que passei muitas vezes por S. Francisco, e nunca precisei de ir à Califórnia. S. Francisco, que em tempos idos se chamava Sabonha (fizeram bem em mudar o nome), fica localizado na auto-estrada que liga o Montijo a Alcochete. Os seus habitantes vivem todos à beira da estrada. São uns “borda-da-estrada”, coitados.

Vamos então à Moita e ao Barreiro, dois concelhos super-giros. No concelho da Moita do Ribatejo (que fica na Estremadura, estranhamente) pontificam, além do anteriormente referido Sarilhos Pequenos, outras localidades com nomes hilariantes. Na própria freguesia da Moita encontra-se um Penteado, onde não deve ser difícil arranjar um barbeiro, mesmo num Sábado à tarde. Temos ainda nesta apetitosa ementa Alhos Vedros, que foi sede de concelho até 1855, e tem uma história riquíssima, Vale da Amoreira, que apesar do nome convidativo é uma espécie de gueto habitado pela pior espécie de gandins, Gaio-Rosário (também conhecido por Rosarinho), onde se realizam as famosas largadas de touros na praia, e a minha favorita: a Baixa da Banheira. Sabem como se chama o bairro rico da Baixa da Banheira? Baixa do Jacuzzi! Estou a reinar. Na Baixa da Banheira não vive ninguém rico. Uma coisa é a Quinta da Marinha, outra é a Baixa da Banheira. Talvez este nome absurdo se consiga explicar com uma das suas designações antigas: Terras Baixas da Banheira do Tejo. Assim era melhor. Menos vergonhoso para os banheirenses, pelo menos.

Passemos ao Barreiro e vamos logo ao lugar com o nome mais surrealista: Coina. Este sítio assim baptizado pelo rio Coina, que nasce na serra da Arrábida, tem um nome que não lembra ao diabo. Ninguém pensou que um sítio chamado Coina seria no futuro motivo de chalaça? Existe no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, o lugar da Picha. Quem sabe se este não devia ser geminado com a Coina? Ficava o par ideal. Além da Coina, o Barreiro conta ainda com o Lavradio, onde fica o amplo e muito bonito estádio Alfredo da Silva, baptizado com o nome do empresário português da indústria fabril, e onde jogava a gloriosa ex-CUF e ex-Quimigal (actualmente Fabril Barreiro). Nos anos 60 e 70 os concelhos da Margem Sul eram pródigos em futebolistas talentosos, e chegava a ter três ou quatro equipas na divisão principal. Seguiu-se a falência, a decadência e mesmo a extinção de alguns clubes. Depois há freguesias com nomes mais ou menos normais: Palhais, Santo André, Verderena ou Alto do Seixalinho. Existem algures entre a Moita e o Barreiro duas localidades com nomes mesmo “rasca”: a Barra Cheia, e não sei porquê, mas a simples menção do nome dá-me vontade de urinar, e o Chão Duro, onde não é recomendável cair de cabeça.

E já que falámos do Alto do Seixalinho, vamos ao concelho do Seixal, assim chamado por causa dos inúmeros seixos encontrados nas praias ribeirinhas adjacentes. Curiosidade histórica: sabia que foi no Seixal que Vasco da Gama e o seu irmão Paulo construíram as naus que os levaram às Índias? Aposto que pouca gente sabe que foi no Seixal que começou uma das maiores proezas dos descobrimentos. Podemos mesmo dizer que o Seixal é parte fundamental na génese da globalização. Penso até que o próprio Vasco da Gama queria mudar o nome de Goa para “Novo Seixal”, mas não deixaram. Hoje em dia o maior motivo de orgulho dos seus 30 mil habitantes é ter lá a Academia do Benfica. Orgulho ou vexame, depende do ponto de vista. Foi violentamente afectado pelo terramoto de 1755, mas os bravos seixalenses arregaçaram as mangas e há 100 anos o Seixal era o principal centro corticeiro do país. Ena. Dos seixalenses, que etnicamente são semelhantes aos almadenses, tenho uma recordação engraçada. Antigamente só haviam barcos para o Seixal durante a semana (o Vasco da Gama adoptou a semana inglesa, portanto), e eram apanhados no extinto cais da Praça do Comércio, no mesmo sítio dos barcos do Montijo. Um Domingo vinha eu a voltar de Lisboa e estavam dois jovens casais de seixalenses no barco comigo, a pensar que estavam a ir para o Seixal. Disse-lhes que não, que só havia ligação ao Seixal no dia seguinte e eles ficaram meio sem saber o que fazer. Como bom samaritano que sou meti-os numa camioneta para o Barreiro e disse-lhes para fazer daí a ligação ao seu tão amado Seixal. Já nesse tempo era eu um gajo muito fixe e prestável. E bonito, também.

O concelho do Seixal é riquíssimo em freguesias com nomes engraçados, e cuja origem aguça a curiosidade. Assim temos a Aldeia de Paio Pires, que levou o nome do conquistador medieval Paio Peres Correia, que tem honras de estátua no centro da localidade e tudo. Este pelo menos tem uma explicação mais ou menos plausível para o nome de “paio pires”, e não tem nada a ver com um enchido e um pratinho. Além de Paio Pires temos a Amora, um nome fresco e doce, a Arrentela, e uma outra criada por desmantelamento destas três: Fernão Ferro, que como dizia a rábula do Herman José (aquela do “eu é mais bolos”), “é um senhor muito simpático”. Há ainda uma tal localidade chamada Cruz de Pau, na freguesia da Amora. O nome de “Pau” não fica bem em nada, sinceramente. Depois não querem que os brasileiros se riam de nós. Há ainda na Amora um tal Fogueteiro, uma homenagem àquela flatulência matinal mais ruidosa. Finalmente temos a Vila de Corroios, que acreditem ou não, tem mais de 600 anos de história. Corroios, que parece uma adulteração de “correios”, engloba entre outros um sítio chamado Miratejo, que conheço bem, e que apesar do nome bonito não passa de um aglomerado de prédios sem imaginação nenhuma.

Finalmente chegamos a Almada (do árabe al-ma’adan, ou “a mina”), a cidade mais próxima de Lisboa na Margem Sul. Fossem para ali mandar os génios que mandam em Macau, e já tinhamos aterros que davam para ir de Lisboa a Almada a pé. Em Almada vivia a minha saudosa avó materna, e conheço bem esta cidade e o seu concelho. Quem chega de Lisboa numa viagem de dez minutos no cacilheiro, e como o nome indica, chega a Cacilhas. Esse nome tem origem no tempo em que chegava de Lisboa de barco para a Margem Sul, e nesse local haviam burros que se podiam alugar para fazer passeios por Almada. Quando se preparava o burro dizia-se frequentemente “dá cá cilhas” (cilha é a cinta que prende a sela e a albarda). E Cacilhas ficou. Existe um bordão muito engraçado a este propósito. Quando se quer mandar alguém para tal sítio, levanta-se o dedo do meio e diz-se “monta aqui e vai para Cacilhas”. Eu até gosto de Cacilhas. Tem lá umas marisqueiras e cervejarias bem catitas. Fica ali também o estaleiro da Lisnave, que nos seus tempos mais prósperos empregava operários que iam trabalhar com a mesma alegria com que os sete anões iam minar diamantes. Depois, e isto é a opinião generalizada, “vieram os comunas e deram cabo daquilo”. O concelho de Almada é um bastião comunista por excelência, e a presidente da câmara é uma tal Maria Emília de Sousa, uma “camarada” que se eternizou no poleiro, um reinado que só carece de renovação de quatro em quatro anos em forma de eleições, e estas são apenas uma mera formalidade. Não me lembro de outro autarca a mandar em Almada além desta senhora.

O maior cancro deste concelho é um lugar chamado Cova da Piedade. Só o nome já assusta, e até dava um bom nome para um filme de terror, e é mesmo um sítio muito pouco recomendável. Os piedenses – assim são chamados os coitados que ali vivem – que me desculpem, mas tenho muito más recordações desta freguesia apensa á cidade de Almada (dá para ir a pé). Na freguesia do Pragal fica o Cristo-Rei, o Corcovado português. É lamentável terem feito uma estátua do nosso Salvador num sítio com um nome destes, “Pragal”. Existe outra freguesia chamada Feijó, que mais parece assim o nome de um cigano anão e maneta. Coincidência ou não, o “mercado dos ciganos do Feijó” é assaz conhecido e bastante popular. As vendedoras ambulantes ciganas chamam toda a potencial freguesia ora de “meu amor” ou de “filha”, dependendo do género. Temos ainda o Laranjeiro, a Sobreda e a Trafaria, todos sítios tristes e desinteressantes, apesar de “Laranjeiro” ter um nome apelativo. Mas no fim é uma desilusão. O concelho redime-se com a Costa da Caparica, a Pattaya portuguesa e morada do restaurador benfiquista “Barbas”, o Zézé Camarinha da Margem Sul, mas sem o mesmo “sex appeal”. Mas depois fica tudo estragado com a existência de umas tais Charneca da Caparica (onde viveu a minha tia) e o Monte da Caparica. (Monte de Caca Rica?). E é assim a Margem Sul, o lugar onde são feitos os sonhos.

domingo, 18 de novembro de 2012

A paz voltou a Macau (ah sim, e parece que Félix da Costa ganhou)


António Félix da Costa tornou-se hoje o primeiro piloto português a vencer a corrida de Fórmula 3 do Grande Prémio de Macau. André Couto, também ele português, venceu em 2000, mas sob a bandeira da RAEM. Pela primeira vez tocou-se A Portuguesa no pódio da corrida mais apetecível do certame. Tocou-se? Bem, não foi bem assim, devido a uma "falha técnica" o hino não soou nos altifalantes do circuito da Guia. Se calhar não fazia parte do CD da organização. A melhor classificação de um pioloto lusitano tinha sido o segundo lugar de Pedro Lamy em 1992, então atrás do sueco Rykard Rydell. Félix da Costa tem 21 anos, foi terceiro este ano na GP3 series, e se conseguir os devidos patrocínios, poderá chegar longe. Haja dinheiro.

De resto foi mais do mesmo, Alain Menu venceu no WTCCe Robert Huff sagrou-se campeão mundial, Tiago Monteiro subiu ao último lugar do pódio e André Couto não foi alé do 11º lugar - mas pelo menos completou a prova. Michael Rutter venceu nas motos, tal como se esperava, e Edoardo Mortara venceu a GT Cup, e bateu o recorde da volta mais rápida. O fim-de-semana ficou marcado pela morte dos pilotos Luís Carreira, de Portugal, e do honconguense Phillip Yao, o que é de lamentar. A paz volta agora às estradas do território, pelo menos até para o ano por esta altura.

sábado, 17 de novembro de 2012

Banana motherfucker


Pense duas vezes antes de comer uma banana...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A morte saíu à Guia


Depois de dois dias de treino, a 59ª edição do Grande Prémio de Macau tem sido marcada pelo signo da morte. Ontem foi o português Luís Carreira a perder a vida no treino das motos, e hoje foi o honconguense Philip Yau a perecer nos treinos dos carros de turismo. Dois acidentes mortais nos primeiros dois dias do evento, algo que não se assistia há muito tempo. Não quero aqui questionar as condições de segurança; quem anda à chuva molha-se, e todos os pilotos - sobreviventes - enfrentaram as mesmas condições. É sobretudo uma perda para as famílias. Que descansem em paz.

O Grande Prémio é em Novembro, ó palerma!


Fica aqui o artigo publicado na edição de ontem do Hoje Macau, sobre o Grande Prémio. Por lapso, o último parágrafo do artigo ficou omitido na edição impressa, pelo que vos deixo a versão integral do texto.

Arranca hoje e até ao próximo Domingo a 59ª edição do Grande Prémio de Macau. E quando digo “arranca”, quero mesmo dizer que arranca. Não podia ter escolhido uma palavra melhor. A partir das sete da manhã e até ao final da tarde vai ser uma azáfama com os bólides a fazer roncar os motores pelo circuito da Guia num barulho ensurdecedor. “Vrrrummm….vrrrruuummm….vrrrrruuum” todo o santo dia, durante quatro dias. Quando era pequeno – e vejo Fórmula 1 mesmo desde antes de saber ler – tinha ouvido falar deste Grande Prémio de Macau, e pensava que se tratava de algum “meeting” entre os pilotos do Grande Circo. Era bastante ingénuo, confesso, mas pensava mesmo que o Nélson Piquet, o Alain Prost ou o René Arnoux, os “lobos” daquele tempo, vinham aqui a Macau e competiam numa espécie de corrida especial, ao estilo da banda desenhada de Michel Vaillant, de que era também grande adepto. Como no “Rendez-vous à Macao”, de 1983.
Ainda me lembro quando a Fórmula 1 voltou ao Estoril, em 1984, da minha avózinha ter ficado escandalizada por haver alguém que pagasse qualquer coisa como 15 contos “para ver os carros a passar”. Hoje concordo plenamente com esta visão simplista da minha saudosa avó. Mesmo aqui em Macau há quem pague mais de 1000 patacas para passar o dia inteiro ao sol a ver os bólides e as motos a passar, apertado entre centenas de outros curiosos comendo buchas inflacionadas. É verdade que o GP de Macau é um certame de respeito no calendário automobilístico internacional, mas aqui entre nós, ou se ama, ou se odeia. Há quem passe o ano inteiro a suspirar pelo Grande Prémio, e há quem simplesmente saia do território durante este fim-de-semana. Eu não sou um adepto do Grande Prémio. É uma coisa que polui, faz barulho e atrapalha a vida normal do mais pacato cidadão. Duas semanas antes das corridas já se torna impossível atravessar em frente ao Hotel Lisboa ou andar pela Avenida da Amizade. É como se vivessemos numa cidade sitiada. Há uma curiosidade que ainda não vi satisfeita: o que acontece com os residentes dos prédios da Estrada do Visconde S. Januário ou da Estrada D. Maria II? São indemnizados por terem os carros a passarem-lhes à porta às sete da madrugada durante o fim-de-semana ou quê?
Há quem só veja vantagens nesta coisa do Grande Prémio, e que se orgulhe dele. Mas na realidade Macau passava bem sem esta invasão de turistas grunhos ostentando casacos com marcas de pneus, motores e óleos, que vêm pensando que fazem cá muita falta. Na prática não existe em Macau qualquer negócio que dependa do Grande Prémio, e mesmo para a indústria hoteleira não iam ser estes quatro dias que iam fazer grande diferença. Atendendo a quem existe uma tradição de quase 60 anos e uma história respeitável, há quem ainda veja no Grande Prémio o “trampolim” para a disciplina máxima do automobilismo, a Fórmula 1. Isto já foi mais verdade. Dos vencedores dos últimos 10 anos, apenas o brasileiro Lucas di Grassi lá chegou, e temos que admitir que não é um bom exemplo. É verdade que Ayrton Senna, Michael Schumacher ou David Coulthard ganharam o GP de Macau, Vettel foi terceiro em 2005 e Button segundo em 1999, mas todos sabemos o que realmente interessa para que se chegue à F1: ter dinheiro e patrocínios. Tem muito pouco a ver com o talento. Ganhar o GP de Macau deixou de ser um requisito. Que o diga André Couto, vencedor em 2000 e eterna esperança do automobilismo de Macau, que nunca chegou à disciplina máxima.
Além da corrida de Fórmula 3, sem dúvida o prato forte do evento, temos ainda a decisão do mundial de carros de turismo, ou na sua sigla inglesa os WTCC. Yupi! Que é em Macau que se decide esta emocionante competição. Mas agora a sério, quem no seu perfeito juízo acompanha o mundial de WTCC? Seja como for, F3, WTCC ou Corrida da Guia, basta que um carro fique atravessado na curva Melco para que a festa acabe. Aí entra o pace-car e o GP de Macau torna-se um passeio de carros caros com indivíduos extra-pagos lá dentro. Curiosamente existe no território uma espécie de psicose que nem Freud explica. À medida que nos aproximamos da data do Grande Prémio, há uma tendência para que alguns residentes acelerem nas ruas. É o síndrome do GP de Macau. Pelo menos durante o resto do ano, posso dizer de viva voz cada vez que dou com um acelera: “O Grande Prémio é em Novembro, ó palerma!”.

Quarta-feira em Libreville

Gabon 2-2 Portugal (Maç Özeti) | izlesene.com

Portugal realizou na última quarta-feira um prticular no meio de África, mais exactamente no Gabão. Um jogo patético, com uma arbitragem a condizer, que terminou empatado a dois golos. A selecção nacional apresentou-se bastante desfalcada, sem Cristiano Ronaldo, Hélder Postiga, Fábio Coentrão ou Bruno Alves, mas foi o suficiente para receber o cachê de 800 mil euros pago pela Federação (pelo presidente da República?) do Gabão. Fica aqui o resumo da chanchada.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mais dinheiro, algum dinheiro, muito dinheiro


1) O Chefe do Executivo lançou ontem e hoje as Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2013. Como sempre, foi de "massa" que se falou. Enquanto em Portugal os subsídios andam a ser cortados a torto e direito, em Macau "dá-se" dinheiro. Ou será mesmo assim? A compensação pecuniária, vulgo "cheque" passa de 7 mil para 8 mil patacas, os vales de saúde passam de 500 para 600 patacas, o subsídio de electricidade (eheh) passa de 180 para 200 patacas, redução do imposto profissional (um imposto que faz cada vez menos sentido) e serão injectadas mais 10 mil patacas no plano de Segurança Social de cada residente. Parecem-me aumentos um tanto ou quanto tímidos, atentendo ao facto que a inflação continua fora de controlo e o preço da habitação vai continuar a subir. Perdoem-me a maldade, mas todas estas benesses poderão servir de desculpa para os senhorios aumentarem as rendas: "com que então oito mil pataquinhas, uh? passem para cá!". De medidas para combater estes flagelos que afectam a qualidade de vida da população falou-se pouco. Mais habitação pública para uns putativos aterros sabe-se lá quando, e dos aumentos para os funcionários públicos fala-se entre dentes. Aguarda-se a partir da próxima semana a visita dos respectivos secretários à AL. Não faltarão motivos de interesse, especialmente piadas vindas daqueles deputados que têm mais apetência para o humor. Ao contrário das soluções, que serão poucas.

2) O tal "caso das campas", que me tenho abstido de comentar, começa a cheirar mal. Não comento os últimos desenvolvimentos, uma vez que a maioria das pessoas que têm seguido o caso sabem exactamente do que se trata, mas deixa-me sorumbático que a situação não se resolva depressa. Se existem ilegalidades, que sejam apurados os responsáveis. Senão, que não se fale mais nisso. O que temos agora são incertezas, vinganças, intrigas palacianas, jogos de poder e facadas nas costas. Serviços públicos que se beliscam e arranham, e tudo isto debaixo das barbas do Executivo, que simplesmente assobia para o lado. Não fica nada bem às partes envolvidas.

3) Macau continua a ser alvo preferencial para todo o tipo de malandrins e amigos do alheio. Na segunda-feira foi um jovem de 16 anos de Hong Kong que tentou trocar fichas falsas no casino, e...mas esperem, 16 anos? Não entrou em vigor no dia 1 a proibição de entrada nos casinos a menores de 21 anos? Se calhar o rapaz era desenvolvido para a idade. No mesmo dia, e lia-se hoje no JTM, mais um conto do vigário, com uma idosa enganada com o esquema do "dinheiro abençoado". São às dúzias os casos deste tipo todos os anos, e a população ignorante e supersticiosa nunca mais aprende. São casos uns atráas dos outros, alguns que chegam mesmo a desafiar a imaginação. Macau dava para um volume de obras "pulp fiction". E já agora, o Grande Prémio de Macau tem o seu início amanhã. Cuidado com as carteiras...

O que diz Maomé deste presunto?


A expressão "dizer o que nem Maomé disse do toucinho" vai deixar de fazer sentido em breve. A Universidade de Ourense, em Espanha, criou o presunto halal, feito com perna de cabra. Como é sabido, o consumo de carne de porco e seus derivados é proibido pelo Islão, mas graças a esta invenção do Departamento de Tecnologia dos Alimentos daquela universidade, vai ser possível ao tio Abdul mamar uma sandoca de presunto - já agora acompanhada de uma Sagres Zero, porque não? O projecto foi realizado em conjunto com a Universidade de Tânger, onde foi feita a salga e a secagem, e as cabras usadas são de origem marroquina.

Tem diabo!


Um homem que visitava o Museu de Filadélfia não ganhou para o susto quando encontrou uma pintura italiana de um cavaleiro do século 16 completamente idêntica a si. Parente distante ou apenas coincidência (e não são todos os símios idênticos? ahah), a verdade é que "pepesilva", como é conhecido no Reddit, já recebeu mais de 3000 comentários naquela rede social. Um caso de sucesso que durará alguns dias, certamente.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

E agora a serenidade


Está de saída o cônsul-geral de Macau, Manuel Cansado de Carvalho, que depois de um consulado de três anos é substituído por Vítor Sereno. "Sai Cansado, entra Sereno", lia-se na imprensa em português do território na passada semana. Quero acreditar que esta coisa dos nomes é apenas uma (engraçada) coincidência, e nem me passa pela cabeça que a malta dos MNE esteja a brincar com a malta aqui em Macau.

Que balanço faço dos 3 anos de consulado de Cansado de Carvalho? Na prática o mesmo que faço dos anteriores: discretos, cumpridores e diplomáticos. Trata-se de diplomacia, uma coisa que não está ao alcance de muitos. Se calhar às vezes apetecia-nos que o nosso representante diplomático partisse a loiça toda, que nos ajudasse a resolver os nossos problemas, sei lá, que interferisse em decisões políticas que nos maçam ou que nos prejudicam, tudo isso. Mas não é para isso que aqui está. Serve apenas para representar a República, tratar disso dos passaportes, receber as individualidades da República e pouco mais.

Se há quem faça um balanço negativo deste consulado que agora finda, fico sem perceber bem a razão. Se por acaso uma das funções do cônsul-geral é de atraír investimento português para o local onde se encontra (desconheço se é) terá estado ao nível dos anteriores. Aliás lembro-me aquando da saída de Pedro Moitinho de Almeida alguém lhe ter tecido loas, sendo "muito difícil substituí-lo". Não sei porquê. Não foi grande admirador de Pedro Moitinho de Almeida e se havia algo em que Cansado de Carvalho tinha vantagem era em ser mais humano, mais simpático, mais sorridente, mais sociável. Fui o único cônsul com que conversei por mais de dois minutos.

O deputado José Pereira Coutinho, que como se sabe é também presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, apontou como falha o facto de alguns cidadãos de etnia chinesa que se deslocaram ao Consulado terem encontrado obstáculos na comunicação, uma vez que "não percebem português". Por acaso queixo-me exactamente do contrário; a última vez que estive no Consulado-Geral todas as informações dadas às pessoas que esperavam na fatídica fila das 8 da manhã para obter uma das 20 senhas do dia eram dadas em chinês, o que me irritou, naturalmente. Quem se desloca ao Consulado-Geral de Portugal, que é território português onde vigora a lei portuguesa, só pode esperar que a língua em que se comunica seja o português. E então depois o chinês. Entendidos?

Quanto a Vítor Sereno, é mais um ilustre desconhecido, como eram Carlos Frota, Moitinho de Almeida ou Cansado de Carvalho. Passou por sítios tão díspares como a Argentina (onde deixou muitos amigos, ao que parece), Guiné-Bissau ou Alemanha, e antes de Macau chefiava o gabinete do (polémico) Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas. Desconhece por completo a região onde vai agora exercer funções, precisará de tempo para se integrar e inteirar da situação do Consulado-Geral, e pronto, só me resta desejar-lhe boa sorte. É ainda um jovem, e isso pode jogar a seu favor. Daqui a três anos sairá, e outro entrará. E é assim a roda-viva dos consules em Macau. É bom que não nos afeccionemos muito a eles.

Sangue na arena


Bateram no nosso menino. No jogo da Liga espanhola do último Domingo, C. Ronaldo saíu ao intervalo depois de ter perdido a visão em ambos os olhos, depois de uma agressão cobarde de um castelhano que dá pelo nome de David Navarro (que já tinha fama de caceteiro). Mesmo assim o nosso CR7 ainda conseguiu marcar o primeiro golo dos merengues, que venceram por 2-1. São assim os estratagemas para eliminar o melhor jogador do mundo; no vídeo dá para perceber que o lance é tudo menos acidental - o futebol não se joga com os cotovelos. Ronaldo está assim afastado do jogo particular da selecção portuguesa amanhã frente ao Gabão. E contra este Navarro? Não se procede criminalmente?

Marcos Paulo (1951-2012)


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ó pra nós, coitadinhos


Aí está o célebre vídeo idealizado por Marcelo Rebelo de Sousa e dirigido aos nossos patrões alemães. O filme foi publicado na edição de hoje do Expresso (em versão portuguesa e alemã, mas fica aqui a portuguesa) e por incrível que pareça leio na secção de comentários da página online daquele semanário que "está bem feito". Isso depende do ponto de vista. Para mim não passam de cinco minutos de esforço patético a tentar agradar aos alemães e pedir-lhes que tenham pena de nós, coitadinhos. Ah, comprámos carros alemães...electrodomésticos alemães...submarinos alemães (erm)...e mesmo a construção das infra-estruturas do Euro 2004 foi adjudicada a empresas alemãs. A balança comercial entre os dois países é claramente favorável à Alemanha. Mesmo assim fizemos cortes na despesa, aumentámos impostos, aumentámos a idade da reforma, e ainda por cima "trabalhamos" mais horas por semana que eles, e até temos menos férias e feriados, que injustiça! E ainda levamos com a fama de "mandriões". Ah mas eles sabem que não somos, pois afinal os 150 mil portugueses residentes na Alemanha são uns tipos que trabalham que se desunham. Pudera...trabalham na Alemanha!

Ora bolas, dêm-nos lá um desconto, pá! Tende misericórdia de nós, ó altos e louros. Um bocadinho de comiseração para o tuga baixote, seboso e de bigode. Ainda bem que os gajos não deixaram passar lá isto, senão era uma barrigada de riso para eles. Lá tinham de interromper o que fazem durante apenas 35 horas por semana ou o conforto de que usufruem na terceira idade depois de uma vida de gestão competente e decisões sensatas para rir durante cinco minutos dos pobrezinhos engraxadores. Mas pronto, quem pensa que isto foi bem feito e acha que os alemães deviam ter visto, isso é lá consigo. Têm direito ao contraditório, as opiniões são diversas, e ainda bem. Só que depois quando eu fosse outra vez à Alemanha tinha que dizer que era de outra nacionalidade...turco, talvez, até porque já me confundiram com um. Nota negativa, professor Marcelo.

Extra: o Sporting ganhou!


Foi difícil mas já está: o Sporting venceu um jogo depois de 48 dias de jejum. Depois da série mais negra de sempre, os leões tiraram a barriga de misérias, e logo contra o Braga. O golo apareceu logo aos 4 minutos por Wolfswinkel, mas os minhotos venderam cara a derrota. Um jogo quezilento, emocionante e com um punhado de boas intervenções do guardião sportinguista, Rui Patrício. O Sporting sobe assim ao 10º lugar da Liga, a sete do seu adversário de ontem mas ainda a 13 de Porto e Benfica, que venceram ontem no Dragão a Académica (2-1) e em Vila do Conde o Rio Ave (1-0), respectivamente.

domingo, 11 de novembro de 2012

Viva o S. Martinho


(...) Foi nessa época que ocorreu o famoso episódio do manto. Um dia um mendigo que tiritava de frio pediu-lhe esmola e, como não tinha, o cavalariano cortou seu próprio manto com a espada, dando metade ao pedinte. Durante a noite o próprio Jesus lhe apareceu em sonho, usando o pedaço de manta que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio. Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião.

Hoje comemora-se no calendário cristão o dia de S. Martinho de Tours, bispo daquela cidade francesa, nascido na Hungria. Assim como S. Sebastião, um soldado romano que se converteu ao crisitanismo. Coisas de há quase mil anos, hoje em dia pouca é a gente que vê Deus, ou conversa com Ele, e depois converte-se. Quem sabe se Deus desistiu, ou tem mais que fazer. Imaginem que Stalin, Hitler ou Mao tinham "conversado" com Deus? As vidas que se poupavam, os horrores que se evitam. Duvido que muita gente saiba a origem desta celebração que se assinala a 11 de Novembro. O S. Martinho é normalmente uma desculpa para se dedicarem a coisas sazonais, como comer castanhas ou bacalhau, beber água-pé ou jeropiga. Sobretudo é um pretexto para a bebedeira, que é o que a minha gente gosta. Duvido que muita gente vá à igreja neste dia prestar homenagem ao santo.

Recordo os S. Martinhos passados com um sorriso. Iamos a casa de uma das avós, comíamos castanhas (cozidas, domage, temperadas com erva-doce), e bebíamos jeropiga, água-pé ou aniz escarchado. Sim, mesmo os mais novos. Quando o dia de S. Martinho caía num dia de semana, no dia seguinte a malta estava de ressaca na escola. Uma colega minha vomitou uma vez na aula de Ciências - e tinhamos qualquer coisa como 11 ou 12 anos. Isso mesmo. Em Portugal é giro que pré-adolescentes bebam álcool. É uma coisa cultural. Fica bem. É festa. É uma homenagem - mesmo que inconsciente - a S. Martinho de Tours. Se bem que pouca gente saiba de quem se trata.

Quando estudava na primária, fazíamos um magusto, e a nossa professora pedia-nos para "trazermos castanhas de casa". E trazíamos. Depois fazíamos uma fogueira no pátio da escola e comíamos as tais castanhas, junto com as professoras. Alguns colegas queixavam-se que "as professoras 'mamavam' as castanhas que comprávamos". Eram os deliciosos tempos do pós-PREC, em que se sentia ainda na margem sul onde pontificava a Aliança Povo Unido (APU), uma das metamorfoses do Partido Comunista depois do 25 de Abril. São recordações que me fazem sentir que a festividade de S. Martinho tem o cheiro do povo, do sebo e do chulé, a mesa suja das cascas de castanhas e do tintol entornado. Que viva o S. Martinho, portanto.

Soneto do Epitáfio (outro poema de Bocage)


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

Motivos políticos? Nein! Parvoíce...


A chanceler Angela Merkel passa amanhã por Portugal durante cinco horas para dar uns puxões de orelhas e ver como vai uma das suas lojas que mais prejuízo dá. É disso que se trata, no fundo. É pena que Merkel não faça uma visita mais demorada, pois assim via que temos uma país muito giro cheio de gente simpática. Se viesse no Verão, almoçasse numa marisqueira e fosse a banhos à Costa se calhar até nos perdoava a dívida. Existe uma grande animosidade contra a chanceler alemã, que é vista quase como um ogre. Para muitos é "aquela gaja nazi que nos quer fazer trabalhar mais e pagar mais impostos". Eu até não tenho nada contra a senhora, que se calhar preferia mil vezes não precisar de chatear com esses "portuguseich" mandriões, endividados e incumpridores. E não foi isto que nós pedimos? A integração europeia, o euro, o federalismo? Vão pedir contas ao Mário Soares, lacaio do seu "freund" Helmut Köhl.

Entretanto Marcelo Rebelo de Sousa fez um vídeo promocional para divulgar a situação do povo português junto dos alemães, e que foi recusado pelas autoridades teutónicas, noticiou o Expresso. A recusa por "motivos políticos" caíu mal para Rodrigo Moita de Deus, co-autor do vídeo, que protestou junto da embaixada alemã e tudo. Portanto um vídeo a ser exibido na Praça Sony em Berlim com o intuito de fazer os alemães terem pena de nós? (A propósito o título do vídeo é ich bin ein berliner, que falta de imaginação. Podia chamar-se antes Ich möchte Ihre Bratwürst riechen, Maria, ou "Quero cheirar o teu Bratwürst Maria"). Não sei se foi bem por motivos políticos. Cá para mim os alemães já tinham visto filmes portugueses e ainda não querem morrer de tédio, coitados. Ou pior, viram o vídeo professor Marcelo contra o aborto, mil vezes pior. Não vai ser com filmes e bolos que se enganam os tolos. E os alemães não são tolos.

sábado, 10 de novembro de 2012

Eléctricos: "Lulu"


Um novo grupo, os Eléctricos, apresentou-se na última quarta-feira no programa "Cinco para a Meia-Noite", apresentando este tema "Lulu". Um deleite para os amantes dos cachorrinhos. Um grupo que promete, que inclui o Dr. Faria, ex-Afonsinhos do Condado. Escutai.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rua dos Ervanários


Para quem ainda não leu, aqui fica o artigo publicado na edição de ontem do Hoje Macau. Um artigo de mil palavras sobre a lindíssima Rua dos Ervanários. Pode aceder ao link aqui.

A Rua dos Ervanários é uma das mais fascinantes e típicas de Macau. É uma rua que representa o Macau antigo, aquele que queremos preservar, que não queremos que desapareça. Localizada na zona que os portugueses designaram por “tin-tins”, a menos de cinco minutos a pé do Largo do Senado, nesta rua encontramos várias lojas de ofícios que muitos pensam já extintos no território. Pelo menos quem pensa que Macau é a terra dos casinos, do comércio de luxo e das lojas de marca, a Rua dos Ervanários é uma das últimas resistentes do comércio tradicional, e um “must see” para quem quer conhecer a matriz do território.

Lá podemos encontrar, ao longo da calçada portuguesa iluminada à noite por candeeiros altos de luz alaranjada, lojas de pivetes, de algibebes, latoarias, ourivesarias onde os conhecedores podem encontrar um pouco de tudo, desde raras peças de jade, lojas de quinquilharia, numismática e outras antiguidades, passando por mobília, lençóis e até lingerie. Quem se quiser demorar mais tempo por estas lojas – e é sempre recebido com um simpático sorriso – “arrisca-se” a encontrar várias surpresas, desde livros e posters antigos, discos de vinil, calendários e outros objectos que variam entre o bom gosto e o kitsch. E tudo a um preço amigo.

Quem vem do Largo do Senado pela Rua dos Mercadores, passa pela Rua das Estalagens (outro local a visitar) e chega à Rua dos Ervanários, e encontra logo uma lojinha onde pode comprar roupa contrafeita, e que anuncia com orgulho que faz “t-shirt stamping”. Ora aí está a solução para quem procura a camisola dos seus sonhos. Existe logo à entrada da rua um restaurante que serve “ta pin-lou” (uma espécie de guisado) de carneiro, que abre apenas ao final da tarde, com três ou quatro mesas instaladas em cima do passeio, à revelia dos regulamentos municipais. É tão popular que há quem chegue a esperar horas por um lugar, e é frequentado por gente de todas as origens e estratos sociais. Basta “saber pedir”, e uma bela jantarada fica por qualquer coisa como 90 patacas por cabeça. Quem preferir o clássico “char siu” (carne de porco assada) pode andar mais alguns metros e deliciar-se no “Fu Loi Mei Sek Tong”, que exibe com um despretensioso orgulho os cadáveres de galinhas e patos na montra da loja. Com alguma sorte pode mesmo comer lá, pois existe apenas uma mesa.

Quem anda pela Rua dos Ervanários, completamente vedada ao trânsito, com a excepção de uma ou outra bicicleta mais atrevida, delicia-se a observar o dia-a-dia desta gente por quem o tempo parece não ter passado. Existe ali a “Associação Geral dos Idosos Respeitosos de Macau”, que ilustra bem o que estou a dizer. Mesmo em frente a esta encontramos o mestre de medicina chinesa Cheng Lai Keong, um conhecido “Tit ta”, massagista de quedas e pancadas. Um recurso usual a quem torceu um pé e não quer perder tempo no hospital. Ao lado da tal associação dos idosos que respeitam e se dão ao respeito encontramos a latoaria Veng Kei, que vende panelas, tachos, taças e outros objectos de latão. Um pouco mais à frente está a alfaiataria Va Seng, pequena e humilde, e com uma cabine de provas que consiste num biombo mesmo na entrada da loja tapado por uma cortina vermelha. Verdadeiramente fascinante.

A maioria do comércio desta rua decorre de forma bastante descontraída. Tratam-se essencialmente de empresas do tipo familiar, cujo espaço foi passado de pais para filhos, completamente alheios à loucura da especulação imobiliária. É pena que algumas lojas tenham já fechado, ao ponto da implacável CEM já lhes ter cortado o fornecimento de electricidade e tudo. A maior parte do dia os proprietários destes espaços jogam às cartas, ou ao mahjong, enquanto esperam por eventuais clientes. Se não aparecer nenhum tanto faz, amanhã têm novamente a porta aberta. Animais domésticos passam o dia à porta estendidos gozando da calma e do ar fresco que por ali corre livremente; é que nesta zona não existem mastodontes. Os prédios mais altos nas ruas circundantes terão no máximo cinco andares.

Continuando o passeio por esta rua, encontramos a famosa loja de pivetes Veng Heng Cheong, especializada em pauzinhos de incenso destinado ao culto aos deuses. É quem sabe a loja de pivetes mais famosa de Macau, mas a sua exiguidade não permite mais que um cliente ao mesmo tempo. O espaço deste estabelecimento é praticamente todo ocupado pelo seu proprietário e pelos milhares de pauzinhos para queimar, com um chão todo coberto de pó e cinza. Em frente ao Veng Heng Cheong existe um negócio de papéis votivos, que chama a atenção pelo enorme peixe de papelão pendurado por cima da porta. Ali perto encontramos a loja I Hap San Kei, que vende estátuas de terracota, conjuntos de chá e braceletes de jade. E por falar em jade, um dos maiores negociantes deste produto é a “Ieng Fung Five Dollar Antiquities”, onde pontifica um “dealer” que graças a um monóculo dos antigos, analisa o valor deste ouro verde.

O tratamento da língua portuguesa neste tipo de negócios chega a ser enternecedor. Temos as “Ouriversarias”, os “antiguários” ou as “lojas de virdros”. Chegando ao fim da rua, passando por lojas de algibebes (fatos feitos), lojas de espelhos que espantam os espíritos indesejados e os maus olhados, temos a Rua da Tercena, onde todos os dias ao fim da tarde, o quase todo o dia durante o fim-de-semana, temos uma espécie de Feira da Ladra, onde qualquer um pode vender objectos usados em cima de uma toalha. Ali encontramos um pouco de tudo, desde sapatos a malas usadas, vitrolas, estátuas, moedas, sapecas, facas de ponta e mola, mil e uma coisas. E tudo absolutamente negociável. É também recomendável perder-se pelas ruas apensas, como o Beco da Ostra, a Travessa dos Ovos ou o Pátio da Eterna Felicidade, tudo razões para uma visita mais demorada. Quem não conhece a Rua dos Ervanários e as suas vizinhanças, não conhece Macau.

Contas complicadas


O azar parece estar mesmo a perseguir o Sporting. Os leões empataram ontem em Alvalade a uma bola com o Genk, mas os belgas apenas conseguiram empatar nos descontos. Wolfswinkel apontou o golo do Sporting aos 64 minutos quando estavam já reduzidos a dez por expulsão de Schaars, e fez um manguito aos adeptos da casa. Se o avançado holandês aqueceu os ânimos, Glymor Plet gelou o estádio com o empate, obtido já além dos 90. O Sporting permanece no último lugar do Grupo G da Liga Europa, precisa de vencer os dois jogos que faltam e esperar que o Videoton não vença o Basel.


Em maus lençois está também o Marítimo, que perdeu por 0-1 em Bordéus, apesar da boa exibição. Os insulares estão em pior situação que o Sporting no Grupo D. Está obrigado a vencer em Newcastle na próxima ronda e ainda tem que esperar que o Club Brugges vença o Bordeaux, para continuar a sonhar com a segunda fase.


A Académica acabou por protagonizar o momento heróico da noite, ao bater em Coimbra o Atlético Madrid, detentor do troféu, por duas bolas a zero, com dois golos de Wilson Eduardo. Apesar da vitória - a primeira de equipas portuguesas na prova - os estudantes não dependem de si mesmos: precisam de vencer os restantes dois jogos e esperar que o Plzen não vença o Altético na última jornada. Contas complicadas para as equipas portuguesas.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Legalizar as drogas,e já!


O combate à droga em Macau continua a ser uma causa perdida. Estão registados menos toxicodependentes (e quantos estão presos?), mas o responsável da Comissão de Luta contra a Droga diz que "existem cada vez mais jovens a consumir em casa". O consumo de metanfetamina (vulgo "ice") entre os jovens atingiu os 42%, e o de ketamina 48%. Isto vale por dizer que há menos dependentes, mas isto não significa que o consumo tenha diminuído. Consome-se mais, mas às escondidas. Isto quer dizer também que se vende mais. E em mais sítios. Há mesmo quem cozinhe "ice" em casa, e para isso basta ter acesso a ingredientes tão básicos como Panadol, pilhas, óleo de travões (!) e fertilizante (!!!). Deve ser super-saudável. Existe ainda um risco de explosão cozinhando os ingredientes.

Parece que os métodos dissuasivos também não têm dado resultado. A rigidez da lei ou o aumento de penas também não. É impossível controlar toda a gente que vai todos os dias comprar drogas sintéticas em Zhuhai, e no fundo isto trata-se de uma batalha perdida. É possível deter um pindérico qualquer que vende ecstasy ou cocaína numa discoteca, ou cannabis à porta de uma escola, mas não há maneira de apanhar o indivíduo que lhe vendeu essas substâncias. O tal pindérico não tem um laboratório em casa, ou uma plantação de cannabis ou coca no quintal. Mandar pequenos traficantes ou consumidores para a prisão também não os reabilita; torna-os marginais. Um consumidor de drogas recreativas não é em norma um marginal. Muitos têm empregos, são indivíduos funcionais e uma pena de prisão transforma-os em cadastrados marginalizados da sociedade, e só os leva a encarrilhar por uma vida de crime depois disso.

Este é um problema que vai além do espaço reduzido de Macau. É um problema mundial. Para muitos as drogas substituem aquilo que a sociedade é suposto providenciar: o conforto, a estabilidade, a prosperidade e mesmo a felicidade. No outro dia no programa "5 para a meia-noite" foi convidado João Goulão, Presidente Conselho Directivo na Instituto da Droga e da Toxicodependência, em Portugal, que alertou para o recente aumento de substâncias que estavam em recessão, como a heroína. Um sinal de desespero. Falou-se ainda das ditas "drogas legais", as tais que são vendidas nas "smart shops". A necessidade de contornar a lei nestes casos só se pode justificar pela maior procura de estupefacientes, pela necessidade de inebriação e de fuga. Isto são seres humanos de que estamos a falar, e não de criminosos ou marginais.

E qual a solução para reverter esta batalha a favor de quem sofre e contra quem lucra com a desgraça alheia? Legalizar todas as drogas. Isso mesmo, todas. O leitor vai pensar agora que perdi o juízo, mas esta é uma solução que deu frutos a outros níveis em alguns países. Atentemos ao exemplo da Holanda. Quem já lá foi sabe que pode adquirir substâncias de forma completamente legal por 9 ou 10 euros. Substâncias essas que noutros países onde são ilegais são compradas no mercado negro por 500 ou 1000 patacas, pela mesma quantidade e sem a mesma qualidade. O farmacêutico maroto que produz ecstasy ao custo de uma ou duas patacas e depois vende cada comprimido a 100 ou 200 é recompensado pela sua desonestidade. E para quem vai essa diferença? Não se pense que vai para orfanatos ou para a pesquisa do combate contra o cancro. Vai para o bolso de traficantes, empresários desonestos e políticos corruptos. E depois é convertida muitas vezes em mansões, carros e amantes de luxo, barcos de recreio e contas bancárias chorudas em paraísos fiscais. E estes vão cantando e rindo, e ninguém os apanha.

Legalizando as drogas o dinheiro reverte para o estado que o pode assim investir em programas de prevenção e combate à toxicodependência, que se pagam a si próprios sem prejuízo para o cidadão comum em forma de impostos, e ainda arrecadar receita que actualmente existe apenas num mercado paralelo, e resultando em lucros criminosos para alguns. Não se pense que legalizando as drogas acaba-se com a prevenção e o tratamento, nem que se perdem empregos nessa área. Os psicólogos, assistentes sociais e afins que dependem dos toxicodependentes para viver não vão ficar sem emprego. O tratamento fica muito mais acessível, uma vez que é muito mais fácil identificar os consumidores, e tratá-los sem prejuízo para o sistema e para a sociedade. É no fundo o que acontece actualmente com o alcoolismo ou o tabagismo. E ninguém vai preso por beber ou por fumar, e estes produtos igualmente aditivos e completamente legais estão ao alcance de qualquer maior de 18 anos (e às vezes menos). Isto significa ainda uma diminuição da incidência de doenças contagiosas como o HIV ou a Hepatite B e C, uma vez que num ambiente legalizado e controlado, deixa de existir partilha de seringas e toda essa promiscuidade.

Mas estará o leitor a pensar: "Legalizar todas as drogas? Mesmo as pesadas?" E porque não? Por "pesadas" entendem-se a heroína e a cocaína por exemplo. A legalização seria também a garantia de um produto de qualidade, em vez das drogas misturadas com vidro partido, pó de talco, bicarbonato de soda, cianeto e sabe-se lá o que mais, que tantas vezes causam a morte do consumidor, mesmo que acidental. Como disse João Goulão, "a droga sozinha não faz mal a ninguém". É uma questão de educação e prevenção, não uma questão de "crime e castigo". São mais os casos de morte por consumo de drogas adulteradas do que o consumo por drogas em elevado estado de pureza. Além disso, qualquer maior de idade é responsável pelos seus actos, e se isto inclui "destruir a sua saúde" (um conceito muito subjectivo, mas já lá vamos), isso é lá consigo, e ninguém tem a autoridade para interferir. Aconselhar e orientar sim, a quem de direito, mas de interferir, nunca.

Mas a heroína e outros opiácios são adictivos e viciantes, dirào alguns. E o álcool? A droga socialmente aceite? À semelhança do álcool, que é acessível a qualquer um, o acesso às drogas não significará automaticamente um aumento do seu consumo. Assim como existe muita gente que não bebe por saber que é prejuicial à saúde, existirão outros que não consumirão heroína, pela mesma razão. Um adulto pode entrar num supermercado e adquirir dez garrafas de whiskey e apanhar uma bezana de morte, sem que ninguém chame a polícia ou o oriente para uma cura de desintoxicação. E não me digam que é diferente. Os alcoolicos são também disfuncionais e improdutivos, impotentes, desgraçados que vomitam na rua e fazem figuras tristes, que não fazem mais que beber o dia todo. Que diferença existe entre estes e os toxicodependentes? Só porque a droga "é feia"? E menos aceite socialmente? Alguns discordarão de mim apenas por ingenuidade. Outros porque legalizar a droga seria perder um negócio milionário. De que lado você está?

Benfica ganha mas perde, Braga perde mas ganha


Ontem foi dia de Benfica e Braga entrarem em acção na Liga dos Campeões. No grupo G o Benfica bateu o Spartak de Moscovo por duas bolas a zero, na Luz, com dois golos de Oscar Cardozo, que ainda falhou um penalty, mas ficou mais longe da qualificação. Isto porque o Celtic bateu o Barcelona na Escócia por 2-1, e os encarnados vêem-se quase obrigados a vencer os restantes dois jogos - que incluêm uma deslocação ao Camp Nou, para não dependerem de uma eventual vitória do Spartak em Glasgow. Contas complicadas para o Benfica.


O Braga voltou a perder para o Manchester United por 1-3 no Estádio AXA, depois de ter estado novamente em vantagem até 10 minutos do fim, mas depende apenas de si para seguir em frente. Os bracarenses são últimos do grupo com 3 pontos, mas estão apenas a um ponto do Cluj e do Galatasaray, pelo que 9 pontos serão mais que suficientes para garantir a passagem. Os bracarenses jogam dia 21 em Cluj-Napoca, na Roménia, e só a vitória interessa. O Manchester United já é o virtual vencedor do Grupo, e a única equipa da Champions que conta todos os jogos por vitórias. Curiosamente os ingleses tê mais pontos (12) que todos os seus adversários juntos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Toca a assinar


Aí está a petição "Por um renda justa", em inglês "For Fair Rent", ou ainda em chinês 爭取合理之租金調整措施, que conta apenas com menos de 800 assinaturas. É uma pena esta fraca adesão, pois é preciso fazer chegar a quem de direito o nosso descontentamento por uma situação lastimável. Como é sabido a especulação imobiliária tomou conta de Macau, e quem depende de uma renda para ter um tecto onde viver encontra situções como rendas que são o dobro de outros apartamentos no mesmo edifício, ou de aumentos anuais que por vezes chegam aos 100%. Mesmo quem é proprietário devia assinar, pois o que está em causa é a qualidade de vida da população, que é um assunto que a todos diz respeito. Pode assinar a petição aqui. Do que está à espera?

Four more years!


Barack Obama foi reeleito presidente dos estados Unidos, conseguindo mais de 300 votos do colégio eleitoral, quando eram necessários apenas 270. Tal como se preia, o vencedor no estado do Ohio foi o vencedor final, e a única surpresa foi talvez a vitória de Romney no estado do Massachusets. Mais quatro ans de Obama, portanto, e só me deixa triste que os americanos tenham considerado eleger mais uma espécie de Bush, esse tal Romney, e que tenh existido "um empate" até ao último dia. O mundo civilizado respira de alívio.

Porto segue em frente na Champions


O FC Porto qualificou-se para o oitavos-de-final da Liga dos Campeões ao empatar ontem à noite em Kiev, num encontro sem golos. Os dragões têm seis pontos de vantagem sobre os ucranianos e com vantagem no confronto directo, quando faltam apenas duas rondas para o fim da fase de grupos. O Paris SG deu também um passo importante rumo ao apuramento, ao golear os croatas do Dinamo Zagreb por 4-0 no Parque dos Príncipes. Basta aos franceses um empate em Kiev na próxima ronda para garantir pelo menos o segundo lugar do grupo A.

Noutros grupos destaque para os espanhóis do Málaga, no Grupo C, que na sua primeira participação na prova estão praticamente qualificados, e lideram com mais cinco pontos que o AC Milan. Destaque pela negativa para o Manchester City, a tal equipa que custou 200 milhões de euros, e ocupa o último lugar do Grupo D com dois pontos em quatro jogos. Os ingleses precisam de vencer os dois jogos que faltam e dependem ainda de uma conjugação bizarra de resultados para seguir em frente. Ficam imagens do jogo de manchester que terminou com um empate a dois golos entre os da casa e os holandeses do Ajax.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

De volta à vaca fria


1) Depois de um fim-de-semana prolongado, nada como passar uma vista pelos jornais e restante imprensa, e regressar a esse doce veneno que é a actualidade de Macau. Uma notícia que me chamou a atenção foi a definição de "classe média" pelo Gabinete para s estudos das Políticas, dirigido por Chui Sai Peng, primo do nosso chefe (ora, ora). Segundo este gabinete é da classe média "quem ganha entre 12 mil e 78 mil patacas mensais". Assim, sem mais nem menos. Isto quer dizer que quem ganha 12 mil rufas por mês está incluído no mesmo estrato social de quem ganha mais de 50 mil. Um absoluto disparate. Chega mesmo a existir uma diferença significativa entre quem ganha 12 e 20 mil. Quem ganha vinte mil paga as suas contas e ainda tem os 12 mil que o outro desgraçado precisa de gerir o mês inteiro para gastar como muito bem entender. Isto significa que existe "classe média" que vive num T2 num prédio de 30 anos na Barra, e outra "classe média" que vive na Penha ou no Ocean Gardens. Esta discrepância parece até uma anedota. Parece a história do indivíduo que marca uma consulta e dizem-lhe para aparecer por lá "por volta das duas...oito da tarde, mais coisa menos coisa". Ou daquele que vai comprar "dois ou vinte quilos de batatas". Ou como dizer que o famigerado Metro Ligeiro estará pronto "em 2015 ou 2040, por essa altura". Devem ser muito inteligentes, os senhores deste gabinete.

2) Macau, ou melhor o empresário da restauração Chan Chak Mo e os seus amiguinhos (da classe média?) querem criar um mercado nocturno em Macau. Uma ideia divertida e interessante, acho eu. A primeira sugestão para o local foi o Lago Sai Van, onde chegou a existir alguma animação em forma de bares, mas sem resultado. Chegou mesmo a existir ali um bazar aos fins-de-semana, outra ideia que foi abandonada. Pesno que aquela área seria ideal, uma fez que fica perto do mar, e beneficiaria de alguma animação além da única altura do ano em que vão lá mais de dez pessoas por noite: durante o Festivalde Fogo de Artifício, quando os indígenas vã o lá olhar para o céu de boca aberta e gritar "uuuaaahhh....". Mas claro que os residentes da Praia Grande estão contra. Como em todo o resto do que se passa em Macau, eles até gostavam que existisse um mercado nocturno e tal, mas desde que seja longe da sua porta. Agora pensa-se na Praça Ferreira do Amaral, em frente ao Hotel Lisboa, onde passam mais autocarros e não sei o quê. Pensando bem, a ideia de um mercado nocturno, que é um verdadeiro sucesso noutras cidades asiáticas, deverá ser um fiasco em Macau. Das duas uma: ou acaba por ser mais um entreposto de chau-min e bolas de carne e peixe a nadar em caril, ou consegue uma grande adesão durante os primeiros dias e depois fica completamente às moscas, como a Doca dos Pescadores.

3) Virando a bússola mais a ocidente, a chanceler Angela Merkel (zieg heil, mein führer!) pede mais cinco anos de austeridade para os países da zona euro que se portarammal. E isto inclui Portugal, obviamente. Lá se vai a esperança da retoma antes dos próximos jogos Olímpicos. Mas epá, estes gajos alemães são dotados de um pragmatismo sem limites. O Deustche Bank, a maior instituição bancária alemã, teve perdas de 40%, e basta pegar na calculadora e despedir 2000 funcionários. Assim, pim-pam-pum, é quanto custa 40% de prejuízo: 2000 empregos. Os alemães até devem achar isto normal, e os coitados que ficaram sem emprego se calhar encolheram apenas os ombros, arrumaram a tralha na caixinha e foram tentar a sorte noutro lado. Não que isto signifique que os seus executivos vão meter menos dinheiro ao bolso. Vão meter a diferença dos salários que pagavam a estes gajos que vão agora para o olho da rua. São assim as regras do capitalismo. E não é esse o sistema do mercado livre a que tantos tecem loas?

O peso da camisola


O Sporting vai de mal a pior. Ontem os leões foram derrotados em Setúbal por duas bolas auma na estreia do técnico belga Frank Vercauteren, num jogo em que não evidenciaram uma atitude muito diferentee dos últimos jogos. É certo que faltou uma pontinha de sorte ao Sporting, mas os verde e brancos ficaram longe de justificar qualquer outro resultado que não a derrota. Esta foi a sétima partida sem ganhar, a última vitória foi a 24 de Setembro e o Sporting ocupa o 13º lugar da Liga, apenas um ponto acima da linha de água e com mais dois pontos que o lanterna-vermelha, o Nacional. Parece que começam a pesar, estas camisolas.

Videorama


Primeiro este cão tão "kido", de seu nome Jackson, que sabe a diferença entre tomar um banho"(que ele odeia, não fosse isto um cão), e "ir à rua", que é uma ideia quelhe agreada, naturalmente.


O furacão Sandy, que assolou a costa Leste dos Estados Unidos na semana passada deu para de tudo um pouco, desde uma modelo brasileira que posou entre os destroços, até este indivíduo que quis reclamar os seus 15 minutos de fama saíndo à rua de roupa interior e com uma cabeça de cavalo.


As eleições na América são amanhã, mas para esta menina de quatro anos bem podiam ter sido ontem. Talvez cansada da campanha que se clahar rouba tempo televisivo aos seus desenhos animados, a pequena diz-se cansada de "Bronco Bamma (lol) e Mitt Romney". Nós também, querida. Mas vá lá, amanhã já passa.


E finalmente, sabe como interessar os seus filhos em música clássica? Fácil, é só pegar nos temas pop e rock da moda e juntar-lhes a música de Beethoven, Verdi oU Mozart. Bem, na verdade não é assim tão fácil...

Espero que tenham gostado dos vídeos, e tenham uma óptima semana!

sábado, 3 de novembro de 2012

San Miu rima com a ...que pariu


Festa num Sábado à noite em casa, quem nunca fez? Não faltam os petiscos, a boa música - sempre uma questão de gosto - o vodka, o gelo....mas domage, faltam os Red Bulls para misturar o tal vodka e o gelo para dar aquele speed sem que ninguém caia para o lado e para que a orgia aconteça. Os leitores sabem bem do que falo. E o que faço? Faltavam 15 minutos para a meia-noite, e decido ir a correr ao supermercado San Miu mais próximo de casa, na Rua dos Mercadores. Quando lá chego são 11:52, e o tal supermercado fecha às 12:00, pelo menos em teoria. Mas o que lá encontro? As escadas rolantes paradas, o portão fechado ao cadeado. Tento as escadas, mas no topo está um palerma qualquer que se auto-intitula de "segurança" que me diz que não posso entrar. Insisto que ainda não é meia-noite, e que o spuermercado devia receber-me, enfim, debalde. O gajo mantinha a palma da mão estendida e erecta, com uma autoridadezinha de merda, reiterando que eu não podia entrar, e pronto, é isto que se chama "profissionalismo". Eu sou funcionário público e o meu serviço fecha às 18:00. Se alguém chegar às 17:59 com resmas de trabalho, temos que efectuá-lo, nem que isso signifique ficar no serviço até à noitinha. E ainda falam mal dos funcionários públicos. Conclusão, tive que me deslocar ao Veng Kei da Rua do Campo para comprar as porras dos Red Bulls, sem os quais a festa nunca se faria. San Miu rima com a puta que os pariu!

A água (um poema de Bocage)


"A Água"

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ich bin ein macaense


Fotografia: Crónicas macaenses.

Artigo publicado na edição do Hoje Macau de 01/11/2012.

Decorreu no passado fim-de-semana um colóquio organizado pela Associação dos Macaenses (ADM) subordinado ao tema da identidade macaense: “Um olhar sobre a comunidade”; o que é o macaense? Qual o lugar do macaense hoje, na política, na economia, na sociedade de Macau? É interessante como Macau deve ser o único local do mundo onde se dicute o lugar…do macaense. Passo a comparação descabida, mas seria como debater o lugar dos portugueses em Portugal, ou o lugar dos americanos na América. Mas como sempre, Macau é um local cheio deste tipo de vicissitudes, ou como se diz no linguajar local, “Macau sã assi”. O colóquio foi notícia, excedeu expectativas, mas ao mesmo tempo ficou a saber a pouco. Pelo menos para mim. Interessa-me este tipo de coisas, temas sobre Macau, sobre a preservação desta cidade maravilhosa inaugurada há séculos, da sua cultura, das suas tradições. Não me interessa que Macau seja, como é para muitos, um local para “fazer dinheiro”. E depois partir, virar-lhe as costas, como se de uma amante agredida e envelhecida se tratasse.
Em primeiro lugar a adesão poderia ter sido maior, não em número, mas em tipo. Os participantes do colóquio foram na sua maioria membros do fórum “Conversas entre a malta” (vulgo, “a malta”), do Facebook, um grupo que alia o amor ao amadorismo, a paixão e a descontração e que esmiuça temas correntes da RAEM de hoje, e os próprios membros da ADM, organizadora do colóquio. Faltou ali um grosso da comunidade macaense, dos “filhos da terra”, que provavelmente tinham mais que fazer num fim-de-semana do que participar num debate que talvez muitos consideram – erroneamente – ser “apenas falatório”. Tinham que passar tempo com a família, tinham que ajudar os filhos com os trabalhos de casa da escola chinesa, enfim, são os “adaptados à nova realidade” a quem este tipo de discussão não interessa muito. E é pena. Não há nada mais triste que renegar o próprio passado, as origens. Talvez isto seja efeito de algum elitismo que é comum neste tipo de eventos. Quando fala a comunidade macaense, falam “sempre os mesmos”. Não por culpa própria, certamente, uma vez que todos têm o direito de participar. O que existe mesmo é desinteresse, um leve encolher de ombros. E enquanto isso a terra que os viu nascer, onde cresceram e que tanto amam vai desaparecendo e dando lugar a um misto de concreto inconcreto, edifícios obtusos e o mais profundo desprezo pela História e pelas tradições. Com o fim anunciado do restaurante Riquexó, por exemplo, fica mais fácil encontrar a riquíssima culinária macaense nas casas de Macau no Canadá, Brasil ou Austrália. Pelo menos a diáspora vai cuidando dessa sensibilidade, dessa coisa do ser macaense.
E faltaram os portugueses. Com a excepção de alguma imprensa, alguns académicos e uma mão cheia de carolas, incluíndo eu próprio, não se viram “reinóis” – vulgo portugueses originários de Portugal – no colóquio. Apesar de este ter sido realizado inteiramente na língua de Camões. Este era um debate que encheria o Grande Auditório do Centro Cultural, pelo menos. Era também altura dos portugueses de origem, alguns deles aqui há décadas, interessarem-se pelo futuro desta terra que os acolheu, onde muitos deles viram os filhos e os netos nascerem. Chega de continuar a pensar a prazo, e achar que isto é uma coisa “deles”, da “tribo dos macaenses”. É altura de beber mais da Fonte do Lilau e abanar menos a árvore das patacas, arregaçar as mangas e tratar do que interessa realmente.
Isto do “ser macaense” tem muito que se lhe diga. Em termos leigos, um macaense seria um indivíduo nascido em Macau, mestiço de portugueses e chineses. Balelas. A teoria da consanguinidade é perfeitamente descartável. Há macaenses de famílias antigas e respeitáveis que não têm sangue português. O macaense é no fundo o produto de uma louca aventura onde participaram navegadores, pescadores, tancareiras, piratas, aventureiros, goeses (os chamados “canarins”, macaenses de origem indiana), missionários, condes e barões, todo o tipo de burgueses e pelintras. É difícil ir buscar a verdadeira origem do macaense. Séculos antes da já por si vetusta América, este pequeno pedaço de terra à beira-China plantado era um “melting pot” por excelência.
A questão da origem é também bastante discutível .Claro que ajuda bastante ter nascido em Macau para que se seja considerado macaense, mas será essa uma exigência? Eu próprio nasci em Portugal, passei a maior parte da minha vida em Macau e não tenho praticamente nada que me ligue ao meu país de origem. Em suma: sinto-me macaense. Adoptivo, por certo, mas macaense. É um estado de espírito, algo que primeiro se estranha, e depois se entranha, citando o poeta. Interessa-me o dia-a-dia desta terra, o que me rodeia, e não me interessa o que passa a milhares de quilómetros de distância. Não sou mercenário nem estou aqui a prazo. Tenho um filho macaense por inerência e não desejo integrá-lo num país como Portugal, com um futuro eternamente adiado, que nos leva mesmo a interrogar-nos se esse futuro existe mesmo. Se queremos o melhor para os nossos filhos, esse passa por onde eles se sentem melhor, e não pelo que é convencionado como sendo o “mais natural”. Passados já vinte anos de Macau, olho para o passado que me fez apaixonar por esta terra com saudade, e tenho esperança que esta nova tomada de consciência seja um primeiro passo para que se mantenha viva a chama macaense. Adaptando as palavras do presidente JFK: “Ich bin ein macaense”.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dois aniversários


O Jornal Tribuna de Macau comemora hoje a passagem do seu 30º aniversário. Tecnicamente o diário mais antigo de Macau (uma fusão entre o diário Jornal de Macau e o semanário Tribuna de Macau), uma "brainchild" do advogado Jorge Neto Valente, que trouxe de Portugal os jornalistas João Fernandes e José Rocha Dinis em 1982, para fazer oposição ao governador Almeida e Costa, odiado pela elite macaense, numa altura em que em Macau ter um jornal era "ter poder". Passado esse período conturbado da história da imprensa macaense, o JTM manteve-se, e apesar de não reunir consenso no que toca à indepensência jornalística, tendo sido mesmo apelidado de "Boletim oficial", tal era a sua anuência às decisões do poder instituído. Nunca tanta graxa se soltou em forma de letra tanto no consulado do último governador, o General Rocha Vieira, ora na actual administração dos mandarins. Mas pronto, cada um sabe de si, e parabéns ao JTM, e que viva muito e longo tempo. É um jornal útil e informativo, importante no panorama de Macau, e os seus responsáveis estão de parabéns pela quarta década em que entram a partir de hoje. Apenas isso.

De parabéns está também o grupo do Facebook "Conversas Entre a Malta" (CEAM), formado por um grupo de convivas macaenses que no dia 1 de Novembro do ano passado resolveu, depois de uma jantarada entre amigos, formar um fórum em que se debatem temas sobre Macau. Erroneamente designado por "blogue", o grupo tem mais de 800 seguidores e vai produzindo comentários sobre a actualidade do território a um ritmo diário. O grupo tem dado que falar na imprensa local, e foi um dos grandes catalizadores do último debate sobre a identidade macaense, realizado no fim-de-semana passado no auditório da Escola Portuguesa. Para eles também uma longa vida cheia de sucesso. O que faz falta é animar a malta, e que se fale, fale e fale muito sobre o que se passa nesta terra que é de todos nós.

Hóquei nove em dezasseis


A selecção de hóquei em patins de Macau sagrou-se novemente campeã asiática, pela quinta vez consecutiva, e pela nona vez em 16 edições. É um domínio inquestionável. A equipa orientada por Alberto Lisboa teve apenas a aoposição da Índia e de Taiwan (e disputou um jogo com a Asutrália, equipa convidada), e foi vencedora em todas as partidas. Isto vale o que vale, mas trocado em miúdos, esta é a única modalidade em que Macau é cronicamente campeão no panorama asiáitco. Contudo é curioso que as selecções de futebol (uma desgraça), wushu (quem mal chega a ser um desporto), basquetebol (ahahahah) ou outras em que Macau sai goleado e humilhado usufruem de melhores condições que o hóquei em patins, o que só nos leva a pensar que existe algum tipo de birra com a patinagem. Talvez porque para "patinagem" já chegou o que chegou em termos de orçamentos para as infra-estruturas desportivas de que a RAEM usufrui hoje. Talvez se isto fosse "hóquei em derrapagem orçamental" fosse mais respeitado e apoiado. Macau seria um dos sérios candidatos ao título mundial. Mesmo assim, a selecção de hóquei em patins vai voltar a representar a RAEM no mundial "B" da modalidade no Uruguai no final do mês, com uma secreta esperança de subir ao mundial "A". Mas da maneira que as coisas estão, a única ambição é uma "participação digna". Pelo menos haja alguém que tenha dignidade, no meio de tanta inveja e desprezo.

Michel, my belle


As minhas memórias de infância andam destroçadas por estes dias. Fiquei a saber que Michel da Costa, ou simplesmente Michel, foi detido por suspeitas de evasão fiscal e branqueamento de capitais. Um mandato de captura europeu emitido na França levou o Michel aos calabouços, mas este recusa-se a ser extraditado, pelo que por enquanto vai batendo com os queixos na prisão em Portugal. Michel, para quem ainda se lembra, era um chefe de cozinha muito popular na TV portuguesa nos anos 80. Apresentou juntamente ccom António Sala e Carlos Paião o programa de entretenimento dos Sábados à noite "O Foguete", e mantinha alguns programas de culinária. Foi o primeiro chefe português a receber uma estrela da Michelin (um insulto ao imbatível chefe Silva), e na verdade andava desaparecido há algum tempo. Precisei de um nanosegundo para me lembrar quem era o Michel. Pois é assim mesmo, o homem por detrás da imagem é provavelmente um corrupto, um pedófilo ou um facínora. Foi assim com Carlos Cruz e com Paco Bandeira, outros dos icones meus e do querido leitor. Ídolos com pés de barro...